quarta-feira, 20 de setembro de 2017


Sonho compartilhado

Candidato a senador em 1986, Mauro Benevides estava em um palanque na praça dos Franciscanos, Juazeiro do Norte (CE), quando o candidato a deputado estadual Marcus Fernandes contou a lorota em forma de “sonho”:
- Sonhei que Padre Cícero Romão Batista baixava num monte nuvens diante de mim e, com aquela voz tronitoante, que só os santos possuem, apontou pra mim e disse: "Marquinhos tu és um dos meus!"
Mauro Benevides cutucou o orador por trás e implorou, ao pé do ouvido:
- Marquinhos, por favor, me bota nesse sonho!...
 
Diário do Poder 

Versículos do dia

E não tinham sede, quando os levava pelos desertos; fez-lhes correr água da rocha; fendeu a rocha, e as águas correram. Isaías 48:21

Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. João 4:14

As coisas

O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
é, acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
- é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!


Mário Quintana 

Charge


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Nada no mundo se compara à persistência. Nem o talento; não há nada mais comum do que homens malsucedidos e com talento. Nem a genialidade; a existência de gênios não recompensados é quase um provérbio. Nem a educação; o mundo está cheio de negligenciados educados. A persistência e determinação são, por si sós, onipotentes. O slogan "não desista" já salvou e sempre salvará os problemas da raça humana.


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
(...)

Cora Coralina

Como funciona a nossa mente

A mente humana grava e executa tudo que lhe é enviado, seja através de palavras, pensamentos ou atos, seus ou de terceiros, basta que você aceite-os.

Um cientista queria provar essa teoria, para isso conseguiu um voluntário na penitenciaria. Era um condenado à morte que participaria de uma experiência científica, na qual seria feito um pequeno corte em seu pulso, o suficiente para gotejar seu sangue até a gota final. Ele teria uma chance de sobreviver, caso o sangue coagulasse. Se isso acontecesse, seria libertado; caso contrário, faleceria pela perda do sangue.

O condenado foi amarrado em uma cama e com os olhos vendados fizeram um pequeno corte em seu pulso. Foi dito ao condenado que ouviria o gotejar do sangue na vasilha. O corte foi superficial e não atingiu nenhuma artéria ou veia, mas foi o suficiente para sentisse que seu pulso fora cortado. Sem que ele soubesse, debaixo da cama, tinha um frasco de soro com uma pequena válvula. Ao cortarem o pulso, abriram a válvula do frasco para que acreditasse que era o sangue dele que estava caindo.

Na verdade, era o soro do frasco que gotejava! De dez em dez minutos, o cientista, sem que o condenado visse, fechava um pouco a válvula do frasco e o gotejamento diminuía. O condenado acreditava que era seu sangue que diminuía. Com o passar do tempo, foi perdendo a cor e ficando mais pálido. Quando o cientista fechou por completo a válvula, o condenado teve uma parada cardíaca e faleceu, sem ter perdido sequer uma gota de sangue!

Prof. Menegatti

O lado engraçado de Ramalho Leite

Deputado estadual, deputado federal, secretário estadual e municipal, diretor de banco, Ramalho Leite só não foi tudo nessa vida porque não chegou a ser prefeito. Preferiu dar essa honra a Marta, sua esposa, prefeita duas vezes de Bananeiras, seu xodó. Imortal da Academia Paraibana de Letras, membro do IHGP, Ramalho Leite destacou-se também pela escrita e pelo humor fino. Como o leitor verá em seguida.

O soldado

Arlindo Ramalho, pai de Ramalho Leite, era prefeito de Borborema e pediu ao filho para acompanhar Nino Flor, filho de uma amigo dele, até o comando da Policia Militar. Nino pretendia ingressar na policia como soldado e, conhecendo o Cel. Gadelha, então comandante da PM, Ramalho foi até o seu Gabinete. O Comandante começou a indagar do candidato a militar?

- Você sabe ler e escrever?

-Não Senhor! Respondeu Nino.

-Sabe as quatro operações ? Somar, dividir, multiplicar?

-Não Senhor, repetia o candidato...

-Assim tá ruim, amigo! O Governador tá querendo melhorar os quadros da Polícia e quer que os soldados sejam pelo menos alfabetizados...

Foi interrompido pelo ex-quase soldado:

-Seu coronel, o senhor acha que se eu soubesse tudo isso que o Senhor me pergunta, eu vinha ser soldado de policia?

A operação 

Mazureik Morais, médico na Maternidade Cândida Vargas, colocava sua especialidade à disposição do deputado Ramalho Leite, de quem era amigo e colega de partido. Ramalho utilizou seus serviços para uma operação de períneo em Lourdes Galega, uma eleitora, profissional do sexo na Rua do Tôco, em Solânea. Operada, Lourdes não deu mais notícia. Voltando de uma festa no Casserengue, Ramalho deu carona a duas de suas colegas, que voltavam cedo para casa. Resolveu então lhes perguntar onde andava Lourdes Galega e a resposta foi ilustrativa:

- Ah! Deputado, depois que o senhor mandou fazer aquela operação nela, ela tá importante, aumentou sua tabela de preço e tá muito procurada... Sua outra companheira arrematou:

- Doutor, arranje uma operaçãozinha daquelas pra mim...

O carro preto

Para completar sua maioria na Assembléia, o governador Tarcisio Burity cooptou parte dos deputados do PDS para que formassem nova agremiação, o PL. Ramalho era Líder do Governo e do PMDB e foi obrigado a admitir também nesse grupo de sustentação ao Governo, o deputado Afrânio Bezerra, seu principal adversário no brejo e que, sem dúvida, deveria dividir com ele as atenções do governo naquela área. Mesmo contrariado, caloi-se. Mas passou a exercer constante vigilância sobre os passos do seu adversário.

Certa feita, passando pela sala da Secretaria Particular do Governador, viu em cima da sua mesa um bilhete do Governador para o Chefe da Casa Militar: determinava a entrega de um veículo oficial para o uso do deputado Afrânio. Era só o que ele queria. Desfilar pelo brejo em um carro preto. Era demais...
Surrupiou o bilhete e o carro nunca foi entregue ao deputado. Sem essa demonstração de prestigio ele terminou desistindo do governo. Sem carro preto, voltou à oposição em pouco tempo!

Verso infeliz

Seu Titiva, vereador em Pilões, quando na mesa de bar, dominava o ambiente versejando de improviso. De certa feita, Ramalho visitava Pilões como deputado estadual, e no clube local, em torno de uma mesa, reunia vários amigos, ouvindo os versos do poeta sem viola. Entusiasmado, Seu Titiva estava no meio de uma sextilha quando chega  o prefeito de Belém, Lula Firmino. Ramalho avisa:

 Chegou o prefeito de Belém, e seu Titiva completa:

 ...e o prefeito de Belém, nunca pagou a ninguém, como hoje quer pagar?...

Seu Titiva conseguiu a rima, mas teve que se derramar em desculpas ao prefeito pelo verso infeliz..

A branquinha

O Desembargador Semeão Cananéa era um grande apreciador da aguardente Rainha desde quando foi Juiz na Comarca de Bananeiras. Saiu de lá mas continuou fiel à famosa cachaça, sendo abastecido constantemente pelo seu fabricante, Mozart Bezerra.

Certa feita Ramalho Leite encontrou-se com o ilustre magistrado e se referiu à cachaça Serra Limpa, agora “muito famosa e melhor do que a Rainha”, fez a contra-propaganda. Ele já tinha provado a branquinha e concordou com seu conceito, mas, preveniu:

- Eu gosto da Serra Limpa, mas não faça propaganda disso... senão, Mozart deixa de me mandar a Rainha...

A lei do cão

Egídio Madruga enquanto foi deputado estadual, presidiu a Comissão de Justiça da Assembléia e emitiu parecer sobre todos os projetos que os deputados apresentaram. Costumava trabalhar em casa, para onde mandava levar os processos, que, às vezes, nunca voltavam...Certa feita, Ramalho Leite aguardava parecer em projeto de sua autoria, quando foi procurado por um assessor da CCJ com cópia do projeto para que o assinasse. Surpreendeu-se com o pedido e recebeu a explicação inusitada:
- É que a cachorra de Egídio comeu o seu projeto...

Eleitor de visão

Pelos idos de 1982 Ramalho era candidato a deputado estadual e fazia uma dobradinha com José Maranhão, candidato a deputado federal. Trocavam votos. Ramalho votava nele em Bananeiras e Solânea e ele votava em Ramalho em Belém e Dona Ines. Cada qual por sua conta. Próximo à eleição, quando o assédio e o petitório dos eleitores aumenta, procurou seu companheiro de luta para que autorizasse o pagamento da confecção de algumas dezenas de óculos para os seus eleitores. Cauteloso nos gastos como sempre foi, para não dizer “amarrado”, Maranhão olhou por cima dos óculos (dele) e, desconfiado, perguntou:

- Essas pessoas vão votar em mim mesmo Ramalho?:

- Claro que vão. É gente minha, de confiança e carentes, respondeu !

Ele então concluiu, escapando da despesa::

- Então... se vão votar em mim, é sinal de que têm boa visão... não precisam de óculos...

Cheque de motel

Ramalho era Líder do Governo Burity II e, em minoria na Assembléia, tinha dificuldade em aprovar as matérias de interesse do Palácio da Redenção. Um grupo de deputados, rebelados, ajudava a oposição a derrotar o Governo. Em plena Ordem do Dia, procurou o deputado Gilberto Sarmento, um dos rebeldes, e lhe informou que o Motel Fogeama estava publicando uma lista de cheques sem fundo e o nome dele constava da lista.

-Vá urgente ao Cartório de Chico Souto!

Gilberto esbravejou, disse logo que deveria ter sido um vereador a quem ele dera um cheque e saiu às pressas.

Quando ele saiu, o Governo reconquistou a maioria e Ramalho solicitou que se botasse a matéria em votação.

Sem Gilberto, o Governo ganhou mais uma...

Terminada a sessão, eis que Gilberto retorna e diz que não encontrou a tal lista.Até hoje não sabe que foi vitima de um ardil parlamentar...

O preso

Pelos idos de 1978 Ramalho Leite reclamou na Tribuna da Assembléia da decisão do juiz de Pilões, que proibira os comícios de ultrapassarem as dez horas da noite. Um cabo eleitoral seu e de Waldir dos Santos Lima que atendia pelo indecente apelido de Furico, dia seguinte, chegou em Pilões logo cedo com o jornal O Norte debaixo do braço, elogiando o deputado e endossando as criticas ao Juiz. Como o Juiz não podia prender o deputado, mandou prender Furico.

Ademar Leite, primo de Ramalho, lhe mandou um bilhete contando o fato e concluiu:

- O Juiz disse que, se alguém for lá pedir para soltar o Furico, ele não solta. Mas se ninguém pedir, na segunda feira ele solta o Furico...

E assim foi feito!

(Furico morreu em João Pessoa, assassinado por um taxista, quando, bêbado, confessava não ter dinheiro para pagar a corrida.)

Anjos e demonios

Na sua casa de Bananeiras, Ramalho mantém um painel com fotos em exposição. Lá estão Frei Damião, Collor, Figueiredo, João Agripino, Ernani Satyro, Pedro Gondim, entre outros. Essa exposição ele a denominou de “Ramalho Leite entre anjos e demônios”. O visitante escolhe quem é demônio e quem é anjo.
O jornalista José Euflávio acompanhou o então Governador Cássio Cunha Lima a Bananeiras. Vendo a exposição e querendo embaraçar Ramalho, perguntou para que Cássio ouvisse:

- Ôxente, não tem nenhuma foto de Ronaldo? (Referia-se a Ronaldo Cunha Lima, pai do Governador).

- “Ronaldo não é anjo nem demônio, Ronaldo é Santo” - escapou Ramalho, sob risadas gerais da assistência

O exame

Submetido a uma ultrasonografia abdominal que incluía exame de próstata, na clinica de dr.Lavoisier, ali na Duarte da Silveira, Ramalho ficou encantado com o diagnostico do médico:

Sua próstata é de um adolescente...

Mas assim mesmo, indagou inconformado:

- Dr. Não dá pra trocar por outra coisa de adolescente não?

O exame II

Ao se submeter a vários exames, por recomendação médica, para um checkup anual, Ramalho ouviu da atendente da clínica:

 A urina tem que ser colhida no primeiro jato...

Jato ? Espantou-se Ramalho e indagou:

- Não dá pra ser de um téco-téco não? 

Tião Lucena
 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Associação de Magistrados da Paraíba, emite nota de repúdio contra pombalense que teria feito postagens ofensivas contra juíza Candice Queiroga; Confira

A Associação de Magistrados da Paraíba (AMPB), emitiu nesta segunda-feira (18/09), Nota de Repúdio contra atos do pombalense José Tavares de Araújo Neto, também conhecido por "Boquinha", o qual teria realizada postagens numa rede social de cunho ofensivo a pessoa da Juíza Candice Queiroga de Castro Gomes Ataíde.

Recentemente, José Tavares foi condenado a pagar indenização de R$ 6.000,00 a uma servidora do Poder Legislativo de Pombal, por postagens indevidas. 

A sentença foi publicada e encontra-se com interposição de recurso por parte do demandado.
 
Confira a Nota da AMPB:
 
 
A Associação dos Magistrados da Paraíba (AMPB) vem a público se solidarizar com a magistrada Candice Queiroga de Castro Gomes Ataíde em razão de declarações feitas pelo senhor José Tavares de Araújo Neto, em postagem publicada em rede social, com afirmações ofensivas e desrespeitosas, sem qualquer fundamento fático e de direito, tentando atingir a honra da juíza.

A AMPB repudia quaisquer declarações infundadas que visem desvirtuar a função judicial e macular a imagem da magistratura da Paraíba, sobretudo da utilização de um espaço sem qualquer oportunidade de contraditório, com o fim de desqualificar atos do Judiciário, ainda que sob o argumento da crítica democrática.

Se parte de um processo discorda da interpretação dada pelo juiz no julgamento da causa pode exercer seu direito à crítica por meio de argumentos que se refiram ao caso em questão e de preferência pelos meios legais. Sair do campo dos argumentos sobre os fatos e valores que envolvem o litígio para ataques à pessoa da juíza, por meio de declarações insultuosas, revela-se como uma conduta antiética e contrária ao debate democrático, além de ser tipificada como crime.

A AMPB repudia qualquer tipo de interferência à liberdade de julgar, ofensas pessoais, ou qualquer comportamento que vise desvirtuar a função judicial ou de seus juízes.

A Associação disponibilizará para a magistrada ofendida todos os meios legais necessários para a defesa de sua dignidade e espera que prevaleça o respeito ao Poder Judiciário e aos seus juízes, como resguardo da Justiça, da ordem democrática e da liberdade de expressão calcada em preceitos éticos.

João Pessoa, 18 de setembro de 2017

Juíza Maria Aparecida Sarmento Gadelha
Presidente da AMPB

Um Apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis

Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59. 

Não ameis a distância

Em uma cidade há um milhão e meio de pessoas, em outra há outros milhões; e as cidades são tão longe uma da outra que nesta é verão quando naquela é inverno. Em cada uma dessas cidades há uma pessoa, e essas pessoas tão distantes acaso pensareis que podem cultivar em segredo, como plantinha de estufa, um amor a distância?

Andam em ruas tão diferentes e passam o dia falando línguas diversas; cada uma tem em torno de si uma presença constante e inumerável de olhos, vozes, notícias. Não se telefonam mais; é tão caro e demorado e tão ruim e além disso, que se diriam? Escrevem-se. Mas uma carta leva dias para chegar; ainda que venha vibrando, cálida, cheia de sentimento, quem sabe se no momento em que é lida já não poderia ter sido escrita? A carta não diz o que a outra pessoa está sentindo, diz o que sentiu a semana passada... e as semanas passam de maneira assustadora os domingos se precipitam mal começam as noites de sábado, as segundas retornam com veemência gritando - "outra semana!" e as quartas já tem um gosto de sexta, e o abril de de-já-hoje é mudado em agosto...

Sim, há uma frase na carta cheia de calor, cheia de luz; mas a vida presente é traiçoeira e os astrônomos não dizem que muitas vez ficamos como patetas a ver uma linda estrela jurando pela sua existência - e no entanto há séculos ela se apagou na escuridão do caos, sua luz é que custou a fazer a viagem? Direis que não importa a estrela em si mesma, e sim a luz que ela nos manda; e eu vos direi: amai para entendê-las!

Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pêlo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui - e isso não há.

Então a outra pessoa vira retratinho no bolso, borboleta perdida no ar, brisa que a testa recebe na esquina, tudo o que for eco, sombra, imagem, um pequeno fantasma, e nada mais. E a vida de todo dia vai gastando insensivelmente a outra pessoa, hoje lhe tira um modesto fio de cabelo, amanhã apenas passa a unha de leve fazendo um traço branco na sua coxa queimada pelo sol, de súbito a outra pessoa entra em fading um sábado inteiro, está-se gastando, perdendo seu poder emissor a distância.

Cuidai amar uma pessoa, e ao fim vosso amor é um maço de cartas e fotografias no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos...

Não ameis a distância, não ameis, não ameis!  

Rubem Braga

Arte


domingo, 17 de setembro de 2017

A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Rubem Alves 

Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

Glória Hurtado

Versículos do dia

E recusaram ouvir-te, e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te, e grande em beneficência, tu não os desamparaste. Neemias 9:17

Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus,Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; 2 Timóteo 1:8,9