sábado, 29 de abril de 2017

Agonia de um Filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto...!
Ah!todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto! 
No hierático areópago* heterogêneo
Das ideias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... 
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!


Augusto dos Anjos 

Epigramas

De muitos "doutores" sei
Que fundamente acatamos,
Aos quais, se dizem: - "cheguei",
Retruca a Morte: - "chegamos".


Só usam mangas compridas,
seguindo as normas da igreja,
mas as pernas, mal vestidas,
quem tiver olhos que as veja...


Muita gente sem cachola
De jornalista se doura,
Tendo um frasquinho de cola,
Um arquivo e uma tesoura...


Nesse vestido apertado,
Teu corpo, essa perfeição
Faz do que não tem pecado
Pecador de profissão...


É "doutor", mas a vaidade
empina-o tanto, que até
quisera eu ser a metade
do que ele pensa que é...


Por serem longas e rudas
as vias que levam à Cruz,
todo dia nascem Judas,
mas não vem outro Jesus.


Roberto Correia 

Dez times paraibanos se inscrevem para participar da 2ª Divisão do Paraibano

Dez times paraibanos de futebol se manifestaram interesse junto à Federação Paraibana de Futebol (FPF) para competir pelo Campeonato Paraibano da 2ª divisão. O prazo de inscrições terminou na última quinta-feira (20).

Apesar de as inscrições terem sido feitas, ainda não estão confirmadas porque dependem de uma garantia financeira para que as equipes possam jogar.

Com a 2ª Divisão do Campeonato Paraibano, a 1ª Divisão deverá ter um número menor de competidores. A intenção da FPF é que no ano de 2019 oito times disputem a primeira divisão. Nas próximas duas edições da segunda divisão apenas um time conseguirá o acesso à primeira e dois times devem cair. Após isso, a intenção é que o acesso e a queda sejam padronizados.

Dentre as equipes com interesse em participar da 2ª Divisão do Paraibano estão times conhecidos como o Nacional de Patos, Desportiva de Guarabira e o Lucena. Também estão inscritos os times Spartax, Femar, Miramar, Perilima, Sport Campina, Nacional de Pombal e Picuiense.

O campeonato será disputado ainda este ano e garantirá que uma das equipes garanta vaga na Primeira Divisão do ano que vem.

Fonte: paraiba.com

O Lado Obscuro de cada um de Nós

Passou no seu casamento por aquilo que é quase um fato universal - os indivíduos são diferentes uns dos outros. Basicamente, constituem um para o outro um enigma indecifrável. Nunca existe acordo total. Se cometeu algum erro, esse erro consistiu em ter-se esforçado demasiadamente por compreender totalmente a sua mulher e por não ter contado com o fato de, no fundo, as pessoas não quererem saber que segredos estão adormecidos na sua alma. Quando nos esforçamos demasiado por penetrar noutra pessoa, descobrimos que a impelimos para uma posição defensiva e que ela cria resistências porque, nos nossos esforços para penetrar e compreender, ela sente-se forçada a examinar aquelas coisas em si mesma que não desejava examinar. Toda a gente tem o seu lado obscuro que - desde que tudo corra bem - é preferível não conhecer. 

Mas isto não é erro seu. É uma verdade humana universal que é indubitavelmente verdadeira, mesmo que haja imensas pessoas que lhe garantam desejar saber tudo delas próprias. É muito provável que a sua mulher tivesse muitos pensamentos e sentimentos que a tornassem desconfortável e que ela desejava ocultar de si mesma. Isto é simplesmente humano. É também por este motivo que tantas pessoas idosas se refugiam na própria solidão, onde não serão incomodadas. E é sempre sobre coisas de que elas não desejariam estar muito cientes. O senhor não é, obviamente, responsável pela existência destes conteúdos psíquicos. Se, apesar disto, ainda for atormentado por sentimentos de culpa, reflita então sobre os pecados que não cometeu e que gostaria de ter cometido. Isto poderá eventualmente curá-lo dos seus sentimentos de culpa relativamente à sua mulher.

Carl Jung, in 'Cartas'

Frio


Quem diria...

A vida é um contínuo, uma sucessão de acontecimentos, muitos deles relacionados entre si, gerando consequências em cadeia, como a água da chuva que molha o solo, encharca a terra, escorre morro abaixo, abastece os córregos, enche os rios, suja o mar, impede a pesca de mergulho e acaba protegendo as lagostas. Nestes dias de vento sul bem fraquinho, a água do mar está espelhada e transparente como há muito não se via. No meu tempo de rapaz atlético, uma água dessas era motivo para matar aula e remar até as ilhas do Boi ou do Frade, em busca das lagostas. Hoje, há quem diga que as lagostas sumiram das redondezas, em função do minério de ferro que cai no mar o ano inteiro e da pesca desenfreada.

Em terra firme, fatos e pecados que misturam o mundo da política e o submundo dos negócios estão sendo revelados em larga escala pelos próprios atores, em dezenas de depoimentos de envergonhar mães de delatores e delatados. Denúncias graves e, possivelmente, comprováveis, são retrucadas com negativas cínicas e burocráticas. No tempo do Mensalão, apostei que caciques também seriam presos, além dos bagrinhos. Agora tenho visto manobras de políticos comprometidos até os dentes tentando aprovar leis que protejam seus interesses. Faz parte do jogo. Otimista, gosto de acreditar que o processo vai continuar se desdobrando, evoluindo, para ser mais exato. Se a morte de Teori aliviou alguns, a atuação de Fachin deve estar tirando o sono de muita gente. Acredito que a Lava Jato já tenha atingido o chamado ponto de não retorno.

Para além da sensação de impotência, da descrença e das teorias de conspiração, vejo que começam a brotar iniciativas individuais e de pequenos grupos orientadas para a busca de soluções para o descalabro nacional. Tem gente propondo, inclusive, uma Assembleia Constituinte, composta por brasileiros notáveis e de ficha-limpa, para rever a legislação que regula a atividade política, passar uma régua nas práticas e lideranças vigentes e, sobretudo, possibilitar um futuro mais animador.
 
Álvaro de Abreu 

Imagem de Nossa Senhora explode inexplicavelmente em Cajazeiras-PB

A imagem de Nossa Senhora de Aparecida explodiu sem motivo aparente na cidade de Cajazeiras, Paraíba. A população da cidade relata ter encontrado a imagem da santa totalmente destruída após escutarem um barulho muito forte.

Ainda não se sabe o que causou a explosão, algumas pessoas estariam considerando a hipótese dela ter sido causada devido ao calor muito forte da região e da exposição constante da imagem ao sol.

A imagem de Nossa Senhora de Aparecida ficava na praça da Rua 13 de Maio no Centro da cidade e teria sido construída por um empresário local.

Fonte: Diário do Sertão

“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford

A emoção em “O Carteiro e o Poeta” (Il Postino – 1994), dirigido por Michael Radford, já nasce nos primeiros segundos, com a linda trilha sonora de Luis Bacalov, que consegue transmitir um profundo sentimento de nostalgia, como que a sociedade gritando por ajuda, a necessidade do retorno de valores já tidos como antiquados e dispensáveis. O homem humilde, vivido por Massimo Troisi, emocionalmente inseguro, que, por hábito, aprendeu a se minimizar, observando ternamente a foto amarelada, enquanto o dia lentamente desperta. Ele tenta estabelecer contato com o pai, um pescador embrutecido pela vida, porém, o velho não escuta suas desajeitadas palavras, preocupado mais com o mecânico saciar de sua fome. Ao conhecer o poeta Pablo Neruda, vivido por Philippe Noiret, em um cinejornal, o homem toca brevemente aquele mundo desconhecido, totalmente diferente de sua simples comunidade pesqueira. A escuridão da sala de cinema potencializa a mágica desse primeiro encontro, posicionando o homem, em sua pequenez, diante do gigante visitante estrangeiro na tela.

Ele tenta conseguir um emprego como carteiro, porém, num toque sutil, a câmera se foca na exigência de uma bicicleta. A sua insegurança é tanta, que, sem pensar duas vezes, ele adentra o local com a bicicleta, como que tentando garantir sua contratação, antes de precisar abrir a boca. Vale notar a postura dele ao avisar ao empregador sua fragilidade intelectual, afirmando que sabe, de forma lenta, ler e escrever, uma mentira que ele é incapaz de disfarçar, quando reage de forma defensiva ao escutar que irá trabalhar apenas para uma pessoa, já que todos na região são analfabetos. Em sua visão, Neruda é o poeta amado pelas mulheres, aquele ser superior idealizado na sala escura. A remuneração é pouca, o trabalho é cansativo, devido ao número expressivo de cartas que ele carregará, ele descobre até que o poeta é um comunista, conotação política que não entende, mas nada disso importa para o carteiro, que, com um emprego, passa a existir novamente para seu pai. Ele é aconselhado a trocar o mínimo de palavras possível com o estrangeiro, sendo submisso e prestativo, evitando incomodar.

No primeiro encontro, ele se encanta com o carinho do poeta com sua esposa, gesto que corrobora sua imagem idealizada. Ele sorri como uma criança que flagra o beijo dos pais. A gorjeta era desnecessária, ele já tinha tido satisfeito o necessário, a confirmação de sua crença. Em sua mente, como todos que idealizam, ele cria até a ilusão de uma conversação, já que afirma ao empregador que o poeta fala de forma diferente, quando, na realidade, ele havia apenas agradecido pela entrega das cartas. No segundo encontro, após efetivamente flagrar o beijo do casal, ele toma um pouco de coragem e tenta, de forma desajeitada, estreitar a relação, colocando-se à disposição dele para qualquer trabalho extra. O carteiro precisa aprender aquele truque de mágica, aquela facilidade de encantar tantas mulheres. Com mais uma frase trocada, ele já expande sua ilusão, afirmando que o poeta também é um exímio contador de piadas. Sem cartas, ele vai até o poeta para conseguir uma dedicatória em um livro, uma prova de que ele é seu amigo, um tesouro que ele pretende utilizar com as mulheres, porém, para sua tristeza, seu nome não consta na breve dedicatória.

O carteiro se esforça, tentando compreender o poder sedutor por trás daquelas linhas, letras pequeninas, exercitando timidamente metáforas com o poeta, ainda que não saiba o que significa a palavra, como que mostrando a ele que poderiam ser amigos. Ele não compreende a razão de algo tão simples possuir um nome tão complicado. E, numa cena bonita em simbolismo, pela primeira vez, o enquadramento mostra o poeta se colocando em posição de submissão, sentado, diante do simples carteiro, que, de pé, tenta impressioná-lo com o resultado de seu estudo dedicado. A poesia explicada torna-se banal, ele aprende que a mágica perde o fascínio quando o truque é revelado. Os dois homens, tão diferentes em teoria, acabam se descobrindo, na prática, iguais. Não há mestre e aprendiz, ambos aprendem. O efeito desse encontro, um evento transformador na vida dos dois, uma amizade nascida da improbabilidade, fortalecida com o amor pela palavra escrita. O carteiro deseja contar para o pai sua felicidade, mas, com sua sensibilidade que está sendo apurada, percebe que o velho bronco não irá compreender sua conquista, ou compartilhar seu orgulho, então, triste, ele silencia. A cultura, único elemento que verdadeiramente modifica o homem, já havia começado a libertá-lo daquela realidade simplória.

O emocionante terceiro ato, as circunstâncias de bastidores, com Troisi cada vez mais fragilizado, o adiamento de uma cirurgia cardíaca que poderia ter garantido mais alguns anos de vida, uma escolha apaixonada pela finalização da obra, decisão que evidencia a importância do filme na vida do querido ator italiano. Sua morte, por ataque cardíaco fulminante, no dia seguinte ao término, trouxe lágrimas aos rostos de cinéfilos do mundo todo. Seu legado é eterno, assim como a influência do poeta na vida do personagem. O filho, que ele não chega a conhecer, carrega o nome do estrangeiro, que, a despeito de todos os avisos do empregador, acabou se encantando pela amizade pura e sincera do tímido carteiro. Seu poema, criação que o ídolo nunca irá conhecer, perdido na revolta dos manifestantes, foi o atestado de independência e segurança emocional. A beleza da gratidão.

Por Octávio Caruso

Bandolins

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Greve geral



Horas rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida.


Você é arrogante?

Quando Dr. Pedro recebeu o empresário, este logo começou a falar sobre suas conquistas, manifestando uma enorme arrogância. Afirmava ter erguido sua companhia do nada, sozinho. Nem seus pais tinham lhe dado um centavo. Trabalhara para pagar a faculdade.

Então Pedro falou: você fez tudo sozinho. 

Respondeu: Fiz! 

Pedro insistiu: ninguém nunca lhe deu nada: Nada! 

Então, Pedro perguntou: quem trocou suas fraldas? Quem o alimentou quando be­bê? Quem trabalhou para sustentá-lo? Quem o ensinou a ler e a escrever? Quem lhe deu os empregos que o mantiveram na facul­dade? Quem lhe deu o primeiro emprego depois de formado? Quem serve a comida na lanchonete da sua empresa? Quem lim­pa sua casa? 

A arrogância não é exclusiva de uma classe econômica. Pode ser encontrada entre ricos e pobres, pessoas cultas ou ignorantes. O pior de tudo é que a maioria das pessoas que agem assim não se acham arrogantes, e por isso não mudam.

Prof. Menegatti 

Amantes poderosos

Em algumas sociedades mais exigentes, a descoberta de uma relação extraconjugal de  detentor de cargo público eleito ou nomeado, resulta no repúdio do eleitorado, quando não,  na renúncia ao mandato ou ao cargo. Outras mais tolerantes, tratam o assunto como  privado,  merecendo  confidencialidade. A natureza machista do brasileiro, porém, costuma colocar-se ao lado do homem, e tem até quem ache que a mulher deveria pedir desculpas por ter sido traída...

Não iniciei este assunto para emitir conceitos morais, mas para revelar passagens da nossa história, envolvendo homens públicos que foram líderes em sua época e deixaram famosas também as mulheres que passaram por suas alcovas.

Dei uma rápida olhada no passado e  encontrarei nosso  Imperador Pedro I concedendo títulos nobiliárquicos a Domitila de Castro Canto, que terminou Marquesa de Santos, pelos relevantes serviços prestados à recém nascida pátria brasileira, na intimidade do Império. Foi a mais famosa das amantes nacionais, com direito até a registro nos livros escolares. Pedro II não desmereceu o pai. Transformou Margarida Luisa de Barros, preceptora de sua filha Isabel, em amante.  Baiana de Santo Amaro da Purificação, essa conterrânea de Caetano Veloso foi feita Condessa de Barral e morreria em Paris sob as graças do Rei Luis Felipe I. 

Na República os registros são mais discretos e foram tornados públicos após a morte do personagem famoso. Uma ação da VAR-Palmares, organização integrada pela atual presidente Dilma Rousseff (Estela) e seu companheiro de então, resultou no “seqüestro” do cofre de Adhemar de Barros, governador de São Paulo duas vezes e candidato eterno à Presidência da República. O cofre, que rendeu  mais de dois milhões de dólares aos guerrilheiros de Lamarca, estava sob a guarda da família de Ana Guimol, famosa amante de Adhemar, por este chamada de Dr. Rui. “Pois não, dr. Rui...” - era assim que ele atendia a seus telefonemas quando cercado por outras pessoas. Era um segredo de polichinelo, pois somente dona Leonor, sua esposa, não sabia.

Getúlio Vargas, quando se dizia “um homem no declínio da vida...banhado por um raio de sol”, estava rememorando os instantes passados nos braços de sua amada, para ele “um momento sentimental de transbordante alegria”. Passou a se chamar  Aimée Lopes, depois que casou com o oficial de gabinete do presidente, mas desde o tempo de noivado, desfrutava as horas furtivas que Getúlio conseguia, graças à ajuda de Iêdo Fiuza, então diretor do DNER e ex-prefeito de Petrópolis, conhecedor de todas as garçonieres do Rio, ainda não servido de motéis.

Reconhecido nos serviços prestados à causa, Luiz Simões Lopes, o marido traído, foi nomeado primeiro diretor do DASP, o embrião do Ministério da Administração. Desfeito seu casamento, Aimée abandonou também o amante e casou nos Estados Unidos, onde foi destacada por uma revista especializada como uma das três mulheres mais belas e elegantes do mundo. Foi o que Getúlio perdeu  e, inconformado, confessa ao seu diário: “Vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, nada se lhe pode aproximar&r dquo;. A Vedete do Brasil, Virginia Lane,  que ganhou fama mostrando as belas pernas no palco, foi  a sucessora de Aimée, sem, no entanto, acalmar o coração do gaúcho.

Um dos  presidentes mais queridos do Brasil, o construtor de Brasília, Juscelino Kubitschek, quando vitimado por um acidente voltava de um encontro com a amada Maria Lúcia Pedroso. Conhecido como um homem galanteador, famoso  pé-de-valsa, dele contavam muitas histórias. Atrizes de renome costumavam acompanhá-lo em suas inspeções ao canteiro de obras de Brasília. O “Catetinho” deve ter muita história para contar. Eu teria também muitas outras, mas o espaço que me dão, é pequeno. Morram de curiosidade, mas n&atil de;o contarei nada sobre aquele general presidente!

Ramalho Leite (do Blog do Tião) 
(do livro “Gente do Passado, Fatos do Presente”)

quinta-feira, 27 de abril de 2017


Hipocondríaco sem remédio

Foi eu abrir a minha caixinha de pílulas, no café da manhã, e ele esticar o pescoço para xeretar, tomado de súbita excitação:

— O que temos aí?

Tínhamos ali uns poucos e modestos fármacos, como ele gosta de dizer, não mais que três bolotinhas brancas - e, diante do espetáculo pífìo, meu amigo pôs no rosto uma expressão de superioridade próxima do desprezo. Sacou sua própria caixinha - palavra reles demais para descrever 0 estojo de metal esmaltado que, por simples ação de presença, reduziu a nada 0 recipiente de plástico plebeu onde os meus ridículos comprimidos se comprimiram ainda mais, cobertos de vergonha farmacológica. Um botãozinho, plec, descortinou teatralmente a profusão de pílulas, de diferentes cores, formatos e tamanhos, para os mais variados males, presentes, futuros e passados, sem excluir os imaginários. Como um lapidário com seus brilhantes e rubis, ele espalhou as gemas sobre a mesa e foi fazendo as apresentações: esta é para isto, esta para aquilo...

Cada qual tem nesta vida um assunto em que se sente mais à vontade, e 0 desse meu amigo é remédio. Mas não qualquer um. Não ousem falar com ele de chás, florais, homeopatia. Muito menos de medicamentos baratos, a seu ver incapazes, já por motivos econômicos, de surtir efeito: é preciso que haja sofrimento monetário. Remédio sem bula? Meu amigo não passa sem essa literatura de terror em que o nome mais simples de personagem tem sete sílabas.

Faz mais fé nas pílulas coloridas do que nas brancas, nas cápsulas do que nos comprimidos e, sobretudo, nas pastilhas efervescentes, que nem entraram ainda no organismo e já estão, com suas borbulhas, mostrando serviço. É ver uma injeção e dar 0 braço a picar. Gosta de remédio que arde - sinal de que está fazendo efeito. "Zé Febrinhà', como costumamos chamá-lo, carrega seu termômetro aonde quer que vá. Adora consulta médica, ocasião em que 0 assunto é ele, só ele e suas entranhas, e se anima todo durante 0 interrogatório a respeito da caxumba na infância. É com entusiasmo futebolístico que fala de suas passagens por salas de cirurgia, nas quais vem deixando seus miúdos, das amígdalas ao prepúcio, do apêndice à vesícula biliar.

— Estou indo aos poucos — anuncia ele orgulhosamente.

Dia desses, ao telefone, enveredou pelo relato de seu despertar após a cirurgia de vesícula. Ao abrir os olhos, a primeira coisa que percebeu, sobre 0 criado-mudo, foi um potinho de plástico em cujo interior transparecia uma pedra escura e informe.

— Maior pedregulho, meu! — disse ele, feliz como garimpeiro que acaba de recolher na bateia um graúdo diamante. Poucos homens já vi gabarem-se com tão segura vaidade no quesito tamanho. Ou — que ele não me leve a mal — galinha cacarejar com tanto júbilo ao botar um ovo.

O seu entusiasmo não diminuiu nem mesmo quando, incorporando o meu ocasional espírito de porco, observei que uma ostra é capaz de feito bem maior, já que produz pérolas, não calhaus fuliginosos.

— Você não sabe de nada — desdenhou ele, em seu pétreo orgulho mineral, e entrou a falar da fita de vídeo que encontrou ao lado do potinho, ao voltar da anestesia: 0 filme, sem cortes, da sua cirurgia. A primeira peça, espera meu amigo, de uma videoteca ambientada exclusivamente em suas entranhas.

Cerveja na mão e cumbuca de amendoim ao lado, ele já pôs para rodar incontáveis vezes essa produção intimista, e, cinéfilo visceral, se compraz em descrever as passagens mais emocionantes da extração de sua vesícula.

— Finalmente há uma prova de que você tem vida interior — disse eu.

— Você vai ver na primeira vez que vier aqui em casa — retrucou ele, não sei se como promessa ou ameaça.

Como alguém que gostou mais do livro que do filme, meu amigo preferiu a pedra ao vídeo.

— Já me abriram várias vezes — deu-se à pachorra de explicar — e nunca encontraram nada bom, só coisas inaproveitáveis. Agora acharam essa pedra. Pode não ser uma pérola, como você diz, mas dá para guardar de lembrança.


Humberto Werneck
O tempo, caros amigos, é implacável!

Página vazia

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.

E quando, com fidalga gentileza,
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes"?!!


Euclides da Cunha 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Ariel

Êxtase no escuro,
E um fluir azul sem substância
De penhasco e distâncias.

Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares e joelhos! – O sulco

Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,

Olhinegra
Bagas cospem escuras
Iscas –

Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais

Me arrasta pelos ares –
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.

Godiva
Branca, me descasco –
Mãos secas, secas asperezas.

E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O grito da criança

Escorre pelo muro
E eu
Sou flecha,

Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho

Vermelho, fornalha da manhã.


Sylvia Plath 

A incerteza é o habitat natural da vida humana - ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor de atividade de atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade genuína, adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.

Zygmunt Bauman
Sinto-me radiosa, estrondosa, radiante por viver...confiante , aspirante e consonante em ser.  Eu sei, é sobre mim que a vida põe suas asas, e eu vô(o)u ...
Nesse átimo de segundo suspensa ao céu vejo-me graciosamente breve, embriagadamente leve,  solta ao vento, colibri que desliza  no  próprio céu do sentir... e me entrego toda!

Só sobrevivo como pássaro.

...Erikah Azzevedo...
 
Do Blog Palavrear Intenso de Erikah Azzevedo http://palavrearintenso.blogspot.com/#ixzz4ez8DgjIE

Versículos do dia

Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra? Jeremias 23:29

Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso? Lucas 12:49

terça-feira, 25 de abril de 2017

Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudades, mas não estará só.

Charge



Pensamento oriental

"Existe uma linha invisível aos olhos
que conecta todos os que estão destinados
a se encontrar e não importa o tempo,
o lugar ou as circunstâncias.
Esse fio pode ser apertado
ou emaranhado, 
mas nunca rompido".
"Estou me afastando de tudo
que me atrasa, 
me engana,
me segura
 e me retém".
 
Caio Abreu 

Repente

Esta palavra saudade
Conheço desde criança
Saudade de amor ausente
Não é saudade -- é lembrança
Saudade só é saudade
Quando morre a esperança.
 
Pinto de Monteiro 

Tatoo

Nada é permanente

segunda-feira, 24 de abril de 2017

"Quem já passou por essa vida e não viveu,
pode ser mais, mas sabe menos do que eu..."
 
Vinicius de Moraes

Quintana

Da arte de ser bom 

Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão. 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da arte de ser bom. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 38.) 

Da calúnia 

Sorri com tranquilidade
Quando alguém te calunia.
Quem sabe o que não seria
Se ele dissesse a verdade... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da calúnia. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 57.) 

Da discreta alegria 

Longe do mundo vão, goza o feliz minuto
Que arrebataste às horas distraídas.
Maior prazer não é roubar um fruto
Mas sim ir saboreá-lo às escondidas. 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da discreta alegria. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 30.) 

Da discrição 

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo de teu amigo
Possui amigos também... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da discrição. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 50.) 

Da experiência 

A experiência de nada serve à gente.
É um médico tardio, distraído:
Põe-se a forjar receitas quando o doente
Já está perdido... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da experiência. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 57.) 

Da felicidade 

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz! 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da felicidade. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 47.) 

Da indiscrição 

Passível é de judicial sentença
O que na casa alheia se intromete.
Só nos falta é uma lei que aos importunos vete
A entrada em nossas almas, sem licença... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da indiscrição. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 50.)

Da interminável despedida 

Ó Mocidade, adeus! Já vai chegar a hora!
Adeus, adeus... Oh! essa longa despedida...
E sem notar que há muito ela se foi embora,
Ficamos a acenar-lhe toda a vida... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da interminável despedida. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 44.) 

Da moderação 

Cuidado! Muito cuidado...
Mesmo no bom caminho urge medida e jeito.
Pois ninguém se parece tanto a um celerado
Como um santo perfeito... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da moderação. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 52.) 

Da morte 

Um dia... pronto!... me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer que me importa?... O diabo
É deixar de viver! 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da morte. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 61.) 

Da observação 

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio... 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da observação. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 56.) 

Da perfeição da vida 

Por que prender a vida em conceitos e normas?
O Belo e o Feio... O Bom e o Mau... Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do Ser! 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da perfeição da vida. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 36.) 

Da sabedoria dos livros 

Não penses compreender a vida nos autores.
Nenhum disto é capaz.
Mas, à medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderás. 

Mário Quintana (“Espelho mágico”)
(QUINTANA, Mário. Da sabedoria dos livros. In: _____. Espelho mágico. São Paulo: Globo, 1. ed., 2005, p. 39.)

Humor

Nem tudo é metáfora! 

A esposa, nervosa, vira pro marido e diz:
– Se eu soubesse que você era pobre, jamais teria me casado com você! 
O marido, calmo, responde:
– Mas eu sempre avisei que você era tudo que eu tinha! 

Já dizia o ditado: quem avisa, amigo é!

"Pracas"






Lettera amorosa

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.


Eugênio de Andrade

domingo, 23 de abril de 2017


O assobiador e seu crime

O papel carbono com formato anatômico estava esperando sua vez de se avistar com o "majorengo". Um soldado passava, imponente, segurando o fuzil pelo pescoço, como se segura um ganso morto. Na luz baça da sala, em que a atmosfera podia ser cortada a navalha, o fumo se erguia da multidão de pardos esperando destino. Ele também lá estava esperando seu destino, naquela madrugada de sábado em que a garoa andava envolvendo a treva em celofane fosco.

De repente, o delegado chegou. E começou o desfile dos culpados. Foi quando chegou a hora da "conversa" com o papel carbono:

Seu nome ?

— Zequié de Oliveira !

— Como?

— Zequié, mais a turma trata eu de Pente Fino.

E o delegado começou a indagar que é que Pente Fino estava fazendo. Nada. Ele não estava, fazendo nada, quando a “tirage” chegou e encanou ele, sem mais aviso e sem nem dar "satisfa". Foi aí que ele enfezou, puxou da "ferramenta de fazer cadáver" e queria bancar o Prestes Maia, abrindo pelo menos duas avenidas em cada cara de policial.

— Valente, hein? — disse o delegado.

Valente — ele? — não! Até que Pente Fino não tinha nada de valente. É que ele tinha sido preso de maneira desonesta. Onde é que se viu "tirage" prender gente que não está fazendo nada? Aí, se adiantou um tira e começou a explicar. Que o Pente Fino estava numa esquina das Perdizes, às duas da manhã, assobiando como um desesperado. Então, que eles acharam o assobio muito suspeito e "encanaram" mesmo.

— Mas então — discute Pente Fino — assobiar na rua é proibido? E a Constituição? A Constituição não garante a liberdade de palavra? Assobio não é um jeito que a música tem de ser palavra? Foi por isso que ele se enfezou. Que numa cidade adiantada como São Paulo, um homem não tem sequer o direito de assobiar?

Mas é que ele estava assobiando de uma maneira muito suspeita, diz o "tira".

Como suspeita? Então — emendava Pente Fino na sua linguagem de Barra Funda — "então subiá é cospiração?". Ao que ele sabia, não era. E que demais a mais, o delegado fizesse aquilo que a justiça mandava. Se achava que ele merecia ficar "guardado", para "ver o sol nascer quadrado", que fizesse isso. Mas que crime, ele não tinha cometido nenhum.

O delegado reconhecia, sim, a inocência de Pente Fino.  E, afinal de contas, assobiar não era delito. Podia ir embora em paz. Que fosse. Mas que não assobiasse mais pela rua, alta madrugada, que podia incomodar a vizinhança.

E lá se foi embora, feliz, o Pente Fino, colocando-se "sempre às ordens" do delegado e rematando toda a sua história de sábado com uma frase:

— Ah... seu dotô... Assubio é lição de violino de pobre!

Osvaldo Molles

Do livro “Piquenique Classe C”, Boa Leitura Editora, São Paulo, sem data, pág. 257, extraímos o texto acima.

Charge


Onde foi parar a tal da empatia?

“Fiquei amiga do mendigo”, disse eu. “Pode riscar da sua lista das coisas a se fazer”, respondeu meu irmão. Esse pequeno diálogo, ocorrido outro dia com meu irmão, ao contar para ele sobre esse meu curto encontro com o morador de rua, fez-me pensar nessa questão da empatia. Estávamos eu e meu filho na cidade de São Paulo, dentro do metrô, em direção à rodoviária para voltarmos para nossa cidade. Estávamos com malas e bastante cansados, embora felizes.
O trem estava cheio e, sentado em nossa frente, onde estávamos em pé, estava um homem meio sujo, cheirando meio mal, descabelado, barbudo e desdentado, tentando conversar com as duas mulheres que estavam ao lado dele no banco. Elas simplesmente o ignoravam com cara de quem estava aturando aquela criatura desprezível ao seu lado no metrô. Ele, então, resolveu falar comigo. Perguntou-me de onde eu era, já que, segundo seu julgamento, eu não parecia ser paulistana.

No momento, tive que tomar a decisão sobre o que fazer. Responder a ele? Sair de lá e ir mais longe? Ignorar, como faziam as outras mulheres? Eu estava acompanhada de meu filho, que tem apenas 11 anos. Dessa forma, tenho uma preocupação muito grande com minhas atitudes, uma vez que certamente, meu filho se espelhará nelas. Eu sei bem que não adianta nada dizer a ele que “todos os seres humanos têm o mesmo valor, que as pessoas menos favorecidas economicamente também merecem nosso respeito, etc” e agir de forma que negue isso.

Sempre que passo por momentos desse tipo, em que tenho que servir de exemplo para meu filho em situações que envolvem algum tipo de conduta ética me lembro do imperativo categórico do Kant. “Ages somente segundo aquela máxima que possas a todo tempo querer que se tornasse uma lei universal”. Na minha visão, quando temos filhos, essa lei moral de Kant tem uma aplicação direta, uma vez que muito provavelmente nossos filhos tomarão nossas ações como uma lei universal, pelo menos, enquanto são crianças.

Dessa forma, sempre devemos nos certificar de que TODAS as nossas ações devem ser feitas de tal forma que aprovaríamos que fossem feitas por nossos filhos. É o tal do exemplo. Se você age de uma forma, mas não gostaria que seu filho agisse da mesma maneira e usa discursos contrários à sua própria ação, provavelmente suas ações dizem mais do que suas palavras. Assim, tive que tomar uma decisão por mim e por ele.

Nesse momento, resolvi, então, OLHAR para o homem que estava sentado na minha frente e parece que um limpador de para-brisas passou pelos meus olhos. Passei a enxergar exatamente o que estava à minha frente: um ser humano querendo ser visto como tal, tentando conversar com outras pessoas.

Respondi a ele que era do interior de São Paulo e o diálogo continuou. Ele me disse que achava que eu era gaúcha, pela minha aparência. Ele, por sua vez, era do Rio de Janeiro. Tinha se divorciado da esposa em 2005. Tem dois filhos adultos, ambos terminando boas faculdades. Ele, por infortúnios da vida, acabou perdendo o trabalho, “por culpa da prefeitura” e acabou tendo que viver na rua por um tempo. “Por isso, estou sujo assim. Mas eu tenho Deus no coração e sei que vou sair dessa”, disse ele, batendo no peito e sorrindo seu sorriso sem dentes.

E esse tal de “Seu Moço”, “com ar de gente marcada, mas o coração sem espinho”, como diz a canção, afinal de contas, queria o que de mim? Apenas ser visto como ser humano e conversar. Ele não estava me assaltando, nem me assediando, nem pedindo dinheiro. Nada. Seus olhos gritavam para mim apenas que o enxergasse como ser humano.

O psiquiatra Flávio Gikovate dizia que a empatia é se colocar no lugar do outro, mas não como se colocássemos a nossa alma no corpo do outro, porque isso invariavelmente leva a um erro. Assim, se eu quisesse tentar entender como se sente o morador de rua, mas pensando com a minha cabeça, com a minha vivência e minha alma, certamente erraria. Temos que tentar entrar na cabeça do outro “sendo” o outro mesmo, como um hacker, disse o Gikovate.

Agora, veja só, se um homem como esse, cujos olhos gritam tão alto, já temos dificuldade em enxergar, imagine aqueles que são mais semelhantes a nós. Tenho a impressão de que temos uma dificuldade cada vez maior de simplesmente enxergar a pessoa que está à nossa frente e de tentar entender o que essa pessoa está passando, sentindo. Assim, temos a tendência dessa falsa empatia, de nos colocarmos com nossa alma na pele do outro e soltamos pérolas como “eu no lugar de Fulano”… Isso leva a erros muito grandes de julgamento, porque não é você no lugar de Fulano, mas sim, Fulano no lugar de Fulano.

Quantas vezes não nos pegamos bufando dentro de um táxi, porque aquele ser que dirige o carro ao qual estamos pagando apenas para nos levar a nosso destino resolve puxar papo conosco. É como se víssemos esse ser como uma peça a mais do carro, um algo mecânico, algo que deveria “se colocar em seu lugar” e saber qual o seu papel: dirigir o carro.

Parece exagero, mas se o mendigo sujo, desdentado e descabelado passa a fazer parte do cenário do metrô, quantas não são as pessoas que passam a fazer parte do “cenário” para nós e que nem sequer nos damos conta de que são pessoas, com tudo o que vem junto nesse pacote, ou seja, dores, amores, alegrias, tristezas, sonhos, segredos…

Rubem Alves escreveu uma crônica sobre a bondade, em que usa a palavra solidariedade. “A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo (…). Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja junto dos meus próprios sentimentos”. Ele diz que é assim que nasce a bondade.

Pois eu acho que, como tudo na vida, essa é uma via de mão dupla. No momento em que vi o “semblante já bem castigado à custa de muita ‘pedreira’” desse Seu Moço que encontrei no metrô, algo mudou em mim, minha visão se ampliou. Eu consegui realmente desbloquear uma conquista, marcar um “check” na minha lista de coisas a se fazer antes de morrer, como disse meu irmão, mas não foi ficar amiga de um mendigo, mas sim, ampliar minha capacidade de enxergar o ser humano que existe na pessoa que está à minha frente.
Se agora eu consegui enxergar com algum esforço um ser tão gritante, dei um passo a mais em direção a enxergar seres humanos com suas dores e suas histórias que passam pela minha frente todos os dias e que eu, fechada na minha concha, no meu ego, na melhor das hipóteses consigo dizer “eu no lugar dele”…

Como diz também essa linda canção que citei ao longo do texto, chamada Seu Moço, da cantora Anna Ratto, “fiz escola com Seu Moço, escola de dança da vida”. Obrigada, Seu Moço, que possivelmente nunca mais encontrarei em toda minha vida, mas que conseguiu me transformar em uma pessoa um pouquinho menos cega, um pouquinho mais solidária, um pouquinho mais humana.

Juliana Santin

Tutti-Frutti

Salvar é uma grande palavra. E amor é uma palavra ainda maior. Grandes palavras escondem grandes enganos.

A tua voz na primavera

Manto de seda azul, o céu reflete 
Quanta alegria na minha alma vai! 
Tenho os meus lábios úmidos: tomai 
A flor e o mel que a vida nos promete! 

Sinfonia de luz meu corpo não repete 
O ritmo e a cor dum mesmo beijo… olhai! 
Iguala o sol que sempre às ondas cai, 
Sem que a visão dos poentes se complete! 

Meus pequeninos seios cor-de-rosa, 
Se os roça ou prende a tua mão nervosa, 
Têm a firmeza elástica dos gamos… 

Para os teus beijos, sensual, flori! 
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos, 
Só me exalto e sou linda para ti! 


Florbela Espanca
O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a tempestade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento.

" Liberdade na vida é ter um amor para se prender" 

Fabrício Carpinejar


Frase

Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel.

René Descartes

Pescaria

— Fomos uns cinco pescar — conta-nos o amigo que há muito não encontrávamos. Tinha comprado um molinete e, segundo nos confessou, desde menino sonhava em ter o seu próprio molinete. Por isso aceitou o convite.
 
Quando o encontramos, às 11 horas da noite de sábado, estava cansadíssimo e queria ir dormir. Mesmo assim contou como foi a pescaria.

— Eles me convidaram dizendo que estava dando muito pampo na Barra da Tijuca. Passaram lá em casa às 7, me pegaram e saímos para comprar isca.

Ficaram comprando isca e lá pelas 9 horas entraram num bar para tomar um negócio porque estava ameaçando chuva e era preciso precaução. Às 11 horas, saíram do bar e tinha um camarada na porta vendendo siris.

— Vivos? — perguntamos:

Nosso amigo diz que sim e que, por isso mesmo, era preciso preparar. Ninguém levava comida para a pescaria e, portanto, até que seria bom cozinharem uns siris para fazer o farnel.

Na casa de um dele, a cozinheira foi avisada de que chegariam dentro em pouco com uma centena de siris para preparar. E de fato chegaram, lá pelas duas da tarde.

Foi tudo muito rápido. Às 5 horas os siris estavam prontinhos e todos sentados em volta da mesa, para experimentar. Trouxeram umas cervejas e foram comendo, foram comendo, até que chegou uma hora em que havia mais siris do que fome. Resolveram tomar providências e telefonaram para uns amigos.

— Venham comer siris.

Os amigos chegaram com um violão e uma garrafa de uísque. Uísque vai, uísque vem, deu fome outra vez. Eram oito horas quando a cozinheira salvou a situação com uma panelada de carne-seca com abóbora. Uns sirizinhos antes, como aperitivo, e todos caíram na carne-seca.

Então deu vontade de cantar. Um lá pegou o violão, os outros suas caixas de fósforo e começaram a lembrar sambas antigos.

E nosso amigo, ainda com o caniço e o molinete na mão, confessa:

— Saí de lá agora.

— E a pescaria?

— Pescaria? Que pescaria?

Stanislaw Ponte Preta


Texto extraído do livro "10 em Humor", Editora Expressão e Cultura — Rio de Janeiro, 1968, pág. 54.