terça-feira, 25 de julho de 2017

Não te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.


Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


Pablo Neruda 

Versículos do dia

Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou. 1 Reis 19:18

Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, Efésios 3:14,15

Previna-se


Exigências da vida moderna

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C.

Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.

Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.

Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).

Cada dia uma Aspirina, previne infarto.

Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.

Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.

O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.

E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia… E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.

Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito.

As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.

Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.

Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.

Na minha conta são 29 horas por dia. A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!

Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes.
Chame os amigos junto com os seus pais.

Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.

Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.

Agora tenho que ir.

É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal… Tchau!

Viva a vida com bom humor!!!

Luis Fernando Veríssimo 

Puritanismo ou depravação

Tenho feito muitas críticas às letras escrachadas dos falsos forrós que tocam por aí, o que tem me merecido respostas no tom de: “Que moralismo é esse? O tempo da ditadura acabou”.
Essa resposta coloca uma questão interessante, porque, como se sabe, os anos da ditadura militar não tiveram apenas Censura política, mas também uma rígida censura de costumes. Nudez, palavrão, gandaia, referências a sexo, tudo isso era perseguido, proibido, cortado.

É um milagre que um jornal como “O Pasquim”, para citar apenas um exemplo, tenha conseguido publicar tudo que publicou. E que autores como Henry Miller tenham sido traduzidos e editados no Brasil durante esse período.

O que há é que com o fim da ditadura houve um “liberou geral” na imprensa, nas artes, na TV, na música. Foi uma melhora? Sem dúvida. Mas a melhora está ficando tão histérica que está acarretando uma piora na direção oposta.

E isto se deve ao fato, repetidamente afirmado nesta coluna, de que saímos da Ditadura Militar para a Ditadura do Mercado, que em alguns aspectos é mais confortável de viver do que a outra, mas a longo prazo é igualmente prejudicial.

Na ditadura militar, tudo era proibido. Na Ditadura do Mercado, tudo é mercadoria, tudo pode ser comprado com dinheiro, porque este é o valor que as pessoas mais prezam.

Na ditadura militar, as mulheres eram proibidas de mostrar o corpo. Na ditadura do mercado, as mulheres mostram o corpo, não porque se liberaram do moralismo, mas porque são encorajadas a se oferecer como mercadoria.

O Discurso Puritano interessava à ditadura militar, comandada por generais tradicionalistas e conservadores. Defendiam uma moralidade ascética, reprimida e repressora, inspirada na religião.

Já o Discurso Depravado interessa à ditadura do mercado. Sua estratégia é ditada por empresários cujo objetivo é o acúmulo rápido de dinheiro, pregando o consumo em alta escala e o cultivo de um estilo de vida hedonista, voltado para o desfrute de todos os prazeres oferecidos aos que são ricos e jovens.

Esta segunda ditadura, que a cada ano manda mais na indústria cultural brasileira, precisa ser tão questionada e combatida quanto a anterior. As duas são o extremo oposto uma da outra, mas as duas têm o mesmo efeito nocivo: amputar a totalidade da experiência humana, sabotar a liberdade, pegar populações de jovens e prepará-las cuidadosamente para obedecer aos seus comandos como um rato de laboratório.

Há trinta anos, a ditadura militar oferecia segurança e exigia repressão sexual. Hoje em dia, a ditadura do mercado oferece desfrute sexual ilimitado e está impondo um jogo cuja regra é: “Tudo tem preço. Quanto é o seu?”

Quanto é que você cobra para fazer algo que você é contra?

Quanto cobra pelo seu filho, pela sua filha, pela sua mãe?

Quanto é a aposta que eu vou lhe fazer uma proposta irrecusável?

Quanto é a aposta que meu dinheiro vale mais, para você, do que você mesmo?

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Acusação x defesa: respeito ou “a despeito de…”?

O frequente conflito processual entre acusação e defesa tem chegado a níveis alarmantes. Não são raros os embates que fogem da urbanidade e do tolerável. Há Promotores que tentam criminalizar a atividade da Advocacia – inclusive requerendo a remessa de cópias de documentos para a autoridade policial –, enquanto alguns Advogados se valem de críticas contra o próprio acusador, e não contra as alegações deste.

A questão é: essa relação conflituosa deve manter o respeito ou basta uma indiferença entre si, a despeito de não suportarem os posicionamentos do lado adverso? Ou, por outro lado, esses conflitos, inclusive de ordem pessoal, são necessários para que se tente reconstruir a inatingível “verdade real”?

Esse é um fator que não é preciso por meio de um cálculo aritmético. Dependendo do caso e contra quem se atua, a acusação e a defesa constroem diferentes percepções. Há acusadores e defensores que se colocam em total indiferença ao processo penal, desejando apenas o fim da audiência ou a entrega de uma peça processual que, conquanto medíocre, foi protocolizada no prazo. Por outro lado, no outro extremo, há membros do Ministério Público, Advogados e Defensores Públicos que pessoalizam determinados processos – raramente conseguem pessoalizar todos os processos em que atuam –, colocando-se no papel da vítima – no caso do Ministério Público – e do acusado – no caso dos Advogados e Defensores.

Em outras palavras, por meio de um sentimentalismo exagerado – em alguns casos é apenas pelo ego –, pessoalizam tanto o processo que se consideram vítimas maltratadas ou acusados de forma injusta. Em razão desse exagero, abandonam os conhecimentos jurídicos e partem para ataques pessoais durante as audiências, críticas em corredores dos fóruns ou grupos de WhatsApp etc. Esquecem-se do processo e dos fatos e passam a focar apenas no indivíduo (acusador ou defensor) que se encontra do outro lado.

Qual é o limite da pessoalização? Diria que, para o Advogado, é se colocar no papel do acusado como se fosse ele, mas sem os excessos que subverteriam o caráter técnico de sua atividade. Não compreendemos o sofrimento da prisão e de ter contra si uma imputação penal se não pensamos no que o acusado sofre, mas não tentamos encerrar ou minorar esse sofrimento se permanecermos tão imersos na situação pessoal do acusado que o desempenho técnico reste prejudicado.

Assim, o Advogado precisa deixar de ser indiferente e, de fato, indignar-se com as injustiças que ocorrem diuturnamente no processo penal. Entretanto, não pode exagerar no sentimentalismo que atrapalhe o exercício racional do seu múnus.

Da mesma forma, Promotores precisam compreender o sofrimento das vítimas e, por conseguinte, devem buscar a devida apuração dos fatos criminosos. Contudo, essa aproximação não lhes permite buscar a vingança pessoal – como algumas vítimas querem – por meio do cargo público que ocupam. Caso contrário, o Ministério Público seria descartável, bastando que as imputações fossem feitas pelas próprias vítimas.

Em tempos de padronização de peças processuais pela acusação e pela defesa, é imprescindível uma aproximação em relação àqueles envolvidos no processo penal (vítima, réu, familiares etc.). Entretanto, essa aproximação não deve ser tão intensa para que não afete a racionalidade e a técnica daqueles que se propõem a analisar, de forma jurídica, as possibilidades acusatórias e defensivas. Destarte, é possível que acusadores e defensores mantenham um mínimo de respeito, a despeito de possuírem visões distintas acerca do processo penal.

Fonte aqui

Frase

Nós somos um país da lei que não pega, um país do jeitinho, da impunidade, campeão de linchamento. Somos um país onde o preso não é preso.

Roberto Sá, Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro

Percival Puggina


Este vídeo é um daqueles que te faz sentir um frio na espinha.

O Escritor e Jornalista, Percival Pugina, contextualiza de uma maneira única parte da nossa realidade. Aumente o volume e confira.

Mantenha-se informado sobre nossa próxima série e, caso não tenha feito sua inscrição, acesse: http://bit.ly/2uo5viY

Brasil Paralelo 

Quantos fardos você tem carregado?

Pelo caminho encontrou um transeunte que lhe perguntou: 
- Cansado viajante, por que carrega essa pedra tão grande?' 
- É estranho, mas eu nunca tinha realmente notado que a carregava. 
- Então, ele jogou a pedra fora e se sentiu muito melhor.
Em seguida veio outro transeunte que lhe perguntou: 
- Por que carrega esse saco de terra tão pesado?
- Estou contente que me tenha feito essa pergunta, disse o viajante, porque eu não tinha percebido o que estava fazendo comigo mesmo. 
Tornou-se um homem livre e caminhou mais tranquilo e mais feliz. 
Qual era na verdade o problema dele? A pedra, o saco de terra? Não. Era a falta de consciência da existência desses pesos. Uma vez que as viu como cargas desnecessárias, livrou-se delas bem depressa e já não se sentia mais tão cansado.

Prof. Menegatti

domingo, 23 de julho de 2017

Fernanda Takai - O ritmo da chuva

O pai



Quando começo a escrever deixo de ser dono de mim mesmo. Fico à mercê de ideias que nunca pensei. Elas aparecem sem que eu as tenha chamado e me dizem: “Escreva!“ Não tenho outra alternativa. Obedeço. Cummings, referindo-se a um livro seu, ao invés de dizer “quando eu escrevi esse livro“, disse “quando esse livro se escreveu.“ Não foi ele… O livro já estava escrito antes, em algum lugar. Ele só fez obedecer as ordens que o livro lhe deu. Nikos Kazantzakis, autor de Zorba, o Grego, confessou que as letras do alfabeto o aterrorizavam. E isso porque, uma vez soltas, elas se recusavam a obedecer as suas ordens. “As letras são demônios astutos e desavergonhados — e perigosos! Você abre o tinteiro e as solta: elas correm — e você não mais conseguirá trazê-las de novo para seu controle! Elas ficam vivas, juntam-se, separam-se, ignoram suas ordens, arranjam-se a seu bel-prazer no papel — pretas, com rabos e chifres. Você grita e implora: tudo em vão. Elas fazem o que querem…“

Era meu costume tentar colocar ordem na casa: planejar, determinar de forma lógica e metódica os temas sobre que eu iria escrever. Foi assim que resolvi escrever um livro em que colocaria em ordem e diria tudo o que eu havia pensado sobre a educação. O título seria: A erótica da educação e a educação da erótica. Por cinco anos lutei. As idéias não me faltavam. Mas as palavras se recusaram a me obedecer. O dito livro não queria ser escrito. Wittgenstein passou por experiência semelhante. Por muitos anos ajuntou ideias. Aí, tentou ordená-las sob a forma de um texto filosófico. Eis o que aconteceu, em suas próprias palavras: “Depois de várias tentativas mal sucedidas de fundir meus resultados numa peça única, percebi que eu nunca haveria de ser bem sucedido. O melhor que eu poderia escrever seria nada mais que anotações filosóficas; os meus pensamentos ficavam logo paralisados se eu tentava forçá-los numa única direção contra a sua inclinação natural.“ 

Pois eu não tinha intenção alguma de escrever sobre o dia dos pais. Mas, de repente, passando os olhos num livro que uma amiga me enviou, encontrei a seguinte afirmação: “Tomar uma decisão de ter um filho é algo que irá mudar sua vida inteira de forma inexorável. Dali para frente, para sempre, o seu coração caminhará por caminhos fora do seu corpo.“

Aí as ideias puseram a se movimentar por conta própria. Pensei na minha condição de pai. É verdade: pai é alguém que, por causa de um filho, tem sua vida inteira mudada de forma inexorável. Isso não é verdadeiro do pai biológico. É fácil demais ser pai biológico. Pai biológico não precisa ter alma. Um pai biológico se faz num momento. Mas há um pai que é um ser da eternidade: aquele cujo coração caminha por caminhos fora do seu corpo. Pulsa, secretamente, no corpo do seu filho (muito embora o filho não saiba disto).

Lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai, diante dos meus filhos adormecidos. Veio-me à mente a imagem de um “ninho“. Bachelard, o pensador mais sensível que conheço, amava os ninhos e escreveu sobre eles. Imaginou que, “para o pássaro, o ninho é indiscutivelmente uma cálida e doce morada. É uma casa de vida: continua a envolver o pássaro que sai do ovo. Para este, o ninho é uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal.“ Era isso que eu queria ser. Eu queria ser ninho para os meus filhos pequenos. Queria que meu corpo fosse um ninho-penugem que os protegesse, um ninho que balança mansamente no galho de uma árvore ao ritmo de uma canção de ninar…

Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Adormecida, a criança está dizendo: “tudo está bem; não é preciso ter medo“. Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos destinados ao abandono e ao esquecimento! A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna. Jung deveria tê-lo incluído entre os seus arquétipos! “O ninho leva-nos de volta à infância, a uma infância!“ (Bachelard). Aquela cena, a criança adormecida nos braços do pai, nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca! Que fosse eterna! 

É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança. É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai. O efêmero e o eterno abraçados num único momento! “Conter o infinito na palma da sua mão e a eternidade em uma hora“: o pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! Essas palavras do poeta William Blake bem que poderiam ser suas. Um homem que guarda memórias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser calma! 

Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho. Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. E serão os olhos do pai, no espaço que seus braços já não podem conter, que irão marcar os limites do ninho. A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também são colos. Olhos também são ninhos. “Não tenha medo. Estou aqui! Estou vendo você“: é isso o que eles dizem, os olhos do pai.

O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido – desde que seja fácil voltar. Tela de Van Gogh. É um jardim. No lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho. É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução. É certo que o filho largará a mão da mãe e virá correndo para o pai… E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade…

O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam do olhar tranquilizador do pai. É a adolescência. Ser pai de um adolescente nada tem a ver com ser pai de uma criança. Pobre do pai que continua a estender os braços para o filho adolescente, como na tela de Van Gogh! Seus braços ficarão vazios. Como se envergonharia um adolescente se seu pai fizesse isso, na presença dos seus companheiros! É o horror de que os pássaros companheiros de vôo o vejam como um pássaro que gosta de ninho! Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas. Os ninhos, agora, só servem como pontos de partida para vôos em todas as direções. Liberdade, voar, voar… A volta ao ninho é o momento que não se deseja. Porque a vida não está no ninho, está no vôo. Os ninhos se transformam em gaiolas. Se eles procuram os olhos dos pais não é para se certificar de que estão sendo vistos mas para se certificar de que não estão sendo vistos! Aos pais só resta contemplar, impotentes, o vôo dos filhos, sabendo que eles mesmos não podem ir. Nos espaços por onde seus filhos voam os ninhos são proibidos. Mas eles terão de voltar ao ninho, mesmo contra a vontade. E o pai se tranquiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: “Ele voltou…“

Mas chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. 

Através da minha janela vejo um ninho que rolinhas construíram nas folhas de uma palmeira. A pombinha está chocando seus ovos. Vejo sua cabecinha aparecendo fora do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira há um outro ninho, abandonado. Esse é o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
Gibran Khalil Gibran escreveu, no seu livro O Profeta, um texto dedicado aos filhos. Não sei de cor suas precisas palavras. Mas vou tentar reconstrui-las. É aos pais que ele se dirige. “Vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são flechas. Vós sois o arco que dispara a flecha. Disparadas as flechas elas voam para longe do arco. E o arco fica só.“

Esse é o destino dos pais: a solidão. Não é solidão de abandono. E nem a solidão de ficar sozinho. É a solidão de ninho que não é mais ninho. E está certo. Os ninhos deixam de ser ninhos porque outros ninhos vão ser construídos. Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que eles deverão retornar.

Assim é na natureza. Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também. Mas não é. Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho. Dito pela Adélia: “Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele.“ Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: “Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua…“

Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora. 

Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Rubem Alves 

Fui Eu

Em nome da angústia: uma meditação sobre a morte



O suicídio de Virginia Woolf em 28 de março de 1941 é um dado biográfico absolutamente especial. Ele faz pensar em aspectos da morte e do morrer. No gesto de cancelamento da vida pela qual optou a escritora, podemos ver a depressão e a melancolia, ou a fuga de um mundo em guerra em tempos fascistas, inevitavelmente deprimentes para quem se mantinha ética e politicamente sensível. Talvez ainda Virginia Woolf tenha praticado um último ato no sentido do direito à morte como direito de luta pela liberdade que é própria à vida pensada como categoria ética e política. Quem vai saber?

Quem se contenta em resolver o problema da morte com aquela frase do filósofo Epicuro “não conhecemos a morte porque, quando ela chega, já não estamos presentes” sabe que se trata de uma frase de efeito que pode servir, em última instância, para evitar uma reflexão capaz de produzir muita angústia. Em tempos fascistas como os nossos, tempos que se repetem historicamente, mais do que nunca, é preciso pensar sobre a morte e renovar nossa relação com a angústia. A angústia tem algo a nos ensinar, que não precisamos nos matar e que não devemos matar os outros.

Ora, vivemos em tempos fascistas, tempos em que há muitas práticas de morte, morte por descaso e assassinato, e nenhuma reflexão sobre ela. Pensar na morte pega mal na era da felicidade banal típica desses tempos em que toda angústia é evitada. O fascista não sente angústia. E isso porque a morte não é, para ele, uma alternativa. Ele não lembra que vai morrer. Ele não morre simbolicamente como acontece às pessoas em geral algumas vezes na vida. Ora, o fascista não morre porque não pode morrer. Não morre justamente porque, como o confirma sua rigidez, ele já está morto.

Vida como categoria política

Antes de ser uma categoria médica ou biológica, a vida é uma categoria política. Como categoria política, a vida implica a nossa potência para a relação simbólica com o outro que é sempre uma relação de reconhecimento. Aquele que não reconhece a alteridade está morto. Está politicamente morto. Ora, quem está politicamente morto, está morto.

O cadáver é a objetificação total. Nele não há mais chance de estabelecer relação com o outro. Há cadáveres vestidos de morto fingindo estar vivos. De paletó e gravata eles dão as regras do jogo – sempre político – dos outros que, juntos, permanecem vivos. O cadáver veste a fantasia do político profissional e sobe ao palco espetacular dos meios de comunicação. Ali ele lança seu vômito apodrecido contra a dança da vida que é a dionisíaca dança da diferença.

No cenário político brasileiro, há quem, sendo sensível como Virgínia Woolf, pense que seria melhor morrer de vez. Há quem se deprima e pense em se matar. A depressão também é uma categoria política.

Fascista, a propósito, é um termo genérico que traduz uma expressão mais específica: personalidade autoritária. Em alta em nossa cultura ela nasce da cópula entre a paranoia e a ignorância. O outro não passa, no seu regime, de “tudo o que não presta” e que deve ser eliminado.

A fantasia da morte pode ser uma real perda de tempo, mas a meditação sobre a morte já ensinou muitos filósofos a viver. O tabu no qual o suicídio se tornou nos impede de ver o doloroso ensinamento de Virginia Woolf morrendo em um mundo morto sem chance de reinventar a vida.

Hoje não basta evitar falar do suicídio ou evitar praticá-lo. Seria preciso reinventar a vida. Essa reinvenção é necessariamente política. A pergunta que podemos nos colocamos é se um fascista seria, no atual momento político, capaz de meditar sobre sua própria morte.

Márcia Tiburi