Quem passou da infância à vida
adulta nas décadas de 1980 e 1990 acostumou-se ao padrão. Chico Buarque, Caetano
Veloso e Gilberto Gil nunca perdiam. Alinhados às boas causas, eram
reputados como reserva de sabedoria de nossa vida pública corrompida.
Tratava-se, obviamente, de uma fábula.
O primeiro compromisso desses artistas sempre foi com seus legítimos
interesses profissionais e empresariais. A qualidade intrínseca de suas
intervenções na política e no debate de ideias jamais se aproximou do seu
desempenho como letristas.
A influência que exerciam nos palanques
nacionais indicava a rarefação de nossa esfera pública. A conversão de
capital cultural em capital político não é certa nem imediata nas democracias
consolidadas, que separam muito bem esses campos.
Celebre-se, portanto, como sinal de
amadurecimento do país a derrota esmagadora do (ex-)grupo Procure Saber,
encabeçado pelo trio de ouro da MPB, no debate das biografias não
autorizadas.
A causa era decerto ingrata. O grupo
propunha-se a convencer a opinião pública de que biografias só poderiam circular
mediante autorização do biografado ou de seus familiares. Não há meio de
aceitar essa cláusula sem ferir a liberdade de expressão, consagrada na Carta de
88.
Sim, a liberdade de expressão é também a
liberdade de injuriar, caluniar e difamar. Para esses males, a lei determina
remédios. Mas é sobretudo a liberdade de criticar e contar histórias e versões
menos abonadoras sobre quem quer que seja. E de oferecê-las ao crivo do debate
público.
Habituados a despertar solidariedade automática
nos círculos intelectuais e políticos, Chico, Caetano e Gil talvez pensassem que
iriam levar mais esta. O tempo passou na janela, mas eles não notaram.
O Brasil começa a descobrir que, como
políticos e intelectuais, eles são apenas bons compositores e
empresários.
Vinicius Mota
Folha de São Paulo

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