terça-feira, 24 de abril de 2018

O perigo não está na multiplicação das máquinas e sim no número cada vez maior de pessoas habituadas, desde a infância, a só desejar o que as máquinas podem dar.

Georges Bernanos
De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.

"Você pode fazer um sermão melhor com sua vida do que com seus lábios."

Oliver Goldsmith
Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida... nem na futura!

Soren Kierkegaard

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.


Vinícius de Moraes

O presente e o futuro

Nosso conceito de tempo (o que ensinamos às nossas crianças desde cedo) é dependente da geometria. Precisamos visualizar o tempo de alguma forma, e a maneira mais fácil é reproduzi-lo no espaço, através de linhas e planos.

Dizemos então (não nestes termos, claro) que o tempo é uma linha que se prolonga indefinidamente, uma seta, um vetor (“segmento de reta orientado numa direção”). Para trás ficou o passado; o presente é o ponto em que estamos, e que se desloca conosco para a frente, na direção do futuro.

Santo Agostinho tem uma definição famosa, que já comentei aqui neste blog: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2008/03/0158-o-que-o-tempo-2392003.html

Agora basta-me resumir a conclusão dele: nossa mente só conhece o presente. O que chamamos passado é a lembrança presente de um momento que não existe mais; e o que chamamos futuro é a imaginação presente de um momento que ainda não existiu.

Mas... podemos dizer que o passado não existe mais? Afinal, tudo que vemos e que somos é resultado desse passado, um resultado palpável, sólido. O trabalho que deu origem ao prédio onde moro já deixou de acontecer, mas posso dizer que todo trabalho se prolonga no resultado que deixa. Os dois são um só processo. O trabalho passou; o prédio continua, isso me permite afirmar que o trabalho não deixou de existir, apenas deixou de ser uma ação para ser um objeto material.
 
O passado é algo que se prolonga materialmente no presente. Na frase famosa de William Faulkner, “o passado não morreu, ele nem sequer terminou de passar”. O presente é apenas um conjunto de formas do passado que se prolongam.

O passado é imutável? Sim. O que aconteceu não pode ser desfeito. É imutável, mas só temos acesso a ele através de lembranças, registros, documentos, versões. E essas coisas não são imutáveis. Nosso conhecimento do passado é incompleto, e pode a qualquer momento sofrer uma reviravolta. Nossa versão do passado tem que mudar para se ajustar aos fatos.

O Inconfidente Mineiro que foi dado como criminoso e executado barbaramente pode ter seus atos reavaliados e considerado herói da pátria. Outra reavaliação talvez o descreva não como criminoso nem como herói, apenas um rapaz exaltado, de bons sentimentos e um tanto ingênuo, que serviu de bode expiatório de um movimento. Os fatos não mudam: mudam as histórias que contaremos aos nossos filhos sobre eles.

O sonho de voltar ao passado para modificá-lo está presente em milhares de histórias de ficção científica onde alguém traça os planos mais mirabolantes para viajar numa Máquina do Tempo e evitar uma guerra, impedir a morte de uma pessoa amada, recuperar um objeto precioso antes que seja destruído.

O Netflix está exibindo uma simpática série de FC, O Ministério do Tempo, que em cada episódio nos propõe uma aventura onde é preciso evitar que alguém mude o passado.

Há duas correntes principais na FC. Na primeira, o passado não pode e não deve sofrer modificações, e existe uma espécie de “patrulha do tempo” voltando constantemente para se certificar de que as coisas continuarão acontecendo da mesma maneira; outro bom exemplo disso é O Fim da Eternidade de Isaac Asimov (Ed. Aleph). Na segunda, o passado é indefeso, e extremamente frágil. As bifurcações do tempo se multiplicam, não há ninguém tomando conta, e a morte de uma simples borboleta pode alterar tudo nos séculos futuros, como no conto clássico “Um Som de Trovão” de Ray Bradbury.

É interessante que tanto a série da TV espanhola quanto o romance de Asimov tratem o futuro com cuidado, como um caminho com acesso vedado. Pode-se voltar milênios atrás, mas não se pode ir mexer no mês que vem.

Isso me traz ao ponto inicial. Penso às vezes que o tempo não se divide em três fases, mas em duas, a que chamo o Passado e o Passando. The Past, and the Passing. Le Passé, et le Passant.

O Passado são todos os fatos concretos que já aconteceram na história, e a que não temos mais acesso. O Passando é isso a que chamamos às vezes de presente e às vezes de futuro, como se fossem duas coisas diferentes, e que não passa da superposição daqueles estados mentais a que Santo Agostinho se referia: lembrança presente, imaginação presente, percepção imediata de tudo que se transforma.

Um turbilhão de possibilidades, uma cachoeira de “pontos de mutação” que surgem e colapsam sem parar, um estado mutável que precisamos domesticar, entender, e por isso recorremos à confortável tríade “passado-presente-futuro”.

Essa tríade, certinha demais, me parece uma visão de burocrata, onde o Presente é a escrivaninha, o Passado é a caixa de Saída (processos já despachados) e o futuro a caixa de Entrada (processos a despachar).

O Passado tem algo de imutável porque não podemos alterá-lo, mas no Passando tudo está sendo reavaliado e decidido (inclusive nossas versões e registros do Passado). No Passado está tudo que é definitivo e inacessível a nós; no Passando, misturam-se versões do passado, planos para o futuro, decisões do presente, como num liquidificador em que todas estas coisas estão girando, num turbilhão que nada poupa.

Em tempos de convulsão política, vale a frase de George Orwell: “Quem controla o Passado controla o Futuro, e quem controla o Presente controla o Passado.” Governos autoritários tendem a incendiar (ou a matar à míngua, o que é mais discreto) bibliotecas, museus, arquivos públicos, bem como as respectivas categorias profissionais. É uma maneira de ir apagando o Passado para melhor se assenhorear dele.

É no torvelinho do presente que o passado é interpretado e o futuro se decide. Algum filósofo disse: “Quem não conhece o seu Passado está condenado a repeti-lo.” Algum potentado gostou da frase e disse: “Façamos com que eles desconheçam seu passado, para que repitam a parte que nos interessa.”

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

Hora do lanche

Queijo de manteiga com geleia agridoce de cebola

domingo, 22 de abril de 2018

Se minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu.

Albert Einstein

Versículos do dia

Tu a quem tomei desde os fins da terra, e te chamei dentre os seus mais excelentes, e te disse: Tu és o meu servo, a ti escolhi e nunca te rejeitei.
 
Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.

Juízes estão do lado certo da história, diz Luis Roberto Barroso

Em palestra em que defendeu que o Brasil vive uma revolução profunda e pacífica no combate à corrupção, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso afirmou nesta segunda (16) que os juízes estão do lado certo da história, e urgiu o Judiciário a manter o bom trabalho.
 
Estelita Hass Carazzai - Estadão
“O país precisa de vocês; vocês são depositários da capacidade do Judiciário de mudar hábitos enraizados no Brasil”, disse, durante palestra a juízes, procuradores e estudantes de direito na Harvard Law School, no estado americano de Massachusetts. 
Barroso, porém, declarou também que o Judiciário não irá mudar as estruturas do país sozinho, e defendeu a necessidade de uma reforma política, em especial para reduzir o custo das campanhas e aumentar a representatividade do Congresso.
“Hoje, a corrupção tem uma primeira causa: matemática”, disse Barroso, ao mencionar o custo de uma campanha eleitoral, muito maior do que a soma de rendimentos de um político ao longo do mandato. 
O ministro comparou a atual situação do sistema político brasileiro a uma crise de abstinência, após sucessivas operações de combate à corrupção no país. 
“Estamos começando a desintoxicação”, afirmou.
Para ele, o Brasil está em meio a uma mudança de paradigmas e tem a chance de refundar o país em termos éticos, nas palavras dele, mas isso só vai acontecer por meio das instituições democráticas e políticas.
Barroso defendeu ainda a atual Constituição, e afirmou que ela deu ao país estabilidade institucional e econômica ao longo dos últimos 30 anos, além de permitir a inclusão social —e disse ser totalmente contra uma nova Constituinte no Brasil.
PROTAGONISMO
 
O protagonismo do Judiciário na luta contra a corrupção foi destacado também pelo juiz MarceloBretas, responsável pela Operação Lava Jato no Rio de Janeiro.
Para ele, porém, não se deve esperar que esse papel seja desempenhado pelo Executivo e Legislativo.
De acordo com o juiz, esses poderes não teriam a independência necessária para combater o problema, em especial devido à forma como são financiadas as campanhas eleitorais.
“O que paga esse investimento é a corrupção”, afirmou.
Bretas, ao mesmo tempo, reconheceu que há influência política e empresarial também no Judiciário, e defendeu a criação de regras de compliance para essa esfera, para que ela seja vista como “um reduto de correção e de imparcialidade”.
Também falarão no evento desta segunda a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e o juiz Sergio Moro, entre outros profissionais.
O evento é organizado pela Harvard Law Brazilian Studies Association.
A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, fotografa o juiz Marcelo Bretas durante evento com palestrantes brasileiros na Harvard Law School, em Cambridge
 
 

Humor


Surdamente

Minha avó Julieta ensinava que para um casamento dar certo a esposa às vezes deve ser cega e o marido deve ser surdo sempre. Era sábia. Também pudera...foi casada e conviveu por muitos anos com meu avô Manuel Pires, com quem aprendi alguns dos grandes ensinamentos da minha vida, muitos deles já ditos aqui, como por exemplo: “- Nunca acredite numa história toda”, ou: “- Quem come usura caga maçaroca”. Uso até hoje o mais genial conselho do meu avô. “- Menino, se você estiver numa reunião com mais de cinco pessoas e não conseguir identificar quem é o idiota do grupo, pode ir embora porque o idiota é você”.

Agora me digam mesmo, ensurdecedores leitores, o que isso tem a ver com o que quero contar? Tem sim, porque Mãe Leca escorregou e caiu feio, afetando sua audição. Ainda está em processo de recuperação, que se mostra muito lento. Mas como em toda história ruim há sempre que se aproveitar a parte boa, tenho me divertido bastante ultimamente. Como sei que ela está sem ouvir quase nada no ouvido esquerdo, sempre que estamos conversando é desse lado que sento, e aí consigo dizer as maiores barbaridades em tom bem carinhoso. Bastante vaidosa, nega-se a reconhecer essa incapacidade. Faz de conta que está escutando e ri bastante, para espanto dos amigos que frequentam nossas mesas.

Isso de surdez me lembrou a história do mafioso que contratou um contador surdo-mudo, porque em caso de prisão não seria delatado. Um dia o bandido descobriu que o tal contador havia desviado dez milhões de dólares da sua grana. Contratou um advogado que entendia a linguagem dos sinais (libras) e partiram para apertar o contador a fim de que ele dissesse onde estava o dinheiro. O contador não aguentou muito e começou a gesticular para o advogado, que traduzia ao chefão as mensagens. Só que o advogado entendia uma coisa e dizia outra, o que aumentava a tortura dos capangas no contador. Finalmente o contador revelou onde escondera a grana; estava enterrada em seu sitio. O advogado então “traduziu” para o mafioso: “- O contador está dizendo que não sabe de nada e que o senhor é um borra-botas, que não tem coragem de mata-lo”. Depois do tiro de misericórdia dado pelo capo, o advogado ficou dez milhões de dólares mais rico.

E já que entrei nessa via, não canso de lembrar daquele patrício que foi chamado ao IML de Lisboa para identificar o corpo do amigo. Perguntado se o finado tinha algum sinal particular, foi firme: “- Ora, pois, o gajo é surdo”.
 
Marcos Pires

Considerações de Cabaré

Muito jovem, Osvaldo Aranha foi prefeito de Alegrete (RS) e decidiu acabar uma curiosa tradição: a briga diária, todas as noites, no cabaré da cidade, “Lulu dos Caçadores”

Tudo corria bem e animado até o relógio bater 2h da madrugada, e o pau cantava. Uma noite ele visitou a boate. Bebeu, dançou, foi embora às 3h, nada de briga. Voltou no dia seguinte, e novamente os valentões não apareceram. No quinto dia, já freguês, encontrou um vistoso aviso na parede: 

“Dr. Osvaldo Aranha, acabaram-se as considerações”.

Naquela madrugada, pontualmente às 2h, o pau cantou de novo.
 
 

DiáriodoPoder
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. 

P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector

Novos neurônios são produzidos ao longo de toda a vida, sugere estudo

Ao contrário do que se imaginava, pesquisadores mostram que células nervosas não param de ser produzidas enquanto você envelhece

Ao contrário do que os cientistas pensavam, o seu cérebro não para de produzir neurônios a partir de uma certa idade. Em artigo publicado na Cell Stem Cell, pesquisadores dos Estados Unidos e da Macedônia afirmam que essas células nervosas são produzidas continuamente ao longo de toda a vida.

“Nós descobrimos que pessoas mais velhas têm uma habilidade de produzir milhares de novos neurônios no hipocampo similar a de pessoas mais novas,” afirma Maura Boldrini, professora associada de neurologia da Universidade de Columbia, Estados Unidos. “Nós também encontramos volumes equivalentes do hipocampo ao longo das idades.”

Apesar disso, os neurocientistas observaram que, com o passar do tempo, os vasos sanguíneos, marcadores de proteínas (que indicam a habilidade do cérebro de formar novas conexões entre as células) e células progenitoras (que podem se transformar em células-alvo específicas) diminuem no hipocampo.

Para chegar a esta conclusão, os neurocientistas fizeram a autópsia de 28 cérebros congelados de homens e mulheres saudáveis entre 14 e 79 anos, que sofreram morte súbita e não apresentavam cognição debilitada.

Os pesquisadores estudaram especialmente a região do giro denteado do hipocampo, uma área relacionada à formação da memória, dentre outras tarefas.

Estudos que afirmam o contrário deste artigo também têm sido publicados recentemente. Para Boldrini, os diferentes resultados entre as pesquisas são consequência dos diferentes métodos de preservação de cérebros usados pelos estudiosos.

No mês passado, um artigo publicado na Nature mostrou como células do hipocampo param de regenerar a partir dos 13 anos. Outro estudo, realizado em 2013, sugere que cerca de 700 neurônios são criados no hipocampo por dia.

 Revista Galileu
(Com informações de IFLScience)

Eduarda Brasil

Paraibana, sertaneja, linda e talentosa!

sábado, 21 de abril de 2018

O amor não se vê com os olhos mas com o coração.

William Shakespeare


Mário Quintana e Ray Bradbury

                                                           (Norman Rockwell, Looking out to sea, 1919)


Numa entrevista concedida a Edla Van Steen (incluída em Da Preguiça como Método de Trabalho, 1987) Mario Quintana dizia: “O que de melhor e de pior se publica atualmente nos Estados Unidos são as novelas de ficção científica. Entre elas, descobri as de um grande poeta, Ray Bradbury. É dessas obras que a gente gostaria de ter escrito.”  

Um elogio assim talvez baste para justificar minha tentativa de aproximação entre os dois escritores, que de fato têm muita coisa em comum. Bradbury é chamado por muitos “o poeta da FC” pela sua prosa rica de metáforas, o olhar lúdico com que descobre ângulos imprevistos em qualquer coisa, sua insistente fascinação com a infância. Sua obra lembra (mais do que a de Garcia Márquez) a frase de Garcia Márquez quando dizia: “Meu avô me contava histórias. Morreu quando eu tinha oito anos. Nunca mais aconteceu nada interessante em minha vida”.

Quintana (1906-1994) não tinha fôlego de ficcionista. Era bom prosador, como provam suas numerosas crônicas, suas ótimas traduções (Proust, Balzac, Virginia Woolf, Voltaire, Fredric Brown, etc), seus numerosos “fragmentos de almanaque”, uma forma específica que ele cultivou intensamente ao longo da obra. Sua aparente ingenuidade de menino tem muitos pontos em contato com Bradbury (1920-2012), inclusive numa certa rejeição aos aspectos mais invasivos da tecnologia. Ambos tinham fascínio por outros planetas, mas não por espaçonaves. Pelas perguntas da ciência, não por suas respostas.

Quintana dedicou ao norte-americano um poema (“Ray Bradbury”) em Esconderijos do Tempo (1980), dizendo que foi ele “o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas”. Fala (numa enumeração nostálgica que provavelmente deixaria Bradbury coçando a cabeça meio perplexo) no Menino Jesus, nas princesas, nos reis “heráldicos como cartas de jogar”, em São Jorge, em Dom Quixote, e depois finaliza:

“Todo esse encantamento de uma idade perdida / Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar / e os nossos antigos balõezinhos de cor / agora são mundos girando no ar. / Depois de tantos anos de cínico materialismo / Ray Bradbury é a nossa segunda vovozinha velha / que nos vai desfiando suas histórias à beira do abismo / -- e nos enche de susto, esperança e amor.”

Não sei até que ponto o autor de O País de Outubro se agradaria em ser chamado de “Old Grandma”, mas os dois partilham a mesma sentimentalidade, a recusa ao materialismo, a lealdade para com o fraco e o pequeno, o humor negro sem crueldade, o jeito misto de menino e ancião, algo que ambos tiveram constantemente de uma ponta à outra da vida. 

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo