quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mitologia

Filha de Céres e de Jupiter, Proserpina foi raptada por Plutão, num dia que estava colhendo flores, apesar da resistência teimosa de Cyanea, sua companheira. Céres acabrunhada de mágua pela perda da filha, ao voltar de suas longas viagens através do mundo sem obter noticias d'ela, soube enfim por Arethusa, ou pela nimpha Cyanea, o nome do raptor.

Indignada, pediu a Jupiter que fizesse a filha voltar dos Infernos; Jupiter concedeu, com a condição porém de que lá nada ainda ela houvesse comido. Ascalapho, filho de Acheronte e oficial de Plutão, informou te-la visto comer seis grãos de romans depois da sua entrada nas moradas sombrias.

Por este motivo Proserpina foi condenada a ficar nos Infernos como esposa de Plutão e rainha do Império das Sombras. Segundo outros, Ceres obteve de Jupiter que Proserpina passasse seis meses do ano em sua companhia.

N'essa fabula alguns mythologos julgaram ver o emblema da germinação.

P. Commelin in Mythologia Grega e Romana.
Rio de Janeiro|Paris: Garnier, 1916. 5ª edição

Lisa Lois

"Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade."


(Bertrand Russel)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Relações estéticas

O que esperamos quando vamos ao cinema? Que o filme seja bom, nos divirta, nos ensine, nos comova. Esperamos uma experiência estética, ou seja, um conjunto de sensações com significado. Queremos sentir, mas não basta, queremos também entender. O prazer com um filme é algo que surge desta combinação entre sensibilidade e entendimento. Sem este último não existe prazer. Após a projeção do filme usamos o veredicto espontâneo “gostei” ou “não gostei” para definir se o filme é bom ou não. Se vimos o filme acompanhados pode até surgir alguma discussão em torno das razões e emoções de tais juízos, mas em geral cada um se apega ao próprio prazer sentido para justificar seu julgamento. É claro que julgamentos, sejam de críticos ou de pessoas em geral não fazem de um filme melhor ou pior. Mas precisamos disso na tentativa de entender o que vimos. Mas a experiência estética é ainda mais que isso.

Além do julgamento que advém do prazer ou desprazer, a experiência estética é também o efeito que uma obra produz em nós. A diferença desta forma de experiência estética com as demais é que nos tornamos, por meio delas, mais atentos e sensíveis, ou mais desatentos e fechados ao mundo que habitamos. Olhando bem, a experiência estética faz parte de todos os aspectos da nossa vida.

É curioso como este nosso desejo de julgamento se aplica também às relações que temos com seres humanos. Raramente alguém deseja uma experiência que não seja prazerosa com uma pessoa, seja amigo, seja colega, seja um amor. Não temos relações éticas com as pessoas porque nos apegamos, sobretudo, a percepções estéticas. Queremos ser convencidos a todo momento de que aquela pessoa com quem vivemos ou partilhamos momentos é alguém que nos agrada. Deste saber bastante banal é que as pessoas tiraram a idéia de que é preciso agradar para serem queridas e desejadas. Se sentimos prazer com alguém somos imediatamente convencidos de seu significado, de sua importância. Assim também queremos ser vistos. O bom arranjo entre forma e conteúdo, entre aparência física e discurso, nos faz ver a pessoa como uma obra de arte, um filme bem feito, denso e curioso a passar diante de nossos olhos.

A cultura da superficialidade

Tanto num filme de terror ou numa comédia banal, quanto numa película mais elaborada intelectualmente, o que queremos é que algo nos dê prazer. Do mesmo modo, queremos uma pessoa que nos entretenha ou nos agrade. O que não ponderamos é que arte nem sempre agrada. Muitas vezes ela provoca, como nas obras de arte contemporânea, uma abertura ao insuportável. Por isso, tantas exigem de nós que nos tornemos intérpretes sérios, cuidadosos e atentos, sob pena de simplesmente fugirmos das experiências propostas. Do mesmo modo, as pessoas são bem mais complexas do que o que delas podemos saber. Por isso também muitos preferem fugir dos que conhecem, mas também dos que não conhecem. Porém, este tipo de atitude não nos deixa longe de contradições. Junto deste comportamento hoje em dia comum, cresce a queixa da solidão e da dificuldade de relacionamento.

Quem está disposto a realmente respeitar a novidade aberta pelo outro? Em geral as pessoas só querem das outras a superfície e, por outro lado, quando a cultura da superficialidade vira regra, queixam-se de que não exista nada mais sob a máscara. Mudar de percepção seria como aprender a assistir filmes intelectualmente mais complexos. Ou livros mais exigentes.

O prazer de não pensar

A idéia da beleza sempre dependeu deste ideal do prazer. Para muitos não há como ver sentido longe dele. Kant falava da beleza como aquilo que agrada sem que precisemos pensar por que agrada. Coisas sem significado não podem agradar. Ele mesmo percebeu que há muita coisa que não produz um prazer imediatamente agradável, mas mesmo assim funciona aos sentidos humanos. Kant, que não entendia de arte, pensava no belo da natureza. Belas eram as mulheres, as paisagens tranqüilas com riacho e flores. Pensava, porém, no encanto estranho que sentimos com as tempestades de raios ou a visão do imenso deserto, do mar aberto. Explicou isto pelo sentimento do sublime, pelo qual entendia uma mistura de prazer com desprazer em que o significado da coisa vista jamais era plenamente alcançado. O sentimento do sublime mais do que a sensação de algo agradável provocaria o respeito. Por isso justificava que a natureza dos homens era nobre, enquanto a das mulheres era bela. Aqueles deviam motivar o respeito, enquanto estas apenas o agrado.

Tudo isso no mostra o quão delicado é julgar e emitir juízos sobre as coisas e as pessoas. Infelizmente vivemos uma cultura da leviandade em relação às interpretações. E tudo isso porque não somos bons leitores do que vemos, do que ouvimos, do que nos dizem. Certamente somos também desatentos à nossas próprias opiniões. Contentamo-nos em gostar e desgostar como se isso fosse a base legítima de uma relação na ordem pública, onde se exigem argumentos tantos quando é o caso de colocar uma novela no ar, uma exposição de pinturas ou um filme em cartaz. Interpretamos a vida com base em nossos pré-conceitos, raramente questionando os reais motivos que nos impelem a dizer isto ou aquilo de algo ou de uma pessoa. Raramente temos atenção ao que realmente se dá à nossa volta. As obras de arte hoje em dia servem para nos ensinar a atenção à nossa própria interpretação. Neste sentido elas nos ensinam a cuidar de todo o campo de nossas relações. Elas exigem que nos tornemos atentos. Talvez quando formos atentos, possamos


Marcia Tiburi

Publicado em Vida Simples em 2008.

Hora do recreio

A velhinha entra num sex-shop, toda trêmula, e pergunta ao vendedor:
- Voocêêê teeem viiibrrrradddooorrrrreeess?
- Temos sim senhora! De vários modelos…
- Teeeemmmm daaaaquueeeeleeesss immmpooortaaadooosss, de ciiinncoooo veloooociiiidaaadeeess?
- Temos sim, senhora!
- Ennntããão, meeee mooostrrraa cooomooo é quuueee eu faaaçooo paraaa dessliiiigaaar essstaaa meeerrrrdaaa

Da pena generalizada

O protesto contra os suplícios é encontrado em toda parte na segunda metade do século XVIII: entre os filósofos e teóricos do direito; entre juristas, magistrados, parlamentares; nos cahiers de doléances* e entre os legisladores das assembléias.

É preciso punir de outro modo: eliminar essa confrontação física entre soberano e condenado: esse conflito frontal entre a vingança do príncipe e a cólera contida do povo, por intermédio do supliciado e do carrasco.

O suplício tornou-se rapidamente intolerável. Revoltante, visto da perspectiva do povo, onde ele revela tirania, o excesso, a sede de vingança e "o cruel prazer de punir".


Michel Foucault in Vigiar e Punir. Rio de Janeiro, Vozes, 1977.
(excerto do capítulo)

*Cahiers de Doléances, cadernos dos delegados aos Estados Gerais de 1789 em que se registravam seus pedidos.


Lulu. Composição de 1969: To Sir With Love

Quem não dá assistência, abre concorrência.

Foto de Charlotte de Bruces: The Lady Is a Modern Tramp


Você homem da atualidade, vem se surpreendendo diuturnamente com o "nível" intelectual, cultural e, principalmente, "liberal" de sua mulher, namorada e etc.

Às vezes sequer sabe como agir, e lá no fundinho tem aquele medo de ser traído - ou nos termos usuais: "corneado". Saiba de uma coisa... esse risco é iminente, a probabilidade disso acontecer é muito grande, e só cabe a você, e a ninguém mais evitar que isso aconteça ou, então, assumir seu "chifre" em alto e bom som.

Você deve estar perguntando porque eu gastaria meu precioso tempo falando sobre isso. Entretanto, a aflição masculina diante da traição vem me chamando a atenção já há tempos.

Mas o que seria uma "mulher moderna"?

A princípio seria aquela que se ama acima de tudo, que não perde (e nem tem) tempo com/para futilidades, é aquela que trabalha porque acha que o trabalho engrandece, que é independente sentimentalmente dos outros, que é corajosa, companheira, confidente, amante...

É aquela que às vezes tem uma crise súbita de ciúmes mas que não tem vergonha nenhuma em admitir que está errada e correr pros seus braços...

É aquela que consegue ao mesmo tempo ser forte e meiga, desarrumada e linda...

Enfim, a mulher moderna é aquela que não tem medo de nada nem de ninguém, olha a vida de frente, fala o que pensa e o que sente, doa a quem doer...

Assim, após um processo "investigatório" junto a essas "mulheres modernas" pude constatar o pior:

VOCÊ SERÁ (OU É???) "corno", a menos que:

- Nunca deixe uma "mulher moderna" insegura. Antigamente elas choravam. Hoje, elas simplesmente traem, sem dó nem piedade.

- Não ache que ela tem poderes "adivinhatórios". Ela tem de saber - da sua boca - o quanto você gosta dela. Qualquer dúvida neste sentido poderá levar às conseqüências expostas acima.

- Não ache que é normal sair com os amigos (seja pra beber, pra jogar futebol...) mais do que duas vezes por semana, três vezes então é assinar atestado de "chifrudo". As "mulheres modernas" dificilmente andam implicando com isso, entretanto elas são categoricamente "cheias de amor pra dar" e precisam da "presença masculina". Se não for a sua meu amigo... bem...

- Quando disser que vai ligar, ligue, senão o risco dela ligar pra aquele ex bom de cama é grandessíssimo.

- Satisfaça-a sexualmente. Mas não finja satisfazê-la. As "mulheres modernas" têm um pique absurdo com relação ao sexo e, principalmente dos 20 aos 38 anos, elas pensam em - e querem - fazer sexo todos os dias (pasmem, mas é a pura verdade)...bom, nem precisa dizer que se não for com você...

- Lhe dê atenção. Mas principalmente faça com que ela perceba isso. Garanhões mau (ou bem) intencionados sempre existem, e estes quando querem são peritos em levar uma mulher às nuvens. Então, leve-a você, afinal, ela é sua ou não é????

Nem pense em provocar "ciuminhos" vãos. Como pude constatar, mulher insegura é uma máquina colocadora de chifres.

- Em hipótese alguma deixe-a desconfiar do fato de você estar saindo com outra. Essa mera suposição da parte delas dá ensejo ao um "chifre" tão estrondoso que quando você acordar, meu amigo, já existirá alguém MUITO MAIS "comedor" do que você...só que o prato principal, bem...dessa vez é a SUA mulher.

Sabe aquele bonitão que, você sabe, sairia com a sua mulher a qualquer hora. Bem... de repente a recíproca também pode ser verdadeira. Basta ela, só por um segundo, achar que você merece...Quando você reparar... já foi.

- Tente estar menos "cansado". A "mulher moderna" também trabalhou o dia inteiro e, provavelmente, ainda tem fôlego para - como diziam os homens de antigamente - "dar uma", para depois, virar pro lado e simplesmente dormir.

- Volte a fazer coisas do começo da relação. Se quando começaram a sair viviam se cruzando em "baladas", "se pegando" em lugares inusitados, trocavam e-mails ou telefonemas picantes, a chance dela gostar disso é muito grande, e a de sentir falta disso então é imensa. A "mulher moderna" não pode sentir falta dessas coisas...senão...

Bem amigos, aplica-se, finalmente, o tão famoso jargão "quem não dá assistência, abre concorrência".

Deste modo, se você está ao lado de uma mulher de quem realmente gosta e tem plena consciência de que, atualmente o mercado não está pra peixe (falemos de qualidade), pense bem antes de dar alguma dessas "mancadas"... proteja-a, ame-a, e, principalmente, faça-a saber disso.

Ela vai pensar milhões de vezes antes de dar bola pra aquele "bonitão" que vive enchendo-a de olhares... e vai continuar, sem dúvidas, olhando só pra você!


Arnaldo Jabor

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos


Sigmund Freud

Van Morrison

Uma rua no distrito de Abu Salim,Trípoli - Foto: /AFP

domingo, 28 de agosto de 2011

Busy for me

Das medidas e dos valores

Em 1929, a revista Documents publica dois pequenos artigos anônimos, ambos intitulados "Homem".

Lê-se no primeiro deles:

"Homem – Um eminente químico inglês, o dr. Charles Henry Maye, empenhou-se em estabelecer de forma exata de que é feito o homem e qual o seu valor químico.

Eis os resultados de suas sábias pesquisas:

A gordura de um corpo humano de constituição normal seria suficiente para fabricar sete porções de sabonete.

Encontram-se no seu organismo quantidades suficientes de ferro para fabricar um prego de espessura média e de açúcar para adoçar uma chícara de café.

O fósforo daria para 2.200 palitos de fósforo. O magnésio forneceria matéria para se tirar uma fotografia. Ainda um pouco de potássio e de enxofre, mas em quantidade inutilizável.

Essas diversas matérias-primas, avaliadas na moeda corrente, representam uma soma em torno de 25 francos."


Revista Ducuments nº 4. Paris: Jean Michel Place, 1991. Edição fac-similar. O artigo remete ao Jornal de Débats 13 ago. 1929, como sua fonte;
apud Eliane Robert Moraes. O Corpo Impossível: A Decomposição
da Figura Humana de Lautréamont a Bataille. São Paulo: Iluminuras, 2002.

A bunda, que engraçada

Foto Dmitriy Petrina
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.


Carlos Drummond de Andrade in O Amor Natural
"É essa uma velha farsa: possuímos o mundo e lamentamo-nos que ele nos possua."

F. Kafka: Diários
Ontem estivemos no aniversário de sete anos de minha sobriha Camille Lanay. Como sempre, linda! Parabéns Camilinha!

Poema da Gare do Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!


Mário Quintana

A palavra

... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.

*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)


Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto

Carolee Schneeman

sábado, 27 de agosto de 2011

Ouça

Trato é trato

Depois de exaustivas brigas, o marido grita:
- Eu não agüento mais!!! Vamos fazer o seguinte: eu fico com um lado da casa e você com o outro!
- Tudo bem! - concorda a esposa - Eu fico com o lado de dentro!

Do fundo do armário - The Youngbloods

O que eu amo em minha loucura é que ela me protegeu, desde o primeiro dia, contra as seduções da 'elite': nunca me julguei feliz proprietário de um 'talento': minha única preocupação era salvar-me - nada nas mãos, nada nos bolsos - pelo trabalho e pela fé. Desta feita, minha pura opção não me elevava acima de ninguém: sem equipamento, sem instrumental, lancei-me por inteiro à ação para salvar-me por inteiro. Se guardo a impossível Salvação na loja dos acessórios, o que resta? Todo um homem, feito de todos os homens, que lhe valem todos e a quem vale não importa quem.


Jean-Paul Sartre in As Palavras. DIFEL: São Paulo, 1964.
Tradução: J. Guinsburg

Frases

Nada é mais difícil do que um assunto fácil.

Exclua as notícias más na sua conversa.

Técnica, quantos crimes cometidos em teu nome!

Ninguém está sozinho quando pensa.

Quando crianças somos todos geniais, depois de adultos
é que ficamos burros.

A norma jurídica é a proibição do estranho.

Compostura suprema, decisão de saber morrer.

A memória é a imaginação do povo.

No esquema dos rendimentos é um assombro perguntar
pra que serve um poema.

Só invejamos o que não conhecemos. A felicidade
alheia é relativa à nossa ignorância.

A morte existe, os mortos, não!

Uma assustadora contemporaneidade de milênios...

A fisiologia da Visão não explica o Olhar!

Praga não serve, mas ajuda a raiva.

“Não entendi” - dizia Cascudo – é a explicação orgulhosa
do “não sei”.

Anália, a empregada doméstica, anuncia:
- Dr. Luís, tem um homem aí.
- Diga a ele que aqui tem outro.

O poeta Berilo Wanderley ficou indeciso no exame oral sobre
guerra submarina. Começou a falar:
- O sub... - e fez com a mão um gesto indicativo de submersão.
- Estou satisfeito – interrompeu Cascudo. – O senhor está
aprovado.


Fraseologia e anedotário colhidos in Diógenes da Cunha Lima:
Câmara Cascudo: Um Brasileiro Feliz.
Rio de Janeiro: Lidador, 1998.


Corte Transversal do Poema

Foto All Maguns
A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.


Murilo Mendes

Nikki Yanofsky

Moral

‘Moral é tudo aquilo (ato, comportamento, fato, acontecimento) que realiza o homem, que o enraíza em si mesmo e, por ele e para ele, ganha sentido humano’.”

(PEREIRA, Otaviano. O que é moral. São Paulo: Brasiliense, 2ª reimpressão da 1ª ed., 2004/1991, p. 11, coleção “Primeiros Passos”, n. 244.)

●“(...) a moral deve estar aí para ajudar o homem a ser. Ser o que ele se propõe a ser, a realizar sua travessia. Enfim, a realizar-se ─ a moral servindo ao homem e não o contrário. (...)” (Pág. 14.)
●“(...) a moral está intrínseca e necessariamente vinculada ao trinômio: cultural/história, sociedade e natureza humana. (...)” (Pág. 14.)
► MORAL/ÉTICA: “Originalmente, moral e ética são sinônimos e descendem do que foi escrito por filósofos como Aristóteles, na Grécia, e Cícero, em Roma. Ambas descrevem o que seriam os hábitos e costumes de um povo, e as normas que os regram e que deles brotam a partir da tradição de comportamento herdado e das discussões que as pessoas estabelecem conscientemente ao longo do tempo de vida delas e de suas instituições (igrejas, escolas, famílias, governos, arte etc.).

“Com o tempo, a moral acabou por constituir-se no estudo mais amplo desse espectro de hábitos e costumes, e a ética passou a designar a disciplina filosófica específica que busca estabelecer as normas para esses comportamentos de modo reflexivo e racional. (...)”

(PONDÉ, Luiz Felipe. O Catolicismo Hoje. São Paulo: Benvirá, 2011, p. 57, “Para Entender”.)

Desenhando em Lisboa

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo, saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas-na-manteiga que alguém pediu na mesa próxima."

Mário Quintana
Foto Eric Jean

"Sou um homem à procura da religiosidade. Dispensa-me dos rótulos, por favor, e eu te explico que a religiosidade nada tem a ver com seitas, igrejas, grupelhos carolas, fanáticos acorrentados a dogmas e superstições. A religiosidade nada tem de alienação, conformismo ou adaptação a um sistema político-social-econômico injusto. Aliás, a religiosidade é altamente subversiva. A religiosidade leva o homem ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o homem à subversão. Eu mudei no sentido de que sempre acreditei que o homem desperto tem o dever de ser mutante. Como espero continuar sempre mudando. Mas, os valores que dignificam o homem e que eu preservava, esses permanecem. Continuo, com a graça de Deus, com a coragem de dizer o que penso, sem fazer nenhum esforço para agradar aos poderosos, aos grupos políticos ou religiosos. Tento chocar. Com muito vigor. Não faço isso por política. Faço isso por religiosidade."


Plinio Marcos

Palco da vida

Você pode ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não se esqueça de que sua vida é a maior empresa do mundo. E você pode evitar que ela vá à falência.

Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por você. Gostaria que você sempre se lembrasse de que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem desilusões.

Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.

Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas refletir sobre a tristeza. Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos. Não é apenas ter júbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples, que mora dentro de cada um de nós. É ter maturidade para falar "eu errei". É ter ousadia para dizer "me perdoe". É ter sensibilidade para expressar "eu preciso de você”. É ter capacidade de dizer "eu te amo". É ter humildade da receptividade.

Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades para você ser feliz... E, quando você errar o caminho, recomece, pois assim você descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita, mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância.

Usar as perdas para refinar a paciência.
Usar as falhas para lapidar o prazer.
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.

Jamais desista de si mesmo.
Jamais desista das pessoas que você ama.
Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um espetáculo imperdível, ainda que se apresentem dezenas de fatores a demonstrarem o contrário.

Pedras no caminho? Guardo todas... Um dia vou construir um castelo!


Fernando Pessoa

My World, Bee Gees

"Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho".




Paulo de Tarso em carta aos Filipenses

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

... e ao barro voltaremos!

Altemar Dutra - Eu nunca mais vou te esquecer

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.


João Cabral de Melo Neto, in Poesias Completas: 1940-1965. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975
"Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito."

"A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta."


Fernando Pessoa


Amor depois do casamento

Louise Bourgeois:Maman, Tate Modern Gallery
Nunca se deveria esquecer esta lei que os gregos estabeleceram para os seus banquetes: Bebei e ide-vos embora. O contrário seria pretender que a comédia deixasse de ser comédia.

Além disso, se a natureza vos fez homens, a verdadeira prudência exige que não vos eleveis acima da condição humana. Com poucas palavras, das duas uma: ou simular intencionalmente com seus semelhantes, ou correr ingenuamente o risco de se enganar com eles. E não será esta - indagam os sábios - outra espécie de loucura? Quem o nega? Que me concedam, porém, que essa é a única maneira de cada qual fazer-se aparecer na comédia do mundo.


Erasmo de Roterdam: Elogio da Loucura.

Política

“A política como cura, a política como primeira ordem da vida: essa tendência é comum em filósofos da política como Hobbes ou Maquiavel (e, em certa medida, Locke). Mas, à diferença desses três, Rousseau carrega a política com ares de moral redentora em nome da nova justiça social, propondo a política como revolução social dos costumes, dos poderes e das instituições em todos os níveis.”

(PONDÉ, Luiz Felipe. O Catolicismo Hoje. São Paulo: Benvirá, 2011, p. 82, “Para Entender”.)

► “(...) Para Max Weber ‘a política consiste num esforço tenaz e enérgico de furar tábuas duras de madeira. Este esforço exige simultaneamente paixão e precisão... não se poderia jamais esperar o possível se no mundo não houvesse sempre a esperança no impossível... é preciso que as pessoas se armem sempre da força da alma que lhes permitirá ultrapassar todos os naufrágios das esperanças, mas que o façam desde o presente, senão não serão capazes de fazer o que é possível ser feito hoje. Aquele que está convencido disto (...) possui a vocação da política’.

“A própria atividade política, longe de ser apenas voltada a uma transformação do ‘mundo objetivo’ com vistas ao futuro, significa, também, o exercício de uma atividade transformadora da consciência e das suas relações com o mundo. (...)”


(MAAR, Wolfgang Leo. O Que é Política. São Paulo: Brasiliense, 24ª reimpr. da 16ª ed., 2006, p. 22, “Primeiros Passos”, n. 54.)

O velhinho mineiro

O velhinho, mineiro de Berlandia, está no hospital, nas últimas.....
O padre está ao seu lado para dar-lhe a extrema-unção.
Ele lhe diz ao ouvido:
- Antes de morrer, reafirme a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo e renegue
o Demônio.
Mas o velhinho fica quieto..
Ao que o padre insiste:
- Antes de morrer, reafirme a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo e
renegue o Demônio.
E o velhinho..... nada.
Então o padre pergunta:
- Por que é que o senhor não quer renegar o Demônio?
O velhinho responde:
- Enquanto eu num soubé pronde vou, num quero ficá de mar cum ninguém!


Pescada da net sem indicação do autor

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Charge do Néo

Viver é um descuido prosseguido.

Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas.

Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada.

A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve, e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.

Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos.

A vida não dá demora em nada.

Vida, e guerra, é o que é: esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja.

A vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho.

Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.

Certo de que, nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessa, por receio de que seja mesmo verdade...

A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes...

A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar o saber?

A vida é um vago variado.

A gente vive é caminhando de costas?

Tempo é a vida da morte: imperfeição.

Viver é muito perigoso.


Riobaldo em:
João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Amanhã é 23

Poucas, muito poucas coisas superam em expectativa a batida em uma porta!!!

Historinha Hassídica

Conta-se que numa aldeia hassídica alguns judeus estavam sentados numa pobre estalagem, num sábado à noite. Eram todos residentes do lugar, menos um desconhecido, de aspecto miserável, mal vestido, escondido num canto escuro, nos fundos. Conversava-se aqui e ali.

Num certo momento, alguém se lembrou de perguntar o que cada um desejaria, se um único desejo pudesse ser atendido. Um queria dinheiro, outro um genro, outro uma nova banca de carpinteiro, e assim por diante.

Depois que todos falaram, restava apenas o mendigo, em seu canto escuro. Interrogado, ele respondeu, com alguma relutância:

"Gostaria de ser um rei poderoso, governando um vasto país, e que uma noite, ao dormir em meu palácio, um exército inimigo invadisse o meu reino, e que antes do nascer do dia os cavaleiros tivessem entrado em meu castelo, sem encontrar resistência, e que acordando assustado eu não tivesse tempo de me vestir, e com uma simples camisa no corpo eu fosse obrigado a fugir, perseguido sem parar, dia e noite, por montes, vales e florestas, até chegar a este banco, neste canto, são e salvo. É o meu desejo."

Os outros se entreolharam sem entender.

"E o que você ganharia com isso?" - perguntaram.

"Uma camisa", foi a resposta.


Publicada por Walter Benjamin in Magia e Técnica, Arte e Política.
Obras Escolhidas - Vol. I. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


Rubem Braga

Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.


Avedon

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


Fernando Pessoa

domingo, 21 de agosto de 2011

Foto V. Ivanovski
Meu pai era alto, gordo, velho, com cabelos grisalhos.

Ele era inteligentíssimo, amigo de todos se bem que brigava com uns de vez em quando e atacava-os por meio da imprensa ferinamente.

Gostava de festas e sempre, pelo menos três vezes por semana, havia jantares e festas até que ele começou a ter fortes ataques cardíacos.

Era muito amigo e tinha prazer em nos ver felizes.

Gostava de viajar e na sua mocidade visitou a Europa muitas vezes. Pouco antes de sua morte ele estava fazendo arrumações para uma viagem à França onde ele ia lecionar na Universidade de Paris.

Era um fanfarrão e um grande comilão.

Mamãe brigava muito com ele, pois ele era diabético e não podia comer doces e salgados em quantidade.

Quando ela brigava com ele, ele saía e comprava uma jóia para ela e isso fazia-no recuperar o prestígio perdido.

Na sua morte eu chorei muito, mas a vida é assim.



Redação escolar de Paulo Marcos d'Alkmin de Andrade, aos 14 anos,
in Marília de Andrade e Ésio Macedo Ribeiro (org). Maria Antonieta
d'Alkmin e Oswald de Andrade: Marco Zero. São Paulo:
EDUSP/Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes/Imprensa
Oficial/SP

Against the wind - Bob Seger


A boa consciência

No centro da Selva existiu faz muito uma extravagante família de plantas carnívoras que, com o passar do tempo, chegou a adquirir a consciência de seu estranho costume, principalmente pelos constantes murmúrios que o bom Zéfiro lhes trazia de todos os quadrantes da cidade.

Sensíveis à crítica, pouco a pouco foram tomando repugnância à carne, até que chegou o momento em que não apenas a repudiaram no sentido figurado, ou seja sexual, mas por fim se negaram a comê-la, enojadas a tal ponto que a sua simples visão lhes causava náusea.

E aí resolveram virar vegetarianas.

A partir desse momento comem-se unicamente umas às outras e vivem tranqüilas, esquecidas de seu infame passado.


Augusto Monterroso. A Ovelha Negra e Demais Fábulas.
Tradução de Millôr Fernandes
Hernan Churba (fotografia), agência Latin Works, 2009

A felicidade é coletiva

A filosofia nasceu na Grécia como metafísica, a busca pelo princípio de todas as coisas ou pelo significado mais fundamental da existência. Na seqüência a ética apareceu quando os filósofos começaram a se ocupar da questão da vida humana. Ethos, raiz da palavra ética, era o termo usado pelos gregos para definir o modo como as pessoas viviam e conviviam. Hoje em dia usamos a palavra “comportamento” com o mesmo objetivo, para explicar como agimos junto com os outros, como seres que interagem e coabitam. A questão da ética define, portanto, sempre o modo da relação que se tem com o outro.

Aristóteles foi o primeiro filósofo importante que refletiu sobre a ética. Para o autor do clássico Ética a Nicômaco, o maior problema da ética era a felicidade. Ética era a forma de vida que levava à felicidade. A busca da felicidade dava o sentido da vida humana em sua dimensão pessoal e coletiva. A polis, de onde vem a palavra política, dependia da ética. E se falar em ética era falar em felicidade, a felicidade como parte da ética tinha um cunho político. Isso é o que nós perdemos de vista em nossos dias.

A ética e a virtude

Naquele tempo, justamente por ser “sabedoria prática”, sabedoria aplicada à ação, a ética dependia de uma teoria da virtude, ou seja, de uma sabedoria que explicasse como o ser humano poderia fazer-se excelente, o que para os gregos significava ser civilizado, bom, belo, rico, culto, corajoso e livre, e, sobretudo, filósofo. Por que ser filósofo? Porque o filósofo era aquele que buscava a sabedoria, procurava as respostas melhores, e, principalmente, se esforçava por propor as perguntas certas para as questões da vida. O filósofo era o pensador livre e responsável, apto a buscar o sentido passado e presente das coisas e o rumo futuro de sua própria vida como ser pensante diante da sociedade onde vivia.

A felicidade representava na obra de Aristóteles muito mais do que apenas uma sensação própria a um indivíduo voltado para a alegria ou os prazeres. Não queria dizer bem-estar pessoal, nem qualidade de vida, não queria dizer apenar ter saúde ou bens, nem realização profissional, nem estar em paz consigo mesmo e com os que vivem ao seu redor, traços do que tratamos como felicidade que – para além da mera satisfação com mercadorias e bens - podem ser compreendidos e desejados por todos nós. Antes a felicidade era a máxima virtude. Um modo de ser humano, sem almejar ser divino, nem deixar-se ser mero animal.

Não podemos, é óbvio, pensar que a felicidade tal com ao concebia Aristóteles nos serve hoje. A felicidade só pode ser pensada com base na sua evolução histórica. Havia, porém, aquele aspecto da felicidade que não levamos em conta em nossos dias e que precisa ser recuperado. É preciso lembrar que a felicidade era, em Aristóteles, um ideal ético da vida. A vida ética era a vida justa, boa, corretamente vivida por um cidadão, alguém que sabia de seu papel na sociedade, que ao pensar em si levava em conta o todo: família, amigos, sociedade, natureza.

Aristóteles chamava a felicidade de eudaimonia. Palavra que continha o termo daimon, espécie de espírito interior, guardião da intimidade, do valor pessoal de cada um. Este ideal de felicidade era diferente do que apareceu depois com Epicuro, o filósofo da escola do Jardim, que tratou a felicidade como hedonismo. Hedoné era a palavra grega para significar o prazer. Não o mero prazer da carne, mas também o do espírito. Para Aristóteles, porém, a felicidade tinha uma relação maior com a justiça. Para ambos, a felicidade dependia de uma realização espiritual, mas também material que excluía miséria e violência.

A felicidade como conflito

Com o passar dos séculos os seres humanos permaneceram em conflito com o ideal de felicidade. Apenas no século XVIII Kant, formulando uma ética revolucionária que abandonou a tutela da igreja, pretendeu valorizar a liberdade e a dignidade humanas. Kant via a sociedade submetida à ignorância e à superstição e acreditava que a ética só poderia surgir pela confiança no potencial racional do humano. Acreditava que o pensamento reflexivo, filosófico libertaria o humano da escuridão da ação impensada. Talvez a felicidade tenha se tornado um ideal difícil demais diante dos limites humanos que envolveram, mais tarde, a descoberta do inconsciente e que há mais que nossa vontade por trás de nossas ações.

Kant disse que o máximo que o homem poderia esperar era ser digno de ser feliz e não realmente feliz. Hoje, uns acham, como Kant, a felicidade impossível, outros tratam-na como algo banal, mera realização de prazeres pessoais. O desentendimento quanto à felicidade apenas mostra que ela não está bem situada como conceito dentro de nossas vidas. Apenas aqueles que puderem pensá-la como potência ética, como algo que se constrói na fusão da vida pessoal com a vida pública é que podem continuar falando de felicidade. Antes de ser feliz devo perguntar se posso ser ético. Será mais fácil ser feliz.


Marcia Tiburi

* Publicado na Revista Vida Simples, Março 2007


sábado, 20 de agosto de 2011

Rejoice - Katherine Jenkins

Nem tudo é o que parece ser

"Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim."


Rainer Maria Rilke. Testamento. São Paulo: Globo, 2009
Prefácio de Helmut Galle. Tradução: Tercio Redondo

Ode às mulheres solitárias

Foto Eldor Gemst
Como são belas as mulheres solitárias.
Irmãs das coisas escondidas,
há sempre nelas uma caça esquiva,
uma gazela.
Relicários rebuscados de mistérios,
sopro aprisionado em cata-vento
girando hastes de ferro,
o frio da noite pressentem
e no orgulho se fecham.
Resistem, pequeninas, ao cerco dos mais fortes.
Por ser de guerra o tempo em que se movem,
tempo de inocências e camélias perfumadas,
que é flor não existida ou perdida noutros tempos,
enterram em terra secreta: relógios, cartas, degredos,
peixes e cinco segredos,
cascas, feridas, ungüentos.
Amam sempre, como o vento ao trigo.
Mas porque conhecem todos os caminhos,
os pés atentos, as mãos contidas,
amam simples.
E, de repente, se agitam,
secam as saias de tule,
roçam anáguas de renda,
ásperas canas maduras,
e, preparando a colheita,
antes da foice, incendeiam.


Ana Mariano in Ver O Poema,