terça-feira, 16 de julho de 2019

Data e dedicatória

Teus poemas, não os dates nunca... Um poema
Não pertence ao Tempo... Em seu país estranho
Se existe hora, é sempre a hora extrema
Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inextinguível...
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores,
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo...
A esse alguém,
Que talvez nem tenha ainda nascido,
Dedica, pois, teus poemas,
Não os date, porém:
As almas não entendem disso... 


Mário Quintana 

Versículos do dia

Porque, quem despreza o dia das coisas pequenas? Pois esses se alegrarão, vendo o prumo na mão de Zorobabel; esses são os sete olhos do Senhor, que percorrem por toda a terra.
 
Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; 

O qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.
Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Cecília Meireles

segunda-feira, 15 de julho de 2019


Emergência

Numa sala de aula do terceiro ano, há um menino de nove anos sentado à sua carteira e de repente há uma poça entre seus pés, e a parte dianteira de suas calças está molhada. Nunca havia acontecido antes, e sabe que quando descobrirem nunca o deixarão em paz.

O menino acredita que seu coração vai parar; abaixa a cabeça e reza esta oração: 'Querido Deus, isto é uma emergência! Eu necessito de ajuda agora! Mais cinco minutos e serei um menino morto'.

Levanta os olhos e vê a professora chegando com um olhar que diz que foi descoberto. Enquanto a professora está andando até ele, uma colega chamada Susie está carregando um aquário cheio de água.

Susie tropeça na frente da professora e despeja inexplicavelmente a água no colo do menino. O menino diz interiormente: 'Obrigado, Senhor! Obrigado, Senhor!'

Nada além de uma ilusão

  (ilustração: “São Jerônimo e o Anjo”, Simon Vouet)
 

Tem coisas nesta vida que eu acho que somente as prostitutas enxergam com clareza.

Não me refiro àquelas garotas de programa blasés de Beverly Hills, às louronas turbinadas de 50 mil dólares o fim de semana. Penso naquelas moças meio cabírias, meio irmas-la-douce, meio santas-rosinhas-do-mangue, meio terezas-batistas-cansadas-de-guerra. As da vida real.

Penso nisso porque estávamos conversando sobre literatura. Escritor chorando-pitanga é um espetáculo divertido, porque cada um quer contar a maior vantagem e a desgraça maior, ao mesmo tempo. Meu livro não vendeu nada, meu editor não me compreende, minha capa ficou um presepe, a livraria botou na estante errada, o crítico disse que o livro de fulano é melhor que o meu... E por aí vai.

E eu me lembrei de uma matéria sobre prostituição urbana que li muitos anos atrás, num daqueles jornais da imprensa nanica, não sei se foi no “Versus” ou no “Movimento” ou em outro.

O repórter estava entrevistando uma prostituta jovem, e ela explicou que ia para o puteiro logo de manhã, porque o movimento lá começava cedo.

-- Eu pego uns dez ou doze fregueses durante o dia – explicou ela – aí de noite eu volto pra casa, meu namorado tá me esperando, aí eu dou umazinha com ele e vou dormir.

O repórter disse:

- Mas depois de transar o dia inteiro você ainda tem disposição pra transar, quando chega em casa?

E ela respondeu:

- Ah... é a ilusão do amor...

Eu guardei essa frase como quem guarda um cheque nominal, cheque aliás que já descontei tantas vezes e permanece com saldo. O que nos leva a continuar publicando livros que só nos dão trabalho, “muído”, dor de cabeça, contrariedades e até prejuízos? O que nos leva a continuar insistindo nisso? É a ilusão do amor.

Não existe nada mais abstrato do que o público que lê um autor, qualquer um. É um conjunto de individualidades que nunca formam um coletivo, que raramente se agrupam sob um mesmo teto, que não se conhecem entre si, e que ao se conhecerem (“Puxa vida, você também lê Valêncio Xavier?!...”) tanto podem cair nos braços uma da outra quanto observar-se com ciúme e desconfiança pelo resto da vida.

Se escritor já é uma criatura que não presta, avalie leitor.

E no entanto é para alegrar essa irmandade desunida que o escritor gasta sete sapatos de ferro correndo de editora em editora, submetendo-se às brincadeirinhas da imprensa popularesca em troca da glória duvidosa de uma resenha com foto, comparecendo a programas de TV que nunca o viram mais gordo e onde ele é coagido a informar quem é e o que faz, e ir embora mais cheio de dúvidas existenciais do que chegou.

É a ilusão de quem em algum rincão remoto do país o seu gracejo produziu uma risada, que a sua cena de suspense eriçou pelos, que ao ler a sua reflexão crítica algum leitor ou leitora fechou o livro, marcando o lugar com o dedo, ergueu o olhar para a parede e murmurou: “Puta que pariu, é exatamente isso”. Isso para um autor equivale a um passaporte para o céu; mas que não passe disso.

Se for para passar, que tal um cheque ou depósito mensal, do tipo “faço isso para garantir que o senhor continue escrevendo”? O autor se derramaria em gratidão diante dessa bênção protegida pelo anonimato. (E não estou fantasiando – aconteceu com Tchaikóvski.)

O que nos move é a ilusão de que esses fantasmas ambulantes que compram nossos livros irão nos mandar, de Coromandel ou de Ituiutaba, pelo menos uma postagem telepática de agradecimento por uma frase bem escrita, um diálogo na-mosca, uma descrição vívida, uma idéia estimulante, um tipo inesquecível. Mesmo quando não seja bem o caso.

A maioria dos autores, sei muito bem, estremeceria de terror ante a idéia de que algum desses leitores viesse bater à sua porta para agradecer. “Não! Agradeça lá de longe!”, diria ele, porque se sente mais à vontade amando a humanidade à distância, de onde é mais fácil retocar suas qualidades e maquiar seus defeitos. Ele ficaria mais que satisfeito com um email, aquelas mensagens na linha do curto-demais-o-que-o-senhor-escreve.

Por mais afável que ele pareça à primeira vista, um autor é em geral alguém que se sente melhor entre poltronas, luminárias e silêncio do que entre gente que o cobre de elogios.

Um escritor é, mal comparando, como uma mulher que se veste elegantissimamente mas tem vergonha de ficar nua à vista alheia, porque sabe o corpo que tem. O autor quer a ilusão de ser amado, por suposto; mas ele não quer ser amado pela criatura quasímoda que sabe ser, mas pelo que escreve, e que são as coisas boas que ele tem para dar ao mundo.

E é por essa mesma razão que o escritor cobra para escrever.

Sei que muitos escritores fazem questão de escrever de graça, dar palestras de graça, ministrar aulas de graça, participar de eventos de graça, e assim por diante. Estão no seu direito, mas não têm o direito de se horrorizar quando a gente diz: “Faço, mas faço por mil reais”.

Uma vez me ligaram de uma grande publicação brasileira, de circulação nacional, com centenas de empregados e milhões de reais em faturamento. Queriam um texto assim-assim, para uma matéria com a temática tal-e-tal (muito interessante, aliás), com umas duas laudas, etc e tal. Eu falei que faria, e disse meu preço para isso, 500 reais.

O funcionário refugou:

- Olha, seria uma colaboração gratuita, mas que vai te dar muita visibilidade, vai divulgar teu nome, teu trabalho... Nós não temos verba para pagar por esse texto.

Eu me senti tão miserável que pedi:

- Então faz o seguinte. Me paga 50 reais, e tudo bem.

- 50 reais? – espantou-se ele. – Por que?

E eu disse:

- Ah... é a ilusão do profissionalismo... 
 
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

Versículos do dia

Buscai ao Senhor, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do Senhor.
 
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

domingo, 14 de julho de 2019






O Pessimismo é Excelente para os Inertes

O Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o caráter pungente de uma injustiça especial, cometida contra o sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho - porque nos sentimos escolhidos e destacados para a Infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo - se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado nos céus para o envolver a ele unicamente - enquanto em redor toda a humanidade se movesse na benignidade de uma Primavera? (...) O Pessimismo é excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da Inércia.

Eça de Queirós, in 'A Cidade e as Serras'



Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in "Diário (1982)"
Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.
Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o ato de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?

 
Mia Couto, in 'E Se Obama Fosse Africano?'