sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Será o Benedito!

A primeira vez que me encontrei com Benedito, foi no dia mesmo da minha chegada na Fazenda Larga, que tirava o nome das suas enormes pastagens. O negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo, e enquanto eu conversava com os campeiros, ficara ali, de lado, imóvel, me olhando com admiração. Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, mas não pôde agüentar a comoção. Mistura de malícia e de entusiasmo no olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:

— O hôme da cidade, chi!...

Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar.
***
Nos primeiros dias Benedito fugiu de mim. Só lá pelas horas da tarde, quando eu me deixava ficar na varanda da casa-grande, gozando essa tristeza sem motivo das nossas tardes paulistas, o negrinho trepava na cerca do mangueirão que defrontava o terraço, uns trinta passos além, e ficava, só pernas, me olhando sempre, decorando os meus gestos, às vezes sorrindo para mim. Uma feita, em que eu me esforçava por prender a rédea do meu cavalo numa das argolas do mangueirão com o laço tradicional, o negrinho saiu não sei de onde, me olhou nas minhas ignorâncias de praceano, e não se conteve:

— Mas será o Benedito! Não é assim, moço!

Pegou na rédea e deu o laço com uma presteza serelepe. Depois me olhou irônico e superior. Pedi para ele me ensinar o laço, fabriquei um desajeitamento muito grande, e assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias.
***
Pouco aprendi com o Benedito, embora ele fosse muito sabido das coisas rurais. O que guardei mais dele foi essa curiosa exclamação, "Será o Benedito!", com que ele arrematava todas as suas surpresas diante do que eu lhe contava da cidade. Porque o negrinho não me deixava aprender com ele, ele é que aprendia comigo todas as coisas da cidade, a cidade que era a única obsessão da sua vida. Tamanho entusiasmo, tamanho ardor ele punha em devorar meus contos, que às vezes eu me surpreendia exagerando um bocado, para não dizer que mentindo. Então eu me envergonhava de mim, voltava às mais perfeitas realidades, e metia a boca na cidade, mostrava o quanto ela era ruim e devorava os homens. "Qual, Benedito, a cidade não presta, não. E depois tem a tuberculose que..."

— O que é isso?...

- É uma doença, Benedito, uma doença horrível, que vai comendo o peito da gente por dentro, a gente não pode mais respirar e morre em três tempos.

— Será o Benedito...

E ele recuava um pouco, talvez imaginando que eu fosse a própria tuberculose que o ia matar. Mas logo se esquecia da tuberculose, só alguns minutos de mutismo e melancolia, e voltava a perguntar coisas sobre os arranha-céus, os "chauffeurs" (queria ser "chauffeur"...), os cantores de rádio (queria ser cantor de rádio...), e o presidente da República (não sei se queria ser presidente da República). Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu riso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam, numa brancura sem par.

Nas vésperas de minha partida, Benedito veio numa corrida e me pôs nas mãos um chumaço de papéis velhos. Eram cartões postais usados, recortes de jornais, tudo fotografias de São Paulo e do Rio, que ele colecionava. Pela sujeira e amassado em que estavam, era fácil perceber que aquelas imagens eram a única Bíblia, a exclusiva cartilha do negrinho. Então ele me pediu que o levasse comigo para a enorme cidade. Lembrei-lhe os pais, não se amolou; lembrei-lhe as brincadeiras livres da roça, não se amolou; lembrei-lhe a tuberculose, ficou muito sério. Ele que reparasse, era forte mas magrinho e a tuberculose se metia principalmente com os meninos magrinhos. Ele precisava ficar no campo, que assim a tuberculose não o mataria. Benedito pensou, pensou. Murmurou muito baixinho:

— Morrer não quero, não sinhô... Eu fico.

E seus olhos enevoados numa profunda melancolia se estenderam pelo plano aberto dos pastos, foram dizer um adeus à cidade invisível, lá longe, com seus "chauffeurs", seus cantores de rádio, e o presidente da República. Desistiu da cidade e eu parti. Uns quinze dias depois, na obrigatória carta de resposta à minha obrigatória carta de agradecimentos, o dono da fazenda me contava que Benedito tinha morrido de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca. Não pude me conter: "Mas será o Benedito!...”.  E é o remorso comovido que me faz celebrá-lo aqui.

Mário de Andrade

São Paulo, 2ª. quinzena de outubro de 1939. (n°145)

Texto extraído do livro "Será o Benedito!", Editora da PUC-SP, Editora Giordano Ltda. e Agência Estado Ltda.- São Paulo, 1992, pág. 66.

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

 
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

Cuidado com as decisões apressadas

Muitas pessoas sofrem dolorosas consequências, porque agem sem reflexão. Eva, foi apressada, quando tomou a liderança do seu marido e comeu do fruto proibido. O filho pródigo foi apressado quando pediu ao pai sua herança e saiu de casa para um país distante. Seja cauteloso. Ore um pouco mais. Debruce sobre o problema um pouco mais. Peça conselhos a pessoas maduras na fé. Não aja por ímpeto. Tenha paciência. As melhores escolhas são aquelas que são fruto de oração, análise e muita paciência!

Hernandes Dias Lopes

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Alegrias da Paternidade

Tenho certeza de que inventaram esse negócio de Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia dos Namorados e assemelhados com o exclusivo propósito de atanazar o juízo do grupo, numeroso porém desprezado, em que me integro, ou seja, o dos que acham essas datas apenas ocasiões para exercícios de sadomasoquismo e solapamento da já combalida estrutura familiar. Sei de dezenas e dezenas de namoros acabados e casamentos atormentados porque um infeliz se esqueceu de uma dessas datas. (As infelizes, curiosamente, não costumam esquecer-se — deve ser algum golpe delas; está fora da moda, mas mandam os antigos não menosprezar o Eterno Feminino, os antigos sabiam das coisas.) Eu mesmo só lembrei que hoje é Dia dos Pais (escrevo com cruel antecedência, é bom sempre observar) porque andei folheando uma agenda.
 
Queridos confrades, pais, que nos espera hoje? As possibilidades são infindas, mas há categorias em que a maior parte pode ser enquadrada, sob diversos critérios. Penso primeiro (dei muito para pensar em velho ultimamente, bandeira grande) nos avôs, que, como as avós, reúnem todas as forças para não meter a mão na cara do centésimo sujeito que o chama de "pai duas vezes", achando que está fazendo um comentário original e engraçadíssimo. E, claro, com heróicas e escassíssimas exceções, os dessa faixa já chegaram ao doloroso estágio em que todo mundo manda, menos eles, e muito menos neles mesmos.

— Vô, vamos almoçar fora em sua homenagem. Aonde o senhor quer ir?

— A uma churrascaria. Uma churrascariazinha, há muito tempo que não vou.

— Churrascaria? Mas nunca! O senhor já se esqueceu do colesterol, esqueceu a angioplastia? O senhor não se quer bem, mas nós queremos bem ao senhor!

— Então por que perguntam?

— É porque hoje é seu dia, paizão, é tudo para seu bem-estar e felicidade.

Claro, vão levá-lo ao restaurante de não-fumantes em que servem saladas de aspecto malevolente e onde vão deixar — fantástica colher de chá, tudo para a felicidade dele — que ele tome um copinho de vinho, daquele branco doce que a Eulália, sua nora mais carinhosa, adora. E virão os brindes, todos sublinhando, com inquietante ênfase numa convicção obviamente falsa, os muitos e muitos outros dias dos pais que ainda se celebrarão na companhia do homenageado. E, na seqüência de tributos que lhe serão prestados, consentirão que fique na sala até a hora do "Sai de baixo", pois normalmente é forçado a ir dormir depois do "Fantástico", não só porque o médico aconselhou, como porque, e principalmente, a velha (que fuma e dorme na hora em que quer) tem ciúme das pernas da Marisa Orth.

Quanto às ganas de pisotear e jogar no vaso o celularzinho indecifrável que lhe deram, passam logo no dia seguinte e ele dá o celular ao neto, o que, aliás, era o verdadeiro objetivo do presente.

Sejamos igualmente solidários para com os pais separados. Normalmente, domingo já é dia de pai separado sair com os filhos, a maior parte comendo apaixonadamente pizza fria e indo a lugares de cuja existência jamais tomaria conhecimento, se não fosse pai separado.

Pai junto pode bocejar e dizer ao moleque que vá pastar, vá surfar ou vá para um quarto acusticamente isolado, caprichar no progresso de sua surdez heavy metal. Mas pai separado tem gravíssimos encargos, notadamente se se filia à escola entusiástico-companheirona, que implica risos alvares, gritos de "vamos lá, filhão!", trajes grotescos, músculos e juntas aos frangalhos, papos de homem para homem em que o homem acaba sendo o filho e pedidos gaguejantes a senhoras desconhecidas, para que levem a filha ao banheiro feminino. Para não falar nos presentes, todos escolhidos a dedo pela ex-mulher entre tudo o que ele não gosta, preferivelmente algo que o presenteador exija que ele use na hora, como um par de óculos escuros de boiola e um walkman vermelho e azul, do tamanho e peso de uma bateria de automóvel.

Os prejuízos para as finanças familiares são às vezes consideráveis. Um amigo meu festejou durante um mês a excursão à Europa, para ele e a patroa (sozinho não tem graça e, embora tenha tido que passar a maior parte do tempo em lojas e ouvindo comentários sobre como Florença realmente é uma bela cidade, mas enche o saco logo e o comércio é péssimo, não chega aos pés de Miami, conseguiu, afinal, viajar para fora do país), para em seguida descobrir a chegada dos carnês de pagamento da agência de turismo, todos em seu nome, é claro. Claro, sim, ele tinha dinheiro guardado, a vida é curta, por que se privar de um sonho só para conservar os trocados da velhice? E ele não reclamou, tem umas duas músicas compostas e vai ver se descola uma vaga no Retiro dos Artistas.

De minha parte, sofro grandes sobressaltos com os anúncios de televisão, principalmente os dos aparelhos de ginástica (venho murchando a barriga com afinco desde que me lembraram a chegada do dia de hoje, espero escapar) e, nas raras vezes em que o controle está sob meu controle, mudo de canal. Mas é a velha paranóia, na verdade não tenho muito o que temer. Vou ganhar uma bermuda e um par de sandálias, se bem que minhas camisas de ir à Academia "estão uma vergonha" e talvez eu receba novos instrumentos de estrangulamento parcelado. Nada como a alegria do Dia dos Pais. Pelo menos quando se é dono de shopping ou churrascaria, imagino eu.

João Ubaldo Ribeiro

Texto extraído do livro “
O Conselheiro Come” Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2000, pág. 163.

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando

Humor - Definições do indefinível

· Nada mais humorístico do que o próprio humor, quando pretende definir-se (Friedrich Hebbel).

· Definir o humor é como pretender pregar a asa de uma borboleta usando como alfinete um poste de telégrafo (Enrique Jardiel Poncela).

· Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas (Monteiro Lobato).

· O humorismo é o inverso da ironia (Bergson).

· O humorismo é o único momento sério e sobretudo sincero da nossa quotidiana mentira (G. D. Leoni).

· O humor é o açucar da vida. Mas quanta sacarina na praça! (Trilussa).

· O humor é o único meio de não sermos tomados a sério, mesmo quando dizemos coisas sérias: que é o ideal do escritor (M. Bontempelli).

· O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada (Millôr Fernandes).

· O espírito ri das coisas. O humor ri com elas (Carlyle).

· A fonte secreta do humor não é a alegria, mas a mágoa, a aflição, o sofrimento. Não há humor no céu (Mark Twain).

· O humor é uma caricatura da tristeza (Pierre Daninos).

· O humor é a vitória de quem não quer concorrer (Millôr Fernandes).

· A própria essência do humor é a completa, a absoluta ausência do espírito moralizador. Interessa-lhe pouco a pregação doutrinal e a edificação pedagógica. O humor não castiga, não ensina, não edifica, não doutrina (Sud Menucci).

· O humorismo é dom do coração e não do espírito (L. Boerne).

· O humorismo é a arte de virar no avesso, repentinamente, o manto da aparência para por à mostra o forro da verdade (L. Folgore).

· O humor tem não só algo de liberador, análogo nisso ao espirituoso e ao cômico, mas também algo de sublime e elevado (Freud).

· Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer (Leon Eliachar).
(*)

· O humorismo é a quintessência da seriedade (Millôr Fernandes).

· O humorista é um forte bom, vencido, mas sobranceiro à derrota (Alcides Maia).

· O humor é a polidez do desespero (Chris Marker).
 

(*) Definição laureada com o primeiro prêmio ("PALMA DE OURO") na IX Exposição Internacional de Humorismo realizada na Europa — Bordighera, Itália, 1956.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Em alguma vida fui ave.

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.


E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.


Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.


Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.


Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.


Em alguma ave fui vida.

Mia Couto
In Idades Cidades Divindades, 2007
Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini-sonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

Rubem Alves

Primeira aventura de Alexandre

Naquela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de cobras. Das Dores benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária.

— Vou contar aos senhores... principiou Alexandre amarrando o cigarro de palha.

Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho:

— Conte, meu padrinho.

Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se .na rede e perguntou:

— Os senhores já sabem porque é que eu tenho um olho torto?

Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira.

— Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto de cacetear ninguém.

Seu Libório cantador e o cego preto Firmino juraram que estavam atentos. E Alexandre abriu a torneira:

— Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram. A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Não era, Cesária?

— Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro. Sumiu-se tudo.

Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se sentava:

— Hoje é isto. Você se lembra do nosso casamento, Alexandre?

— Sem dúvida, gritou o marido. Uma festa que durou sete dias. Agora não se faz festa como aquela. Mas o casamento foi depois. É bom não atrapalhar.

— Está certo, resmungou mestre Gaudêncio curandeiro. É bom não atrapalhar.

— Então escutem, prosseguiu Alexandre. Um domingo eu estava no copiar, esgaravatando unhas com a faca de ponta, quando meu pai chegou e disse:

— "Xandu, você nos seus passeios não achou roteiro da égua pampa?" E eu respondi: — "Não achei, nhor não." — "Pois dê umas voltas por aí, tornou meu pai Veja se encontra a égua." — "Nhor sim." Peguei um cabresto e saí de casa antes do almoço, andei, virei, mexi, procurando rastos nos caminhos e nas veredas. A égua pampa era um animal que não tinha agüentado ferro no quarto nem sela no lombo. Devia estar braba, metida nas brenhas, com medo de gente. Difícil topar na catinga um bicho assim". Entretido, esqueci o almoço e à tardinha descansei no bebedouro, vendo o gado enterrar os pés na lama. Apareceram bois, cavalos e miunça, mas da égua pampa nem sinal. Anoiteceu, um pedaço de lua branqueou os xiquexiques e os mandacarus, e eu. me estirei na ribanceira do rio, de papo para. o ar, olhando o céu, fui-me amadornando devagarinho, peguei no sono, com o pensamento em Cesária. Não sei quanto tempo dormi, sonhando com Cesária. Acordei numa escuridão medonha. Nem pedaço de lua nem estrelas, só se via o carreiro de Sant'lago. E tudo calado, tão calado que se ouvia perfeitamente uma formiga mexer nos garranchos e uma folha cair. Bacuraus doidos faziam às vezes um barulho grande, e os olhos deles brilhavam como brasas. Vinha de novo a escuridão, os talos secos buliam,as folhinhas das catingueiras voavam. Tive desejo de. voltar para casa, mas o corpo morrinhento não me ajudou. Continuei deitado, de barriga para cima, espiando o carreiro de Sant'lago. e prestando atenção ao trabalho das formigas. De repente. conheci que bebiam água ali perto. Virei-me, estirei o pescoço e avistei lá embaixo dois vultos malhados, um grande e um pequeno, junto da cerca do bebedouro. A princípio não pude vê-los direito, mas firmando a vista consegui distingui-las por causa das malhas brancas. — "Vão ver que é a égua pampa, foi o que eu disse. Não é senão ela. Deu cria no mato e só vem ao bebedouro de noite." Muito ruim o animal aparecer .àquela hora. Se fosse de dia e eu tivesse uma corda, podia laçá-lo num instante. Mas desprevenido, no escuro, levantei-me azuretado, com o cabresto na mão, procurando meio de sair daquela dificuldade. A égua ia escapar, na certa. Foi aí que a idéia me chegou.

— Que foi que o senhor fez? perguntou Das Dores curiosa.

Alexandre chupou o cigarro, o olho torto arregalado, fixo na parede. Voltou para Das Dores o olho bom e explicou-se:

— Fiz tenção de saltar no lombo do bicho e largar-me com ele na catinga. Era o jeito. Se não saltasse, adeus égua pampa. E que história ia contar a meu pai? Hem? Que história ia contar a meu pai, Das Dores?

A benzedeira de quebranto não deu palpite, e Alexandre mentalmente pulou nas costas do animal:

— Foi o que eu fiz. Ainda bem não me tinha resolvido, já estava escanchado. Um desespero, seu Libório, carreira como aquela só se vendo. Nunca houve outra igual. O vento zumbia nas minhas orelhas, zumbia como corda de viola. E eu então... Eu então pensava, na tropelia desembestada: — "A cria, miúda, naturalmente ficou atrás e se perde, que não pode acompanhar a mãe, mas esta amanhã está ferrada e arreada." Passei o cabresto no focinho da bicha e, os calcanhares presos nos vazios, deitei-me, grudei-me com ela, mas antes levei muita pancada de galho e muito arranhão de espinho rasga-beiço. Fui cair numa touceira cheia de espetos, um deles esfolou-me a cara, e nem senti a ferida: num aperto tão grande não ia ocupar-me com semelhante ninharia. Botei-me para fora dali, a custo, bem maltratado. Não sabia a natureza do estrago, mas pareceu-me que devia estar com a roupa em tiras e o rosto lanhado. Foi o que me pareceu. Escapulindo-se do espinheiro, a diaba ganhou de novo a catinga, saltando bancos de macambira e derrubando paus, como se tivesse azougue nas veias. Fazia um barulhão com as ventas, eu estava espantado, porque nunca tinha ouvido égua soprar daquele jeito. Afinal subjuguei-a, quebrei-lhe as forças e, com puxavantes de cabresto, murros na cabeça e pancadas nos queixos, levei-a. para a estrada. Ai ela compreendeu que não valia a pena teimar e entregou os pontos. Acreditam vossemecês que era um vivente de bom coração? Pois era. Com tão pouco ensino, deu para esquipar. E eu, notando que a infeliz estava disposta a aprender, puxei por ela, que acabou na pisada baixa e num galopezinho macio em cima da mão. Saibam os amigos que .nunca me desoriento. Depois de termos comido um bando de léguas naquele pretume de meter o dedo no olho, andando para aqui e para acolá, num rolo do inferno, percebi que estávamos perto do bebedouro. Sim senhores. Zoada tão grande, um despotismo de quem quer derrubar o mundo — e agora a pobre se arrastava quase no lugar da saída, num chouto cansado. Tomei o caminho de casa. O céu se desenferrujou, o sol estava com vontade de aparecer. Um galo cantou, houve nos ramos um rebuliço de penas. Quando entrei no pátio .da fazenda, meu pai e os negros iam começando o ofício de Nossa Senhora. Apeei-me, fui ao curral, amarrei o animal no mourão, cheguei-me à casa, sentei-me no copiar. A reza acabou lá dentro, e ouvi a fala de meu pai: — "Vocês não viram por aí o Xandu?" — "Estou aqui, nhor sim, respondi cá de fora" — "Homem, você me dá cabelos brancos, disse meu pai abrindo a porta. Desde ontem sumido!" — "Vossemecê não me mandou procurar a égua pampa?" —"Mandei, tornou o velho. Mas não mandei que você dormisse no mato, criatura dos meus pecados. E achou roteiro dela?" — "Roteiro não achei, mas vim montado num bicho. Talvez seja a égua pampa., porque tem malhas. Não sei, nhor não, só se vendo. O que sei é que é bom de verdade: com umas voltas que deu ficou pisando baixo, meio a galope. E parece que deu cria: estava com outro pequeno." Aí a barra apareceu, o dia clareou. Meu pai, minha mãe, os escravos e meu irmão mais novo, que depois vestiu farda e chegou a tenente de polícia, foram ver a égua pampa. Foram, mas não entraram no curral: ficaram na porteira, olhando uns para os outros, lesos, de boca aberta. E eu também me admirei, pois não.

Alexandre levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre Gaudêncio, falando alto, gesticulando:

— Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa.

Graciliano Ramos  

Texto extraído do livro “Alexandre e outros heróis”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1981, pág. 11.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe.
 

Caso do vestido

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?
 
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

Carlos Drummond de Andrade
 
Texto extraído do livro "
Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.

Assombros


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.


Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano Sant'Anna


Poesia extraída do livro "Lado Esquerdo do Meu Peito", Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1992.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Cuba, museu a céu aberto, do atraso e falência do regime comunista

O que vou dizer aqui não é novidade nenhuma. O que espanta é que haja, ainda, muita gente de esquerda, socialista, e comunista no Brasil. Envergonhados pelo vexame que esses regimes causaram pelo mundo a fora, trocaram o nome comunista, socialista e de esquerda por PROGRESSISTA. Ora bolas, se as imagens e notícias que tenho de Cuba, refletem algum progresso, cinquenta e tantos anos depois da revolução, Deus nos livre desse inferno. A Globo News, através do Pedro Andrade, apresentou um documentário da vida cubana, recente, que é um terror. Nem cenário de após guerra, de filmes de época, são tão tenebrosos, e chocantes. Cuba depois de meio século continua em ruínas, social e  economicamente. Uma diarista de hotel ganha $3,00 dólares por dia. Isso mesmo: R$ 9,75 reais. E estuda medicina à noite. Mas o que come uma pessoa com esse salário? Arroz e feijão todos os dias, e uma coxa de frango uma vez por semana. E por que não saem de Cuba? Porque um passaporte custa $500,00 dólares. Os prédios em ruína, os carros aos pedaços, e o povo miserável é o que Cuba tem a apresentar ao mundo como resultado de sua criminosa experiência socialista. E os nossos comunistas chamam a isso de PROGRESSO.

Eduardo P. Lunardelli

A volta do marido pródigo

Nos 70 anos de publicação de Sagarana (1946) de Guimarães Rosa, comentei aqui em 16 de abril o primeiro conto do livro, “O Burrinho Pedrês”:


O segundo conto do livro, “A Volta do Marido Pródigo”, faz um sequenciamento interessante com ele.

Uma das coisas mais interessantes para quem publica livros de contos é o sequenciamento das histórias. Rosa mexeu muito no sequenciamento de Sagarana:


É uma atividade muito parecida com escolher as faixas de um disco de canções. A arte de enfileirar as canções como se fossem dominós. Cada elemento narrativo, cada episódio encaixa com o que vinha antes e abre uma porta para o que virá depois.

“O Burrinho Pedrês” era uma história de idas e voltas; não é muito diferente, e que não se perca pelo nome, “A Volta do Marido Pródigo”, cuja malandragem já começa no título. Não é o filho, das escrituras sagradas, é o marido das cantorias profanas. O marido, no caso, é o malandro articulador, o malandro deixa-comigo, o malandro cuja lábia engambela quase todo mundo.

Lalino Salãthiel é um rei das armações, um costurador de situações como o João Grilo de Ariano Suassuna, mestre da conspiração festiva. Trabalha numa pedreira, ou mais conversa que trabalha, até se envolver na política local mediante apadrinhamento do Major Anacleto. “Capadócio”, como se dizia na época, vivia de violão em punho, socializando, amigo de todo mundo, alma da festa. Sedutor de mulheres e convencedor de homens.

A sequência inicial (o conto é dividido em nove segmentos numerados) o define: ele conta vantagens, cheio de empáfia e de semi-informações, enquanto os outros quebram pedra e lhe fazem perguntas incrédulas. (Menos os um-ou-dois de sempre, que ficam resmoendo meio de banda  e dizendo: “Mulatinho descarado! Vai em festa, dorme que-horas, quando chega, ainda é todo enfeitado e falastrão!”.)

Lalino é civilmente Eulálio de Souza Salãthiel, e a mulher (que talvez seja, na verdade, o centro desta história tão giratória) o chama de Laio. Lalino, mesmo farrista e boa-praça, fica execrado por muitos quando aparentemente vende a esposa, Rita, a um espanhol endinheirado. (Na verdade ele pediu o dinheiro emprestado para fugir da cidade e o espanhol, que vivia de olho comprido na morena, emprestou-lho numa piscadela.)

Laio faz um bom contraste com o Major Anacleto, que é popeiro, pegador de ar, e meio desorientado, precisando de pessoas ponderadas e cabeça-fria como o Tio Laudônio para assumir a pilotagem na turbulência, e escolher uma linha de ação.

A briga política local é feroz, cobra engolindo cobra, e o grupo deles faz frente ao dos Benignos, que estavam liderando a corrida até a chegada de Lalino Salãthiel.

Lalino tanto tem de João Grilo quanto do poeta de Ariano Suassuna na Farsa da Boa Preguiça, sua boemia sem maldade, sua indolência contemplativa nos momentos de pausa, mas ele é mesmo é “um corisco de esperto, inventador de trêtas”, como diz Seu Oscar, o filho do coronel.

Lalino é um sonhador, que gosta de olhar as figuras de um livro e imaginar “um étero-avião transplanetário”, e que comenta:

“Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarro lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p’ra diante, p’ra fazer de-noite e a gente poder dormir...”

O animal totêmico do conto é o sapo, várias vezes referido nos diálogos e nas cantigas, além da famosa fábula da Festa no Céu, quando o sapo vê que vai ser arremessado de volta à terra e implora: “Só não me jogue na água, porque eu não sei nadar!”, e é lá que os seguranças da festa o jogam, e ele sai nadando, aliviado. É como se Lalino Salãthiel tivesse dito: “Só não me bote numa função onde eu precise ganhar todo mundo no papo.”

Lalino é um personagem-de-si-mesmo, uma persona pública e festiva, que se vira como pode, memorizando fotos de revistas para quando estiver se pabulando de suas andanças pelo Rio de Janeiro.  Um desses indivíduos de permanente otimismo, um ser humano que o tempo todo se sente “pomposamente, terrivelmente feliz.” Que tem uma sorte que nunca lhe falha, talvez porque ele produza nas pessoas uma impressão de empatia prazerosa; todos falam mal dele, todos criticam sua vagabundagem, mas ninguém resiste à sua presença.

A apresentação do personagem:

“Lalino Salãthiel vem bamboleando, sorridente. Blusa cáqui, com bolsinhos, lenço vermelho no pescoço, chapelão, polainas, e, no peito, um distintivo, não se sabe bem de que. Tira o chapelão: cabelos pretíssimos, com as ondas refulgindo de brilhantina borora.”

Um estilo telegráfico, uma imagem forte após a outra. Um estilo que Mário Palmério apanhou no ar e repôs em voo com a sua famosa abertura de Vila dos Confins, apresentando Xixi Piriá:

"Lá vem êle. E ganjento, pilantra: roupinha de brim amarelo, vincada a ferro; chapéu tombado de banda, lenço e caneta no bolsinho do jaquetão abotoado; relógio-de-pulso, pegador de monograma na gravata chumbadinha de vermelho."

Rosa não apareceu apenas com um repertório de novos discursos, ele foi desde seu primeiro livro um comentador bem-humorado do discurso alheio, embora, diplomata, procurasse estar sempre de-bem com todo mundo, quando possível. Ele ironizava a retórica burocrática e oficialesca que provavelmente era obrigado a usar em seu trabalho, e dentro de um conto de ambientação rural, interioranazinha, comparece um parágrafo assim:

“Major Anacleto relia – pela vigésima-terceira vez – um telegrama do Compadre Vieira, Prefeito do Município, com transcrições de um outro telegrama, do Secretário do Interior, por sua vez inspirado nas anotações que o Presidente do Estado fizera num anteprimeiro telegrama, de um Ministro conterrâneo. E a coisa viera vindo, do estilo dragocrático-mandológico-coactivo ao cabalístico-estatístico, daí para o messiânico-palimpséstico-parafrástico, depois para o cozinhativo-compadresco-recordante...”

O Major Anacleto tem um pouco daqueles sultões orientais já meio velhuscos e entediados, que se encolerizam com facilidade e cinco minutos depois já se esqueceram. Quando dá uma ordem e alguém lhe diz que aquilo já foi feito, ele reclama: ”Diabo! Vocês também não deixam nada para eu pensar!”. Não consegue acompanhar os malabarismos de estratégia de Laio, mas lhe diz: “Eu mesmo gosto de gente aluada, quando são assim alegres e têm resposta pra tudo.”

Este é um dos contos de Rosa mais políticos, mais claramente descritivos de peripécias políticas, mas é acima de tudo uma história de amor “por artes das linhas travessas da boa escrita divina”. Lalino está casado, felizão da vida, mas não lhe sai da cabeça a lenda das polacas do Rio de Janeiro, ele passa a morena no cobre e vai embora... mas acaba voltando. Ela tinha tudo para não querê-lo de volta, mas nem o autor resistiu ao papo-de-derrubar-avião do personagem, e a fez doida pelo condenado.

Num depoimento de JGR a João Condé, em 1946 (reproduzido em Remembramentos, Vilma Guimarães Rosa, Nova Fronteira, 1983) o autor dá uma geral nos contos do livro e, sobre este, afirma:

“II) – A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO – A menos ‘pensada’ das novelas do ‘Sagarana’, a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945”.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

domingo, 25 de setembro de 2016

Treinador do Nacional de Pombal rechaça favoritismo contra o Femar

 
Reginaldo Sousa, técnico do Nacional de Pombal (Foto: Juliana Bandeira / GloboEsporte.com/pb)

Reginaldo Sousa acredita aposta no equilíbrio, prega respeito ao adversário e quer usar o bom momento do time sertanejo para conseguir a classificação

O Nacional de Pombal segue trabalhando firme para encarar o Femar no próximo domingo, no jogo de ida das quartas de finais da 2ª divisão do Campeonato Paraibano. O treinador do time sertanejo, Reginaldo Sousa, rechaçou qualquer favoritismo por parte do time sertanejo e disse acreditar em duas partidas marcadas pelo equilíbrio.

Para superar o rival do Litoral, o comandante Alviverde aposta no bom momento que o time sertanejo atravessa na competição - já são três jogos sem derrota - além dos trabalhos para manter a consistência defensiva que o clube apresentou nas últimas rodadas da primeira fase.

- Vai ser um jogo muito difícil, temos que trabalhar firme para conseguir vencer o Femar. É uma boa equipe e não chegou nesta fase por acaso. Estamos vindo de resultados positivos e espero que possamos trazer isto ao nosso favor e fazer dois grandes jogos para sairmos vencedores - afirmou o treinador do Nacional de Pombal.

Depois de perder na estreia para o Sabugy, o Nacional de Pombal já acumula três partidas em perder na divisão de acesso. Neste período foram duas vitórias (Sabugy e Nacional de Patos) e um empate (Nacional de Patos). Na primeira fase, a equipe terminou com sete pontos, mesma pontuação do Canário do Sertão, líder do Grupo do Sertão. A segunda colocação veio por conta do critério de desempate, que é o saldo de gols (3 a 1 para o time de Patos).

 Outro ponto positivo do Nacional de Pombal na primeira fase da 2ª divisão do Campeonato Paraibano foi sua defesa. Em quatro jogos realizados na competição, a equipe sertaneja sofreu apenas três gols, sendo que nos últimos três confrontos - incluindo dois contra o Nacional de Patos - o Camaleão foi vazado apenas um vez.

A definição de quem será o primeiro mandante na partida entre Nacional de Pombal e Femar será através de sorteio, realizado pela Federação Paraibana de Futebol, na tarde desta quinta-feira, na sede da entidade, em João Pessoa.
 
Por  
Campina Grande
O que eu peço é que você seja sempre de verdade também. 
Que me queira assim, imperfeita e cheia de confusões. 
Que saiba os momentos 
em que eu preciso de uma mão passando entre os fios de cabelo.
 Que perceba que, às vezes,
 tudo o que eu preciso é do silêncio 
e do barulho da nossa respiração.
Que veja que eu me esforço de um jeito nem sempre certo.
 Que veja lá na frente uma estrada,
 inteiramente nossa, cheia de opções e curvas. 
E que aceite que buracos sempre terão.
 
Clarissa Corrêa

A disputa da fé alheia

Talvez seja muita pretensão achar que Deus vai dar atenção às nossas eleições municipais, ainda mais sabendo que elas transformaram a fé em moeda de troca de votos
Eu não queria estar no lugar de Jesus nestas eleições para a prefeitura do Rio. Já muito assediado, não se sabe ainda que partido Ele vai tomar, se é que vai tomar algum. Em tese, ninguém admite misturar religião e política, pois, como se diz, vivemos num Estado laico. Mas, na prática, é evidente a mistura. E hoje há uma corrida aos votos de fieis de outras crenças, em acirrada disputa pela fé alheia.

Por via das dúvidas, deve ter candidato rezando e orando para agradar aos dois lados. O do PMDB, por exemplo, Pedro Paulo, fez vídeo em que aparece segurando a Bíblia no templo da Assembleia de Deus, Ministério de Madureira, como se fosse crente desde criancinha. Mas o campeão desse novo sincretismo religioso para efeito eleitoral é Marcelo Crivella, do PRB, que está atacando em dois planos.

Bispo licenciado, ele vem tentando se descolar da Igreja Universal do Reino de Deus, do seu tio Edir Macedo, para diminuir a rejeição. E, ao mesmo tempo, tenta colar sua imagem à tolerância, ao aparecer na televisão acompanhado de um pai de santo. Trata-se de uma ousada estratégia de marketing, que prevê lances eticamente reprováveis, como o uso não autorizado da foto do encontro com o cardeal arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, a quem foi apresentar seu plano de governo, como fizeram os outros candidatos.

Só que, ao contrário destes, Crivella produziu peças com a imagem risonha dos dois e panfletou em portas de igreja e de metrô. A Arquidiocese protestou com indignação contra a indevida propaganda e aproveitou para avisar: “O cardeal não apoia nenhum candidato à prefeitura ou à Câmara Municipal”. Por meio de sua campanha, o senador começou negando que tivesse distribuído o material, mas depois confessou a má ação, embora alegando que o “único objetivo foi dar transparência à população dos programas assumidos junto ao cardeal”.

Quer dizer, tergiversou, confessou, mas não se penitenciou do erro, isto é, do que a igreja de dom Orani classificaria de pecado sem remissão, porque sem reconhecimento da falta e sem arrependimento. Durante sua última campanha, a ex-presidente Dilma Rousseff deu um conselho: “Nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”.

Não se sabe se ela incluía aí usar o santo nome em vão. Talvez seja muita pretensão achar que Deus, com tantos problemas graves para resolver no mundo, vai dar atenção às nossas eleições municipais, ainda mais sabendo que elas transformaram a fé em moeda de troca de votos.

 Zuenir Ventura, O Globo