quarta-feira, 20 de setembro de 2017


Sonho compartilhado

Candidato a senador em 1986, Mauro Benevides estava em um palanque na praça dos Franciscanos, Juazeiro do Norte (CE), quando o candidato a deputado estadual Marcus Fernandes contou a lorota em forma de “sonho”:
- Sonhei que Padre Cícero Romão Batista baixava num monte nuvens diante de mim e, com aquela voz tronitoante, que só os santos possuem, apontou pra mim e disse: "Marquinhos tu és um dos meus!"
Mauro Benevides cutucou o orador por trás e implorou, ao pé do ouvido:
- Marquinhos, por favor, me bota nesse sonho!...
 
Diário do Poder 

Versículos do dia

E não tinham sede, quando os levava pelos desertos; fez-lhes correr água da rocha; fendeu a rocha, e as águas correram. Isaías 48:21

Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. João 4:14

As coisas

O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
é, acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
- é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!


Mário Quintana 

Charge


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Nada no mundo se compara à persistência. Nem o talento; não há nada mais comum do que homens malsucedidos e com talento. Nem a genialidade; a existência de gênios não recompensados é quase um provérbio. Nem a educação; o mundo está cheio de negligenciados educados. A persistência e determinação são, por si sós, onipotentes. O slogan "não desista" já salvou e sempre salvará os problemas da raça humana.


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
(...)

Cora Coralina

Como funciona a nossa mente

A mente humana grava e executa tudo que lhe é enviado, seja através de palavras, pensamentos ou atos, seus ou de terceiros, basta que você aceite-os.

Um cientista queria provar essa teoria, para isso conseguiu um voluntário na penitenciaria. Era um condenado à morte que participaria de uma experiência científica, na qual seria feito um pequeno corte em seu pulso, o suficiente para gotejar seu sangue até a gota final. Ele teria uma chance de sobreviver, caso o sangue coagulasse. Se isso acontecesse, seria libertado; caso contrário, faleceria pela perda do sangue.

O condenado foi amarrado em uma cama e com os olhos vendados fizeram um pequeno corte em seu pulso. Foi dito ao condenado que ouviria o gotejar do sangue na vasilha. O corte foi superficial e não atingiu nenhuma artéria ou veia, mas foi o suficiente para sentisse que seu pulso fora cortado. Sem que ele soubesse, debaixo da cama, tinha um frasco de soro com uma pequena válvula. Ao cortarem o pulso, abriram a válvula do frasco para que acreditasse que era o sangue dele que estava caindo.

Na verdade, era o soro do frasco que gotejava! De dez em dez minutos, o cientista, sem que o condenado visse, fechava um pouco a válvula do frasco e o gotejamento diminuía. O condenado acreditava que era seu sangue que diminuía. Com o passar do tempo, foi perdendo a cor e ficando mais pálido. Quando o cientista fechou por completo a válvula, o condenado teve uma parada cardíaca e faleceu, sem ter perdido sequer uma gota de sangue!

Prof. Menegatti

O lado engraçado de Ramalho Leite

Deputado estadual, deputado federal, secretário estadual e municipal, diretor de banco, Ramalho Leite só não foi tudo nessa vida porque não chegou a ser prefeito. Preferiu dar essa honra a Marta, sua esposa, prefeita duas vezes de Bananeiras, seu xodó. Imortal da Academia Paraibana de Letras, membro do IHGP, Ramalho Leite destacou-se também pela escrita e pelo humor fino. Como o leitor verá em seguida.

O soldado

Arlindo Ramalho, pai de Ramalho Leite, era prefeito de Borborema e pediu ao filho para acompanhar Nino Flor, filho de uma amigo dele, até o comando da Policia Militar. Nino pretendia ingressar na policia como soldado e, conhecendo o Cel. Gadelha, então comandante da PM, Ramalho foi até o seu Gabinete. O Comandante começou a indagar do candidato a militar?

- Você sabe ler e escrever?

-Não Senhor! Respondeu Nino.

-Sabe as quatro operações ? Somar, dividir, multiplicar?

-Não Senhor, repetia o candidato...

-Assim tá ruim, amigo! O Governador tá querendo melhorar os quadros da Polícia e quer que os soldados sejam pelo menos alfabetizados...

Foi interrompido pelo ex-quase soldado:

-Seu coronel, o senhor acha que se eu soubesse tudo isso que o Senhor me pergunta, eu vinha ser soldado de policia?

A operação 

Mazureik Morais, médico na Maternidade Cândida Vargas, colocava sua especialidade à disposição do deputado Ramalho Leite, de quem era amigo e colega de partido. Ramalho utilizou seus serviços para uma operação de períneo em Lourdes Galega, uma eleitora, profissional do sexo na Rua do Tôco, em Solânea. Operada, Lourdes não deu mais notícia. Voltando de uma festa no Casserengue, Ramalho deu carona a duas de suas colegas, que voltavam cedo para casa. Resolveu então lhes perguntar onde andava Lourdes Galega e a resposta foi ilustrativa:

- Ah! Deputado, depois que o senhor mandou fazer aquela operação nela, ela tá importante, aumentou sua tabela de preço e tá muito procurada... Sua outra companheira arrematou:

- Doutor, arranje uma operaçãozinha daquelas pra mim...

O carro preto

Para completar sua maioria na Assembléia, o governador Tarcisio Burity cooptou parte dos deputados do PDS para que formassem nova agremiação, o PL. Ramalho era Líder do Governo e do PMDB e foi obrigado a admitir também nesse grupo de sustentação ao Governo, o deputado Afrânio Bezerra, seu principal adversário no brejo e que, sem dúvida, deveria dividir com ele as atenções do governo naquela área. Mesmo contrariado, caloi-se. Mas passou a exercer constante vigilância sobre os passos do seu adversário.

Certa feita, passando pela sala da Secretaria Particular do Governador, viu em cima da sua mesa um bilhete do Governador para o Chefe da Casa Militar: determinava a entrega de um veículo oficial para o uso do deputado Afrânio. Era só o que ele queria. Desfilar pelo brejo em um carro preto. Era demais...
Surrupiou o bilhete e o carro nunca foi entregue ao deputado. Sem essa demonstração de prestigio ele terminou desistindo do governo. Sem carro preto, voltou à oposição em pouco tempo!

Verso infeliz

Seu Titiva, vereador em Pilões, quando na mesa de bar, dominava o ambiente versejando de improviso. De certa feita, Ramalho visitava Pilões como deputado estadual, e no clube local, em torno de uma mesa, reunia vários amigos, ouvindo os versos do poeta sem viola. Entusiasmado, Seu Titiva estava no meio de uma sextilha quando chega  o prefeito de Belém, Lula Firmino. Ramalho avisa:

 Chegou o prefeito de Belém, e seu Titiva completa:

 ...e o prefeito de Belém, nunca pagou a ninguém, como hoje quer pagar?...

Seu Titiva conseguiu a rima, mas teve que se derramar em desculpas ao prefeito pelo verso infeliz..

A branquinha

O Desembargador Semeão Cananéa era um grande apreciador da aguardente Rainha desde quando foi Juiz na Comarca de Bananeiras. Saiu de lá mas continuou fiel à famosa cachaça, sendo abastecido constantemente pelo seu fabricante, Mozart Bezerra.

Certa feita Ramalho Leite encontrou-se com o ilustre magistrado e se referiu à cachaça Serra Limpa, agora “muito famosa e melhor do que a Rainha”, fez a contra-propaganda. Ele já tinha provado a branquinha e concordou com seu conceito, mas, preveniu:

- Eu gosto da Serra Limpa, mas não faça propaganda disso... senão, Mozart deixa de me mandar a Rainha...

A lei do cão

Egídio Madruga enquanto foi deputado estadual, presidiu a Comissão de Justiça da Assembléia e emitiu parecer sobre todos os projetos que os deputados apresentaram. Costumava trabalhar em casa, para onde mandava levar os processos, que, às vezes, nunca voltavam...Certa feita, Ramalho Leite aguardava parecer em projeto de sua autoria, quando foi procurado por um assessor da CCJ com cópia do projeto para que o assinasse. Surpreendeu-se com o pedido e recebeu a explicação inusitada:
- É que a cachorra de Egídio comeu o seu projeto...

Eleitor de visão

Pelos idos de 1982 Ramalho era candidato a deputado estadual e fazia uma dobradinha com José Maranhão, candidato a deputado federal. Trocavam votos. Ramalho votava nele em Bananeiras e Solânea e ele votava em Ramalho em Belém e Dona Ines. Cada qual por sua conta. Próximo à eleição, quando o assédio e o petitório dos eleitores aumenta, procurou seu companheiro de luta para que autorizasse o pagamento da confecção de algumas dezenas de óculos para os seus eleitores. Cauteloso nos gastos como sempre foi, para não dizer “amarrado”, Maranhão olhou por cima dos óculos (dele) e, desconfiado, perguntou:

- Essas pessoas vão votar em mim mesmo Ramalho?:

- Claro que vão. É gente minha, de confiança e carentes, respondeu !

Ele então concluiu, escapando da despesa::

- Então... se vão votar em mim, é sinal de que têm boa visão... não precisam de óculos...

Cheque de motel

Ramalho era Líder do Governo Burity II e, em minoria na Assembléia, tinha dificuldade em aprovar as matérias de interesse do Palácio da Redenção. Um grupo de deputados, rebelados, ajudava a oposição a derrotar o Governo. Em plena Ordem do Dia, procurou o deputado Gilberto Sarmento, um dos rebeldes, e lhe informou que o Motel Fogeama estava publicando uma lista de cheques sem fundo e o nome dele constava da lista.

-Vá urgente ao Cartório de Chico Souto!

Gilberto esbravejou, disse logo que deveria ter sido um vereador a quem ele dera um cheque e saiu às pressas.

Quando ele saiu, o Governo reconquistou a maioria e Ramalho solicitou que se botasse a matéria em votação.

Sem Gilberto, o Governo ganhou mais uma...

Terminada a sessão, eis que Gilberto retorna e diz que não encontrou a tal lista.Até hoje não sabe que foi vitima de um ardil parlamentar...

O preso

Pelos idos de 1978 Ramalho Leite reclamou na Tribuna da Assembléia da decisão do juiz de Pilões, que proibira os comícios de ultrapassarem as dez horas da noite. Um cabo eleitoral seu e de Waldir dos Santos Lima que atendia pelo indecente apelido de Furico, dia seguinte, chegou em Pilões logo cedo com o jornal O Norte debaixo do braço, elogiando o deputado e endossando as criticas ao Juiz. Como o Juiz não podia prender o deputado, mandou prender Furico.

Ademar Leite, primo de Ramalho, lhe mandou um bilhete contando o fato e concluiu:

- O Juiz disse que, se alguém for lá pedir para soltar o Furico, ele não solta. Mas se ninguém pedir, na segunda feira ele solta o Furico...

E assim foi feito!

(Furico morreu em João Pessoa, assassinado por um taxista, quando, bêbado, confessava não ter dinheiro para pagar a corrida.)

Anjos e demonios

Na sua casa de Bananeiras, Ramalho mantém um painel com fotos em exposição. Lá estão Frei Damião, Collor, Figueiredo, João Agripino, Ernani Satyro, Pedro Gondim, entre outros. Essa exposição ele a denominou de “Ramalho Leite entre anjos e demônios”. O visitante escolhe quem é demônio e quem é anjo.
O jornalista José Euflávio acompanhou o então Governador Cássio Cunha Lima a Bananeiras. Vendo a exposição e querendo embaraçar Ramalho, perguntou para que Cássio ouvisse:

- Ôxente, não tem nenhuma foto de Ronaldo? (Referia-se a Ronaldo Cunha Lima, pai do Governador).

- “Ronaldo não é anjo nem demônio, Ronaldo é Santo” - escapou Ramalho, sob risadas gerais da assistência

O exame

Submetido a uma ultrasonografia abdominal que incluía exame de próstata, na clinica de dr.Lavoisier, ali na Duarte da Silveira, Ramalho ficou encantado com o diagnostico do médico:

Sua próstata é de um adolescente...

Mas assim mesmo, indagou inconformado:

- Dr. Não dá pra trocar por outra coisa de adolescente não?

O exame II

Ao se submeter a vários exames, por recomendação médica, para um checkup anual, Ramalho ouviu da atendente da clínica:

 A urina tem que ser colhida no primeiro jato...

Jato ? Espantou-se Ramalho e indagou:

- Não dá pra ser de um téco-téco não? 

Tião Lucena
 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Associação de Magistrados da Paraíba, emite nota de repúdio contra pombalense que teria feito postagens ofensivas contra juíza Candice Queiroga; Confira

A Associação de Magistrados da Paraíba (AMPB), emitiu nesta segunda-feira (18/09), Nota de Repúdio contra atos do pombalense José Tavares de Araújo Neto, também conhecido por "Boquinha", o qual teria realizada postagens numa rede social de cunho ofensivo a pessoa da Juíza Candice Queiroga de Castro Gomes Ataíde.

Recentemente, José Tavares foi condenado a pagar indenização de R$ 6.000,00 a uma servidora do Poder Legislativo de Pombal, por postagens indevidas. 

A sentença foi publicada e encontra-se com interposição de recurso por parte do demandado.
 
Confira a Nota da AMPB:
 
 
A Associação dos Magistrados da Paraíba (AMPB) vem a público se solidarizar com a magistrada Candice Queiroga de Castro Gomes Ataíde em razão de declarações feitas pelo senhor José Tavares de Araújo Neto, em postagem publicada em rede social, com afirmações ofensivas e desrespeitosas, sem qualquer fundamento fático e de direito, tentando atingir a honra da juíza.

A AMPB repudia quaisquer declarações infundadas que visem desvirtuar a função judicial e macular a imagem da magistratura da Paraíba, sobretudo da utilização de um espaço sem qualquer oportunidade de contraditório, com o fim de desqualificar atos do Judiciário, ainda que sob o argumento da crítica democrática.

Se parte de um processo discorda da interpretação dada pelo juiz no julgamento da causa pode exercer seu direito à crítica por meio de argumentos que se refiram ao caso em questão e de preferência pelos meios legais. Sair do campo dos argumentos sobre os fatos e valores que envolvem o litígio para ataques à pessoa da juíza, por meio de declarações insultuosas, revela-se como uma conduta antiética e contrária ao debate democrático, além de ser tipificada como crime.

A AMPB repudia qualquer tipo de interferência à liberdade de julgar, ofensas pessoais, ou qualquer comportamento que vise desvirtuar a função judicial ou de seus juízes.

A Associação disponibilizará para a magistrada ofendida todos os meios legais necessários para a defesa de sua dignidade e espera que prevaleça o respeito ao Poder Judiciário e aos seus juízes, como resguardo da Justiça, da ordem democrática e da liberdade de expressão calcada em preceitos éticos.

João Pessoa, 18 de setembro de 2017

Juíza Maria Aparecida Sarmento Gadelha
Presidente da AMPB

Um Apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis

Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59. 

Não ameis a distância

Em uma cidade há um milhão e meio de pessoas, em outra há outros milhões; e as cidades são tão longe uma da outra que nesta é verão quando naquela é inverno. Em cada uma dessas cidades há uma pessoa, e essas pessoas tão distantes acaso pensareis que podem cultivar em segredo, como plantinha de estufa, um amor a distância?

Andam em ruas tão diferentes e passam o dia falando línguas diversas; cada uma tem em torno de si uma presença constante e inumerável de olhos, vozes, notícias. Não se telefonam mais; é tão caro e demorado e tão ruim e além disso, que se diriam? Escrevem-se. Mas uma carta leva dias para chegar; ainda que venha vibrando, cálida, cheia de sentimento, quem sabe se no momento em que é lida já não poderia ter sido escrita? A carta não diz o que a outra pessoa está sentindo, diz o que sentiu a semana passada... e as semanas passam de maneira assustadora os domingos se precipitam mal começam as noites de sábado, as segundas retornam com veemência gritando - "outra semana!" e as quartas já tem um gosto de sexta, e o abril de de-já-hoje é mudado em agosto...

Sim, há uma frase na carta cheia de calor, cheia de luz; mas a vida presente é traiçoeira e os astrônomos não dizem que muitas vez ficamos como patetas a ver uma linda estrela jurando pela sua existência - e no entanto há séculos ela se apagou na escuridão do caos, sua luz é que custou a fazer a viagem? Direis que não importa a estrela em si mesma, e sim a luz que ela nos manda; e eu vos direi: amai para entendê-las!

Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pêlo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui - e isso não há.

Então a outra pessoa vira retratinho no bolso, borboleta perdida no ar, brisa que a testa recebe na esquina, tudo o que for eco, sombra, imagem, um pequeno fantasma, e nada mais. E a vida de todo dia vai gastando insensivelmente a outra pessoa, hoje lhe tira um modesto fio de cabelo, amanhã apenas passa a unha de leve fazendo um traço branco na sua coxa queimada pelo sol, de súbito a outra pessoa entra em fading um sábado inteiro, está-se gastando, perdendo seu poder emissor a distância.

Cuidai amar uma pessoa, e ao fim vosso amor é um maço de cartas e fotografias no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos...

Não ameis a distância, não ameis, não ameis!  

Rubem Braga

Arte


domingo, 17 de setembro de 2017

A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Rubem Alves 

Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

Glória Hurtado

Versículos do dia

E recusaram ouvir-te, e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te, e grande em beneficência, tu não os desamparaste. Neemias 9:17

Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus,Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; 2 Timóteo 1:8,9

O Einstein do século 21 já existe e é mulher

Ela construiu um avião aos 14 anos, se formou com a nota mais alta do MIT, foi convidada para trabalhar na área aeroespacial da Amazon e, prestes a concluir o doutorado em física, diz que precisa se concentrar nos estudos

Aos 12 anos, a estudante americana de ascendência cubana Sabrina Gonzalez Pasterski sonhou fantasias comuns às crianças: como queria fazer faculdade no Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma dos mais conceituados do mundo, pensou que seria uma boa ideia construir um avião de dois lugares para que seus pais, de Chicago, pudessem visitá-la. Para a maioria dos jovens dessa idade, o projeto ficaria na esfera das ilusões. Não para ela. Sabrina construiu a aeronave de dois lugares com as próprias mãos, entrou para o MIT e está prestes a completar o doutorado na Universidade Harvard. Hoje, aos 24, é considerada a “nova Einstein” pelos seus mestres acadêmicos.
Ela já foi citada em um artigo científico sobre buracos negros assinado pelo famoso físico Stephen Hawking e é considerada um dos mais promissores cérebros desse campo, conhecido por ser um dos desafiadores da ciência atual. “Quando você é pequena, você fala um monte de coisas sobre o que você quer fazer ou quem você quer ser quando for mais velha”, disse, ao receber um prêmio dado a jovens mulheres brilhantes. “Eu acho que é importante não perder esses sonhos de vista.”
Sabrina sempre foi inteligente, mas as pessoas começaram a perceber que ela era fora de série aos 9 anos, quando aprendeu a pilotar aviões, uma fixação de infância, e passou a consertá-los. Quando decidiu que faria seu próprio monomotor, comprou um kit de US$ 38 mil. Enquanto o construía, dos 12 aos 14, porém, uma série de modelos iguais começou a cair, matando um total de 13 pessoas. Isso a levou a implementar modificações no projeto para aumentar a segurança, mudanças que foram aprovadas pelas autoridades aéreas americanas. Com isso, ela se tornou a mais jovem projetista de aviões e piloto de testes — aos 16 anos, antes mesmo de possuir carta de motorista. “Nós sempre dissemos que ela poderia fazer qualquer coisa”, afirmou o pai, em entrevista a uma rede de TV na época. “Apenas coloque sua mente e seu esforço nisso.”

CRÂNIO 

A estudante de física citada por Stephen Hawking em ensaio sobre buracos negros e o monomotor que ela construiu 
NOBEL
Pouco depois da conquista, ainda aos 16, ela ingressou no MIT, onde depois se formaria com a mais alta nota possível. “Eu não estou qualificado para julgar a grandeza científica de Sabrina, para isso você precisaria de alguns laureados do Nobel”, disse à ISTOÉ o mentor dela no instituto, o professor Earll Murman. Ele compara a capacidade acadêmica da aluna à habilidade musical de Mozart (1756-1791), que muito precocemente já era considerado um gênio em sua área. “Vai ser interessante observar se ela crescerá cientificamente aos níveis de um Mozart ou de um Beethoven.”
Atualmente, Sabrina está em busca de um doutorado de física em Harvard. Sua área de estudos mudou dos aviões para mistérios maiores do universo. Numa descrição feita por si mesma em seu site pessoal, ela diz que uma de suas maiores habilidades é “encontrar elegância dentro do caos”. Para variar, seu currículo impressionou mais uma vez: vários de seus trabalhos foram citados num paper científico de Stephen Hawking, um dos pesquisadores mais destacados do mundo.
Mesmo que desista de desvendar os segredos do cosmo (e não há nenhuma indicação de que o fará), Sabrina não vai ficar sem o que fazer. Ela já declarou não suportar deixar a mente ociosa. Desde que era adolescente, chamou a atenção do bilionário Jeff Bezos, dono da Amazon, que lhe ofereceu um emprego em sua empresa aeroespacial, a Blue Origin – oferta que ele recentemente reiterou estar de pé. Procurada, Sabrina não quis conceder entrevista. Disse estar muito ocupada com a volta às aulas na semana passada. “Preciso focar nos estudos”.
“Vai ser interessante observar se ela crescerá cientificamente aos níveis de um Mozart ou de um Beethoven” Earll Murman, professor da Universidade Harvard
APRENDIZ DE GENIAZINHA
Conheça as principais conquistas de Sabrina
9 anos Aprendeu a pilotar aviões e a consertá-los
14 anos Acabou de construir sua própria aeronave
16 anos Entrou no MIT, onde se formaria com nota máxima
24 anos Doutoranda em Harvard, foi citada por Stephen Hawking


Raul Montenegro
IstoÉ

O disfarce

Cansado da sua beleza angelical, o Anjo vivia ensaiando caretas diante do espelho. Até que conseguiu a obra-prima do horror. Veio, assim, dar uma volta pela Terra. E Lili, a primeira meninazinha que o avistou, põe-se a gritar da porta para dentro de casa: "Mamãe! Mamãe! Vem ver como o Frankenstein está bonito hoje!" 

Mário Quintana 
A filosofia de uma pessoa não é melhor expressa em palavras; ela é expressa pelas escolhas que a pessoa faz. A longo prazo, moldamos nossas vidas e moldamos a nós mesmos. O processo nunca termina até que morramos. E, as escolhas que fizemos são, no final das contas, nossa própria responsabilidade.

Eleanor Roosevelt

sábado, 16 de setembro de 2017


Frase

O meu maior medo foi sempre o de ter medo - física, mental ou moralmente - e deixar-me influenciar por ele e não por sinceras convicções.

Eleanor Roosevelt

Pertencer

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. 

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus. 

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. 

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro. 

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. 

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. 

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. 

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. 

Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido. 

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

Súcubo

Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...

Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...

E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!

Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!


Emiliano Perneta

Os gregos não escreviam necrológios

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objetos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.


– Herberto Hélder

A beleza do feio

Uma das questões mais delicadas da Teoria Estética é a aparente contradição entre o ideal de Beleza (que se propala ser o objetivo maior da Arte), e o fato de que admiramos obras que retratam algo repugnante, horrível ou aterrorizador. Quadros como as máscaras e os esqueletos de James Ensor, as bruxas de Goya, os corpos semi-destruídos de Francis Bacon. Nem quero chegar perto da arte contemporânea e suas incursões pelas mutilações corporais; basta me deter na boa e velha pintura a óleo, feudo confortável do academicismo, do culto à estética grega e ao equilíbrio romano. Por que motivo aqueles artistas cultivavam o Feio, e, mais ainda, por que ele nos parece Belo?

Dizem os teóricos da Arte que uma das categorias mais extremadas do Belo é o Sublime. “Sublime” é um dos adjetivos mais diluídos e malbaratados da nossa língua. As letras de músicas falam em “teu sorriso sublime”, “o momento sublime em que nos beijamos”, “a beleza sublime de uma criança”, etc. Segundo os filósofos, o Sublime não é o Mimoso. Nada tem a ver com essas delicadezas. Ele é vizinho do Medonho, do Grandioso e do Terrível. Schopenhauer criou uma gradação de experiências do Sublime que, nos seus graus mais elevados tem o Sublime propriamente dito, cujo exemplo é a Natureza turbulenta (algo que pode ferir ou destruir o observador, como uma tempestade), o sentimento pleno do Sublime (a contemplação de algo tremendamente destruidor, como a erupção de um vulcão próximo) e a experiência mais completa do Sublime (quando o observador experimenta sua total insignificância e anulação diante da Natureza).

Além disso, engana-se quem pensa que procuramos a Arte apenas para a contemplação estética, a edificação do espírito ou o entretenimento sem compromisso. Procuramos a Arte também, em todas as suas formas, em busca de experiência-limite, em busca do contato com coisas que tememos ou que não conseguimos compreender. Existem obras que funcionam porque nos permitem vislumbrar zonas crepusculares do nosso inconsciente, obras que nos provocam medo ou repulsa, mas que nos obrigam a imaginar por quê. Podemos encontrar isso nas formas mais diluídas da arte, como nos filmes de Zé do Caixão ou nos romances de Stephen King; e podemos encontrá-lo nas tragédias de Ésquilo ou de Shakespeare, na pintura de Dali ou de Hieronymus Bosch, no cinema de Buñuel, David Lynch ou Fritz Lang.

A psicanálise chamou a mente humana de “máquina desejante”, um mecanismo impulsionado pelo desejo. A impressão que tenho é que há dois tipos de desejo, o Desejo Positivo e o Desejo Negativo. Ou, se quiserem, a Atração e a Repulsa. Ambos nascem na mesma região íntima, são forças simétricas, mas uma é de atração e a outra de repulsão. Freud falava na energia da vida e da morte, Eros e Tânatos. O lugar de onde emanam é um só, e uma das suas chaves é a arte, capaz de despertar em nós não apenas a sensação do Belo, mas a sensação do Terrível. 

Bráulio Tavares

Passou um enterro rico
E outro de fazer dó
Um com 120 carros
O outro vai 1 carro só
Mas o importante é que a terra
Vai reduzir tudo a pó!


Pinto de Monteiro

O lado engraçado de Wilson Braga

Primeiro governador eleito pelo voto direto depois do período ditatorial, Wilson Braga foi, sem dúvida, um governante que primou pelo social. Construiu açudes, barragens e dizem os mais entendidos que a Paraíba hoje ainda não morre de sede graças aos açudes que ele construiu. Homem de muitas facetas, Braga tinha também seu lado desligado e engraçado. Confira nos causos adiante:

Matador de gente
 
Sales Ferreira, o cri-cri de Mané Raposo, entrou de supetão na sala da Associação dos Procuradores e lá encontrou o deputado Wilson Braga conversando com Valdir dos Santos Lima. Wilson parou a conversa e convocou Sales:
-Sales amigo, preciso que você faça uma revisão no livro da deputada Lúcia Braga".
E sales:
-Wilson, literatura é com Mané Raposi, eu só sirvo pra matar gente."

Trocando as bolas
 
Wilson Braga esperava a vez de ser entrevistado na Rádio Sanhuá confortavelmente sentado na cabine do controlista, enquanto no estúdio Antonio Malvino fazia perguntas ao presidente do PT, Adalberto Fulgêncio. Curioso, como sempre, Braga quis saber quem era o entrevistado. E C.Rodrigues, solícito, apressou-se em informar:
-É o presidente do PT, Adalberto Fulgêncio, governador”.
Braga fez um “hummm”, a entrevista terminou, ia começar a sua hora, ele levantou-se , dirigiu-se ao estúdio e ao cruzar com Adalberto no corredor, botou o braço no seu pescoço e saudou em alta voz:
-Quer dizer que você é o famoso Fulgêncio Batista!

Monsieur Dinossauro
 
Wilson Braga encontrava-se no gabinete do senador Marcondes Gadelha, em Brasilia, que recepcionava, na ocasião, o paleontólogo francês Monsieur Joseph, recém chegado ao Brasil para estudar as pegadas dos dinossauros em Sousa.
Chamado às pressas ao plenário, Marcondes deixou Wilson fazendo sala para o visitante, quando por lá apareceu um senador paulista. Braga apresentou o visitante ao político:
-Aqui é o Monsieur... o Monsieur... , aí não lembrando mais o nome do dito cujo, completou: -O Monsieur Dinossauro!

Carta do defunto
 
Morreu Zezinho Rosas e Wilson Braga foi ao velório, solidarizou-se com a família acompanhou o enterro até o cemitério, compareceu a missa de sétimo dia, porém dias depois, quando das festas natalinas, enviou belo cartão de natal para o falecido e família.
Um irmão do finado achou por bem dar o troco. Escreveu uma cartinha ao deputado em nome do defunto:
“Deputado Wilson Braga,
“Tomei conhecimento do seu Cartão de Boas Festas a mim dirigido e enviado ao meu antigo endereço”.
“Lembro-me bem do senhor no meu enterro e na missa de sétimo dia que a minha família mandou celebrar na Igreja Nossa Senhora de Lourdes”.
“O senhor estava sentado num banco, na segunda fila”.
“Devo dizer-lhe, portanto, que o meu endereço mudou. Moro agora no Cemitério Senhor da Boa Sentença, Quadra 10, túmulo no. 504.”
“Por favor, não me envie mais correspondência”.
“Grato, Zezinho Rosas”.

As duas casas
Iedo Andrade, procurador aposentado do Estado da Paraíba, no Governo Wilson Braga foi diretor superintendente do Detran. Era, por assim dizer, da cozinha do então governador. Braga confiava nele cegamente e lhe dava missões das mais confidenciais, como encher a mala de dinheiro junto a construtoras e fazer pagamentos que não deveriam aparecer na contabilidade pública.
Contam que, certa vez, Iedo foi chamado ao gabinete do governador, que lhe entregou uma planta de uma casa e uma recomendação: ir à construtora fulana de tal, entregar a planta e dizer que fosse construída aquela casa para o governador. Iedo parou no meio do caminho, tirou uma cópia da planta e entregou as duas ao construtor, recomendando que deveriam ser construídas duas casas: uma para ele, outra para Braga.

Perseguição
 
Quando Nominando Diniz era presidente da Assembléia e Ramalho Leite primeiro secretário, ficou decidido que cada deputado estadual teria direito a uma passagem de avião por mês, para ir e voltar de Brasília a serviço de suas bases. Wilson Braga era deputado federal e sua esposa, Lucia, ocupava uma cadeira de estadual na Paraíba.
Certo dia, Ramalho se encontrou com Braga no Distrito Federal e este se queixou:
-Eu quero saber o que Nominando tem contra mim...
- Nada, Wilson. Ele lhe tem muita estima! Respondeu Ramalho.
Mas Braga contestou: - Não acredito ! Como é que ele me tem essa estima toda e dá uma passagem para Lucia vir todo mês a Brasília me aperrear?

É cego!
 
Wilson participava da inauguração de um grupo escolar em Itaporanga. O prefeito, num discurso altamente bajulatório, afirmava:
-Wilson Braga trouxe pra nóis o "pogresso". Tudo que nós temos sai dos zóios do gunvernador.
Um bebado, no meio da platéia, bradou:
-Então tamos fudido, pois o homem é cego!

O rabo
 
Na eleição 1986,Wilson Braga era candidato a senador e em um comício em Pombal um orador começou a elogiar demais; Que tinha sido o melhor governador da paraíba, tinha o projeto canaã, o melhor para o funcionário público e etc... Quando em dado momento um gaiato gritou do meio do povo:
-Dê o rabo a ele!
O orador olhou para Wilson e perguntou:”Eu respondo Wilson?
Ao receber o consentimento do governador, o locutor não contou conversa:
 Eu como o seu e o dele. Foi aí que Wilson Braga se apressou em corrigir: perai assim não.

Dinheiro da feira
 
Wilson Braga certa vez compareceu a uma audiência no Tribunal de Justiça, para responder sobre o caso Paulo Brandão. O advogado de acusação era o renomado jurista José Carlos Dias, recém nomeado ministro da Justiça pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. A todo momento, o advogado tentava acuar o ex-governador com perguntas as mais provocativas possíveis. Em determinado momento, José Carlos Dias quis saber de Wilson Braga onde ele arranjava o dinheiro da feira. Já enfezado com o bombardeio, Braga respondeu:
-Arranjo com a sua mãe!

Cu novo
 
Desde menino que Wilson Braga conviveu com umas hemorróidas de botão que o tiravam do sério. Certa vez, Edmilson, seu assessor para assuntos de fuxicos, chegou à sua casa de manhã, encontrando-o em crise. Uma cueca manchada de sangue jogada no canto da parede, uma toalha de banho em iguais condições atirada no outro e Braga, enrolado num lençol, andando pela casa, fazendo a barba sem precisar de espelho. Quando Edmilson se preparava para contar as fofocas do dia, o deputado o interrompeu, ordenando:
-Oh! Edmilson, você que anda pelas feiras livres de João Pessoa, veja se arranja um cu novo para mim, pois este daqui está sem serventia.”

Tião Lucena 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017


Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio

Manoel de Barros 


Ao final de nossas longas andanças, chegamos finalmente ao lugar. E o vemos então pela primeira vez. Para isso caminhamos a vida inteira: para chegar ao lugar de onde partimos. E, quando chegamos, é surpresa. É como se nunca o tivéssemos visto. Agora, ao final de nossas andanças, nossos olhos são outros, olhos de velhice, de saudade.

Rubem Alves
Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.

Woody Allen

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Frase

A desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias.

Winston Churchill

Soneto 116

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


  William Shakespeare

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Que todos os nossos sonhos passem pelas mãos de Deus.
Que nada tire o encanto da vida e a importância das coisas simples.
Que o nosso coração filtre todos os sentimentos e emoções, e que só fiquem aqueles que nos fazem bem.
Que nada nos limite, pois o vento que sopra as nossas asas se chama "Fé".
A nossa força vem de Deus, a nossa esperança está em Deus, e a nossa vida está nas mãos de Deus.

Yla Fernandes
Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero.
Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce dificuldades para fazê-la forte,
Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

O mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso... 



Mário Quintana

"É muito melhor lançar-se
 em busca de conquistas grandiosas, 
mesmo expondo-se ao fracasso,
do que alinhar-se com os pobres de espírito
que nem gozam muito,
 nem sofrem muito,
porque vivem numa penumbra cinzenta,
onde não conhecem nem vitória,
 nem derrota".

Theodore Roosevelt

"Causa mortis: Traumatismo craniano. Fruto de mergulhos profundos Em pessoas rasas".

 Zack Magiezi

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Flamengo assina contrato para compra de terreno para construir estádio

O Flamengo acaba de assinar um contrato de opção de compra de um terreno com cerca de 160 mil metros quadrados para a construção do seu estádio. O terreno está localizado no início da Avenida Brasil, entre Benfica e Manguinhos. 
Pelos planos do Flamengo, o estádio terá capacidade para 50 mil pessoas. Se as coisas evoluírem como a diretoria do clube espera, significa abandonar de fato o Maracanã.
 
Lauro Jardim
O Globo

Versículos do dia

O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; é um escudo para todos os que nele confiam. Salmos 18:30

Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação. 2 Timóteo 1:7

As virtudes em Liev Tolstói são a esperança e a força. Em Fiódor Dostoiévski, a coragem e a piedade



Existem dois tipos de alma: ou você está próximo de Dostoiévski (1821-1881) ou de Tolstói (1828-1910). Talvez pareça excessivamente chique uma divisão dessas, mas, ao fim dessa coluna, espero que fique menos obscura a clareza desse critério.
Essa é a tese do crítico George Steiner em seu maravilhoso livro Tolstói ou Dostoiésvki, da editora Perspectiva. Um dos livros mais belos que já li na vida. Próximo ao Obras do Amor, de Kierkegaard (1813-1855), que é de longe o livro mais belo escrito em filosofia ou teologia que conheço.
A beleza e o amor suspendem a vida acima da banalidade do cotidiano. Despertá-los talvez seja a missão mais sublime que alguém pode ter na vida com relação aos seus semelhantes.
Uma das forças da literatura clássica é nos fazer conhecer a nós mesmos. Sei que está na moda dizer que não existe literatura clássica, mas deixemos de lado essa discussão entediante.
A tipologia que nos propõe Steiner deita raízes nos dois estilos gregos: o épico e o trágico. Tolstói estaria no primeiro; Dostoiévski, no segundo. E, por consequência, são dois modos distintos de viver a vida. Ambos carregando a grandiosidade de espíritos avassaladores, como os dois escritores russos.
O épico seria o estilo em que a vida está envolvida pela presença do mito ou da religião, fundando uma ação fincada na esperança prática do transcendente (mundo dos deuses) e, por consequência, na esperança da redenção do mundo. Salvar o mundo é sua marca. Pessoas épicas sentiriam que suas vidas são acompanhadas por forças que as tornam capazes de redimir o mundo de suas misérias. Sua virtude central é a esperança. Por “prática”, aqui, quero dizer que não se trata de um espírito religioso meramente teórico ou alienado do mundo, mas profundamente enraizado nas agonias e demandas do mundo.

A beleza e o amor suspendem a vida acima da banalidade do cotidiano
Para Steiner, Tolstói tem esse espírito de modo bem evidente, entre outros momentos, no período em que escreve Ressurreição, que começou a ser publicado na Rússia em fascículos em 1899. O Conde Tolstói, nessa época, estava bastante envolvido na luta contra as injustiças da Rússia czarista, e abraçou, no fim da vida, uma forma de anarquismo cristão pietista bastante radical.
O trágico seria o estilo em que o olhar para a vida se mantém fincado na fragilidade dela. A precariedade é a estrutura dinâmica da vida. Nas palavras do escritor americano Henry James (1843-1916), uma vida tomada pela “imaginação do desastre”. Aqui não há redenção, há coragem de enfrentar esse “desastre” que é a existência humana. Para Steiner, essa é a alma dostoievskiana. Sua virtude central é a coragem.
Aqui, mesmo que haja o divino, como há em Dostoiévski, o peso do drama cai sobre as costas do homem que caminha sozinho pelo chão do mundo. A beleza de Deus, na forma de “taborização” de seus místicos, como se fala na teologia russa, em referência à transfiguração do Cristo no Monte Tabor, aparece sempre como iluminação da agonia humana a sua volta (basta ver o Príncipe Mishkin do romance O Idiota). O místico em Dostoiévski ilumina por contraste. Sua luz divina faz a doçura do perdão brotar na consciência atormentada do pecador.
Uma alma tolstoiana é uma alma iluminada pela esperança e pela vitalidade que Deus a empresta. Seu elemento é a força de atuar no mundo social e político. Uma alma dostoievskiana é iluminada pela dor e pela coragem que a mantém de pé. Seu elemento é a misericórdia como substância de sua psicologia espiritual.
E como passamos dessa alta teologia para o chão do cotidiano de nós mortais? Almas tolstoianas lutam a cada dia contra a miséria do mundo, fazendo deste um campo de batalha contra o mal, movidas por uma certeza que parece alucinada. Almas dostoievskianas, um tanto mais delicadas, suportam o sofrimento encantando o mundo a sua volta com piedade e sinceridade avassaladoras.
Felizes são aqueles que convivem com pessoas assim. A vida se transfigura em esperança e coragem. Duas faces da graça que sustenta o caminho dos homens. Mas, sem humildade, como sempre, seremos cegos a essas virtudes de Deus.

Luiz Felipe Pondé, escritor, filósofo e ensaísta, é doutor em Filosofia pela USP e professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap.