domingo, 23 de abril de 2017


O assobiador e seu crime

O papel carbono com formato anatômico estava esperando sua vez de se avistar com o "majorengo". Um soldado passava, imponente, segurando o fuzil pelo pescoço, como se segura um ganso morto. Na luz baça da sala, em que a atmosfera podia ser cortada a navalha, o fumo se erguia da multidão de pardos esperando destino. Ele também lá estava esperando seu destino, naquela madrugada de sábado em que a garoa andava envolvendo a treva em celofane fosco.

De repente, o delegado chegou. E começou o desfile dos culpados. Foi quando chegou a hora da "conversa" com o papel carbono:

Seu nome ?

— Zequié de Oliveira !

— Como?

— Zequié, mais a turma trata eu de Pente Fino.

E o delegado começou a indagar que é que Pente Fino estava fazendo. Nada. Ele não estava, fazendo nada, quando a “tirage” chegou e encanou ele, sem mais aviso e sem nem dar "satisfa". Foi aí que ele enfezou, puxou da "ferramenta de fazer cadáver" e queria bancar o Prestes Maia, abrindo pelo menos duas avenidas em cada cara de policial.

— Valente, hein? — disse o delegado.

Valente — ele? — não! Até que Pente Fino não tinha nada de valente. É que ele tinha sido preso de maneira desonesta. Onde é que se viu "tirage" prender gente que não está fazendo nada? Aí, se adiantou um tira e começou a explicar. Que o Pente Fino estava numa esquina das Perdizes, às duas da manhã, assobiando como um desesperado. Então, que eles acharam o assobio muito suspeito e "encanaram" mesmo.

— Mas então — discute Pente Fino — assobiar na rua é proibido? E a Constituição? A Constituição não garante a liberdade de palavra? Assobio não é um jeito que a música tem de ser palavra? Foi por isso que ele se enfezou. Que numa cidade adiantada como São Paulo, um homem não tem sequer o direito de assobiar?

Mas é que ele estava assobiando de uma maneira muito suspeita, diz o "tira".

Como suspeita? Então — emendava Pente Fino na sua linguagem de Barra Funda — "então subiá é cospiração?". Ao que ele sabia, não era. E que demais a mais, o delegado fizesse aquilo que a justiça mandava. Se achava que ele merecia ficar "guardado", para "ver o sol nascer quadrado", que fizesse isso. Mas que crime, ele não tinha cometido nenhum.

O delegado reconhecia, sim, a inocência de Pente Fino.  E, afinal de contas, assobiar não era delito. Podia ir embora em paz. Que fosse. Mas que não assobiasse mais pela rua, alta madrugada, que podia incomodar a vizinhança.

E lá se foi embora, feliz, o Pente Fino, colocando-se "sempre às ordens" do delegado e rematando toda a sua história de sábado com uma frase:

— Ah... seu dotô... Assubio é lição de violino de pobre!

Osvaldo Molles

Do livro “Piquenique Classe C”, Boa Leitura Editora, São Paulo, sem data, pág. 257, extraímos o texto acima.

Charge


Onde foi parar a tal da empatia?

“Fiquei amiga do mendigo”, disse eu. “Pode riscar da sua lista das coisas a se fazer”, respondeu meu irmão. Esse pequeno diálogo, ocorrido outro dia com meu irmão, ao contar para ele sobre esse meu curto encontro com o morador de rua, fez-me pensar nessa questão da empatia. Estávamos eu e meu filho na cidade de São Paulo, dentro do metrô, em direção à rodoviária para voltarmos para nossa cidade. Estávamos com malas e bastante cansados, embora felizes.
O trem estava cheio e, sentado em nossa frente, onde estávamos em pé, estava um homem meio sujo, cheirando meio mal, descabelado, barbudo e desdentado, tentando conversar com as duas mulheres que estavam ao lado dele no banco. Elas simplesmente o ignoravam com cara de quem estava aturando aquela criatura desprezível ao seu lado no metrô. Ele, então, resolveu falar comigo. Perguntou-me de onde eu era, já que, segundo seu julgamento, eu não parecia ser paulistana.

No momento, tive que tomar a decisão sobre o que fazer. Responder a ele? Sair de lá e ir mais longe? Ignorar, como faziam as outras mulheres? Eu estava acompanhada de meu filho, que tem apenas 11 anos. Dessa forma, tenho uma preocupação muito grande com minhas atitudes, uma vez que certamente, meu filho se espelhará nelas. Eu sei bem que não adianta nada dizer a ele que “todos os seres humanos têm o mesmo valor, que as pessoas menos favorecidas economicamente também merecem nosso respeito, etc” e agir de forma que negue isso.

Sempre que passo por momentos desse tipo, em que tenho que servir de exemplo para meu filho em situações que envolvem algum tipo de conduta ética me lembro do imperativo categórico do Kant. “Ages somente segundo aquela máxima que possas a todo tempo querer que se tornasse uma lei universal”. Na minha visão, quando temos filhos, essa lei moral de Kant tem uma aplicação direta, uma vez que muito provavelmente nossos filhos tomarão nossas ações como uma lei universal, pelo menos, enquanto são crianças.

Dessa forma, sempre devemos nos certificar de que TODAS as nossas ações devem ser feitas de tal forma que aprovaríamos que fossem feitas por nossos filhos. É o tal do exemplo. Se você age de uma forma, mas não gostaria que seu filho agisse da mesma maneira e usa discursos contrários à sua própria ação, provavelmente suas ações dizem mais do que suas palavras. Assim, tive que tomar uma decisão por mim e por ele.

Nesse momento, resolvi, então, OLHAR para o homem que estava sentado na minha frente e parece que um limpador de para-brisas passou pelos meus olhos. Passei a enxergar exatamente o que estava à minha frente: um ser humano querendo ser visto como tal, tentando conversar com outras pessoas.

Respondi a ele que era do interior de São Paulo e o diálogo continuou. Ele me disse que achava que eu era gaúcha, pela minha aparência. Ele, por sua vez, era do Rio de Janeiro. Tinha se divorciado da esposa em 2005. Tem dois filhos adultos, ambos terminando boas faculdades. Ele, por infortúnios da vida, acabou perdendo o trabalho, “por culpa da prefeitura” e acabou tendo que viver na rua por um tempo. “Por isso, estou sujo assim. Mas eu tenho Deus no coração e sei que vou sair dessa”, disse ele, batendo no peito e sorrindo seu sorriso sem dentes.

E esse tal de “Seu Moço”, “com ar de gente marcada, mas o coração sem espinho”, como diz a canção, afinal de contas, queria o que de mim? Apenas ser visto como ser humano e conversar. Ele não estava me assaltando, nem me assediando, nem pedindo dinheiro. Nada. Seus olhos gritavam para mim apenas que o enxergasse como ser humano.

O psiquiatra Flávio Gikovate dizia que a empatia é se colocar no lugar do outro, mas não como se colocássemos a nossa alma no corpo do outro, porque isso invariavelmente leva a um erro. Assim, se eu quisesse tentar entender como se sente o morador de rua, mas pensando com a minha cabeça, com a minha vivência e minha alma, certamente erraria. Temos que tentar entrar na cabeça do outro “sendo” o outro mesmo, como um hacker, disse o Gikovate.

Agora, veja só, se um homem como esse, cujos olhos gritam tão alto, já temos dificuldade em enxergar, imagine aqueles que são mais semelhantes a nós. Tenho a impressão de que temos uma dificuldade cada vez maior de simplesmente enxergar a pessoa que está à nossa frente e de tentar entender o que essa pessoa está passando, sentindo. Assim, temos a tendência dessa falsa empatia, de nos colocarmos com nossa alma na pele do outro e soltamos pérolas como “eu no lugar de Fulano”… Isso leva a erros muito grandes de julgamento, porque não é você no lugar de Fulano, mas sim, Fulano no lugar de Fulano.

Quantas vezes não nos pegamos bufando dentro de um táxi, porque aquele ser que dirige o carro ao qual estamos pagando apenas para nos levar a nosso destino resolve puxar papo conosco. É como se víssemos esse ser como uma peça a mais do carro, um algo mecânico, algo que deveria “se colocar em seu lugar” e saber qual o seu papel: dirigir o carro.

Parece exagero, mas se o mendigo sujo, desdentado e descabelado passa a fazer parte do cenário do metrô, quantas não são as pessoas que passam a fazer parte do “cenário” para nós e que nem sequer nos damos conta de que são pessoas, com tudo o que vem junto nesse pacote, ou seja, dores, amores, alegrias, tristezas, sonhos, segredos…

Rubem Alves escreveu uma crônica sobre a bondade, em que usa a palavra solidariedade. “A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo (…). Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja junto dos meus próprios sentimentos”. Ele diz que é assim que nasce a bondade.

Pois eu acho que, como tudo na vida, essa é uma via de mão dupla. No momento em que vi o “semblante já bem castigado à custa de muita ‘pedreira’” desse Seu Moço que encontrei no metrô, algo mudou em mim, minha visão se ampliou. Eu consegui realmente desbloquear uma conquista, marcar um “check” na minha lista de coisas a se fazer antes de morrer, como disse meu irmão, mas não foi ficar amiga de um mendigo, mas sim, ampliar minha capacidade de enxergar o ser humano que existe na pessoa que está à minha frente.
Se agora eu consegui enxergar com algum esforço um ser tão gritante, dei um passo a mais em direção a enxergar seres humanos com suas dores e suas histórias que passam pela minha frente todos os dias e que eu, fechada na minha concha, no meu ego, na melhor das hipóteses consigo dizer “eu no lugar dele”…

Como diz também essa linda canção que citei ao longo do texto, chamada Seu Moço, da cantora Anna Ratto, “fiz escola com Seu Moço, escola de dança da vida”. Obrigada, Seu Moço, que possivelmente nunca mais encontrarei em toda minha vida, mas que conseguiu me transformar em uma pessoa um pouquinho menos cega, um pouquinho mais solidária, um pouquinho mais humana.

Juliana Santin

Tutti-Frutti

Salvar é uma grande palavra. E amor é uma palavra ainda maior. Grandes palavras escondem grandes enganos.

A tua voz na primavera

Manto de seda azul, o céu reflete 
Quanta alegria na minha alma vai! 
Tenho os meus lábios úmidos: tomai 
A flor e o mel que a vida nos promete! 

Sinfonia de luz meu corpo não repete 
O ritmo e a cor dum mesmo beijo… olhai! 
Iguala o sol que sempre às ondas cai, 
Sem que a visão dos poentes se complete! 

Meus pequeninos seios cor-de-rosa, 
Se os roça ou prende a tua mão nervosa, 
Têm a firmeza elástica dos gamos… 

Para os teus beijos, sensual, flori! 
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos, 
Só me exalto e sou linda para ti! 


Florbela Espanca
O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a tempestade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento.

" Liberdade na vida é ter um amor para se prender" 

Fabrício Carpinejar


Frase

Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel.

René Descartes

Pescaria

— Fomos uns cinco pescar — conta-nos o amigo que há muito não encontrávamos. Tinha comprado um molinete e, segundo nos confessou, desde menino sonhava em ter o seu próprio molinete. Por isso aceitou o convite.
 
Quando o encontramos, às 11 horas da noite de sábado, estava cansadíssimo e queria ir dormir. Mesmo assim contou como foi a pescaria.

— Eles me convidaram dizendo que estava dando muito pampo na Barra da Tijuca. Passaram lá em casa às 7, me pegaram e saímos para comprar isca.

Ficaram comprando isca e lá pelas 9 horas entraram num bar para tomar um negócio porque estava ameaçando chuva e era preciso precaução. Às 11 horas, saíram do bar e tinha um camarada na porta vendendo siris.

— Vivos? — perguntamos:

Nosso amigo diz que sim e que, por isso mesmo, era preciso preparar. Ninguém levava comida para a pescaria e, portanto, até que seria bom cozinharem uns siris para fazer o farnel.

Na casa de um dele, a cozinheira foi avisada de que chegariam dentro em pouco com uma centena de siris para preparar. E de fato chegaram, lá pelas duas da tarde.

Foi tudo muito rápido. Às 5 horas os siris estavam prontinhos e todos sentados em volta da mesa, para experimentar. Trouxeram umas cervejas e foram comendo, foram comendo, até que chegou uma hora em que havia mais siris do que fome. Resolveram tomar providências e telefonaram para uns amigos.

— Venham comer siris.

Os amigos chegaram com um violão e uma garrafa de uísque. Uísque vai, uísque vem, deu fome outra vez. Eram oito horas quando a cozinheira salvou a situação com uma panelada de carne-seca com abóbora. Uns sirizinhos antes, como aperitivo, e todos caíram na carne-seca.

Então deu vontade de cantar. Um lá pegou o violão, os outros suas caixas de fósforo e começaram a lembrar sambas antigos.

E nosso amigo, ainda com o caniço e o molinete na mão, confessa:

— Saí de lá agora.

— E a pescaria?

— Pescaria? Que pescaria?

Stanislaw Ponte Preta


Texto extraído do livro "10 em Humor", Editora Expressão e Cultura — Rio de Janeiro, 1968, pág. 54.

sábado, 22 de abril de 2017

Cartas de amor a Heloísa

Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a minha alma inteira, deixe-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te.  

Onde está Diógenes?

Diógenes de Sinope foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. 

Numa primeira análise, a saga de Diógenes pelas vielas de Atenas nos remonta a necessidade contemporânea de continuarmos com a sua lanterna nas mãos a procura de alguma saída para uma sociedade que parece perdida, as escuras, mergulhada na desesperança e no desassossego ético e moral que assola a todos nós. 

A priori, a corrupção incrustada entre os Poderes nasce da individualidade de cada um de nós. O pensar coletivo do homem vem se perdendo frente a marcante expiação de suas necessidades mediatas, o que sugere que o importante é a satisfação egocêntrica de cada umbigo.

Ademais, a produção política do nosso país não retrata apenas o erro simples de nossas escolhas, não, ela é mais grave, traduz um cenário mais profundo e opaco onde a formação aducacional e familiar, ao que denota-se, não tem conseguido fazer frente a uma "cultura" do imobilismo e da partidarização da figura do "eu".

A formação política de um povo é forjada em sua formação familiar, no papel exercido pelos pais, na posição dos filhos, na distribuição e cobrança das responsabilidades e nos gestos de comunhão e partilha. Precisamos ser mais pais e menos amigos irresponsáveis de nossos filhos. Talvez assim possamos ser mais luzes e não nos importemos tanto de onde deva, verdadeiramente, estar Diógenes!

Teófilo Júnior

O sorriso

Uma destas noites, um sábio me falou: “É preciso conheceres o segredo daquele que nos vende o vinho.”

E ainda: “Não leves nada a sério. O mundo carrega de enormes fardos aqueles que dobram a cerviz.”

Depois, estendeu-me uma taça onde o esplendor do céu se refletia tão vivamente que Zuhra se pôs a dançar:

“Filho, segue o meu conselho; não te inquietes com as noites deste mundo. Guarda as minhas palavras: elas são mais raras do que as pérolas”

“Aceita a vida como aceitas essa taça, de sorriso nos lábios, ainda que o coração esteja a sangrar. Não gemas como um alaúde; esconde as tuas chagas”

“Até o dia em que passares por trás do véu, nada compreenderás. Não podem ouvidos humanos ouvir a palavra do anjo”

“Na casa do amor, não te envaideças das tuas perguntas, nem da resposta.”

Hafiz


Berço de Mata-Borrão

"Dê-me o berço de mata-borrão", disse eu.

Na inocência de seus vinte anos, ela me olhou intrigada: "berço de quê?" Só então eu refleti que mata-borrão é uma palavra forte (até violenta) e feia. Trata-se de um papel que serve para absorver tinta. Normalmente a gente o usava para secar a escrita, pois a tinta com que escrevíamos custava a secar. Quanto ao berço, era uma peça à qual se prendia o mata-borrão, para mais fácil manuseio. Dadas estas explicações à juventude contemporânea, devo dizer que era isso o que faltava a uma certa Loura dolicocéfala, ou talvez a uma Virgem de dezoito quilates, personagem de Pitigrilli, quando acabou de escrever um bilhete para o novo amante e não tinha como fazer secar as letras. Fez o seguinte: abriu uma urna em que estavam as cinzas de seu antigo amante, e as utilizou para aquele fim.

No Livro dos Insultos, de H. L. Mencken, seleção e tradução de Ruy Castro, há uma referência a Ambrose Bierce: "Certa vez tive a curiosa experiência de ir a um funeral com ele... Contou histórias de crematórios que pegaram fogo e feriram os parentes do defunto; de bêbados mortos cujos restos explodiram; de viúvas vigiando o fogo a noite inteira para se certificar de que seus falecidos maridos não iriam escapar...".

Há muito tempo a Santa Casa anuncia que vai construir um crematório. Liguei para lá e perguntei a respeito. Alguém respondeu que o crematório já estava construído no Cemitério São João Batista; esperavam apenas ordem do prefeito para fazê-lo funcionar. Liguei para o gabinete do prefeito, e lá me deram o telefone do presidente da Comissão de Cemitérios, um senhor extremamente gentil e com uma voz nada fúnebre. Ele disse que não, não havia crematório algum. Explicou que este era para ser construído no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, mas a Santa Casa aparecera com um novo projeto; fazer o forno no alto do morro atrás do Cemitério São João Batista, uma encosta muito íngreme, que exigiria obras de contenção; também seria preciso deslocar várias famílias carentes que lá vivem.

Não se justifica, portanto, a mudança do local. Esta era sua opinião, mas cabia ao prefeito decidir. Voltei a ligar para a Santa Casa, e desta vez me informaram que o crematório "estava em construção". Perguntei então se a Santa Casa se encarregava de pegar o corpo e levá-lo para o Crematório de São Paulo e como seria feito o transporte. Em uma Kombi, responderam; a não ser que eu combinasse o transporte com alguma empresa aérea.
 
Eu disse que queria saber os preços desse serviço, e então me disseram para ligar para a garagem, e ali me foi perguntado onde estava o corpo. Respondi que estava em Ipanema, e então o homem disse que de Kombi o transporte para São Paulo ficaria em 350 cruzados. Achei barato demais, mas o homem insistiu em que o preço que ele sabia era este; quanto ao custo da cremação, era melhor eu ligar diretamente para São Paulo.

Liguei. O homem lá disse que o serviço, com a urna, ficaria em 45 mil cruzados. Não, não aceitavam Cartão Nacional nem da Golden Cross. Na verdade há muitos anos escrevi uma crônica dizendo que queria ser cremado, e que minhas cinzas fossem jogadas discretamente da Ponte Municipal de Cachoeiro, no rio Itapemirim, já tão poluído que isso não o alteraria muito. Mas aí apareceu aquele filme La nave va, de Fellini, e minha ideia se tornou um tanto ridícula, como a da cantora lírica que desejava ter suas cinzas jogadas em alguma parte do Adriático.
 
Esqueci de contar que o sujeito da Santa Casa perguntou-me se o corpo já estava preparado para o funeral. Acanhado, eu não lhe disse que ainda me faltava morrer.

Então a moça de vinte anos disse: "Ah, já sei, eu vi isto na mesa de meu avô. É uma coisa para carimbar batendo assim, não é?".

Não, não é.

Rubem Braga  

Texto extraído do livro "As Coisas Boas da Vida", Editora Record - Rio de Janeiro, 1989, pág. 182.

"Por cima das aparências está o óbvio que ninguém quer enxergar e o altruísmo é apenas uma parte dessa hipocrisia"

Dayane Breyer

O menestrel - William Shakespeare

A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza”, por Mia Couto

Trecho de discurso proferido por Mia Couto na abertura do ano letivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique:

“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível”. O termo é curioso: “compatível”.

Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objeto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.”


Este discurso fora integralmente publicado na obra “E se Obama fosse africano?”

Da agitação da vida

Lida no doido afã!
Vamos! Investe, vai contra os moinhos de vento!
Um dia tu verás que tudo é sombra vã,
Tênue fumo que a morte assopra num momento... 


Mário Quintana (“Espelho mágico”)

O outro par