quarta-feira, 30 de abril de 2014

Hora do recreio

O Joãozinho vai com sua irmã visitar sua Avó. Lá, ele pergunta:
— Vovó, como é que as crianças nascem?
— Bem, a cegonha traz as criancinhas no bico, meus netinhos…
Joãozinho cochicha para sua irmã:
— E aí, o que é que você acha? Contamos a verdade pra ela?

Foto do dia

Na Ucrânia, criança segura arma de soldado pró-Rússia.
Foto: Vasily Maximov / AFP

Soneto

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ele dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonho se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
 
Manuel Antônio Álvares de Azevedo (São Paulo, 12 de setembro de 1831- Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852) - Além de poeta, foi contista, ensaísta e dramaturgo. Ligado à segunda geração do romantismo, é patrono da cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras.

Frase

"Lamento profundamente que um ex-presidente da República tenha escolhido um órgão da imprensa estrangeira para questionar a lisura do trabalho realizado pelos membros da mais alta Corte da Justiça do País. A desqualificação do Supremo Tribunal Federal, pilar essencial da democracia brasileira, é um fato grave que merece o mais veemente repúdio.
 
 
Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal

terça-feira, 29 de abril de 2014

Contra o racismo: Somos todos macacos!

Hoje tem marmelada?
Tem sim, senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem sim, senhor!
E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulher!

O Circo São Luiz chegou! Está armado ali no pátio da velha estação ferroviária onde apresenta seus espetáculos desde a última sexta-feira. Ontem, como sempre faço, fui com o meu filho prestigiar os artistas mambembes. Já disse aqui que procuro ir a todos os espetáculos que chegam na cidade ou na vizinhança. Essa fascinação talvez se explique pelo fato de me considerar, de certo modo, um palhaço frustrado.
 
O curioso é que ainda não tinha visto um circo com nome de Santo, esse é o primeiro.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.



Fernando Pessoa

Cinema paradiso - Yo Yo Ma and Chris Botti


Imagem

Fiéis acompanham, no Vaticano, canonização de João Paulo 2º e João 23.
Foto: Associated Press

O direito de comer

Aqui é Bolsa Família. Na Inglaterra são os Food Banks, bancos de comida. A ideia é a mesma. Usar o orçamento público, dinheiro do governo, direta ou indiretamente, para dar de comer a quem tem fome.
 
Recentes estatísticas inglesas surpreenderam. No último ano cerca de 1 milhão de ingleses tiveram que procurar em algum momento o Food Bank para comer. Aumento de 163% comparado com o ano anterior.
 
Seiscentos líderes religiosos e comunitários se dirigem ao primeiro ministro David Cameron. Defendem que a política econômica do governo que provoca desemprego e fome é contra os direitos humanos.
 
Ou seja, fome não é problema de brasileiro ou africano. Nem o Bolsa Família uma extravagância. É política social compensatória, inclusive no mundo dos desenvolvidos. A causa é o desemprego.
Berlim passou lei recente. Imigrantes legais, se ficarem mais de seis meses desempregados, viram ilegais. São deportados. Exporta-se assim a violação dos direitos humanos.
 
Evidentemente que não se pode comparar o nível de pobreza entre ingleses e brasileiros. Um pobre inglês é quase classe média no Brasil. O salário desemprego lá é de quase mil reais.
 
A diferença é que no Brasil o Bolsa Família dá de comer a quem não comia. Na Inglaterra, o banco de comida faz o contrário. Mata a fome de quem já comia. Fica-se sem saber quem avança e quem retrocede.
 
Um dos índices para orientar a política econômica chama-se Misery Index, que em português seria índice de miséria. Integrado pelos índices de inflação e desemprego. Não vale um cair e outro subir. Ambos tem que cair para o índice de miséria melhorar.
 
Mas para isto seria necessário uma política econômica que não se satisfizesse com a fome e o desemprego, mesmo temporários. A fome causa danos psicológicos e físicos irreversíveis às vezes. Este ponto deveria ser o objetivo maior inclusive das análises e teorias econômicas.
 
Há um esforço mundial de colocar o emprego como principal objetivo da política econômica. O que acabaria com a fome. Mas não se sabe ainda como.
 
Joaquim Falcão
Do Blog do Noblat

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Comercial antigo dos cotonetes Johnson (1978)


Foto do dia

Planta nasce em meio ao carvão. Foto: Elias Junior Minasi / BBC Brasil

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
 
Ruy de Moura Belo (São João da Ribeira, Rio Maior, Portugal, 27 de fevereiro de 1933 - Queluz, 8 de agosto de 1978) - Além de poeta, foi contista e ensaísta. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de Doutor pela Universidade Gregoriana de Roma. Também foi tradutor de Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.
"A música é a voz do espírito e tudo aquilo que o homem tem no coração, mas que não pode dizer com palavras."
 
 
Eça de Queiroz

domingo, 27 de abril de 2014

sábado, 26 de abril de 2014

Imagem do dia

Portugueses comemoram 40 anos de liberdade após a Revolução dos Cravos.
Foto: Patrícia de Melo Moreira / AFP
"A velhice não me espanta.
Carro de boi
quanto mais velho,
mais canta."


Zé da Luz
(Poeta paraibano)

Confissão de caboclo


Versículos do dia

Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar. Jeremias 22:3
 
Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos. Hebreus 13:2

Aos homens maduros

Há uma indisfarçável e sedutora beleza na personalidade de muitos homens que hoje estão na idade madura. É claro que toda a regra tem as suas exceções, e cada idade tem o seu próprio valor. Porém, com toda a consideração e respeito às demais idades, destacarei aqui uma classe de homens que são companhias agradabilíssimas: os que hoje são quarentões, cinquentões e sessentões.
 
Percebe-se com certa facilidade, a sensibilidade de seus corações, a devoção que eles têm pelo que há de mais belo: o sentimento.
 
Eles são mais inteligentes, vividos, charmosos, eloqüentes. Sabem o que falam, e sabem falar na hora certa. São cativantes, sabem fazer-se presentes, sem incomodar. Sabem conquistar uma grande amizade.
 
Em termos de relacionamento, trocam a quantidade pela qualidade aguçada sobre os valores da vida, sabem tratar uma mulher com respeito e carinho.
 
São homens especiais, românticos, interessantes e atraentes pelo que possuem na sua forma de ser, de pensar, e de viver.
 
Na forma de encarar a vida, são mais poéticos, mais sentimentais, mais emocionais e mais emocionantes.
 
Homens mais amadurecidos têm mais desenvoltura no trato com as mulheres, sabem reconhecer as suas qualidades, são mais espirituosos, discretos, compreensivos e mais educados. A razão pela quais muitos homens maduros possuem estas qualidades maravilhosas deve-se a vários fatores: a opção de ser e de viver de cada um, suas personalidades, formação própria e familiar, suas raízes, sabedoria, gastos individuais, etc.
 
Mas eu creio que em parte, há uma boa parcela de influência nos modos de viver de uma época, filmes e musicas ouvida e curtidas deixaram boas recordações da sua juventude, um tempo não tão remoto, mas que com certeza, não voltam mais.
 
Viveram a sua mocidade (época que marca a vida de todos nós) em um dos melhores períodos do nosso tempo: os anos 60/70. Considerados as “décadas de ouro” da juventude, quando o romantismo foi vivido e cantado em verso e prosa.
 
A saudável influência de uma época, provocada por tantos acontecimentos importantes, que hoje permanecem na memória, e que mudaram a vida de muitos. Uma época em que o melhor da festa era dançar agarradinho e namorar ao ritmo suave das baladas românticas. O luar era inspirador, os domingos de sol eram só alegrias.
 
Ouviam Beatles, Johnny Mathis, Roberto Carlos, Antônio Marcos, The Fevers, Golden Boys, Bossa Nova, Marres Albert, Jovem Guarda e muitos outros que em balaram suas “jovens tardes de domingo, quantas alegrias! Velho tempo, belos dias”.
 
Foram e ainda são os Homens que mais souberam namorar: namoro no portão, aperto de mão, abraços apertadinhos, com respeito e com carinho, olhos nos olhos tinham mais valor...
 
A moda era amar ou sofrer de amor.
 
Muitos viveram de amor...
 
Outros morreram de amor...
 
Estes Homens maduros de hoje, nunca foram Homens de “ficar”.
 
 Ou eles estavam a namorar pela certa, ou estavam na “fossa”, ou estavam sozinhos. Se eles “ficassem”, ficariam para sempre... ao trocar alianças com suas amadas.
 
 Junto com Benedito de Paula, eles cantaram a “Mulher Brasileira em primeiro lugar”!
 
 A paixão pelo nosso país, era evidente quando cantavam: “As praias do Brasil, ensolaradas, no céu do meu Brasil, mais esplendor... A mão de Deus abençoou, mulher que nasce aqui, tem muito mais amor... Eu te amo, meu Brasil, eu te amo. Ninguém segura a juventude do Brasil... sil... sil.”
 
 A juventude passou, mas deixou “gravado” neles, a forma mais sublime e romântica de viver.
 
 Hoje eles possuem uma “bagagem” de conhecimentos, experiências, maturidade e inteligência que foram acumulando com o passar dos anos. O tempo se encarregou de distingui-los dos demais: deixando seus cabelos cor de prata, os movimentos mais suaves, a voz pausada, porém mais sonora, hoje eles são Homens que marcaram uma época.
 
Eu tenho a felicidade de ter alguns deles como amigos virtuais, mesmo não os vendo pessoalmente, percebo estas características através de suas palavras e gestos.

 
Muitos deles hoje “dominam” com habilidade e destreza essas máquinas virtuais, comprovando que nem o avanço da tecnologia lhes esfriar os sentimentos pois ainda se encantam com versos, rimas, músicas e palavra de amor. Nem lhes diminuiu a grande capacidade de amar, sentir e expressar seus sentimentos. Muitos tornaram-se poetas, outros amam a poesia.
 
Por que o mais importante não é a idade denunciada nos detalhes de suas fisionomias e sim os raros valores de suas personalidades. O importante é perceber que seus corações permanecem jovens...
 
São Homens maduros, e que nós, mulheres de hoje, temos o privilégio de admirá-los.
 
 
Zélia Gatai

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Velha história - Mário Quintana


Humor

A professora pergunta para os alunos: - Quem é que quer ir par ao céu? Todos levantam a mão, menos o Joãozinho. - E você Joãozinho? Não quer ir para o céu? - Querer eu quero, mas a minha mãe falou que depois da aula era para eu ir direto para casa!

As mil e uma noites


Estou me entregando ao prazer ocioso de reler As mil e uma noites. O encantamento começa com o título que, nas palavras de Jorge Luis Borges, é um dos mais belos do mundo. Segundo ele, a sua beleza particular se deve ao fato de que a palavra mil é, para nós, quase sinônimo de infinito. "Falar em mil noites é falar em infinitas noites. E dizer mil e uma noites é acrescentar uma além do infinito."

As mil e uma noites são a estória de um amor - um amor que não acaba nunca. Não existe ali lugar para os versos imortais do Vinícius (tão belos que o próprio Diabo citou em sua polêmica com o Criador) : "Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure..." Estas são palavras de alguém que já sente o sopro do vento que dentro em pouco apagará a vela: declaraç ão de amor que anuncia uma despedida.

Mas é isto que quem ama não aceita. Mesmo aqueles em quem a chama se apagou sonham em ouvir de alguém, um dia, as palavras que Heine escreveu para uma mulher: ''Eu te amarei eternamente e ainda depois." É preciso que a chama não se apague nunca, mesmo que a vela vá se consumindo. A arte de amar é a arte de não deixar que a chama se apague. Não se deve deixar a luz dormir. É preciso se apressar em acorda -la (Bachelard). E, coisa curiosa: a mesma chama que o vento impetuoso apaga volta a se acender pela carícia do sopro suave...

As mil e uma noites são uma estória da luta entre o vento impetuoso e o sopro suave. Ela revela o segredo do amor que não se apaga nunca.

Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não podia viver sem o amor de uma mulher. Mas também não podia suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que iria se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor, mandaria decapitá-las. Assim o amor se renovaria a cada dia em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo. Espalham-se logo, pelo reino, as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real: as jovens desapareciam, logo depois da noite nupcial. Sherazade, filha do vizir, procura então o seu pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: desejava tomar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguardava, pois ele mesmo era quem cuidava das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.

A forma como o texto descreve a jovem Sherazade é reveladora. Quase nada diz sobre sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de toda espécie, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara os provérbios popu lares e as
sentenças dos filósofos.

E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, quando o fogo do amor carnal já se esgotara no corpo do esposo, quando só restava esperar o raiar do dia para que a jovem fosse sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras penetram os ouvidos vaginais do sultão. Suavemente, como música.

O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra nos vazios da alma. Segundo antiqüíssima tradição, foi assim que o deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo divino, penetrando os ouvidos encantados e acolhedores de uma Virgem.

O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabia que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo se tenha esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada: não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se haviam apagado, Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, como nenhuma outra. Porque uma pessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela...

Conta a estória que o sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais.

Não se trata de uma estória de amor, entre outras. É, ao contrário, a estória do nascimento e da vida do amor. O amor vive neste sutil fio de conversação, balançando-se entre a boca e o ouvido. A Sônia Braga, ao final do documentário de celebração dos 60 anos do Tom Jobim, disse que o Tom era o home m que toda mulher gostaria de ter. E explicou: ''Porque ele é masculino e feminino ao mesmo tempo...'' o segredo do amor é a androgenia: somos todos, homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsa-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há cenas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.

As mil e uma noites são a estória de cada um. Em cada um mora um sultão. Em cada um mora uma Sherazade. Aqueles que se dedicam à sutil e deliciosa arte de fazer amor com a boca e o ouvido (estes órgão s sexuais que nunca vi mencionados nos tratados de educação sexual...) podem ter a esperança de que as madrugadas não terminarão com o vento que apaga a vela, mas com o sopro que a faz reacender-se.
 
 
Rubem Alves
 

Bêbado defende Jesus em encenação da paixão de Cristo


O livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.

(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'

Quando morre um homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?
 
Ruy de Moura Belo (São João da Ribeira, Rio Maior, Portugal, 27 de fevereiro de 1933 - Queluz, 8 de agosto de 1978) - Além de poeta, foi contista e ensaísta. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de Doutor pela Universidade Gregoriana de Roma. Também foi tradutor de Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca

Choveu acima da média no sertão, diz AESA

A Agência Executiva de Gestão das guas da Paraíba (Aesa) registrou chuvas acima da média histórica em cinco cidades do Sertão paraibano. Os índices pluviométricos contabilizados do início de janeiro até a terceira semana de abril ultrapassaram os números esperados em Santa Teresinha (média de 683,4 mm e 745,8 mm acumulados), Princesa Isabel (média de 560,5 mm e 733,2 mm acumulados), Cajazeiras (média de 690.9 mm e 718 mm acumulados), Patos (média 559.6 mm e 702,5 mm acumulados) e Bom Jesus (média de 623.1 mm 679,4 mm acumulados).
 
Os índices foram divulgados nesta quarta-feira (23) na terceira edição do Informe Hidroclimático da Aesa. O boletim semanal, elaborado pelos meteorologistas do Governo do Estado, também ressaltou a concentração das chuvas nas regiões do Sertão e Alto Sertão em abril. “Nestas primeiras semanas, as precipitações permaneceram mais localizadas nos setores central e oeste do Estado. No Litoral, Brejo e Agreste, os registros de chuvas durante a última semana foram bastante escassos, pouco alterando nos totais acumulados do mês”, informou o gerente de Monitoramento e Hidrometria, Alexandre Magno.
 
Contudo, a tendência para os próximos meses é de que haja uma maior regularidade das chuvas sobre a faixa litorânea, onde a pluviometria pode variar entre normal e acima da média histórica, segundo a meteorologista Carmem Becker. “A temperatura da superfície do mar no oceano Atlântico mantém-se favorável à qualidade do período chuvoso do setor leste nordestino, que vai de abril e julho”, destacou.
 
 
O Informe Hidroclimático Semanal está disponível na internet, no site da Aesa (www.aesa.pb.gov.br), onde também são disponibilizados dois boletins meteorológicos diários, níveis dos 122 reservatórios monitorados pela Agência Estadual e informações sobre os Comitês de Bacias.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Charge do Amarildo

Quando ela tarda e falha

Bernardo
 
Se o assassinato do garoto Bernardo causou revolta pelo envolvimento do pai, da madrasta e da amiga do casal, principais suspeitos, também causou estranheza a inação da Justiça, que poderia ter evitado o crime se tivesse dado ouvido às denúncias da própria vítima.
 
Por duas vezes, o menino de 11 anos queixou-se da negligência do pai e pediu para morar com outra família. O Ministério Público chegou a encaminhá-lo à Justiça, que, no entanto, preferiu se sensibilizar com a promessa paterna de reatar os laços com o filho, dando-lhe uma segunda chance de convivência, em detrimento da avó, que pedia a guarda do neto.
 
Li duas declarações do juiz. Na primeira, ele lamentava ter sido “enganado”. Já, depois, disse que agira segundo sua “consciência” e não se sentia “responsável pela decisão”, pois partira do “pressuposto de que um pai não vai maltratar um filho”, como se a premissa não fosse discutível: há pais que não só maltratam os filhos como até os matam, o que tem acontecido desde que o mundo é mundo. Episódios de filicídio já aparecem na Bíblia, e a literatura policial e jurídica está repleta desse tipo de homicídio.
 
Essa história hedionda, que se passa numa pequena cidade do interior gaúcho, vem tendo repercussão nacional e apresenta aspectos nebulosos, como o suicídio da mãe do menino, em 2010, no interior da clínica médica do ex-marido, o pai de Bernardo, 72 horas antes de assinar o divórcio que lhe daria R$ 1,5 milhão e uma pensão de R$ 10 mil mensais.
 
Por isso e porque o adolescente teria direito a parte da herança da mãe e do pai, a polícia investiga a possível motivação financeira para o assassinato. A delegada ressalta a frieza dos dois suspeitos, o médico e sua atual mulher, que passaram a noite numa festa no dia seguinte à morte, “muito alegres, dando risadas e bebendo espumante”.
 
 
Leia a íntegra clicando aqui
 
 
Zuenir Ventura

O Globo

Espanholismos e italianismos

O português importou muitas palavras do espanhol, não só porque a Espanha era o país mais próximo, mas também porque, de 1580 a 1640, Portugal foi território espanhol, sob o governo da monarquia hispânica. Naquela época, o espanhol foi a segunda língua do povo e chegou a ser a primeira dos nobres portugueses. Vejamos algumas palavras invasoras. 
  
Cedilha
Em espanhol, a letra “z” é chamada de zeta ou zeda e tem o som de “ss”. Seu diminutivo em espanhol é cedilla, um pequeno “z”. No português arcaico, a letra “z” era usada entre o “c” e a vogal seguinte para que o “c” fosse lido com o som “ts”, em vez de“k” — cacza (caça), moczo (moço). Como na prática o encontro “cz” não pegou, passou-se a pôr um pequeno “z” embaixo da letra “c”. Depois esse pequeno “z” (cedilla em espanhol) se transformou num ganchinho. 
              
Galápagos
As ilhas Galápagos, hoje uma província do Equador, foram encontradas em 1535 pelo bispo espanhol Tomás de Berlanga. O arquipélago é famoso por sua fauna, principalmente pela variedade de galápagos, que são tartarugas de água doce. Galápago é cágado em espanhol.
 
Joanete
Veio do espanhol juanete, que é uma saliência no dedão do pé e que veio de Juanete, diminutivo de Juan, aí usado com menosprezo como nome de pessoa rude e pobre, gente que tem joanete. 
              
Puxa!
Veio da exclamação espanhola pucha! Em espanhol se xinga alguém de hijo de pucha. É isso, pucha é a suavização de um palavrão. Os espanhóis trocaram o “t” por “ch”. 
             
Raposa
Veio do espanhol raposa, que teria se originado do espanhol antigo rabosa, em referência ao grande e peludo rabo do animal.
 
Das línguas neolatinas, o italiano é a que mais ficou parecida com a mãe, o latim. Vejamos algumas contribuições curiosas do italiano para o nosso vocabulário. 
              
Bisteca
Veio do italiano bistecca. O inglês beef (origem de bife) significa: (a) boi, vaca ou touro criado para servir de alimento e (b) a carne desses animais. A palavra inglesa proveio do francês boeuf (boi, carne bovina), que, por sua vez, veio do latim bove (boi, vaca). Roast (assado) beef deu no português rosbife. E beef steak (fatia de carne bovina frita ou grelhada) originou o português bifesteque, que caiu em desuso, e o italiano bistecca. 
               
Espaguete
Veio do italiano spaghetti, barbantinhos. Spaguetti é o plural de spaghetto, que é o diminutivo de spago, barbante.

Esparadrapo
Do italiano sparadrappo, palavra formada de spare (rasgue) + drappo (o pano), já que antigamente se usavam panos para proteger as feridas. O italiano drappo veio do latim drappu, que também originou o português trapo.
 
Expresso
A palavra veio do latim expressu, espremido, comprimido. E o café expresso veio do italiano caffè espresso, que ficou com esse nome não por ficar pronto rapidamente, mas sim por ser feito pela compressão de vapor ou água fervente através de pequeníssimos grãos de café.
 
 
Palhaço
Veio do italiano pagliaccio, formado de paglia, palha (do latim palea). Antigamente a roupa do palhaço era feita do mesmo pano dos colchões: um tecido grosso, listrado. O tecido era afofado para proteger o artista nas quedas, tal como os colchões, que na época eram recheados de palha. Quer dizer, o palhaço era o próprio colchão ambulante.

Serenata
Veio do italiano serenata, que se originou de outra palavra italiana, sereno (orvalho), com a influência de sera (noite). Serenata séria se faz à noite, ao sereno.

DÚVIDAS DOS LEITORES
1ª) Quando é que se emprega a cerca (separado) ou acerca de (junto)?
Devemos usar “a cerca de” (separado) em duas situações: quando se refere a distância ou a tempo futuro. Observe os exemplos:

A CERCA DE (separado)
Estamos a cerca de dez quilômetros do vilarejo (distância)
Só voltaremos daqui a cerca de dez dias. (tempo futuro)
Só escrevemos ACERCA DE junto, quando significa “sobre, a respeito de”. Veja um exemplo:

ACERCA DE (junto)
Falávamos acerca das eleições. (=sobre as eleições, a respeito das eleições)

2ª) O correto é “perante V.Exa.". ou "perante a V.Exa.”?
O correto é “perante Vossa Excelência”. Perante já é preposição, portanto não devemos usar outra preposição, que seria a preposição “a”. E também não usamos artigo “a” antes das expressões de tratamento que não distinguem se é homem ou mulher. Por isso, basta dizer “perante Vossa Excelência”.
 
 
Sérgio Nogueira

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Roger, do Ultraje: “a gente não saiu da ditadura”

Com mais de meio milhão de seguidores no twitter e protagonizando o programa “The Noite”, no SBT, ao lado de Danilo Gentili, Roger Moreira, 57, está revivendo o sucesso.

Conhecido pelo deboche e pela verve iconoclasta, ganhou fama nos anos 80 à frente da banda de rock Ultraje a Rigor, emplacando hits como “Inútil”, “Mim quer tocar” ou “Nós vamos invadir sua praia”.
Depois Roger andou meio esquecido, com aparições pontuais nos holofotes como por exemplo em 99, por conta da edição da G Magazine que o trazia nu.

O programa “The Noite” estreou há um mês e vem ganhando uma boa audiência. Atingiu 5,5 pontos no ibope, quando a média no horário anterior a sua estreia era de 4. Já venceu Jô Soares por três vezes.

Para muitos, a parceria de Roger com Gentili, selada em 2010, quando este apresentava um talk show na Band, antes de levá-lo ao SBT, simbolizava a decadência do Ultraje. Mas Roger nunca considerou que a banda fosse mero apoio ao programa, como acontece com os músicos de Jô.

São várias suas intervenções durante as entrevistas. Há um mês a apresentadora Rachel Sheherazade cantou em duo com ele “Nós vamos invadir sua praia”, em um dos pontos altos do “The Noite”.

Fui entrevistá-lo no camarim do estúdio do programa, no SBT. A ideia era desfiar seu pensamento político, revisitando as letras de suas canções, que tanto sucesso fizeram em outro tempo. Eis a conversa:
*
Você ainda acha que “a gente somos inútil”?
Eu acho. Quando fiz essa música estava voltando dos Estados Unidos, onde fui morar em 79. Tomei um baque grande de ver o que era a democracia de verdade. A gente ainda estava no finzinho da ditadura, a maioria não fazia ideia e nem hoje faz do que seja realmente uma democracia. Tudo aqui é uma merda. Quando vamos mudar o padrão de uma tomada, ao invés de adotar o padrão internacional, inventamos um padrão esdrúxulo.

E o que é uma democracia?
Um governo orientado para satisfazer o povo, por exemplo. Não como aqui onde predomina o favor e o paternalismo. Lá, quando a população tem necessidade, ela exige que seja atendida. É o lance do capitalismo funcionando direito, todos têm chance. Cheguei como estrangeiro, só pegava empregos que ninguém queria como garçom, lavador de prato, diarista. Ganhava bem, levava uma vida boa. É o que acontece com qualquer brasileiro que vai para lá, ele aprende rapidamente porque é um passo pra cima. Lá ninguém joga lixo no chão. O problema é que quando o brasileiro volta pra cá, ele esquece disso.

Estamos numa democracia?
Estamos em uma democracia fingida como na Venezuela. Não é só porque tem votação que tem democracia. Não é porque a maioria quer que isso é democracia. A democracia prevê um embate das forças e alternância de poder. E aqui há diversos subterfúgios, inclusive de dar dinheiro pro povo, espécie de coronelismo que sempre existiu.

Então nos Estados Unidos a vida é melhor?
Morei lá com minha irmã, que tinha bronquite. Quantas vezes não fomos atendidos gratuitamente no hospital. Aqui não, se você vai ao hospital público vê todo mundo morrendo, deitado no chão. Eu não, claro, graças a Deus, porque tive estudos. Não por isso sou menos brasileiro, a esquerda está sempre tentando jogar uns contra os outros.

E por que você voltou, então?
Saí de lá sinceramente porque não queria essa vida pra sempre, não usava minha cabeça pro trabalho, era só o braçal. Também senti falta de minha cultura, mas na volta senti esse baque e comecei a notar que o Brasil não funciona por causa do brasileiro. Há um vício de colocar a culpa em alguém, de esperar que o governo resolva, de não assumir. Na letra de “Inútil” usamos o português errado, porque aqui não tem educação direito.

“A gente não sabemos escolher presidente”, ainda?
Ainda não. Praticamente todos os partidos estão do mesmo lado pra começo de conversa. Os políticos prometem de tudo e o povo brasileiro meio que aceita. A gente tem essa mania histórica de corrupção e preguiça, uma série de más qualidades que fingimos que não vemos. Em português claro, o brasileiro merece tomar uns pitos de correção e não tem quem vá fazer isso porque político só rouba e promete, e trata o povo como se fosse coitado. A segunda frase desta música é “a gente não sabemos tomar conta da gente”. A gente não sabe se administrar.

O que precisa ser feito?
A gente tem que tomar as rédeas do sistema. Mas está tão corrompido que a gente nem sabe qual é esse caminho.

O país melhorou?
Melhorou. A gente saiu de uma ditadura e passou a fazer eleição direta. Mas agora estamos regredindo rapidamente sem perceber, pro ponto que a gente estava.

Como assim?
Entrei na escola em 64, naquele tempo a aula de história era muito orientada, só os melhores momentos eram apresentados e ainda assim de forma deturpada. Hoje é assim só que ao contrário. Continua a deturpação, só que por outro lado.

Dê um exemplo.
O caso da Raquel Sheherazade, que foi afastada, em férias compulsórias durante um tempo por conta de uma ação movida pela deputada Jandira Feghali (PC do B). Então é censura, só que por outro lado. Parece que desde os anos 30 mudamos de uma ditadura para outra, sempre disfarçando de democracia.

Mas a Sheherazade pisou na bola?
Ela não falou nada de mais. Ela disse que era compreensível quando amarraram um ladrão no poste. Compreensível significa que eu entendo a revolta da população que não agüenta mais ser roubada. Não quer dizer que eu ache que todo ladrão deva ser amarrado, mas interpretaram dessa maneira.

Você acompanhou os protestos de junho?
Não tenho mais idade para isso. Mas apoiei, achei legal. Pena que esvaziaram de maneira brilhante colocando black blocs na rua e com os políticos convocando reuniões, como sempre fazem. Vamos mudar de assunto, nada aconteceu, agora tem Copa e carnaval, tem sido assim de ditadura em ditadura.

O governo Lula foi bom para o Brasil?
Sinceramente acho que foi ruim, o que ele fez foi manter a inflação estabilizada com um programa que vinha do governo anterior. O que ele mais fez foi demagogia o tempo inteiro. Dizem que elevou a classe c mas pra falar a verdade não sei se isso não aconteceria naturalmente com o dinheiro estabilizado.

A ascensão da classe c não é um avanço?
Sem dúvida. Mas o pessoal acha que isso aconteceu porque o governo foi bonzinho com a gente. E pensam assim, “agora não sou mais miserável, porque posso comprar TV”. Errado, o contrário da miséria é o conhecimento, não é só comer e tal. Lula botou na cabeça do brasileiro essa luta de classes que não era pra existir. Fez o povo acreditar que quem tem dinheiro é contra os pobres.

E Dilma?
Se o país estivesse progredindo ok, mas não está. Estamos parados. E o Bolsa Família, que era para ser um analgésico, vai continuar para sempre, para garantir os 40% de votos que ela necessita para ser reeleita.

Como você se define politicamente?
Voto normalmente pra coisa ficar equilibrada. Esse é o segredo da democracia, se o poder está pendendo muito pra direita, é bom calibrar um pouco pra esquerda, e vice-versa. De todo jeito, sou mais pelo indivíduo do que pelos grupos – na coletividade, sempre tem a desculpa de que “a culpa não é minha, é do grupo”.

O que você defende?
Como força política acredito no liberalismo capitalista. Vivi isso, sei que funciona e não é só nos Estados Unidos. Na China, que é comunista, investiram pesado e estão na liderança do mundo. Gosto da ideia de que quanto menos interferência do Estado, melhor. Ele tem que regular, fiscalizar, mas não gosto da burocracia.

Que reflexão faz sobre os 50 anos do golpe militar?
Após tantos anos de ditadura criou-se a ideia de que a esquerda é tudo de bom, de que é boazinha e tal. Não vejo assim. Qualquer esquerda, não só a brasileira, é uma merda falida, com uns exemplos como Fidel Castro que socializou a miséria. Todo mundo quer é igualdade na riqueza. Isso não é fútil, as pessoas querem conforto e serviços. Agora aqui todo mundo só quer o direito, não quer os deveres.

E o que dizer sobre a direita?
A direita aqui é inexistente. A esquerda gosta de associar a direita a torturadores militares ou a Hitler, como se eles fossem o único tipo. Mas veja não sou de direita, tenho valores da direita e da esquerda, por incrível que pareça.

Exemplos.
Por exemplo cultivo um valor de direita que é a honestidade. A esquerda acha que tudo bem você ser desonesto, pra fazer supostamente um bem maior. A meritocracia por exemplo também é uma coisa mais à direita e acho que está certo. Agora, quando você não tem as mesmas chances, aí estou mais pra esquerda. Outra posição de esquerda: hoje em dia acho que deveria liberar a maconha porque não vejo muita diferença entre ela e o álcool. Não uso mais, nenhum dos dois.

Como viveu o período da ditadura?
Olha eu cresci durante a ditadura, mas não via nada disso. Tive uma infância super tranquila. Já na adolescência comecei a saber sobre bombas e atentados, mas não tinha conhecimento político, pois não se falava a respeito na escola e meus pais não eram tão ligados. Eu ouvia falar em terrorismo, comunismo e subversivos, pra mim era tudo mais ou menos a mesma coisa. Mas quando comecei a prestar atenção, percebi que havia receita de bolo nos jornais ou um filme que demorava muito para chegar.

Agora, naquele tempo a gente falava a mesma coisa que hoje em dia: não há interesse em dar educação ao povo porque quanto mais burro, mais fácil de controlar. Então vou dizer que era muito mais seguro nas ruas naquele tempo. Meus pais não sofreram perseguição e nem seus amigos. A gente só sabia que estavam censurando. Só fui conhecer mesmo a realidade no colegial, e depois na faculdade. Não estou elogiando a ditadura. Já era ruim só que hoje é a mesma coisa.

A mesma coisa?
Hoje em dia me parece que piorou até, porque tem censura também, e antes não tinha o brasileiro contra o brasileiro como tem hoje em tudo que é lugar. O deputado Jean Willys por exemplo, talvez tenha boas intenções mas acho ele uma besta, sinceramente. Isso que ele faz é incitação de classes, não sei se conscientemente ou não, de gay contra hétero, de homem contra mulher, de pobre contra rico.
mais
mais ‘selfies’…
Será? Você parece muito desiludido.
A gente achava por exemplo que não ia mais ter “Hora do Brasil”, e continuou. Por que? Assim como o horário gratuito eleitoral. A geração de 80 foi muito feliz porque todo mundo achava que ia sair da idade das trevas, que haveria um progresso, lutando pela democracia. Mas a gente não saiu da ditadura e agora estamos vivendo um período de ditadura do proletariado. Estão aparelhando tudo, roubando paca. Tanto tempo no poder é perigoso. Pra mim tanto faz porque estou com a vida ganha de certa forma, tenho uma vida de classe média alta porque graças a Deus trabalhei por 30 anos e soube economizar.

Você sofre preconceito na classe artística por conta de suas opiniões?
Não, pra minha surpresa a maioria está do meu lado. Tem um ou outro enganado que foi pro outro lado. Naturalmente estou mais próximo dos artistas de minha geração, como a turma do Casseta, o Lobão, Paralamas. Entre a velha guarda a convivência é pacífica.

Como era nos anos 80?
Naquele tempo estávamos todos do mesmo lado contra a ditadura. Hoje em dia ganhei consciência da ditadura quando comecei a dar minhas opiniões no twitter. De repente apareceu uma patrulha ideológica de esquerda, cheia de militante virtual, que eu não sabia que existia. Sempre falei mal do governo mas agora estão me xingando. É ridículo.

Você lê muito? Como se informa?
Já li muito. Andersen, Grimm, quando criança. Muito gibi. No colegial li coleções inteiras sobre filósofos, muita ficção científica e muitas crônicas. Hoje em dia quase não consigo ler pois tenho déficit de atenção. Começo vários livros mas não termino nenhum. Mas leio jornais e fico na internet vendo links e blogs.

Como você e Danilo Gentili se conheceram?
Quando o Danilo me convidou, em 2010, para seu programa na Band, a gente só se conhecia de twitter. E eu lhe disse, ‘estou quase que me aposentando, já estou brecando na vida, enquanto você está acelerando’.

Qual seu papel no programa?
É servir de contraponto pro Danilo, fazer umas piadas, e basicamente apresentar convidados com a parte musical. Estou adorando pois era fã do ‘The Late Show’ do David Letterman e já sabia o que tinha que fazer no ar. O Ultraje já vivia tirando sarro com um espírito de fundão de escola no ginásio. Encontramos o ambiente propício para fazer a mesma coisa na TV. É bem menos tedioso que fazer show.

Que acha do programa do Jô?
Assistia bastante. Ele aumentou a parte de entrevistas e tal, com relação ao formato do ‘Late Show’. Já o Danilo está chegando mais perto do formato original. Nossa função no programa é muito maior. Embora o programa seja do Danilo, ele funciona justamente porque tem uma turma de pessoas que se identifica com o ambiente. Temos afinidade nas ideias. E não é tudo centralizado no Danilo, nem é objetivo dele, eu por exemplo tenho liberdade de falar o que quiser a qualquer hora. Se a entrevista não está indo bem por exemplo, se o entrevistado é tímido ou só responde monossílabo, a gente interfere.
 
 
Por Morris Kachani
 

Libertango, por Filarmônica de Moscou


A outra saída do homem da África

Uma análise da diversidade genética e das medidas cranianas de 10 populações africanas e asiáticas indica que os humanos se dispersaram para fora da África em duas etapas, e que a primeira delas foi muito antes do que se pensava.
 
A segunda migração, que dispersou os humanos pelo norte da Eurásia há 50.000 anos, deve corresponder àquilo que se conhecia até agora como a única saída da África. Mas, segundo o estudo da Universidade de Tübingen, ela foi precedida por uma migração muito anterior, que começou há 130.000 anos e da qual descendem os atuais aborígenes australianos e os habitantes de Papua-Nova Guiné e das ilhas da Melanésia.
 
A ideia simples de que a humanidade que vive fora da África procede de uma pequena população que saiu desse continente há 50.000 anos está sofrendo notáveis revisões. Primeiro como consequência de achados arqueológicos que revelaram a presença de humanos na Arábia e no Oriente Médio antes dessa data.
 
E, segundo, pelas comparações dos genomas das populações atuais de todo o mundo, que mostram um quadro bem mais complicado do que se pensava. E não só pelos cruzamentos dos humanos modernos com os neandertais e denisovanos.
 
Leia mais clicando aqui
 
 
El País

Ariano e o aeroporto de Brasília

Houve quem me achasse exagerado quando eu disse que o aeroporto de Brasilia está um caos. Disse e não retiro o que disse. Só quem passa por lá, sabe e sente o drama. Como sentiu o nosso Ariano Suassuna. Cansado de esperar pelo vöo que jamais chegava, o velho dramaturgo e escritor não contou conversa: deitou no chão e tratou de descansar o corpo.
 
Brasília receberá sete jogos da copa do mundo no próximo mês de junho.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Felicidade com poucos bens

Embora a experiência me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse à natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto à natureza das suas alegrias: elas, efectivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal império ou em tal morada ou em tal propriedade. Para já, pode acontecer que eles, na abastança, se enganem com maior facilidade e façam circular mais vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada, sabem muito bem donde lhes vêm as alegrias e é-lhes assim mais fácil salvarem a própria fonte do seu fervor.


Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

O erro poético

O erro pode ser fonte de criação e de fagulha poética. Até mesmo o erro produzido por ignorância ou desinformação. João Saldanha contou numa crônica a discussão que viu num ônibus entre dois sujeitos e um deles afirmava com veemência: “Você é um indivíduo sem crepúsculo!”. Se eu ouvisse isso, ficaria maravilhado com a finura de percepção poética do litigante. Um indivíduo que não tem crepúsculo é decerto um indivíduo que não conhece sutilezas, transições... Uma beleza, se bem que Saldanha adverte que o cara na verdade quis dizer “sem escrúpulos”. Não muito diferente do locutor de uma rádio de Campina que escutei, após a conquista de um título pelo Treze, berrar entusiasmado ao microfone: “A torcida do Galo está comemorando enfurecida!” Pelo contexto, acho que ele quis dizer “eufórica”, mas euforia é assim, às vezes ela se sabota a si mesma.


Em outras situações de erros desse tipo – quando estamos ouvindo, e não falando – a palavra que entendemos mal cria um ruído em nossa mente e nosso primeiro esforço é para corrigir esse ruído, transformando a palavra que não faz sentido em algo que nos é familiar. Uma vez eu estava no aeroporto e havia umas senhoras idosas, visivelmente novatas em voos aéreos, pedindo explicações sobre como proceder para embarcar. A moça da empresa disse a uma: “Primeiro, a senhora precisa fazer o check-in”, e mostrou um bilhete de embarque que tinha na mão. A senhora voltou para junto das amigas e disse: “Ele disse que tem que fazer o chequinho, ter que ir no balcão e pegar aquele chequinho ali” – e macacos me mordam se naquele tempo um bilhete de embarque não tinha mesmo o formato de um cheque bancário.

Philip K. Dick dizia que nossa mente tem sede de sentido, sede de que as coisas tenham significado, de que o inexplicável possa ser explicado, não importa como. Em outra situação, vi duas pessoas novatas tentando acessar um saite na Web. Uma delas disse: “Eles falaram que a gente tem que clicar nesse espaçozinho ali em cima e escrever a URL.” A outra, estranhando: “A o quê?” “A URL, foi o que eles disseram.” (Como se sabe, URL quer dizer ‘Uniform Resource Locator”, é aquele endereço começando por “http” que a gente digita para chegar onde quer chegar.) A outra num esforço de tradução, perguntou, intrigada: “A arruela?...”, e fez com os dedos a forma circular do objeto. E a primeira, visivelmente aliviada, repetiu o gesto e disse: “Sim! A arruela! É como um link!”. E é desse jeito que acabamos chegamos ao destino certo por vias tortas, e mesmo virando à direita ao sair da porta podemos dar a volta ao quarteirão e chegar no prédio vizinho à nossa esquerda. Tipo assim.
 
 
Bráulio Tavares
(mundo fantasmo)

segunda-feira, 21 de abril de 2014


Frase

"Como cidadão acho que minha posição é a de todos. Não conheço ninguém que seja a favor do aborto


Eduardo Campos, pré-candidato à Presidência
Foto: Cherchez la femme

domingo, 20 de abril de 2014

Sucesso de 1988


Neném Pelado

Neném Pelado ajeita a cabeleira negra. Cabelo pintado, "que o homem tem de prezar a aparência". E ri sacudindo o queixo, o maxilar toureando a dentadura dentro da boca. Nasceu Silício, o nome que o pai alfaiate ouviu num programa de rádio e achou lindo. Mas Silício - para desgosto do pai - ninguém guardava. O molequinho, que andava nu por entre as tiras de gabardine e tafetá espalhadas no chão da oficina, virou, então, Neném Pelado.
 
A ninguém mais causam estranheza a longevidade e a incongruência do apelido aplicado ao homem de setenta anos. É assim que os vizinhos o chamam e é assim que é conhecido em Jessiape, cidadezinha baiana às margens do rio Contas, no sopé da Chapada Diamantina.
 
Neném Pelado me recebe na porta, muito bem-composto, com sandálias, bermuda de tergal e uma camiseta do São Paulo Futebol Clube. Não por ser torcedor, mas porque gosta de vestir branco.
 
Com o dedo, aponta para a placa pregada no coqueiro do quintal: Jardim do Éden. O paraíso idílico de chão batido tem escassos atrativos. Um toldo de lona protege um colchão puído do rigor do adobe, inacabado e tosco, Neném Pelado mantém inabitado.
 
- Só sou digno de morar ali quando encontrar o que procuro - diz, entrando comigo no casebre para explicar melhor.
 
Banheiro, sala, cozinha, todos os cômodos órfãos de vida e mobília, peças vazias, empoeiradas. Todos, menos um. No único quarto, há uma cama branca coberta com uma colcha de cetim cor-de-rosa e adornada por almofadas em forma de coração. Na parede, gravuras com paisagens alpinas. Sobre o criado-mudo, um pequeno abajur florido.
 
- É para o meu amor - esclarece, voltando para o exílio autoimposto de um Éden sem Eva.
 
Deita-se no colchão e, debaixo do toldo, mostra a carta que escreveu para a rádio da cidade: "Senhor distinto procura coração solitário...".
 
Oh, damas da Bahia, ouvi o apelo do romântico cavalheiro de Jussiape, salvai a humanidade inteira, fazei soar nas ondas do rádio o golpe fatal a extirpar a solidão do vale do rio Contas, pois, sobre a cama, há uma colcha de cetim para acomodar todo o amor do mundo.
 
 
Marcelo Canellas, in Províncias. Crônicas da alma interiorana, pag. 49