quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


Briga de marido e mulher.

 Um casal vinha por uma estrada do interior, sem dizer
  uma palavra. Uma discussão anterior havia levado a uma
 briga, e nenhum dos dois queria dar o braço a torcer.
Ao passarem por uma fazenda em que havia mulas e
 porcos, o marido perguntou, sarcástico:
- Parentes seus?
 - Sim, respondeu ela. Cunhados e sogra
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Discurso de Deus a Eva

Minha cara,
 
 
Eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz.
 
Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre.
 
Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora.
 
Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensará que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor!
 
Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.
 
Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito.
 
Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem é um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.
 
Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimol Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!
 
Millôr Fernandes.
 
Texto extraído do livro "Esta é a verdadeira história do Paraíso", Livraria Francisco Alves Editora - Rio de Janeiro, 1972.
 

Quantas vezes o mundo vai acabar?

Penso que só nós, humanos, podemos contar uma história que começa assim: “Foi logo depois que o mundo acabou. As águas baixaram, a enorme arca encalhou no flanco de uma planície e a vida rotineira recomeçou com suas esperanças de sempre, inclusive a de poder, um dia, terminar...”
 
A arca de Noé não era um Titanic, embora o Titanic tivesse uma inconfundível inspiração mitológica. Mas o Titanic, aquele navio inafundável, fabricado com a certeza da ciência, submergiu. Enquanto a Arca — construída na base da fé — não soçobrou.
 
Por outro lado, o Titanic levava milionários num passeio luxuoso e imigrantes pobres que iam “fazer a América” naqueles velhos tempos que ela ainda podia ser feita.
 
É claro que ambos os navios tinham um povo escolhido que sobreviveria. No caso do Titanic, testemunhamos a sobrevivência habitual dos milionários e dos espertos. Os de terceira classe morreram tão escandalosamente que as regras foram drasticamente modificadas. O Titanic e a Arca de Noé representam, cada qual a seu modo, um fim de mundo.
 
A Arca, porém, como um instrumento de salvação, não podia afundar. Ela corrigia erros. Foi uma advertência e um recall do Criador para a humanidade. Os filhos de Adão e Eva, híbridos de barro, carne, osso, sopro divino e bestialidade não iam dar certo.
 
Para quem vive querendo começar a vida; para quem tem arrependimentos intransponíveis e gostaria de zerar sua existência, a passagem bíblica oferece um conforto: até mesmo o Criador — onisciente, onipotente e onipresente — teve seus momentos de dúvida. Valeu a pena criar um intermediário, um ser entre os animais e os anjos?
 
Não sabemos. O que se conhece, entretanto, é que sempre há um grupo que se imagina escolhido e, volta e meia, diz que o mundo vai acabar. Os eleitos são salvos por alguma Arca de Noé ou foguete intergaláctico como nos velhos e esquecidos contos de Isaac Asimov e de Ray Bradbury.
 
São os escolhidos que dão testemunho de como o mundo acabou e — graças a um profeta — foi refeito na esperança de um aperfeiçoamento moral que custa e, às vezes, chega.
 
No fundo, como diz a Dra. Camélia, uma psicanalista admiradora de antropologia, esses mitos não falam apenas do fim do mundo, falam — isso sim — da imortalidade dos eleitos. Daqueles que estão além do mundo porque seguiram regras morais mais fortes que o próprio mundo — esse planeta que, no fundo, é frágil e terminal se não segue algum mandamento.
 
Vi o mundo acabar muitas vezes, disse o professor. Primeiro pela água, depois pelo fogo, depois pelas bombas atômicas do Dr. Strangelove. De 1000 passarás, mas a 2000 não chegarás! Estávamos em 1948 e faltava tanto para o 2000 que eu me perdi. Afinal, havia muitas coisas mais importantes para pensar e fazer do que me preparar para o fim do mundo.
 
E, no entanto, essa década de 2000 foi clara na demonstração de que eu era mais um náufrago, a ser salvo pela paciência e pela generosa ternura humana.
 
Por que será que, mesmo nestes tempos de utilitarismo racional e de realismo capitalista, tanta gente ainda acredita no fim do mundo?
 
Porque eles vão realizar uma façanha e tanto: vão sobreviver ao planeta e sentir aquela onipotência apocalítica típica dos milenaristas.
 
Mas, tirando as fantasias, o mito do fim do mundo revela também uma insatisfação permanente com a vida, tal como a experimentamos: com suas imperfeições, traições, picuinhas, faltas e covardias: com a impossibilidade de seguir os ideais.
 
Quem sabe, diz esse mito de fim de mundo, um dia tudo isso vai mudar e a vida neste mundo será justa e perfeita promovendo, enfim, o encontro da teoria com a prática?
 
No fundo, o ocidente progressista e capitalista que acumula cada vez mais dinheiro sempre foi tributário soluções finais para a vida.
 
Outros povos se satisfazem em aceitar o que reconhecem como parte e parcela de contradições impossíveis de escapar quando se vive em coletividade. Mas nós, crentes no desenvolvimento da espécie e nos estágios evolutivos, tendemos a confundir progresso técnico com avanço moral e pensamos que nossas bombas atômicas são superiores aos arcos e flechas dos nossos irmãos selvagens.
 
Neste sentido, o mito do fim do mundo seria também uma advertência ao nosso estilo de vida fundado num consumo e numa sofreguidão inesgotáveis. Um modo de dispor do planeta e dos seus recursos que impedem o seu reconhecimento humano.
 
Essa, penso, seria o centro dessa última onda de fim de mundo que acaba de passar. Um retorno apocalítico da totalidade num universo marcado por uma cosmologia brutalmente individualista.
 
Mal o professor pronunciou essas palavras e logo um aluno levantou a mão e perguntou: mas isso é mito ou realidade? Afinal, não estamos mesmo chegando ao final de um estilo de vida egoísta no qual pensamos cada qual em nós mesmos e todos apenas no nosso país?
 
Roberto Da Matta é antropólogo
O Globo

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


Vinicius de Moraes – Chico Buarque
Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio.
 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Tarde de Cinema


Tarde de cinema com a família. Fomos ao Cine Guedes na cidade de Patos-PB vê o filme "A Origem dos Guardiões".
 
As crianças do mundo inteiro são protegidas por um seleto grupo de guardiões: Papai Noel, Fada do Dente, Coelho da Páscoa e Sandman. São eles que garantem a inocência e as lendas infantis. Mas um espírito maligno, o Breu, pretende transformar todos os sonhos em pesadelo, despertando medo em todas as crianças. Para combater este adversário poderoso, a Lua designa um novo guardião para ajudar o grupo: Jack Frost, um garotinho invisível que controla o inverno. Sem conhecer sua própria vocação de guardião, ele embarca em uma aventura na qual vai descobrir tanto sobre as crianças quanto sobre seu próprio passado.
Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.
 

A banana e a vida

A história é muito antiga, mas não menos curiosa. Algumas tribos africanas utilizam um engenhoso método para capturar macacos. Como estes são muito espertos e vivem saltando nos galhos mais altos das árvores, os nativos desenvolveram o seguinte sistema:

1) Pegam uma cumbuca de boca estreita e colocam dentro dela uma banana.

2) Em seguida, amarram-na ao tronco de uma árvore freqüentada por macacos, afastam-se e esperam.

3) Após isso, um macaco curioso desce, olha dentro da cumbuca e vê a banana.

4) Enfia sua mão, apanha a fruta, mas como a boca do recipiente é muito estreita, ele não consegue retirar a banana.

Surge um dilema: se largar a banana, sua mão sai e ele pode ir embora livremente. Caso contrário, continua preso na armadilha.

Depois de um tempo, os nativos voltam e, tranqüilamente, capturam os macacos que teimosamente se recusam a largar as bananas. O final é meio trágico, pois os macacos são capturados para servirem de alimento.

Você deve estar achando inacreditável o grau de estupidez dos macacos, não é? Afinal, basta largar a banana e ficar livre do destino de ir para a panela.

Fácil demais... O detalhe deve estar na importância exagerada que o macaco atribui à banana. Ela já está ali, na sua mão... parece ser uma insanidade largá-la.

Essa história é engraçada, porque muitas vezes fazemos exatamente como os macacos.

Você nunca conheceu alguém que está totalmente insatisfeito com o emprego, mas insiste em permanecer, mesmo sabendo que pode estar cultivando um enfarto? Ou alguém que trabalha e não está satisfeito com o que faz, e ainda assim faz apenas pelo dinheiro?

Ou casais com relacionamentos completamente deteriorados que permanecem sofrendo, sem amor e compreensão? Ou pessoas infelizes por causa de decisões antigas, que adiam um novo caminho que poderia trazer de volta a alegria de viver?

A vida é preciosa demais para trocarmos por uma banana - que, apesar de estar na nossa mão, pode levar-nos direto à panela.

O "importante é o projeto de poder..."


Nossa língua


 
Em 8 de junho de 1972, um avião norte-americano bombardeou a população de Trang Bang com napalm, durante a Guerra do Vietnã. Ali se encontrava Kim Phuc e sua família. O fotógrafo Nic Ut registrou a famosa imagem.

Na foto acima (a direita), mostra como Kim está hoje em dia. Ela mora no Canadá, e é embaixadora da Boa Vontade da UNESCO.
 
 
Pescado do face da Vanessa Spinosa
"Tem pessoas que são como vidro: duras, cortantes e sem sentimentos... Melhor deixá-las assim como estão... "quebradas."  Do que se machucar tentando consertá-las."


 

Whitney Houston


Joaquim cobra aplicação da ficha limpa no judiciário

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, enviou hoje (29) ofício aos presidentes dos tribunais brasileiros cobrando a aplicação da ficha limpa no Judiciário. O ministro encaminhou o documento na condição de presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que retomou suas atividades hoje (29), após o recesso de fim de ano.
 
A Ficha Limpa aprovada pelo CNJ deve ser aplicada em todos os tribunais, com exceção do STF, que não está sob a jurisdição do Conselho.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.
 
 

História: Campos de Concentração no Ceará

No início do século 20, no Ceará, os poderes públicos estadual e federal criaram campos de concentração para evitar que flagelados famintos fugindo do sertão semi-árido chegassem a Fortaleza.
 
“E você tem visto muito horror no campo de concentração?”, pergunta o sertanejo Vicente a Conceição, personagens do romance O Quinze, da escritora Rachel de Queiroz. Os dois conversam não sobre as prisões nazistas construídas durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, quase três décadas depois. O diálogo diz respeito aos currais erguidos no Ceará pelos governos estadual e federal para isolar os famintos da seca de 1915, considerada uma das mais trágicas de todos os tempos no Nordeste.
 
O objetivo dos campos era evitar que os retirantes alcançassem Fortaleza, trazendo “o caos, a miséria, a moléstia e a sujeira”, como informavam os boletins do poder público à época. Naquele ano, criou-se o campo de concentração (era assim mesmo que se chamava) do Alagadiço, nos arredores da capital cearense, cenário do livro de Rachel, que chegou a juntar 8 mil esfarrapados, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados.
 
A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro de 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos.
 
Segundo o historiador Marco Antônio Villa, autor de Vida e Morte no Sertão, durante a seca de 1915 teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migrantes para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semi-árido.
 
O medo das autoridades diante dos flagelados da seca tinha um antecedente. Em 1877, uma leva de cerca de 110 mil famintos saiu dos sertões e tomou as ruas de Fortaleza, assombrando os moradores que viviam a ilusão, importada de Paris, de urbanismo e civilidade. No livro A Fome, o mais consistente relato sobre o cenário de 1877 nas ruas da capital, o cientista e escritor Rodolfo Teófilo assim descreveu o que viu: “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que te afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! Faz horror! Os que têm rede, vão nela, suja, rota, como se acha; os que não têm, são amarrados de pés e mãos em um comprido pau e assim são levados para a sepultura. E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”.

Memórias do horror.
 
O ano da graça de 1915, relatado na ficção de Rachel de Queiroz, sertaneja da fazenda Não me Deixes, no município de Quixadá (CE), seria apenas o ensaio da segregação estatal dos miseráveis. Em 1932 é que o modelo de isolamento iria vingar para valer. Na “seca de quinze” – como era chamada a estiagem – ainda não existia sequer a famosa “indústria da seca”, como se convencionou chamar a ajuda do poder federal às oligarquias nordestinas – diante das ameaças de saques e violência das legiões de famintos, os grandes proprietários de terra sempre chantagearam o governo federal, principalmente a partir dos anos de 1930, alocando recursos para a região que na maioria das vezes acabavam se revertendo em benefícios das próprias elites.
 
“De longe eu sentia o cheiro de podridão, chegava a tapar as ventas. Era tão forte o fedor que é como se eu o sentisse hoje, mesmo eu estando com a memória fraquinha, fraquinha”, diz Manuel Conceição Rodrigues de Sá, 87 anos, um rapaz de 15 anos durante a seca braba de 1932. Hoje, ele mora no subúrbio de Juazeiro do Norte, no Ceará, terra do Padre Cícero, personagem que já era celebrado como santo naquele tempo, pelas levas de famintos que buscavam por sua bênção. Manuel morava, então, n o município de Serra Talhada, em Pernambuco. Trabalhava como tropeiro – tocava burros com carregamento de cachaça dos engenhos da região do Cariri, no sul do Ceará, para municípios de Pernambuco e da Paraíba. “Era num sítio ali perto do Crato, só vi uma vez de perto o campo de concentração, nunca mais tive coragem de passar junto. Pense num desmantelo! Gente apodrecendo de verdade, pareciam uns urubus quando o governo mandava comida”, afirma o ex-mascate.
 
O cearense do Cariri Miguel Arraes de Alencar, nascido em dezembro de 1917, na cidade do Araripe, governador de Pernambuco por três mandatos, guarda também lembranças do campo de concentração do Crato, onde morou sua família. “A seca braba de 32 é muito forte em minha memória. Um dia, quando ia estudar, me deparei com três homens presos. Eram flagelados do curral da concentração. Foram presos como desordeiros, só porque ficaram revoltados com as injustiças na distribuição de comida por lá”, afirmou Arraes em conversa com este repórter, em 2002. “É uma lembrança que guardo para sempre, as histórias vindas de lá eram um horror danado.”
 
Pelo campo de concentração do Crato passaram cerca de 65 mil pessoas durante aquela estiagem. Ali, o governo prometia comida, água, assistência médica e oferta de trabalho. Pouco disso, no entanto, acontecia. Não havia água tratada, nem comida para todos e muita gente morria de fome ou doença e era sepultada ali mesmo. O campo se tornou um foco de tudo o que é infecção. Em alguns dias, o número de mortes de famintos alcançava a marca de 200. Há registros de pelo menos outros cinco currais no estado do Ceará, localizados em Quixeramubim, Senador Pompeu, Cariús, Ipu, Quixadá e o último nos arredores de Fortaleza, como derradeira tentativa de evitar que os famintos convivessem com a população da capital.
 
“Eram locais para onde grande parte dos retirantes foi recolhida a fim de receber do governo comida e assistência médica. Dali não podia sair sem autorização dos inspetores do campo. Havia guardas vigiando constantemente o movimento dois concentrados. Ali ficavam retidos milhões de retirantes a morrer de fome e doenças”, diz a historiadora Kênia Rios, da PUC-SP. As estatísticas oficiais, que não conseguiam abarcar todos os alistados nos “currais”, dão conta de 73.918 “molambudos” nas seis áreas de confinamento – 6.507 em Ipu; 1.800 em Fortaleza; 4.542 em Quixeramubim; 16.221 em Senado Pompeu; 28.648 em Cariús e 16.200 no Crato, conforme uma das melhores fontes sobre o assunto, o livro Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e Poder na Seca de 1932, de Kênia Rios.
 
Um sobrevivente da segregação é Antônio Siqueira da Silva, de 90 anos, que tinha 18 anos quando foi “jogado” com a família – pai, mãe e mais 12 irmãos – no “curral dos flagelados” do Crato. A família havia mudado do município de Quebrangulo, terra do escritor Graciliano Ramos, para Juazeiro do Norte, cidade hoje emendada ao Crato, em 1930. “A gente veio por causa dos milagres do meu padim Ciço. Só se falava nas obras do “meu padim” por esse mundão todo afora. Ai meu pai pegou a penca de menino, botou em cima dos burros, e chegamos aqui em Juazeiro, pois lá nas Alagoas não tinha mais como viver que preste”, diz Silva, em depoimento para o projeto Nova Geografia da Fome, do Centro Cultural Banco do Nordeste. “Chegando aqui o meu padim nos botou lá no sítio do beato Zé Lourenço, onde tinha muita fartura. O mundo todo sem nada para comer e o beato lá dando de comer a todo mundo, até irrigação já tinha.”
 
Seguidor do padre Cícero, Lourenço (1872 – 1946), nascido na Paraíba, chegou a abrigar cerca de mil pessoas no começo dos anos de 1930. Conhecida como o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, a comunidade foi destruída e bombardeada – a primeira vez que as Forças Armadas usaram aviões para um massacre no Brasil – em 1937, por ordem do ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, durante o governo de Getúlio Vargas. O poder central, insuflado pelas autoridades cearenses, temia que o beato pudesse transformar o seu vilarejo em mais um Canudos, episódio que ainda assombrava os militares. No massacre, teriam morrido cerca de 700 pessoas. Lourenço escapou, fugindo pela Chapada do Araripe. Doente, morreria nove anos depois, em Exu (PE), município nas cercanias do Crato.
 
“O sítio do beato foi ficando cheio de gente demais, ai meu pai achou melhor a gente escapar da fome lá no “curral dos flagelados”, pois o governo prometia muita esmola por lá”, diz o sobrevivente do campo de concentração Antônio da Silva. “Mas quem disse que as esmolas chegavam? Lá perdi foi seis irmãos, de fome braba. Eu mesmo só escapei porque fugi com o resto, de madrugada, ainda lembro como se fosse hoje. Era uma catinga tão feroz, meu filho, que nem dava pra dormir direito. E os urubus em cima, querendo arrancar as tripas dos falecidos.”
 
A história das secas que castigam a população do Nordeste desde pelo menos 1877, deixou um rastro de tragédias e mortes assombroso. Nunca foi feito um levantamento a respeito dos números de nordestinos que perderam as vidas por causa da fome nestes períodos. Os levantamentos parciais, no entanto, são assustadores. Somente entre 1877 e 1913, portanto ainda sem os números da seca de 1915, o governo federal, por intermédio do IOCS estimava que 2 milhões de pessoas haviam morrido em consequência da miséria nas estiagens. Pouco mais de 100 anos depois, a equipe do livro Genocídio do Nordeste (organizado pela Comissão Pastoral da Terra e o Ibase, entre outras organizações) repetiu o desafio de contar as vítimas da seca e chegou ao número de 3,5 milhões de mortos somente no período entre os anos de 1979 e 1984.
 
 
Por Xico Sá – Design Débora Bianchi
Fonte: Aventuras na História

Minima Theologica: em memória dos mortos de Santa Maria

Os antigos já diziam: ”vivere navigare est” quer dizer, “viver é fazer uma viagem”, curta para alguns, longa para outros. Toda viagem comporta riscos, temores e esperanças. Mas o barco é sempre atraído por um porto que o espera lá no outro lado.

Parte o barco mar adentro. Os familiares e amigos da praia acenam e o acompanham. E ele vai lentamente se distanciando. No começo é bem visível. Mas na medida em que segue seu rumo parece aos olhos cada vez menor. No fim é apenas um ponto. Um pouco mais e mais um pouco desaparece no horizonte. Todos dizem: Pronto! Partiu!

Não foi tragado pelo mar. Ele está lá, embora não seja mais visível. E segue seu rumo.

O barco não foi feito para ficar ancorado e seguro na praia. Mas para navegar, enfrentar ondas, vencê-las e chegar ao destino.

Os que ficaram na praia não rezam: Senhor, livra-os das ondas perigosas, mas dê-lhe, Senhor, coragem para enfrenta-las e ser mais forte que elas.

O importante é saber que do outro lado há um porto seguro. Ele está sendo esperado. O barco está se aproximando. No começo é apenas um ponto levemente acima do mar. Na medida em que se aproxima é visto cada vez maior. E quando chega, é admirado em toda a sua dimensão.

Os do porto dizem: Pronto! Chegou! E vão ao encontro do passageiro, o abraçam e o beijam. E se alegram porque fez uma travessia feliz. Não perguntam pelos temores que teve nem pelos riscos que quase o afogaram. O importante é que chegou apesar de todas as aflições. Chegou ao porto feliz.

Assim é com todos os que morrem. O decisivo não é sob que condições partiram e saíram deste mar da vida, mas como chegaram e o fato de que finalmente chegaram. E quando chegam, caem, bem-aventurados, nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade para o abraço infinito da paz. Ele os esperava com saudades, pois são seus filhos e filhas queridos navegando fora de casa.

Tudo passou. Já não precisam mais navegar, enfrentar ondas e vencê-las. Alegram-se por estarem em casa, no Reino da vida sem fim. E assim viverão para sempre pelos séculos dos séculos.


Leonardo Boff

(Em memória dolorida e esperançosa dos jovens mortos em Santa Maria na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013).
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A vida imita a arte!

O Livro Negro da Humanidade

Um livro que vale a pena ler e ter para consulta. É o resultado de décadas de pesquisas feitas por Matthew White sobre os crimes cometidos contra populações, por guerras ou outras operações de perseguição contra grupos sociais.
 
Em mil páginas, ele apresenta 111 capítulos, um para cada guerra ou perseguição. É um livro de História de Terror que nos deixa com uma sensação de desconfiança contra nossa espécie, homo sapiens.
 
Ele começa na Pérsia e termina na última guerra civil no Congo. No total, apresenta a morte de 315 milhões de pessoas em tempos de guerra, dos quais 266 milhões foram civis.
 
Em tempos de paz, os mortos foram 141 milhões, o que eleva para 466 milhões o número total de seres humanos mortos por razões de insanidade coletiva ou por ordem de algum dirigente político ou militar. Destes dirigentes, ele informa que 68% morreram tranquilamente, de causas naturais durante seus governos ou no exílio. Os demais foram assassinados, julgados e mortos na prisão ou se suicidaram.
 
Mesmo que na maior parte dos casos possamos localizar responsáveis, em muitos momentos o terror foi apenas espontâneo pelas massas, como incentivado por dirigentes e políticos eleitos com o apoio do povo.
 
Depois de ler o livro de Matthew fica a pergunta: será possível humanizar a raça humana?
 
O Livro Negro da Humanidade, Matthew White, publicado pela Editora Crítica de Barcelona.
 
Cristovam Buarque, senador pelo PDT do Distrito Federal e ex-reitor da Universidade de Brasília, resenhará aqui, toda segunda-feira, um livro publicado no exterior.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013





A situação do Nordeste continua desoladora com a falta de chuvas. Segundo os registros, 12 milhões de cabeças de gado já foram dizimadas na região, vitimadas pela seca entre 2012 e 2013.
 
 
Recentemente, no último dia 24 de janeiro de 2013, no auditório da FUNCENE em Fortaleza, onde os institutos de metereologia do Nordeste estiveram reunidos para tratar sobre a previsão do tempo quanto a chuva para os meses de fevereiro, março e abril, se concluiu que há uma possibilidade de 45% de que as chuvas, nesse período, fiquem abaixo da média. Resultando ainda na possibilidade de 35% para chuvas na média e apenas 20% para a possibilidade de incidência de chuvas acima da média.
 
É, portanto, uma previsão de um ano difícil para o Nordeste, onde os Estados já devem realizar ações concretas no sentido de salvar o restante do rebanho.
 
Há, inclusive, em algumas regiões, o iminente perigo de falta de água para o consumo humano, sendo imperiosa a necessidade de se manter vigilância nos reservatórios hídricos no sentido de se evitar o desperdício de água com irrigação.
 
Se os dados científicos apontam para uma seca, os dados enxergados pelos profetas do povo não são diferentes. As experiências populares são desanimadoras. Da posição da casa do João de Barro para a floração das árvores, tudo leva a acreditar na ocorrência de mais uma seca no Nordeste. 
 
 
Agora é esperar por Deus já que os homens pouco se importam para a nossa região. 
 
 
Teófilo Júnior

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Quando alguém encontra seu caminho precisa ter coragem suficiente para dar passos errados. As decepções, as derrotas, o desânimo são ferramentas que Deus utiliza para mostrar a estrada.
 
 

Joe Cocker: With A Little Help From My Friends



domingo, 27 de janeiro de 2013

Não sei perder minha vida

Foto: Valeria Heine
 
Não sei qual a minha culpa mas, peço perdão.
A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não puderam ver.
Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar"ou por não ser alegre
mas coisa que se dá.
Peço perdão por não saber me dá nem a mim mesma,
para me dar desse modo a minha vida se fosse preciso
mas, peço de novo perdão
não sei perder minha vida.
 
 

Chatologia

“Chatologia” é a ciência que investiga a condição da chatice e as formas com que se estabelece, na natureza e na cultura, o sujeito portador e defensor de suas características; a saber, o chato. A chatologia estuda a origem, a estrutura, a lógica, a linguagem e os métodos, bem como os documentos, na intenção de estabelecer os parâmetros da importância social da chatice e o sentido de sua erradicação.

 

A chatologia é dividida em dois ramos, o teórico e o prático. Quanto ao primeiro, tal ciência orienta-se por duas perguntas básicas: (1) “em que consiste a chatice?”; (2) “quem é o chato?”. Quanto ao ramo prático, a ciência se orienta por responder duas outras questões: (1) “há cura para a chatice?”; (2) “como livrar-se do chato?”. No campo prático, o problema da violência relacionada ao chato tem chamado a atenção de estudiosos do mundo todo. A controvérsia acadêmica chega ao senso comum na forma de uma disputa na qual se põe em jogo se a chatice é, em si mesma, uma violência ou se a violência poderia ser usada como arma contra a chatice.

 

Estudos de antropologia da chatice têm investigado o estabelecimento do Movimento dos Chatos de Plantão. Contra ele, liminares cautelares e outras medidas judiciais têm tentado restabelecer o direito daqueles que o perderam quando da desesperadora vitória dos chatos.

 

Quanto à história da chatologia, estudos linguísticos em textos canônicos, da Bíblia aos jornais do começo deste século 21, demonstram que os chatos sempre existiram e continuarão existindo, embora a ciência que se tenha ocupado de desvendar seus mistérios tenha surgido apenas na Europa Medieval — como não poderia deixar de ser —, no contexto do cristianismo. Foi entre a Patrística e a Escolástica que o monge Philipus Azedus Scrotus escreveu um revolucionário “Tractatus Chatologicus” que dispôs as bases da chatologia que conhecemos hoje. No entanto, suas intenções metafísicas foram superadas pela chatologia epistemológica no “Elogio à Chatice” elaborado mais tarde por Clemente de Brasilis na direção de uma inovadora chatologia política e crítica. A motivação de Scrotus era atingir teologicamente o Papa Pio Dasquantus, mas alcançou proporções bem mais singelas, relativamente a uma tentativa de caracterizar a condição humana. Da época medieval à moderna, a chatologia não sobrevive sem os chatos e suas perguntas — para eles mesmos sempre essenciais — quanto a raça (“índios e outras etnias terão alma?”), gênero (“as mulheres terão alma?”) e política (“mulheres podem votar?”) e tudo o que concerne ao famoso “sexo dos anjos”. É desta época que o chato clássico que conhecemos hoje estabeleceu seu modus vivendi: ele é o dono da verdade incapaz de se colocar no lugar do outro.

 

Por fim, foi apenas a chatologia contemporânea que constitui uma evolução da chatologia hermenêutica que supera a chatologia ceticista, que nos permitiu ver o fundo moral e psíquico da chatice. Embora a chatologia moderna seja mais do que uma dogmática, e muito mais que uma retórica, seus defensores consideram que a chatice é simplesmente a verdade: sobre quem seja o chato não pairam dúvidas. A diferença fundamental, contudo, da chatologia contemporânea em relação às chatologias mais primitivas, e inclusive à moderna, é que o conceito de chatice atual constitui mais do que uma forma de paranoia em que o outro é negado. O que as pesquisas mais modernas nos fazem ver é que o chato portador da chatice é vítima de si mesmo.

 

Um estudo da psiquiatra australiana Milenna Kaphka (1999) mostra que o chato não acredita sequer em si mesmo. Por isso, seu sintoma é experimentado por todos. E ele precisa repetir-se à exaustão, impondo-se pela fala ou pela presença, falando o tempo todo de si, como se não existisse mundo, nem outras visões sobre isso que os outros chamam de mundo. Como se, no ato de dizer-se novamente, ele pudesse perfurar o outro, estrangular sua paciência, pisotear o bom senso e o senso de humor em nome de uma ideia fixa que oculta, no fundo, um ego não apenas frágil, mas em estado de putrefação. Isso explicaria porque as pessoas afastam-se do chato. É que, de certo modo, ele cheira mal. Por fim, a sensação que dá nome à chatice deriva da percepção de que algo que deveria mover-se, estagnou, de que algo que deveria crescer, permaneceu em um único platô. O chato é, por isso, o rei da platitude, como a pequena lagartixa que escorrega sem fixar-se em nada, como a mosca que voa explicando o sentido físico e metafísico da monotonia.

 

Mas a chatologia contemporânea, em sua intenção crítica, desenvolveu várias vertentes. Uma delas, e a mais comum, é a chatologia classificatória. Ela se ocupa de estabelecer a taxologia da chatice e dos chatos quanto à espessura, ao tamanho e ao alcance. Quanto a estes critérios, há os muito chatos, os simplesmente chatos e os levemente chatos. Autores como José Pequeno Gödel e João Grandão Einstein têm estudado a chatice na mídia, na universidade, na escola, nas comunidades, nas ruas, nos bailes e baladas, nas filas dos restaurantes e aviões, nos engarrafamentos, nas salas de espera, no cinema, nos shows de música e até mesmo no mercado. Laurita Dulce de Leche tem se dedicado ao desenvolvimento de uma “Chatologia comparativa” com base em estudos de Psicanálise e Teoria Queer. O Laboratório de Estudos da Chatice Escolar comandado pela Professora Doutora Tia Amélia da Silva tem publicado estudos importantes no campo da Pedagogia Chatológica com base em Teorias Conservadoras. Tais estudos, no entanto, têm fomentado dúvidas quanto ao sentido da chatologia. Se esta ciência não estaria incentivando o desenvolvimento da chatice em vez de sua eliminação.

 

Pesquisas recentes mostram que a chatice evolui proporcionalmente à evolução científica, religiosa e econômica da sociedade. Com o passar do tempo, a chatice se torna cada vez mais operante e difícil de definir e, portanto, de controlar. Infelizmente, as agências de fomento à pesquisa, no Brasil e no mundo, não têm dado a devida atenção aos estudos em chatologia e esta ciência não tem avançado como deveria na intenção da erradicação da chatice ou pelo menos de uma urgente Teoria Geral da Chatice. Medo dos consultores de tornarem-se alvo das pesquisas relativas à chatice geral? Ou certeza de que não se pode viver sem ela?

 

Por fim, esperamos que este verbete para o futuro Dicionário de Chatologia Geral não esteja, ele mesmo, pouco espesso.

 
 
Marcia Tiburi

Hora do recreio

Partilha
 
-Pois é me divorciei...
- Foi complicado?
- Muito...
- Por que?
- Por causa dos meninos...
- Me conte!
- Seguinte, é que o juiz disse que as crianças deviam morar com quem ficasse com a maior parte dos bens...
- Sei e elas ficaram com você ou com sua ex-mulher?
- Não, ficaram com o advogado!

Filosofia de banheiro


O Pai, o filho e o Trem: Uma escolha muito dificil!


O emocionante enredo de uma dificil decisão de um pai!

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

João 3:16

Versículo do dia

O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.
 
 
Cânticos 1:13
Reblogged from moisab

Brasil: um país com racismo, mas sem racistas

Episódios como o das babás discriminadas em clubes sociais e o da criança negra que foi destratada e quase expulsa de uma concessionária da BMW no Rio demonstram que o racismo, apesar de resolvido legalmente, já que é crime, ainda constitui um problema no dia a dia das relações interpessoais, onde às vezes se manifesta explicitamente.
 
O sociólogo Florestan Fernandes dizia que o brasileiro tem preconceito de ter preconceito. Em outras palavras, o Brasil seria um país com racismo, mas sem racistas, como revela uma pesquisa em que 87% das pessoas entrevistadas afirmaram haver racismo, mas só 4% se confessaram racistas.
 
Muitos alegam que se trata de “racismo cordial”, bem diferente do que existe nos EUA, por exemplo. Seria mesmo cordial ou, ao contrário, é velado, camuflado, que quando flagrado se disfarça, alegando engano ou má interpretação?
 
Na tal loja da Barra, o gerente de vendas viu o menino de 7 anos assistindo a televisão enquanto os pais adotivos, brancos, escolhiam um carro. Sem saber que pertenciam à mesma família, não teve dúvida. Na certa era um moleque de rua que ia pedir dinheiro, incomodar os clientes.
 
“Aqui não é o lugar para você, saia”, ordenou. Na nota em que tenta se justificar, a empresa diz que não foi bem assim, que houve por parte do casal “um mal-entendido”.
 
Porém, a mãe Priscilla garante que não, que foi um bem entendido gesto de racismo: “Se fosse uma criança branca, ele mandaria sair da loja?”
 
No facebook, para onde o casal levou seu protesto e lançou a campanha “Preconceito racial não é mal-entendido”, a reação foi imediata. Cerca de 16 mil internautas se manifestaram com mensagens de apoio.
 
Tomara que a proporção seja essa: que para uma loja que pratica o racismo haja milhares de pessoas contra.
 
Porém, pior ainda do que essas atitudes explícitas, que pelo menos despertam repulsa, é a situação social, econômica e cultural da população não branca no país. Tratadas com naturalidade, as desigualdades raciais no campo da saúde, da educação e do mercado de trabalho são tão iníquas que em alguns casos parecem saídas da novela “Lado a lado”, um retrato fiel e competente da luta contra a intolerância racial e religiosa após a abolição da escravatura e no começo da República.
 
Apenas um exemplo: o risco de morte por doenças infecciosas é hoje 43% maior entre as crianças negras com menos de um ano de idade do que entre as brancas. Isso equivale a expulsar da cidadania, senão da vida, toda uma geração de negros.
 
 
 
Zuenir Ventura
O Globo

sábado, 26 de janeiro de 2013

Velho olhando o mar

Meu carro pára numa esquina da praia de Copacabana às 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar à distância. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar à distância.
 
O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a imaginá-lo quando jovem. É um exercício estranho esse de começar a remoçar um corpo na imaginação, injetar movimento e desejo nos seus músculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante.
 
A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa.
 
No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braços de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado.
 
Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam? Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dança?
 
Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente não tem idade. Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela também apresentava uma estatística segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, só 53% se consideram velhos, 36% acham que são de meia-idade e 11% se julgam jovens.
 
Não sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele é um almirante aposentado. Às vezes, concedo e admito que ele pode ser também da Aeronáutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calçada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronáutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana.
 
Mas esses senhores de short e boné branco que passam às vezes em dupla pelo calçadão, são mais atléticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar.
 
Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta que um número crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto é uma síndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forçosamente me aposentarão. Então, imagino, vou passear de short branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m até cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar.
 
Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa." Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doença, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que está sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente à nossa história, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice é um destino, e quando ela se apodera de nossa própria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, então? A vida, e eu estou velho", escreve Aragon.
 
Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritório transformo o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar à distância, a vida distante.
 
Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar. Neste caso não me importarei que o moço que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreenderá.

 
 
Affonso Romano de Sant'Anna
Eu quero me soltar,viver minha rebeldia, rir do meu destino e redesenha a minha história.
 

"A cada novo minuto você tem a liberdade e a responsabilidade de escolher para onde quer seguir mas é bom lembrar que tudo na vida tem seu preço."
 
 

Criatividade é o segredo


Quando o sexo é tão rotineiro quanto escovar os dentes ou tomar um cafezinho, a intimidade e o prazer da vida sexual estão ameaçados.
 
Gostaria de sugerir três palavras sobre esse assunto: variedade, variedade, variedade. Isto se refere ao ambiente, horário, preparação, freqüência e posições. Por exemplo, ao invés de ser no quarto, por que não na sala de TV? Claro que, se vocês tiverem filhos, é necessário ter a certeza de que eles estão dormindo. Que tal um fim de semana em um hotel que ofereça conforto, beleza e romantismo?
 
A privacidade é importante? Certamente, e muito! Uma vez juntos, o mundo deve permanecer a espera lá fora. Coloque uma fechadura na porta de seu quarto e faça uso dela. Procure evitar interrupções. Vocês devem concentrar-se inteiramente um no outro, em um ambiente de relaxamento, agradável e romântico.
 
Quando o clímax sexual traz mais ansiedade do que contentamento é por que o “topo da montanha” está sendo mais importante do que as atitudes carinhosas durante a subida.
 
Maridos, não pressionem suas esposas para atingirem rapidamente o orgasmo. Não se esqueçam de que mulheres com maior energia, em geral, atingem o clímax ao fazerem amor. No entanto, aquelas que possuem menos energia ou as que estão fatigadas após um longo dia de trabalho, muitas vezes nem chegam ao auge do prazer. Neste caso, o marido também deve verificar se a experiência sexual está sendo agradável e satisfatória para ela.
 
Algumas mulheres têm dito que nem sempre necessitam ou desejam atingir o orgasmo no encontro sexual. Elas preferem ouvir palavras românticas do marido e sentir o carinho de suas carícias.
 
“Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude... e sempre o embriaguem os carinhos dela” (Prov. 5;18-19)


Pense nisso:

 
Vocês têm privacidade na hora do ato sexual? Vocês se entregam inteiramente ou ficam pensando nos problemas? Você consegue satisfazer sexualmente seu cônjuge? Você sabe como seu cônjuge gosta de se preparar para a escalar à montanha? Vocês caminham para o topo juntos ou você só está preocupada(o) em chegar lá sozinha(o)? É necessário criatividade, sem falsos pudores, para que o relacionamento sexual não se torne mecânico e enfadonho, lembrando também, de respeitar as necessidades e as vontades do cônjuge.
 

Judith Kemp

(Devocional para Casais)  

Baby I Need Your Lovin


Fruta da época

Visitinha rápida a feira livre para comprar Seriguelas.
 
 
 
Seriguela, ciriguela ou ciruela (Spondias purpurea) é o nome de uma árvore da família das anacardiáceas e também de seu fruto. É uma árvore de porte médio, podendo atingir até sete metros. Originária da América Central e da América do Sul, é bastante comum na Região Nordeste do Brasil.
"Para mim, o ato de escrever é muito difícil e penoso, tenho sempre de corrigir e reescrever várias vezes. Basta dizer, como exemplo, que escrevi 1.100 páginas datilografadas para fazer um romance, no qual aproveitei pouco mais de 300.”
 
 
Fernando Sabino

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Dá série "Acidente Impressionante"


Pescado do face da Josélia Rodrigues
Um adulador parece-se com um amigo, como um lobo se parece com um cão. Cuida, pois, em não admitir inadvertidamente, na tua casa, lobos famintos em vez de cães de guarda.
 
 

Amor é bicho instruído

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
 
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"Entendo os cães que voltam para o dono. Entendo, também, os pombos que viajam, mas voltam para casa. Voltar é a sina dos bons corações".
 
Estou de volta!
 
 

Azymuth - Linha do Horizonte


Nasa faz montagem de fotos do Sol em diferentes comprimentos de onda

Técnicas destacam vários aspectos da superfície e da atmosfera solares.Luz do astro vista por telescópios vai muito além da faixa captada a olho nu

Uma montagem divulgada pela agência espacial americana (Nasa) com diferentes imagens e cores do Sol mostra a estrela do nosso sistema sob a ótica de vários comprimentos de onda.

Cada uma dessas técnicas de captação busca destacar aspectos distintos da superfície e da atmosfera solares. Algumas revelam o astro mais amarelo, outras mais alaranjado, e até em tonalidades aparentemente estranhas, como cinza, cor-de-rosa, verde e azul.

Segundo explicam os astrônomos, o Sol emite luz em todas as cores, mas, como o amarelo é o seu comprimento de onda mais brilhante, essa é a cor que vemos a olho nu – lembrando que nunca devemos olhar diretamente para o Sol.

Essas imagens que compõem a montagem acima foram feitas por telescópios terrestres e espaciais capazes de observar a luz muito além das faixas visíveis pelo olho humano. Com essas informações, os cientistas podem "pintar" um quadro completo dessa estrela em constante mutação e saber como as partículas e o calor se movem pela atmosfera.

Além da luz visível, o Sol emite luz ultravioleta e raios X, dependendo da temperatura e do comprimento de onda. Na superfície do astro, a temperatura é de cerca de 5.700 graus Celsius, contra 15 milhões de graus Celsius no núcleo.

Essas diferenças ocorrem porque o Sol contém diferentes átomos – como hélio, hidrogênio e ferro –, com cargas elétricas distintas, chamadas de íons. Cada um desses íons pode emanar luz em comprimentos de onda específicos a determinadas temperaturas.

Fonte: G1

De morte e vida

Embora o tema apareça cada vez mais na mídia e esteja sempre presente na literatura — no Dicionário Universal de Citações, de Paulo Rónai, há 148 frases de escritores importantes falando de “morrer” e de “morte” — ele é meio tabu na nossa vida privada, mesmo sendo o mais previsível e inevitável de todos, porque é a única certeza que carregamos conosco.
 
Manuel Bandeira não quis lhe pronunciar o nome, chamando-a eufemisticamente em um poema de “a indesejada das gentes”.
 
Já o escritor russo Nicolai Gogol disse que “a vida perderia toda beleza se não houvesse a morte”. Será?
 
Não sei se é um dado da cultura nacional ou só familiar, mas desde pequeno aprendi que este é um assunto que não se deve comentar. É como se falar dela fosse uma forma de atraí-la.
 
“Não pensa bobagem, menino”, ouvi, quando pela primeira vez vi um caixão aberto com um corpo dentro e quis saber se aquilo poderia acontecer comigo um dia.
 
Até hoje a “indesejada” me assusta quando passa ameaçando um amigo ou quando atinge outro diretamente. Ou quando deixa claro todo o seu absurdo, como o que vivenciei dolorosamente esta semana, com uma irmã na UTI durante 65 dias lutando desesperada e inutilmente para sobreviver.
 
Enquanto isso, Walmor Chagas escolhia como opção a morte voluntária, desejada. De um lado, morrer sem querer, relutando; de outro, morrer por vontade própria, se matando. É esse o sentido transcendental da vida?
 
A fé religiosa nos ensina que o desfecho aqui na Terra não é o fim, mas o começo de uma nova etapa que vai se desenrolar no além.
 
Mas e quando ela, a fé, falha e em seu lugar surge a razão, como explicar todo esse mistério? A exemplo de Drummond, “do lado esquerdo carrego meus mortos./Por isso caminho um pouco de banda”.
 
Para os que ficam resta pouco: a catarse, a resignação, o consolo de que o sofrimento é pior do que a morte.
 
Assim pensava Rubem Braga, que preparou meticulosamente sua saída de cena; assim pensa muita gente, inclusive eu.
 
Tanto que tenho um pacto com um amigo (por motivos óbvios, parente não faz esse tipo de acerto), segundo o qual, o último a sair apaga a luz, ou seja, desliga os tubos do outro, se for preciso.
 
Para não dizer que estou muito mórbido, aí vai um belo sinal de vida. Recebi esta semana a mais bonitinha declaração de amor de Alice por telefone, com sua maneira original de dizer as coisas: “Vovô Zu, tô com falta de você.”
 
Aproveitando o tema: num país que já abateu a tiros quatro presidentes, louve-se a coragem de Barack Obama de enfrentar a turma barra pesada do bang-bang, isto é, a poderosa indústria da morte.

 
Zuenir Ventura