sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Que humanidade é esta?

Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espectáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.

José Saramago, in 'Canarias7

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Nordeste independente


O Nordeste é inocente

Os aliados nordestinos do tucano Aécio Neves reagem à acusação de que a região deu a vitória à presidente Dilma. “É uma simplificação. Tem que fazer uma reflexão mais profunda”, protesta o líder do DEM, Mendonça Filho (PE).

Sua visão é a de que várias razões explicam: ausência de apoio político em determinada região, comunicação inadequada com os eleitores e a tática do medo, adotada pelo PT, que fulminou os tucanos país afora, entre beneficiários e simpatizantes dos programas sociais.

“Não vou culpar o Nordeste nunca, a presidente venceu a eleição em Minas e no Rio”, completa. Os números o socorrem. A presidente fez 20.126.579 votos no Nordeste e 19.867.894 no Sudeste. Uma diferença de 258.685.


Ilimar Franco, O Globo

A sutileza dos detalhes

O ato de viver é muito simples. Nós é que o complicamos. Quanto mais recursos, tempo, e cultura, mais se sofistica as condições de vida. É nesse ponto que os detalhes e sutilezas ficam cada vez mais importantes. Enganam-se os que pensam que ser muito rico, bilionário, é ter mansões, iates, Rolls-Royces pretos com monograma na porta, helicóptero, jatinhos, casas e apartamentos em diversas cidades do mundo. Nada disso é um sólido indicativo de verdadeira riqueza. Essas pessoas tem um volume exagerado de bens, mas podem, e muitos são, pobres de espírito. O verdadeiro rico é aquele cujos bens materiais são os suficientes para poder gozar das pequenas e maravilhosas coisas da vida. Cultivar uma flor, e admira-la. Ver beleza nos bons objetos de design. Reconhecer um bom papel e envelope de carta, o aroma do bom chá, o corpo do bom vinho, a educação do homem pelos sapatos que calça. O tato dos tecidos de qualidade, os mobiliários de madeira maciça. As unhas e cabelos femininos, bem cuidados. Admirar as artes plásticas em todas as suas fases, a boa música, clássica ou popular. E apesar disso tudo conseguir viver com o mínimo necessário. Não é preciso ser um Franciscano, mas discreto, sóbrio, elegante, gentil, e amável. A qualidade de vida esta nos detalhes.
 
Eduardo P. Lunardelli

O Espírito de partido

O homem odeia tudo aquilo que não lhe parece ter sido feito por ele. É por isso que o espírito de partido é tão zeloso. Qualquer tolo está convencido de que atingiu o que há de melhor e de que o mundo, que sem ele nada era, passou a ser alguma coisa.

Johann Wolfgang Von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Nunca fomos tão livres. Nunca nos sentimos tão incapacitados.” Realmente somos mais livres do que antes no sentido de podermos criticar a religião, aproveitar a nova atitudelaissez-faire com relação ao sexo e apoiar qualquer movimento político que quisermos. Podemos fazer tudo isso porque essas coisas não têm mais qualquer importância – uma liberdade desse tipo é movida pela indiferença. Por outro lado, nossas vidas diárias transformaram-se em uma batalha constante contra uma burocracia que faria Kafka tremer. Há regulamentos para tudo, desde a quantidade de sal no pão até a criação de aves na cidade.



 Nossa suposta liberdade está ligada a uma condição central: precisamos ser bem-sucedidos – ou seja, “ser” alguém na vida. Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos
 
 
Zygmunt Bauman
Sociólogo


O amor era a festa do inimitável

O amor, outrora, era a festa do individual, do inimitável, a glória do que é único, do que não suporta qualquer repetição. Mas o umbigo não só não se revolta contra a repetição, é um apelo às repetições! Vamos viver, no nosso milénio, sob o signo do umbigo. Sob este signo, somos todos, tanto um como outro, soldados do sexo, com o mesmo olhar fixo não sobre a mulher amada mas sobre o mesmo pequeno buraco no meio da barriga que representa o único sentido, o único fim, o único futuro de todo o desejo erótico.

Milan Kundera, in 'A Festa da Insignificância'

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Nas redes sociais, nordestinos rebatem preconceito com crise hídrica em São Paulo


Mensagens irônicas e agressivas contra paulistas foram feitas no twitter e no facebook.
 
Após o resultado do segundo turno das Eleições 2014, que deu a vitória à candidata do PT, Dilma Rousseff, muitos usuários das redes sociais dispararam insultos racistas e xenófobos contra os nordestinos, região onde a petista recebeu a maioria dos votos. Mensagens como a de Mayara Petruso, que em 2010 publicou em sua conta no microblog Twitter mensagens de ódio aos nordestinos, circularam novamente pela internet.

 
A reação dos internautas nordestinos veio com outras atitudes preconceituosas. A crise hídrica que atinge o Estado de São Paulo foi o mote para mensagens e insultos irônicos contra os paulistas. Mensagens mandando os eleitores tucanos chorarem na Reserva Cantareira e ironizando o fato de São Paulo passar pela pior crise de falta d'água da história foram desferidas por pessoas de todo o País, mas principalmente do Nordeste.
 
 
Do jconline

Ressalva

Versos… não
Poesia… não
um modo diferente de contar velhas histórias



Cora Coralina
 
 
 
 
 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Versículos do dia

Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Salmos 23:3
Porque as nações do mundo buscam todas essas coisas; mas vosso Pai sabe que precisais delas. Lucas 12:30

Viva o povo brasileiro!

Piada

E a amiga pergunta:
- Como foi a consulta com aquela vidente famosa?
- Ora, nem quis perder tempo...
- Por quê??
- Quando eu bati à porta, ela perguntou: "Quem é?".



 

Que pipoquem experimentos

A vida me ensinou que não existe nada mais inútil que projeções futurológicas: o final é sempre outro… Mas pediram que eu me aventurasse… Assim, o que vou fazer é indicar algumas das tendências “escolares” que vejo no presente e imaginar seu destino futuro.
 
Em primeiro lugar há “escola tradicional”. A “escola tradicional” se caracteriza por ser baseada em “programas” em que os saberes, organizados numa determinada ordem, são estabelecidos por autoridades burocráticas superiores ausentes. Os professores sabem o programa e o ensinam. Os alunos não sabem e devem aprender.
 
Os alunos são agrupados em turmas independentes que não se comunicam umas com as outras. A atividade de pensar é fragmentada em unidades de tempo chamadas aulas, que também não se relacionam umas com as outras. Livros-texto garantem a uniformidade do ensino. A aprendizagem é avaliada numericamente por meio de testes.
 
As “escolas tradicionais”, como todas as instituições, são dotadas de mecanismos para impedir as mudanças. Muitas das “escolas tradicionais” são estatais, o que significa garantia de segurança, por meio de um emprego vitalício. Mas, como se sabe, a segurança põe a inteligência a dormir.
Prevejo que, daqui a 25 anos, essas escolas estarão do mesmo jeito, talvez pintadas com cores mais alegres.
 
Mas, de repente, os saberes começaram a pulular fora dos limites da “escola tradicional”. Circulam livres no ar —sem depender de turmas, salas, aulas, programas, professores, livros-texto—, dotados do poder divino da onipresença: o aprendiz aperta um botão e viaja instantaneamente pelo espaço.
O aprendiz se descobre diante de um mundo imenso, onde não há caminhos predeterminados por autoridades exteriores. Viaja ao sabor da sua curiosidade, quer explorar, experimenta a surpresa, o inesperado, a possibilidade de comunicação com outros aprendizes companheiros de viagem.
Mas o fato é que ele se encontra diante de uma tela de computador. É um mundo virtual. Trata-se apenas de um meio. E é somente isso, essa alienação da realidade vital, que torna possível a sua imensidão potencialmente infinita. Mas, como disse McLuhan, “o meio é a mensagem”. E a “massagem”…
 
Há o perigo de que os fins, a vida, sejam trocados pelo fascínio dos meios —mais seguros e mais extensos. Fascinante esse novo espaço educativo. Não é preciso ser profeta para prever que ele irá se expandir além daquilo que podemos imaginar, especialmente em se considerando a sua ligação com interesses econômicos gigantescos. Mas é preciso perguntar: “Qual é o sentido desses meios para os milhões de pobres que não têm o que comer? E quais serão as consequências do seu fascínio virtual?”.
 
Há, finalmente, um florescimento de experimentos educacionais alternativos.
 
Por oposição ao conhecimento virtual, essas experiências de aprendizagem se constroem a partir dos problemas vitais com que os alunos se defrontam no seu cotidiano, no seu lugar, na sua particularidade. Não há programas universais definidos por uma burocracia ausente porque a vida não é programável.
 
Os desafios que enfrentam as crianças nas praias de Alagoas, nas favelas do Rio, nas matas da Amazônia e nas montanhas de Minas não são os mesmos. Além dos saberes que porventura venham a ser aprendidos, esses experimentos buscam o desenvolvimento da capacidade de ver, de maravilhar-se diante do mundo, de fazer perguntas e de pensar.
 
Tenho a esperança de que esses experimentos continuarão a pipocar, porque é neles que o meu coração se sente esperançoso.
 
 
Rubem Alves

domingo, 26 de outubro de 2014

Hoje é dia de independência!

Não negocie o seu voto

Cidadania de faz com voto consciente

Em tempos de eleições, é oportuna a seguinte pergunta: é possível exercer o chamado voto consciente? A resposta, em linhas gerais, é sim! O voto consciente é aquele que é direcionado ao candidato ou à candidata que julgamos ser o(a) melhor para governar e legislar em prol de todos os votantes. Para muitos, na atual conjuntura, o voto consciente é aquele que é direcionado ao menos ruim e não ao melhor.
 
Independentemente de suas peculiaridades, o voto consciente, ou de qualquer outra natureza, é, sim, um ato de exercício da cidadania.
Por mais difícil e complexo que seja o quadro de representantes exposto para nossa escolha, o sufrágio [voto] é fundamental para o fortalecimento de qualquer democracia. Décadas de regime militar privaram os brasileiros deste direito. O movimento público pelas Diretas Já [lembra-se?] foi um marco histórico na história republicana brasileira. Neste contexto, a pregação em prol do voto nulo ou voto em branco é mais uma manifestação de revolta ou indignação do que de consciência cívica.
Entretanto, não se pode julgar quem opta por estes tipos de votos. Afinal, a democracia é parte de uma sociedade pluralista e multifacetada, pelo menos teoricamente. De todo modo, as eleições para cargos públicos mexem com o cotidiano das localidades onde serão realizadas. É um tempo em que diferenças vêm à tona, contradições são exploradas, falhas são mencionadas, conquistas são relatadas, alianças políticas são costuradas e desavenças são praticadas. Neste emaranhado de acontecimentos, a população se vê em meio a um bombardeio de coisas boas e ruins [com mais ênfase, normalmente, para as últimas].
Apesar de tudo isso, ter o direito de escolher os nossos representantes foi uma das maiores conquistas democráticas conseguidas. Qualquer democracia do mundo não pode se furtar desta condição. Eu sei que muitos brasileiros [talvez uma grande parcela] são contra a obrigatoriedade do voto. Tudo bem! Não vamos entrar em uma interminável polêmica. No entanto, quem não escolhe ou não tem o direito de escolher não pode cobrar com legitimidade o seu representante. O cerceamento deste direito é um ato contra qualquer princípio democrático.
Bom, voltando ao foco central deste texto, o voto consciente precisa ser exercido, de fato, com os famosos pés-no-chão. Não se vota com consciência sob influência de terceiros. A consciência, neste caso, tem que ser individual. A grande responsabilidade cabe a cada eleitor. A cidadania só é legitimada pelo voto direto à medida que o eleitor não seja influenciado por postulantes a cargos públicos que fazem do pleito eleitoral um momento de exercer a sua arrogância e a sua vontade de satisfação privada estimulada pelo poder e pela influência negativa que, via de regra, são itens presentes em boa parte das candidaturas existentes em várias localidades brasileiras.
Por fim, quero manifestar o meu apoio aos eleitores que, como eu, têm a consciência da importância de se votar com segurança e conscientemente. Mesmo sabendo que esta é uma tarefa complicada, não podemos nos furtar deste direito que nos foi concedido depois de várias manifestações e reinvidicações da própria sociedade. Votar é preciso, mas, de preferência, com consciência!
 
 
Cidadania se faz com voto consciente. Hoje é o dia!

sábado, 25 de outubro de 2014

Vaticano investiga denúncias de padres que aparecem nus em fotos de sites gays na Itália

Há denúncias de religiosos que viveriam com parceiros, desviariam fundos de paróquias e cometeriam assédio contra fieis
Mais um escândalo sexual pode abalar as estruturas da Igreja Católica. Desta vez trata-se de uma diocese na região de Liguria, no Norte da Itália, de onde chegaram denúncias de padres que postam fotos nuas na internet, fazem “bico” como barman e cometem assédio a fieis. O caso chocou a cúpula do Vaticano a tal ponto que o Papa Francisco enviou nesta semana um “administrador católico” para investigar as acusações.

A diocese de Albenga-Imperia já foi descrita por um jornal italiano como a “mais fofocada da Itália”. Ela é comandada há mais de 25 anos por Dom Mario Oliveri, de 70 anos, conhecido até então pelo seu conservadorismo religioso. De acordo com o periódico Il Secolo XIX, o bispo deve ser substituído nos próximos dias.


O Globo

Severn Suziki


O discurso de Severn Suzuki na ECO 92 é um discurso, infelizmente, atualissimo. Após 22 anos muito pouco se evoluiu em direção de um planeta mais sustentável.

Palavra inventadas

Falei dias atrás na mania que tem esse povo de, toda vez que eu invento uma palavra, vir se queixar a mim que a palavra não existe. Certamente vivem num universo em que, quando Adão e Eva surgiram, já havia um exemplar do Dicionário Aurélio, ou do Houaiss, informando as palavras que poderiam usar. Repito mais uma vez: um dicionário não é um Código Civil dizendo o que pode e o que não pode fazer, é mais parecido com um Guia Telefônico, que faz uma longa lista, altamente provisória, de tudo que existe no momento, para quem precisar.


As palavras novas podem surgir do zero, invenção total, mas às vezes são derivações que termos que já existiam. Sempre tem alguém que usa uma palavra pela primeira vez e ela pega. Quando é o povo que faz isso, é impossível saber de onde veio, porque só nos damos conta quando a palavra já tem milhões de usuários. Temos mais sorte quando são escritores, cientistas, jornalistas, políticos: muitas vezes o uso deles fica registrado, pode ser rastreado até o texto original.


A palavra “feminista”, por exemplo, é atribuída a Alexandre Dumas Filho, em 1873; seu tradutor para o inglês G. Vandenhoff a traduziu por “feminist” e fez uma ressalva: “perdão pelo neologismo”. “Factóide” é um termo hoje em voga na política, para designar fatos inexistentes ou irrelevantes que ganham importância através das telecomunicações. A criação é de Norman Mailer, em 1973, em seu livro sobre Marilyn Monroe. Hoje, todo mundo usa. Mas houve um dia em que leitores cautelosos fecharam o livro e pensaram: “Acabo de testemunhar uma contravenção. Alguém usou uma palavra que não existe”.


Um artigo no The Guardian (aqui: http://bit.ly/1lwrt9y) examina essas e outras origens de palavras hoje de uso comum no inglês, e algumas também no português. Tem palavra mais comum do que “internacional”? O primeiro uso registrado é de 1789 através de Jeremy Bentham, em An Introduction to the Principles of Morals and Legislation, onde ele propõe o termo “international jurisprudence” para substituir “law of nations”, que considerava equivocado.


“Meme”, palavra hoje tão comum na cultura web, foi criado em 1976 por Richard Dawkin, com um sentido ligeiramente diferente do que tem hoje. Para ele, um meme “representa idéias, comportamentos ou estilos que se espalham de pessoa para pessoa. Pode ser uma dança da moda, um vídeo viral, uma nova moda, um recurso tecnológico ou uma frase de efeito. Assim como os vírus, os memes surgem, se espalham, sofrem mutações e morrem.” Hoje, meme (e sua distorção proposital via zoeira, “mene”) é “foto bizarra com legenda humorística superposta”.

Bráulio Tavares
(mundo fantasmo)

Show


Só há duas maneiras de se ter razão

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exatamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

[Aviso por Causa da Moral]


Álvaro de Campos, in 'Espólio de Fernando Pessoa

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Advocacia-Geral da União (AGU) protocolou, na última segunda-feira (20), uma nova petição na tentativa de barrar o pagamento de auxílio-moradia a juízes federais de todo o País. No documento, o órgão alega que a existência de outra ação movida pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) com o mesmo pedido, cuja liminar foi indeferida pelo então ministro Joaquim Barbosa. Além disso, a AGU reitera a necessidade de julgamento imediato do caso pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

Clarice no inferno

          Releio - como se o lesse pela primeira vez - "A paixão segundo GH", o mais importante romance de Clarice Lispector. Comemoramos, em 2014, seu cinquentenário de publicação. Enquanto o país se agitava com o golpe militar de 1964, Clarice publicava seu livro mais enigmático e perturbador. Em um ano de grande turbulência externa, ela vinha nos propor, através da via delicada da ficção, alguns parâmetros para uma revolução interior. Apostava _ contra todos os sinais de desalento que se espalhavam pelo real _ na grandeza do homem. Clarice sempre apostou no humano. Mesmo nos momentos mais dolorosos, dele nunca desistiu.

          Em contraste com uma realidade irrequieta e difícil, Clarice escreve sobre os mecanismos secretos que separam a nós, humanos, dos animais. Nem sempre conseguimos divisá-los. Muitas vezes, sem encontrar explicações para nossos atos ou sentimentos, nos agarramos às lições redutoras da biologia. Como se fôssemos biologia pura, transformando-a, assim, em nosso inferno. Apoiamo-nos, desamparados, na noção natureza e nela nos refugiamos. Trata-se _ Clarice nos mostra em "GH" _ de uma falsificação. Não somos apenas animais. É muito importante ter contato com essa parte instintiva que nos constitui, mas nossa vida não se resume a ela. Vai muito além _ e é nesse além do corpo que o humano se decide.

          Mais do que da natureza, somos habitantes da linguagem. Ela é nosso verdadeiro lar. Nela estão nossos fundamentos e também as razões maiores de nossa fragilidade. A história de "GH" é conhecida. Arrumando o quarto de empregada, uma mulher (GH)depara com uma barata. Assustada, e em um ato irrefletido (irracional), ela a espreme contra a porta de um armário. Uma gosma branca escorre de seu interior. "O que eu estava vendo era ainda anterior ao humano". A barata é puro instinto. É o neutro _ nela não existe ainda a interferência da linguagem. "O neutro era a vida que eu antes chamava de nada. O neutro era o inferno". Ao defrontar-se com o anterior ao humano é o próprio humano, por contraste, que se reafirma. 

          Com "A paixão segundo GH", Clarice se recolhe para escrever sobre a mecânica secreta que nos constitui e que desenha nossa liberdade. Ao buscar um mundo anterior ao humano _ a barata deflagra a presença da "coisa" _, é com o humano e sua potência que ela nos defronta. Talvez a agitação política tenha levado Clarice a se perguntar por essas relações de fundamento que, na enxurrada dos acontecimentos e das notícias _ no atordoante deserto dos "fatos" _ costuma se perder. Os fatos nos arrastam, nos atrelam à carruagem da história, e esquecemos de simplesmente ser. É o que Clarice insiste em fazer, apesar dos movimentos adversos do real. Foi uma mulher politizada que, mais tarde, se engajaria nos movimentos sociais de 1968. Isso não a impede, porém, de saltar para dentro e de perseguir o núcleo do ser.

          Há uma alegria em situar-se nesse mundo que, para além da linguagem, é matéria pura. "Vou te dizer: é que eu estava com medo de uma certa alegria cega e já feroz que começava a me tomar". O confronto com a matéria, ou o "neutro", guarda um aspecto assustador, mas também revelador. "O neutro é inexplicável e vivo, procura me entender: assim como o protoplasma e o sêmen e a proteína são de um neutro vivo". Por contraste _ por falta _, ele revela aquele "a mais" que nos distingue dos insetos. Ele nos revela. A experiência de GH no mundo da "coisa" é uma espécie de perdição. Não   tem certeza se conseguirá retornar ao humano _ que, visto desde ali, parece tão distante. "Se eu conseguir voltar do reino da vida tornarei a pegar a tua mão, e a beijarei porque ela me esperou". O beijo é o "a mais": expressa afeto, manifesta um pensamento, ultrapassa os automatismos do mundo natural. O humano nasce de um choque: provar da gosma que escorre de dentro da barata agonizante, como faz GH, produz um susto que ultrapassa todas as noções de conforto, de elegância e de bem viver. Que despedaça o humano para, ato contínuo, nos revelar seu valor.

 
          No ano de 1964, enquanto o Brasil experimenta dias frenéticos, Clarice conclui sua travessia do deserto _ sozinha, desamparada, propositalmente decidida a se afastar das contingências humanas _ e nos entrega um livro que, em contraste com o nascimento do regime militar, parece completamente absurdo. Nesse território anterior ao humano, onde as coisas são o que são, não há sentido, mas apenas matéria. Contudo, é a partir dele que um esboço de sentido pode se constituir. É só porque estamos vivos que podemos ser. "Eu não quero perder minha humanidade!", GH desabafa depois de tudo o que viveu. O que fez, senão ver a humanização por dentro? O que fez senão escavar nossos fundamentos mais dissimulados?
 
          Com seu exercício íntimo, GH luta para se afastar das repetições do humano e chegar, assim, a seus fundamentos. "A humanidade está ensopada de falsa humanização, como se fosse preciso; e essa falsa humanização impede o homem e impede a sua humanidade". Ao pensar no humano, não pode excluir o bicho que somos. O "neutro" nos habita _ a algo dentro de nós que nos submete e nos ultrapassa. Diante desse abismo, só o retorno à linguagem pode nos salvar. Clarice precisou atravessar um deserto para retornar, enfim, à literatura. "GH" é um livro de transição, que marca seu retorno ao Brasil depois de se separar do marido diplomata. "GH" indica seu caminho de solidão. Não como um castigo, mas como um destino. Como o ponto de partida _ ponto zero _ sobre o qual podemos, sem o recurso das máscaras, tomar posse de nós mesmos e nos constituir.
 
José Castello

Fazer os sonhos levantarem voo

Alguns sonhos são belos, outros poéticos; uns realizáveis, outros difíceis de serem concretizados; uns envolvem uma pessoa, outros, a sociedade; uns possuem rotas claras, outros, curvas imprevisíveis; uns são rapidamente produzidos, outros precisam de anos de maturação.

Há muitos tipos de sonhos. Sonho de se apaixonar por alguém, de gerar filhos ou conquistar amigos. Sonho de tirar um curso, ter uma empresa, ter sucesso financeiro para si e para ajudar os outros. Sonho de ter saúde física e psíquica, de ter paz interior e de viver intensamente cada momento da vida.

Sonho de ser um cientista, um médico, um educador, um empresário, um empreendedor, um profissional que faça a diferença. Sonho de viajar pelo mundo, de pintar quadros, escrever um livro, ser útil ao próximo. Sonho de aprender a tocar um instrumento, praticar desportos, bater recordes.

Muitos enterram os seus sonhos nos escombros dos seus problemas. Alguns soldados nunca mais foram motivados para a vida depois de verem os seus colegas morrerem em combate.

Alguns oradores nunca mais recuperaram a sua segurança depois de terem um ataque de pânico em público. Alguns desportistas não conseguiram repetir a sua performance depois de fazerem uma cirurgia correctiva ou serem apanhados no controlo antidoping.

Algumas mulheres nunca mais tiveram um orgasmo depois de serem violadas ou terem sofrido abusos sexuais. Alguns homens e mulheres nunca mais conseguiram entregar--se depois de serem traídos por quem amavam.

Alguns jornalistas enterraram a sua criatividade depois de serem cerceados pelos seus superiores. Alguns jovens bloquearam a sua inteligência depois de terem um péssimo desempenho em provas e concursos.

Pessoas encantadoras bloquearam os seus sonhos ao longo da vida. Mas precisamos de os desenterrar, superando os nossos traumas, conflitos, focos de tensão. Os nossos sonhos precisam de respirar novamente.

O presidente Franklin Roosevelt disse que a única coisa a temer é o medo do medo. É preciso vencer o medo evidente e principalmente o medo subtil, o medo do medo, para fazer os sonhos levantarem voo.


Augusto Cury, in 'Nunca Desista dos Seus Sonhos'

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Um verbo decisivo

Ansiosos por descobrirem mais um “inimigo” político, eleitores, ou melhor, torcedores me criticam por não tomar partido, por estar em cima do muro nessa briga de foice entre os presidenciáveis. E estou mesmo, porque, em meio a paixões desenfreadas, esse é o lugar mais indicado para quem dispõe de um espaço privilegiado e se recusa a transformá-lo em palanque. Proselitismo aqui só contra o uso da violência pelos candidatos, cujas divergências, aliás, são menos ideológicas e mais idiossincráticas.
 
Na verdade, combatem de preferência as pessoas, mais do que as ideias. Quem gosta de baixo nível deve procurar o “território livre” da internet — livre principalmente para xingamentos e acusações sem provas. Alguém sugeriu que, a exemplo deste jornal, que na seção “Dos leitores” se recusa a publicar cartas com ofensas, as emissoras de TV deveriam criar um código de conduta nos debates, uma espécie de pacto de não agressão pessoal pelas partes em disputa.
 
Se até nas selvagens lutas de vale-tudo do MMA há limites para os golpes, por que não estabelecer restrições éticas na guerra eletrônica? Claro que muitos iam acusar a medida de censura, cerceamento da liberdade de expressão. Mas os que ligam a televisão para ver debates, e não embates, com certeza aplaudiriam.
 
Pode-se dizer que houve um avanço domingo passado, pois na TV Record o tom foi menos belicoso, bem mais moderado, os candidatos menos provocativos, diferentemente de como se portaram no SBT, quando transformaram os blocos em rounds e o estúdio em ringue. Resta saber se, como nos conflitos armados, trata-se apenas de uma trégua ou da suspensão definitiva das hostilidades. Há algumas hipóteses para a nova postura.
 
A primeira seria o efeito da disposição do Tribunal Superior Eleitoral de punir os ataques com perda de tempo no rádio e na televisão, como aliás acaba de fazer com os dois concorrentes. Outra é que o baixo nível teria sido transferido para as redes sociais. Há ainda a possibilidade de que pesquisas qualitativas teriam mostrado rejeição à estratégia dos ataques virulentos.
 
Daí a opção pelas denúncias contra os partidos e os governos, mais do que contra os governantes. De fato, assistiu-se a um desfile de escândalos para ver em que administração houve mais corrupção, se na do PSDB ou do PT, e quem de um lado ou de outro recebeu mais propina.
 
O teste final será nesta semana, com o acirramento da disputa em consequência da troca de posições nas pesquisas de opinião. É possível que vença não quem apresentou o melhor programa de governo, mas quem usou com mais eficácia contra o/a adversário/a o verbo que virou moda nessa campanha: desconstruir.
 
 
Zuenir Ventura

Aprender a ceder

Aos sonhos, como aos pesadelos, chega sempre a hora de acordar. É essencial compreender a realidade, viver de olhos abertos, acolher a simplicidade da vida antes de querer resolver a complexidade do mundo.

Cada um de nós tem o seu lugar no mundo, talvez a ninguém caiba o do centro. Nas nossas relações com o mundo, com os outros e connosco, é mais sábio aceitar do que impor, admirar do que exibir, amar do que procurar ser amado...

 
Viver é aprender a ceder. A libertarmo-nos de nós mesmos. Só o nosso espírito nos pode soltar porque só ele nos aprisiona. Ser autenticamente feliz depende de uma transformação na forma de olharmos o mundo, aceitando-o sem grandes condições e agindo sem precipitações. Cedendo. Cedendo, sempre. Pois que é melhor manter um amigo do que ficar com a razão, mas sozinho. Há que abrir espaços em nós para que a serenidade que assim se alcança convide a felicidade a fazer do nosso espírito morada sua.

A humildade e a simplicidade são formas de ser, não de parecer.

Um erro comum é querer ser tudo já. Nunca nada chega... e são tantas vezes as saudades a revelarem-nos o verdadeiro valor dos instantes vividos mas já passados. As pressas atropelam o tempo.

Importa não cair na tentação de querer ser senhor do próprio futuro... e aprender a confiar mais. Cedendo espaço à esperança.

Afinal, quantas vezes uma tragédia, decepção, desilusão ou uma simples despedida, ao invés de serem tristes fins revelam-se, depois, como os pontos de partida das nossas maiores aventuras?

José Luís Nunes Martins, in 'Filosofias - 79 Reflexões'

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TRE-PB aprova pedido de tropas federais para Pombal e Cajazeirinhas

O TRE-PB aprovou ontem o pedido de tropas federais do Exército para o 2º turno das eleições nas cidades de Pombal e Cajazeirinhas, que fazem parte da 31ª Zona Eleitoral. A solicitação, feita pela juíza Isabelle Braga Guimarães, agora segue para decisão do TSE.
 
A juíza argumentou que as tropas para a região de Pombal são necessárias porque o efetivo da Polícia Militar é insuficiente para o dia do pleito. Ela também ressaltou que existe o acirramento político na área.
 
 
Fonte:
Jornal da Paraíba

A dançarina e o coronel

A Guerra de Princesa é um dos grandes episódios épicos da história da Paraíba. Em 1930 o município de Princesa Isabel desafiou o governo do Estado, chefiado por João Pessoa, o qual tentava (muito compreensivelmente, do ponto de vista administrativo) evitar que o algodão paraibano fosse remetido direto para o porto do Recife, sem pagar impostos na Paraíba. A velha animosidade entre os coronéis sertanejos e os burocratas do governo precisou apenas dessa fagulha para pegar fogo.


Princesa pegou em armas, declarando-se “Território Independente”, com hino, bandeira, o escambau. e foi atacada pelas tropas do governo. Em julho daquele ano, o assassinato de João Pessoa pelo líder sertanejo João Dantas, por motivos mais pessoais do que políticos, espalhou a guerra pelo resto do Brasil. O conflito ganhou outra proporção, os sertanejos entregaram as armas e Getúlio Vargas virou ditador.


Não conheço muitos romances sobre a Guerra de Princesa. Dois deles, contudo, são de Aldo Lopes de Araújo: O dia dos cachorros (Recife: Bagaço, 2005), uma reconstituição fantasiosa e desbocada da campanha, e agora A dançarina e o coronel (Bagaço, 2014) que é focado no mesmo tempo e espaço, mas com uma narrativa muito diferente. Desta vez, o centro do romance é a chegada de um circo à cidade (que no livro recebe o nome de “Perdição”) e uma porção de fatos inusitados que acontecem. A guerra é lá fora, vemos os jovens que partem armados, alguns que voltam mortos na carroceria de um caminhão, mas o foco da história é nos personagens presos no interior da cidade cercada.


Num clima meio O Circo do Dr. Lao de Charles G. Finney (o romance fantástico arquetípico do tema “Circo Chegou na Cidade”), vemos a história do rapaz que faz uma corda apontar para o ar, sobe por ela e desaparece; o avião rebocado por carro de boi; o bebê que passa 40 anos no ventre da mãe; um desfilar de criaturas e situações que ora lembram Garcia Márquez, ora as histórias que minha avó contava a minha mãe muito antes de Garcia Márquez saber o beabá.


O Dia dos Cachorros era um “roman à clef” onde era possível identificar os vultos históricos por trás dos nomes dados pelo autor. A dançarina e o coronel, se usa esse artifício, é em função de pessoas locais que um leitor de fora não tem como reconhecer, nem precisa. A história se arma como fabulação, cuja verossimilhança é robustecida não pelos paralelos com a História, mas pela sua simetria com os mitos, as lendas, as histórias que todos nós ouvimos na Paraíba e eram todas tão óbvias que antes de Aldo Lopes ninguém achou que valia a pena transformá-las em literatura.
 
 
Bráulio Tavares
(mundo fantasmo)

Entre o sono e o sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


terça-feira, 21 de outubro de 2014

"Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e a vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos "floreios" para justificar atos criminosos. Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir, pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!".


Rui Barbosa



Charge do Amarildo

Falai de Deus com Clareza

Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder

de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não o entender

Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor

à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.

 
Cecília Meireles
 

Melhores Poemas; página 175- Editora Global
 

*Colaboração da amiga Marisa Bello

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Charge

A girafa que compreendeu logo que tudo é relativo

          Faz muito tempo, em um país distante, vivia uma Girafa de estatura regular mas tão descuidada que uma vez saiu da Selva e se perdeu.
 
Desorientada como sempre, se pôs a caminhar às tontas e à maluca daqui para lá, e por mais que se agachasse para encontrar o caminho, não o encontrava.
Assim, deambulando, chegou a um desfiladeiro onde nesse momento acontecia uma grande batalha.
Apesar das baixas serem muito altas em ambos os lados, nenhum estava disposto a ceder um milímetro de terreno.
Os generais arengavam suas tropas com as espadas no alto, ao mesmo tempo que a neve ficava manchada de púrpura com o sangue dos feridos.
Entre o fumo e o estrépito dos canhões se viam caindo sem vida os mortos de um e outro exército, com tempo apenas para recomendar sua alma ao diabo; porém os sobreviventes continuavam disparando com entusiasmo até que a eles também chegava sua vez e caíam com um gesto estúpido que porém na queda acreditavam que a História iria recolher como heroico, pois morriam para defender sua bandeira; e realmente a História recolhia esses gestos como heroicos, tanto a História que recolhia os gestos de um como a que recolhia os gestos de outro, já que cada lado escrevia sua própria História; de modo que Wellington era um herói para os ingleses e Napoleão era um herói para os franceses.
Enquanto isso, a Girafa continuou caminhando, até que chegou a uma parte do desfiladeiro em que estava montado um enorme Canhão, que nesse preciso instante fez um disparo exatamente uns vinte centímetros acima de sua cabeça, mais ou menos.
Ao ver a bala passar tão perto, e enquanto seguia com avista sua trajetória, a Girafa pensou:
          “Que bom que eu não sou alta, pois se meu pescoço medisse mais trinta centímetros essa bala tinha me arrebentado a cabeça; ou bem, que bom que esta parte do desfiladeiro onde está o Canhão não é tão baixa, pois se medisse trinta centímetros menos a bala também tinha me arrebentado a cabeça. Agora compreendo que tudo é relativo”
 
Augusto Monterroso

Caminhão de lixo

Um dia peguei um táxi para o aeroporto. Estávamos rodando na faixa certa, quando de repente um carro saltou do estacionamento na nossa frente. O taxista pisou no freio, deslizou e escapou por um triz do outro carro! O motorista do outro carro sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós nervosamente.
 
Mas, o taxista apenas sorriu e acenou para o outro cara, fazendo um sinal de positivo. E ele o fez de maneira bastante amável e amigável.
 
Indignado lhe perguntei: "Por que você fez isso? Esse cara quase bate no seu carro e por pouco não nos manda para o hospital!"
 
Foi quando o motorista do táxi me ensinou o que eu agora chamo de "a Lei do Caminhão de Lixo".
Ele explicou que: "Muitas pessoas são como caminhões de lixo. Andam por aí carregadas de lixo, cheias de frustrações, cheias de raiva, traumas e de desapontamentos. À medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de um lugar para descarregar, e às vezes descarregam sobre a gente. Não tome isso pessoalmente. Isso não é problema seu! Apenas sorria, acene, deseje-lhes o bem e vá em frente."
 
A vida é dez por cento o que você faz dela e noventa por cento a maneira como você as recebe dos outros.
 
 
Prof. Menegatti

Humor

Dois amigos se encontram depois de muitos anos. Casei, separei e já fizemos a partilha dos bens. E as crianças? O juiz decidiu que ficariam com aquele que mais bens recebeu. Então ficaram com a mãe? Não, ficaram com nosso advogado.
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Se você está se sentindo sozinho, abandonado, achando que ninguém liga para você... “Atrase um pagamento"
 
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Como é que se chama um traficante armado até os dentes? É melhor chamar de senhor...
 
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-Se alguém nasceu na Rússia, cresceu na África, mudou-se para a América e morreu no Japão, o que é? Um defunto.
Se o problema da inflação é o preço da carne, tá resolvido o problema!

Vaticano revisa menção a gays em documento final do sínodo

Texto submetido a aprovação de bispos do mundo inteiro foi alterado radicalmente, mas afirma que discriminação 'deve ser evitada'
 
A versão final de um polêmico documento do Vaticano divulgado ontem foi radicalmente revista na referência sobre os homossexuais, eliminando linguagem anterior mais positiva. O documento foi emitido na conclusão da reunião de duas semanas, o sínodo, de cerca de 200 bispos católicos de todo o mundo.
 
Após uma primeira versão lançada na segunda-feira, os bispos conservadores prometeram alterar o texto, dizendo que houve confusão entre fiéis e ameaçou prejudicar a família tradicional. Os dois parágrafos finais do documento que tratam dos homossexuais foi intitulado "atenção pastoral para com as pessoas com orientações homossexuais".
 
O Globo

Quem Poderá Calcular a Órbita da sua Própria Alma?

As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber. Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios. É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?

Oscar Wilde, in 'De Profundis'

domingo, 19 de outubro de 2014

Nacional de Pombal empata com o internacional de Teixeira e se classifica em primeiro do seu grupo

Com o empate em 1x1 contra o Internacional da cidade de Teixeira-PB o Nacional de Pombal garantiu a primeira colocação no Grupo do Sertão do Campeonato Paraibano de Futebol da 2ª divisão.
 
Com o resultado, o Naça pega agora, na 2º fase do mata-mata, o time do Miramar, 2º colocado do Grupo do Litoral.

Os jogos da segunda fase já começam na próxima terça-feira e o primeiro jogo do Nacional será na capital da Paraíba.

Homem adota criança e ganha licença de 180 dias

Mauro Bezerra é o primeiro servidor público brasileiro a ter direito a uma licença tão extensa para cuidar do filho adotivo
 
Pai solteiro responsável por adoção tardia, o pernambucano Mauro Bezerra, 49 anos, acaba de se tornar o primeiro servidor público brasileiro do sexo masculino a ter direito a licença remunerada de 180 dias para cuidar do filho adotivo, de 4 anos. A determinação do juiz substituto da 9ª Vara Federal em Pernambuco Bernardo Monteiro Ferraz é considerada um divisor de águas na discussão sobre a mudança do papel do pai nos cuidados de crianças.
 
Mauro apelou para o judiciário depois de esgotar todas as chances de ter o pedido atendido por via administrativa. Ele trabalha na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), cuja sede é no Recife. Médico veterinário com três pós-graduações e com situação financeira estável, o servidor estava preocupado porque não dava a assistência devida à criança no período de adaptação ao novo lar.
 
 
Letícia Lins, O Globo

Tribunal reconhece direito de Lamarca a promoção

Capitão, executado em operação da ditadura em 1971, será promovido post mortem à patente de coronel, com proventos de general de brigada.

Em decisão histórica, o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região reconheceu o direito à promoção do capitão do Exército Carlos Lamarca, morto durante a ditadura militar. Ele será promovido a coronel, com proventos de general de brigada (duas estrelas). A sentença põe fim a um tabu das Forças Armadas, segundo o qual o militar seria um desertor, sem direito a promoções.

A ação judicial vinha tramitando, com idas e vindas, desde 1993. Lamarca morreu no dia 17 de setembro de 1971, aos 34 anos de idade. Foi executado no sertão da Bahia, no município Brotas de Macaúbas, após ter sido cercado por agentes da chamada Operação Pajuçara, sob o comando da 6.ª Região Militar.


Roldão Arruda e Fausto Macedo, Estadão

Você pode mudar o Brasil!

De volta ao passado

 
 
 

sábado, 18 de outubro de 2014

Os nossos sinceros parabéns a todos os médicos desse país, notadamente àqueles que se dedicam a rede pública de saúde nessa árdua e, as vezes, incompreensível missão de promover saúde enfrentando as mais variadas adversidades.

O manto de Adriana

Em sua casa de Santiago do Chile, conhecida como “La Chascona” _ ou “A Descabelada”, em homenagem aos cabelos desgrenhados de sua terceira mulher, Matilde Urrutia _ o poeta Pablo Neruda mandou construir uma passagem secreta, ainda hoje oculta atrás de uma cortina da sala de jantar. Através dela, Neruda tinha o hábito de despontar na sala, subitamente, vestido de marinheiro ou de cigano, para divertir os amigos que o esperavam para a ceia. O gosto pelas armadilhas e pelas falsificações não foi, porém, um atributo exclusivo do poeta chileno. É muito tênue a fronteira entre a criação e o disfarce. Poetas se desdobram em outros homens, vestem máscaras sutis, saem de si para escrever. Mostram-nos, enfim, que percebemos apenas uma parte da realidade. Revelada a outra parte, a primeira, por contraste, parece falsa.
 
A história de Neruda me ocorre enquanto leio "Parte da paisagem", livro de poemas de Adriana Lisboa (Iluminuras). Surge-me, em particular, na leitura de um poema, “Nada consta”, em que a poeta diz: “As coisas vão bem, de modo geral/ disfarçadamente bem. Peruca, bigode postiço,/ identidade falsa”. Mais à frente, dando outros detalhes, Adriana continua: “Os hematomas se camuflam com/ roupas, lenços, maquiagem”. Enquanto escreve, o poeta trabalha, apenas, com uma parte do que é. Só uma parte da paisagem se revela, enquanto a outra, que se esconde, sustenta o poema, emprestando-lhe o caráter de armadilha. Poemas são ciladas _ e, por isso, é sempre com grande cuidado que devemos lê-los. São engenhos para capturar partes da vida, sabendo que outras partes se mantêm ocultas. Ao leitor cabe trafegar entre o dito e o não-dito. Entre o explícito e o oculto. Uma longa manta _ como o véu de Isis _ encobre as palavras.
 
O livro de Adriana Lisboa se abre com versos do poeta norte-americano W. S. Merwin: “aparentemente acreditamos/ nas palavras/ e através delas”. O jogo das aparências sustenta o que chamamos de realidade. Mesmo na mais límpida paisagem, há algo a escavar _ há uma parte que se mantém em segredo e que só em um mergulho (“através”) se revela. Sugere Adriana: “Pense na poesia/ como o dedo cavando a fresta onde/ há ainda uma pequena chance”. A palavra serve “só enquanto testemunha/ da própria ineficiência”. A palavra não mostra, mas _ rasgando a paisagem ao meio _ se limita a sugerir. “Use da palavra apenas/ seu grau de sugestão de vida”. É com visões parciais e ideias inconclusas que um poeta trabalha. Não só o poeta: todos nós. Não devemos desprezar essa limitação: ela é, a rigor, o que chamamos de vida.
 
Por isso mesmo, porque mexe com o imperceptível, criar não é fácil. Quase sempre preferimos ficar com o que já conhecemos. “Em geral/ somos os bichos domesticados que você e/ os de sua geração tanto temiam”. Quando nos deparamos com um poeta _ Adriana Lisboa _, porém, essas precauções se desfazem. Ao escrever, o poeta desafia seu leitor: “você nunca/ ficou sabendo a que país eu pertencia”. Ainda assim, é preciso entregar-se, é preciso acreditar. “A nossa outra chance/ mora na cartola de um mágico”, escreve Adriana. E especifica: “No país que há dentro da cartola,/ essa nação de coisas honestas/ e sem astúcia”. Só confiando nas palavras atravessamos a paisagem partida da poesia. Nela, algo se esconde não para nos destruir, ou nos prejudicar, mas para nos assombrar.
 
Por não aceitar explicações simplistas _ aquelas que “explicam tudo” _ o poeta está sempre a dizer “não”. Escreve Adriana: “Dizer não até/ a náusea”. Negar-se ao amor sem glória “em que só os condenados insistem”. Exigir a sombra e o desconhecido _ exigir garantias de que há um caminho pela frente. O poeta é um ser da penumbra. Seus escritos lutam contra a clareza assassina. Contra aquilo que “pior: se demonstra,/ como num laboratório, como no corpo/ aberto de uma cobaia”. Vivemos em um mundo devassado, um mundo completamente exposto, com raras chances de recolhimento e de gradação. “O quanto você não daria/ por um instante de penumbra./ Por um segundo de indecisão”. Em uma realidade na qual tudo parece decidido, a poesia _ que é casulo e paisagem vista só em parte _ ainda pode nos oferecer isso. Ainda nos dá a chance, como Adriana sugere, de encontrar o necessário. “Você queria que as palavras/ fossem simples e poucas”, ela escreve. Palavras essenciais _ ainda que encobertas pelo invisível.
 
A poesia desafia nossas crenças mais arraigadas. Relativiza e agita nossas certezas _ disfarça-se. Nela, “algo/ acontece em segredo, e o cerco/ da neblina em torno das velhas convicções”. Trabalha com a incerteza _ o que parece amedrontador em um mundo de homens cheios de si. Trabalha com a dúvida _ em um universo que parece completamente devassado. O véu da poesia insiste em disfarçar parte do que, na verdade, não podemos ver. A poesia de Adriana Lisboa se ergue, assim, contra a violência dos princípios e das regras. Aponta sempre para uma rachadura, uma falha, essa precariedade essencial que, ela nos mostra, nos transforma em “tristes sapiens”. Sabemos que não sabemos _ e isso fere nossa arrogância. Isso dói, mas também nos faz viver. Mais ainda: isso leva a escrever.
 
Adriana faz, por fim, uma defesa do recato. Opõe-se à formalidade, que enrijece e sufoca. “Que não haja sustos, digestivos,/ última unção, que não haja impacto/ ou rima. Que o fim das contas seja/ ao fim e ao cabo de um recato absoluto/ de uma seriedade sem adornos”. Diante da paisagem que se esquiva e que só se revela pela metade, ao poeta resta a simplicidade para ver. A seriedade para abster-se e respeitar. Adriana nos dá assim uma breve lição de poesia _ estranha lição sem instruções e sem advertências, que é só sugestão e entrega. Uma poesia que não teme o parcial. Que não se esquiva das coisas que desconhecemos e que ela, com forças limitadas, não pode ter. É bela essa paisagem parcial, mas fértil, que a poeta nos oferece. Luz e sombra. Presença e ausência. Movimento e estagnação. Tudo em constante mudança, uma deliciosa armadilha. Como a vida, enfim, se disfarça e avança.
 
 
José Castello
 
(Texto publicado no suplemento "Prosa" de O GLOBO no sábado 04-10-14)