quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Casimiro de Abreu

A arma de sobrevivência recomendada por Jesus é a palavra de Deus. Se a Bíblia foi suficiente para o deserto dele, não deveria ser suficiente para o nosso? Entenda bem. Tudo de que eu e você necessitamos para sobreviver no deserto está no livro. Precisamos simplesmente dar ouvidos a ele.

Vou fazer uma pergunta um pouco íntima: você já foi ao banheiro hoje para fazer o número dois? Se foi, por acaso lembra em qual posição ficou? É quase certeza que você vai falar que ficou sentado, como se estivesse em uma cadeira. Mas você sabia que essa não é a posição ideal para fazer cocô?... - Veja mais em https://www.uol.com.br/vivabem/videos/2019/12/09/qual-a-posicao-certa-para-fazer-coco-0402CD983266CCB96326.htm?cmpid=copiaecola

O IDH de 189 países, segundo a ONU. Quanto mais perto de 1, mais alto é o desenvolvimento humano

1  Noruega                                                                                                   0,954
2Suíça0,946
3Irlanda0,942
4Alemanha0,939
5Hong Kong (China)0,939
6Austrália0,938
7Islândia0,938
8Suécia0,937
9Singapura0,935
10Holanda0,933
11Dinamarca0,930
12Finlândia0,925
13Canadá0,922
14Nova Zelândia0,921
15Reino Unido0,920
16Estados Unidos0,920
17Bélgica0,919
18Liechtenstein0,917
19Japão0,915
20Áustria0,914
21Luxemburgo0,909
22Israel0,906
23Coreia0,906
24Eslovênia0,902
25Espanha0,893
26República Tcheca0,891
27França0,891
28Malta0,885
29Itália0,883
30Estônia0,882
31Chipre0,873
32Grécia0,872
33Polônia0,872
34Lituânia0,869
35Emirados Árabes Unidos0,866
36Andorra0,857
36Arábia Saudita0,857
36Eslováquia0,857
39Letônia0,854
40Portugal0,850
41Catar0,848
42Chile0,847
43Brunei Darussalam0,845
43Hungria0,845
45Bahrein0,838
46Croácia0,837
47Omã0,834
48Argentina0,830
49Rússia0,824
50Belarus0,817
50Cazaquistão0,817
52Bulgária0,816
52Montenegro0,816
52Romênia0,816
55Palau0,814
56Barbados0,813
57Kuwait0,808
57Uruguai0,808
59Turquia0,806
60Bahamas0,805
61Malásia0,804
62Seychelles0,801   
Alto desenvolvimento humano
63Sérvia0,799
63Trinidad e Tobago0,799
65Irã0,797
66Ilhas Maurício0,796
67Panamá0,795
68Costa Rica0,794
69Albânia0,791
70Geórgia0,786
71Sri Lanka0,780
72Cuba0,778
73São Cristóvão e Nevis0,777
74Antígua e Barbuda0,776
75Bósnia e Herzegovina0,769
76México0,767
77Tailândia0,765
78Granada0,763
79Brasil0,761
79Colômbia0,761
81Armênia0,760
82Algéria0,759
82Macedônia do Norte0,759
82Peru0,759
85China0,758
87Equador0,758
87Azerbaijão0,754
88Ucrânia0,750
89República Dominicana0,745
89Santa Lúcia0,745
91Tunísia0,739
92Mongólia0,735
93Líbano0,730
94Botsuana0,728
94São Vicente e Granadinas0,728
96Jamaica0,726
96Venezuela0,726
98Dominica0,724
98Fiji0,724
98Paraguai0,724
98Suriname0,724
102Jordânia0,723
103Belize0,720
104Maldivas0,719
105Tonga0,717
106Filipinas0,712
107Moldávia0,711
108Turcomenistão0,710
108Uzbequistão0,710
110Líbia0,708
111Indonésia0,707
111Samoa0,707
113África do Sul0,705
114Bolívia0,703
115Gabão0,702
116Egito0,700
Médio desenvolvimento humano
117Ilhas Marshall0,698
118Vietnã0,693
119Palestina0,690
120Iraque0,689
121Marrocos0,676
122Quirguistão0,674
123Guiana0,670
124El Salvador0,667
125Tajiquistão0,656
126Cabo Verde0,651
126Guatemala0,651
126Nicarágua0,651
129Índia0,647
130Namíbia0,645
131Timor Leste0,626
132Honduras0,623
132Quiribati0,623
134Butão0,617
135Bangladesh0,614
135Micronésia0,614
137São Tomé e Príncipe0,609
138Congo0,608
138Suazilândia0,608
140Laos0,604
141Vanuatu0,597
142Gana0,596
143Zâmbia0,591
144Guiné Equatorial0,588
145Myanmar0,584
146Cambodja0,581
147Quênia0,579
147Nepal0,579
149Angola0,574
150Camarões0,563
150Zimbábue0,563
152Paquistão0,560
153Ilhas Salomão0,557
Baixo desenvolvimento humano
154Síria0,549
155Papua-Nova Guiné0,543
156Comores0,538
157Ruanda0,536
158Nigéria0,534
159Tanzânia0,528
159Uganda0,528
161Mauritânia0,527
162Madagascar0,521
163Benin0,520
164Lesoto0,518
165Costa do Marfim0,516
166Senegal0,514
167Togo0,513
168Sudão0,507
169Haiti0,503
170Afeganistão0,496
171Djibouti0,495
172Malawi0,485
173Etiópia0,470
174Gâmbia0,466
174Guiné0,466
176Libéria0,465
177Iêmen0,463
178Guiné Bissau0,461
179República Democrática do Congo0,459
180Moçambique0,446
181Serra Leoa0,438
182Burkina Faso0,434
182Eritreia0,434
184Mali0,427
185Burundi0,423
186Sudão do Sul0,413
187Chade0,401
188República Centro-Africana0,381
189Níger0,377                                       

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019





Escrevo para adormecer o mundo que me parece doente. E assim invento histórias.

(Mia Couto)

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.


O que você quer ser quando se tornar criança?

Carta a Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

José Saramago

Deste Mundo e do Outro. Crônicas , Caminho, Lisboa, 1998, 5ª edição.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


Pequeno esclarecimento

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.

Mário Quintana

Clara

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!


Casimiro
José Marques de Abreu
Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.

William Shakespeare

domingo, 8 de dezembro de 2019

"O passado é a única realidade humana. Tudo o que é já foi." 

Anatole France



Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

Augusto dos Anjos