domingo, 31 de dezembro de 2017

Feliz olhar Novo



"O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história. O grande lance é viver cada momento como se a receita de felicidade fosse o AQUI e o AGORA.

Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais..., mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia? Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho?

Quero viver bem! Este ano que passou foi um ano cheio. Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal. As vezes a gente espera demais das pessoas. Normal. A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor que acabou. Normal.

O ano que vai entrar vai ser diferente. Muda o ano, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com o seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança?

O que desejo para todos é sabedoria! E que todos saibamos transformar tudo em boa experiência! Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim... Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou, passe-o para a categoria 3. Ou mude-o de classe, transforme-o em colega. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.

O nosso desejo não se realizou? Beleza, não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro): CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE.

Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam bem diferentes.

Desejo para todo mundo esse olhar especial.

O ano que vai entrar pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro. O ano que vai entrar pode ser o bicho, o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular... ou... Pode ser puro orgulho! Depende de mim, de você! Pode ser. E que seja!!!

Feliz olhar novo!!! Que o ano que se inicia seja do tamanho que você fizer.

Que a virada do ano não seja somente uma data, mas um momento para repensarmos tudo o que fizemos e que desejamos, afinal sonhos e desejos podem se tornar realidade somente se fizermos jus e acreditarmos neles!"


Carlos Drummond de Andrade


Certas Esperanças

É preciso — é mais do que preciso, é forçoso — dar boas festas, trocar embrulhinhos, querer mais intensamente, oferecer com mais prodigalidade, manter o sorriso e, acima de tudo, esquecer tristezas e saudades.

Façamos um supremo esforço para lembrar e sermos lembrados, porque assim manda a tradição e é difícil esquecer à tradição. Enviemos cartões e telegramas de felicitações àqueles que amamos e também àqueles que — sabemos perfeitamente — não gostam da gente. O Correio, nesta época do ano, finge-se de eficiente e já lá tem prontos impressos para que desejemos coisas boas aos outros, nivelando a todos em nossos augúrios.

Depois de abraçar e ser abraçado, desejar sincera e indiferentemente, embrulhar e desembrulhar presentes, cada um poderá fazer votos a si mesmo, desejar para si o que bem entender. Subindo na escala das idades, este sonhou todo o mês com um trenzinho elétrico, aquele com uma bicicleta (com farol e tudo), o outro certa moça, mais além um quarto sonhador esteve a remoer a ideia de ser ministro e o rico... bem, o rico só pensa em ser mais rico. O rico detesta amistosamente os ministros, já não tem olhos para a graça da moça, pernas para pedalar uma bicicleta e, muito menos, tempo para brincar com um trenzinho.

Dos planos de cada um, pouquíssimos serão transformados em realidade. Alguns hão de abandoná-los por desleixo e a maioria, mal o ano de 56 começar, não pensará mais nele, por pura desesperança. O melhor, portanto, é não fazer planos. Desejar somente, posto que isso sim, é humano e acalentador.

De minha parte estou disposto a esquecer todas as passadas amarguras, tudo que o destino me arranjou de ruim neste ano que finda. Ficarei somente com as lembranças do que me foi grato e me foi bom.

No mais, desejarei ficar como estou porque, se não é o que há de melhor, também não é tão ruim assim e, tudo somado, ficaram gratas alegrias. Que Deus me proporcione as coisas que sempre me foram gratas e que — Ele sabe — não chegam a fazer de mim um ambicioso.

Que não me falte aquele almoço honesto dos sábados (único almoço comível na semana), com aquele feijão que só a negra Almira sabe fazer; que não me falte o arroz e a cerveja — é muito importante a cerveja, meu Deus! —, como é importante manter em dia o ordenado da Almira.

Se não me for dado comparecer às grandes noites de gala, que fazer? Resta-me o melhor, afinal, que é esticar de vez em quando por aí, transformando em festa uma noite que poderia ser de sono.

E para os pequenos gostos pessoais, que me reste sensibilidade bastante para entretê-las. Ai de mim se começo a não achar mais graça nos pequenos gostos pessoais. Que o perfume do sabonete, no banho matinal, seja sempre violeta; que haja um cigarro forte para depois do café; uma camisa limpa para vestir; um terno que pode não ser novo, mas que também não esteja amarrotado. Uma vez ou outra, acredito que não me fará mal um filme da Lollobrigida, nem um uísque com gelo ou — digamos — uma valsa.

Nada de coisas impossíveis para que a vida possa ser mais bem vivida. Apenas uma praia para janeiro, uma fantasia para fevereiro, um conhaque para junho, um livro para agosto e as mesmas vontades para dezembro.

No mais, continuarei a manter certas esperanças inconfessáveis porém passíveis — e quanto — de acontecerem.

Stanislaw Ponte Preta  

A crônica acima foi publicada na revista "
Manchete" nº. 193, de 31/12/55.

Afinal, Papai Noel não é de ferro!

TOC continua presente na vida de Roberto Carlos

Para muitos o cantor tem apenas manias, mas na verdade é uma doença mental grave acompanhada de rituais complexos e rígidos

Em 2004, o cantor Roberto Carlos deu uma entrevista reveladora ao "Fantástico" em que revelara sofrer de uma doença chamada Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que para muitos parecem ser apenas manias, mas na verdade é uma doença mental grave acompanhada de rituais complexos e rígidos que comprometem a qualidade de vida de quem tem. A coluna descobriu que até hoje eles persistem. E em conversa com vizinhos de Roberto, eles relataram alguns exemplos de TOC.

Roberto comprou uma geladeira nova mas o aparelho teve que ficar algumas semanas na garagem do prédio onde ele vive na Urca. A geladeira só podia entrar na casa de Roberto quando a lua virasse, mais precisamente quando entrasse a Lua Nova.

O edifício chegou a entrar em reforma e foram colocados andaimes para consertar a fachada do prédio. Roberto viajou para Miami para passar um mês enquanto as obras aconteciam. Nesse meio tempo, a obra foi concluída. O cantor decidiu pagar para manter o andaime até ele voltar, para que seu carro passasse novamente pela tal armação metálica. Sem isso, ele não entraria novamente no prédio.

Roberto tem quatro apartamentos no prédio onde mora: um pra governanta, outro pro filho, um terceiro para guardar suas coisas e o quarto, a cobertura, onde vive. Certa vez, ele saia de casa e o porteiro abriu o elevador com o interfone na mão. Quando ele voltou ele pediu ao porteiro para segurar o interfone novamente, como fez quando ele saiu, para que ele pudesse entrar de novo no elevador.
 
Fonte e créditos:  aqui
LEO DIAS - O Dia

Quem tem mesmo que estudar história?

Metade da geração Y prefere o socialismo; falta conhecimento de história.
 
A maioria das pessoas da geração do milênio tem uma visão positiva do socialismo e comunismo, mas não conhece todos os fatos.

Uma pesquisa recente conduzida com membros da geração do milênio (geração Y) constatou que 51% deles identificaram o socialismo como o sistema socioeconômico de sua preferência, enquanto outros 7% apontaram para o comunismo. Apenas 42% se disseram a favor do capitalismo

O centésimo aniversário da Revolução Russa, no mês passado, foi um momento apropriado para nos recordar as atrocidades humanas cometidas pelos regimes comunistas. Mas também devemos tirar tempo para refletir sobre o progresso ocorrido desde a queda da União Soviética e seu sistema econômico socialista, em 1991. 
Uma pesquisa recente conduzida com membros da geração do milênio (geração Y) constatou que 51% deles identificaram o socialismo como o sistema socioeconômico de sua preferência, enquanto outros 7% apontaram para o comunismo. Apenas 42% se disseram a favor do capitalismo.
O socialismo mata, sempre 
As pessoas da geração Y que conheço – e, sendo eu professor universitário, conheço muitas – geralmente são “do bem”. A maioria não tem desejo algum de ver outros seres humanos sofrer. Assim, só me resta concluir que elas não têm conhecimento de como funciona o socialismo de fato no mundo. 
Por meio de execuções, desnutrição intencional e campos brutais de encarceramento com trabalhos forçados, os regimes socialistas mataram mais de 100 milhões de seus próprios cidadãos no século 20. As atrocidades continuam a acontecer em países como Cuba, Coreia do Norte e Venezuela. 
Essas atrocidades não são acidentais. Por sua própria natureza, uma economia centralmente planejada reduz os humanos a insumos trabalhistas que precisam ser coagidos para desempenharem um papel no plano econômico traçado por outros. Quando se permite que as pessoas façam suas próprias escolhas, não há plano econômico possível. O sistema socialista naturalmente seleciona líderes que estejam dispostos a exercer coação para garantir a execução dos planos. 
O histórico do socialismo no campo econômico é tão desanimador quanto seu histórico em matéria de direitos humanos. Mas não precisamos recomendar que a geração do milênio leia livros de história para se dar conta disso. Basta que ela olhe para o que aconteceu com países ex-socialistas durante sua própria vida, quando esses países abandonaram o socialismo e aderiram ao capitalismo.
A liberdade econômica gera resultados melhores 
O Relatório Anual de Liberdade Econômica Mundial traz a medida mais exata do grau em que um país é relativamente capitalista ou socialista. É claro que o índice depende da disponibilidade de dados confiáveis. Assim, regimes socialistas, como Cuba e Coreia do Norte, não constam do índice, pelo fato de não fornecerem esses dados. Mas o índice nos permite avaliar as mudanças ocorridas em países antes socialistas desde que eles abandonaram o socialismo. 
A Rússia, por exemplo, teve pontuação de apenas 4,3 (numa escala de dez pontos) no índice em 1995, quando foi incluída no ranking pela primeira vez. Desde então seu escore melhorou 52%, e hoje o país está entre os 50 primeiros colocados. 
Outros países que no passado fizeram parte do bloco soviético avançaram mais rapidamente em direção ao capitalismo. Em 1995 a Estônia recebeu escore de 6,2 pontos e a Letônia, de 5,7 pontos, figurando respectivamente nos 57º e 75º lugares. Desde então a Estônia subiu para a 17ª posição no ranking e a Letônia saltou de 75ª economia mais livre do mundo para a 26ª. 
Fora do antigo bloco soviético, a China começou a se afastar do socialismo em 1978, pouco antes do nascimento da geração do milênio. Ela foi incluída no ranking pela primeira vez em 1980, com escore de 3,6. Desde então, sua posição subiu 76%, e mesmo essa melhora não reflete adequadamente toda a abrangência das reformas chinesas, já que muitas zonas econômicas especiais chinesas têm liberdade muito maior que o país como um todo. 
Mas os rankings não refletem a história inteira. O resultado do avanço em direção ao capitalismo vem sendo um aumento da prosperidade: as pessoas vivem melhor. A renda média das pessoas subiu 250% na Rússia desde 1995. Na Letônia e Estônia, onde a liberdade econômica é maior, a renda dos habitantes subiu respectivamente 487% e 461%. E não são apenas os ricos que vêm enriquecendo. A porcentagem da população que vive com menos de US$ 5,50 por dia caiu 23% na Rússia, 19% na Letônia e 22% na Estônia. 
As transformações ocorridas na China são ainda mais surpreendentes. A renda média dos chineses é hoje 12 vezes maior do que em 1995. Mais de 90% da população vivia com menos de US$5,50 por dia naquela época; hoje esse é o caso de apenas um terço da população. 
A geração do milênio poderia ir aos livros de história para aprender sobre as atrocidades socialistas. Mas ela pode igualmente simplesmente olhar para o mundo e constatar como a prosperidade aumentou na medida em que os antigos países socialistas foram aderindo ao capitalismo. Se ela fizer uma coisa ou a outra, duvido que ainda encontremos muitos socialistas nessa geração. 
Benjamin Powell é diretor do Instituto do Livre Mercado da Texas Tech University e membro sênior do Independent Institute, além de integrar a rede docente da FEE.

Charge


Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço



Mia Couto

(In "Raiz de Orvalho e Outros Poemas") 

Passagem do ano

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,
 
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
 
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
 
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
 
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
 
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
 
Surge a manhã de um novo ano.
 
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
 
Carlos Drummond de Andrade 

sábado, 30 de dezembro de 2017

Ser, parecer

Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos. 


 Mia Couto

O mundo é real?

O mundo existe ou é uma ilusão dos nossos olhos? Para mim isso era tema dos romances de FC de Richard-Bessière ou de Philip K. Dick, não era assunto para letra de música. O mundo da música era tão concreto quanto um elétron; e tão consensual quanto o Meridiano de Greenwich. As canções orientais dos Beatles foram as primeiras que tocaram no assunto: “Venha cá, velho, você acha que esse mundo que nós estamos existe mesmo, ou tudo é somente uma ilusão?” 

Pergunta mais profícua não foi feita desde que Arquimedes ou Bertrand Russell questionou o teorema tal ou qual. A vanguarda européia do começo do século 20 já tinha amassado o biscoito da metalinguagem. O questionamento do Real, que por um lado vinha do misticismo do Oriente, e por outro vinha de viagens alucinógenas dos músicos, se misturava a hipóteses de físicos sobre universos múltiplos ou à teoria também chamada de “somos o video-game de Alguém”.

Ian MacDonald, cuja bola vivo a encher merecidamente nesta coluna, tem uma observação interessante sobre “Penny Lane” dos Beatles. (De passagem: ele observa que o piano em staccato dessa faixa agradou tanto nessa gravação, feita entre dezembro de 1966 e janeiro de 67, que os Beatles voltaram a usá-lo com variantes nas gravações subsequentes de “Fixing a Hole”, “Getting Better”, “With a Little Help from my Friends” e “You Mother Should Know”.) Ele cita Lennon garantindo que tudo ali é tirado de memórias visuais dele, tudo é factual. Toda memória é a foto de um reflexo numa nuvem, mas a intenção do poeta foi mesmo a de falar do que havia. O bombeiro, o barbeiro, o cara do banco, as crianças... 

E MacDonald diz, sobre o teor psicodélico da música: “Essa canção é tão subversivamente alucinatória quanto ‘Strawberry Fields’. Apesar da aparente inocência, há em toda a produção dos Beatles poucas frases tão impregnadas de LSD do que o verso (numa rajada fremente de vozes ornamentais) em que a Enfermeira ‘feels as if she’s in a play’... and ‘is, anyway’”. 

A Enfermeira tem aquele insaite instantâneo de que tudo que vê em torno (e que a música descreve) não é “real”: ela está mesmo é numa peça, numa encenação, numa montagem. “E afinal é mesmo”, diz o narrador onisciente da canção.  Ela está numa canção dos Beatles... e de repente percebe que não existe. Como aquele personagem eletrônico em Simulacron-3 de Galouye, que vem a saber que é apenas um carinha-de-game, mas para ser nosso interlocutor naquele mundo ele precisa saber que em certa medida ele não é real. Tremenda crise existencial pro personagem a quem isso acontece. Mais tranquilo ficar com Mario Quintana: “Pra que pensar? Também sou da paisagem”.

Bráulio Tavares 
Mundo Fantasmo 

Humor

Um pedreiro português, no meio da obra, liga para casa e diz para a esposa, todo ofegante:
- Ora pois,Mulher, tu nem queiras saber... Escapei de uma boa, caí de uma escada de quinze meitros de altura.
- Ai meu Deus, Manoel. E tu estais muito machucado?
- Não... Nem um pouquinho. Eu ainda estava no primeiro degrau.


Charge

Governo do Estado reforça a segurança bancária

Ao amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.  


Carlos Drummond de Andrade

Fagner canta Florbela Espanca

Fagner canta Ferreira Gullar

Fagner canta Cecília Meireles

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros

Boda Espiritual

Tu não estas comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

E te amo como se ama um passarinho morto.  


Manuel Bandeira


A vida ensinou-me que ninguém é consolado, sem que tenha primeiro consolado outros; que nada recebemos, sem que primeiro tenhamos dado.

Georges Bernanos
O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior.

Albert Einstein

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Por um lado, ter um inimigo é muito ruim. Perturba nossa paz mental e destrói algumas de nossas coisas boas. Mas, se vemos de outro ângulo, somente um inimigo nos dá a oportunidade de exercer a paciência. Ninguém mais do que ele nos concede a oportunidade para a tolerância. Já que não conhecemos a maioria dos cinco bilhões de seres humanos nesta terra, a maioria das pessoas também não nos dá oportunidade de mostrar tolerância ou paciência. Somente essas pessoas que nós conhecemos e que nos criam problemas é que realmente nos dão uma boa chance de praticar a tolerância e a paciência.

Dalai Lama

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca... 

 
Fernando Pessoa
A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial.
 
William Shakespeare

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017



A decepção é normalmente o preço da preguiça...

Havia um sábio que não poupava esforços para ensinar bons hábitos a seu povo. Uma noite, enquanto todos dormiam, ele pôs uma enorme pedra na estrada. Depois foi se esconder atrás de uma cerca, e esperou para ver o que acontecia.

Primeiro veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para moagem na usina e desviou sua carroça. Logo depois, um jovem soldado, veio cantando pela estrada. Ele tropeçou nela e se estatelou no chão poeirento. 

Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro por lá passou. E disse: já está quase escurecendo, alguém pode. Vou tirá-la do caminho. Para sua surpresa, encontrou uma caixa. Na tampa havia os seguintes dizeres: "Esta caixa pertence a quem retirar a pedra." Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro. 

Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, foram para o local onde a pedra estava na esperança de encontrar um pedaço de ouro. 

Então o sábio falouMeus amigos, com frequência encontramos obstáculos e fardos no caminho. Podemos reclamar em alto e bom som enquanto nos desviamos deles se assim preferirmos, ou podemos erguê-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.

Prof. Menegatti 
Devia era logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.

Mia Couto

Humor

Dizem que se tomar leite dá muita força. Tomei! Tentei empurrar uma parede e nada. Chateado, bebi um litro de pinga. Sabe o que aconteceu?? A parede se moveu sozinha.

"As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade". 

Victor Hugo

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Frase

É de se apostar que toda ideia pública, toda convenção aceita seja uma tolice, pois se tornou conveniente à maioria.


Pela luz dos teus olhos

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.  


Vinicius de Moraes

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O natal da lava-jato

Segundo estudos da Fundação Lies em parceria com o Instituto de Pesquisas DataLeca, as cartas enviadas pelos presos da operação lava-jato a Papai Noel guardam curiosíssimas coincidências, apesar dos presidiários estarem em diversas cadeias de vários Estados e uns se acharem mais injustiçados do que outros. Todos alegam nas cartas enviadas ao bom velhinho serem não somente inocentes, mas dignos de receberem os presentes de natal porque seu comportamento na cadeia foi exemplar.

De início nota-se que os presos da lava-jato em Curitiba tem pedido para serem transferidos, pouco importando se para Brasília ou Rio de Janeiro. Neste ponto a Fundação Lies identificou uma sabedoria deles. Apesar de reclamarem do clima frio da capital paranaense, na verdade o que os sabidos pretendem é escapar das garras do Juiz Sergio Moro.

Já os presos do Rio de Janeiro pediram a Papai Noel para serem transferidos de celas, todos querendo se juntar ao ex-governador Sergio Cabral, com direito a personal treiner e guloseimas que continuam abastecendo sua excelência não se sabe como.

Por fim os presos da lava-jato que estão em Brasília sentem-se injustiçados porque a quantidade de culpados livres e soltos que povoam a cidade é tão grande que eles desenvolveram uma síndrome de perseguição. Estranhamente não pedem para serem soltos e sim para que os outros culpados sejam presos. Neste ponto Papai Noel está pensando em trazer no natal um muro e colocá-lo ao redor do Congresso Nacional. É mais econômico.

Uma carta em especial está esquentando a cabeça do bom velhinho. Ocorre que um desses figurões cuja esposa também participava das negociatas e está presa na mesma penitenciária que ele (mas na ala feminina), ao chegar à cadeia apaixonou-se perdidamente pelo companheiro de cela (conhecido malfeitor que atende pela inocente alcunha de “Pé de jegue”) e não consegue mais disfarçar o amor, razão porque quer que Papai Noel transfira a esposa para outro presidio a fim de dar vazão à sua louca paixão. O problema está em que a esposa quer porque quer ficar na mesma cela que o assumido romântico. Papai Noel não sabe o que fazer ainda.

No entanto, há uma unanimidade de pedidos. Todos querem que Papai Noel lhes dê de presente de natal a transferência dos seus processos para o Supremo Tribunal Federal, mas principalmente que o novo Relator seja o Ministro Gilmar Mendes.

Feliz natal; oh, oh, oh!

Marcos Pires 

Eu não gosto de você, Papai Noel!

Siriguelas



Eu não gosto de você, Papai Noel!

Eu não gosto de você Papai Noel! Também não gosto desse seu papel de vender ilusão pra burguesia. Se os meninos pobres da cidade soubessem o desprezo que você tem pelos humildes; pela humildade, eu acho que eles jogavam pedra em sua fantasia.

Talvez você não se lembra mais, eu cresci me tornei rapaz, sem nunca esquecer daquilo que passou... Eu lhe escrevi um bilhete pedindo o meu presente... a noite inteira eu esperei contente... Chegou o sol, mas você não chegou. Dias depois meu pobre pai cansado me trouxe um trenzinho velho, enferrujado, pôs na minha mão e falou:Tome filho, é pra você. Foi Papai Noel que mandou! E vi quando ele disfarçou umas lágrimas com a mão. Eu inocente e alegre nesse caso, pensei que meu bilhete, embora com atraso, tinha chegado em suas mãos no fim do mês. Limpei ele bem limpado, dei corda, o trenzinho partiu, deu muitas voltas... O meu pai então se riu e me abraçou pela ultima vez. O resto eu só pude compreender depois que cresci e vias coisas com a realidade.

Um dia meu pai chegou assim pra mim como quem tá com medo e falou: -Filho, me dá aqui seu brinquedo, eu vou troca outro na cidade. Então eu entreguei o meu trenzinho quase a soluçar, como quem não quer abandonar um mimo, um mimo que lhe deu quem lhe quer bem. Eu supliquei... Pai! Eu não quero outro brinquedo, eu quero meu trenzinho... Não vai leva meu trem, pai...! Meu pai calou-se e de seu rosto desceu uma lágrima que até hoje creio tão pura e santa assim só Deus chorou, ele saiu correndo, bateu a porta assim, como um doido varrido. A minha mãe gritou: -José! José! José... Ele nem deu ouvido, foi-se embora e nunca mais voltou...

Você! Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou...Sem pai e sem brinquedo, afinal, dos meus presentes não há um que sobre da riqueza de um menino pobre, que sonha o ano inteiro com a noite de Natal! Meu pobre pai, mal vestido, pra não me ver naquele dia desiludido, pagou bem caro a minha ilusão... Num gesto nobre, humano e decisivo, ele foi longe demais pra me trazer aquele lenitivo; tinha roubado aquele trenzinho do filho do patrão! Quando ele sumiu, eu pensei que ele tinha viajado, só depois de eu grande minha mãe em prantos me contou... que ele foi preso, coitado! E transformado em réu. Ninguém pra absolver meu pai se atrevia. Ele foi definhando na cadeia até que um dia, Nosso Senhor... Deus nosso Pai...Jesus entrou em sua cela e libertou ele pro céu.

*Aldemar Paiva