segunda-feira, 1 de junho de 2020


Humor

O juiz pergunta ao réu:

- Idade?
- 35 anos
- É casado?
- Sim.
- Com quem?
- Com a minha mulher.
O juiz irritado:
- Conhece alguém casado com um homem?
- Sim.
- Quem?
- A minha mulher.

O bilaquenao Augusto dos Anjos

Augusto e Olavo
 
O aniversário de Augusto dos Anjos aconteceu algumas semanas atrás, e voltou à discussão o episódio, talvez verdadeiro, ocorrido com Olavo Bilac. Quando se noticiou a morte do poeta paraibano, em Leopoldina, a notícia repercutiu no Rio de Janeiro, onde Augusto tinha morado até pouco tempo atrás. No Rio ele lançara seu livro Eu, e tinha vários amigos e admiradores.

“Morreu o poeta Augusto dos Anjos”, disse alguém, talvez na porta de uma livraria na Rua do Ouvidor, ou na calçada da Confeitaria Colombo. “Quem é?”, perguntou Bilac. O interlocutor explicou e recitou um soneto de Augusto. Bilac, desdenhosamente, atirou longe a ponta do cigarro e comentou: “Não se perdeu grande coisa”.

A ponta de cigarro é por conta do meu cacoete ficcional, mas há vários relatos dessa atitude dismissiva do “Príncipe dos Poetas Brasileiros” em relação a um anônimo, cujos versos arrevesados Bilac certamente consideraria de mau-gosto. Os relatos divergem sobre o soneto que serviu de amostra. Uns falam no clássico “Versos Íntimos” (“Vês? Ninguém assistiu ao formidável enterro...”), outros falam de “Versos a um Coveiro” (“Numerar sepulturas e carneiros, reduzir carnes podres a algarismos...”)...

Não importa; seria mesmo difícil que Bilac, poeta de imenso talento mas cheio de arrebiques, “entendesse a proposta” de Augusto, que aliás, pouca gente da época entendeu.

A diferença entre os dois é principalmente que Bilac nunca leu Augusto, mas Augusto denota ter lido Bilac. E não havia como fugir a uma influência de um poeta que, nas suas décadas de maior brilho, tinha uma presença comparável à que Carlos Drummond veio a ter meio século depois.

Um dos repertórios poéticos de Bilac era a Fantasia Heróica, inspirada na Antiguidade Greco-Romana e na Idade Média. Castelos, imperadores, príncipes, espadas, estandartes, exércitos, elmos, escudos... tudo isso fazia parte do repertório de imagens do poeta de pince-nez e bigodes bem cultivados.

Muito bilaqueano este soneto “Vandalismo”, onde Augusto dá vazão a leituras que não diferiam muito das do príncipe:

Meu coração  tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
onde um nume de amor, em serenatas,
canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
vertem lustrais  irradiações intensas
cintilações de lâmpadas suspensas
e as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
entrei um dia nessas catedrais
e nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
no desespero dos iconoclastas
quebrei a  imagem dos  meus próprios sonhos!


É um dos sonetos do Engenho Pau d’Arco, de 1904, e Bilac está todo aí, não somente na imageria medieval e templária, mas no tema tipicamente bilaqueano (e ainda tipicamente Romântico) do guerreiro derrotado no limiar das grandes conquistas, como o Fernão Dias de “O Caçador de Esmeraldas” (“Na terra que venceu há de cair vencido”). Sem falar no ritmo enumerativo (“e as ametistas e os florões e as pratas”), presentes o tempo todo em Bilac:

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
e as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
e a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios...
(“A um violinista”, em Alma Inquieta)

É bem de Bilac essa listagem de elementos que contempla a um só tempo o olho e o ouvido; e qualquer poeta brasileiro da época seguia na mesma pisada.

Bilaqueano, também, este soneto que talvez não seja tipicamente Augusto na temática, “Vencedor”, mas o é na história afetiva de quem sempre o leu e o decorou:

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
e à rutilância das espadas, toma
a adaga de aço, o gládio de aço, e doma
meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
e o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
e outro mais, e, por fim, veio um atleta,

vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
que ninguém doma um coração de poeta!

A ambientação de Fantasia Heróica é toda de Bilac, que gostava de passear por Roma, Cartago, Alexandria, Atenas; não o são alguns pequenos tropeços que um parnasiano dificilmente deixaria passar, como a repetição do “por fim” nos tercetos – e tem esse “que” do verso final, que não sei por que me soa tão paraibano substituindo o “porque”, e que um parnasiano trocaria sem perda alguma por um simples “Pois ninguém doma...”.

Num outro artigo, de tempos atrás, comentei como os dois poetas, cada qual ao seu modo, glosava o tema da palavra que não consegue corresponder à grandeza da idéia, ou das emoções tão intensas que se quedam sem expressão:


Mas Bilac era capaz também (porque num certo ponto de vista o Parnasiano é um Romântico domesticado) de certas visões que não deixam de lembrar o romantismo “negro” ou “fúnebre” que também influenciou Augusto:

(...)
Uivam os ventos funerais medonhos...
Brilha o luar... As lápides se agitam...
E, sob a rama dos chorões tristonhos,
sonhos mortos de amor despertam e palpitam,
cadáveres de sonhos...
(“Campo Santo”, em Alma Inquieta, 1902)

Ou em “Pomba e chacal” (Sarças de Fogo, 1888):

Ó Natureza! Ó mãe piedosa e pura!
Ó cruel, implacável assassina!
Mão, que o veneno e o bálsamo propina
e aos sorrisos as lágrimas mistura!

Pois o berço, onde a boca pequenina
abre o infante a sorrir, é a miniatura
a vaga imagem de uma sepultura,
o gérmen vivo de uma atroz ruína? (...)

Não é somente o tema da morte a brotar de dentro da vida, que é augustiano; é até mesmo um detalhe de dicção, como esse “pois” que inicia o segundo quarteto, e que tanto lembra Augusto e seu estilo comparativo, demonstrativo de teses, espalhado por toda sua obra: “Pois é mister que para o amor sagrado...”.

Eram reinos poéticos cujas capitais ficavam distantes mas cujas fronteiras se interpenetravam. 
 
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

Não há vagas


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

    O poema, senhores,
    não fede
    nem cheira
                                                 

Ferreira Gullar

domingo, 31 de maio de 2020

Velório em Tempos Modernos

Um rapaz chegou em um velório e a primeira coisa que perguntou foi:
- Qual é a senha do Wi-Fi?
Um parente incomodado disse:
- Respeite o morto!
E ele perguntou:
- É tudo junto?

Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.

Friedrich Nietzsche
"Para que serve um filósofo, senão para machucar os sentimentos de alguém?"

Diógenes de Sinope, o Cínico (404 a.C. - 323 a.C)
Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor.
Acho que a poesia está contida nisso tudo.

Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional... 
 

Bill Gates recomenda A grande gripe como leitura para a quarentena

Esta semana, Bill Gates divulgou em sua página do LinkedIn sua tradicional lista de recomendação de leituras para o verão, que este ano serão feitas no período de quarentena.

Um dos destaques da lista com cinco títulos é A grande gripe, de John M. Barry, sobre o surto de gripe espanhola que assolou o planeta há um século. O livro mostra como a ciência lidou com a doença e as mudanças sociais que ocorreram na tentativa de conter aquela que se tornaria a epidemia mais mortal de todos os tempos. Repleta de informações e indispensável para os tempos atuais, a obra de Barry traz do passado lições importantes que podemos adotar nos dias de hoje. De acordo com Bill Gates, “embora 1918 tenha sido uma época muito diferente da que vivemos, este livro é uma boa lembrança de que nós ainda estamos lidando com os mesmos desafios”.  

Outro título da lista é The ride of a lifetime, de Bob Iger, a biografia do CEO da Disney responsável por importantes decisões, como a aquisição da Pixar. A obra será publicada no Brasil pela Intrínseca ainda no primeiro semestre de 2020.

Confira a postagem divulgada por Bill Gates com os livros de 2020.

Estão entre as recomendações recentes de Bill Gates também mais dois livros do nosso catálogo: Um cavalheiro em Moscou, destaque da lista do ano passado e que voltou a ser mencionado esse ano; e a biografia de Leonardo da Vinci, indicação da lista de 2018.

Um cavalheiro em Moscou é uma obra de ficção que mostra com humor e leveza como alguns valores e tradições vão sendo deixados para trás ao longo da história. O cenário desse enredo é um hotel de luxo, onde um importante aristocrata é condenado à prisão domiciliar e, com o passar dos anos, acaba ficando alheio aos avanços do mundo externo. Ele decide então que é hora de estreitar os laços com os funcionários do local, e consequentemente com o que há lá fora.

Leonardo da Vinci é a biografia definitiva de um dos maiores gênios do século XVIII, escrita por Walter Isaacson, biógrafo conhecido por retratar as vidas de Steve Jobs e Albert Einstein. A obra, com mais de 600 páginas, conta a vida de Da Vinci com detalhes, abordando desde suas maiores contribuições para arte e ciência até suas facetas mais desconhecidas.  

Fonte: aqui

sábado, 30 de maio de 2020

"Toda a roupa recebe a alma de quem usa".

Mia Couto
(Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra)

Outro lado do terror do Reich: Os bordeis de Auschwitz

Prisioneiras do campo de concentração de Auschwitz - Getty Images

Em Auschwitz e nove outros campos de extermínio nazistas, todo um programa de prostituição oficial foi estabelecido.

Digamos que ela se chamasse Eva. Como a esposa de Hitler. Por motivos que ficarão óbvios, se já não são, as vítimas do tipo de atrocidade de que vamos falar não deixaram seus nomes reais. Todas são Frau A., Frau B.

Frau E. acaba de chegar ao campo de Auschwitz. Havia sido capturada por “conduta antissocial”, o termo que abrigava sem-tetos, alcoólatras, viciados, prostitutas e figuras que não eram classificadas como prisioneiros políticos. Logo na entrada, ela é separada das outras prisioneiras por um grupo da SS.

Muitas histórias corriam a respeito do que acontecia nos campos nazistas. Quem era separado na entrada eram velhos, crianças, quem não teria utilidade no trabalho forçado. Eram mandados imediatamente para o “banho” nas câmaras de gás.

E. sente que sua hora chegou. Mas os SS têm para ela não a morte imediata, mas uma proposta. É um trabalho leve, de meras duas horas por dia. Receberia uma ração extra e alojamento aquecido. Depois de seis meses, seria libertada.

Era uma proposta que não podia ser recusada. Quando ela é encaminhada para o banho, é só um banho mesmo. Sem demoras, segue-se o exame médico. Um ginecologista testa, apalpa, observa e faz perguntas sobre sua saúde, todas concentradas em sua vida sexual. Depois diz que precisa passar por uma pequena cirurgia. Que exige, porém, anestesia geral. No dia seguinte, Eva acorda com pontos no abdômen.

Ao ter alta, é apresentada a seu alojamento. No lugar de um uniforme, ganha um vestido e roupas de baixo. Coisa cara, tomada de uma vítima mais rica. E, de fato, o lugar é muito mais decente que os beliches infestados de percevejos aos quais estava acostumada. Recebe também um café da manhã. E é a mesma ração dada aos guardas. São quase 20h, hora do expediente. “Fique quieta, faça o trabalho, e nada de ruim vai acontecer”, é instruída.

Finalmente ela é conduzida ao local de trabalho. Um quarto. Antes que possa terminar de ligar os pontos, um homem adentra. É um prisioneiro como ela. Alemão, como ela. Um dos “triângulos verdes”, bandidos comuns usados pelos nazistas como força de repressão. Ouve, por trás das paredes, carrascos da SS dando risadinhas. E nota que há buracos nas paredes. Eles seriam observados.
A escolha era trabalhar ou tomar uma surra e ir parar na câmara de  gás. Sete outros a visitam naquela noite. E assim passaria a ser por três dias por semana mais as tardes de domingo. Até dez homens por dia.

Todos os dias, Frau E. podia ver pela janela a entrada do campo, logo em frente ao prostíbulo. Mas a promessa de libertação nunca seria cumprida. Algumas ganhariam trabalhos administrativos. Outras voltariam para o lugar de onde vieram. E havia também as destinadas a Auschwitz II — Birkenau, a seção de extermínio.

Eterno tabu

A história aqui contada é uma composição de diversos testemunhos, a grande maioria deles fragmentários ou dados não por quem viveu, mas por quem ouviu falar ou conversou com elas. Particularmente a descrição geral que Iga Bunalska, do Grupo de Estudos de Auschwitz, publicou num trabalho recente.

Não aconteceu apenas em Auschwitz I. Foram dez deles, como em Sachsenhausen, Dachau e Monowitz (também conhecido por Auschwitz III; um campo separado, a vários quilômetros do mais famoso. Em todos, menos Auschwitz, as prisioneiras vinham do campo feminino de Ravensbrück, de onde não só eram mandadas para bordéis em campos de extermínio como para instalações do Exército.

Numa estimativa citada por Insa Eschebach, diretora do Centro Ravensbrück, foram no mínimo 200 delas. Vinte e uma das quais trabalhavam no Bloco 24 de Auschwitz.

“Quando falamos nos bordéis, não há quase nenhuma fonte existente sobre o assunto”, afirma a historiadora. “Parece que o assunto ainda é um tabu. Depois da guerra, as pessoas fingiram que esse tema não existiu.” 

Além do profundo trauma pessoal, há um estigma da velha moral sexual. Várias das mulheres forçadas à prostituição, usando o triângulo preto, haviam sido presas por se prostituírem.

“É uma ironia que, enquanto os nazistas tentavam restringir a prostituição nas cidades alemãs, eles a institucionalizaram nos campos”, afirmou o historiador alemão Robert Sommers, autor de Das KZ Bordell (O Bordel do Campo de Concentração), em entrevista à Reuters.

Também havia o risco bem real de serem vistas como colaboradoras — e as diversas cenas de ex-amantes dos oficiais nazistas arrastadas pelas ruas e tendo os cabelos raspados pela multidão enfurecida, na liberação, mostram que, absolutamente, essa não era uma preocupação infundada.

O estigma já existia enquanto os campos estavam abertos. Num documentário para a TV pública alemã ARD, a prisioneira soviética Nina Mikhailovna, uma civil de 20 anos capturada na Bielorrússia para trabalhos forçados, que viveria em São Paulo antes de se estabelecer nos EUA, contou:
“Quando descobrimos que uma garota no nosso bloco foi escolhida, nós a pegamos, jogamos um lençol em cima dela e a espancamos com tanta força que ela mal podia se mexer. Não era certo se ela se recuperaria. Elas só queriam uma vida melhor, e nós as castigamos por isso”.

Produtividade

A ideia partiu de Heinrich Himmler, comandante da SS e responsável pelo programa de extermínio, engenheiro do Holocausto. Ele afirmou que isso serviria para motivar os trabalhadores forçados. E, em suas palavras, “evitaria homossexualismo” nos campos.

Parecia uma piada de mau gosto — a maior de todos os tempos, se de fato era. Uma forma adicional de humilhar os prisioneiros famélicos, não exatamente dispostos ao sexo em sua condição. Essa foi a opinião expressa por vários deles.

“Qualquer um que pense que o Bloco 24 era alguma espécie de presente aos prisioneiros não entende Auschwitz”, afirmou o prisioneiro polonês Jozef Szajna em seu testemunho. “Foi feito para humilhar as pessoas. Era só mais um exemplo do cinismo e crueldade dos alemães. Os bordéis não eram nada de excepcional. Só foram outro crime do Nacional Socialismo alemão.”

Acreditasse ou não Himmler no que estava fazendo, o primeiro campo abriu em Mauthausen/Gusen em 1942. Auschwitz ganharia o seu em 30 de junho de 1943. Eles permaneceriam ativos até os últimos dias.

Himmler não estendeu sua concessão aos judeus, que estavam lá com o propósito de morrer, menos que trabalhar. Eram prisioneiros alemães e eslavos que estavam nas duas pontas da cama. Judias, apesar de certas histórias que hoje são muito contestadas, também não foram alistadas. A única mulher que participou do programa e não era alemã ou eslava foi uma prisioneira política holandesa.
O plano era destinado aos trabalhadores especiais dos campos. Eram sobretudo prisioneiros alemães por crimes comuns, servindo de kapos, seguranças internos, ou em funções na indústria química I.G. Farben, instalada em Auschwitz III. Segundo o historiador Robert Sommer, menos de 1% da população aprisionada visitou os bordéis nos campos.

Piotr Setkiewicz, diretor do Centro de Pesquisas do Museu de Auschwitz, afirma que os administradores punham “um enorme valor na existência desse tipo de instituição no campo e, como sua correspondência indica, tratavam isso como um fator central em aumentar a produtividade dos prisioneiros”.

Os que visitavam eram os que recebiam prêmios por superarem cotas de produção. Esse dinheiro também servia para comprar cigarros, alimentos e outros privilégios. Os 15 minutos no bordel custavam 2 reichsmarks. Parte ia para a mulher, parte para o campo. Um prisioneiro que quisesse participar do programa precisava colocar o nome numa lista.

No fim do dia, no pátio onde recebiam ordens, tinha seu nome chamado publicamente. Era então levado ao Bloco 24, a Frauenhaus (casa das mulheres), como era chamada eufemisticamente. Antes de terem acesso à prisioneira, eram postos nus diante de um médico, que besuntava seus pênis com pomada antisséptica. Alguns recebiam injeções.

Era oficialmente proibido, mas alguns oficiais alemães também frequentaram os bordéis, subornando os responsáveis. É de imaginar que tivessem uma atitude bem diferente da dos prisioneiros. Nem todos os prisioneiros aceitaram o convite.

“Muitos, especialmente os prisioneiros políticos bem informados, tentavam evitar a exposição a chantagens por parte da SS”, testemunhou o sobrevivente Fritz Kleinman. “Intrigas surgiram entre os clientes do bordel e transferências punitivas e espancamentos foram o resultado das escapadelas dos prisioneiros especiais.”

Decisão forçada 

Laqueaduras como no caso que abre a matéria não eram universais. E, feitas nas condições do campo, algumas terminavam em morte. As mulheres que não eram esterilizadas poderiam terminar grávidas e sofrer abortos forçados, que também podiam acabar em morte.

Uma história contada pela sobrevivente Zofia Bator-Stepien relata que uma moça que ela conheceu se inscreveu imediatamente no programa. “Quando o médico terminou de examiná-la, perguntou se ela fazia a menor ideia de para onde estava indo. Ela disse que não, mas ouviu que ela ganharia muito pão.”

O médico também avisou: “Pense cuidadosamente sobre isso, porque, mesmo que isso te dê uma chance de sobreviver a Auschwitz, você pode querer ser mãe no futuro, e isso não será possível”. Ao que ela respondeu: “Não quero ser mãe. Só quero pão”.

E isso nos leva a um ponto central: a questão de muitas das mulheres terem sido voluntárias, de que há relatos, como outro caso contado por Zofia Bator-Stepien, delas à vontade com o cargo, desfilando em roupas de luxo e maquiagem pelo campo, e inclusive tentando continuar quando dispensadas.

“É impossível falar em livre-arbítrio quando você leva em conta as condições em que elas eram forçadas a tomar essa decisão”, registrou a sobrevivente Nanda Herbermann (1903-1979) em seu livro-testemunho Der Gesegnete Abgrund (O Abismo Abençoado).

Nanda, uma católica presa por divulgar material antinazista, foi forçada a cuidar do bloco de prostitutas em Ravensbrück. Ou, como define Insa Eschebach: “Sei que pensamos sobre isso por uma perspectiva diferente, mas, para muitas delas, foi uma decisão muito simples: era ou o bordel e a sobrevivência ou a câmara de gás”. 

As relações com prisioneiros podiam ser amigáveis. Frau B., um dos casos lembrados numa exibição recente do Centro Ravensbrück, afirmou que eles tendiam a ser respeitosos. “Estavam presos por anos e ficavam felizes em terem qualquer contato humano”, afirmou.

Ela lembrou que, vez ou outra, a sessão se limitava a uma conversa. B. também comentou sobre a vigilância dos guardas. “Estávamos tão dessensibilizadas que simplesmente pensávamos: ‘Que se dane, morram de olhar, malditos’.”

Mas nem sempre os olhares eram por voyeurismo. E essa é uma outra parte da perfídia dessa história. Os prisioneiros do triângulo rosa eram observados não apenas por guardas mas por médicos especialmente designados.

Cerca de 100 mil gays foram presos pelos nazistas e, desses, entre 5 mil e 15 mil foram mandados para os campos de extermínio. Não se sabe quantos sobreviveram, mas o número é provavelmente bem baixo.

O triângulo rosa marcava um prisioneiro para atrocidades homofóbicas pelos guardas e outros prisioneiros. Há casos de SS brincando de tiro ao alvo com seus triângulos cor-de rosa. A eles eram dados trabalhos dos mais extenuantes.

E tudo isso não era simplesmente pela ideia de extermínio. Mas de procurar uma “cura gay”. O trabalho extenuante era parte do “tratamento”. Vários sofreram com experimentos feitos com hormônios, outros foram castrados.
E, em Auschwitz, Himmler em pessoa ordenou um experimento mais “psicológico”: sexo forçado com as trabalhadoras do Bloco 24, uma vez por semana. Não é preciso entrar em detalhes para entender como foi uma experiência traumática para os dois lados.

Fracasso

Do ponto de vista mais cínico e prático possível, o programa dos bordéis foi um fracasso. “Por tudo o que descobri, não funcionou”, diz Sommer. “Pouquíssimas pessoas estavam em condições físicas de realmente usá-los.”

Não há dados, mas historiadores como Sommer e Isa acreditam que a maioria das prostitutas, dado simplesmente não estarem passando fome, sobreviveu ao período no campo.

Mas, a essas, restaria um injustificável estigma para o resto da vida. “Não sabemos de nenhuma que tenha sido compensada pelo que passou”, afirma o historiador. “É importante que essas mulheres recebam de volta parte de sua dignidade.”

Aventuras na História

Coronavírus: caso a vacina fique pronta, quem deverá tomar primeiro?

Com a pandemia preocupando toda a população, especialistas ao redor do mundo inteiro lutam para desenvolver uma vacina. Esse processo normalmente leva anos, então a tarefa de trazê-la à tona o mais rápido possível é muito desafiadora. Mesmo que os cientistas desenvolvam uma vacina segura e amplamente eficaz, planejar como administrá-la a bilhões de pessoas envolve uma série de protocolos. No início, a oferta será escassa e, dependendo de como a suspensão será feita, pode ser potencialmente difícil de transportá-la. Sendo assim, além de precisar descobrir essa vacina, também há o desafio de suprir a necessidade de tantas pessoas. A abordagem mais provável, portanto, é oferecer a vacina, inicialmente, apenas a membros de grupos específicos. No entanto, alguém terá que decidir quais grupos serão prioridade — e por qual país começar, caso a distribuição seja mundial.

Essa ordem será difícil de entender. Mesmo que a resposta seja "quem corre mais risco de morrer", os dados epidemiológicos ainda não estão claros sobre qual grupo atende com mais urgência a esse critério. As pessoas mais velhas têm maior probabilidade de ficar gravemente doentes e morrer, mas os pesquisadores ainda estão tentando descobrir o papel que as crianças desempenham como transportadoras do coronavírus, por exemplo.

Dezenas de empresas estão disputando a corrida pela entrega da primeira vacina comprovadamente eficaz contra a COVID-19 — a exemplo da Moderna, que já aprovou sua primeira fase de testes com humanos na Califórnia. Aprovadas as etapas laboratoriais e após passarem por três etapas de estudos clínicos, o próximo passo é conseguir o aval das agências regulamentadoras (no caso dos Estados Unidos, a FDA) para, então, iniciar a fase comercial. 

"É inevitável que a vacina chegue de maneira mais lenta do que gostaríamos. Não vamos ter 350 mil doses sendo distribuídas no primeiro dia", relata Andrew Pavia, chefe de doenças pediátricas infecciosas na Universidade de Utah, ao USA Today. A maioria dos especialistas concorda que a vacina deverá ser administrada, primeiro, a quem está mais exposto ao risco de contrair COVID-19 (como trabalhadores da área da saúde, que atuam na linha de frente no combate ao vírus, bombeiros, policiais e atendentes de lojas e supermercados), ou a quem possa desenvolver sintomas mais agressivos — os chamados grupos de risco. 

Em entrevista à Wired, Andreas Handel, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Georgia, explica que quanto mais refinadas forem essas diretrizes, melhor podemos definir os grupos mais vulneráveis, tanto em relação ao risco que eles têm de se infectar quanto ao risco de resultados graves. Para ele, talvez as pessoas com alto risco de contrair a doença, mas com menor risco de apresentarem maus resultados, devam ser as primeiras da fila. Isso pode significar priorizar as pessoas com empregos de alta exposição que envolvem muito contato público ou resolver os problemas sistêmicos que levaram as pessoas mais pobres, afro-americanas e latinas a enfrentar mais doenças e mortes por COVID-19. De qualquer forma, isso não é nem um pouco fácil.

A corrida dos países em busca da vacina

Quanto à ordem dos países na fila de espera da vacina, ainda há um grande desafio a ser resolvido — e é aí que medicina, política e economia se cruzam. Com bilhões de vidas e trilhões de dólares, e o mundo inteiro dependendo de uma vacina para a COVID-19, os cientistas estão trabalhando para criar uma candidata eficaz e segura o mais rápido possível. Isso porque a prioridade para qualquer país é proteger os próprios cidadãos, e os governos podem reservar suprimentos produzidos dentro de suas fronteiras para uso próprio e doses de estoque para futuras ondas de contágio. Especialistas alertam que, mesmo após o desenvolvimento de uma vacina bem-sucedida, pode levar anos até ser suficiente para ajudar outros países.

Em entrevista ao Voice of America, Bryan Mercurio, professor de Direito da Universidade de Hong Kong e especialista em patentes de medicamentos, estimou que a China e os EUA tentariam convencer os países a aprovar sua vacina primeiro. Segundo ele, desde os primeiros dias do surto na China, o governo deixou claro que está procurando um campeão nacional nesta corrida global pela cura. Na China, o desenvolvimento de uma vacina é visto como um jogo olímpico.

E, de fato, algumas candidatas a vacina chinesas já estão em estágio avançado. Após sair da etapa pré-clínica, os estudos clínicos (randomizados, controlados) em humanos precisam de mais três etapas até serem concluídos. Geralmente, a primeira envolve um grupo menor de pessoas, a segunda um grupo maior e a terceira um grupo grande e bem controlado, com uma série de diretivas e variáveis a serem analisadas.

Segundo a Aliança Global para Vacinas e Imunização (Gavi), o CanSino Biologics Inc, com sede em Tianjin, atualmente já se encontra na segunda fase, com um estudo que envolve 108 indivíduos do Hospital Tongji, em Wuhan, onde começou a pandemia. Enquanto isso, o Wuhan Institute também já tem uma vacina na segunda fase do estudo clínico, com 96 pessoas em três faixas etárias diferentes recebendo as doses. Nesse caso, o ensaio clínico iniciou em 23 de abril.

Logo atrás, na primeira fase, estão a BioNTech, da Alemanha, a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e o Beijing Institute, também da China. Moderna e Inovio Pharmaceuticals, nos EUA também já se encontram nessa primeira fase. Enquanto isso, a NOVAVAX, dos EUA e a Universidade de Queenland, da Austrália, ainda estão na etapa pré-clínica, a um passo de ingressar essa primeira fase.
Peter Smith, ex-presidente do Comitê Consultivo Global de Segurança de Vacinas da OMS, disse também ao Voice of America que a Organização Mundial da Saúde estava incentivando mais países e empresas a se unirem aos esforços para produzir uma vacina segura e eficaz: "Quanto mais grupos tentarem desenvolver uma vacina, melhor. Certamente precisaremos de mais de um para atender à capacidade necessária".

Também à Wired, Peter Hotez, decano da National School of Medicine no Baylor College of Medicine, pontua: "A história nos mostra que as primeiras vacinas licenciadas geralmente não são as mesmas utilizadas amplamente. Normalmente, elas são substituídas por outras após os anos iniciais", explica. "Vamos melhorar isso", espera o professor.

E quanto ao Brasil?

A essa altura, imaginamos que essa seja uma questão que venha à tona. Acontece que o país conta com as fábricas de Bio-Manguinhos/Fiocruz e com o Instituto Butantã, dois dos maiores centros da América Latina. Em entrevista ao jornal O Globo, Akira Homma, pesquisador emérito da Fiocruz, disserta que um dos desafios é que ainda não se conhece a plataforma tecnológica que será usada, o que dificulta a adaptação. Segundo ele, a fundação “está em contato com grandes laboratórios” do mundo, para parcerias: "Se houver uma plataforma tecnológica de que não dispomos, muito distante da nossa, demorará mais para produzirmos", aponta.

Por sua vez, também em entrevista ao Globo, José Gomes Temporão, que foi ministro da Saúde durante a epidemia de H1N1, diz que as instalações do Instituto Butantã permitiram, na época, a imunização de 100 milhões de pessoas, e ressalta a possibilidade do mesmo instituto ser usado para o coronavírus. Para ele, tudo vai depender da tecnologia utilizada, e não se sabe se será mais ou menos complexa, ou se demandará uma produção mais lenta ou mais breve. "Mas o Brasil é o único país em desenvolvimento que tem duas grandes fábricas, e isto nos dá uma vantagem", afirma.