terça-feira, 27 de junho de 2017

Tabacaria - Fernando Pessoa


Anti-Freud

Freud não está tendo uma boa posteridade. A psicanálise como terapia foi em boa parte ultrapassada pelo tratamento químico
Li uma resenha de um livro de ensaios do crítico literário Frederick Crews intitulado “Follies of the Wise” (mais ou menos “Loucuras dos sábios”), em que ele critica diferentes formas de irracionalidade que aspiram à respeitabilidade intelectual e científica — coisas como criacionismo e “design” inteligente opostos a evolucionismo etc. — e inclui entre elas todo o corpo teórico e experimental de Sigmund Freud.

Crews não admite nem que, se muitas das suas sacadas não resistem à verificação empírica e foram desmentidas pelo tempo ou ultrapassadas, mesmo assim Freud foi um pensador original, cuja influência na cultura ocidental não se pode negar.

Ele nega. Diz que a ideia do inconsciente já estava na Psicologia e na Filosofia românticas e que coisas como terapias que recorrem à memória reprimida criaram mais traumas familiares, como falsas memórias de abuso sexual na infância, do que curas.

Coloca Freud, surpreendentemente, com os metafísicos e os charlatães no mesmo lado do abismo irrecuperável que os separa da Ciência.

O resenhista lembra que Crews já foi um freudiano que, inclusive, recorria à psicanálise nos seus estudos literários, e poderia ter a mesma relação com o antigo mestre que um défroqué tem com a Igreja.

De qualquer forma, Freud não está tendo uma boa posteridade.

A psicanálise como terapia foi em boa parte ultrapassada pelo tratamento químico, e as suas teses sobre o inconsciente coletivo e sua importância no devir da História explicaram, mas não influenciaram a História.
Crews fez o contrário de Thomas Mann, que resistiu às ideias de Freud e acabou sucumbindo, tornando-se um dos seus maiores defensores e exegetas.

Mas Freud deve ter se engasgado com seu charuto ao ler o que Mann escreveu a seu respeito, que seu antirracionalismo e sua teoria da libido eram, em resumo, sem qualquer mística, romantismo com pretensão a ser Ciência.

A mesma reação que deve ter tido Marx ao ouvir que sua obra devia mais ao romantismo alemão e ao messianismo judeu do que a uma ciência da História.

Luís Fernando Veríssimo 

Luiz Gonzaga ganha primeiro clipe oficial com mais de 70 sanfoneiros - Veja o vídeo

O mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso... 


Mário Quintana 

Aguardando a noite de São Pedro


segunda-feira, 26 de junho de 2017


"É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço".

 Graciliano Ramos

Versículos do dia

Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, Daniel 2:44

Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. 2 Pedro 1:10,11

Moro às vezes é muito bonzinho

Gerson de Mello Almada, ex-vice presidente da Engevix, recorreu ao TRF-4, para diminuir a pena imposta por Sérgio Moro.
O tribunal revisou, aumentando a pena -- por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa -- de 19 para 34 anos de prisão.
Aos olhos dos desembargadores de Porto Alegre, Moro às vezes é muito bonzinho.
 
 O Antagonista

As 7 Coisas MAIS Absurdas Que Passageiros Tentaram Levar Em Aviões

Quem viajou de avião já sabe que antes de embarcar tem toda aquela burocracia de passar as malas por raio-x, andar por detectores de metais e se preocupar com o conteúdo da mala. Ninguém quer ser parado no aeroporto por estar carregando algo que não deveria e ter que passar por apuros na hora de viajar.
Apesar disso, muita gente tenta driblar os equipamentos e as autoridades. Muitas vezes, as tentativas são bizarras para transportar os mais diversos tipos de bagagem ilegal. Drogas, animais e até mesmo pessoas já foram escondidas por passageiros.
Seja por inocência ou por intenções criminosas, as pessoas não tem vergonha na hora de tentar carregar aquela bagagem diferenciada. Confira algumas das coisas mais bizarras que passageiros já tentaram levar para dentro dos aviões.
Loris
Durante uma viagem de Dubai para Nova Déli, na Índia, um homem tentou entrar no avião com uma surpresinha dentro das calças. Escondido dentro da cueca do passageiro, estava um pequeno Lóris – um primata ameaçado de extinção com cerca de 17 centímetros.
Uma tartaruga disfarçada de hambúrguer
Ao passar pelo raio-x de um aeroporto na China, um homem foi parado após uma imagem suspeita. Dentro de uma caixinha de um hambúrguer do KFC, apareciam pequenas pernas no lugar onde deveria estar o sanduíche. O homem negou que estivesse carregando algo além de comida, mas a polícia encontrou uma tartaruga no lugar da comida. Segundo o chinês, ele apenas queria viajar na companhia do animal de estimação. A tartaruga foi impedida de embarcar com o dono e foi deixada com um amigo do rapaz.
Uma faca disfarçada de prendedor de cabelo
Também na China, após passar por um detector de metais antes de entrar na sala de embarque de aeroporto, uma mulher foi parada. Quando os fiscais checaram seu estranho prendedor de cabelo, encontraram uma faca. Segundo a mulher, ela estava embarcando com muitas frutas compradas na viagem e achou que poderia usar a faca para cortá-las ali mesmo.
Uma garrafa de conhaque
A lei chinesa não permite que passageiros carreguem garrafas com mais de 100ml de líquido nos aviões. Para o azar da chinesa Zhou, a garrafa de conhaque que ela queria carregar no avião continha 700ml da bebida. Para evitar o desperdício do dinheiro gasto com a garrafa, a chinesa decidiu beber tudo de uma vez, ali mesmo no aeroporto. Após ficar bêbada, rolar no chão e gritar por todos os lados, foi impedida de voar por estar muito embriagada.
Um monte de girinos
Na Coreia do Sul, uma mulher que tentava embarcar com uma garrafa d’água foi impedida. Os fiscais do aeroporto disseram que ela deveria beber o líquido ou jogar a garrafa fora. A mulher decidiu tomar o conteúdo da garrafa, mas não engoliu, o que instigou os oficiais. Eles ordenaram que ela cuspisse a bebida num balde e ficaram chocados ao perceber que havia uma porção de girinos. A coreana explicou que ganhou os animais de presente e não queria jogá-los fora, o que os fiscais fizeram sem remorso.
Um gesso na perna feito de cocaína
Para tentar sair do Chile com 5 kg de cocaína, um homem tentou uma ideia das mais inusitadas. Fingindo uma lesão na perna, toda engessada, o homem escondida porções da droga dentro do gesso e numa caixa de cerveja que levava no embarque. Mas o que surpreendeu a polícia foi que o suposto gesso da perna do rapaz era feito inteiro de cocaína.
Uma criança de 8 anos
Uma jovem espanhola, de 19 anos, tentou entrar no país carregando uma criança dentro da mala. Após mostrar um comportamento estranho, foi abordada pela polícia, que suspeitava que ela traficava drogas. A criança marroquina era carregada dentro da mala para ser levada para a Espanha de forma ilegal. Além da jovem que levava o menino, os pais da criança também foram presos.
É até difícil de acreditar que as pessoas tentam levar tanta coisa estranha num avião. É realmente bizarro conhecer as motivações mais malucas para as bagagens mais estranhas.


 Curioso

domingo, 25 de junho de 2017

Agnaldo Rayol - New York New York


Alquimia

Naquela mistura
fumegante e colorida
que a pá
não pára de agitar
vê-se
o infinito olhar de um morimbundo
o primeiro olhar de um primeiro amor
um trem a passar numa gare deserta
uma estrela remota um pincenez perdido
o sexo do outro sexo
a mágica de um santo carregando sua própria cabeça
e de tudo
finalmente
evola-se o poema daquele dia
- que fala em coisa muito diferente... 


Mário Quintana

Charge


Cenário

Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.


Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
— e eram sonhos sem fim, de cada lado.


Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.


Que vento, que cavalo, que bravia
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?


Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.


As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.


De coração votado a iguais perigos
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos


Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.


Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,


tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.


Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,


por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.


Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.


Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.


Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!


Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.


E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.


Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.


E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.


Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes


— parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.


Isabéis, Dorotéias, Heliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas


em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.


Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.


Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília… — quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?


Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?


Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.


O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,


vejo uma forma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.


Eloquência da simples despedida:
“Adeus! que trabalhar vou para todos!…”
(Esse adeus estremece a minha vida.)


Cecília Meireles 

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

Florbela Espanca

Idealização da Humanidade

Futura Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!–
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam!No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais! 
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão... 
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação,


Augusto dos Anjos

A Barca e a Carroça

Por causa do meu trabalho recente com teatro, tenho voltado a encontrar algumas dessas imagens que nunca nos largam. Imagens associadas a um gênero narrativo. Elas são como um pequeno objeto que a gente toma nas mãos, fica mudando de posição, e cada ângulo nos revela uma informação nova.

A imagem do momento é a da Barca, porque a companhia teatral com quem tenho trabalhado é a Barca dos Corações Partidos, do Rio.

Bastaria esse nome para ganhar meu voto, porque isso por um lado me lembrava o “Mote do Navio” de Pedro Osmar (“Lá vem a barca / trazendo o  povo, / pra liberdade / que se conquista”) e por outro evocava o Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta.

Por falar em Pimenta, o “Mote do Navio” de Pedro, uma música que é a cara do seu grupo em João Pessoa, o Jaguaribe Carne, foi gravado por Lenine no CD que fez em 1983 com Lula Queiroga, o Baque Solto (PolyGram).

“Lá Vem a Barca” era também o nome do show que eu, Fuba e Tadeu Mathias fazíamos à meia-noite no Teatro Lira Paulistana, em São Paulo, em 1980. Uma temporada que me abriu os olhos musicalmente, levando-me a conhecer, na amizade com o pessoal do teatro (alô Gordo, Fernandão, Riba, Chico Pardal, Plínio, Inimá) a música do Rumo, de Itamar Assumpção, do Premê, de Arrigo Barnabé, do Língua de Trapo.

A canção de Pedro Osmar servia como anúncio de uma Nau Catarineta mística que nos traz a liberdade. Uma espécie de Sebastianismo marítimo, ao qual nem mesmo Bob Dylan ficou imune; basta lembrar “When the Ship Comes In” (1963).

Esse arquétipo da Barca significa algo que está vindo e que vai trazer para nós um mundo melhor. Ou, dependendo do poeta, nos levar para um mundo que seja melhor do que esta coisa-sem-jeito em que vivemos. Pode ser a Arca de Noé que nos salva de um cataclismo, e pode ser o navio que depois de longo sofrimento nos resgata na ilha deserta em que nos aguentamos.

A Barca, “enquanto” elemento mítico narrativo, pertence a uma extensa família de espaços fechados que conduzem no seu interior uma memória cultural inteira.

Roland Barthes, em Mitologias (1957), citava como exemplo o “Nautilus” de Julio Verne em Vinte Mil Léguas Submarinas (1870). Um submarino cheio de obras de arte, instrumentos científicos, biblioteca de milhares de livros, tudo isso num tubo de metal e vidro viajando pelo fundo do mar. Um conceito terminal de condomínio fechado. Com o agravante de ser também um vaso de guerra.

Foi nessa altura que me ocorreu que a Barca, transposta para a terra, vira a Carroça. Pode ser o carro-de-bois que geme com seus viajantes em qualquer livro regionalista, e pode ser a carroça de um circo ambulante.

Pode ser a carruagem que cruza com ousadia o território infestado de índios em No Tempo das Diligências de John Ford (1939) e pode ser a trupe ambulante da commedia dell’arte do filme As Aventuras do Capitão Tornado (1990) de Ettore Scola.

Tudo isto faz lembrar também a “Barraca” com que o poeta e dramaturgo Garcia Lorca percorria a Espanha montando autos em praça pública, e que tanto influenciou o jovem Ariano, Hermilo Borba Filho e seus companheiros no Teatro do Estudante de Pernambuco, nos anos 1940, quando ele escreveu Uma Mulher Vestida de Sol (1947).

Remete também à trupe teatral de Monsieur Binet em que André Luís Moreau descobre o teatro e se transforma em Scaramouche, no romance de Rafael Sabatini (1921). Remete ao Circo ambulante que Dom Pedro Dinis Quaderna planeja botar na estrada no final do Romance da Pedra do Reino.

A Barca, que é ao mesmo tempo uma Carroça, expressa para alguns a volúpia da vida nômade, da vida cigana. Bruce Chatwin tinha uma teoria de que o sedentarismo e a civilização tinham estragado a aventura humana, o “sonho de Adão” como disse Gilberto Gil. Nascemos para ser nômades, pastores, viajantes; nascemos para ser leves e aventureiros.

Como disse Deus a Tonheta em Brincante (1992): “Nessa carroça seguirás pelo mundo, depois de nela colocar tudo que tens; e durante o resto da tua vida não poderás possuir nada que nela não possa caber”.

É uma prescrição de desapego. De que adianta sair em aventura pelo mundo levando a banheira de água quente, a poltrona de leitura, dez baús de roupa, todos os automóveis da família? Não, amigo. Terás direito a uma carroça, não mais.

Quando um grupo de artistas (circo, música, etc.) sai de mundo afora numa carroça, mais do que o espaço físico importa a mescla social e psicológica de tantos tipos humanos em interação permanente ao longo da rotina da estrada. E das surpresas da estrada.

Nesse sentido, esses filmes de super-heróis coletivos, como X-Men, lembram os filmes sobre circo. Ali, cada personagem se distingue e se afirma pela façanha que é capaz de realizar, mas, tirando esse aspecto excepcional, são pessoas tão complicadas e tão pouco heróicas quanto qualquer um de nós.

Em todo coletivo humano, existe um fator de nivelamento (coisas que todos sabem fazer, com a mesma competência, ao mesmo tempo, solidariamente) e um fator de individuação (coisas que somente um sabe fazer de forma excepcional). As posições dos jogadores, no futebol, exprimem um pouco disso.

Dizem que a história folclórica da “Branca de Neve e os Sete Anões” referia-se aos anões sempre coletivamente: eles não tinham nome, nem perfil próprio. Foi Walt Disney (ou alguém a quem ele pagava um ótimo salário) quem teve a idéia de personalizar os anões, transformando-os em Mestre, Zangado, Feliz, Soneca, Atchim, Dengoso e Dunga.

Todo agrupamento que viaja numa Barca ou numa Carroça precisa disso. O coletivismo solidário e a individualidade marcante.

Esta é uma das coisas que precisamos não esquecer, nos tempos que virão.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

sábado, 24 de junho de 2017

Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.

Manoel de Barros