sexta-feira, 26 de maio de 2017

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.  


Vinicius de Moraes

Mitologia dos pés

Mário Quintana dizia que os fiéis beijam os pés de um santo por saberem que são eles a sua parte mais santificada, a que o levou pelo mundo afora. Os pés o conduziram pelas estradas, o levaram ao encontro do mundo, dos pobres, dos pecadores. 

Se não botasse os pés pra trabalhar, o pretendente a santo teria se deixado ficar eternamente no bem-bom da própria casa, teorizando sobre o mundo e a graça divina. Nunca seria santo; seria um desses pecadores anódinos que não fedem nem cheiram, incapazes de fazer mal a um corpo e de salvar uma alma.

Vejam aquela antiga maldição dos contos populares, da moça que era condenada a sair andando pelo mundo até gastar dez pares de sapatos de ferro. Primeiro pelo peso e o desconforto, é óbvio; depois pela terrível perspectiva temporal dessa caminhada, um castigo de muitos séculos, até que os solados de metal fossem desgastados pela caminhada incessante. 
Era o castigo da soberba, da indiferença pelo mundo. Vai ter que caminhar, minha filha; “caia na estrada e perigas ver”. Tua maldade é a da ignorância, a de quem se fecha para a existência. Dez sapatos de ferro. Quando puderes finalmente tocar no chão com a planta lisa do pé terás aprendido o que é o mundo.

Castigo parecido ao que recebeu a Sereiazinha do conto de Andersen, que queria ser uma moça normal, queria sair do mar para a terra e namorar um príncipe. Seu pedido é atendido, ela perde o rabo de peixe, ganha um par de pernas; mas para que não esqueça sua condição vai ter que sentir agulhadas dolorosas na sola dos pés cada vez que os pousa no chão. 
Para lembrar sempre que não é dali, que escolheu vir à terra sabendo que ela a faria sofrer. Para lembrar que é estrangeira, que é de um mundo diferente. “Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho; alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”. Quem vem de longe vem pra sofrer, quem pisa em terra alheia pisa chapa quente.

Os torturadores da Inquisição mandavam o indivíduo suspeito caminhar dez metros, descalço, por cima de brasas; se não se queimasse seria absolvido. 
Talvez porque estivessem à procura de líderes espírituais, aqueles já tão calejados que andariam na brasa ardente como se fosse uma grama orvalhada. Uma maneira prática de distinguir os espíritos evoluídos, os mais perigosos, os que valeria a pena executar ou seduzir.

A marca da sola dos nossos pés é a nossa verdadeira impressão digital. A que traz, não a herança com que nascemos, mas o acumulado da nossa experiência, dos nossos caminhos, dos ferimentos que recebemos e curamos. Quanto mais castigados os nossos pés, mais alto teremos subido e mais marcas teremos deixado no mundo que ficou para trás.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Carlos Drummond de Andrade 

quinta-feira, 25 de maio de 2017



Receita

Fazer um texto não é difícil. Como tudo na vida, basta que sigamos um método. Depois de muitos estudos sobre o assunto, tendo consultado desde os mais ancestrais pergaminhos ciganos da Checoslováquia até as últimas pesquisas científicas norte-americanas, juntei conhecimento suficiente para produzir um pequeno tratado sobre o tema. Se o publico aqui não é por vaidade ou capricho, mas porque acho que todo conhecimento deve ser compartido. Dessa forma, tenho esperança, chegará o dia em que todo o saber humano poderá ser reunido e centralizado em um único programa de computador, ou software — que é o termo correto — e vendido a preços módicos nas bancas de jornal, postos de gasolina ou virão grátis nas compras acima de 50 reais nos supermercados Mambo(*). Aí vai, portanto, a minha modesta contribuição.

Como escrever um texto

Assim como para fazer uma sopa é preciso, antes de mais nada, escolher os ingredientes, para escrever um texto é necessário, primeiramente, selecionar as palavras que vamos usar. Se para os ingredientes da sopa vamos ao mercado, para encontrarmos as palavras recorremos ao dicionário.

Algumas considerações desnecessárias (porém interessantes)

O dicionário é superior ao mercado em muitos aspectos. Em primeiro lugar, porque no dicionário o preço das palavras não cresce a cada dia — como ocorre com os legumes no mercado —, posto que todas são de graça. Ademais, os dicionários podem ser guardados na estante da sala, o que seria impossível de se fazer com um mercado — não por sua forma, muitas vezes retangular como os dicionários, mas devido ao tamanho (mais provável seria guardar a estante da sala no mercado, mas isso seria inútil tendo em vista que nosso objetivo não é dar cabo da estante e sim escrever um texto). Há uma diferença básica entre os mercados e os dicionários: se nos primeiros os produtos entram novos e saem assim que fiquem velhos, no segundo não se encontra um só artigo novo, pois ser velho é condição sine qua non para estarem ali. Apesar das considerações anteriores, é impossível provar logicamente a superioridade de um mercado sobre um dicionário ou vice-versa. Prova disso é que podemos tanto encontrar dicionário em um bom mercado, como mercado em um bom dicionário. Assim sendo, deixemos de lado essas comparações inúteis e voltemos ao tema em questão: como escrever um texto.

Agora sim, como escrever um texto, parte I: Ritmo

Tanto os pergaminhos ciganos da Checoslováquia como os cientistas norte-americanos estão de acordo em um ponto: um texto deve ter ritmo. Por isso, uma vez aberto o mercado, perdão, o dicionário, é importante ter em mente que um bom escrito leva um número equivalente de palavras pequenas, médias e grandes. Um método infalível na hora de separar as palavras é, sempre que escolhermos uma curta, como chá, lua ou oi, buscarmos imediatamente uma comprida, como halterofilismo, mononucleose ou antropomorficamente.

Assim que você sentir que já tem em mãos um bom número de palavras curtas e longas — isso depende do tamanho do texto que quiser escrever —, parta para a busca de um número igual de palavras médias, tais como sudorese, abobado ou alicate. Aconselha-se anotar essas palavras num papel, com lápis ou caneta, ou datilografá-las num computador ou máquina de escrever, de acordo com as condições infra-estruturais de cada um. (O texto final, no entanto, poderá ser escrito de muitas outras maneiras, como com sangue nas paredes, com canivete num tronco de árvore ou com um arco de violoncelo nas areias de Jericoacoara, dependendo não só das condições infra-estruturais como do efeito desejado. Isso fica a cargo do autor.)

Parte II: Etiqueta ou bom senso

Se para uma sopa de batatas precisamos de muitas batatas e para uma sopa de beterraba muitas beterrabas, para um texto triste precisamos de palavras tristes, para um texto audacioso de palavras audaciosas e para um texto semi-erótico de palavras semi-eróticas. Se o autor tem em vista um texto fúnebre, por exemplo, não cairão bem as palavras lantejoula ou meretrizes, assim como num convite de casamento dificilmente se poderá usar a palavra excremento (apesar de, todo o apelo que a rima possa ter). É sempre bom observar essa pequena, porém importante, formalidade da escrita.

Parte III: Pontuação

Nesta altura o futuro autor já tem consigo um bom número de palavras, harmoniosamente divididas entre curtas, médias e longas, anotadas em alguma superfície de celulose ou cristal líquido. Chegou a hora de condimentar essas palavras. Os pontos são no texto o que os temperos são para a sopa, e é importante saber usá-los. Para cada cinco palavras, em média, o autor deverá ter uma vírgula. Para cada dez, um ponto. Para cada 15, uma interrogação e/ou uma exclamação.

Algumas dicas: para um texto mais picante, acrescente muitas exclamações. Nunca use muitas interrogações se o texto se destina a um grande público. Por último, evite as crases, os tremas e o ponto-e-vírgula, pois são de sabor muito forte e devem ser usados com parcimônia, assim como o gengibre ou o curry na culinária.

Parte IV: Prosa e poesia

Tendo os ingredientes e os temperos todos à frente , é chegado um momento muito importante, a hora de se decidir que tipo de texto se quer escrever. Há somente dois, prosa e poesia. É muito fácil diferenciar um do outro: os de poesia são fininhos e as frases se colocam umas sob as outras, formando pequenos blocos. Ao final de cada um desses tijolinhos, pula-se uma linha e começa-se um novo. Os textos de prosa são mais consistentes, e as linhas ocupam toda a extensão da página, desde a margem esquerda até a direita. Se o autor é preguiçoso ou está terrivelmente atrasado para algum compromisso, convém fazer uma poesia. Nesse caso, vale a pena seguir alguns passos.

1 — Volte ao dicionário e busque algumas interjeições como Oh! e Ah!. Não economize também nas reticências, exclamações e interrogações. São pequenos detalhes, mas muito úteis. Mesmo a mais simples das frases, se antecipada por uma dessas palavrinhas e seguida por esses pontos, ganhará um novo alento, uma vaguidão que facilmente será confundida com profundidade, como você pode comprovar no exemplo a seguir:

Antes:
Havia casas azuis.
Depois:
Oh! Havia casas... Azuis?!


Caso o futuro autor disponha de mais tempo e motivação, e deseje escrever um texto em prosa, não encontrará grandes dificuldades. Basta pegar todas as palavras previamente selecionadas e dispô-las sobre a página. Não é preciso lavá-las nem deixá-las de molho. Tente sempre mesclar as pequenas, médias e grandes. Lembre-se de que os pontos, as exclamações e interrogações vão sempre ao final das frases, e os acentos em cima das palavras. A cada seis ou sete linhas, termine uma frase no meio da folha e comece outra embaixo, depois de um espaço. Isso se chama parágrafo.

Os antigos pergaminhos da Checoslováquia demonstram alguma preocupação quanto à importância do sentido e da clareza em um texto. As últimas pesquisas norte-americanas, no entanto, provam que essas questões são absolutamente irrelevantes. Uma rápida visita a uma biblioteca demonstrará que há textos dos mais absurdos impressos por aí, e que nem a clareza nem o sentido são as características que fazem deles clássicos ou novelinhas baratas, exemplares da Academia Brasileira de Letras ou calço para mesas.

Por último, cabe destacar que um texto, ao contrário de uma sopa, não alimenta, não esquenta, nem pode ser servido com conchas. Assim como até hoje não tive notícias de nenhuma ONG ou instituição beneficente que saia pelas madrugadas frias distribuindo textos e cobertores para mendigos (embora não seja uma má idéia). Não podemos deixar de mencionar que um texto resulta mais prático que uma sopa, pois pode ser guardado na estante da sala e não precisa ser resfriado nem muito menos congelado.

Apesar das considerações anteriores, é impossível provar a superioridade de um texto sobre uma sopa ou vice-versa. Mesmo porque, é possível encontrar tanto letras em boas sopas, quanto sopas nas boas letras. Assim sendo, vamos ficando por aqui. Afinal, os textos e as sopas, os mercados e os dicionários, as palavras grandes, os ingredientes, eu, você, os cientistas norte-americanos e os pergaminhos da Checoslováquia nos assemelhamos numa única coisa: todos, em algum momento, chegamos ao fim.

(*) Promoção válida apenas para as lojas Mambo em São Paulo (capital), Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Macapá, Acre e Roraima: que se danem!

Antonio Prata

"Pracas"






quarta-feira, 24 de maio de 2017


Versículos do dia

E o Espírito do Senhor se apoderará de ti, e profetizarás com eles, e tornar-te-ás um outro homem. 1 Samuel 10:6

Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra. Atos 1:8

Talentos revelados

Eleito presidente, Tancredo Neves foi procurado pelo deputado Ulysses Guimarães, que pretendia “queimar” a escolha do deputado pernambucano Fernando Lyra para o Ministério da Justiça. Ulysses chamou Lyra de “jurista de Caruaru” e Tancredo reagiu ao seu estilo:
- Ulysses, não foi você quem indicou o Pedro Simon para a Agricultura?
- Fui eu.
- Pois é. A única fazenda que ele conhece é tecido “do loja – disse Tancredo, referindo-se bem humorado à ascendência árabe de Simon.
 
Diário do Poder 

Lendo nas entrelinhas II

A decisão de acabarem com a Lava-Jato, por parte dos políticos investigados por ela é definitiva e irrevogável. Quanto mais desmentirem, mais estarão trabalhando com esse objetivo. Em todas as frentes. No congresso, no executivo, e no judiciário. Só não obtiveram, ainda, hesito completo, por conta da opinião pública. Esta é alimentada pela imprensa livre, inimiga número um das esquerdas boliviarianas, dos corruptos e corruptores. Em poucos dias nenhum preso, condenado pelo Moro, estará nas cadeias. Todos estarão em casa, livres para agirem em suas defesas, eliminando provas, ameaçando testemunhas, procrastinando seus julgamentos em segunda instância, até se livrarem das penas por meio de instrumentos legais, ou prescrição etária. Isso significa o fim da maior e mais competente operação moralizadora ocorrida no Brasil. Uma lástima, que inócua. Por essa razão, e por todas as outras que venho denunciando, não acredito numa saída para a nossa crise, a maior da história, com soluções institucionais vigentes. Quero dizer com isso que com o quadro político partidário existente, não vamos poder fazer uma eleição em 2018, que possa consagrar, nas urnas, alguma coisa diferente do que temos hoje. Serão candidatos pelos mesmos partidos, os mesmos políticos, eleitos pelos mesmos eleitores que trouxeram o país ao estado de penúria moral, desemprego de mais de 14 milhões de cidadãos, criminalidade e insegurança brutal. Estados falidos, financeira e moralmente como é o caso do Rio. Esse quadro não vai mudar, a não ser com uma nova Constituição Independente. Ainda é tempo de fazê-la com segurança institucional relativa, ao contrário da Venezuela, que prega o mesmo remédio para fins ditatoriais. Aqui a nova Constituição viria para restabelecer as regras político partidárias, e as bases para um crescimento econômico, e social baseado na iniciativa privada, eliminando a interferência do estado ao máximo, garantidos os direitos sociais por longos e duradouros anos. 
 
Eduardo P. Lunardelli 

A linha reta é a morte

A vida oscila. Você já se atentou que na vida as coisas são cíclicas? O momento de alegria precede o de tristeza. Hoje temos dinheiro, amanhã não. Hoje juramos amor, amanhã ódio. Tudo cai na ciclotimia. Você não vive em monotonia nunca. A natureza é ciclotímica. Nada fica numa mesma posição. Até os reinos caem. Teríamos aí a simbologia da gravidade? Não é nossa função entender, mas observar as coisas que acontecem na natureza para buscar uma hipótese para embasar nossa vida. Eu arrisco, aqui, o efeito da ciclotimia. Aprender a viver, e, como viver. - Eis aqui uma tarefa imperfeita e inacabada. 

A meus olhos isso ocorre porque somos seres em estagio primitivo de evolução. Quando se olha para o céu, olha-se para bilhões de anos atrás, porque se a luz aqui chega significa que saiu do ponto de origem a bilhões de anos. Nossa participação no universo é entender como ele funciona em relação a nós mesmos. Mas, quando estamos em regozijos deixamos de refletir, então, a vinda da dor ocorre para chorarmos e, assim, abrimos a porta da humildade e viajarmos ao centro de nossos sentimentos. Daí o aprendizado é natural pois ao pensarmos num todo encontramos a parte, a nossa parte. A vida oscila para que possamos refletir. A linha reta é a morada da morte e não da vida. Você vive para si, para se melhorar e quando isso ocorre você vive para ajudar o próximo para que ele se melhore. E será assim sempre porque só o tempo depura. Desejo-lhe uma boa evolução em sua ciclotimia, pois assim como no eletrocardiograma a linha reta é a própria morte.

Autor Fábio A. Fadel para sua página no face através do @escolafadel

terça-feira, 23 de maio de 2017


Os prazeres da psicanálise

(Cenário: bar movimentado, da moda, de preferência em Ipanema. Garçons lentos e displicentes. Os dois personagens, ELE e ELA, depois das dificuldades presumíveis que podem ser inventadas pelo diretor, conseguem uma mesa. Esperam duas horas por um garçom que já passou por eles no mínimo duzentas vezes e o diálogo se inicia).

ELE — O que é que você quer? Chope?

ELA — Por quê deveria querer chope? Pedir chope aqui é um tanto compulsivo. Você não pede chope por uma escolha livre: é uma compulsão. Coisa típica da neurose obsessiva. Você sabe muito bem que não é meu caso, querido.

ELE — Está bem. Você já passou duas horas com seu psicanalista, hoje. Será que não pode mudar de assunto?

ELA — Fique sabendo que o auto-conhecimento é o começo da cura. Depois, não tenho pressa em beber nada. Não sofro de nenhuma regressão à fase oral, como você.

ELE — Regressão a quê? Que diabo é isso? Não estou sentindo nada!

ELA — Está, sim. Está.

ELE — Claro que não.

ELA — Claro que está. Você é que não sabe.

ELE — Ué, não estou sentindo nada!

ELA — Pior. Muito pior. Não sente por causa de seus mecanismos de defesa. Você nunca ouviu falar de couraça caracterológica?

ELE — Nunca. O que é isso?

ELA — É uma pena.

ELE — Por quê?

ELA — Você está doente, meu amor. Muito doente.

ELE — (um tanto alarmado) Não!

ELA — (com firmeza) Doente, sim. Muito doente. Por que você não vai ao Dr. Hauser? Posso marcar hora para você, amanhã.

ELE — E quem é o Dr. Hauser?

ELA — Você está cansado de saber quem é o Dr. Hauser. Pergunta por causa de outro mecanismo de defesa. Seu caso está me parecendo mais grave do que eu pensava.

ELE — Está bem. Mas quem é ele.

ELA — Meu analista, é claro. Você vai gostar muito dele, querido. É um homem maravilhoso. Bonito, inteligente, culto, atlético, divino. Se eu já não estivesse no meu quinto ano de análise, poderia pensar até que é um semideus. Mas não. Já sei que é um ser humano como qualquer outro, sujeito aos mesmos erros e defeitos. Ele mesmo fez questão de deixar isso bem claro. Não é genial?

ELE — O que é genial?

ELA — Ora, o próprio Dr. Hauser dizer que é um ser humano. Só um homem divino diria isso.

ELE — Eu também reconheço que sou apenas um ser humano.

ELA — Mas você não é o Dr. Hauser. Não desanime nas primeiras sessões. suas resistências serão muito fortes, entende? Isso também aconteceu comigo, no começo. Mas o Dr. Hauser é um mestre no manejo da transferência e, depois de algum tempo, você vai sentir—se outra pessoa.

ELE — Mas eu não quero me sentir outra pessoa.

ELA — Coitadinho de você, meu bem. Num instante o Dr. Hauser vai convencer você de que você quer ser outra pessoa. Claro que quer.

ELE — Mas que outra pessoa, meu Deus?

ELA — Uma pessoa mais livre, mais independente. Sem essa dependência neurótica que você tem de mim, por exemplo.

ELE — (esmagado) E eu tenho dependência neurótica de você?

ELA — Claro. Qualquer pessoa com experiência de análise percebe isso logo de cara.

ELE — Você está quase me convencendo.

ELA — Tem uma fixação oral, também. E é um obsessivo-compulsivo típico. Já reparou essa mania por ordem e limpeza que você tem? Já? Aposto que não. Você não repara nada porque seu mecanismo repressivo tomou a forma da inversão. Você se acredita sadio quando está horrivelmente, miseravelmente, talvez até irrecuperavelmente doente.

ELE — (totalmente aterrado) Puxa! Acho que preciso beber alguma coisa. Posso pedir um chope?

ELA — Claro. Peça um para mim, também.


Luiz Carlos Maciel

Hora do lanche

Goiabada com rapa de queijo de manteiga

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador. 


Carlos Drummond
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

segunda-feira, 22 de maio de 2017


O Mote Flutuante no repente cubano

Poucas coisas são tão universais na poesia popular das Américas quanto o esquema de rima da décima. A boa e velha décima dos cantadores de viola nordestinos não é só deles. É de toda a América hispânica.
Já vi exemplos de canções no formato de décimas na poesia da Argentina, do Chile, do Peru, do Uruguai, de todo canto.
O exemplo que sempre cito é a canção “Volver a los 17”, gravada por Milton Nascimento e Mercedes Sosa.
Gravação original:
Para que fique bem claro: a décima que falo é a estrofe de dez versos onde o primeiro rima com o quarto e o quinto, o segundo com o terceiro, o sexto e o sétimo com o décimo, e o oitavo com o nono. Ou, de acordo com a notação tradicional, onde cada letra representa a posição de uma das rimas: A B B A A C C D D C.
É a décima do Século de Ouro da poesia espanhola (entre os séculos 16 e 17). É a mesma décima popularizada no Brasil por Gregório de Matos (1636-1696), o “Boca do Inferno” da Bahia.
Entre nós, a décima serve entre outras coisas para glosar motes, que são versos fornecidos pelo público. O mais comum é que o mote seja de 1 ou de 2 linhas, que irão constituir o final da décima (a linha 10 ou as linhas 9 e 10, respectivamente). Ou seja: o público sugere um final para a décima, e a gente faz os versos restantes, concluindo com o mote que o público forneceu.
Em Cuba os poetas chamam o mote de “pie forzado”, que quer dizer “pé forçado”, ou “pé obrigatório”. Tanto lá como aqui, “pé” é sinônimo de “linha”. Nossos cantadores cantam o “8 pés a quadrão” e o “10 pés a quadrão”, que são estrofes, respectivamente, de oito e de dez linhas.
“Pie forzado” = “linha obrigatória”. É o mote: a linha (ou linhas) que o público fornece, e que o cantador é forçado a incluir no seu improviso.
Vi recentemente uma menção a uma variante curiosa, algo que já tinha me ocorrido usar. Eles o chamam de “pie forzado móvil”, e que seria entre nós algo como “mote flutuante”, sem posição fixa, ou pelo menos, sem a mesma posição o tempo todo.
Suponhamos que o público dá um mote de uma linha: “nas quebradas do Sertão”. Ambos os contendores terão que incluir essa linha em suas décimas improvisadas, mas cada vez numa posição mais à frente.
O primeiro cantador usa o mote como a primeira linha, e diz:
Nas quebradas do sertão
eu vejo tanto vaqueiro
montar cavalo ligeiro
pra perseguir barbatão;
vejo vaqueiro e patrão
chorando a perda do gado
quando o poço está secado
pelo sol que tudo mata,
e a vida se torna ingrata
pro dono e pro empregado.
O segundo deve fazer sua décima colocando o “mote flutuante” na segunda linha:
Mas eu vejo a alegria
nas quebradas do Sertão
quando pipoca o trovão
por cima da serrania;
cai a chuva, quente ou fria,
mesmo assim abençoada
enquanto o “pai da coalhada”
estremece a serra inteira,
e o rio faz cachoeira
pela barranca inclinada.
O primeiro cantador, agora, tem que seguir a ordem e usar o mote flutuante como a terceira linha:
Todo tipo de paisagem
se vê, porque todos são,
nas quebradas do Sertão
essências da nossa imagem.
Nem ilusão nem miragem;
o Sertão tudo comporta
desde a Natureza morta
até a paisagem viva
e uma gente que é altiva
com a seca batendo à porta.
E assim por diante, até que a linha do mote tenha percorrido todas as dez posições, “descendo” ao longo da estrofe.
No saite do repentista Alexis Díaz Pimenta, colhi um depoimento datado de 2012 do qual destaco este trecho (“controversia”, entre os repentistas cubanos, é a nossa “peleja” ou “desafio”):
Normalmente, las competencias de repentismo en Cuba están organizadas en función de las controversias, la variante más conocida y popular de la improvisación poética de la isla. No obstante, en todas las competencias hay también pies forzados, esa modalidad en que el poeta está obligado a improvisar sus décimas y terminarlas con versos ajenos. Las controversias suelen tener una extensión de 10 ó 14 décimas (5 ó 7 décimas por repentista) y al final de cada controversia cada poeta canta 1 ó 2 pies forzados. Esas son las reglas generales. (…)
Tanto en el Primer como en el Segundo Campeonato Mundial de Pies Forzados una de las grandes sorpresas del evento, fue la controversia con pie forzado móvil, un tipo de controversia que, creemos, también llegó para quedarse. Expliquémosla.
Se selecciona un pie forzado “móvil” de la lista general. Una vez escogido el pie forzado, cada poeta debe improvisar una décima usando el pie en un verso distinto, en grado descendiente, del 1 al 10. Es decir, el poeta A utiliza el pie forzado en el verso 1; el poeta B, en el verso 2; el A, en el 3; el B en el 4; el A en el 5; el B, en el 6; el A en el 7; el B en el 8; el A en el 9; y el B en el 10.
El esquema de la controversia quedaría así:
Poeta A........pie forzado.......... verso 1
Poeta B …....pie forzado......... verso 2
Poeta A …....pie forzado..........verso 3
Poeta B........pie forzado..........verso 4
Poeta A …....pie forzado..........verso 5
Poeta B …....pie forzado..........verso 6
Poeta A …....pie forzado..........verso 7
Poeta B …....pie forzado..........verso 8
Poeta A …..pie forzado............verso 9
Poeta B …..pie forzado............verso 10
O “mote flutuante” poderia se constituir numa modalidade interessante, se não para a cantoria de viola, pelo menos para as “mesas de glosas” ou “rodas de glosas” que atualmente andam tão em voga no Sertão. O desafio podia ser feito entre dois improvisadores, com um usando o mote nas linhas 1, 3, 5, 7 e 9, e o outro, intercaladamente, nas linhas 2, 4, 6, 8 e 10.  Ou então poderíamos ter, quando há uma mesa com dez glosadores, o que não é raro, o mote passando de um em um e percorrendo a décima até o fim.
É um tipo de inovação que, para mim, está totalmente de acordo com o espírito da cantoria. Nossos motes variam desde o mote de uma linha apenas, no final, até duas linhas (a 9 e a 10) ou então, num modelo aliás muito usado no Rio Grande do Norte, o mote de duas linhas que aparecem nas posições 4 e 10.
O fato do mote se deslocar ao longo da estrofe requer um cuidado adicional: o mote tem que ser um tipo de frase que possa aparecer no começo, no meio e no fim de uma frase maior, para que os improvisadores possam incluí-lo no seu discurso sem forçar a barra. O exemplo que escolhi, “nas quebradas do sertão”, é isto: uma expressão sugestiva, meio que completa em si mesma, um segmento meio isolado, que não exige necessariamente um preâmbulo nem um complemento.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

Charge


Não te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.


Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


Pablo Neruda 

Papa Francisco considera inaceitável para um cristão apoiar a pena de morte

O Papa Francisco dirigiu um histórico discurso a uma delegação da Associação Internacional de Direito Penal, no qual condenou as execuções extrajudiciais e a pena de morte, medida usada inclusive por regimes totalitários para suprimir a dissidência e perseguir as minorias, e afirmou que o respeito à dignidade humana deve ser o limite a qualquer arbitrariedade e excesso por parte dos agentes do Estado.

No seu discurso o Santo Padre reafirmou a condenação absoluta da pena de morte, que para um cristão é inadmissível; assim como as chamadas “execuções extrajudiciais”, quer dizer, os homicídios cometidos deliberadamente por alguns estados ou seus agentes e apresentados como consequência indesejada do uso aceitável, necessário e proporcional da força para aplicar a lei.

Francisco assinalou que os argumentos contra a pena de morte são conhecidos. A Igreja –indicou-, mencionou alguns, como a possibilidade de erro judicial e o uso que lhe dão os regimes totalitários como “instrumento de supressão da dissidência política ou de perseguição das minorias religiosas ou culturais”.
Do mesmo modo, expressou-se contra a prisão perpétua por ser “uma pena de morte disfarçada”.

O Santo Padre também condenou a tortura e advertiu que a mesma doutrina penal tem uma importante responsabilidade nisto por ter permitido, em certos casos, a legitimação da tortura em determinadas condições, abrindo o caminho para abusos posteriores.

No seu discurso, Francisco também exortou os magistrados a adotarem instrumentos legais e políticos que não caiam na lógica do “bode expiatório”, condenando pessoas acusadas injustamente das desgraças que afetam uma comunidade.

Além disso, abordou a situação dos presidiários sem condenação e dos condenados sem julgamento. Assinalou que a prisão preventiva, quando usada de forma abusiva, constitui outra forma contemporânea de pena ilícita disfarçada.

Também se referiu às condições deploráveis dos penitenciários em boa parte do planeta. Disse que embora algumas vezes isso ocorra devido à carência de infraestruturas, muitas vezes são o resultado do “exercício arbitrário e desumano do poder sobre as pessoas privadas de liberdade”.

Francisco não esqueceu a aplicação de sanções penais às crianças e idosos condenando seu uso em ambos os casos. Além disso, condenou o tráfico de pessoas e a escravidão, “reconhecida como crime contra a humanidade e crime de guerra tanto pelo direito internacional como em tantas legislações nacionais”.

O Papa também se referiu à pobreza absoluta que sofrem um bilhão de pessoas e a corrupção. “A escandalosa concentração da riqueza global é possível por causa da conivência dos responsáveis pela coisa pública com os poderes fortes. A corrupção, é em si mesmo um processo de morte… e um mal maior que o pecado. Um mal que mais que perdoar é preciso curar”, advertiu.

“O cuidado na aplicação da pena deve ser o princípio que rege os sistemas penais… e o respeito da dignidade humana não só deve atuar como limite da arbitrariedade e dos excessos dos agentes do Estado, como também como critério de orientação para perseguir e reprimir as condutas que representam os ataques mais graves à dignidade e integridade da pessoa”, concluiu.

Fonte: Acidigital

domingo, 21 de maio de 2017

Confirmado elenco do House of Cards Brazil


Veja quem comeu e quanto comeu da JBS

Delação põe em xeque o atual presidente, os seus dois antecessores e os seus principais adversários na eleição presidencial

Os valores são astronômicos. Pelo menos R$ 500 milhões e de US$ 80 milhões a US$ 150 milhões foram distribuídos pela JBS a políticos, lobistas, advogados e agentes públicos, segundo os delatores do grupo. Dinheiro que, de acordo com eles, foi repassado a algumas das principais lideranças da política nacional, como o presidente Michel Temer, os ex-presidentes Lula e Dilma, o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e os últimos dois candidatos do PSDB à Presidência, os senadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).

Mas a lista dos beneficiários, conforme a delação, é muito maior: inclui governadores, ex-governadores, parlamentares, ministros, ex-ministros, jornalista, entre outras pessoas. Uma relação com 1.829 candidatos a cargos eletivos de 28 partidos, nas contas do diretor de Relações Institucionais do grupo, Ricardo Saud. Segundo ele, os repasses chegaram a R$ 600 milhões. “Tirando esses R$ 10 milhões, R$ 15 milhões aqui, o resto é tudo propina”, disse Saud.

Com isso, de acordo com o delator, a empresa ajudou a eleger 179 deputados estaduais, de 23 estados, e 167 deputados federais, de 19 partidos. “Demos propina para 28 senadores da República, sendo que alguns disputaram e perderam eleição para governador e alguns disputaram reeleição ou eleição para o Senado. E demos propina para 16 governadores eleitos, sendo 4 do PMDB, 4 do PSDB, 3 do PT, 2 do PSB, 1 do PP e 1 do PSD”, relatou.

O presidente do grupo, Joesley Batista, também afirma que boa parte do dinheiro repassado era propina disfarçada de doação política. “Dos R$ 500 milhões então, total, pode se considerar que, dos R$ 500 milhões, R$ 400 milhões foram contrapartida a ajustes ilícitos feitos pelos políticos. Naquela hora, pagamos”, disse o empresário.

Em depoimento em vídeo, Joesley relata como eram realizados os repasses: “Tem pagamento via oficial, caixa 1, via campanha política, tem via caixa 2, tem via dinheiro em espécie. Basicamente essa é a forma de pagar. Normalmente acontece o seguinte: se combina o ilícito, se combina o ato de corrupção com o político, com o dirigente do poder público, e daí pra frente se procede o pagamento. Os pagamentos são feitos das mais diversas maneiras. Seja nota fiscal fria, seja dinheiro, caixa 2, até mesmo doação política oficial”.

Com base nos documentos da delação premiada, o Congresso em Foco publica, abaixo, quem são as pessoas citadas, os valores repassadas e as contrapartidas envolvidas, na versão dos delatores.

- Michel Temer R$ 15 milhões

Pessoas citadas:

Paulo Skaf, Eduardo Cunha e Guido Mantega.

A contrapartida, segundo os delatores: o pagamento foi realizado em troca de atuação favorável aos interesses do grupo J&F.

- Michel Temer e o deputado Rodrigo Loures (PMDB-PR) 5% sobre lucro obtido com afastamento da Petrobras

Pessoas citadas: Wagner Rossi, Milton Ortolan, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco. Eduardo Cunha, Gilvandro Araújo, Roberta Funaro, Dante Funaro.

A contrapartida, segundo os delatores: a porcentagem foi combinada com base no lucro futuro obtido com o afastamento do monopólio da Petrobras no fornecimento de gás, bem como outros créditos em razão da atuação em benefício da J&F no que tange ao destravamento das compensações de crédito de PIS/Cofins com débitos do INSS. Uma parte, em valor total não especificado, foi pagamento de vantagem de forma lícita para Roberta Funaro, em 2017, em razão de um “mensalinho criado desde a prisão de operador Lúcio Funaro.

- Lula US$ 50 milhões *

- Dilma US$ 30 milhões *

A contrapartida, segundo os delatores: os pagamentos foram realizados por intermédio do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega em razão de esquema criminoso no BNDES e em fundos de pensão (Petros e Funcef) para beneficiar a JBS. No acordo de colaboração, o MPF relata que os pagamentos haviam sido de US$ 50 milhões para Lula e US$ 30 milhões para Dilma. Mas no depoimento, Joesley Batista, aponta cifras ainda mais altas: “Na fase do presidente Lula, chegou acho que nuns 80 milhões de dólares e depois, na Dilma, chegou nuns 70. Ou o contrário, 70 na do Lula e 80 na da Dilma”. Os valores foram pagos, conforme o delator, em uma conta no exterior. Em 2014, a conta tinha um saldo de cerca de US$ 150 milhões.

- Eduardo Cunha R$ 50 milhões (CEF) + R$ 20 milhões (Aprovação da desoneração) + R$ 30 milhões (em troca de apoio enquanto presidente da Câmara)

Lúcio Funaro – gerenciava as contas

A contrapartida, segundo os delatores: os pagamentos foram realizados por meio de um sistema de “conta-corrente”, gerenciado por Lúcio Funaro. Entre 2009 e 2014, o saldo era de cerca de R$ 50 milhões. Os valores repassados se referiam a questões relativas a financiamentos da Caixa Econômica Federal, bem como do FI-FGTS.

- Aécio Neves R$ 65 milhões

Pessoas citadas: Andréa Neves, Frederico Pacheco, Paulo Pereira, Luis Tibé, Aldemir Bendini.
A contrapartida, segundo os delatores: os valores são referentes ao pagamento de propina, em 2014, em torno de R$ 63 milhões ao senador Aécio Neves em troca de atuação favorável aos interesses do grupo J&F, dentre eles a liberação de crédito do ICMS. Outros R$ 2 milhões foram pagos já em 2017, em razão da aprovação da lei de abuso de autoridade e anistia ao caixa dois.

- Marcos Pereira – Ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços – Valor não especificado
Pagamento de propina em troca de aprovação de um empréstimo de R$ 2,7 bilhões junto à Caixa Econômica Federal em benefício da J&F

- João Bacelar - Deputado (PR-BA)- Valor não especificado

Pessoas citadas: Guido Mantega, Dilma Rousseff.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento de propina em troca da não convocação de Guido Mantega para depor na CPI do Carf.

- Marta Suplicy – Senadora (PMDB-SP) – R$ 4 milhões

Pessoas citadas: Antônio Palloci, Márcio Toledo.

A contrapartida, segundo os delatores: a senadora teria recebido R$ 1 milhão a pretexto de campanha eleitoral de 2010 e R$ 3 milhões em 2014 em troca de possíveis negócios caso a peemedebista vencesse a eleição para prefeitura de São Paulo.

- José Serra – Senador (PSDB-SP) – R$ 20 milhões

Pessoas citadas: Luiz Fernando Furquim.

A contrapartida, segundo os delatores: o senador teria recebido R$ 20 milhões, conforme diz o delator, a pretexto de campanha eleitoral, sendo que R$ 6 milhões foram realizados por meio notas frias à empresa LRC Eventos e Promoções, com a falsa venda de um camarote no Autódromo de Interlagos em São Paulo; R$ 420 mil para a empresa APPM Analista e Pesquisa, também em notas frias; R$ 13.580 em doações oficiais. A operacionalização dos pagamentos foi realizada por Furquim, já falecido, amigo de Serra.

- Antonio Palocci – R$ 320 milhões

Pessoas citadas: Dilma Rousseff, Paulo Ferreira, Brane.

A contrapartida, segundo os delatores: repasses realizado a pretexto da campanha eleitoral presidencial de Dilma Rousseff em 2010.

- Silval Barbosa (PMDB) – ex-governador do Mato Grosso – Valor não especificado

Pessoas citadas: Pedro Nadaf, Marcelo Souza de Cursi.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento de propina ao então governador do Mato Grosso em troca de benefícios fiscais à J&F.

- Cid Gomes – ex-governador do Ceará (PDT) – R$ 20 milhões

Pessoas citadas: Antonio Balhmann Cardoso Nunes, Arialdo Pinho, Francisco José Pinheiro, Camilo Sobreira Santana, Gelson Ferraz de Medeiros.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento feito em troca de liberação de créditos de ICMS em benefício da J&F.

- Reinaldo Azambuja e André Puccineli (atual e ex-governador de Mato Grosso do Sul) – R$ 150 milhões
Pessoas citadas: André Luiz Cance.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento realizado aos governadores de Mato Grosso do Sul, entre os anos de 2007 a 2016, em troca de benefícios fiscais.

- Fernando Pimentel (governador de Minas Gerais) – R$ 3,6 milhões

A contrapartida, segundo os delatores: o valor, de acordo com o empresário da JBS, foi repassado a Pimentel quando o petista era ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio por meio do Escritório Andrade, Antunes e Henrique Advogados, em Belo Horizonte.

- Raimundo Colombo (governador de Santa Catarina) – R$ 10 milhões

A contrapartida, segundo os delatores: repasse feito em troca de favorecimento na licitação da Companhia de Água e Esgoto de Santa Catarina

- Delcídio do Amaral (ex-senador) – R$ 5 milhões

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento de propina por conta da concessão de Tares (Termo de Acordo de Regime Especial).

- Eunício Oliveira (senador e atual presidente do Senado) – R$ 5 milhões

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento realizado em razão da medida provisória que disciplina créditos de PIS/Cofins por meio de doação oficial fora do período eleitoral.

- Sérgio Cabral (ex-governador do Rio de Janeiro) – R$ 40 milhões

Pessoas citadas: Julio Bueno, Hudson Braga.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento no montante de R$ 40 milhões, sendo que R$ 20 milhões foram realizados como doações oficiais ( R$ 5 milhões para o PMDB-RJ; R$ 1,660 milhão para o PMDB-RJ; R$ 900 mil para o PDT; R$ 1 milhão para o PMDB-RJ; R$ 1,440 milhão para o PMDB-RJ; R$ 2,5 milhão para o PMDB/RJ; R$ 5 milhão para o PMDB-RJ; e R$ 2,5 milhão para o PMDB-RJ). Os pagamentos foram feitos em momentos distintos. Além dos valores pagos, R$ 7,5 milhões foram pagos em espécie para Hudson Braga.

- Fábio Faria (deputado PSD-RN) e Robinson Faria (governador PSD-RN) - R$ 5 milhões

A contrapartida, segundo os delatores: o repasse, de acordo com delator da JBS, foi feito em troca da privatização da Companhia de Água e Esgoto do Estado do Rio Grande do Norte.

- Luiz Fernando Emediato (jornalista) – R$ 2.8 milhões

Pessoas citadas: Carlos Eduardo Petra Lopes.

A contrapartida, segundo os delatores: motivo não especificado.

- Marco Aurélio Carvalho – valor não especificado

Pessoas citadas: José Eduardo Cardozo.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento de vantagens indevida com o propósito de ter os pleitos da J&F favorecidos na área de atuação do Ministério da Justiça. Os pagamentos de deram através de um contrato fictício com escritório advocatício de Marco Aurélio.

- Pagamento de propina em Rondônia - valor não especificado

Pessoas citadas: Edgar Nilo Tonial.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento de propina a fiscais da Secretaria Estadual da Receita em Rondônia em troca de benefícios fiscais.

- Pagamento de propina para homologação de créditos tributários – R$ 160 milhões
Pessoas citadas: Antonio Miranda, David Mariano.

A contrapartida, segundo os delatores: pagamento em troca de agilização para homologação de créditos tributários.

- Gilberto Kassab (Ministro das Ciência, Tecnologia e Inovação) – valor não definido

A contrapartida, segundo os delatores: em 2009, a JBS deu continuidade ao contrato de aluguel de caminhões com sobpreço em torno de R$ 350 mil a cada mês, mediante notas fiscais. Propinas autorizadas por Mantega para o PSD no valor de R$ 7 milhões.

- Angelo Goulart (procurador do MPF) – Valor não especificado

Pessoas citadas: Willer Tomaz, Anselmo Cordeiro, Ricardo Leite.

A contrapartida, segundo os delatores: solicitação de vantagem indevida em contrapartida a beneficiar a J&F na operação Greenfield, bem como obstruir a celebração de acordo de colaboração premiada no âmbito da Operação Lava Jato.

- Crimes contra o sistema financeiro

Valor não definido – pessoas não citadas

A contrapartida, segundo os delatores: o Grupo J&F destinou entre 1% a 3% para pagamento lícito de comissões originadas das exportações de suas empresas. Para isso, foram constituídas as empresas offshores Lunsville e Valdarco, que recebiam sempre os valores destinados ao pagamento de comissões, e mantinham sempre um saldo disponível para ser usado por determinação de Joesley Batista para pagamentos de propina.

- Geração de pagamentos em espécie – valor não especificado.

Pessoas citadas: Michel Temer, Márcio Tolego, Marta Suplicy, Antonio Miranda, Davi Mariano, Roberta Funaro, Altair, Eduardo Cunha, Lucio Funaro, Ivanildo Baerts, João Baerts, Pedro Nadaf.

A contrapartida, segundo os delatores: relata diversas entregas de valores em espécie em decorrência de acertos espúrios.

- Repasses não contabilizados a partidos políticos – valor não especificado

Pessoas citadas: Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), Bruno Araújo (PSDB-PE), Beto Richa, Alceu Moreira, Gabriel Guimarães, Marcos Montes Cordeiro, Aelton freitas, Raimundo Gomes de Matos, Eduardo Sciara, Geddel Vieira Lima, Luiz Fernando Emediato, Paulo Ferreira, Zé Silva, Brizola Neto.
Segundo os delatores, o método de pagamento era sempre determinado pelo político, podendo consistir em doação oficial, pagamento de notas fiscais avulsas ou entrega de dinheiro em espécie; que os partidos e agentes políticos que receberam por meio de pagamento de notas fiscais avulsas ou entrega de dinheiro.

A contrapartida, segundo os delatores:

- Compra de partidos para formação de coligação em campanha presidencial de 2014 – Valor não especificado

Pessoas citadas: Guido Mantega, Vital do Rego, Michel Temer, Eduardo Cunha, Sergio Cabral, Eunício Oliveira, Aécio Neves, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Valdir Raupp, Henrique Eduardo Alves, Antonio Carlos, Ciro Nogueira, Carlos Luppi, Edinho Silva, Renato Rabello, Gilberto Kassab.

A contrapartida, segundo os delatores: os valores eram oriundos da conta corrente a partir de tratativas com Guido Mantega. Foram realizados diversos pagamentos a políticos e a partidos políticos, de forma a trazê-los para a coligação da qual o Partido dos Trabalhadores fazia parte nas eleições de 2014.

- Operações fraudulentas no Banco Rural – Valor não especificado

Pessoas citadas: Guido Mantega, José Roberto Salgado.

Joesley Batista relata a prática do crime de empréstimo vedado, previsto no artigo 17 da lei 7.492/86, versando sobre operação conhecida como “troca de chumbo”

- Lúcio Funaro R$ 11 milhões

Pessoas citadas: Evaldo Ulinsky.

A contrapartida, segundo os delatores:Repasse realizado por uma intermediação de venda da empresa Jandelle/Big Frango

- Cláudio Humberto (jornalista) R$ 18 mil mensais, pagos por 24 meses.

A contrapartida, segundo os delatores: o colaborador Ricardo Saud diz ter sido chantageado pelo jornalista para que deixasse de fazer publicações relativas a ele. Cita caso de notícias que o associaria como sendo o “homem da mala” do grupo J&F.

Fonte aqui


Me alugo para sonhar

Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.

Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.

Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.

Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:

— Eu me alugo para sonhar.

Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.

— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.

A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.

Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: "Sonho". Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.

Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.

Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.

— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.

Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.

Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.

Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:

— Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.

Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.

Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.

— Só a poesia é clarividente — disse.

Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.

Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. "Você continua o atrevido de sempre", disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.

— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.

Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.

— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.

Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.

— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.

Matilde quis que ele contasse o sonho.

— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.

— Isso é coisa de Borges — comentei.

Ele me olhou desencantado.

— Está escrito?

— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.

Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.

— Sonhei com o poeta — nos disse.

Assombrado, pedi que me contasse o sonho.

— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.

— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.

Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. "O senhor não imagina como ela era extraordinária", me disse. "O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela". E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.

— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?

— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.


Gabriel García Márquez