domingo, 31 de julho de 2016


Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
 Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: 
quer-se absorver a outra pessoa toda. 
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira 
é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida".
 
Clarice Lispector

Conselho a um jovem médico

Dr. Rafael Holanda é natural de Cajazeiras e médico neurocirurgião em Campina Grande-PB

"Conquistar não é suficiente. É preciso saber seduzir."

Voltaire

Coloque a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores; não receies corrigir teus erros.


Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!


Mário Quintana
Fonte  aqui

A donzela Arabela (O amanuense Belmiro)

Aconteceu-me ontem uma coisa realmente extraordinária. Não tendo conseguido conter-me em casa, desci para a Avenida, segundo habito antigo. Já ela estava repleta de carnavalescos, que aproveitavam, como podiam, sua terceira noite.

Pus-me a examinar colombinas fáceis, do lado da Praça Sete, quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. Procurei desvencilhar-me, como pude, mas a onda humana vinha imensa, crescendo em torno de mim, por trás, pela frente e pelos flancos. Entreguei-me, então, aquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Respondi-lhe que, em rapaz, consumi a garganta em serenatas e que esta, já agora, não ajudava. Imagino a figura que fiz, de colarinho alto e pince-nez, no meio daquela roda alegre, pois os foliões e engraçaram comigo, e fui, por momentos, o atrativo do cordão. Tanto fizeram que, sem perceber o disparate, me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas.

Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. Deram-me uma corrida e, depois de me terem atirado confete à boca, abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. Novo cordão levou-me, porém, para outro lado, e, nesse vaivém, fui arrastado pelos acontecimentos. Um jato de perfume me atingia às vezes. Procurava, com os olhos gratos, a origem dessa caricia, mas percebia, desanimado, que aquele jato resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. Contudo, aquelas migalhas me consolaram e comoviam. Dêem-me um jato de éter perdido no espaço e construirei um reino. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo, que a livrou dos braços de um marinheiro.

Bebendo aqui, bebendo ali, acabei presa de grande excitação, correndo atrás de choros, de blocos e cordões. Não sei como, envolvido em que grupo, entrei no salão de um clube, acompanhando a massa na sua liturgia pagã.

Lembra-me que homens e mulheres, a um de fundo, mãos postas nos quadris do que ia à frente, dançavam, encadeados, e entoavam os coros que descem do Morro.

Toadas tristes, que vêm da carne.

A certo momento, alguém enlaçou o braço, cantando: “Segura, meu bem, segura na mão, não deixes partir o cordão...” O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Foi uma visão extraordinária. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela, a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda, contava-se história da casta Arabela, que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias.

Efeito da excitação de espírito me que me achava, ou de qualquer outra perturbação, senti-me fora do tempo e do espaço, e meus olhos só percebiam a doce visão. Era ela, Arabela. Como estava bela! A música lasciva se tornou distante, e as vozes dos homens chegavam a mim, lentas e desconexas. Em meio dos corpos exaustos, a incorpórea e casta Arabela. Parecia que eu me comunicava com Deus e que um anjo descera sobre mim. Meu corpo se desfazia em harmonias, e alegre música de pássaros se produzira no ar. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que, em um momento impossível de localizar, no tempo e no espaço, a mão me fugiu. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão, pisado e machucado, e me pôs num canapé onde, já sol alto, fui dar acordo de mim.

O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombarias do Belmiro sofisticado e faz crescer, desmesuradamente, em mim, um Belmiro patético e obscuro. Mas viviam os mitos, que são o pão dos homens.

Nesta noite de quarta-feira de cinzas, chuvosa e reflexiva, bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas, e o homem procura a infância, numa comovente pesquisa das remotas origens do ser.

Há muito que ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade — descendo de novo cautelosamente, a margem do caminho, o véu que cobre a face real das coisas e que foi, aqui e ali, descerrado por mão imprudente — parece-me a única estrada possível. Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo.

Cyro Versiani dos Anjos

sábado, 30 de julho de 2016

Frase

Quando uma mulher pega o homem com outra mulher na cama e pega uma calcinha dela lá, ela fica enfurecida, ela diz até que ele é gay, que é bandido, assassino, ladrão, diz tudo. Depois, quando a vidinha dela fica resolvida (...), ela mesma acaba com essa injustiça.

Deputada Cidinha Campos, vice de Pedro Paulo, candidato do PMDB a prefeito do Rio, acusado de ter espancado a ex-mulher

Do Blog do Noblat
Fonte aqui

Um exercício diário de sensibilidade

Sobre a crônica.

“Coração e cabeça de leitores batem forte e vibram encantados, ao longo das (quase sempre breves) linhas da crônica: textos curtos, que contam histórias, comentam acontecimentos, viajam por lugares distantes, inventam situações, dão voz a personagens de quem raramente se ouve a voz.”
        [...]

        “[...] Como crônica não é nem tese universitária nem artigo de opinião, as discussões vêm de leve e deixam o leitor pensativo: o que é que cada um acha?”

        [...]
        “No mesmo ônibus, viaja a cronista. E, ao longo de seu trajeto, vai atribuindo sentidos ao que vê a seu redor. Isto é, vai interpretando comportamentos. Registrando cenas. Imaginando o que há no antes e no depois da viagem de ônibus na vida dos outros passageiros.”

        [...]
        “Do que, afinal, são feitas as crônicas? De episódios que aconteceram de verdade (‘Até que a tesoura nos separe’)? De experiências individuais? Ou será que o texto tece uma metáfora maior?

       “A imagem do ônibus em trânsito, seus passageiros e a cronista entre eles bem pode ser uma representação do gênero crônica, no interior do qual Marina — como os antigos cronistas portugueses — põe em crônica um pouco da vida de todos nós, passageiros de um ônibus, em cujo percurso a cronista vai assinalando paisagens. As dela e, nas dela, as nossas...”

Marisa Lajolo

(LAJOLO, Marisa. Um exercício diário de sensibilidade. In: COLASANTI, Marina. Melhores crônicas: Marina Colasanti; org. Marisa Lajolo. São Paulo: Global, 1. ed., 2016, pp. 7, 12, 14-5, coleção “Melhores Crônicas”.)

Enviado pelo amigo e colaborador Adauto Neto

O mundo só faz sentido se você fizer sentido

Batman

Cláudio Nucci


Poesia e imobilidade






Ilustração: Bruno Schier



Puro espanto, misturado ao sentimento nobre da ignorância: eis o que desperta em mim a leitura dos Poemas, de Paul Bowles, selecionados e traduzidos por José Agostinho Baptista para a editora portuguesa Assírio & Alvim. Ao ler Bowles, torno-me um aventureiro: não sei para onde vou, não sei o que busco, nada sei a meu respeito. Atordoado, tropeço em um dos poemas: Viagem ao Egito. Também eu, há quase vinte anos, estive no Egito, país que, naquela época, me pareceu absolutamente incompreensível. O que dizer do Egito de hoje? O que dizer do Egito de 1929, quando Bowles escreveu seu poema?


Persigo seus versos, guiado pela pura emoção, pelo puro instinto — tento seguir os conselhos de Manoel de Barros, quando ele escreve: “Nosso conhecimento não era de estudar em livros./ Era de pegar, de apalpar, de ouvir e de outros sentidos./ Seria um saber primordial?”. Os versos de Manoel estão em Menino do mato, livro de 2010. Pois é justamente essa leitura primitiva que ele propõe, feita de maneira um tanto irracional, que os poemas de Bowles nos pedem. Exigem, para ser mais exato. Poesia construída, antes de tudo, apesar de imagens cruas, por súbitos clarões. Por ilusões. Pura miragem — ao ler, atravessamos um deserto.


Não há outra maneira de ler os poemas de Paul Bowles senão aferrar-se às palavras como se elas fossem paisagens, ou objetos largados sobre uma mesa, à nossa espera, à nossa disposição. Acreditar nos impulsos que as palavras detonam. Aceitar os cenários turvos, mas sedutores, que elas descortinam. Começa Bowles: “Fazer o que quisermos,/ fazer o que é preciso;/ assim falam os egípcios”. Aceitar o que o instinto nos pede, seguir nosso caminho, sugerem os egípcios de Bowles, sem nos preocupar com as causas, os efeitos, as consequências de nossos atos. Ler livremente. Mas, a rigor, quem alcança de fato tal liberdade?


Seguir nosso desejo, enfim. E de que outra coisa, senão do desejo, é feita a poesia? Sem ele, o desejo, a escrita se torna mera missão automática, se transforma em uma simples transcrição de raciocínios e de argumentos. Não devemos nos preocupar com aquilo que não nos compete: “E se a esfera roda sozinha/ não é por ordem sua”, Bowles alerta. Aceitar o que é, mesmo que seja incompreensível. Aceitar que a paisagem está sempre cortada por tiras escuras, que a embotam e encobrem. Diz o poeta: “E incessantemente os raios negros/ desciam do sol,/ os raios finos e negros”. Não há como nos desviar. É preciso suportá-los e viver a partir disso. Raios negros, Bowles poeta nos ensina, também desenham a existência. Servem para realçar a luminosidade da vida. Por contraste, vivemos.

“Não me incomodei, suplico-vos, Monsenhor/ No Egito fazemos o que queremos”. Aprender a ser o que se é, e partir disso construir a poesia e a vida também. Aceitar certa imobilidade enervante que caracteriza o humano — como em algumas páginas antes, em um poema simplesmente batizado Poema, do mesmo ano de 1929, Paul Bowles nos adverte. A imobilidade fala, outra vez, da aceitação da ignorância. Daquilo que não se pode penetrar — que não se deve penetrar, ainda que isso fosse possível. Espécie de imensa parede que nos detém e nos desenha. O céu que nos protege — de que Bowles nos fala em seu célebre romance.


“As coisas permanecerão assim para/ Sempre. Nada/ se despedaçará.” É preciso acostumar-se, e partir do que se tem para, enfim, escrever. Para enfim ser. “Nada/ Escapará e nenhum/ Corpo destruirá as ideias e nenhum/ Ser será destruído”. Afastando-me momentaneamente dos poemas, entrego-me aqui, um pouco, à divagação. Na edição de maio da revista Continente, do Recife, leio uma entrevista do artista pernambucano Francisco Brennand que me ajuda a pensar. Depois de visitar o ateliê de Nise da Silveira, no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio, lugar sagrado em que arte e existência se devoram, Brennand reconhece: “Tudo aquilo em que eu acreditava como indispensável à formação de um artista não representava absolutamente nada diante dos insondáveis mistérios do inconsciente”. A arte (a poesia) vem de outro lugar. Podemos acumular saber, devorar livros, escalar teorias. Podemos projetar, prever, arquitetar, dominar. Na hora da poesia, nada disso nos serve. Nada mesmo.


As formações do inconsciente se caracterizam justamente pela ausência de forma. O inconsciente não sincroniza com nosso tempo lógico — há uma imobilidade que o constitui. Tudo isso não só deve ser incorporado quando nos defrontamos com a arte (Brennand), mas também quando fazemos arte (poesia). Continua Bowles em seu poema: “Tudo continuará assim para sempre. Nenhuma/ Coisa se transformará nem se moverá”. É diante dessa inércia que caracteriza o real, que o define, que o poeta trabalha. É diante dela que Paul Bowles escreve seus versos. Poemas de puro espanto — susto não só do poeta, mas também de seu leitor. Sentimento atroz que os liga talvez para sempre.


Versos que pedem leitores dispostos apenas a ver — ou, como nos diz Manoel de Barros, a “desver”. Isto é: a ver a mesma coisa como se fosse outra. Ainda é a coisa que está ali. Ainda é ela que permanece imóvel a nos desafiar com sua presença inevitável. Aos leitores de poesia, resta deixar-se invadir pela força bruta das imagens. Por seu poder devastador. Por sua força de convicção. Só assim não decoramos o poema com nossos pensamentos e com nossos preconceitos. Só assim estamos, de fato, diante da poesia. Não há outra maneira de ler, ao não ser permitir que a palavra nos invada e nos dobre, que ela nos submeta. Aceitar essa submissão — eis a leitura plena.


Grandes poetas — Paul Bowles — têm o poder de fundar mundos inexistentes. Têm o poder de nos arrastar para perspectivas e mirantes onde nunca pisamos. Em nosso mundo banal, cheio de arrogância e de futilidade, dominado por pequenos poderes devastadores, a poesia surge para perfurar o insuportável. Ela nos coloca diante da claridade do real. Uma cortina despenca. Uma janela se abre abruptamente. A luz devassa nossos olhos. É o real que se apresenta, enfim, diante de nós.


JOSÉ CASTELLO


É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros. Vive em Curitiba (PR).


A arte de inventar regras

Escrevi aqui, alguns dias atrás, sobre a chamada “poesia marginal”, movimento que no meu entender trouxe uma influência altamente positiva para as nossas letras.

No que me diz respeito como leitor e autor, a poesia marginal trouxe leveza, coloquialismo, humor e irreverência jovem para a poesia, no campo da temática. No campo da técnica, trouxe a fala das ruas para a página impressa, e devia haver um Prêmio Nobel de Literatura de 5 em 5 anos para quem pratica essa façanha, tão difícil quanto levar a Pirâmide de Quéops do Cairo para Paris.

Dito isto, parece até que sou partidário da extinção de elementos como métrica, rima, estrofe, forma fixa. Nada disso.

O verso livre (sem métrica obrigatória) e o verso branco (sem rima) não vieram para substituir os outros, e sim para serem opções a mais.  Uma nova forma de escrever, quando surge, não pretende extinguir as formas anteriores; e, aliás, não consegue.  São as formas que se extinguem a si próprias, quando deixam de ser úteis para quem escreve.  Rima e métrica (acho eu) continuam tão úteis hoje quanto eram há 200 anos ou dois mil anos.

Minha formação pessoal em matéria de poesia são duas escolas extremamente rígidas e exigentes: o Soneto e o Cordel. Perto dessas duas, a poesia aparentemente rigorosa de João Cabral de Melo Neto (por exemplo) é um carnaval de descontração. Daí que quando a “poesia marginal” pipocou por todos os lados, recuperando certas atitudes e certos processos verbais do Modernismo de 1922, isso foi uma água de coco na boca de quem, como eu, estava acostumado ao café-espresso da forma fixa.

Rima e métrica funcionam como algo que não tem (ao que eu saiba) uma palavra específica em português, mas que podemos definir como “restrições voluntárias” ou “regras arbitrárias auto-impostas”.  Em francês há o termo “contrainte” (pronuncia-se “contrant”) e em inglês o equivalente “constraint” (“constréint”). 

Para que serve isto?  Bem, muitas vezes um excesso de liberdade desorienta o artista (principalmente o iniciante), e algum tipo de restrição o ajuda a focalizar sua imaginação. A aparente dificuldade ajuda o poeta (o artista em geral) a concentrar qualidades que um excesso de conforto deixaria dispersas.

É isto que acontece quando estabelecemos que todas as linhas pares de um poema têm que terminar com os mesmos sons.  Ou que cada verso tem que ter um número fixo de sílabas.  Ou que todas as estrofes tem que ter o mesmo número de linhas, arrumadas da mesma maneira.  O poeta principiante, que pensa somente nas próprias emoções e nas próprias idéias, acha que isto é algo feito para prejudicar sua auto-expressão. Mas não é.

A luta do poeta com essas restrições auto-impostas é como a luta de um atleta com o levantamento de pesos numa academia: pra que fazer todo esse esforço, que não serve para nada?  A resposta é: serve para desenvolver os músculos do atleta. Quando falamos de poesia (e suas restrições: rima, métrica, etc.) esse esforço que parece desnecessário é para tornar o poeta mais hábil.  Fazê-lo explorar os limites do seu vocabulário – e do seu bom-senso, porque não basta encontrar uma palavra que rime com outra, é preciso que esta palavra dê a impressão de que entrou ali pelo seu sentido, e não pelo seu som. 

Do mesmo modo, o esforço para encaixar as idéias num metro, num ritmo, numa cadência, faz com que o poeta apure seu senso de ritmo, sua percepção de sutilezas.  Ele se torna capaz de produzir uma poesia mais leve, mais flexível, mais fluente, que não dê aquela impressão que nos dão os poemas mal feitos: a de uma coisa involuntariamente desconjuntada, sem jeito, cheia de solavancos. 

Num livro fundamental sobre tradução literária e linguagem, Le Ton Beau de Marot (Basic Books, 1997), Douglas R. Hofstadter diz: 

“Se você seleciona com habilidade o material de que vai precisar a fim de satisfazer as regras e restrições que você se impôs, vai dar a impressão de que está controlando o seu meio de expressão, em vez de estar sendo controlado por ele.  É um pouco o que ocorre com as grandes patinadoras no gelo.   A patinadora se identifica a tal ponto com as restrições e impossibilidades no seu trabalho que na hora da apresentação os seus movimentos dão a idéia de que ela está mostrando ao gelo ‘quem é que manda ali’ – quando na verdade sabemos que é o contrário.  A verdade é que, ao longo dos anos, quem manda ali é o gelo, até que o gelo a treinou tão bem que ela agora sabe o que deve evitar, e sabe o que fazer a fim de dar a uma platéia de pessoas leigas a impressão de que ela ‘faz ali o que bem entende’.  É preciso um longo aprendizado, dentro de um conjunto de regras e restrições, para que possa vir a ocorrer essa aparente inversão de comando”.

O poeta Tom Lehrer disse a Hofstadter: “Parece aos outros uma grande habilidade do poeta, mas ele apenas foi forçado a regiões inesperadas do espaço semântico (ou seja, o espaço de todas as idéias possíveis) por causa da rima, que é uma restrição auto-imposta”.  Em outras palavras, Lehrer diz que acaba pensando em imagens que jamais lhe ocorreriam se ele não tivesse a obrigação de rimar as linhas umas com as outras. 

Robert McKee, em seu manual Story – Substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro (Arte e Letra, 2006), diz o mesmo das aparentes limitações dos gêneros cinematográficos, e escolhe a poesia para dar um bom exemplo:

“Robert Frost disse que escrever verso livre é como jogar tênis sem a rede, porque quem mais estimula a imaginação são as convenções poéticas, que não passam de restrições artificiais e auto-impostas.  Digamos que um poeta decide escrever estrofes de seis linhas, rimando as linhas pares.  Depois de escrever a quarta linha, que já rimou com a segunda, ele se vê meio encurralado.  Precisa rimar a sexta linha com a segunda e a quarta, e o esforço para fazer isto talvez o inspire a imaginar uma palavra que não tem qualquer relação com o seu poema – ela apenas rima – mas essa palavra aleatória acaba gerando uma frase que produz uma imagem mental vívida, uma imagem que repercute nas cinco linhas anteriores, produzindo um novo significado, um novo sentimento, mudando o rumo do poema e lhe trazendo mais sentido, mais emoção.  Graças a essa limitação auto-imposta, o poema acaba alcançando uma intensidade que nunca teria atingido se ele pudesse usar qualquer palavra que lhe conviesse.  (...) O princípio da Limitação Criativa produz liberdade dentro de um círculo de obstáculos”. 

Cada poeta recomeça a poesia do Grau Zero. Cada poeta tem pelo menos uns cinco mil anos de experiências alheias para usar como lhe der na telha. Se ele não gosta de linguagem descontraída e de poemas-piadas, tudo bem, ninguém o está obrigando a escrever assim. Se não gosta de odes pindáricas ou de epigramas, tudo bem, não precisa escrever. Eu não escrevo sextilhas por que alguém me obriga, e sim porque acho a forma bonita, domino meia dúzia de truques relativos a ela, e ela me serve muitíssimo bem para produzir pequenos impactos poéticos no leitor.

O poema é seu. A regra é sua, a ausência de regras (se é disso que você gosta) também. A tradição existe como música inspiradora, não como obrigação. (A “poesia marginal” também já é uma tradição, entre tantas outras.)

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo