sábado, 31 de outubro de 2015

Como é mesmo o nome?

Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.

Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.

No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.

Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.

— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.

Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração.

A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.

A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.

O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.

Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.

Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.

Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.

Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.

No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.

As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.

Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.

— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?

Marina Colasanti

Juiz visita buraco onde homem vive há 25 anos para decidir sobre ação

Irmã entrou na Justiça pedindo pensão e interdição judicial dele, em Goiás. Situação 'peculiar' e capacidade do homem intrigam magistrado.

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Juiz visita buraco onde homem vive h 25 anos para decidir sobre ao
De dentro do buraco que ele mesmo cavou e onde vive há 25 anos, Antônio Francisco Calado, 57, teve um dia diferente na última terça-feira (27). Acostumado a ficar sempre sozinho, ele recebeu a visita do juiz Everton Pereira Santos.

O magistrado foi até a "casa", construída em uma pequena e inóspita propriedade rural de Nova Roma, no norte de Goiás, para inspecionar a situação e se posicionar a respeito de dois processos de pensão por morte dos pais e um de interdição judicial envolvendo o homem.





Juiz visita buraco onde homem vive h 25 anos para decidir sobre ao

Juiz visita buraco onde homem vive h 25 anos para decidir sobre ao
Tudo começou quando a irmã e curadora de Antônio, Raimunda Tereza Calado, entrou na Justiça para provar que ele era incapaz e poderia ter acesso ao benefício. Uma audiência até foi marcada, mas Antônio não compareceu. Diante da situação, o magistrado, responsável pela comarca de Iaciara, percorreu 50 km de carro e mais 1 km a pé para checar, com seus próprios olhos, as condições do "homem do buraco", como é conhecido.

Santos diz que ficou intrigado com o que encontrou. "Olha, é uma situação muito peculiar, indescritível. Ao mesmo tempo em que ele aparenta ter muita inteligência para usar técnicas na construção do buraco e manusear ferramentas, demonstra aparentes delírios, dizendo que conversa 
com os raios e trovões", disse ao G1.

Em perícia já realizada, Antônio foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide perturbação mental grave caracterizada pela perda de contato com a realidade, alucinações e crenças falsas.
Diante dos documentos e da inspeção ao local, o juiz deliberou pelas duas pensões - relacionadas às mortes do pai, em 2000, e da mãe, 12 anos depois - cada uma no valor de um salário mínimo. A decisão também contempla o período retroativo, que resulta em um valor aproximado de R$ 70 mil.

Engenharia 'fantástica'

Segundo o magistrado, Antônio não fala "coisa com coisa" e não consegue estabelecer uma linha de raciocínio clara e linear. Apesar disso, mostra lampejos, principalmente relacionados à construção, que fazem Santos acreditar até em coisa de outro mundo.

"Ele criou um sistema para que a água da chuva não entre no buraco e ele poder utilizá-la depois. É fantástico. Quem ensinou isso para ele? Tenho a impressão que ele tem contato com outro ser. Ele se inspira em alguém, é muito estranho", diz.

A residência de Antônio também impressionou o juiz. A construção, em formato oval e com aproximadamente 8 m², tem os cômodos divididos e só é possível chegar a pé. Ao entrar, existe a sala. De um dos lados, um oratório com duas imagens de santos e do outro o quarto, onde ele dorme sobre um pedaço de madeira com panos velhos.

O homem cozinha do lado de fora com utensílios sujos e rudimentares. A comida é tudo que ele encontra na natureza: pequi, pimenta e outras verduras cultivadas no local. Antônio não come carne.

Nada de banho

A irmã afirmou ao juiz que já tentou tirar o homem do local várias vezes, mas ele nunca aceitou a ideia. "Ele é muito arredio. A irmã falou que para manter uma convivência com ele é preciso três coisas: não pedir para ele tomar banho e trocar de roupa, além do mais importante, não pedir que ele saia de lá", explica.

Como Antônio é incapaz, a irmã é quem vai administrar os benefícios. Segundo o juiz, ela será monitorada para fazer bom uso do recurso.
"Já pedi ao MP que acompanhe o gasto do dinheiro. Recomendei ainda que, mesmo a contragosto dele, sejam feitas melhorias no local, como a construção de um barraco e a utilização de água tratada", exemplifica.

FONTE: G1

"Não há nada que esteja menos sob o nosso domínio que o coração, e, longe de podermos comandá-lo, somos forçados a obedecer-lhe". 

 Jean-Jacques Rousseau

Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.

Mia Couto 

Do livro: "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra"

sexta-feira, 30 de outubro de 2015


"Safado é Vossa Excelência! Bandido é Vossa Excelência!
 
Troca de "gentilezas" entre o Ministro Eduardo Braga e o Senador Ronaldo Caiado na sessão de ontem do Senado Federal

Edgar Morin: é preciso educar os educadores

O Globo: Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?Edgar Morin: A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal" de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado.
É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças. 

O Globo: Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?
Edgar Morin: O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão. 

O Globo: O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?
Edgar Morin: Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar.

Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo. 

O Globo: O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?
Edgar Morin: As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte" é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.

O Globo: Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?Edgar Morin: É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.

O Globo: A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê?
Edgar Morin: Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário. 

O Globo: Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?
Edgar Morin: O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão. [Leia esta entrevista no site do O Globo

Assista a Edgar Morin - Os limites do conhecimento na globalização | No vídeo exclusivo, Morin reflete sobre seus interesses enquanto filósofo e sociólogo: os limites do conhecimento e da razão, bem como a relação entre a poesia e a racionalidade. Ainda, questiona a possibilidade da mudança de pensamento em um mundo globalizado e acelerado. É possível sairmos de uma visão fechada em formas particulares para o pensamento complexo, capaz de ver os problemas em sua integralidade? 






E no teste de matemática...


"A sensação de mistério é a única emoção que se experimenta com mais força na arte do que na vida.”

Stanley Kubrick

Vida e poesia

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor. 


Vinícius de Morais 

"Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas."

Mário Quintana

Divagando sobre Tchékhov e sobre a mais narrada das mortes

A morte de Tchékhov no balneário de Badenweiler é uma das mais recontadas da historia da literatura. Parece haver enorme sedução na cena do escritor moribundo, com sua mulher, seu médico, o estudante que chegou para ajudar e a garrafa de champanhe. Quem pediu a bebida? O médico ou Tchékhov? A sedução é tanta que o grande Raymond Carver escreveu um conto, Três rosas amarelas, no qual narra a cena, só que cheia de detalhes inventados. Talvez isso tenha nascido da narrativa de Olga Knipper, atriz e mulher do escritor. Em seu relato, a cena é contada com tanto, mas tanto romantismo que não parece verdadeira. O russo era um escritor que se caracterizava pela falta de artifício e de idealização dos personagens, pilares de um modelo de escrita totalmente ignorados por Olga em seu texto.

Não é estranha a admiração de Carver pelo russo. Basta ler ambos. Indiscutivelmente, o país onde mais profundamente influenciado pela prosa e direta de Tchékhov foi os Estados Unidos, onde a afetação não desfruta de muito prestígio. Suas histórias da Rússia Czarista parecem as de um sujeito nascido para a pobreza, mas Tchékhov, neto de um escravo que comprou sua liberdade, acabou homem rico. Foi filho de um dono de armazém, terceiro de seis filhos, chefe de família — cuidava dos irmãos com especial cuidado –, estudou medicina, exerceu-a, parou de praticá-la para apenas escrever, apesar de nunca ter se sentido parte do mundo literário.

Tchékhov, segundo Tolstói, que não é exatamente uma besta para descrever pessoas, seria um homem “doce como uma mulher” e é crível que tenha dito em seu leito de morte que “fazia muito tempo tempo que não bebia champanhe” e mais crível ainda é que o médico o tenha servido, pois sabia da morte inevitável pela tuberculose. Estávamos em 1904. O detalhe do último suspiro e do voo da rolha… Mas voltemos a Tchékhov.

Os personagens de Tchékhov são cheios de boas intenções sobrecarregadas de estupidez, inatividade e finalidade. Ele é moderno em sua concisão, pouca adjetivação e principalmente na recusa em explicar o mundo. Confrontado com as idéias de Tolstoi — o qual em seus textos parece ter resolvido todos os impasses da humanidade — , Tchékhov era um apresentador de realidades complexas e insolúveis que habitam uma dentro da outra. Também defendia, uma novidade na época, os efeitos benéficos da ciência e do progresso.

Por que amamos tanto Tchékhov? Por que as pessoas fazem cara de “coisa fofinha” quando falam nele? Isso ocorre porque ele é o fundador do escritor moderno que não julga os personagens, deixando-os falar sua própria língua? Mas isso não comportaria uma certa dureza narrativa? E o que transparece da doçura de Tchékhov em seus textos? A pensar.
Tchékhov e Tolstói
Tchékhov e Tolstói

 Do blog do Milton Ribeiro

Amo o que não tem despedida

Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,
A nuvem grávida de Novembro,
O desaguar de um rio em tua boca.

Só me pertence o que não abraço.
Eis como eterno me condeno:
Amo o que não tem despedida.

Mia Couto

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

"Quando descobrimos que absolutamente nada é definitivo, inclusive a vida, compreendemos a inutilidade do orgulho, a tolice das disputas, a estupidez da ganância e a incoerência das tolas mágoas."

Da net (autoria não identificada)

Bicicleta


Humor


"Onde, afinal, é o melhor lugar do mundo? Meu palpite: dentro de um abraço". 

Martha Medeiros


O lupanar

Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!
Este lugar, moços do mundo, vêde:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!
É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,
Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!


Augusto dos Anjos

Pérola do dia

Há semanas que os assuntos para uma pequena e despretensiosa crônica diária é abundante. Outras o parto é difícil. Equilibrar temas e assuntos, todos os dias, não é tarefa fácil. Aquele que sempre tem uma piadinha pronta, ou conta histórias que não interessam absolutamente a ninguém, é o chato de carteirinha. Falar só de política acaba cansando. Os corruptos, e delinquentes políticos, vencem pelo nosso cansaço. E temos ainda que considerar que não há a menor possibilidade de agradar gregos e troianos. Os meus vinte leitores que consegui reunir, depois de anos de uma crônica, todo santo dia, e tendo eles gênero, e idade muito diversa, já é um sucesso. Sem falar na disparidade intelectual. Brindam-me com suas leituras donas de casa aposentadas, advogados ranzinzas, artistas, escritores, ex-colegas de ginásio, e eventualmente um ou outro parente. O que sabem é que de futebol eu não trato. Música também não é minha praia. Reclamam porque falo (escrevo) sobre política, e livros em demasia. Quando faço uma crônica mais "picante", os moralistas não curtem. Não é fácil, e nem estou preocupado  agradar a todos. Fiquei sabendo que tenho uma leitora no Rio de Janeiro que não faz nada, ao acordar pela manhã, sem antes dizer para o marido: "Vamos ler a pérola do dia", se referindo, sarcástica e ironicamente, às minhas publicações. Tomei como um elogio, apesar da ironia e sarcasmo. A luta para cativar, e condicionar o "consumidor" de qualquer coisa, de pasta de dente, a massa de tomate, é insano. Uma crônica é a mesma coisa. As pérolas nascem do incomodo de um grão de areia. Torna-las um vício ou hábito já é um feito. Espero poder continuar a ser, não uma pérola, mas um grão de areia e provocar as mentes e imaginação dos meus leitores. 

Eduardo P. Lunardelli

Pastor pede para ungir calcinha das irmãs

"Quer preservar seu casamento? Bota a calcinha na oração". Essa foi a proposta Natanael Zimmerman, pastor da Igreja Cristã Renovação na Fé, localizada no município de Apiacá (ES).

Em um carro de som pastor anunciou um culto especial para as mulheres que queriam blindar seu casamento do adultério e manter seus maridos fiéis.

Foi solicitado que todas as mulheres que quisessem a benção da fidelidade no matrimônio levasse uma peça íntima na cor vermelha, que nunca tivesse sido usada para derramar azeite sobre ela.
 
O endereço da igreja é Alameda Moacyr Tardin de Figueiredo, Nº 25 em Apiacá. Quem estiver afim de uma benção no casamento...
 
Fonte:  aqui

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Charge


Frase

Num estado democrático existem duas classes de políticos: Os suspeitos de corrupção e os corruptos.

David Zac

Saudades

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?


Gilka Machado

Do que fugir?



Tão importantes quanto as coisas que fazemos são aquelas que não fazemos. Que — para nos proteger e para chegar a nós mesmos — optamos por não fazer. Na arte do não-fazer, o russo Anton Tchekhov também foi um mestre. O que evitar? A que se negar? O que recusar? Em que situações é melhor ficar imóvel e quieto, a simplesmente agir? Escrevendo a Ivan Leóntiev, em junho de 1888, e referindo-se a uma crítica feita pelo amigo a Fogos, Tchekhov diz: “Não é obrigação do psicólogo compreender o que ele não compreende. Além disso, não é obrigação do psicólogo aparentar compreender aquilo que ninguém compreende”. A lição não serve apenas aos psicólogos, mas a todos nós. Muitas vezes, a afirmações incertas — como as de Leóntiev — é bem melhor o silêncio.

Encontro as palavras sábias de Anton Tchekhov em Sem trama e sem final (Martins Fontes, 2002), coletânea de pensamentos do autor russo organizada por Piero Brunello. Além de grande contista e dramaturgo, Tchekhov foi também um corajoso pensador. Um escritor que não se limitou apenas à literatura, mas que pensava sobretudo suas relações com a vida e com a realidade. “Somente os imbecis e os charlatães é que sabem e compreendem tudo”, ele insiste na mesma carta a Leóntiev. Disso certamente devemos fugir (e não só os escritores): da pretensão, ou da simulação de “tudo saber”. Ao contrário, Tchekhov não se esforçava para disfarçar os próprios erros. Em outra carta, a Vukol Lavrov, de 1890, ele diz claramente: “Toda a minha atividade literária tem consistido numa série ininterrupta de erros, por vezes grosseiros”. Mais à frente, sem nenhuma autopiedade, continua: “Tenho muitos contos e artigos de fundo que de bom grado jogaria fora por não prestarem, mas não há uma só linha de que agora deva me envergonhar”.
Mais do que fugir dos erros (dissimulá-los, renegá-los), um escritor, diz Tchekhov, deve fugir dos julgamentos. O escritor não é um juiz. A ficção não existe para proferir vereditos, ou verdades absolutas. Em carta ao editor Alexei Suvórin, Tchekhov é claro: “Você me repreende pela objetividade, chamando-a de indiferença para o bem e para o mal, de ausência de ideais e de ideias. Você quer que, ao representar ladrões de cavalos, eu diga: roubar cavalos é um mal”. Não: o escritor não escreve para julgar. Não emite avaliações, ou sentenças. “Deixemos aos jurados julgá-los, a minha função é apenas mostrar como eles são.” Sabia Tchekhov que as coisas nunca são uma coisa só. A realidade é múltipla e traiçoeira. É preciso sabedoria para respeitá-la. “O roubo de cavalos não é um simples roubo, mas uma paixão”, ele afirma. Dizia escrever para incorporar seus personagens, isto é sentir como eles sentem. “Quando escrevo, eu confio inteiramente no leitor, supondo que ele mesmo acrescentará os elementos subjetivos que faltam ao conto.”
Um escritor, acrescenta Tchekhov, deve também fugir do exibicionismo. Não deve pontificar sobre os assuntos com que trabalha. Não deve “esconder algo” e, assim, trair a si mesmo. Aconselhava aos escritores, ainda, que fugissem do transitório. Do passageiro, dos modismos, das tendências. “O bom romancista deve passar ao largo de tudo o que tenha significado transitório”, aconselha. Deve fugir de “todas as observações críticas que se pretendem certeiras e atuais”. O que antes era “profundo”, como é insignificante hoje em dia! Atento ao real, o escritor não deve, porém, deixar-se por ele hipnotizar. Até porque o real é também feito de máscaras, de disfarces, de armadilhas. Melhor centrar-se em si — e deixar que a realidade siga seu caminho.
Diz ainda: o escritor deve fugir dos ornamentos, preferindo ser simples e sincero. Os principais atrativos de um conto, afirma, são a simplicidade e a sinceridade. Deve fugir, ainda, dos jargões especializados — seja em nome da ciência, do direito, da religião —, fugir da língua dos burocratas e preferir a linguagem comum. Considerava expressões como “outrossim” e “em conformidade com” meras “invenções dos burocratas”. Arremata: “Leio e tenho engulho”. Não poupa, sequer, os escritores mais novos: “Os jovens, particularmente, escrevem muito mal. São obscuros, frios e deselegantes; escrevem como se estivessem mortos e enterrados”. Sempre defendeu uma linguagem viva, que fuja das ideias prontas, das frases de efeito e da argumentação pedante. O segredo principal seria: “não ter medo de parecer estúpido”. Conclui: “Não tenho medo de parecer estúpido; o livre-pensamento é necessário e só é livre-pensador quem não teme escrever bobagens”. Em resumo: não ter medo da liberdade. Liberdade de ser o que se é. Diz Tchekhov, em outra carta, a Leóntiev: “Trate de si mesmo e de seu dom”. E isso deve bastar.

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros. Vive em Curitiba (PR).

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.

Hermann Hesse
Ontem, essas duas crianças me fizeram retornar aos idos do final da década de 70 onde tive uma infância pobre e feliz, em muitos momentos, guiada, assim como elas, por meus pés de lata.


Estátua de Lênin é transformada em Darth Vader na Ucrânia

Líder comunista foi substituído pelo personagem de 'Star Wars' para monumento não ser demolido
A estátua em homenagem ao líder comunista Vladimir Lênin passou, por assim dizer, por uma repaginada. O monumento localizado na cidade de Odessa, na Ucrânia, foi transformado no sombrio personagem de Star Wars Darth Vader. A mudança foi feita para evitar a demolição, já que uma lei recente do país proíbe símbolos que exaltem o comunismo.
Segundo Aleksander Milov, artista responsável pela transformação, ao site local Dumskaya, a estátua seria a primeira no mundo do vilão da saga intergaláctica. Lênin, contudo, não foi destruído, e se mantém dentro de Vader. Caso, no futuro, o país queira ressuscitar o político. A transformação de personas também trouxe uma atualização digna de tempos modernos: na cabeça de Vader foi instalado um hotspot com WiFi para os visitantes.
 
Veja.com 

Chegada

Chegas,
Sóbria e sombria,
E desocupas em mim
A tua própria sombra.

Agora és a minha própria voz:
Nenhum silêncio nos pode calar.

Falas e acaba o tempo.

E eu escuto-te
Apenas quando te lembro.

Mia Couto

domingo, 25 de outubro de 2015

Charge


Pérolas escolares





Ser feliz ou ter razão?

Oito da noite numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de alguns amigos. O endereço é novo, assim como o caminho, que ela conferiu no mapa antes de sair. Ele dirige o carro. Ela o orienta e pede para que vire na próxima rua à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem. Percebendo que além de atrasados, poderão ficar mal humorados, ela deixa que ele decida.

Ele vira a direita e percebe que estava errado. Ainda com dificuldade, ele admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há problema algum em chegar alguns minutos mais tarde. Mas ele ainda quer saber: "Se você tinha tanta certeza de que eu estava tomando o caminho errado, deveria insistir um pouco mais".

E ela diz: "Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos a beira de uma briga, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite".

Prof. Menegatti

Conversas de mulher

Conheço-a há pouco tempo, mas tenho por ela a maior das simpatias. É mulher vibrátil, inteligente, bonita e espirituosa. Fala-me de coisas belas e boas da vida, e outro dia subitamente perguntou-me se não cogito de fazer uma operação plástica facial, que acabe com as minhas rugas, devolvendo-me ao rosto a louçania de passadas eras.

Isso aconteceu num encontro de rua, banal encontro de duas mulheres, não fosse a longa explanação que dela ouvi sobre a técnica do rejuvenescimento. Citou nomes de mulheres nacionais e estrangeiras muito jovens hoje e que realmente conheci maduras quando eu era menina.

— Veja, por exemplo, a Marlene Dietrich...

Conta-me que essas operações já estão sendo feitas no Brasil, que antigamente, para desenrugar-se, a mulher precisava ir a Paris, Londres, Viena ou Nova Iorque, onde a operação, sendo a mesma, é inteiramente diferente quanto ao custo.

— Em nosso país há médicos especializados e competentes realizando a operação pelo preço baratíssimo de cinqüenta mil cruzeiros.

Assim ela fala e eu ouço encantada: convenhamos que tem razão ; a recuperação da mocidade, mesmo e apenas aparente, vale muito mais do que qualquer quantia.

A conversa. continuou, e ouvi então esta enorme revelação: o perigo, o grande perigo é que muitas mulheres, quando saem da casa de saúde despidas de rugas, trazem no rosto um ar de total imbecilidade. Por isso é importante — muito importante — saber o que tirar, qual a ruga ou grupo de rugas que devem permanecer. O médico, além de bom operador deve ser também um esteta e um psicólogo para não liquidar na máscara feminina a marca da personalidade conquistada através, de. anos vividos.

Como estávamos ambas apressadas — ela para continuar fazendo compras e eu para trabalhar, despedimo-nos. Sua frase final andou comigo pelas ruas, gravada em mim:

— Essa coisa está ficando tão comum e obrigatória que daqui a cinco anos ouviremos uma mulher dizer que está com hora marcada num médico: — "Hoje vou fazer minha operação plástica" — como hoje diz que tem hora marcada no cabeleireiro ou no dentista. Tiraremos rugas como tiramos sobrancelhas.

Não desaprovo essas operações nem nego às mulheres o direito de defender e conservar a beleza, mas depois dessa conversa pensei. um pouco nas minhas rugas, pobres rugas que jamais serão desfeitas e que até aquele momento não tinham vivido um minuto sequer em minhas cogitações. Cinqüenta mil cruzeiros. Com eles, se os tivesse, quantos meses passaria em Paris? Ou viajaria o Amazonas? Que livros compraria?

As rugas de minha testa apareceram cedo. Depois li que elas são o prêmio concedido, a partir dos dezoito anos, às pessoas que costumam se preocupar com problemas seus e do mundo. Quantas preocupações tive, ainda menina., com a.s definições, os problemas da Metafísica, os sentimentais e mesmo os políticos. Quantas rugas criei as poucas vezes que votei?

Operando minhas rugas, eu poderia depois pensar sem que outras rugas nascessem, ou a operação me proibiria, cassaria meu direito a pensar? A quem estaria enganando sem rugas. a mim ou aos outros? E se depois da operação plástica eu ficasse com uma cara imbecil se bem que formosa ? Se eu me procurasse e não me encontrasse Pensei em minha mãe muito jovem ensinando que o importante: é ter sempre saúde mental, física e moral. Pensei em George Sand dizendo: — "Quando me examino vejo que as duas químicas paixões de minha vida foram a maternidade e a amizade." Com essas duas paixões quantas rugas terão nascido naquela tão fabulosa mulher?

De qualquer modo, cumprimentemo-nos: dentro em breve, neste país, com as operações plásticas a preço módico — cinqüenta mil cruzeiros — não mais haverá brotinhos, balzacas ou coroas. Infelizmente a divisão de classes continuará por algum tempo, e por isso no Brasil, daqui a pouco só serão velhas as mulheres trabalhadoras como eu e centenas de outras, e as mulheres operárias, aos milhares.

Manteremos as rugas: elas contam nosso destino.

ENEIDA

 A crônica acima foi extraída do livro “Aruanda”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1957, pág. 145, em mais uma colaboração do “Rato de Sebo” João Antônio Bührer.

sábado, 24 de outubro de 2015

Nossas boas vindas a Lúcia cortez, nossa mais nova seguidora.

Querida Lúcia Cortez, seja bem vinda a este espaço virtual que é de todos nós. Muito obrigado pela sua preferência.

De cabeça pensada



Tinha 30 anos quando decidiu: a partir de hoje nunca mais lavarei a cabeça. Passou o pente devagar nos cabelos, pela última vez molhados. E começou a construir sua maturidade.

Tinha 50, e o marido já não pedia, os filhos haviam deixado de suplicar. Asseada, limpa, perfumada, só a cabeça preservada, intacta com seus humores, seus humanos óleos. Nem jamais se deixou tentar por penteados novos ou anúncios de xampu. Preso na nuca, o cabelo crescia quase intocado, sem que nada além do volume do coque acusasse o constante brotar.

Aos 80, a velhice a deixou entregue a uma enfermeira. A qual, a bem da higiene, levou-a um dia para debaixo do chuveiro, abrindo o jato sobre a cabeça branca.

E tudo o que ela mais havia temido aconteceu.

Levadas pela água, escorrendo liquefeitas ao longo dos fios para perderem-se no ralo sem que nada pudesse retê-las, lá se foram, uma a uma, as suas lembranças.


Marina Colasanti
(Do livro Contos de Amor Rasgados)