quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Pedras contra policiais israelenses

Foto: EFE / Lior

Um rapaz lança pedras em policiais israelenses durante manifestação palestina de protesto no campo de refugiados de Shuafat nos arredores de Jerusalém.

Há algumas imagens que parecem não comportar mais nenhuma palavra, e essa foto é uma delas. Ela nos mostra quão dificil é celebrar a paz neste momento, nos dois lados do mundo.

- Quem Deus toque o coração do homem nesse novo ano que chega.



Em 28 cidades, prefeitos mais votados não assumirão


De Carolina Brígido, Isabel Braga e Flávio Tabak em O Globo:


Em pelo menos 28 cidades brasileiras, os candidatos que obtiveram o maior número de votos nas urnas não assumirão as prefeituras. No lugar de seis deles, tomarão posse o segundo colocado.

Em 19 cidades, serão convocadas novas eleições. E, em três locais, a situação ainda está indefinida: ontem, a dois dias da posse, a Justiça ainda não havia decidido se o vencedor assumiria o cargo ou não.

O levantamento foi feito com base em informações referentes a 12 estados, prestadas por Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ilustração - Chapeuzinho Vermelho, de Doré


A história de Chapeuzinho Vermelho a que nos habituamos, não é a versão de Charles Perrault. A lenda da menina que se depara com o lobo na floresta, e que circulava oralmente por toda a Europa havia muitos e muitos anos, recebeu de Perrault não só tratamento literário, como um fundo moral acentuado: em quem e como confiamos, é o que determinará as conseqüências que sofreremos.

Gustave Doré, o grande ilustrador francês do século XIX, autor de algumas das mais famosas gravuras de todos os tempos, como as que fez para a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, captou perfeitamente bem o espírito da trágica história de Chapeuzinho Vermelho na versão de Perrault. O olhar curioso e meio assustado da menina, o lobo mal disfarçado de avó, os contrastes e matizes que consegue, a dramatização rebuscada, fazem dessa lâmina um dos mais característicos exemplos do talento de Doré.

O lobo é um predador natural na floresta e é mais natural aqui do que bruxas ou ogres. É quase sempre uma metáfora para o homem sexualmente predador. A maioria das versões posteriores procura omitir a conotação sexual do convite do lobo disfarçado de avó: “Venha deitar-se ao meu lado”. Mas como nos mostra Doré, Charles Perrault conta a história de modo realista, confirmando seu conselho de que não se deve falar com estranhos.

Não aparece caçador algum, e o lobo acaba por devorar a menina.

Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para o livro “Contes de Perrault”, edições Stahl-Hetzel, 1862

Fontes: http://en.wikipedia.org/wiki/

http://lescontesdefées.free.fr

www.pitt.edu/~dash/perrault.html

http://www.surlalunefairytales.com/

O massacre no gueto de Gaza

Foto: AL/El Pais

Funeral no campo de refugiados de Jabalia. Pai carrega o corpo de uma das cinco filhas mortas por conta dos bombardeios lançados por Israel.
Enquanto o Ocidente esperava a chegada do Papai Noel e a vinda de 2009, homens, crianças e mulheres civis são mortos na faixa de Gaza numa guerra de intolerância e incompreensão religiosa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Governo e Congresso vão ignorar início da reforma ortográfica

da Folha Online

O governo federal, o Senado e a Câmara dos Deputados vão ignorar o início da vigência do acordo ortográfico, concebido para unificar a grafia da língua por países que falam e escrevem português (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal), informam as repórteres Andreza Matais e Simone Iglesias em reportagem publicada na edição desta terça-feira da Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).

Se passar a escrever "idéia" sem acento a partir do dia 1º de janeiro vai parecer estranho, pior será a confusão causada com as novas regras de português e as atuais coexistindo.

Apenas o Supremo Tribunal Federal vai cumprir as novas regras desde o início. O órgão passou os últimos três meses treinando técnicos e revisores para que todos os documentos produzidos passem a ser redigidos pela nova norma no primeiro dia de 2009, como está definido em decreto.

Apesar de terem regulamentado o acordo e o início de sua vigência para 1º de janeiro, o Executivo federal e o Congresso não se prepararam para cumprir imediatamente a sua própria decisão. O acordo ortográfico foi assinado em 1990, mas regulamentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva dia 29 de setembro deste ano, por meio de um decreto.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

sábado, 27 de dezembro de 2008

Sobre esquimós e larápios


Dizem que os esquimós têm 32 diferentes palavras para descrever a neve, elemento onipresente em sua vida. Não sei quantas temos, no Brasil, para falar de desonestidade, mas – para início de conversa – além de ladrão e corrupto, me ocorrem meliante, gandaia, bandalheira, larápio, picareta, maracutaia, batedor de carteira, gatuno, trambicagem, safadeza, bandido e malandro.

Curiosidades etimológicas à parte, isso certamente confirma que a questão vem de longe, e que não por acaso permeia a vida e a língua que hoje une mais de 180 milhões de brasileiros.

É evidente que a desonestidade não é um fenômeno nativo nem recente. Existe desde que os homens desenvolveram o conceito da honestidade e seu oposto e se encontra em todas as culturas e línguas desde o início da civilização – inclusive nas leis e religiões que há tantos milênios visam a reprimi-la e puni-la.

É aí que fico fascinado com o que me parece ser uma das principais e mais urgentes questões da nossa vida pública: a impunidade. Pois, se é verdade que na vida real somos todos permanentemente tentados a cometer uma ou outra desonestidade, é também verdade que a grande maioria consegue resistir às tentações correspondentes por uma mistura de ensinamentos, princípios éticos ou religiosos e – certamente – receio de alguma punição.

Como múltiplas reportagens de VEJA e tantos outros veículos vêm mostrando ao longo do tempo, o que diferencia o Brasil dos países mais avançados e desenvolvidos do planeta não é o número de casos em que nossos governantes desviam recursos públicos ou se aproveitam de seu cargo para obter vantagens ilícitas. Isso, infelizmente, parece ser uma constante planetária. O que varia muito de um país para outro é o que acontece aos transgressores quando descobertos. É o que lhes acontece em seguida.

A progressiva – e muito bem-vinda – institucionalização do país vem resultando em crescente número de investigações e denúncias nessa frente por parte da Polícia Federal, do Ministério Público e da grande imprensa. Mas o que vem acontecendo em seguida? As ações entre amigos no âmbito legislativo, o corporativismo, o nosso tortuoso sistema jurídico e os intermináveis recursos de muitos competentes e bem remunerados advogados vêm se juntando para frustrar praticamente todas as tentativas de punir os governantes que – em todos os níveis da vida pública nacional – abusam da sua autoridade, traindo a confiança dos seus eleitores, desviando recursos públicos e se locupletando impunemente.

Sei que é virtualmente impossível esperar que todos os nossos prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores e outros dirigentes políticos sejam íntegros e dedicados apenas à boa gestão da coisa pública e ao bem comum. E é exatamente por isso que urge acelerar as mudanças indispensáveis para garantir que todos os que violarem a lei sejam não apenas julgados e condenados, mas – quando assim for determinado – que também passem a cumprir sua pena na prisão. Pois um bom sinônimo de desonesto é indigno. E servidor do povo indigno não pode e não deve escapar incólume.

Somente quando virmos cada vez mais corruptos atrás das grades é que poderemos finalmente festejar o fim da impunidade que tantos males tem trazido ao país.



Roberto Civita é presidente da Editora Abril e editor de VEJA.

domingo, 21 de dezembro de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Papai Noel no trópico


Meu avô era aquilo que os vencedores na batalha pela vida costumam denominar de um perdedor. Nada do que fazia dava certo, nada. Ainda jovem havia jogado fora a pequena fortuna que recebera de herança; fizera um investimento maluco qualquer e perdera todo o dinheiro. A partir daí, tentou de tudo para sobreviver; foi comerciante, foi corretor de imóveis,foi vendedor de seguros, foi motorista ... Até a astrologia experimentou,mas teve de encerrar a carreira depois que uma cliente, indignada com suas previsões erradas, deu-lhe uns tapas em plena rua. De desastre em desastre os anos iam passando; mesmo sem dinheiro, ele casou. Com a mulher ideal, aliás: minha avó, Isabel, era de uma paciência admirável, e encarava com bom humor as extravagâncias e os insucessos do marido. Tiveram oito filhos porque meu avô, além de tudo, considerava-se um patriarca e olhava com satisfação a sua tribo crescer. A família sobrevivia, principalmente porque vovó era boa costureira e tinha numerosas clientes na alta sociedade, o que lhe dava certa renda. Quanto a vovô, continuava arranjando um bico aqui outro ali.

Um dia recebeu uma oferta inesperada. Um de seus muitos amigos, comerciante relativamente próspero, convidou-o para trabalhar como Papai Noel: ficaria diante da loja, com o traje vermelho característico, convidando os transeuntes a entrar no estabelecimento. A princípio, vovô rejeitou a proposta, com indignação, inclusive: o que é que você pensa que sou, posso ser pobre mas tenho minha dignidade, não vou bancar Papai Noel coisa nenhuma. Mas aí o homem mencionou uma cifra, que não era pequena. Vovô engoliu em seco. Era mais do que lhe tinham pago por qualquer trabalho. Um dinheiro que lhe permitiria oferecer um Natal decente à tribo. Aceitou.

E se saiu muito bem. Porque era muito parecido com o Papai Noel: gordo, rechonchudo, faces rubicundas. Nem precisava usar barba postiça; a bela barba, precocemente branca, tornava desnecessário tal disfarce. Mais: seu riso era igualzinho ao Ho-ho-ho que, segundo a lenda, é característico do Papai Noel. Só lhe faltava o trenó com as renas, porque o resto todo ele tinha.

Esta semelhança logo o tornou conhecido. Shoppings passaram a contratá-lo, e clubes, e também uma emissora de tevê. Orientado por um amigo, marqueteiro esperto, cobrava bons cachês. Ao menos no fim do ano ele tinha assegurada uma fonte de renda — e um bom final de ano para a família. A ceia de Natal (sempre realizada no dia 25, porque no dia 24 ele trabalhava até tarde) era magnífica; e os caros presentes junto à árvore de Natal provocavam admiração (e inveja) nos vizinhos.

Ninguém lhe perguntava se ele gostava de bancar Papai Noel; nem vovô falava a respeito. Mas para a mulher abria seu coração: odiava aquilo. Não tanto por causa da encenação; o que lhe incomodava era a roupa. Ridícula e, pior, quente: na cidade do Nordeste em que viviam a temperatura nunca baixava de 25 graus. E vovô era particularmente calorento; quando o termômetro subia, ele sofria. Normalmente andava só em mangas de camisa, de bermuda e chinelo. Via a fantasia de Papai Noel como verdadeiro suplício. Não sei por que tenho de vestir essa coisa, reclamava. Vovó ponderava que, na lenda, Papai Noel vinha do Pólo Norte; teria, portanto, de usar roupas quentes.

— Mas eu sou um Papai Noel brasileiro! — bradava vovô. — Não podia fazer esse papel só de camiseta?

Pergunta retórica. Ele sabia que uma versão tropical da roupa natalina jamais seria aceita. O Brasil, resmungava, sempre imitou a Europa e os Estados Unidos, não será agora que as coisas mudarão.

Vovó tentava consolá-lo como podia. Tratou, inclusive, de confeccionar para o marido uma fantasia de Papai Noel bem mais leve, mais arejada; mas vovô, talvez por causa da irritação, continuava suando em bicas. Este aborrecimento começou a lhe envenenar a vida. À medida que se aproximava o fim do ano, ia ficando mais irritadiço. Na semana do Natal ninguém podia chegar perto dele; explodia por qualquer coisa. Lá pelas tantas vovó começou a ficar preocupada. Vovô já era um homem idoso, beirava os setenta, e a sua saúde não era das melhores; ela temia que aquilo acabasse prejudicando o homem. Chegou a sugerir que ele parasse de vez; afinal, tanta gente se aposenta, por que não podem se aposentar as pessoas que fazem o papel de Papai Noel? Uma idéia que vovô repelia, indignado. Não era homem de abandonar a luta.

Mas os temores de vovó se confirmavam. Dez dias antes do Natal vovô teve um acidente vascular cerebral. Às pressas, foi levado para o hospital. Seu estado era grave; uma pneumonia complicava o quadro. Com febre, vovô delirava, dizia coisas sem sentido. No fim daquela semana, melhorou, recuperou um pouco a lucidez. Olhou a mulher, reconheceu-a:

— Que dia é hoje? — perguntou, em voz fraca.

Era a véspera de Natal, mas vovó, inquieta, não sabia se lhe dizia isso ou não: afinal, era a primeira vez que, nessa época, ele não estava cumprindo seu papel. Por fim disse que era a noite de 24 de dezembro.

— Então o Papai Noel deve andar por aí — disse vovô. E, depois de uma pausa, continuou:

— Eu queria falar com o velhinho. Queria lhe fazer um pedido. Sem saber o que responder, e alarmada com a estranha conversa, vovó decidiu chamar o filho mais velho — meu pai. Contou o que tinha sucedido, perguntou o que deveriam fazer.

Meu pai pensou um pouco. Ele era jovem, ainda, e, como vovô, tinha um temperamento fantasioso. De modo que não hesitou:

— Se o velho quer ver o Papai Noel, verá o Papai Noel. Foi para casa, trouxe a fantasia que vovô usava (acrescida de uma barba postiça, de algodão branco) e, pouco depois, entrava no quarto do hospital vestido como Papai Noel. Vovô abriu os olhos, viu aquela figura e não estranhou; pelo contrário, esboçou um débil sorriso.

— Eu sabia que você viria, meu amigo. Tenho um pedido a lhe fazer.

Meu pai limitou-se a acenar com a cabeça: tinha medo de que vovô o identificasse pela voz, se disse qualquer coisa. Mas aparentemente o ancião achava que estava falando com o Papai Noel. Soerguendo-se a custo, fez o seu pedido:

— Eu não quero ser mais o Papai Noel, amigo. Ouviu?

Não quero ser mais o Papai Noel. Não agüento aquela roupa, sabe? Não agüento. Você, que é o verdadeiro Papai Noel, ficará no meu lugar para sempre. As pessoas gostarão disso. E eu poderei morrer em paz.

Calou-se, exausto, deixou-se cair sobre os travesseiros. Vovó chorava baixinho; papai a custo continha o pranto. Mas tinha de levar a encenação até o fim, e assim fez para vovô um sinal de positivo, apertou-lhe a mão e saiu.

A melhora de vovô revelou-se enganosa. Ele voltou a piorar e uma semana depois faleceu.

A consternação foi geral. O velho era conhecido e estimado em toda a cidade e os jornais anunciaram o seu falecimento. O Natal não será mais o mesmo, dizia uma das notícias. Outra: Papai Noel nos deixou.

Aos poucos, a vida foi voltando ao normal. Vovó passou a morar com uma filha, professora. Sentia muita falta do marido, e sempre falava nele, mas acabou se resignando. Parecia que, daí em diante, vovô seria apenas uma lembrança.

E aí, a surpresa. Em fins de novembro do ano seguinte papai foi procurado por um grupo de lojistas. Queriam que ele se tornasse Papai Noel.

O pedido tinha fundamento. Papai era parecidíssimo com vovô, grande e gordo como ele. E tinha o mesmo vozeirão, o mesmo riso em Ho-ho-ho. Ou seja, era a figura talhada para o papel. Esse tipo de sucessão, aliás, não era excepcional. O cargo de Rei Momo do Carnaval estava há décadas com uma mesma família — uma família de gordinhos carnavalescos. E o cachê continuava polpudo. Detalhe importante: papai, como vovô, nunca tivera emprego fixo. Mamãe, que, à semelhança de vovó, era uma mulher prática (e sabia o esforço que lhe custava manter a casa com orçamento apertado), disse que ele tinha de aceitar. Papai aceitou. E foi um sucesso. A cidade toda se comoveu: as pessoas choravam ao vê-lo na mesma roupa de vovô.

Agora, já faz vinte anos que ele é Papai Noel. Eu era um menininho então, tornei-me homem (e, seguindo a tradição familiar, não tenho emprego fixo; sou músico, mas preciso lutar muito para ganhar algum dinheirinho). O tempo passou e, o tempo passando, papai foi ficando cada vez mais parecido com vovô. Ele já nem precisa usar barba postiça; a sua própria barba quebra o galho, embora não esteja ainda inteiramente branca.

Como vovô, papai foi progressivamente detestando a tarefa de bancar Papai Noel. E pela mesma razão: a roupa é quente demais. Queixa-se, mas vai em frente. A fantasia das crianças é mais importante que meu desconforto, diz. Uma frase que, de algum modo, me serve como lição de vida. Papai Noel não é aquele que dá presentes, é aquele que traz alegria e conforto. Pensarei nisto quando chegar a minha vez de vestir a velha roupa vermelha, quando chegar a minha vez de anunciar a todos o Natal. Será uma experiência estranha. Mas irei em frente. Embora já esteja até sentindo o calor.


Moacyr Scliar


Texto extraído da "revista e", editada pelo SESC - São Paulo (SP), em dezembro de 2003, nº 06, ano 10.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

"Justiça sem credibilidade não é justiça, não é nada."


Joaquim Barbosa
Min. TSE

A sapatada no Bush

Charge - Mangabeira

STF mantém piso de R$ 950 para professores

Eu li no globo


"Ministros, porém, derrubam artigo que obrigava mestres a dedicar um terço da jornada a atividades extra-classe

De Carolina Brígido:

Estados e municípios conquistaram ontem uma vitória no Supremo Tribunal Federal (STF): a autonomia para decidir quanto da jornada de trabalho dos professores da rede pública deve ser gasta dentro e fora da sala de aula. No julgamento de uma ação proposta por cinco governadores, o STF manteve o piso salarial da categoria em R$ 950, mas suspendeu o artigo da Lei 11.738 que fixava um terço das 40 horas semanais para atividades extra-classe, como o preparo de aulas e a correção de provas.

A decisão foi tomada em caráter liminar e tem validade provisória, até o julgamento definitivo da questão. Não há previsão de data para isso acontecer. Os governadores alegavam que, se esse dispositivo fosse mantido, seria preciso contratar mais professores para suprir a diminuição do tempo gasto fora da sala. Só no Rio Grande do Sul, precisariam ser contratados 27 mil profissionais.

A partir de 1 de janeiro de 2009, nenhum professor da rede pública poderá ganhar menos do que R$ 950. Esse valor não inclui vantagens e gratificações pessoais, que devem ser somadas ao piso. A ação foi proposta pelos governos do Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Ceará.

Os governadores pediam que os R$ 950 pagos aos professores já incluíssem acréscimos, como vantagens e gratificações."
- Não pode ser sério um país em que para se pagar um salário de R$ 950,00 reais a professores é necessário o aval do STF.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Charge - Mangabeira

domingo, 14 de dezembro de 2008

"O Menino do Pijama Listrado" adapta bestseller sobre nazismo


SÃO PAULO (Reuters) - Apoiado no sucesso do bestseller homônimo de John Boyne, o drama "O Menino do Pijama Listrado", do cineasta inglês Mark Herman, procura traduzir na tela a história de Bruno (Asa Butterfield), menino de 8 anos que se torna amigo de um garoto prisioneiro de um campo de concentração, apesar de ser filho de um oficial nazista (David Thewlis, o professor Lupin de "Harry Potter").

A novidade da história, que estréia no Brasil nesta sexta-feira, está em adotar o ponto de vista do menino Bruno, que não compreende à primeira vista a realidade que começa a ver pela janela de sua nova casa, cercada de muros altos e sempre guardada por sentinelas armados.

À distância, ele enxerga uma grande propriedade cercada por arame farpado e as estranhas roupas listradas de seus moradores.

Seu pai lhe garante que são "camponeses", trabalhando numa "fazenda". Um deles, Pavel (David Hayman), aliás, trabalha algumas horas por dia como ajudante na cozinha do oficial alemão, novo comandante do campo - que é nada menos do que Auschwitz, na Polônia, considerado como o maior campo de extermínio da 2a Guerra Mundial.

Como não são permitidas muitas conversas entre Pavel e Bruno, este decide contrariar a proibição de sua mãe (Vera Farmiga, de "Os Infiltrados") e sair dos limites de seu quintal, em direção à "fazenda" vista de longe. Do lado de lá do arame farpado está Shmuel (Jack Scanlon), menino judeu da mesma idade de Bruno, com quem ele começa uma amizade inesperada.

Bruno mantém em segredo estes contatos constantes com o novo amigo e que o farão, cada vez mais, entrar em conflito com alguns membros da família. Sua irmã mais velha, Gretel (Amber Beattie), está tornando-se gradualmente mais fanática pelo nacionalismo hitlerista, fruto da educação recebida através de um professor particular - ali onde estão, não há escolas.

A divisão também se instala entre o casal, já que a mãe desconhecia a extensão das atividades do campo agora comandado por seu marido, incluindo câmaras de gás que espalham, de tempos em tempos, um estranho cheiro nas redondezas.

A mesma discordância já ocorria antes entre os avós do menino. Sua avó materna (Sheila Hancock) inclusive se recusa a visitar o filho em seu novo posto, porque discorda da política nazista da "solução final", ou seja, a eliminação física de judeus e outros grupos visados pelo regime.

Com uma censura indicada para maiores de 12 anos, "O Menino do Pijama Listrado" consiste de uma fábula sentimental, que toma muitas liberdades para retratar essa hipotética amizade entre os dois meninos - e que, se se tratasse de um filme realista, não poderia desenvolver-se exatamente desta maneira.

Mas o que se tem aqui é uma parábola, que procura demonstrar que no fundo as pessoas são, como meninos, todas iguais e capazes de se compreenderem, superando as diferenças impostas por tiranias de ocasião.

Não se pode acusar o filme de ser difícil. A história retrata com clareza didática os horrores do nazismo de um modo que qualquer pessoa pode entender, personalizando a tragédia que, afinal, também atingirá a família do oficial nazista - seu grande trunfo final.


(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb
do UOL Diversão e Arte

sábado, 13 de dezembro de 2008

O vendedor


Hoje é um daqueles dias em que você acha que todas as forças, até as da natureza, estão inevitavelmente contra você. Algo assim como um levante de tropas inimigas contra a sua posição entrincheirada na vida. E, de repente, você se vê cercado em todas as suas posições, convicções e entendimento. Um dia sinistro.

Não costumo levantar-me da cama muito cedo, mas no horário suficiente de minhas obrigações e hoje não foi diferente. Incomum mesmo foi a visita que recebi no intervalo do banho para o café. Um senhor alto, magro, de feições aquilinas, chapéu de massa preto e portando uma maleta 007 acudiu-me os ouvidos com as suas palmas e lá fui eu atendê-lo.

Logo da ante-sala desconfiei ser um desses vendedores oferecendo-me mais uma dessas tantas coisas que eu não preciso. Acertei em parte. Tão logo abri a porta o visitante cuidou de se esparramar-se em uma das preguiçosas postas no canto do terraço e já foi cuidando de oferecer-me, aquelas horas da manhã, o que chamou de plano de salvação, um plano de morte. Se ao menos fosse um plano de saúde mas não, era de morte mesmo. O crachá pendurado no pescoço não deixava dúvidas e alertava-me para o nome e a empresa que o visitante prestava serviços, lia-se: Delfunto Passos, “Funerária vai com Deus”.

Eram sete horas da manhã e eu começava a desconfiar que estavam especulando com a vida dos outros, no caso, a minha, obviamente.

E não deu outra, apesar de minha insistência em adiantar-lhe nada estar precisando adquirir no momento, o vendedor permaneceu enfático, olhando-me de ponta a cabeça como a querer mensurar a medida do ataúde, cercando-me com aquela velha conversa do homem prevenido, com aquela história de que a gente não sabe o dia de amanhã, enfim, aquele papo típico de todo aquele que quer, ao seu preço, enfiar de goela abaixo o seu produto. O certo é que para me ver livre de vez daquele intruso assenti em ouvir, ao menos o que uma funerária tinha a me oferecer as sete horas da manhã de uma segunda-feira.

Era, de fato, um plano de morte! A venda de um esquife e seus acessórios. Isso mesmo: um plano de morte mas com implicações na vida porque Vivo, liquidaria o plano “Vai com Deus” em leves e suaves prestações, morto, teria a promessa de ir para debaixo de sete palmos de terra num confortável caixão conversível, todo trabalhado em madeira de boa qualidade, acolchoado, com pegadores externos em bronze, e ainda um vidro na tampa do caixão medindo 15 x 07cm posto na altura da face do De’cujus e com o luxo de conter proteção UVA/UVB. O plano dava direito a missa e de brinde ainda prometia deixar comigo, para onde quer que eu fosse (leia-se céu ou inferno), um travesseiro, um par de meias e dois sapatos pretos.

Claro que o serviço seria posto a minha disposição já nas primeiras horas do falecimento. No velório, muitas flores, uma ladainha de meia em meia hora a qual eu poderia escolher em vida e ainda seis mulheres contratadas especificamente para chorarem o defunto, da noticia do falecimento até a última pá de terra em minha cara. Quanto mais alto o choro mais caro o plano, admoestou-me o Sr. Delfunto Passos. Mais garantiu-me, de qualquer jeito, ser uma lamentação só, com muita gente e um bom acompanhamento. Um enterro de gente importante, prometeu o vendedor.

Mostrou-me ainda um outro plano mais modesto, sem flores, talvez sem choradeira, caixão mais simples, porém, não menos imponente. O converseiro, as ladainhas e quem sabe algumas lágrimas ficariam por conta da presença de dois bêbados durante todo o velório. A cachaça não estava inclusa. Era por conta da viúva.

O fato é que fiquei meio encafifado com aquele vendedor. Estaria eu já nas portas de outra vida. Óbvio que não aderi ao plano mas cuidei de prestar mais atenção em alguns sinais que pudessem indicar a necessidade da volta daquele vendedor a minha casa.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Quase


Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do
talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me
mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda
estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou
não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam
pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas
idéias que nunca sairão do papel por essa maldita
mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que
nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me
pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está
estampada na distância e frieza dos sorrisos, na
frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia",
quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A
paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez es ses fossem bons motivos para decidir entre a
alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não
teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em
tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não
aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um
traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem
que todas as estrelas estejam ao alcance; para as
coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente
paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da
vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros
amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um
coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim
é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais
horas realizando que sonhando, fazendo que planejando,
vivendo que esperando porque, embora quem quase morreu
esteja vivo, quem quase viveu já está morto!


Luiz Fernando Veríssimo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Kananga do Japão

Acabo de aportar de mais uma dessas viagens que costumeiramente faço ao meu interior. E interior aqui aplico nos dois sentidos: subjetivo e objetivo. Um que me lança ao relicário da alma; outro que me transporta a essa gleba querida da minha Paraíba e do meu torrão natal. E é nesse colóquio entre o espírito e a geografia que desapiei, dia desses, da lembrança dos primeiros meses da década de 1990.

Vinte e dois anos de idade, liso, desprovido de qualquer vintém nos bolsos da calça, universitário da capital, despinguelei numa carona de João Pessoa para Pombal trazendo na bagagem apenas os ideais próprios da idade e nada mais, além de trinta dias de férias, é claro!

Confesso que distante da terrinha, tem sido difícil conviver com tantas reminiscências, embora o tempo vá passando, passando, mas sem deixar esperança de retorno completo do passado, vai sobrando um assoar de nariz, uma trilha de lágrima de saudade e uma sentença inexeqüível de todo um passado construído e que vivemos por aqui. É por isso que voltar de férias sempre me pareceu uma nova chance, oportunidade de viver tudo aquilo que cultiva a lembrança. A vida, às vezes, nos dá outra oportunidade de emendar nossos erros.

De certo mesmo é que “na volta ninguém se perde” e estar em casa de novo era um alivio das exigências acadêmicas e um reencontro inexorável com a gastronomia da D. Mariinha.

Nada havia mudado na minha ausência. Tudo estava ali, compondo a mesma paisagem, as mesmas ruas, o mesmo caminhar de passos, o mesmo cerimonial das horas, impávidas, como a estática dos ponteiros da Coluna da Hora que eternizam os dias e alongam as noites frias ao sopro do Aracati.

Decididamente nada havia mudado. Nenhuma novidade à vista, exceto, a noticia, à meia-boca, do espírito empreendedor de uma das casas do rói, que aos cochichos, anunciava a maior atração das últimas décadas. Um avanço para a comportada sociedade masculina de Maringá. Finalmente, Pombal ganharia uma casa de striper. Para uns, era o progresso chegando a longos passos num rebolar de quadris, para outros, o Satanás atentando as boas famílias e desencaminhando os homens de boa vontade, um insulto a santa Igreja Católica.

E a noticia foi ganhando força, corria a boca-miúda a inauguração da nova casa de tolerância. De esquina em esquina a novidade do cabaré ganhava força, era assunto discutido na feira, nas rodinhas entre rapazes e nos sermões das missas dominicais.

O certo é que chegado o dia, ou melhor, a noite, afivelei-me num cinto de couro, vesti a minha melhor camisa de tergal e uma calça jeans semi-nova, um pente da marca Flamengo no bolso e um espelhinho redondo no outro, onde no verso se via o retrato de uma mulher nua. Após rápida passagem pelas mesas do bar centenário, fomos todos em busca das “moças do rói” na expectativa de assistir ao tão anunciado strip-tease. Reservo-me a não citação dos companheiros ante a ausência de suas procurações, mas éramos em um grupo de seis rapazes, solteiros.

Perfilados, subíamos a rua em direção a linha do trem, marco divisório entre a morada das moças e das putas. Mais adiante, porém antes do matadouro, nos deparamos com uma modesta casa na cor verde, com uma porta estreita bem ao centro (estreita assim como a porta do inferno) e uma janela arqueada. No frontispício, lia-se num português meio duvidoso: “Kananga do Japão, sua casa dos sonhos”. O titulo era uma clara alusão à novela "Kananga do Japão" apresentada pela extinta Rede Manchete de Televisão.

Enfim, ultrapassamos os umbrais daquela portaria. Duas luzes vermelhas de 60watts fingiam iluminar o interior daquela casa; no corredor que desbocava na sala central, via-se encostado e esquecido numa parede um petisqueiro sem vidro, com dois copos de alumínio pendurados.

Na sala, onde se situava um pequeno palco, cerca de quarenta homens (todos casados) que compunham a “sociedade” e freqüentavam as missas do domingo se acotovelavam sobre as mesas à espera do início do espetáculo. Havia ainda um menestrel de pouca intimidade com o violão que teimava em tirar alguns acordes para animar o ambiente.

Não demorou muito as luzes se apagaram de vez para em seguida iluminarem duas mulheres nuas, desprovidas de qualquer beleza, magras e embriagadas a se contorcerem sobre aquele palco. Estava, finalmente, inaugurada a primeira casa de strip-tease de Pombal.

O show, porém, era grotesco, se desenhava mais num misto de penúria que de excitação, igualzinho a prostituição de hoje, inaceitavelmente movida pela fome e pela necessidade de sobrevivência.

Saímos dali sem consumirmos nada, nem um petisco sequer, apenas com a certeza e a convicção de termos assistidos a um grito de socorro e desesperança.

A “Kananga do Japão” encerrou sua atração principal dois meses depois de inaugurada e hoje em seu lugar encontra-se o Drink's Bar, talvez outra casa de diversão.

Parece que foi dito hoje


"O Orçamento Nacional deve ser equilibrado. As Dívidas Públicas devem ser reduzidas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos, se a Nação não quiser ir à falência. As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública."

(Marcus Tullius Cícero - Roma, 55 a.C.)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Na feira de Campina Grande-PB


Há anúncios por esses Brasis que realmente nos deixa com uma pulga atrás da orelha. Eles são confusos, e, as vezes, mais espantam que atraem fregueses!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Fernando Pessoa


"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

domingo, 30 de novembro de 2008

Joaquim Barbosa: uso de algemas é restrito, não proibido

A Súmula Vinculante 11 do STF não proíbe o uso das algemas, apenas restringe. Em casos excepcionais, desde que justificado, a autoridade pode sim algemar acusados. Com esse entendimento, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, negou esta semana a Reclamação proposta pela defesa do ex-gerente do restaurante Bargaço, Luzivan Farias da Silva. Ele é acusado de participar do assassinato do proprietário do estabelecimento, Leonel Evaristo da Rocha.

O crime aconteceu em abril deste ano, em Brasília. Luzivan Farias da Silva, gerente do restaurante Bargaço em Fortaleza, estava com Evaristo quando o veículo em que seguiam para o Núcleo Bandeirante, cidade próxima à capital, foi abordado por homens armados, que dispararam contra o empresário.

A defesa de Silva queria suspender a validade da audiência de interrogatório das testemunhas a que compareceu e assistiu algemado, conduzido por três policiais. Para tentar anular o procedimento, a defesa sustentou desrespeito a Sumula Vinculante 11, que restringe o uso de algemas.

O pedido de liminar foi negado pelo ministro Joaquim Barbosa. Ele justificou sua decisão ressaltando que a súmula não proíbe o uso do instrumento, apenas restringe. Em casos excepcionais, desde que justificado, a autoridade pode sim algemar acusados.

No caso, segundo Joaquim Barbosa, ao negar o pedido da defesa para que o ex-gerente tivesse as mãos liberadas, o juiz fundamentou por escrito a necessidade do emprego das algemas, uma vez que a “segurança das pessoas presentes estaria comprometida caso o acusado fosse desalgemado, razão pela qual foi deferida a colocação das algemas para a frente”. Além do promotor, explicou ainda o juiz em suas fundamentação, na sala de audiências “havia as testemunhas, quatro pessoas representando a assistência de acusação e ainda vários parentes do réu e da vítima”.

Joaquim Barbosa lembrou, o fato de que o precedente determinante que levou à edição da súmula (HC 91.952) discutia o emprego do uso das algemas em sessão de julgamento do Tribunal do Júri, “considerando a influência que referida constrição poderia produzir sobre o veredicto dos jurados”.


Da Revista Consultor Jurídico

Dicas úteis para o dia-a-dia

Essas foram enviadas pela amiga Gorete. Muito obrigado amiga! Esse espaço também tem um cantinho para você viu!


DICAS

1 ) Uma dica para deixar a casa com cheirinho gostoso:
Pegue uma laranja e corte a parte de baixo para ela ficar de pé. Espete
vários cravos em toda a fruta. Coloque num pires e deixe na parte da
casa que você quer perfumar.

2)Para acabar com o cheiro do cigarro na casa: Coloque meia maçã fatiada
num pratinho com água. É um jeito fácil de deixar o ambiente perfumado.

3) Para manter os bichinhos longe de grãos, como arroz, feijão e milho:É
só colocar uma pimenta crua ou folhinhas de louro nos recipientes.
Elas funcionam como repelentes naturais.

4) Quer acabar com o cheiro de fritura ou de peixe que invade a casa
quando você cozinha? Corte rodelas de limão e coloque com pedaços de canela em
pau na água fervendo. É tiro e queda!

5) Quer deixar sua casa bem cheirosa? Borrife seu perfume preferido numa
lâmpada fria apagada e deixe secar. Quando ela for acesa, todo o ambiente
ficará perfumado.

6) Parafina na limpeza de vidros: A parafina pode ser um produto excelente
para auxiliar na limpeza de vidros muito sujos. Você deve misturá-la em
partes iguais com álcool desnaturado.A pasta resultante da mistura deve
ser esfregada no vidro até que ele fique completamente limpo.

7) Conservando a Alface: Para conservar a alface por alguns dias, borrife
a alface com água e embrulhe-a em uma pano limpo e úmido.Coloque na
geladeira e tome o cuidado de conservar a esta umidade até a hora de usar.

8) É muito incômodo para qualquer dona de casa quando a pia entope: Às
vezes é tão complicado que a solução é chamar o encanador. Mas em outras
ocasiões, o problema pode ser resolvido jogando no ralo um punhado de bicarbonato de sódio e, em seguida, uma xícara(chá) de vinagre. Tampe a pia por 20 minutos e depois experimente utilizá-la normalmente. Na maioria das vezes é tiro e queda.

9) Abrir tampas apertadas: Segure tampas de metal sob a água quente para
expandir o metal. Se o recipiente estava na geladeira, comece com água
morna e aumente o calor para impedir que o vidro rache.

10) Ar condicionado desobstruído: Evite obstruir as laterais e o fundo do
seu aparelho de Ar Condicionado de Janela. Isto dificulta a troca térmica
do gás com o ar, aumentando a pressão interna no sistema e conseqüentemente
reduzindo a eficiência do aparelho ou até mesmo desligando o compressor
por alta amperagem.

11) Manchas de vinho: Se sua bancada de mármore branquinha ficou toda
manchada depois daquele jantarzinho romântico, basta que você passe água
oxigenada sobre as manchas e deixe descansar.

12) Odores da tábua de carne: Para deixar a sua tábua novinha depois de
tanto uso, esfregue um pedaço de limão por toda ela e lave em seguida.

13) Carne macia: Se os bifes que você comprou não estão um primor de
maciez, tente colocar um pouco de conhaque sobre eles, enquanto ainda estão crus.
Se não tiver conhaque pode colocar cachaça mesmo. O álcool amacia a carne e
não vai deixar gosto.

14) Frutas coloridas: Depois de cortar as frutas em pedaços (para uma
salada de frutas, por exemplo), borrife tudo com suco de limão ou de abacaxi.
Assim elas não mudarão de cor e ficarão com o sabor original.

Trato é trato

Depois de exaustivas brigas, o marido grita:
- Eu não agüento mais!!! Vamos fazer o seguinte: eu fico com um lado da casa e você com o outro!
- Tudo bem! - concorda a esposa - Eu fico com o lado de dentro!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Desalento

"Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim"


(Chico)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Foto de Armindo Dias
...
No viés desse teu corpo
respiro os soluços de
todos esses ais...

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony



Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964


Thiago de Mello

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Desejo do tempo

Os antigos gregos tinham em Chronos, deus do tempo, a imagem do pai todo poderoso devorador dos filhos. Ele criava, ele mesmo aniquilava. O tempo cronológico é apenas o tempo que passa. Mas a experiência do tempo não passa tão simplesmente, somos nós que passamos por ela. Nos constituímos, em nossa interioridade, a partir dela. Como dizia Santo Agostinho, o tempo é algo complexo demais, sendo muito difícil para cada um explicá-lo. Tanto quanto é fácil de entender, pois estamos nele desde sempre. O tempo nos possui e não o contrário.

UM DIA DE CADA VEZ

É melhor viver um dia de cada vez? É provável que ouçamos ou pronunciemos esta frase em vários momentos da vida. Quando incertezas e desesperanças se põem em cena é a reflexão sobre o tempo (seja ele dito na forma dos dias, das horas, do tempo ao tempo) que sustenta nossas ponderações. Ou na básica ansiedade que move o cotidiano, quando não compreendemos as próprias direções, quando, sem perspectiva ou foco, parece que não buscamos nada. Ansiosos quando queremos muito, nem sempre sabemos bem o que queremos. E nos angustiamos porque estamos no tempo, medido, e não na eternidade, desmedida. A vida exige solução, mas o tempo é o limite de toda vontade. Por isso, ele também é possibilidade.

A frase traz uma sabedoria básica na forma de um conselho sobre o uso e a compreensão do tempo, do qual depende o desejo, nome que se dá ao modo de nos relacionarmos ao futuro, o nosso e o que compomos junto de outros. A frase nos diz sobre um modo de tratar com a frustração comum na sociedade de hoje: a da ausência do desejo que diz respeito a uma incapacidade de criar projeto de vida. Ou seja, o que fazer da vida dentro de seu limite. “Um dia de cada vez” significa: “vá com calma, aproveite o tempo presente”, mas por outro lado, também diz “esqueça a totalidade da vida”. Aí conhecemos o conflito com a “temporalidade” sobre o qual vivemos cegos. Se pensarmos em termos de vantagens, talvez não seja frutífero ter em mente a vida inteira, o todo do que podemos fazer com o tempo que dispomos, pois não há certeza sobre o que virá. Porém, sem pensar no todo da vida, que é o tempo que temos para viver, talvez fique difícil orientar-se dentro dela. Sem sabermos do nosso tempo, estamos perdidos de nós mesmos, sem futuro. A dimensão do tempo é mais que psicológica e metafísica, ela é também prática. Põe-nos diante de nossa liberdade de decisão, define o destino, ou o tempo, que devemos construir.

A experiência do tempo pode ser uma experiência de angústia, de que algo desconhecido nos espreita. Só o desejo é a cura desta sensação de opacidade da vida. O desejo não é tormento, mas o caminho para sair dele. Ela não vem do nada. Nasce do tempo experimentado em seu limite, do fato de que há a consciência perturbadora da existência que é a morte. Enquanto esperamos seguimos a “viver um dia de cada vez”. No tempo que é sempre medida, a soma dos dias, compõe o sentido da vida, o valor da eternidade.

OS LIMITES DA EXPERIÊNCIA

Assim como damos “limites” às crianças para que possam orientar seus desejos, seus quereres e poderes, nós, mesmo adultos, deveríamos nos reorientar no nosso limite com a vida, a que chamamos tempo. O tempo, todavia, não é a mera duração da vida. A duração é só o tempo do relógio, ela se parece mais com o espaço que percorrem os ponteiros no mostrador. Nosso modo de compreender o tempo é o que nos orienta na vida: o tempo do trabalho, o tempo do lazer, o tempo do conhecimento, do amor, o tempo interior, o tempo domesticado pela vida orientada e administrada que vivemos. O tempo é um radar que nos ensina aonde ir, nossas urgências, os caminhos que precisamos escolher diante da impossibilidade de seguir todos.

A frase sobre o dia a dia a ser vivido de um em um, nos serve de antídoto quando vivemos esta frustração tão específica que é a do tempo que não aprendemos a experimentar em seus dois pólos, o do todo fora de nós (a família, a sociedade, a história, o planeta) e o do que se elabora em nossa interioridade. De um lado, vivemos o nosso tempo pessoal, o tempo de cada individualidade, de cada um que experimenta seu corpo, seu sentimento, medos, anseios, possibilidades, e sua noção de morte. O tempo individual é sempre o tempo da insegurança. Buscamos os outros: filhos, maridos, amigos, trabalho, para participarmos do tempo coletivo onde, ao partilharmos a insegurança com as demais individualidades, a eliminamos. Para tudo isso é preciso sempre muita atenção sobre o que estamos vivendo.

A AVAREZA DO TEMPO

Por outro lado, todos aqueles que sabem o valor do tempo, costumam pensá-lo em analogia com o dinheiro: tempo é dinheiro. Quem dispensa tempo, dispensa dinheiro ou, em termos mais técnicos, dispensa lucro. Mas o que é o lucro senão a vantagem que temos em relação aos outros, ao trabalho, à vida? O lucro é um “a mais”, mas a vida não vai nos dar mais tempo. Logo, tempo não é necessariamente dinheiro, mas justamente o que nos logra se a vida não foi bem vivida. Se o avaro economiza dinheiro, quem economizar tempo não poderá ser avarento, a rigor, o tempo é algo que sempre se multiplica. O tempo se multiplica na generosidade. É uma questão de organização. O desejo só surge como mensagem na garrafa àquele que entendeu a função de seu tempo próprio no tempo coletivo.


Marcia Tiburi


Publicado na Revista Vida Simples. Janeiro de 2007. Ed. 49. P. 56-57.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Yes, We can!

Sim, nós podemos! Nunca desista dos seus sonhos, pois ele pode virar realidade. Este foi o grito de guerra dos correligionários democratas do novo Presidente dos Estados Unidos da América, onde assistimos uma verdadeira lição de democracia na última terça-feira, dia 04/11/2008.

Tanto lá, como aqui, não podemos negar um evidente amadurecimento do eleitorado, pois se os americanos elegeram o primeiro Presidente negro daquele país, os brasileiros já elegeram por duas vezes o primeiro Presidente torneiro mecânico do mundo.

É por estas e outras que a democracia evolui a passos largos, quebrando tabus e se fortalecendo como o melhor sistema de governo para um mundo globalizado. E como é maravilhoso ser testemunha de um momento tão significativo para história da humanidade.

Da eleição americana, merece registro a frase do candidato derrotado John McCain, no discurso em que reconheceu a derrota do Partido Republicano. É de arrepiar, devendo ser seguida em todos os continentes: “Ele era o meu oponente, mas agora é o meu Presidente”.

Aos vencedores todo o respeito, admiração e desejos sinceros de que façam um bom governo, lá e cá. É o que se deve esperar de um povo decente, que respeita o resultado das urnas como livre manifestação dos eleitores.

Contudo, aqui em nossa pequena província de terceiro mundo,administradores municipais derrotados nas urnas chegaram ao cúmulo de se negarem a assinar contratos com a Fundação Nacional de Saúde para recebimento de obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no ano que vem, apenas para dificultar a administração de seus adversários.

Saibam estes pseudo-estadistas paraibanos que a conduta omissiva também pode ser interpretada como improbidade administrativa, uma vez que produz inegável prejuízo ao erário público, devendo por isso ser rechaçada de imediato pelo Ministério Público e pela Sociedade Civil organizada, para que chamem o feito a ordem e cobrem destes administradores a responsabilidade e os compromissos que assumiram no ato de posse.

Por outro lado, não se pode esperar que a Justiça Eleitoral resolva todas as frustrações dos candidatos derrotados, que enchem nossos Tribunais com ações sem fundamento e sem provas, muitas vezes amparada em testemunhas que receberam dinheiro duas vezes, uma pra vender o voto e outra para denunciar o próprio ato ilícito.

Para estes, é preciso que saibam que a corrupção eleitoral é um crime de mão dupla, que exige a punição tanto do candidato inescrupuloso quanto do eleitor compassivo, notadamente quando parte deste último a iniciativa de comercializar o sufrágio.

Daí porque, revela-se descabido o instituto da delação premiada para os crimes desta espécie, uma vez que o benefício penal foi idealizado para os crimes de alta periculosidade, sendo oferecido aos supostos“colaboradores” da Justiça ainda na fase investigatória, antes mesmos de se apurar qual a efetiva participação do eleitor no ilícito eleitoral denunciado.

Por fim, o simples fato de perder as eleições não autoriza o derrotado a reclamar a nulidade do pleito nas vias judiciais, notadamente quando sabemos que, quase sempre, os reclamantes utilizaram-se das mesmas forças, ferramentas e subterfúgios somente denunciados após a apuração dos votos.

Se quase todos utilizaram as mesmas armas e submeteram-se às mesmas regras do jogo, não podemos admitir a tramitação de ações eleitorais amparadas, acima de tudo, na hipocrisia dos derrotados.

De cada eleição devemos aprender as boas lições e rechaçar de imediato atitudes egoístas de políticos que se negam a compreender o recado das urnas. Enquanto isso, os possíveis excessos serão examinados pela Justiça Eleitoral e punidos com o rigor da lei, assegurando-se o contraditório e a ampla defesa.

No mais, é preciso demonstrar dignidade e humildade suficiente para reconhecer a derrota, assumir a postura de oposição responsável e fiscalizar os futuros administradores, pois é isso que a sociedade esperados políticos que não lograram êxito nas eleições deste ano.

Se eles podem, nós também podemos sonhar com um mundo melhor, seguindo a lição de Marter Luther King: “I have a dream”.

João Pessoa, 05/11/2008.


Flávio Rogério de Aragão Ramalho
Analista Judiciário do TRE-PB

sábado, 8 de novembro de 2008

Foto de Fátima Silveira

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Crônica nº. 1

Tanto neste nosso jogo de ler e escrever, leitor amigo, como em qualquer outro jogo, o melhor é sempre obedecer às regras. Comecemos portanto obedecendo às da cortesia, que são as primeiras, e nos apresentemos um ao outro. Imagine que pretendendo ser permanente a página que hoje se inaugura, nem eu nem você, — os responsáveis por ela, — nos conhecermos direito. É que os diretores de revista, quando organizam as suas seções, fazem como os chefes de casa real arrumando os casamentos dinásticos: tratam noivado e celebram matrimônio à revelia dos interessados, que só se vão defrontar cara a cara na hora decisiva do "enfim sós”.

Cá estamos também os dois no nosso "enfim sós" — e ambos, como é natural, meio desajeitados, meio carecidos de assunto: Comecemos pois a falar de você, que é tema mais interessante do que eu. Confesso-lhe, leitor que diante da entidade coletiva que você é, o meu primeiro sentimento foi de susto —, sim, susto ante as suas proporções quase imensuráveis. Disseram-me que o leitor de O CRUZEIRO representa pelo barato mais de cem mil leitores, uma vez que a revista põe semanalmente na rua a bagatela de 100.000 exemplares.

Sinto muito, mas francamente lhe devo declarar que não estou de modo nenhum habituada a auditórios de cem mil. Até hoje tenho sido apenas uma autora de romances de modesta tiragem; é verdade que venho há anos freqüentando a minha página de jornal; mas você sabe o que é jornal: metade do público que o compra só lê os telegramas e as notícias de crimes e a outra lê rigorosamente os anúncios. O recheio literário fica em geral piedosamente inédito. E agora, de repente, me atiram pelo Brasil afora em número de 100.000! Não se admire portanto se eu me sinto por ora meio “gôche”.

Dizem-me, também que você costuma dar sua preferência a gravuras com garotas bonitas a contos de amor, a coisas leves e sentimentais. Como, então, se isso não é mentira, conseguirei atrair o seu interesse? Pouco sei falar em coisas delicadas, em coisas amáveis. Sou uma mulher rústica,muito pegada à terra, muito perto dos bichos, dos negros, dos caboclos, das coisas elementares do chão e do céu. Se você entender de sociologia, dirá que sou uma mulher telúrica; mas não creio que entenda. E assim não resta sequer a compensação de me classificar com uma palavra bem soante.

Nasci longe e vivo aqui no Rio, mais ou menos como num exílio. Me consolo um pouco pensando que você, sendo no mínimo cem mil, anda espalhado pelo Brasil todo e há de muitas vezes estar perto de onde estou longe; e o que para mim será saudosa lembrança, é para você o pão de cada dia. Seus olhos muitas vezes ambicionarão isto que me deprime, — paisagem demais, montanha demais, panorama, panorama, panorama. Tem dia em que eu dava dez anos de vida por um pedacinho bem árido de caatinga, um riacho seco, um marmeleiral ralo, uma vereda pedregosa, sem nada de arvoredo luxuriante, nem lindos recantos de mar, nem casinhas pitorescas, sem nada deste insolente e barato cenário tropical. Vivo aqui abafada , enjoada de esplendor, gemendo sob a eterna, a humilhante sensação de que estou servindo sem querer como figurante de um filme colorido. Até me admira todo o mundo do Rio de Janeiro não ser obrigado a andar de “sarong”. Mas, cala-te boca; para que fui lembrar? Capaz de amanhã sair uma lei dando essa ordem.

Apesar entretanto de todas essas dificuldades, tenho a esperança de que nos entenderemos. Voltando à comparação dos casamentos de príncipe, o fato é que as mais das vezes davam certo. Não viu o do nosso Pedro II com a sua Teresa Cristina? Ele quase chorou de raiva quando deu de si casado com aquele rosto sem beleza, com aquela perna claudicante; porém com o tempo se acostumaram, se amaram, foram felizes, e ela ganhou o nome de Mãe dos Brasileiros. Assim há de ser conosco, que eu, se não claudico no andar, claudico na gramática e em outras artes exigentes. Mas sou uma senhora amorável, tal como a finada imperatriz, e de alma muito maternal. A política é que às vezes me azeda mas, segundo o trato feito, não discorreremos aqui de política. Em tudo o mais sempre me revelo uma alma lírica, cheia de boa vontade; eu sou triste um dia ou outro, não sou mal humorada nunca. E tenho sempre casos para contar, caos de minha terra, desta ilha onde moro; mentiras, recordações, mexericos, que talvez divirtam seus tédios.

Você irá desculpando as faltas, que eu por meu lado irei tentando me adaptar aos seus gostos. Quem sabe se apesar de todas as diferenças alegadas temos uma porção de coisas em comum?

Vez por outra hei de lhe desagradar, haveremos de divergir; ninguém é perfeito neste mundo e não sou eu que vá encobrir meus senões. Tenho as minhas opiniões obstinadas — você tem pelo menos cem mil opiniões diferentes — há, pois, muito pé para discordância.

Mas quando isso suceder, seja franco, conte tudo quanto lhe pesa. Ponha o amor próprio de lado, que lhe prometo também não fazer praça do meu. Lembre-se de que há um terreno de pacificação, um recurso extremo, a que sempre poderemos recorrer: fazemos uma trégua no desentendimento, procurando esquecer quem dos dois tinha ou não tinha razão; damos o braço e saímos andando por este mundo, olhando tudo que há nele de bonito ou de comovente: os casais de namorados nos bancos de jardim, o garotinho cacheado que faz bolos na areia da praia, a luz da rua refletida nas águas da baía, ou simplesmente o brilho solitário da estrela da manhã.

Depois disso, não precisaremos sequer de fazer as pazes; nos seus cem mil variadíssimos corações, como no meu coração único só haverá espaço para amizade e silêncio.

Há anos sei que é infalível o resultado da estrela da manhã.


Rachel de Queiroz


Esta é primeira crônica escrita por Rachel de Queiroz para a coluna “Ultima Página” na revista “O Cruzeiro”, em 01/12/1945. A escritora, que iniciou assinando “Raquel de Queiroz”, permaneceu na revista quase até suas portas serem fechadas. Esta preciosidade faz parte dos “Arquivos Implacáveis” de João Antônio Bührer, gentilmente enviada ao Releituras e pescado pelo blog o mundo como ele é.
Fotográfia de Jaime Silva

domingo, 2 de novembro de 2008

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. (s.d.)


L. do D.

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.



Fernando Pessoa

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
E então há um lugar para onde vão os sonhos que a gente desacredita, onde moram os anéis que perdemos, os brincos descasados, o pé de meia preferido, o batom engolido pela bolsa. Há um lugar, um sumidouro, para onde são tragados os sorrisos que não voltam, o cheiro do cabelo, um colarinho manchado, o perfume na manga do vestido, teu nome no bilhete, um gosto de vinho grudado na língua. Ficam lá, suspensos numa órbita improvável e inacessível, ao som de três ou quatro frases para sempre repetidas que a gente procura esquecer. E um dia esquece.


Extraído do blog da Patrícia Antoniete
www.naodiscuto.com

Bunda - Paixão Nacional


De onde vem o encanto do brasileiro pela bunda? O professor Gilberto Freyre, que estudou nossas raízes sociológicas em Casa-Grande & Senzala, aceitou o desafio de investigar as origens dessa magnífica preferência num ensaio. Por motivos de espaço, transcrevemos os principais trechos e resumimos algumas partes do estudo, erudito, de 26 páginas. Erudito, mas que nem por isso evita a ressonante palavra. Lembra alguns sinônimos, principalmente nordestinos, como bagageiro, balaio, banjo, bomba, bubu, além dos tradicionais rabo, traseiro, popô, rabicó, bumbum, tralalá e outros.

Objetivo, ele não usa apelidos quando vai à História, anota fatos, faz uma análise e tira conclusões: o brasileiro tem suas razões para gostar de bunda. Pode não saber quais, mas tem. Vamos a elas.


Um gosto que nasce no madrugador século XVI


"Inclinados a tal, sob que influências vindas de longe? A esse respeito é bom recorrer-se à fonte de informação do madrugador século XVI, suprida pela própria Igreja através de pesquisas realizadas então, como se estivessem concorrendo para saberes cientificamente sociais pelo santo Ofício em atividades investigadoras no Brasil. Suponho ter sido, no livro Casa-Grande & Senzala, o primeiro a utilizar os resultados de tais pesquisas, em obra acessível ao grande público. Constam essas informações da Primeira Visitação do Santo Ofício a Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça. Surgem, nessas indagações secretas, homens casados casando outra vez com mulatas (talvez do tipo mulher tornada conhecida como "arde-lhe o rabo", decerto por haver se extremado em furor anal), adultos europeus ou de procedência européia pecando contra a natureza, em coitos anais ou através de luxúrias de felação, com efebos, quer da terra, quer da Guiné, participantes, alguns deles, com tal volúpia desses amplexos, que de um deles se registra a exclamação "quero mais".

A participação nesses coitos da gente da terra parece indicar, de ameríndios, presentes em contatos madrugadores com europeus, terem sido, eles próprios, dados à sodomia ou à pederastia, com o abuso de bundas já então praticado, quer por europeus em não-europeus, quer -- é possível -- em reciprocidades volutuosas eurotropicais: euro-ameríndias e euro-afronegras. Pode-se concluir de mulheres indígenas, desde esses dias, terem revelado preferências, para contatos sexuais com portugueses, por aqueles motivos priápicos já alegados pelo severo Varnhagen: os portugueses, em confronto com machos indígenas, teriam se revelado mais ardorosamente potentes. Sabe-se por alguma observações antropológicas confiáveis, de homens de culturas primitivas precisarem, em vários casos, para efeitos de procriação tribal, de festas excitantemente sexuais, que os levem a atos procriadores, é claro que acompanhados de gozos. Atos e gozos, entretanto, mais provocados que espontâneos, embora as investigações do Santo Ofício documentem ocorrência de receptividade de indígenas a práticas, já por indígenas conhecidas, em que o coito anal teria se verificado.


Das afronegras notáveis por suas bundas e dos ardores patriarcais


(...) Não há evidência alguma de mulheres indígenas terem se feito notar, como aconteceria com mulheres de origem afronegra, introduzidas na colônia, desde o século XVI, por nádegas notavelmente protuberantes ou por bundas salientemente grandes. E, por essas saliências, sexualmente provocantes do seu uso, e até do seu abuso, em coitos de intenções mais voluptuosas. Ao tamanho das nádegas, desenvolveu-se, é de supor, a tendência, quase folclórica, entre brasileiros, de associarem-se os chamados cus de pimenta ou rabos ardorosos, já presentes em referências em registros das investigações do Santo Ofício.

Entretanto, é preciso não resvalar-se na simplificação de atribuir-se a presença, entre mulheres brasileiras, de bundas grandes, com ou sem essas conexões, à presença de afronegras notáveis por tais protuberâncias de nádegas. Mas é preciso atentar-se no fato de mulheres tipicamente ibéricas, inclusive portuguesas, presentes na colonização do Brasil, terem quase rivalizado, por vezes, com afronegras, em tais protuberâncias de nádegas. Num livro notável, (...) The Soul of Sham (Londres, 1908), o mestre em sexologia, Havelock Ellis, lembra dos por Deniken classificados como do tipo antropológico iberóide serem em geral morenos de uma pigmentação de um encanto estético chamado por Gauthier, referindo-se especificamente às telas espanholas de Málaga, de um "dourado pálido" (...)

E as mulheres? De modo geral, superiores aos homens, afirma Ellis.O que viria sendo confirmado pela sua maior autenticidade como expressões de tipos nacionalmente ibéricos. E especificando seus característicos antropologicamente físicos à base dos sociais: quando jovens, tendentes a delgadas, embora com bustos e ancas -- bundas, portanto -- já desenvolvidos. Protuberâncias acentuadas com a idade madura. A idade, em mulher bonita, a associar-se a gordura. E à gordura, juntar-se, segundo Ellis, "maior amplitude e acentuação de ancas em relação com as demais partes do corpo".

Para o ideal feminino predominante no Brasil patriarcal, de "gorda e bonita", é de se supor ter concorrido influência árabe, contra a qual teriam se oposto, no século XIX, influências romanticamente européias. (...) Um ideal, o de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada, quase sem bunda e de seios virginalmente discretíssimos, mãos e pés ostensivamente pequenos. Outro ideal, o de sinhadona de meia -idade, gorda, ostensivamente bem nutrida, dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher, mãe de sucessivos filhos e a cujo físico não faltavam bundas mais dignamente maternas que provocantemente sexuais. Pois para a satisfação de ardores sexuais o macho patriarcal brasileiro tinha, aa seu dispor -- por vezes defrontando-se com ciúmes de esposas ciosas de seus direitos conjugais --, escravas, mucamas, morenidades em vários graus de mulheres. Isto, dentro da reciprocidade casa grande-senzala. Miscigenadas, como se a miscigenação se fizesse através de experimentos antropologicamente eugênicos e estéticos. Experimentos que permitissem que fossem com que graduadas saliências de bundas, evitando-se os exageros africanóides.


Do andar afrodisíaco das bundas ondulantes à anfíbia Roberta Close


E aqui é preciso que se volte à observação de Havelock Ellis, quanto a uma das superioridades da mulher ibérica sobre as ortodoxamente européias estar na assimilação, pela ibérica, de remota influência africana do andar, como se dançasse. É um movimento de bundas bastante amplas -- especifique-se -- para permitirem essa ondulação como que -- sugira-se -- afrodisíaca de andar.

A grande número de mulheres brasileiras, a miscigenação pode-se sugerir ter dado ritmos de andar e, portanto, de flexões de nádegas, susceptíveis de ser considerados afrodisíacos. Atente-se nesses ritmos, em cariocas miscigenadas, em confronto com as beldades argentinas que o observador tenha acabado de admirar. Os ritmos de andar da miscigenada brasileira chegam a ser musicais, na sua dependência de bundas moderadamente ondulantes. Para Havelock Ellis, o andar da mulher mais tipicamente ibérica, em contraste com a da ortodoxamente européia -- em grande número de casos, acrescente-se a Ellis, como que calvinistamente proibida, em sua maneira de ser femininamente elegante, de ter bunda ostensiva -- teria alguma coisa de graciosa qualidade de um corpo felino inteiramente vivo.

O homem médio brasileiro não pode deixar de ser sensível à imensidade de provocações que o rodeiam. Não tanto ao vivo, como por meio de anúncios de revistas ilustradas, que se vêm esmerando na utilização de reproduções coloridas de bundas nuas, como atrativos para uma diversidade de artigos à venda. Há,no Brasil de hoje, uma enorme comercialização da imagem da bunda de mulher em anúncios atraentes. Estéticos uns, alguns lúbricos. Também se vem fazendo esse uso na televisão. E, sonoramente, em músicas apologéticas da beleza da bunda de mulher. O sexo da mulher vem, através dessa comercialização da bunda em anúncios, quase perdendo, em publicidade apologética, para esse nada insignificante rival, no Brasil.

Ainda agora, a propósito da anfíbia Roberta (Close), vem se destacando dela, como qualidade feminina, ter "bunda grande". À "bunda grande" se contrapõe, no Brasil, como negativo sexual, e até eugênico e estético, a "bunda murcha", a "bunda seca", a "bunda magra". Pois o ideal árabe de mulher bonita, ser gorda, ainda não foi superado de todo, no Brasil, pelo ideal de mulher secamente elegante, desde a chamada flapper, da década de trinta: mulher delgada e como se fosse rapaz. Quase sem bunda!


Da teoria à prática ou de como as ditas polacas entram nesta história


Perdendo em anúncios e tendendo a bunda a um tão bom como tão bom em práticas de coito, não é raro, entre brasileiros atuais, a alternativa: o gozo anal tendendo a alternar, para não poucos homens, com o chamado papai-mamãe, que seria o encontro do pênis com a vulva.

Por algum tempo foi a bunda o chamariz, da parte de mulheres da vida, do tipo chamado indistintamente polaco, em ruas de ostensiva prostituição comercial, a homens ao alcance de suas vozes, que consideravam cansados de coitos conjugais monotonamente normais. Tais mulheres anunciavam deixarem-se enrabar ou a praticar o sexo oral.

Assinale-se que, ao começar a haver, em Mangues, tais ofertas, parece ter havido não pouca repulsa da parte de mulatas mais castiçamente brasileiras, a homens que lhes propuseram facilitar-lhes tais substitutos de coitos convencionais. Que fossem se acanalhar com polacas! O que não parece ter impedido de as alternativas virem sendo adotadas por brasileiras de cor, com as bundas avantajadas sendo cortejadas por homens inclinados a esse tipo porventura mais carnal de coito.


Da bunda como inspiração estética nas artes plásticas


Ouvi, em Sussex, do escultor Henry Moore, que os olhos do artista, para criarem esculturas, precisavam não só de ver, como, pelo olhar, apalpar o que viam com vontades de esculpir. O que evidentemente reforça a sensualidade das esculturas, quando de mulheres nuas, dando-lhes maior apelo sexual: o de uma intensidade que não chega a ser lúbrica para ser sexy. Impressionista, Moore? Para lá desse ismo. Mais expressionista que impressionista. Mas na verdade, também, além desse outro ismo.

Para o arquiteto finlandês Eliel Saarinem, em Search for Form, (N.Y., 1948), nenhum desses ismos pioneiramente destruidores de convenções das chamadas naturalistas deixou de representar impulsos de criatividade diferentes em artistas inovadores. Diferença, inclusive, de perspectivas do nu de mulher, como desafio, quer de forma, quer de cor. O que inevitavelmente veio a tocar em morenidades ecológicas, condicionadas por sóis e calores tropicais. E a produzir pintores especializados em dar destaque a bundas de mulheres morenas. Um deles, de modo notável, Emiliano di Cavalcanti.

Bundas, porque, mais do que faces ou partes superiores de corpos, elas permitem ao pintor dar ênfase estética a curvas femininas. É em nádegas que esses curvas esplendem, irradiando suas maiores provocações, além de estéticas, sensuais. Foi pioneiro em fixá-las o exotista ou tropicalista Gauguin. De onde outros ismos em criações pictóricas em torno de corpos de mulheres, isto é, de formas diferentes das olimpicamente, apolineamente, estaticamente clássicas. Inclusive o muito dionisíaco primitivismo, pretendendo juntar, à apresentação de bundas como partes aliciantemente belas de corpos de mulher, uma perspectiva como que -- paradoxo -- maliciosamente inocente.

As bundas de mulatas célebres de Di Cavalcanti não estão nesse caso. Nem elas nem as das pinturas criativamente inclassificáveis como istas de Cícero dias, de que emergem mulheres nuas ostentando mais bundas desacompanhadas de pêlos do que sexos com pentelhos ramalhudos. Aliás, a miscigenação brasileira tornou-se tão vasta, que as bundas de mulheres do Brasil constituem, talvez, a mais variada expressão antropológica de uma moderna variedade de formas e nádegas, com as protuberantes é possível que avantajando-se às menos ostensivas.


De como a bunda cintila na Literatura e vira anseio
no Carnaval de Chico Buarque



Na literatura brasileira, que autor pode ser destacado como tendo dado especial relevo ao liciante assunto? Impõe-se recordar do lúcido modernista de 22, Oswald de Andrade, que, em página de novela com alguma coisa de autobiográfico, confessa: "e enrabei Dona Lalá". Em versos, também modernistas, Manuel Bandeira refere-se a "genipapo na bunda". E em Evocação do Recife dá a entender das lindas recifenses, que viu, com olhos de menino, nuinhas, a se banharem no então também lindo e limpo Capibaribe, que entre as partes de seus corpos mais causadoras do seu alumbramento estavam as bundas.

É curioso que, no seu excelente Ensaios de Antropologia Estrutural (Petrópolis, 1977), o professor Roberto da Matta, ao considerar o Carnaval brasileiro como "rito de passagem", destaque ser a rainha do carnaval "sempre uma vedete de formas perfeitas". E sua bunda? É parte ou não dessa perfeição? Se, como recorda de música de Chico Buarque, o típico brasileiro carnavalesco espera "o Carnaval chegar" para "pegar em pernas de moças", como não destacar-se seu ensejo maior de apalpar bundas de mulher?


O texto acima foi extraído da revista Playboy nº.113, de dezembro/1984, sob o título de "Uma paixão nacional".


Gilberto Freyre

sábado, 1 de novembro de 2008

O morto

Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!


Mário Quintana

Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente.


Mário Quintana

Era uma vez um pardal cansado da vida. Um dia, resolveu sair voando pelo mundo em busca de aventura. Voou até chegar numa região extremamente fria e foi ficando gelado até não poder mais voar e caiu na neve. Uma vaca, vendo o pobre pardal naquela situação, resolveu ajudá-lo e cagou em cima dele. Ao sentir-se aquecido e confortável o pardal começou a cantar. Um gato ouviu o seu canto e foi até lá, retirou-o da merda e o comeu.

Moral da história: 1. Nem sempre aquele que caga em cima de você é seu inimigo; 2. Nem sempre aquele que tira você da merda é seu amigo; 3. Desde que você se sinta quente e confortável, mesmo que esteja na merda, conserve seu bico fechado.

Com livro infantil, Ignácio de Loyola Brandão vence o Prêmio Jabuti 2008


Com o livro infantil "O Menino que Vendia Palavras" (Objetiva), o escritor Ignácio de Loyola Brandão foi vencedor da categoria Melhor Livro de Ficção do prêmio Jabuti, que em 2008 completa sua 50ª edição. Na categoria Melhor Livro de Não-Ficção, o premiado foi Laurentino Gomes, com o livro-reportagem histórico "1808" (Planeta). Ambos receberam o troféu dourado do Jabuti e um prêmio de R$ 30 mil. As duas principais categorias do prêmio foram anunciadas na noite desta sexta-feira (31), na Sala São Paulo, em São Paulo.

Ignácio de Loyola Brandão, 72, reagiu com surpresa à premiação, afirmando acreditar que ela iria para Cristóvão Tezza, que com "O Filho Eterno" venceu os prêmios Portugal Telecom, Bravo!, APCA e o próprio Jabuti, na categoria Melhor Romance este ano. Loyola já foi agraciado com um Jabuti em 2000, na categoria Melhor Livro de Contos, com o livro "O Homem que Odiava a Segunda-Feira". Ele é autor de oito romances, entre eles "Zero" (1975) e "Não Verás País Nenhum" (1981).

O livro-reportagem "1808", do jornalista paranaense Laurentino Gomes, 52, alcançou grande sucesso no mercado editorial este ano com sua descrição da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Após a premiação, na qual recebeu o troféu por Melhor Livro de Não-Ficção, o autor afirmou que "a repercussão do livro mostra como pesquisadores e estudiosos devem se preocupar em transmitir o conhecimento de forma acessível, pois vivemos em um país com altas taxas de analfabetismo funcional".

"O Menino que Vendia Palavras" e "1808" foram finalistas em suas respectivas categorias específicas no prêmio, Melhor Livro Infantil e Melhor Livro de Reportagem. Na premiação das 20 categorias específicas, anunciada no dia 29 de setembro, o livro de Ignácio de Loyola Brandão ficou em segundo lugar, enquanto o de Laurentino ficou com a primeiro colocação. O sistema de votação do Jabuti permite que, mesmo não sendo vencedor em sua categoria, um livro seja eleito para o prêmio principal.

Comemoração

O prêmio Jabuti, que completou meio século de existência em 2008, comemorou a efeméride com o lançamento do livro "Prêmio Jabuti - 50 Anos", editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. O livro compila todos os vencedores da história do prêmio até 2007, em uma lista que começa com "Gabriela Cravo e Canela", de Jorge Amado, Melhor Romance de 1958.

Para a 50ª edição do Jabuti, foram inscritas 2.141 obras. Este ano, o prêmio foi transmitido na íntegra pela Internet, em uma parceria com a TV Cultura.


Fonte> bol.com.br

Essa é demais!


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A caverna de Platão


Por isso, a alegoria da caverna de Platão, sobre a qual trata o livro 7 de uma das mais importantes obras deste filósofo, a República, é ainda relevante hoje. Muitos conhecem o famoso texto como uma interpretação da lucidez dos filósofos contra a ignorância dos que não pensam e permanecem a crer nas sombras dentro da caverna.

Esta é uma interpretação correta, mas podemos ir além. A caverna da alegoria é uma habitação. As pessoas vivem ali cegas do que se passa ao seu redor. Não tem experiência do que vivem e por isso podemos dizer que não habitam. Olham as sombras projetadas no fundo da caverna como se fossem as coisas reais. Para elas tanto faz o que acontece.

Quando Platão desenvolve esta narrativa seu interesse é dizer que as idéias, não as coisas, é que são verdadeiras; que há algo mais verdadeiro além do mundo que a visão alcança. Hoje em dia podemos resumir a idéia de Platão à desatenção que temos pelo mundo que nos cerca.

Pensar e morar

Platão escreveu a República pensando numa utopia, na organização perfeita de uma cidade. A casa estava dentro dela e não deveria ser uma caverna. As pessoas teriam que ter paciência para sair dela.

Hoje, porém, a caverna, que para Platão era uma metáfora, tornou-se também real. Sair da caverna hoje significa enfrentar a verdade da rua. Perceber o quanto nossa casa, nosso modo de morar é o resultado do que nos oferece a nossa sociedade. Nossa casa é o resultado da vida comum, do que entendemos que é a rua hoje. Apartamentos pequenos com cômodos onde apenas um pode entrar, muros altos, grades protetoras. Um dos aspectos mais significativos é o tamanho minúsculo das janelas dos apartamentos em prédios novos. Grandes vidraças ou sacadas são um luxo em tempos em que ver a rua, a cidade com suas luzes e sombras se tornou acessível a poucos. Ver é um luxo. Como posso entrar em casa e perceber que o mundo que está lá fora também me pertence? Que o que está fora de casa faz parte de minha casa se sempre aparece separado do que eu vivo? Onde está a arquitetura que deveria nos ajudar a habitar o lugar onde vivemos?

A minha casa

Espaço é um luxo tão grande quanto o tempo. O espaço é a dimensão do corpo e da relação entre os corpos que nos permite ter sensação de aproximação e distância. A distância é o lugar onde não podemos habitar. É a rigor um não lugar? Nosso mundo está cheio dela.

Por isso, vivemos sem lugar e encontrar um traz a sensação de completude.
Todos os seres animais e humanos precisam abrigo, esconderijo, descanso, conforto. Uma casa significa tudo isso.

Mas podemos morar nela sem habitá-la. É o que acontece conosco quando desistimos de pensar no universo, no planeta Terra, no continente, no país, na sociedade, na cidade, no bairro, na comunidade. Nosso lar é onde aprendemos o que é habitar. Nele a aproximação deve estar acima da distância. Nossa casa mais próxima, a das quatro paredes ao nosso redor, pode se tornar uma caverna como a de Platão. Lugar onde nos escondemos e aos nossos tesouros, lugar sem relação com o mundo fora dele.

A caverna é uma crença que deveríamos tentar desmistificar quando a tendência é que as casas se transformem em cavernas.

Que a distância supere a aproximação. Nosso mundo será bárbaro se isto acontecer. Hoje, enquanto o espaço diminui, a distância entre nós aumenta.

Saber da distância é o único jeito de ser maior do que ela.



Marcia Tiburi