domingo, 31 de março de 2013

Costumes


Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.
 

A dor do enlouquecimento pulsional

Assim como se acredita, erradamente, que a sensação dolorosa causada por um ferimento no braço se localiza no braço, também se acredita, erroneamente, que a dor psíquica se deva à perda da pessoa do ser amado. Como se fosse a sua ausência que doesse.

Ora, não é a ausência do outro que dói, são os efeitos em mim dessa ausência. Não sofro com o desaparecimento do outro. Sofro porque a força do meu desejo fica privada de uma de suas fontes, que era o corpo do amado; porque o ritmo simbólico dessa força fica quebrado com o desaparecimento do compasso que os estímulos provenientes daquele corpo escandiam; e depois porque o espelho psíquico que refletia as minhas imagens desmoronou, por falta do apoio vivo em que sua presença se transformara.

A lesão que provoca a dor psíquica não é pois o desaparecimento físico do ser amado, mas o transtorno interno gerado pela desarticulação da fantasia do ser amado.

In
J.- D. Nasio. A Dor de Amar - Rio de Janeiro: Zahar, 2007
(excerto do capítulo)

Aramaico

Amar é arte:
Equilibrar-se
No arame arcaico.

aly. Opera Minima: Fonografias

Hora do recreio

 
Prefeitinho ordinário

O prefeito de uma cidadezinha do Rio Grande do Sul foi à Nova Iorque, a convite de alguns amigos influentes e, ao descer do avião, deparou-se com algumas faixas que diziam: "Wellcome Alencar".
O prefeito não gostou da atitude dos americanos:
- Esses caras devem estar pensando que eu sou veado!
Então, para mostrar que eles estavam enganados, o prefeito convidou-os para vir até a sua cidade. Lá chegando, eles encontraram faixas por todos os lados, com os seguintes dizeres: "Alencar come Well".

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Assim que nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos.
 

Norah Jones


Indústria da seca agrava pior estiagem em 50 anos

Foto: Hans Manteuffel / O Globo

Ao sair de casa, na última terça-feira, para visitar uma filha no centro da cidade sertaneja de Floresta, a 439 quilômetros de Recife, Manoel Afonso dos Santos, de 82 anos, delegou uma triste tarefa à mulher, Maria Fátima Alves Laurentino, de 46: deixar com fome o cavalo Canário por um dia, para que não faltasse ração aos bois Sereno e Mineiro e ao bezerro Boa Vista.
 
Morando em uma casa de taipa, sem direito a água nem colheita, ele adotou esses rodízio para administrar os seis hectares do sítio Riacho do Ouro, onde, ao longo dos últimos doze meses, viu sumir o patrimônio de uma vida, na pior seca em meio século. Assistiu à morte de 31 bichos e vendeu cinco outros, “a preço de banana” para garantir o sustento dos que sobreviveram.
 
 
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Letícia Lins, O Globo


sexta-feira, 29 de março de 2013

Porque ele vive!!!


Também por nós foi crucificado...

Na Semana Santa do Ano da Fé somos convidados a confrontar-nos com os vários “Mistérios da Fé” celebrados nesses dias abençoados. Pensando bem, boa parte da nossa Profissão de Fé (Credo) está relacionada estreitamente com as celebrações da Semana Santa e da Páscoa. É um motivo a mais para que a vivamos intensamente, deixando-nos envolver por Deus, que veio ao nosso encontro de maneira tão misericordiosa salvadora.

Em nossa fé cristã católica professamos que Deus enviou ao mundo seu único Filho, Jesus Cristo para nos salvar. Em tudo, o Filho assumiu a nossa condição humana, menos no pecado; São Paulo bem recorda que o pecado nunca dominou sobre Ele. Salvar, significa dar sentido pleno à nossa existência e a participação na felicidade completa; isso somente Deus pode nos dar. O Filho, feito homem, acolheu a todos nós em sua santa humanidade, mostrou a luz de Deus para que possamos viver iluminados pela verdade e ele mesmo se fez para nós o caminho, a verdade e a vida.

Poderia Deus realizar o seu desígnio a nosso respeito – de vida plena para todos – sem que o Filho passasse pela contradição da condição humana, o sofrimento e a morte, como experimentam todos os descendentes de Adão e aqueles que procuram nesta vida ser fiéis a Deus? Queria Deus Pai o sofrimento de seu Filho? Este é um grande mistério e não cabem aqui respostas fáceis e superficiais. Mas é certo que Deus não quer o sofrimento para ninguém, muito menos o quis para seu amado Filho.

O fato é que Jesus Cristo, na sua condição humana, permaneceu fiel a Deus e à sua missão, não obstante as ameaças e perseguições. E Deus Pai aceitou esta radical “obediência” de Cristo: “obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Nessa total fidelidade a Deus, Ele nos deu o exemplo, para que sigamos os seus passos e permaneçamos fieis a Deus sempre; nada deve ser colocado acima dessa total fidelidade a Deus. Ao meu ver, o mistério da cruz de Cristo só se explica pela sua total comunhão com Deus Pai, que teria sido rompida se Jesus entrasse no jogo das conveniências humanas ou do medo. Ele não seguiu o “politicamente correto” para salvar a própria pele. Muitíssimos, a seu exemplo, também enfrentaram todo tipo de desprezo e discriminação por causa da “verdade”. Tantos morreram mártires, como o próprio Jesus.

Nossa fé católica em Jesus Cristo não nos permite escolher apenas algum aspecto de sua pessoa ou de seu ensinamento, que mais nos agrade. E a Igreja está no mundo para testemunhar a fé completa sobre Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. É a fé pascal em Cristo ressuscitado, que triunfou sobre o pecado, o ódio e a morte; somos as testemunhas de sua ressurreição e isso constitui um ousadíssimo aspecto de nossa profissão de fé.

Mas isso não nos pode levar a esquecer a cruz de Cristo. É uma tentação insidiosa, apresentar ao mundo apenas o Cristo glorioso, sem referência ao Cristo crucificado. A tendência humana de fugir da cruz pode levar à busca de uma religião fácil e “politicamente correta”, onde só há “vantagens” e nenhuma escolha difícil ou renúncia. Jesus não ensinou um Cristianismo sem necessidade de conversão, sem cruz, sem colocar o reino de Deus como centro de referência para a vida do homem e do mundo. O seu caminho para a vida plena e para a participação na glória de Deus passa pela cruz.

O papa Francisco, na sua primeira missa com o colégio Cardinalício no dia 14 de março, ainda na Capela Sistina, observou que a Igreja, deixando de lado Jesus Cristo crucificado, tornar-se-ia apenas uma “ONG piedosa”... Falando aos jovens, no Domingo de Ramos, convidou-os a tomarem, com ele, o caminho para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro e encorajou-os a não terem vergonha da cruz de Cristo e a abraçarem com coragem a própria cruz, no seguimento de Cristo.

Quando professamos nossa fé, lembremos sempre que a graça de nossa “liberdade de filhos de Deus” custou “um preço muito alto” (cf 1Cor 6,20): nada menos que o sofrimento, o sangue derramado e a morte do Filho de Deus feito homem! Celebrando a Páscoa, agradeçamos por tão grande presente! E em tudo sejamos fiéis a Deus também nós, como foi nosso Salvador.
 
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

quinta-feira, 28 de março de 2013

Chocolate amargo pode até emagrecer, diz pesquisa

Vedete de pesquisas científicas recentes, o chocolate, além de tudo, é agora um possível aliado na luta para a perda de peso, conforme um estudo feito pela Universidade da Califórnia.

O trabalho, publicado na revista americana "Archives of Internal Medicine", analisou os hábitos alimentares de 972 pessoas entre 20 e 85 anos sem doenças cardiovasculares, diabetes ou colesterol.

Entre os voluntários, aqueles que relataram comer chocolate mais vezes, mesmo mantendo no cardápio uma quantidade maior de gordura saturada e calorias, foram os que tiveram menor IMC (índice de massa corporal). O benefício atribuído ao alimento foi identificado até entre os participantes que não praticavam atividades físicas.

O trabalho não investigou como isso acontece. Porém, há algumas hipóteses.

Beatrice Golomb, autora do estudo, afirmou a jornais americanos que os ácidos fenólicos presentes no cacau, como os flavonoides, ajudam a equilibrar a produção do hormônio leptina, que se comunica com o hipotálamo, no cérebro, aumentando a sensação de saciedade e acelerando a queima calórica.

Outro estudo, da Universidade Real de Copenhague, avaliou o apetite de 16 jovens saudáveis antes e depois da ingestão 100 g de chocolate amargo ou ao leite.

"Sempre que comiam o chocolate amargo, os participantes sentiam menos fome e consumiam menos alimentos", afirmou à Folha a pesquisadora Lone Sorensen, coordenadora da pesquisa.

A ingestão de calorias pós-chocolate amargo foi 15% menor em comparação com consumo pós-chocolate ao leite. Para ela, uma explicação é o alto teor de manteiga de cacau no produto, que significa mais ácido esteárico (tipo de ácido graxo). A substância retarda o esvaziamento do estômago e do intestino.

Controle do apetite

O chocolate ganhou status de alimento funcional por causa dos flavonoides presentes nas sementes do cacau. Essas substâncias têm poder antioxidante, melhoram a circulação e o funcionamento das células cardíacas, explica a nutricionista Milene Pufal, da PUC-RS.

Para conseguir esses benefícios, quanto mais cacau, melhor, por isso a indicação do tipo amargo.

Depois de estudar 16 pesquisas científicas sobre o assunto, a nutricionista Vanderli Marchiori passou a indicar o chocolate com alto teor de cacau a pacientes que precisam controlar o apetite. Ela recomenda de 20 a 40 gramas ao dia para qualquer dieta, como arma para diminuir a vontade de comer doce.

Marchiori explica que o equilíbrio do hormônio leptina ativa os receptores opioides, localizados no sistema límbico (parte do cérebro responsável pelas emoções). Esses receptores reduzem a compulsão alimentar. "Eles diminuem as chances de recaída entre pessoas viciadas em açúcar."

Faltam estudos

Mais cauteloso, o endocrinologista Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que são necessárias mais evidências para associar chocolate e redução de peso.

"Há apenas um estudo em ratos mostrando que os polifenois do cacau promovem uma redução de massa, diminuindo o armazenamento de gordura por maior gasto de energia celular."

Para quem deseja emagrecer, Sorensen lembra que, amargo ou não, o chocolate é rico em energia. "São até 500 calorias para cada 100 gramas. Não é para comer grandes quantidades. Mas é uma ótima ideia trocar a versão ao leite pelo chocolate amargo, porque ele satisfaz o desejo de doces por um longo tempo", diz ela.

A pesquisadora Adriana Buitrago Lopez, do Departamento de Cardiologia da Universidade de Roterdã, na Holanda, afirma que o consumo de grandes quantidades de chocolate pode anular seus benefícios. "Leva ao ganho de peso, o que aumenta o risco cardíaco", alerta.

Lopez participou de um estudo que envolveu cem mil pessoas e avaliou o efeito da ingestão de chocolate sobre a incidência de ataques cardíacos e derrames (leia mais no quadro ao lado).

Problema de sabor

Além das calorias, outro porém do chocolate amargo é o sabor. "Muitos consumidores ainda não estão adaptados", diz Cynthia Ditchfield, engenheira química e professora da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP.

Ela e outras professoras estudam, desde 2009, uma maneira de deixar o chocolate com alto teor de cacau (acima de 50%) menos amargo.

A pesquisa aborda as variedades de cacau utilizadas, a microbiologia e os processos produtivos. Cor, textura, acidez, teor de lipídeos, açúcares e proteínas, tudo está sendo levado em conta.

A conclusão preliminar é que há margem para avanços, que podem ser conquistados a partir de fatores que vão desde a seleção e a separação das amêndoas do cacau até o aperfeiçoamento na fabricação do produto. "É possível substituir processos industriais e melhorar o sabor do chocolate amargo. Entretanto, na grande indústria o espaço para essas mudanças é menor, o que indica que os chocolates com mais cacau continuarão a ter uma produção mais restrita e segmentada", diz Ditchfield.

Fonte: UOL

Estudo minimiza impacto da TV no comportamento de crianças


O tempo passado frente à TV parece influenciar as crianças, não o tempo no computador.
 
Passar horas diariamente em frente à TV ou jogando no computador não prejudica o desenvolvimento social da criança, dizem especialistas.
 
Após um estudo envolvendo mais de 11 mil alunos de escolas primárias britânicas, a equipe do Medical Research Council (MRC, órgão governamental britânico que faz pesquisas na área de saúde) concluiu que não é correto associar o mau comportamento das crianças com o tempo que passam vendo TV ou se divertindo com os jogos.
 
Embora os pesquisadores tenham encontrado uma pequena relação entre ver TV e problemas de conduta, eles dizem que outros fatores, como a educação recebida dos pais, por exemplo, provavelmente explicam esse vínculo.

Ainda assim, eles recomendam que os pais "limitem o tempo passado em frente às telas".
 
O conselho se deve ao fato de que passar muito tempo em frente à TV todos os dias pode reduzir o tempo que a criança passaria fazendo outras coisas importantes, como brincando com amigos e fazendo lição de casa.
 
O estudo, liderado pela especialista Alison Parkes, aparece na publicação científica Archives of Diseases in Childhood.
 
Outros estudos realizados recentemente encontraram associações entre tempo passado em frente à TV e computador e a obesidade infantil.
 
E pesquisas feitas nos Estados Unidos sugerem que assistir TV no início da infância pode provocar distúrbios de atenção aos sete anos de idade.
 
Pediatras americanos recomendam que crianças assistam menos de duas horas de programas educacionais, não violentos, por dia.
 

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Michelle Roberts, BBC


Receita para esquecer um amor: vide bula

Em uma visita ao arquivo de cartas recebidas por Miss Corações Solitários, madame responsável pelo consultório sentimental deste blog, descobrimos a pergunta que mais se repete entre os corações aflitos:
 
Como é que se esquece uma pessoa que se ama?
 
Óbvio, a pessoa foi embora, o tal do amor acaba -acaba principalmente da parte dele, desalmado!
 
Como é que se esquece? A primeira coisa que me veio à cabeça foi copiar aqui a receita do miojo, como fez o sábio menino do Enem. Ou quem sabe o hino do Grêmio, composto por Lupicínio Rodrigues, talvez seja o mais dramático e bonito de todos.
 
A propósito, quem não leu, recomendo, sobre a redação do miojo, artigo de Inácio Araújo, é só clicar aqui, ó!
 
Repetimos a fatídica pergunta: como é que se esquece alguém que se ama?
 
Há quem diga que um amor só se cura com outro. No que caímos em outra pergunta: mas como arrumar outro se o anterior não nos deixa nem dormir direito, como se fosse um carnê atrasado com todas as prestações da existência?
 
Se existe uma grande farsa moderna é a tal da crença que a fila anda. Anda tanto quanto o trânsito de SP em dias de tempestades.
 
Há quem aposte em uma viagem exótica a um país idem. Escalar o Himalaia, essas coisas.
Já apostei em uma receita simples, que está a cada esquina: quando a vida dói, drinque caubói –sem esquecer o seu ídolo de dor de cotovelo preferido. De Bartô Galeno a Leonard Cohen.
 
Outro dia, na praia do Pina, vi um homem de corpo enterrado na areia, só a cabeça de fora, usando algo parecido: um tubo de Pitú e um Genival Santos bem alto –“Eu hoje quebro essa mesa/se meu amor não chegar…”
 
Uns resolvem se enfiar no trabalho, como houvesse alguma dignidade nisso. Há quem se entupa de barbitúricos ou tarja preta de estima.
 
Nessa grave hora, descrentes jogam suas fichas e dízimos no conforto das religiões. Uns viram fanáticos e juram-se curados. Acontece.
 
Há quem vá ao pai-de-santo e há quem procure os caminhos do orientalismo.
 
Na literatura há receitas malucas, como a do livraço “Tia Júlia e o escrevinhador”, de Mário Vargas Llossa, já lembrada neste blog: tome leite de magnésia, pois o amor seria apenas uma questão de prisão de ventre, não aquela batedeira de coração que você estava sentindo.
 
Nunca me deparei, porém, com nada mais sábio do que a receita de um colega cronista d´além mar, o gajo Miguel Esteves Cardoso, com quem tive o prazer de compartilhar uns copos no “Love Story”, em SP:
 
“As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar.
 
Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.
 
Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!”
 
 
Xico Sá

Alongo-me

O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce
A morte é vida.




João Guimarães Rosa

San Diego avalia instalação de máquinas para vender maconha

As máquinas geralmente usadas para vender refrigerantes, chocolates e salgadinhos podem ganhar uma nova versão em San Diego, na Califórnia: a cidade analisa usar o mesmo equipamento para vender maconha medicinal (foto abaixo), algo que já é realidade em outros lugares do estado americano. Em Los Angeles, por exemplo, há máquinas usadas para este fim desde 2008.


A previsão era de que a Câmara de San Diego se debruçasse sobre o tema ainda esta semana. Até esta terça-feira, não foram divulgados resultados de uma eventual votação sobre o assunto. A proposta de instalação foi levada ao Legislativo pelo prefeito de San Diego, o democrata Bob Filner.
 
 
O Globo

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Marianne Moore hoje

Li outro dia no "Prosa On Line" que uma pesquisa recente mostrou que a emoção anda banida da ficção contemporânea em língua inglesa. Como todos sabem, é a ficção em língua inglesa (tanto britânica, como norte-americana) que, hoje, dá as cartas no mercado literário internacional. Na Índia, no Paquistão, na África do Sul, na Espanha, no Brasil, quase todos agora desejam escrever "à inglesa"
 
Conversava sobre isso, outro dia, com um amigo, o jovem escritor Luis Pellanda _ um dos que se recusa, firmemente, a seguir a receita do momento. Surgiu uma nova norma internacional. Um padrão de qualidade, nivelado pelo meio, e que se transforma em um adestramento, ele reclamava. Escrever "à inglesa" _ mas não à maneira de Virginia Woolf, por exemplo. (Já nem vou pensar em Joyce...) Isto é: escrever friamente _ e Virginia, por certo, estaria horrorizada. Eis aqui um projeto que pode se tornar letal para a ficção. Que pode enquadrá-la e empacotá-la, como se narrativas fossem objetos pré-moldados.
 
Para me distanciar desses tempos áridos, para tomar um pouco de fôlego e de consolo, sempre me apego à poesia. Há um poema, um sutil poema de catorze versos, a que sempre volto. Um poema que, há muitos anos, me alimenta _ como uma refeição delicada que nunca terminasse. Falo de "Silêncio", da poeta norte-americana Marianne Moore (1887-1972). Poema que, volta e meia, releio na antologia bilíngue organizada por José Antonio Arantes, em 1991, para a Companhia das Letras. 


          Quando o releio, em meu livro empalidecido e cheio de dobras, me pergunto o que me prende, de fato, a esses versos. Por que retorno? Por que eles não me largam? Em minha velha edição, que ganhei de presente do editor e amigo Luiz Schwarcz, dois versos, que sublinhei em lilás, guardam, talvez, uma chave. Dizem: "O sentimento mais profundo sempre se mostra em silêncio;/ não em silêncio, mas contenção".

 
Falam, eu penso, da própria relação que tenho com o poema de Marianne. Neles se esconde a chave do que procuro _ ainda que não saiba o que procuro (ignorância que, aliás, define a literatura). Venho escrever esse post na esperança de me aproximar um pouco mais desse segredo pessoal. Segredos sempre nos ajudam a nos aproximar do mundo. E a nos afastar do mar de repetição e medo que hoje o encobre. 


          O poema começa assim: "Meu pai costumava dizer:/ 'Gente superior nunca faz visitas demoradas,/ nem a ela tem que se mostrar o túmulo de Logfellow/ ou as flores de vidro em Harvard' ". Uma enciclopédia literária me ajuda: Henry Logfellow foi um poeta e
educador do Maine, autor da primeira tradução americana da "Divina Comédia", de Dante.

Quanto às flores de vidro do artista Leopold Blaschka, o Google me auxilia, são um dos pequenos tesouros do Museu de História Natural de Harvard, onde nunca estive. Em resumo: Logfellow e as flores de Harvard são como aquela jóia rara (e cara) que temos o prazer de exibir às visitas. Mas para que, de fato, exibi-la? Por que esse impulso para o brilho e para a confirmação?
 
Não: não é bom ceder a essas tolas vaidades, afirma (no poema) o pai. Elas são perigosas: a superfície nos afasta de nós mesmos. Marianne Moore, a autora de "Silêncio", foi também uma mulher contida, que se vestia austeramente, os cabelos sempre curtos, os pequenos olhos negros perfurando a face branca como sinais de alerta. Alerta a respeito de que? Uma luz obscura deles escorriam. Sinalizavam, talvez, sua atenção desmedida para com o mundo, cuidado que ela continha em seu discreto semblante e do qual arrancou a beleza de sua escrita.


          Detenho-me um pouco e salto para o fecho do poema, que se relaciona com seu início. Está escrito: "Nem era insincero ao dizer: 'Faça de minha casa sua pousada'/ Pousadas não são residências". Tanto os versos iniciais, quanto os finais _ ambos erguidos sobre a m
emória de um pai _ falam da necessidade de uma repressão, ou pelo menos de uma restrição.
 
No caso, como se expressa nos versos que sublinhei, retenção sobretudo das próprias palavras. Vivemos no mundo da fala solta, da escrita hemorrágica, das inconfidências públicas e fórmulas desdobráveis. O silêncio como um instrumento mais potente que a voz. O silêncio como maneira mais firme para dizer e guardar. O silêncio como o verdadeiro grito.

           Passo a maior parte do dia sozinho, trabalhando em meu escritório _ em silêncio, portanto. Contudo, tanto quando leio como quando escrevo, as palavras fervem dentro de mim. O poema de Marianne me leva a pensar no quanto o silêncio é ruidoso, no quanto ele transborda em significados.
 
Por contraste, penso no quanto o barulho do mundo contemporâneo (assim como esse grossos romances "ingleses" que brilham tagarelas nas vitrines) apostam, na verdade, na mudez. No quanto, tantas vezes, de tão excessivo, todo esse ruído não nos diz nada. Absolutamente nada. No caso das narrativas moldadas pelos padrões da moda literária: dizem sempre a mesma coisa, o que é não dizer nada também. É apenas ecoar.
 
Nada contra o mundo contemporâneo, muito ao contrário. Desde menino, amo o presente. Mas, justamente porque o amo, luto para consevar-me atento ao modo brusco, e tantas vezes desencorajador, como ele transcorre. Tudo tão perto, tudo tão longe. Precisamos, às vezes, de alguma espécie de lupa ou lente de aumento para observar seus detalhes. Aquilo que quase não aparece, ou não se escuta.
 
Como se o presente _ nosso frágil presente _ guardasse de nós uma distância cósmica. Pois bem: a poesia é um instrumento (uma lupa) para observá-lo. Talvez por isso eu retorne com tanta frequência à poesia de Marianne: para entender melhor onde estou. A poesia como lugar de resistência, não ao presente, que devemos viver, mas às máscaras que o encobrem.
 
Volto a dizer, porque isso me assustou mesmo: li outro dia no Prosa On Line, decepcionado, que uma pesquisa mostrou que a emoção anda banida da ficção em língua inglesa. A palavra de ordem, hoje, na "literatura internacional" é escrever "profissionalmente". O grande risco : estarmos criando uma geração de executivos da literatura.
 
Não podemos, porém, confundir a frieza (ausência de emoções) com a
contenção. Na primeira, elas são descartadas, como nocivas, ou inadequadas. Na segunda, são engolidas e nos alimentam, como um segundo coração. Eis aí: talvez nossos romancistas pragmáticos devessem ler um pouco os versos de Marianne. Indo mais longe: talvez precisem ler mais um pouco de poesia. Vinicius de Moraes dizia que a poesia devia contaminar o mundo. Estava certo, em seu improvável diagnóstico.

Pode parecer estranho que um prosador necessite dos poetas para continuar dono de si. Mas não é. No centro da grande ficção, daquela que realmente interessa, no coração daqueles escritores que escrevem por sua conta e risco (Virginia Woolf, Marianne Moore, Vinicuis de Moraes) e não para seguir tendências, guarda-se sempre _ lembremos de Marianne _ um silêncio ensurdecedor.O silêncio daqueles que, em vez de repetir, preferem o risco de pensar.
Aqui me volta uma ideia de Maurice Blanchot, que arranquei de uma leitura de seu "A conversa infinita". Defende Blanchot a diferença como elemento crucial da escrita. Repetir, em definitivo, é macaquear, não é escrever. Diz Blanchot: "O traço da escrita não será portanto nunca a simplicidade de um traço capaz de se traçar confundindo-se com seu traço, mas a divergência a partir da qual começa sem começo a perseguição-ruptura".
 
Escrever - como nos mostra Blanchot, como nos mostram os poemas de Marianne - não a partir da cópia, da fórmula, da "facilidade". Não a partir da "execução" _ como nos gabinetes de burocratas e nos escritórios refrigerados.Escrever a partir do desvio, da divergência, da ruptura: escrever não para desaparecer, mas para ser. E ser não é repetir, ser é arriscar-se. É o risco, enfim, o que pode salvar a literatura de seus mercadores e dos escritores que a eles se submetem.
 
 
Por José Castello
 
O Globo
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Nunca é tão fácil perder-se como quando se julga conhecer o caminho.
 

Humor


Regresso sem Glória

O sujeito chega de madrugada em casa e, para não levar uma bronca da mulher, apela ao velho truque de entrar sigilosamente no quarto, se enfiar por baixo dos lençóis e fazer uma sessão de carícias na esposa.
Quando já começava a sentir câimbras na língua e no queixo, o esforçado marido sente, para sua tranqüilidade, um tremor no corpo da cônjuge, seguido de um gritinho de prazer.
- Salvo! - pensou e se dirigiu ao banheiro. Para seu espanto, havia um bilhete no espelho:
"Querido, não faça barulho! A gente vai ter que dormir no quarto das crianças, porque a mamãe chegou de surpresa e está na nossa cama"!
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Os velhos vão ocupar as ruas

Foto Pedro Simões
 
Metade da população da Terra vive em cidades. Até 2050 deverá chegar a 70%, segundo a ONU. Pois bem, o Brasil está entre as nações com os maiores adensamentos populacionais. Para quem ainda não se tocou, quase 85% dos brasileiros são urbanos.
 
As políticas urbanas, conceitos e tecnologias têm de ser reformulados com urgência. Ou esse adensamento cada vez maior poderá desestabilizar irreversivelmente o desenvolvimento do país.
 
Para começar, há uma dramática falta de discernimento nos políticos eleitos e seus eleitores. Não entendem o planeta com limites. Quaisquer limites; nem os do próprio território nacional. Uma população a se expandir caoticamente seria para eles muito natural. Qual o problema?
 
Uma cidade não é um organismo vivo, dinâmico? Sim. Mas não dispensa planejamento. Aliás, a administração pública existe para isso. Habitação, por exemplo. Pessoas precisam, obviamente, morar em algum lugar. Digno.
 
As pobres e de classe média buscam de preferência locais que tenham água garantida, luz e transporte bom para se deslocarem ao trabalho. As de menor renda raramente ocupam um espaço com saneamento adequado. Ou se importam com a segurança topográfica.
 
A partir dessa consciência, não dá mais para aceitar despreparo de prefeitos, assessores e secretários na governança municipal. Por meio dela se tem o elo direto com os cidadãos, o que pode permitir um salto de melhoria social.

 
Ou os piores atos de corrupção, roubando quem está lá na ponta: os pobres, as vítimas das tragédias anunciadas. Um horror frequentemente denunciado. Mais do que noticiado.
 
Salvam-se prefeituras que se esforçam por eficiência, é verdade. Algumas recorrem às smart cities, incluindo a internet ao cotidiano de sua administração. No Rio, o Centro de Operações usa centenas de câmaras num sistema integrado com serviços públicos para monitorar e solucionar crises.
 
E como será em 2050? O arquiteto neozelandês Mark Wigley considera provável que Rio e São Paulo se tornem uma megalópole.
 
Porém, em entrevista a Audrey Furlaneto, Segundo Caderno (O Globo 22/03), ele alerta que se olharmos nossas ruas, veremos que as cidades atuais não foram pensadas para os mais velhos nem para as crianças. Foram desenhadas para pessoas em idade de trabalho. E para os carros.
 
O aumento da expectativa de vida e a possibilidade de muita gente chegar aos cem anos vão exigir uma reinvenção da vida urbana. Tema que precisa entrar na política já, antes que o momento certo seja perdido.

 
Ateneia Feijó é jornalista
 
*Do Blog do Noblat

terça-feira, 26 de março de 2013

Versículos do dia

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.

Cânticos 1:2-3
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Tia Zulmira está de volta

O que diria Tia Zulmira, a engraçada personagem criada por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do impagável cronista Sérgio Porto, no início da década de 60, ao “enchergar” (isso mesmo, com ch) numa dissertação sobre “movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI” uma receita de Miojo e um trecho do hino do Palmeiras?
 
Acharia “rasoavel” (isso mesmo, com s e sem acento) as notas 560 e 500, de um total de 1000, obtidas, respectivamente, por um galhofeiro que mostrou como se faz o famoso macarrão instantâneo e por um apaixonado torcedor do Verdão?
E que nota daria ao Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que orienta os corretores da prova a “aproveitar o que for possível”, mesmo diante da inserção de textos com evidente intenção de desmoralizar o processo corretivo?
 
O próprio autor da receita confessa que seu intuito era mostrar que “os corretores não lêem completamente a redação”. A velha senhora da família Ponte Preta enquadraria seguramente os personagens em questão no Festival de Besteiras que Assola o País, sempre muito farto por ocasião do periódico Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). E aproveitaria para pinçar mais uma pérola que explica o motivo de tanta asneira naquele famigerado concurso: “o nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro”.
 
 
Todos os anos, o ENEM produz extensa crônica de besteiras previsíveis. As expressões fosforescentes transmitidas por apreciável parcela dos cérebros que concorrem ao Exame deixam transparecer um estado de hibernação, para não dizer piora, do corpo educacional do país.
 
O Brasil continua a ocupar um vergonhoso lugar (88º) entre 127 no ranking de educação formado pela UNESCO, que é o eixo da ONU para a cultura e a educação. Há 6 anos, tinha melhor posição(72ª). Há 6 milhões de alunos no ensino superior, mas 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita.
 
Ou seja, de 10 alunos 4 são analfabetos funcionais, conforme atesta pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa entre 2001 e 2012.
 
A considerar o denso programa de avaliações em todos os níveis de ensino e as campanhas que fazem loas à nossa educação, deveríamos ser um território livre de todas as categorias do analfabetismo. Se o número de analfabetos diminuiu, nos últimos 3 anos, o percentual de analfabetos funcionais - aqueles que sabem escrever o nome, lêem e escrevem frases simples, mas são incapazes de usar a leitura e a escrita em seu dia a dia – tem permanecido o mesmo.
 
Os dados continuam a ser desanimadores. Cerca de 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Desse montante, 68% são analfabetos funcionais e 7% são considerados analfabetos absolutos, sem habilidade de leitura ou escrita.
 
Em números absolutos, o IBGE calcula existir cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais, a maior parte vivendo nas regiões Norte e Nordeste, onde 25,3% e 30,9% habitam, respectivamente, esse compartimento.
 
O que mais impacta, porém, na análise da moldura social é o contraste entre o avanço de uns setores e o atraso de outros. Veja-se a situação de renda das margens, que tem aumentado, a ponto de se trombetear, todo tempo, a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe média C e a “salvação” de outros tantos milhões que saíram da miséria absoluta. Se a desigualdade tem diminuído, não seria lógico imaginar, em sua cola, a melhoria de padrões educacionais?
 
Há muitos pontos obscuros no discurso que trata do fenômeno educacional. Não é um paradoxo constatar que quase 80% dos brasileiros são usuários da Internet e quase 70% possuem celular, mas o Brasil, com 401 pontos, está em uma das últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos(Pisa), atrás de países como Trinidad e Tobago, Bulgária, México e Turquia? Lembre-se que esse programa avalia sistemas educacionais de 65 países, examinando o desempenho de estudantes na faixa etária dos 15 anos.
 
O que trava o sistema educacional, quando todas as áreas do ensino estão suficientemente diagnosticadas? Na Educação Básica, existe uma Provinha, a Prova Brasil e o Enem. No Ensino Superior, existe o ENADE, aliado ao Censo Escolar, a par de avaliações feitas por Comissões de Avaliadores.
 
Na área de Pós-Graduação, nada funciona sem o endosso da CAPES, que autoriza e reconhece os cursos. Faltam mais recursos? Os programas de formação de professores são precários e insuficientes? Como equacionar o imenso buraco provocado pela expansão da evasão escolar? Não são respostas fáceis.
 
Enquanto os ciclos governamentais cultuam a si mesmos, fazendo loas ao sucesso de suas políticas, o fato é que o edifício educacional apresenta rachaduras em todos os andares. Pior é ver a avalanche que sobe ao último piso. São milhares de estudantes que entram em cursos inapropriados, outros tantos que buscam um segundo diploma e mais uma leva que interrompe a trajetória no meio.
A matriz profissionalizante acaba influenciando as decisões do alunato, prejudicando a formação global, humanística, generalista, absolutamente imprescindível para a integração da pessoa num mundo em constante evolução.
 
Da competição desvairada por vagas em escolas de baixa qualidade, não é de surpreender o besteirol que se produz nesses polêmicos exames de avaliação. Querem saber a razão das enchentes que assolam a região serrana do Rio de Janeiro? Vejam a resposta: “É o Euninho. Que provoca secas e enchentes calamitosas”. O que se entende por arte funerária? “A arte que egípcios antigos desenvolveram para que os mortos pudessem viver melhor”. O que é ateísmo? “É uma religião anônima”. E a fé? “Uma graça através da qual podemos ver o que não vemos”.
 
Agora o conceito de respiração anaeróbica é mesmo de tirar o fôlego: “é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos”. Ao sublinhar tão eloquentes “ideias luminosas”, Tia Zulmira garante que a receita do Miojo, no mais recente Enem, “trousse”, sim, elevada contribuição ao verbo desses tempos tresloucados.
 
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação
 
Fonte: O Globo
Para os economistas que defendem um freio na economia e queda do nível de emprego como receita para conter a inflação, aumentar os juros seria o caminho mais curto para isso. Essa proposta, entretanto, ganhou um opositor influente: Antonio Delfim Netto (foto abaixo), ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento nas décadas de 70 e 80 e um dos gurus da equipe econômica da presidente Dilma Rousseff.
 
— A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses ‘gênios’ é fazer com que ela volte a usar sabão de coco, aumentando os juros — afirma Delfim, para quem a saída para a economia é promover reformas estruturais que passem pelo aumento da educação do trabalhador.
O Globo

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sobre a utilidade e a inutilidade da história da filosofia para a filosofia e para a vida

Muito se ouve falar em história da filosofia, tema de vasto interesse nestes dias em que, para o bem e para o mal, a filosofia está em certo sentido ainda na moda. É mais que moda, mas também padeceu do seu momento “in”. Por outro lado, a filosofia chega com força, do ensino básico e médio aos cursos universitários, como disciplina obrigatória. Sua potência é a da modificação das bases da educação pelo avanço da crítica e da compreensão num território por longo tempo situado em chão dogmático ou, pelo menos, sem estofo reflexivo. Todavia, a possibilidade de uma calcificação da educação pela má filosofia, que se pensa como “saber” constituído, a “área” pertencente a eruditos inconscientes das relações sociais nas quais estão envolvidos, que não suportam a dúvida sobre seu próprio lugar, ou da filosofia pelo mau ensino, pode minar um projeto de emancipação e democracia que é tanto a tarefa da educação quanto da filosofia nos dias de hoje.

 
Neste contexto, convém evitar confusões e é por isso que a distinção entre filosofia e sua história merece uma atenção muito cuidadosa. A indistinção resulta do descuido – e convém perguntar se alguma sorte de interesse – por parte daqueles que, como professores de filosofia, são os responsáveis pela reintrodução da filosofia no ensino brasileiro ou mesmo por sua divulgação. Ponderá-la, é o primeiro passo filosófico na compreensão, e na promoção, de um novo estatuto, tanto para o que podemos chamar filosofia, quanto para o que é hoje o seu ensino baseado muitas vezes apenas em sua história extirpando-lhe a tarefa reflexiva, o pensamento como potência particular e coletiva.
 

Para situar os aspectos desta diferença que tem muito de sutil não é possível escapar das semelhanças, das afinidades entre o que é filosofia e a história da filosofia. Que uma esteja dentro da outra, que a filosofia que conhecemos derive de textos tão bem conservados por sua força conceitual, que aquele que fala de filosofia necessariamente a reconheça como uma tradição de pensamento que envolve justamente a capacidade da dúvida e da refutação da própria tradição, são fatos que não podemos desconhecer. É claro que sua relação é de necessidade. Só a filosofia pode ser recepção crítica da tradição da própria filosofia como viagem do pensamento humano no tempo. Neste sentido, é claro que a história é essencial. Recepção crítica, todavia, é atividade filosófica que pode ser eliminada se as instituições simplesmente o quiserem fomentando apenas a pesquisa que, levando adiante uma má historiografia, apenas repete e assina embaixo conceitos do passado como se o passado não fosse “interpretado” ou “compreendido” (em duplo sentido) no presente. Como se o passado não sofresse os efeitos de nossa fantasia e nosso desejo sobre ele. Uma boa história da filosofia seria o contrário da fossilização forçada dos conceitos que vemos hoje. Seria diálogo e constante crítica com o que foi pensado e estabelecido como tal, mas com vistas a uma reflexão quanto ao estatuto do tempo, da relação entre passado e presente no qual cada pensador está, querendo ou não, situado. Um pensador só é lembrado por outro que o atualiza e, querendo ou não, o adapta ou modifica. A não ser, claro, que ele seja, por devoção pessoal, ou necessidade subjetiva (o que sempre sobrevive no texto é a alma do autor), um sujeito anacrônico, assim “fora” do tempo, um clássico, ou alguém perdido. Ninguém está proibido de anacronismo. Em filosofia cai muito bem. Tão bem que podemos dizer que o anacronismo é um direito. Mas há que justificá-lo quando se ensina filosofia. Esta postura, aliás, poderá contradizer o “anacronista” fazendo dele um homem de seu tempo.

 
História da filosofia deveria ser análise crítica do passado sob a consideração de uma cuidadosa conceituação de passado. Mais que isso, ela precisa ser diálogo da atualidade do pensamento com este passado levando em conta o que pode significar “atualidade do pensamento”. Ninguém que estude filosofia, que se preocupe com o pensamento,de ada filosofia por seu mau ensino, será capaz de imaginar que, cada vez que pensa, reinventa conteúdos como quem acredita que reinventa a roda. Ao mesmo tempo não podemos fomentar o preconceito contra o novo.
 

Dizer, porém, que no pensamento atual, ou nos modos em que pensamos hoje, não há nada de novo é muito diferente de falar em diálogo com a tradição. A filosofia, para continuar constituindo-se como a caminhada, o passeio dos seres humanos como seres que expressam sua compreensão e autocompreensão, seja no olhar para o passado seja no projeto futuro ao qual ela deve estar atenta e que a inclui como fator cultural, deve ser acima de tudo liberdade do pensamento. Criação de pensamento. Pensamento capaz de abismar-se no que o nega. Pensamento que se torna diálogo, abertura ao outro, aventura na alteridade. Não há contribuição maior da filosofia histórica ou não para o nosso tempo do que a oportunidade de promover o diálogo em nosso mundo, seja entre indivíduos, seja entre culturas, seja entre perspectivas de mundo, de vida que, mal relacionadas, permanecem em guerra.

 
Dizer, portanto, da diferença entre filosofia e história da filosofia não é sinalizar um abismo entre o tempo passado e o tempo presente, ou um combate à tradição, nem, muito menos, quer dizer que a filosofia deve ficar longe de sua própria história, ou separada dela como de algo nocivo, que lhe fizesse mal. O contrário é que tem sido feito, sobretudo na ideologia conservadora brasileira de que “filosofia é história da filosofia”, infelizmente professada por alguns professores que esqueceram que a ditadura já acabou.
 

Seria fundamentalismo ou ignorância postular uma origem absoluta da filosofia no tempo presente de qualquer consciência tanto quanto numa história passada que desconhece o presente, e seu próprio devir. A filosofia longe de sua história não é, de antemão, nenhuma garantia de filosofia. Antes, a própria questão precisa ser bem posicionada para evitar mal-entendidos. E certamente, esta questão implica a questão “o que é, pois filosofia?”

 
Do que se trata, então? De posicionar por meio de uma distinção o lugar específico do pensamento filosófico como uma ação crítica e discursiva livre de toda pressuposto que não seja justamente a crítica e a discursividade que se auto-expõe no lugar que lhe é de direito, o da elaboração analítica e crítica da qual ela nasceu. Uma boa história da filosofia nasceria neste lugar.
 

Quando se trata de filosofia, começamos com o pensamento reflexivo. Mesmo para a história da filosofia precisamos antes da filosofia, como método de análise sobre um objeto, neste caso, construído como “história”. Se trata, no caso de fazer filosofia, de pensar e fazer pensar, de produzir e criar pensamento como se cria uma obra de arte, uma obra científica, sabendo, no entanto que a reflexão sobre a vida não é nem arte, nem ciência, mas experiência de pensamento.

 
Disso resulta um valor, uma potência: a de uma ideia chamada liberdade. Uma liberdade – muito diferente da liberdade dos liberalismos – que é uma esperança, que é uma libertação, um desejo de estar “fora”, mergulhando na surpresa da reflexão. Para definir o que seja filosofia podemos invocar pensadores antigos ou modernos, podemos invocar o percurso histórico das questões, analisá-las dentro do tempo e das culturas nas quais nasceram, se desenvolveram ou nas quais permaneceram vigentes. Em qualquer tempo, filosofia é sempre criação de conceitos. Filosofia é ir além da filosofia inventando conhecimentos/prazeres novos.
 

A escolha por uma filosofia como História da Filosofia se tratada com pouco cuidado pode ser a própria aniquilação da filosofia. Desconhecimento de seu processo, de que a história também é uma teoria.

 
Contra isso, vamos ao diálogo.
 

 
Márcia Tiburi

 
Do Filosofia Cinza

domingo, 24 de março de 2013

Entenda o significado do Domingo de Ramos

O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa, que mistura os gritos de hosanas com os clamores da Paixão de Cristo. O povo acolheu Jesus agitando seus ramos de oliveiras e palmeiras. Os ramos significam a vitória: "Hosana ao Filho de Davi: bendito seja o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel; hosana nas alturas".


Os ramos apresentados pelo povo nos remetem ao sacramento do batismo, por intermédio do qual nos tornamos filhos de Deus e responsáveis pela missão da nossa Igreja. E o ato de levarmos os ramos para casa nos lembra que estamos unidos a Cristo na luta pela salvação do mundo.


A Procissão de Ramos tem como objetivo apresentar a peregrinação que cada cristão realiza sobre a Terra buscando a vida eterna ao lado do Senhor. Esse ato nos faz relembrar que somos peregrinos neste mundo e que o céu é o lugar de onde viemos e para onde devemos voltar.


Por fim, a Santa Missa do Domingo de Ramos traz a narrativa de São Lucas sobre a Paixão de Jesus: Sua angústia mortal no Horto das Oliveiras, o Sangue vertido com o suor, o beijo traiçoeiro de Judas, a prisão, os maus-tratos nas mãos dos soldados na casa de Anãs, Caifás; Seu julgamento iníquo diante de Pilatos, depois, diante de Herodes, Sua condenação, o povo a vociferar “crucifica-o, crucifica-o”; as bofetadas, as humilhações, o caminho percorrido até o Calvário, a ajuda do homem cirineu, o consolo das santas mulheres, o terrível madeiro da cruz, o diálogo d'Ele com o bom ladrão, Sua morte e sepultura.


O Mestre nos ensina com fatos e exemplos que o Seu Reino, de fato, não é deste mundo. Que Ele não veio para derrubar César e Pilatos, mas para derrubar um inimigo muito pior e invisível, o pecado. E para isso é preciso se imolar; aceitar a Paixão, passar pela morte para destruí-la; perder a vida para ganhá-la.


Professor Felipe Aquino
 
 
Fonte; Canção Nova
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A vida dos tiranos

Tenho observado que, na imprensa, nos livros, ou em simples conversações, cada vez mais preferimos usar a palavra planeta para falar de onde nos encontramos. Arrisco dizer que esse é um progresso objetivo na História da Humanidade.
 
Universo é uma designação metafísica, envolve o que não sabemos. Mundo é abstrato demais, pode representar tanto um vasto território, quanto o pequeno espaço de nossa vida e de nossa imaginação. Planeta, não. Com planeta, não há equívoco possível, é nessa palavra concreta que vivemos, agoniados com o que acontece à nossa volta, sensíveis às suas circunstâncias, dentro dos limites dela.
 
Como é mesmo difícil viver, em qualquer época que seja, temos sempre a impressão de que estamos vivendo o pior momento da História da Humanidade no planeta. É isso que gera a principal narrativa de conservadores e progressistas.
 
Segundo Lévi- Strauss, para os conservadores a idade de ouro está num passado cujo desaparecimento lamentamos melancolicamente. Para os progressistas, a idade de ouro está no futuro, em nome do qual devemos fazer sacrifícios no presente. Nenhum dos dois partidos se dá conta de que a idade de ouro é hoje, o tempo que nos foi dado viver no planeta.
 
Shakespeare, que, ao lado de Dostoievski, Proust e Machado, escreveu quase tudo que se precisa saber sobre a Humanidade, deve ter percebido esse equívoco. Desconfio disso pela referência a “tempos difíceis” em várias peças passadas em tão diferentes épocas e lugares — Falstaff reclama do tempo em que vive (“Que tempos são esses?”), o Príncipe de Verona acusa o tempo presente pela tragédia de Romeu e Julieta, Hamlet se atormenta com o “nosso tempo fora do eixo”.
 
Desprezo esse tipo de acusação contra o pobre do tempo indefeso. Mas existem situações excepcionais em que ela se torna compreensível. Uma guerra, um desastre natural, uma peste, um regime de opressão. Esse último nos justifica dizer que, pelo menos para minha geração, os anos entre 1969 e 1974 foram os piores da ditadura e portanto os piores de nossas vidas. Um tempo que eu gostaria de não ter vivido.
 
Para vivermos um tempo como aquele, devemos estar preparados para enfrentar ou conviver com o fato de que tudo em nossa vida estará impregnado pelo desastre e pela tragédia que ele pode provocar.
 
 
 
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Cacá Diegues é cineasta

Mário Quintana

Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!


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Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


______

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

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Quem Sabe um Dia

Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
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sábado, 23 de março de 2013

Olha o susto!


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Seios nus na internet — e a muçulmana é condenada à morte por clérigo

Ela se chama Amina, tem 19 anos de idade, nasceu e vive na Tunísia, país que, teoricamente, tornou-se uma democracia após a chamada “Primavera Árabe” que derrubou a ditadura do eterno presidente Zine el-Abidine Ben AliAmina, em janeiro de 2011.
 
Mas Amina cometeu um pecado mortal em uma sociedade islâmica — e por essa razão foi condenada à morte por um sacerdote islâmico, enquanto a família tomou suas providências: rapidamente internou-a em uma instituição psiquiátrica em Túnis, capital do país.

O pecado: a jovem postou fotos suas de seios de fora na web page que ela criou, na Tunísia, para o grupo feminista radical ucraniano Femen, constituído por ativistas que se desnudam em público por diferentes causas, sempre protestando contra algo.
 
Uma das fotos mostra Amina lendo e fumando um cigarro, tendo no peito a inscrição em árabe da frase “meu corpo pertence a mim e não é a fonte da honra de ninguém”. Em outra foto, ela aparece levantando um dedo médio para a câmera com a inscrição: “F…-se a moral de vocês”.
 
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Do Blog de Ricardo Setti

Francisco e Bento XVI - encontro histórico

Encontro acontece na residência de verão da Santa Fé, em Castelgandolfo. “Somos irmãos”, teria dito o Papa Francisco a Bento XVI, ao convidá-lo para orar ao seu lado. Os dois pontífices conversaram por 45 minutos na biblioteca do palácio

A multidão começou a se reunir na praça central de Castelgandolfo ainda na manhã deste sábado (23) para acompanhar um momento histórico: dois papas se encontrariam para um almoço e, provavelmente, para discutir o futuro da Igreja Católica.
 
Papa Francisco levantou voo às 12h (horário local) deste sábado no helicóptero rumo à residência papal de verão em Alban Hills, ao sul ​​de Roma, onde o Papa emérito Bento XVI vive desde a renúncia, em 28 de fevereiro.
 
Dez minutos depois, Francisco chegou a Castelgandolfo, onde o Papa emérito o aguardava no heliporto. Ambos, vestidos de batina branca, se abraçaram calorosamente no local.
 
O padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, disse que, ao chegarem à capela de Castelgandolfo, o Papa Francisco fez questão se sentar-se no mesmo banco de Bento XVI para orar.
 
— Somos irmãos — teria dito Francisco, segundo Lombardi.
 

 
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O Globo

Beleza feminina


Foto de Victoria Rogotnev

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Poema de paciência

Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odiá-lo por isso.
Neste mundo de céticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.
Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.
Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.
E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela...
Charles Chaplin

Frase

 
"Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza. "


 Clarice Lispector

sexta-feira, 22 de março de 2013

Hora do recreio : Freira no taxi

Uma freira faz sinal para um táxi parar. Ela entra e o taxista não pára de olhar para ela:
— Por que você me olha assim?

Ele explica:
— Tenho uma coisa para lhe pedir, mas não quero que fique ofendida...

Ela responde:
— Meu filho, sou freira há muito tempo e já vi e ouvi de tudo. Com certeza não há nada que você possa me dizer ou pedir que eu ache ofensivo.

— Sabe, é que eu sempre tive na cabeça uma fantasia de ser beijado por uma freira...

A freira:
— Bem, vamos ver o que é que eu posso fazer por você: primeiro, você tem que ser solteiro, e também católico.

O taxista fica entusiasmado:
— Sim, sou solteiro e até sou católico também!

A freira olha pela janela do táxi e diz:
— Então, pare o carro ali na próxima travessa.

O carro para na travessa e a freira satisfaz a velha fantasia do taxista. Mas, quando continuam para o destino, o taxista começa a chorar:
— Meu filho - diz a freira - Porque é que está chorando?

— Perdoe-me Irmã, mas confesso que menti: sou casado e sou evangélico.

A freira conforta-o:
— Deixa pra lá, eu também. Estou a caminho de uma festa a fantasia, e me chamo Alfredo.

O menino e o velho

Quando entrei no pequeno restaurante da praia os dois já estavam sentados, o velho e o menino. Manhã de um azul flamante. Fiquei olhando o mar que não via há algum tempo e era o mesmo mar de antes, um mar que se repetia e era irrepetível. Misterioso e sem mistério nas ondas estourando naquelas espumas flutuantes (bom-dia, Castro Alves!) tão efêmeras e eternas, nascendo e morrendo ali na areia. O garçom, um simpático alemão corado, me reconheceu logo. Franz?, eu perguntei e ele fez uma continência, baixou a bandeja e deixou na minha frente o copo de chope. Pedi um sanduíche. Pão preto?, ele lembrou e foi em seguida até a mesa do velho que pediu outra garrafa de água de Vichy.

Fixei o olhar na mesa ocupada pelos dois, agora o velho dizia alguma coisa que fez o menino rir, um avô com o neto. E não era um avô com o neto, tão nítidas as tais diferenças de classe no contraste entre o homem vestido com simplicidade mas num estilo rebuscado e o menino encardido, um moleque de alguma escola pobre, a mochila de livros toda esbagaçada no espaldar da cadeira. Deixei baixar a espuma do chope mas não olhava o copo, com o olhar suplente (sem direção e direcionado) olhava o menino que mostrava ao velho as pontas dos dedos sujas de tinta, treze, catorze anos? O velho espigado alisou a cabeleira branca em desordem (o vento) e mergulhou a ponta do guardanapo de papel no copo d'água. Passou o guardanapo para o menino que limpou impaciente as pontas dos dedos e logo desistiu da limpeza porque o suntuoso sorvete coroado de creme e pedaços de frutas cristalizadas já estava derretendo na taça. Mergulhou a colher no sorvete. A boca pequena tinha o lábio superior curto deixando aparecer os dois dentes da frente mais salientes do que os outros e com isso a expressão adquiria uma graça meio zombeteira. Os olhos oblíquos sorriam acompanhando a boca mas o anguloso rostinho guardava a palidez da fome. O velho apertava os olhos para ver melhor e seu olhar era demorado enquanto ia acendendo o cachimbo com gestos vagarosos, compondo todo um ritual de elegância. Deixou o cachimbo no canto da boca e consertou o colarinho da camisa branca que aparecia sob o decote do suéter verde-claro, devia estar sentindo calor mas não tirou o suéter, apenas desabotoou o colarinho. Na aparência, tudo normal: ainda com os resíduos da antiga beleza o avô foi buscar o neto na saída da escola e agora faziam um lanche, gazeteavam? Mas o avô não era o avô. Achei-o parecido com o artista inglês que vi num filme, um velho assim esguio e bem cuidado, fumando o seu cachimbo. Não era um filme de terror mas o cenário noturno tinha qualquer coisa de sinistro com seu castelo descabelado. A lareira acesa. As tapeçarias. E a longa escada com os retratos dos antepassados subindo (ou descendo) aqueles degraus que rangiam sob o gasto tapete vermelho.

Cortei pelo meio o sanduíche grande demais e polvilhei o pão com sal. Não estava olhando mas percebia que os dois agora conversavam em voz baixa, a taça de sorvete esvaziada, o cachimbo apagado e a voz apagada do velho no mesmo tom caviloso dos carunchos cavando (roque-roque) as suas galerias. Acabei de esvaziar o copo e chamei o Franz. Quando passei pela mesa os dois ainda conversavam em voz baixa - foi impressão minha ou o velho evitou o meu olhar? O menino do labiozinho curto (as pontas dos dedos ainda sujas de tinta) olhou-me com essa vaga curiosidade que têm as crianças diante dos adultos, esboçou um sorriso e concentrou-se de novo no velho. O garçom alemão acompanhou-me afável até a porta, o restaurante ainda estava vazio. Quase me lembrei agora, eu disse. Do nome do artista, esse senhor é muito parecido com o artista de um filme que vi na televisão. Franz sacudiu a cabeça com ar grave: Homem muito bom! Cheguei a dizer que não gostava dele ou só pensei em dizer? Atravessei a avenida e fui ao calçadão para ficar junto do mar.

Voltei ao restaurante com um amigo (duas ou três semanas depois) e na mesma mesa, o velho e o menino. Entardecia. Ao cruzar com ambos, bastou um rápido olhar para ver a transformação do menino com sua nova roupa e novo corte de cabelo. Comia com voracidade (as mãos limpas) um prato de batatas fritas. E o velho com sua cara atenta e terna, o cachimbo, a garrafa de água e um prato de massa ainda intocado. Vestia um blazer preto e malha de seda branca, gola alta.

Puxei a cadeira para assim ficar de costas para os dois, entretida com a conversa sobre cinema, o meu amigo era cineasta. Quando saímos a mesa já estava desocupada. Vi a nova mochila (lona verde-garrafa, alças de couro) dependurada na cadeira. Ele esqueceu, eu disse e apontei a mochila para o Franz que passou por mim afobado, o restaurante encheu de repente. Na porta, enquanto me despedia do meu amigo, vi o menino chegar correndo para pegar a mochila. Reconheceu-me e justificou-se (os olhos oblíquos riam mais do que a boca), Droga! Acho que não esqueço a cabeça porque está grudada.

Pressenti o velho esperando um pouco adiante no meio da calçada e tomei a direção oposta. O mar e o céu formavam agora uma única mancha azul-escura na luz turva que ia dissolvendo os contornos. Quase noite. Fui andando e pensando no filme inglês com os grandes candelabros e um certo palor vindo das telas dos retratos ao longo da escadaria. Na cabeceira da mesa, o velho de chambre de cetim escuro com o perfil esfumaçado. Nítido, o menino e sua metamorfose mas persistindo a palidez. E a graça do olhar que ria com o labiozinho curto.

No fim do ano, ao passar pelo pequeno restaurante resolvi entrar mas antes olhei através da janela, não queria encontrar o velho e o menino, não me apetecia vê-los, era isso, questão de apetite. A mesa estava com um casal de jovens. Entrei e Franz veio todo contente, estranhou a minha ausência (sempre estranhava) e indicou-me a única mesa desocupada. Hora do almoço. Colocou na minha frente um copo de chope, o cardápio aberto e de repente fechou-se sua cara num sobressalto. Inclinou-se, a voz quase sussurrante, os olhos arregalados. Ficou passando e repassando o guardanapo no mármore limpo da mesa, A senhora se lembra? Aquele senhor com o menino que ficava ali adiante, disse e indicou com a cabeça a mesa agora ocupada pelos jovens. Ich! foi uma coisa horrível! Tão horrível, aquele menininho, lembra? Pois ele enforcou o pobre do velho com uma cordinha de náilon, roubou o que pôde e deu no pé! Um homem tão bom! Foi encontrado pelo motorista na segunda-feira e o crime foi no sábado. Estava nu, o corpo todo judiado e a cordinha no pescoço, a senhora não viu no jornal?! Ele morava num apartamento aqui perto, a policia veio perguntar mas o que a gente sabe? A gente não sabe de nada! O pior é que não vão pegar o garoto, ich! Ele é igual a esses bichinhos que a gente vê na areia e que logo afundam e ninguém encontra mais. Nem com escavadeira a gente não encontra não. Já vou, já vou!, ele avisou em voz alta, acenando com o guardanapo para a mesa perto da porta e que chamava fazendo tilintar os talheres. Ninguém mais tem paciência, já vou!...

Olhei para fora. Enquadrado pela janela, o mar pesado, cor de chumbo, rugia rancoroso. Fui examinando o cardápio, não, nem peixe nem carne. Uma salada. Fiquei olhando a espuma branca do chope ir baixando no copo.
 
 
 
Lygia Fagundes Telles


O texto acima foi extraído do livro "Invenção e Memória", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 2000, pág. 69.