segunda-feira, 30 de abril de 2012

"Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil." (Mario Quintana).

Pensem em uma palavra feia e limitada..."Perfeição". Parece que, todos já possuem a fórmula ideal a ser testada exaustivamente, até ser alcançada. E, uma vez sendo alcançada, se tornará para sempre a sua "perfeita" forma ...de se viver e de ser. Seus comportamentos e as suas opiniões, sempre será dentro dessa ideia da perfeição. Logo mais, tudo o que for de diferente por ser autêntico e original, será taxado de errado e de anormal. Mesmo com uma pretensa perfeição, sendo testada e tentada até a alcançar nas nossas vidas, ela sempre será algo bem mais fácil do que, sermos e mantermos a nossa real natureza. Sermos autênticos, e manter essa autenticidade, sempre será um trabalho muito mais difícil. Sem contar que, ele sempre será uma constante nas nossas vidas, com pessoas ao nosso lado, sempre tão "perfeitas". A nossa autenticidade é o nosso "R.G." mental, as nossas "digitais" da vida e do que somos, Ninguém terá uma autenticidade igual ao outro. Somos seres ímpares em tudo, sempre seremos pessoas autênticas e únicas. Podemos sempre sermos totais no que fazemos. Dentro dessa totalidade, toda uma complexidade se manifestará sempre, com todas as nossas características pessoais. Nunca seremos seres perfeitos. Podemos executar trabalhos perfeitos, o que é bem diferente. Mas sempre sendo pessoas com imperfeições a serem trabalhadas, na busca por uma convivência melhor, consigo e com os outros. Nunca valerá a pena abrirmos mãos de, sermos seres autênticos, na ânsia de querermos ostentar uma perfeição que nunca teremos. Valerá a pena sempre, nos esforçarmos em sermos sempre autênticos, em tudo o que fazemos ou falamos . Ser autêntico, significa viver sempre a nossa vida, jamais vivermos a vida de outros Fazer isso, sempre seria ser vulgar e conveniente... Nunca valeria a pena.


(Raquel Free)
Fonte: face do Mario Ascenso

Na Febem, maior para efeitos sexuais


Internos terão visita íntima. Fora o lazer descabido, agora mais bebês sem estrutura? Alguém quis saber o que os pais das visitantes pensam?

Para efeitos sexuais, vamos tratar os adolescentes infratores internados na Fundação Casa, a antiga Febem, como adultos?

Eles terão direito à visita íntima, desde que comprovem ter união estável -namoro ou casamento. Isso é o que determina a nova lei federal (12.564) que regula as visitas íntimas aos adolescentes.

Para a presidente da Fundação Casa, Berenice Giannella, a liberação da visita íntima para o adolescente é parte do processo de ressocialização. "A visita íntima contribui com o retorno social, com o vínculo familiar que deve ser mantido dentro da Fundação."

Vínculo familiar? Isso não deve ser confundido com as necessidades fisiológicas dos jovens internos.

Nosso legislador, ao possibilitar tal permissividade, não se perguntou em algum momento se os pais de uma jovem, menor de idade, concorda que a seu filha vá à Fundação Casa para um encontro sexual com seu namorado?

Qualquer um de nós que tenha -ou, no meu caso, que teve- um filha seguramente não está de acordo com os nossos "pensadores".

O Estado faz uma concessão absurda aos menores infratores, não apenas por permitir que internos da Fundação Casa obtenham tal direito impensável, bem como por criar mais um enorme problema para o próprio Estado, possibilitando não apenas um "lazer" descabido, mas também a concepção de bebês sem qualquer estrutura familiar, algo muito mais grave.

Não me parece razoável o Estado patrocinar relações sexuais entre jovens sem qualquer estrutura socioeconômica, estimulando a formação de mais famílias desestruturadas.

Ressocialização não se faz através de medidas de liberdade "mal" assistida, de saídas provisórias (Dia das Mães, Natal etc.), abrindo as portas de nossos presídios e instituições para permitir a saída às ruas de pessoas de extrema periculosidade.

Seria muito mais eficaz se nossas instituições fizessem um trabalho efetivo com as famílias dos internos, objetivando a melhora dessas relações, em vez de patrocinar a gravidez de jovens adolescentes.

Além disso, a pretensão do legislador e dos "especialistas" de tratar o menor como adulto para efeitos de suas necessidades fisiológicas deveria ser, então, estendido para a responsabilização do menor por seus crimes (atos infracionais).

É razoável o que dizem os "especialistas" e legisladores quando entendem ser uma relação estável que um adolescente de 14 anos tenha uma namorada?

Se um menor de idade desejar casar, a legislação determina que ele tem de ser emancipado.

Então pergunto: não seria o caso desse menor de idade, que para poder fazer sexo se diz casado ou em união estável, ser emancipado e, portanto, responder criminalmente como maior de idade?

Por que nosso legislador insiste em usar dois pesos e duas medidas?

Eu entendo que o jovem infrator que declara ter uma relação estável, que tem até filhos com a sua companheira, possa desfrutar do direito de ter relações sexuais dentro da Fundação Casa.

O que propomos é justamente que o menor que se comporta como adulto para manter uma relação estável e também para cometer crimes gravíssimos seja tratado como efetivamente é. Um adultos responsável pelos seus atos. Seja para o bem ou para o mal!


Ari Friedenbach, 51, é advogado e pai de Liana, assassinada por um menor de idade em 2003
Fonte: FolhadeSãoPaulo

Philippe Jacquot

A diversidade de suportes carateriza a pintura de Philippe Jacquot, que desafia o observador a construir leituras imaginativas e surpreendentes.






Frases exemplares, por Geraldinho Vieira

Uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém; ninguém for tão pobre que tenha de se vender a alguém”.

Muito romântico, Jean-Jacques Rousseau dizia coisas assim, mais de dois séculos atrás (1712-1778). Tinha a capacidade de ver as coisas como são e de não aceitar muitas coisas da maneira como se tornaram.

Há frases que vivem muitas vidas. Normalmente são criações que nascem livres das censuras da viabilidade ou da necessidade de prova. Expressam idéias (percepções) que carregam verdades ou partes das verdades e por isso se repetem aqui e ali, agora e sempre. Podem não revelar propriamente uma descoberta, um insight, mas provocam o espírito. Dizem com certo sabor algo de uma condição para a qual a espécie parece condenada.

Mudam os séculos, os personagens, mas a tonalidade das ações humanas se reproduz por muitas e muitas vidas, como se estivéssemos configurados para a repetição.

O médico Deepak Chopra tem outra destas frases que capturam o espírito: “O ser humano é um bando de condicionamentos”.

Nas coisas da disputa de poder, por exemplo, há sempre muita água rolando (ôpa!), mas são encarnações da mesmice. A história está cheia das mesmas estórias.

Tanto é que 4 séculos antes de Cristo, lá estava Platão esbravejando à sua maneira contra a alienação do povo: “O preço a pagar pela sua não participação na política é ser governado por quem é inferior”. Pegou pesado com os políticos...

São frases que se tornam clichês porque dizem como caminha a humanidade: em círculo!

Melhor do que elas, para expressar a roda da vida, só mesmo as piadas! E a condição humana bem que se presta a uma tonelada de boas piadas.

Mitos científicos se perpetuam mesmo quando são desvendados

Por erro decimal em uma publicação, a força do marinheiro Popeye foi atribuída ao consumo de espinafre, quando na verdade deveria ser de fígado de galinha

Na verdade, os neutrinos não viajam mais rápido do que a velocidade da luz. Cientistas reafirmaram isso em março, corrigindo as conclusões extraídas de um experimento em setembro passado que pareceu virar de cabeça para baixo a teoria especial da relatividade de Einstein. De acordo com reportagem da Science, o erro do outono passado pode ter sido resultado de uma conexão falha de fibra óptica entre o receptor GPS e o computador usado para calcular o tempo que os neutrinos levavam para viajar de CERN em Genebra até um laboratório na região de Gran Sasso, na Itália. Evidentemente, os cientistas tinham a intenção de replicar o experimento para tentar determinar se aquilo que não era verdade era de fato verdade. Veremos.

Fiquei surpreso ao ler que os neutrinos provavelmente não são mais velozes do que a luz, afinal, também fiquei bastante impressionado quando descobri que o espinafre não continha nem perto da quantidade de ferro que diziam antes. Durante os anos 30, os produtores de espinafre atribuíam a Popeye – e à crença popular de que ele devia sua força ao ferro do espinafre – um aumento de 33% do consumo da verdura. Esta tendência fez com que os produtores e vendedores de espinafre erguessem estátuas em homenagem a Popeye em Crystal City, Texas; Chester, Illinois; e Alma, Arkansas.

Num artigo recente na revista Query na Itália, Sergio della Sala e Stefania de Vito citaram uma tabela de valores nutricionais publicada pelo Departamento de Agricultura dos EUA, que mostra que 100 gramas de espinafre contêm 2,7 miligramas de ferro. (E este é o espinafre fresco – o enlatado, como o do Popey, tem apenas 2,3 miligramas.) Por comparação, 100 gramas de fígado de galinha contêm 11,6 miligramas de ferro. Se o Popeye engolisse fígado de galinha com a mesma voracidade com que ele devorava lata após lada de espinafre, ele poderia ter agarrado o Super-Homem pelo calcanhar e o colocado em órbita.

De acordo com uma teoria há muito estabelecida conhecida nos círculos científicos como História do Erro Decimal do Ferro no Espinafre do Popeye, ou SPIDES, na sigla em inglês, o criador do Popeye, E.C. Segar, entendeu errado a quantidade de ferro no espinafre por causa de uma vírgula colocada na casa decimal errada. Diz-se que no ano de 1870 um certo Dr. E. von Wolff publicou uma tabela na qual a vírgula da casa decimal aparecia no lugar erado – e que o erro foi retificado nos anos 30, mas Segar não sabia disso.

Entretanto, parece que até a hipótese SPIDES é falsa. Filologistas nos dizem que Segar escolheu o espinafre para alimentar seu herói dos quadrinhos não por causa de seu conteúdo de ferro, mas por causa de seu alto teor de vitamina A. Vale a pena olhar um dos inúmeros textos dedicados ao assunto – talvez o mais famoso seja "Espinafre, Ferro e Popeye", um artigo de 2010 escrito por Mike Sutton no Internet Journal of Criminology. A história pode parecer sem consequências na superfície, uma vez que está ligada a um personagem de quadrinhos. Mas é significativa, considerando o negócio multimilionário que emergiu do fato de este famoso marinheiro declarar qual era sua verdura favorita. O incidente é só um exemplo de como os mitos nascem e se perpetuam.

Outra informação: numa edição recente do jornal italiano La Repubblica (que também, incidentalmente, quase chamou os neutrinos de tartarugas), havia uma discussão sobre a necessidade de uma cultura multilíngue. Isso é óbvio, pode-se dizer, hoje em dia. Mas por muito tempo sustentou-se que para superar a Babel de línguas era necessário inventar uma linguagem universal, e muitas línguas assim foram propostas – algumas delas excelentes, como o Esperanto. Mas no final, uma língua natural – o inglês – ganhou o dia.

A ideia de desenvolver uma linguagem universal feio de outro mito de mil anos: de que nos tempos primordiais havia a língua de Adão, uma língua perfeita que foi perdida com o escândalo da Torre de Babel. Vide a busca espasmódica pela língua perdida, ou por uma que possa substitui-la.

Hoje nós sabemos que não existe nada parecido com uma língua perfeita – que as línguas se desenvolvem espontaneamente de acordo com as necessidades das pessoas, que evoluem. Mas há uma história esplêndida contada por Ibn Hazm, um pensador árabe do século 11: no início, disse ele, existia uma língua dada por Deus, mas esta língua continha todas as outras, que se separaram só depois. Então o dom de Adão era o poliglotismo, e por esse motivo, todos os homens podem entender revelações em quaisquer línguas que sejam expressas.

Este é um ótimo mito com o qual encorajar o poliglotismo – uma habilidade, incidentalmente, que será útil para perpetuar, e derrubar, mitos.

* Umberto Eco é autor do livro "Sobre a Feiura" e também dos best-selleres internacionais "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault".Tradutor: Eloise De Vylder

Coluna do Umberto Eco
Uol Notícias



domingo, 29 de abril de 2012

"Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja"


Mário Quintana

Vivemos à mercê de certos silêncios. Sabemos muitas coisas uns dos outros. Portanto, procuramos evitar-nos. O melhor, como é evidente, é perdermo-nos definitivamente de vista.

(Patrick Modiano)

Filosofia do asfalto

Franz Kafka

"A 12 de Setembro de 1918, Franz Kafka, de trinta e cinco anos, padecente há muito da tuberculose que acabaria por condená-lo, recusou-se a dar entrada no sanatório ao qual os médicos o queriam confinar e, em vez disso, partiu para a aldeia de Zürau, onde vivia a sua irmã Ottla. Um mês após a sua chegada, recomeçou a escrever: não contos nem um novo romance, mas reflexões, fragmentos de pensamentos e aforismos que seriam publicados em 1931, sete anos volvidos sobre a sua morte, pelo seu amigo Max Brod, sob o título Meditações sobre o Pecado, o Sofrimento e a Esperança. Entre esses fragmentos, dois em particular parecem complementar-se e quase contradizer-se. O primero, com o número 18, afirma: “Se tivesse sido possível construir a Torre de Babel sem a subir, ela teria sido permitida.” O segundo é o número 48: “Acreditar no progresso não significa acreditar no progresso já feito. Isso não seria crença.” O primeiro aforismo parece considerar que não foi a construção da Torre de Babel que desencadeou a ira divina, mas o desejo de atingir logo o Céu, no presente dos construtores; este desejo (uma forma de crença, sugere o segundo aforismo) está condenado a ser enunciado no tempo futuro. Nas palavras de Kafka, para ser eficaz, a linguagem em que enunciamos as nossas crenças tem de nos levar em frente, na direção de algo ainda não realizado."


[Alberto Manguel, A Cidade das Palavras; trad. Maria de Fátima Carmo, Gradiva, Junho 2011; viajar]

Comunicação...

Instrumental

Online

Cotas raciais, por Rachel Sheherazade

1 em cada 4 professores da educação básica não tem diploma superior


Aproximidamente 25% dos professores que trabalham nas escolas de educação básica do país não têm diploma de ensino superior.

Eles cursaram apenas até o ensino médio ou o antigo curso normal. Os dados são do Censo Escolar de 2011, divulgado este mês pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Apesar de ainda existir um enorme contingente de professores que não passaram pela universidade – eram mais de 530 mil em 2011 – o quadro apresenta melhora. Em 2007, os profissionais de nível médio eram mais de 30% do total, segundo mostra o censo.

Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, os números são mais um indicativo de que o magistério não é uma carreira atraente.

“Isso mostra que as pessoas estão indo lecionar como última opção de carreira profissional. Poucos profissionais bem preparados se dedicam ao magistério por vocação, uma vez que a carreira não aponta para uma boa perspectiva de futuro. Os salários são baixo, e as condições de trabalho ruins”, explica.



Amanda Cieglinski, Agência Brasil





sábado, 28 de abril de 2012

Interlúdio

São estas, sem dúvida alguma, as recordações da minha infância e adolescência, misturadas numa intrincada madeixa com uma infinidade de interpretações de que nem sequer estou consciente. Às vezes, penso que levantar a pesada tampa que me separa da cloaca e ressuscitar as dores do passado não me serve para nada, exceto para reforçar a sensação de desassossego que me trouxe até ao seu consultório. Também me pergunto se o seu silêncio não fomentou a incerteza em que agora me encontro. Às vezes, dá-me para duvidar de toda esta história, como se em vez de uma vivência se tratasse de um relato que repeti a mim mesma uma infinidade de vezes. Quando penso assim, a sensação de desorientação torna-se abismal e hipnótica, uma espécie de precipício existencial a convidar-me a dar um salto definitivo.»


[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito]

Claraboya, de José Saramago

Sonho impossivel

O Sistema Penitenciário Brasileiro

Segundo dados do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Conselho Nacional de Justiça (relatório de 28/12/2010) a população carcerária brasileira é a quarta maior do mundo, com 494.598 presos, perdendo apenas para os Estados Unidos (2.292,133), a China (1.620,000) e Rússia (820.400).

Segundo ainda o relatório do CNJ, 44% dos presos no Brasil são provisórios (ainda não foram julgados) e a taxa de ocupação dos presídios no Brasil é de 1,65 presos por vaga, perdendo apenas para a Bolívia, que é de 1,66.


*Dados do CNJ

Mudar o medo - Mia Couto



O escritor Mia Couto em conferência sobre Segurança ano passado em Estoril. Um texto literário sobre a insegurança que domina a cada um de nós e ao mundo.

Vale a pena ouvir.
Foto Sfigae

Uma mulher nua seria menos perigosa do que é uma saia habilmente exibida, que cobre tudo e, ao mesmo tempo, deixa tudo à vista.

Honoré de Balzac

Hoje é dia da sogra - Homenagem bem humorada de Bezerra da Silva

Democracia ou felicidade política

Democracia não é apenas voto, é a atitude cotidiana capaz de revelar o sentido da “felicidade política”

Além do desejo de felicidade comum a cada pessoa individual, há um desejo ao qual precisamos hoje dar nome próprio, o desejo da felicidade política. No Brasil a política é, há tempos, e cada vez com mais veemência, destruída por mascarados e transformada num território de ninguém. A idéia de política como espaço da realização da comunidade, de cada indivíduo que se une em torno do bem comum, foi destruída há muito tempo. Talvez nem tenha nascido entre nós. De qualquer modo, é preciso assegurar que haja ainda sementes desta idéia que possam alimentar-nos no futuro. Do contrário, sem rumo político, sem a idéia do bem para todos, não haverá esperança, apenas a colonização e a escravidão com a qual iniciamos a história que precisamos a cada dia superar em nosso presente.

Não sabemos muito bem o que é política além do baile de máscaras que vemos pelos jornais, mas sabemos que uma das palavras que traduz sua incógnita é a democracia. Podemos dizer que ser feliz politicamente é hoje realizar a democracia. A democracia é uma palavra capaz de traduzir toda a nossa utopia política, nosso desejo de uma sociedade em que a vida boa seja a possibilidade geral. Se nem falamos tanto em política, pois perdemos seu sentido, a democracia parece ser a palavra mágica ainda capaz de assegurar este sentido perdido. Uma vida em nome da democracia parece a todos nós uma vida boa, porque justa. É preciso a cada dia revalidar o batismo e rever o que nasce sob a luz de nosso sonho. E é preciso sonhar e reinventar o futuro.

Apesar disso jamais, desde sua invenção, abandonamos a democracia. A modernidade refez o teor da democracia traduzindo-a em nossa capacidade de voto: é a democracia representativa. Quem eleger, como eleger, são questões que nos martelam a mente dia após dia, sobretudo, em tempos de eleição. Mas será só isso? A democracia representativa é prática, mas pouco utópica, exige uma resposta imediata. Nosso tempo é rei no elogio da prática e desdenhoso dos ideais, postura que precisa com urgência ser revista.

A pergunta que precisamos colocar hoje nos toca num ponto grave: será possível manter o sentido da política e mesmo da democracia se pensamos que a democracia é apenas o voto? Somos apenas inábeis para o voto? Ou será que é toda a concepção da política que está hoje perdida? Não seria a hora de re-colocar em cena e com toda a força a idéia de uma “felicidade política”?



Marcia Tiburi

* Publicado originalmente na Revista BemStar. São Paulo: Ed. Lua. Número 16.

Que país é este

Humor: DEM faz proposta milionária por Guardiola

Bom de linguagem corporal, Guardiola responde como será daqui para frente a relação do partido com Carlinhos Cachoeira.ASA NORTE – Desesperados por uma tática vitoriosa que salve o partido, dirigentes do DEM fizeram uma proposta irrecusável para o técnico demissionário do Barcelona, Pepe Guardiola

"São dois milhões de reais por mês em fichas de pôquer, mais uma fazenda de setenta mil hectares no Mato Grosso do Sul, com cento e quinze capangas e uma mata linda esperando para ser derrubada. Além disso, oferecemos duas concessões de TV, com direito a transmitir programas em catalão, e cargos comissionados para toda parentela, extensivos aos próximos 105 anos ", explicou o presidente da legenda Agripino Maia.



Anunciado como novo presidente de honra do DEM, Pepe Guardiola anunciou seu plano de jogo para livrar o partido do rebaixamento.


"Na hora de explicar as denúncias, Agripino passa a bola para ACM Neto, que passa para Rodrigo Maia, que passa para Ronaldo Caiado, que passa para Onyx Lorenzoni. Tem de ser rápido para fugir da marcação da imprensa", explicou.


Guardiola também ressaltou a importância de atacar em bloco o governo, e marcar, por zona, a aprovação do Código Florestal.


No final do dia, como primeira medida, Guardiola promoveu a entrada de dois senadores suplentes para o time titular.




The i-piauí Herald

Mensalão

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Britto, disse nesta sexta-feira ao presidente da Academia Brasileira de Direito Constitucional (Abdconst), Flávio Pansieri, que o relator do processo do mensalão, ministro Ricardo Lewandowki, deve entregar o voto até o final de maio e com isso o processo entra na fase de julgamento no início de junho.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

(Source: m0rtality, via alwaystraveling)




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Mãe é mãe

Charge - Duke

A Resolução do Mau Agouro

É costumeiro se ouvir dizer que o Brasil está cada vez mais próximo de se tornar uma grande nação e uma potência mundial. Somos a 6ª maior economia do mundo, embora estejamos entre 187 países, atolados na 84ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), bem atrás do Chile, do Uruguai, Argentina e de Trinidad e Tobago.

A imprensa noticia com galhardia que temos inovado na pesquisa por combustíveis renováveis. Na educação, o número de alunos matriculados tem aumentado quantitativamente embora qualitativamente a situação educacional ainda seja lastimável.

A urna eletrônica é uma conquista nossa, o carro flex e a caipirinha também.

Mas, o Brasil é assim, inovador por excelência e contraditório por convicção, inclusive nas leis, normas,  resoluções etc e etc.

A propósito, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu proibir a atribuição de nome de pessoa viva a bem público que esteja sob a administração do Poder Judiciário. Até ai tudo bem. Medida justa e plausível de razoabilidade. Ocorre que no mesmo artigo em que proíbe, autoriza.

Senão vejamos: diz o Art. 1º da Resolução 052:

É proibido, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva a bem público sob a administração do Poder Judiciário nacional, salvo se o homenageado for ex-integrante do Poder Público, e se encontre na inatividade, em face da aposentadoria decorrente de tempo de serviço ou por força da idade.”

Ora, como vemos, a dita Resolução alça a condição de morta pessoa “vivinha da silva”. Basta tão somente que o candidato a defunto seja ex-integrante do Poder Público e se encontre na inatividade por aposentadoria. Trocando em miúdos: estando o ex-agente público já de pijama, aposentado, dividindo o seu tempo entre os netos, a TV, a papinha de aveia e a cadeira de balanço, pode dividir com os mortos a honraria de ter seu nome ladeado e iluminado numa parede de algum prédio público deste país.

Acredito que isso, no mínimo, representa um mau presságio para quem ainda esta "vivo", claro!.

De minha parte, porém, estou tranquilo. Não tenho sobrenome importante. Não tenho dinheiro no bolso. Não realizei grandes feitos no serviço público.

Com certeza, vivo, vou ser esquecido rapidamente. Morto então...

O fato é que não corro o risco de ter o nome dependurado em algum frontispício, poste ou parede por ai a fora. Já me basta a inscrição na surrada caderneta de fiados da bodega de Seu Altino Formiga.

Por outro lado, ainda estou muito longe de me aposentar. Mas já vou avisando: quero distância desse mau agouro. Decididamente eu não quero conversa com o "espírito" dessa lei!


Teófilo Júnior

Pintura: El Greco

A Abertura do Quinto Selo ou A Visão de São João
El Grego 1608/1614

Cotas raciais

"[as cotas raciais] visam a combater não somente manifestações flagrantes de discriminação, mas a discriminação de fato, que é a absolutamente enraizada na sociedade e, de tão enraizada, as pessoas não a percebem.”

Joaquim Barbosa, ministro do STF


quinta-feira, 26 de abril de 2012

...continuo achando que ele tem uma declarada inclinação para Indiana Jones!!

Blogosfera

Sou uma personalidade atormentada e dada a arroubos. Noites insones me levam a terras distantes onde nossos ancestrais vagam arrancando a vida e seu sentido das pedras. Com o passar dos anos, cada vez mais me encanta a luta desses nossos patriarcas perseguidos pelos elementos naturais, por seus próprios demônios e por deuses de olhos vermelhos cheios de sangue e dentes afiados.

Construímos sonhos de autorrealização profissional, afetiva e material. A expectativa com nossa própria grandeza ocupa grande parte de nossos devaneios.

O sentimento da fragilidade do mundo sempre me perseguiu desde a infância. Se os psicanalistas estiverem certos, e tudo que é primitivo é indelével, esse sentimento constitui minha substância mais íntima. Que inveja eu tenho das moscas!

Livres, voando pelo mundo, sem saber de si mesmas.

Li nas últimas férias a coletânea de ensaios The Best American Essays of the Century, editada por Joyce Carol Oates e Robert Atwan, Houghton Mifflin Company, Boston.

Destaco dois ensaios: The Crack-Up (a rachadura), de F. Scott Fitzgerald, de 1936 e The Old Stone House (a velha casa de pedra) de Edmund Wilson, de 1933.

Edmund Wilson foi, segundo Paulo Francis, o último grande crítico literário de uma tradição na qual o crítico não se escondia atrás de algum teórico, tipo Blanchot ou Derrida, para repetir o que todo mundo diz e com isso não correr riscos. Wilson enfrentava o autor cara a cara, dizendo o que pensava dele, sem se preocupar com o que a "indústria da crítica acadêmica" diria. A coragem nunca foi um valor na academia, Francis tinha razão.

Nesse ensaio, Wilson fala de uma casa de pedra na qual sua família viveu por muitos anos. Sua família era do tipo de família que aqui chamaríamos de quatrocentona falida. Mãe fria, pai, homem letrado e melancólico, ele, Wilson, parecido com seu pai, e também um bêbado.

Estou convencido de que pessoas sem algum vício terrível permanecem em alguma forma de infância moral. Apenas quem perdeu qualquer esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral. Pessoas sem vícios falando sobre moral é como virgens dando aula de sexo.

Wilson, entre outros parentes, fala de uma tia, infeliz no casamento, obrigada a ser uma mulher normal quando na realidade era uma filósofa schopenhauriana amadora. Segundo ele, ela enfrentou virtuosamente seu fardo criando um sistema filosófico pessoal pessimista e, quando ficou viúva, se mudou para Nova York e gastou seus últimos dias indo a livrarias e vendo teatro. Quando ainda casada, sua tia lia à noite, sobre o fogão, sozinha, em seu único momento de paz.

F. Scott Fitzgerald, autor de "O Grande Gatsby", nesse ensaio descreve a sua maior crise existencial (a rachadura que dá título ao ensaio), que o acometeu por volta dos 50 anos. Escritor famoso, Fitzgerald afirma: "Identifiquei-me com meus próprios objetos de horror e compaixão" e "passei a ter uma atitude trágica em relação à tragédia e melancólica em relação à melancolia". Em síntese, foi inundado por seus próprios objetos literários e se tornou, ele mesmo, um deles. O efeito foi devastador e libertador.

Na abertura, ele define o que entende por uma pessoa inteligente: conseguir viver com duas ideias opostas sobre a vida e não desistir de nenhuma delas.

E exemplifica: saber que não há esperança para nós e ainda assim viver buscando provar o contrário. O resultado seria uma vida combativa em nome da esperança. Uma vida pautada pelo controle de si mesmo e do mundo a sua volta.

Ao final do ensaio, ele volta a definir, agora, o que é, após sua rachadura, o estado natural de um adulto que tem consciência e sensibilidade: infelicidade qualificada (e não banal).

Uma condição com a qual convivemos, mas que ao assumi-la, uma espécie de libertação acontece: em suas palavras, não mais desejar ser um homem bom, não mais ser simpático com o marido de sua prima, nem responder a cartas de escritores jovens medíocres que não deveriam aborrecer os outros. Ser apenas um escritor e não querer agradar a ninguém, nem a si mesmo.


Luiz Felipe Pondé
Folha

Humor: Por que alguns homens têm cachorros ao invés de esposas?


1. Quanto mais atrasado você está, mais alegres seus cachorros ficam ao lhe ver.

2. Cachorros não notam se você os chama pelo nome de outro cachorro.

3. Cachorros gostam que você deixe coisas no chão.

4. Os pais do cachorro nunca visitam.

5. Cachorros concordam que você tem que aumentar sua voz para argumentar.

6. Você nunca precisa esperar por um cachorro; eles estão prontos para sair 24 horas por dia.

7. Cachorros acham engraçado quando você está bêbado…

8. Cachorros gostam de sair para caçar e pescar.

9. Um cachorro nunca irá lhe acordar à noite para perguntar, “Se eu morresse, você iria ter outro cachorro?”

10. Se um cachorro tem filhos, você pode pôr um anúncio no jornal e dá-los para outras pessoas.

11. Um cachorro irá deixar você colocar uma coleira nele sem lhe chamar de pervertido.

12. Se um cachorro sente o cheiro de outro cachorro em você, eles não ficam bravos, apenas acham interessante.

13. Cachorros gostam de passear na traseira do carro.

E por último, mas certamente não menos importante:

14. Se um cachorro vai embora, ele não leva a metade das suas coisas.


Teste da verdade: Tranque sua esposa e seu cachorro no porta-malas do seu carro. Então abra o porta-malas e veja quem fica mais feliz em lhe ver…

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Exílio



Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades



Sophia de Mello Breyner Andresen
“Livro Sexto”, 1962



A poesia tem a chave do coração - Um caso de amor sob encomenda

Tio Nelson escrevendo conselhos sentimentais

Nos anos 80, no Recife, inaugurei um serviço de cartas e poemas de amor sob encomenda que apelidei de “Miss Corações Solitários”, como no livraço do Nathanael West.

A inspiração, porém, era também a Mirna, alterego de Nelson Rodrigues que respondia a leitoras desesperadas nos jornais cariocas.

Mais lascado financeiramente do que maxixe em cruz, apliquei o marketing do miserê e da necessidade. A estratégia foi sucesso. A pensão da rua das Ninfas viveu dias de glória.

Depois de um anúncio nos classificados do “Diário de Pernambuco”, eu não dava mais conta dos pedidos e passei a terceirizar sonetos e acrósticos, tarefa fácil na terra de Manuel Bandeira, onde existem quatro poetas por cada metro quadrado.

Com o meu balcão de lirismo, ajudei a começar romances, reatar namoros, dar esperanças, iludir “boyzinhas”, parabenizar amadas, encorajar amantes, suspirar viúvos, incendiar mancebos e reacender o fogo de lindas afilhadas de Balzac.

A felicidade não se compra, como já nos avisou o cinema, mas que amealhei algumas patacas, amealhei. Recife virou uma festa, melhor do que a Paris de Hemingway.

O motivo dessa crônica, no entanto, não é o de ficar apenas mascando o chiclete Ploc da nostalgia. Nada disso. O motivo é de arrepiar. E se chama Marina Cavalcante.

Pernambucana de Olinda, hoje habitante do bairro de São Matheus, na zona leste de SP, tinha 20 anos quando me encomendou um poema para o namorado. Agora, com “mais de 40″, viu este mal-assombro que vos escreve em um programa de tevê.

Ao me localizar, contou a sua história: “Ele, Roberto, achava que eu o traía, por isso encomendei o poema sobre a minha fidelidade, pra fazer ele se arrepender e chorar (risos), lembra?” ela pergunta.

Claro que não recordo. Eram tantos casos, menina, como testemunhou o poeta e amigo Jaci Bezerra, com quem dividia a mesma mesa de trabalho nas Edições Pirata, na rua da Hora, bairro do Espinheiro.

E aí, conta logo, Marina: “Depois do poema, ele, Roberto, acreditou em mim, vivemos um lindo amor por cinco anos, o amor da minha vida, por isso a minha felicidade de achar o sr. na televisão, pra agradecer, tanto tempo depois”.

Homem que é homem chora bonito, chora mais alto. Não me contive com o episódio. Marina casou com outro aqui em São Paulo. Agora está separada, mas diz que não esquece o cara que motivou aquele velho poema.

Deu até vontade de retomar as encomendas, as costuras sentimentais para fora. Bom saber que a poesia comove até um macho-jurubeba à moda antiga, do tipo que ainda manda flores, caso do amor de Marina.

Por estas e por outras é que escrevo. Não importa o gênero, o meio, o fim.

Xico Sá

Os dois Supremos

Velho advogado e professor, receio o protagonismo político atual do STF, que passou a legislar do aviso prévio à relação entre homossexuais.

Um dos mais importantes pilares da atual Constituição foi a conformação de um notável equilíbrio de poderes, com mecanismos para evitar invasão de competências.

O Supremo Tribunal foi guindado expressamente a "guardião da Constituição" (artigo 102), com integrantes escolhidos por um homem só (artigo 101, § único), o presidente da República, que é eleito pelo povo (artigo 77), assim como os integrantes do Senado e da Câmara (artigos 45 e 46).

O Congresso Nacional tem poderes para anular quaisquer decisões do Executivo ou do Judiciário que invadam a sua função legislativa (artigo 49, inciso XI), podendo socorrer-se das Forças Armadas para mantê-la (artigo 142), em caso de conflito.

Há, pois, todo um arsenal jurídico para assegurar a democracia no nosso país.

Ora, a Suprema Corte brasileira, constituída no passado e no presente por ínclitos juristas, parece hoje exercer um protagonismo político, que entendo contrariar a nossa Lei Suprema. Assim é que, a partir dos nove anos da gestão Lula e Dilma, o Pretório Excelso passou a gerar normas.

Para citar apenas alguns casos: empossar candidato derrotado -e não eleito direta ou indiretamente- quando de cassação de governantes estaduais (artigo 81 da Constituição); a fidelidade partidária, que os constituintes colocaram como faculdade dos partidos (artigo 17, § 1º); o aviso prévio (artigo 7º, inciso XXII); a relação entre homossexuais (artigo 226, § 3º); e o aborto dos anencéfalos (artigo 128 do Código Penal).

Tem-se, pois, duas posturas julgadoras drasticamente opostas: a dos magistrados de antanho, que nunca legislavam, e a dos atuais, que legislam.

Sustentam alguns constitucionalistas que vivemos a era do neoconstitucionalismo, que comportaria tal visão mais abrangente de judicialização da política.

Como velho advogado e professor de direito constitucional, tenho receio dos avanços de um poder técnico sobre um poder político, principalmente quando a própria Constituição o impede (artigo 103, § 2º).

Nem se argumente que ação de descumprimento de preceito fundamental -de cuja redação do anteprojeto participei, ao lado de Celso Bastos, Gilmar Mendes, Arnoldo Wald e Oscar Corrêa- autorizaria tal invasão de competência, visto que essa ação objetiva apenas suprir hipóteses não cobertas pelas demais ações de controle concentrado.

Meu receio é que, por força dos instrumentos constitucionais de preservação dos poderes, numa eventual decisão normativa do STF de caráter político nacional, possa haver conflito que justifique a sua anulação pelo Congresso (artigo 43, inciso XI), o que poderia provocar indiscutível fragilização do regime democrático no país.

É sobre tais preocupações que eu gostaria que magistrados e parlamentares se debruçassem para refletir.


IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 77, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio.
 
Folha de São Paulo

terça-feira, 24 de abril de 2012

Divisão

Você poderá ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeitar as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as arvores. Estas sim, eu levaria de bom grado : as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. O resto dos moveis — são tão poucos! — podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.

A vitrola esta, tão velha que o melhor é deixá-la ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossas respectivas vitrolas, mais modernas, dotadas de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: alta-fidelidade.

Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as valsas, as canções francesas, um ou outro "chopinzinho", o Mozart e Bing Crosby. Deixe para mim o canto pungente do negro Armstrong, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.

Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E conseqüentemente com a estante também.

Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também os dois chinesinhos de marfim e esta espátula. Veja só o que está escrito nela: 12-1-48. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Com exceção,o de pote de melado e moringa de água, nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.

Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, souvenirs. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nos dividido.

Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo está razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.


Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) — A casa demolida — Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1968, pág. 201.

"Todo autor é louco", por Rubem Fonseca


Indicação e sugestão de postagem do amigo Adauto Neto
"É preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. A música ... Este céu que nem promete chuva ... Aquela estrelinha que está nascendo ali... está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos...Não faz nada. Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza. No inútil também está Deus."


(Lygia Fagundes Telles)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Hora do recreio

A velhinha entra num sex-shop, toda trêmula, e pergunta ao vendedor:
- Voocêêê teeem viiibrrrradddooorrrrreeess?
- Temos sim senhora! De vários modelos…
- Teeeemmmm daaaaquueeeeleeesss immmpooortaaadooosss, de ciiinncoooo veloooociiiidaaadeeess?
- Temos sim, senhora!
- Ennntããão, meeee mooostrrraa cooomooo é quuueee eu faaaçooo paraaa dessliiiigaaar essstaaa meeerrrrdaaa.

 
Da net

Sessão retrô

Robin Gibb

A assessoria do cantor Robin Gibb informou, no último sábado, que o cantor conseguiu sair do coma. Apesar da melhora, o quadro de saúde do ex integrante do grupo Bee Gees ainda é muito grave.

Gibb trava uma luta há alguns anos contra o câncer.

Pneus reciclados

domingo, 22 de abril de 2012

Filosofia de banheiro

"Homem é igual a caixa de isopor: é só encher de cerveja que você leva pra qualquer lugar"

"Se você não encontrou a pessoa certa, vai comendo a errada mesmo..."

"O café excessivamente quente, em copo plástico, reduz em dois terços a potência sexual do homem. Primeiro queima os dedos, depois a língua..."

"Devo tanto que, se eu chamar minha mulher de bem, o Banco toma!!"

"Em dia de tempestades e trovoadas o local mais seguro é perto da sogra, pois não há raio que a parte"

Sabedoria popular

"Era uma vez um pardal cansado da vida. Um dia, resolveu sair voando pelo mundo em busca mundo em busca de aventura. Voou até chegar numa região extremamente fria e foi ficando gelado até não poder mais voar e caiu na neve. Uma vaca, vendo o pobre pardal naquela situação, resolveu ajudá-lo e cagou em cima dele. Ao sentir-se aquecido e confortável o pardal começou a cantar. Um gato ouviu o seu canto e foi até lá, retirou-o da merda e o comeu.

Moral da história: 1. Nem sempre aquele que caga em cima de você é seu inimigo; 2. Nem sempre aquele que tira você da merda é seu amigo; 3. Desde que você se sinta quente e confortável, mesmo que esteja na merda, conserve seu bico fechado."


Autor não identificado.

Faz quatro dias que eu tento, sem êxito, identificar o primeiro

Esse é o candidato...



Meu Deus!!!

Por que somos corruptos?

A máxima “o poder corrompe” é a bandeira que cobre o caixão no qual velamos a política. Ela é primeiro desfraldada por aqueles que pretendem evitar a partilha do poder que constitui a democracia. Ela é aceita por todos aqueles que se deixam levar pela noção de que o poder não presta e, deste modo, doam o poder a outros como se dele não fizessem parte. Esquecem-se que a falta de poder também corrompe, mas esquecem sobretudo de refletir sobre o que é o poder, ou seja, ação conjunta.

Democracia é partilha do poder. É o campo da vida comum, a vida onde todos estamos juntos como numa mesma embarcação em mar aberto. Partilhamos o poder querendo ou não, mas podemos fazê-lo de modo submisso ou democrático, omisso ou presente. Estamos dentro da democracia e precisamos seguir suas conseqüências.

Democracia é também responsabilização pelo contexto em que vivemos: pelo resultado das eleições, pela miséria, pelo cenário inteiro que produzimos por ação ou omissão. Mas não nos detivemos em escala social para entender o que a democracia é e, por isso, falta-nos a reflexão que é capaz de orientar o seu sentido, bem como o sentido do poder e da política.

Acreditamos que o poder é mau. Que a política é ação para espíritos corruptíveis. Construímos a noção de que política não combina com ética, com moral, com princípios. Quem acredita nisso já contribui para a manutenção do estado geral da política, pois afirmamos uma essência em lugar errado. Onde deveria estar a ação que constitui a política, está a crença que determina o preconceito e a inação. Neste sentido, a compreensão disseminada no senso comum, já é corrupta. Ela compactua com a corrupção ao reafirmá-la no discurso que sempre orienta a prática.

É nosso dever hoje reavaliar a experiência brasileira diante da política. A compreensão da política como campo da profissão, por definição, corrupta, é ela mesma corrompida e corrupta. Ela destrói a política, cujo significado, precisamos hoje, refazer.

Esta é a ação política mais urgente.

Acostumamo-nos ao pré-conceito de que política é apenas governabilidade e deixamos de lado a idéia fundamental de que a política é projeto de sociedade da qual participam todos os cidadãos. Reclusos em nossas casas, acreditamos que a esfera da vida privada está imune ao político. Esquecemos que o pessoal é também político, não como espetáculo, mas como lugar de relação e modelo da esfera macroscópica da sociedade. Políticos somos porque falamos e estamos com os outros. Política é relação “entre-nós” produzida pela linguagem, pela nossa fala, por nossos discursos. O que dizemos é sempre político. Pois falar é o primeiro passo do fazer ou, mesmo, a primeira de nossas ações.

Política é a relação estabelecida no enlace inevitável entre indivíduos e sociedade. Na omissão praticamos a anti-política. Toda anti-política que seja omissão e não crítica é corrupção da política por ser corrupção da ação. A mais urgente das ações políticas na atualidade, além da punição dos que transformaram nossa governabilidade em prostituição da ação, é refazermo-nos como políticos no verdadeiro sentido.


Marcia Tiburi

* Artigo publicado originalmente em Zero Hora. Coluna Tema para Debate.

Um título com medo

Medo. Medo de escrever e não sair nada. Não rimar condão com fada. Não confrontar a metáfora com a ênclise, atrás da porta que acabei de grafar. Medo do til ter medo de altura, e transformar meu ão em um monossilábico ao, com a redução do o a u, uma semivogal. Medo do i não aceitar o pingo, e ao lado de um zero, formar uma facção de códigos binários. Medo do ar não entrar pelo fonema, e este nunca sair nasal. Medo do texto atonal. Medo da falta de rimas métricas e assimétricas. Medo de sequestro de letras. Do papel em branco. Medo do silêncio do teclado. Do estado hiperbólico das sentenças. Morrer de medo. Estar aquém de um grande verso. Medo do reverso da poética. A metálica forma do medo. Medo de escrever plástico só por sua acepção. Medo das crases. Dos acentos circunflexos, por não existirem os circônflacos. Medo dos flancos do dois pontos. Medo do assombro sem exclamação. Medo do não com ponto final. Do mal uso da cedilha. Das filhas da letra ésse quando se unem aos verbos. Do que fazem com eles. Medo da interrogação. Medo de títulos e epígrafes. Medo de gafes. Medo da origem das palavras. Se nascem mortas de medo. Medo das línguas esquecidas serem as mesmas das quais me lembro. Medo de abuso do texto. Do limite de linhas. Dos rodapés e rubricas. Medo que o trema não seja nunca mais utilizado. E com ele vá-se embora toda a intriga. Medo da falta de idéias. Ou do extremo oposto. Algumas delas ressurgirem do esquecimento para o repetido uso. Medo do p e b mudos. Do hífen do contra-ataque da curva dramática de um texto. Do abandono entre parênteses das reticências por medo. Medo do travessão e da vírgula. Do narrador e da terceira pessoa. Do protagonista. Do epílogo. De uma frase sair à toa. Medo de assinar o final do texto. Da confissão do confuso. Do mal hábito de sentir tudo muito absurdo. E saltar. Soltar a folha cheia de medos por cima do resto do mundo.


Ana Peluso, 1966, paulistana, poeta, ilustradora, participou de algumas antologias, entre elas "Dezamores", Ed. Escrituras, 2003, editou o site de arte e literatura "Officina do Pensamento" por quatro anos, e até hoje escreve e publica ilustrações por lá.
 

A ideia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.


Augusto dos Anjos

sábado, 21 de abril de 2012

Morre o médico José Ademir de Sousa Queiroga

Na manhã deste sábado, 21, faleceu na hospital Dom Rodrigo, na capital do Estado da Paraíba, aos 58 anos, o médico cardiologista José Ademir de Sousa Queiroga, por todos conhecido como Dr. Ademir.

O cardiologista havia sido internado naquela Unidade de Saúde no últmio dia 07, após ter sido acometido de uma parada cardíaca na cidade de Pombal-PB onde residia e tinha consultório.

O médico era consagrado e muito querido pela população do sertão da Paraíba e por onde desempenhou, com competência, o seu ofício de salvar vidas. Tímido e muito modesto, Dr. Ademir tinha o respeito, pela sua ética e notório saber, de todos os seus colegas médicos. Era o único médico intensivista residente na cidade de Pombal-PB.

Cuidou de inúmeros corações.

Indiscutivelmente uma grande perda. Deixamos aqui as nossas mais sinceras condolências e expressões de conforto a toda a sua família ao passo que sabemos que "as palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável" (Madre Tereza de Calcutá).

O corpo do médico chegará a Pombal ainda neste sábado, onde será velado na residência da mãe.

O sepultamento está marcado para a manhã deste domingo (22), no cemitério Nossa Senhora do Carmo.