quarta-feira, 23 de setembro de 2015

V de Vaidade

Vanitas
Vanitas no século 17: caveira entre livros, insetos, flores secas, frutas apodrecidas, animais abatidos, relógio de sol, alaúde com a corda arrebentada. Um quadro de Holbein ou Gysbrecht. Interior doméstico: sobre a mesa tudo fica bem para uma pintura.
Vanitas no século 21: caveira entre sacos plásticos, pedaço de um assento sanitário, um rato morto, flores mofadas, frutas apodrecidas, carcaças de animais, relógio fabricado na China, tubo de televisão, corpo humano sem cabeça flutuando no chorume. Aterro sanitário: no chão tudo pode ser fotografado para a capa de jornal sensacionalista.
Diz-me o lixo que produzes e dir-te-ei quem és.
As transformações de uma sociedade poderiam ser medidas pelas mudanças na produção do lixo. O lixo é o espelho da sociedade. Cada bairro, cada cidade produz o seu. E se o lixo hoje em dia é tão parecido é apenas por efeito da globalização. O lixo é objetivo, subjetivo, material e virtual. Nada e ninguém escapa ao lixo. Há pessoas que vivem do lixo das outras. Estamira, tal como a conhecemos no documentário que leva seu nome, é um exemplo.
Para falar a língua dos filósofos da moda, podemos dizer que há um devir-lixo. Que o lixo é o destino. O lixo é, afinal, o que jogamos fora, mas não só. É o que lançamos fora por ser indesejado. Ainda que o ato de jogar seja consciente, tantas vezes algo que pensamos ter perdido, não foi lançado na lata do lixo inconscientemente? Ora, lixo é tudo o que herdaremos inconscientemente. Algo que não vimos ter sobrado. Não sabemos o que realmente nos sobra e esse é o nome tanto de nossa vaidade.
Tudo é vaidade
Tudo vem do lixo e ao lixo voltará. No extremo da história da natureza e da história humana, podemos dizer que tudo é lixo. É assim que podemos explicar que tudo é vaidade.
Se tudo é vaidade, como fomos convencidos no Eclesiastes da Bíblia, é apenas porque tudo pode se transformar em lixo. Uma ontologia do efêmero, do ser mais do que finito, do ser vão, uma metafísica bem física sobre a inconsistência da vida, seria a única que poderia contemplar esse ser/não ser ao qual fomos condenados e, ao mesmo tempo, obrigados a superar pela escolha. A escolha, essa mínima partícula ética que aprendemos a odiar no dia a dia. A escolha que implica seleção como nas coletas feitas de material hoje em dia dito “reciclável”. A tentativa de aproveitar o que só permaneceria inaproveitável caso fosse deixado a esmo. Depois de muito tempo é que ficamos sabendo que nem tudo o que jogamos no lixo é lixo. Podemos então nos perguntar se nem tudo que julgamos ser vaidade é vaidade?
Sabemos que o apelo da caducidade está em todas as coisas e isso nos apavora. A vaidade é a falta de sentido das coisas que julgamos valiosas. É o desvalor essencial que, ao ser percebido, nos ensinaria, acima de tudo, e pela via negativa, a virtude do desapego. Tentamos nos livrar do pavor da caducidade – do caráter passageiro do que existe – pondo no lixo o que pode escapar ao nosso desejo de significado. O ato de “livrar-mo-nos de algo” nos dá a dimensão de nosso medo (esse afeto que usamos para justificar qualquer ato) e de nossa irresponsabilidade. Ora, não jogamos fora apenas os restos, mas tudo o que não nos interessa. No ato de jogar no lixo um copo quebrado, aquele copo que pode machucar uma pessoa que esteja no meio do aterro sanitário onde vão parar nossos despejos, buscando desde comida até uma saboneteira de ouro, como já aconteceu, há quem pense em proteger o outro do lado de lá de uma periculosidade intrínseca ao material descartado. Mas há quem não se lembre, há que não e importe. O que se joga no lixo e o modo como se joga algo no lixo expõe o que pensamos de um outro, seja uma pessoa, seja a natureza.
É uma questão básica de ética. A periculosidade dos pequenos gestos também fala de nós.
E o que fala de nós, fala de nossa vaidade. Para bom entendedor: jogamos no lixo o próprio significado do lixo. Todo lixo é, portanto, mensagem.
A intimidade entre lixo e vaidade está clara. Lixo é sinal material da vaidade. No lixo lança-se o que se rejeita porque não podia mais ser utilizado, ou o que foi mal utilizado e perdeu a serventia. Há o sentimento de que algo de inútil preside as coisas que vão para o lixo. As coisas que ficaram velhas ou se tornaram abjetas.
Mas também é essencial pensar no sentimento de que nem tudo deveria virar lixo. Há algo de muito verdadeiro no medo das sobras que apavora o obsessivo, esse que controla o mundo para não jogar fora nem um milímetro das fezes, do dinheiro, do tempo os dos próprios pensamentos sempre altamente paranoicos. O obsessivo que tudo acumula está no extremo oposto do irresponsável que não sabe bem o que joga fora. Nos dois casos, encontramos o sujeito que sobra das obras: aquele que se relaciona com o que de nada serve, o que se torna extremamente valioso para quem não consegue ter nada de si mesmo.
Narcisismo virtual
Que a palavra vaidade tenha sido reservada para os narcisistas e amantes apaixonados – e cegos – de si mesmos, revela apenas a ponta do iceberg de lixo subjetivo a flutuar no mar do lixo histórico e cultural a partir do qual emergimos como pessoas em cada tempo. Dizer narcisismo para explicar a vaidade é brincadeira de criança. Um uso ingênuo da máscara – que cada um usa para sobreviver em tempos irrespiráveis – que ainda não se jogou no lixo.
Facebook, essa plataforma que administra a vaidade coletiva, o narcisismo virtualizado, é apenas o baile de máscaras que torna a vaidade uma mercadoria barata em tempos virtuais, acessíveis, fáceis. Narcisismo de plástico. A vaidade que nos esconde de nós mesmos é reeditada conforme os meios de sua época.
É a mesma vaidade de sempre, aquela que as religiões monoteístas resolveram condenar e sobre cuja condenação construíram sua sobrevivência.
Uma economia política da miséria espiritual ou uma dialética das sobras e restos nos serviriam de base para pensar a vida depois do lixo. O lixo como documento da cultura. O lixo como sinal claro de que a civilização não cansa de se realizar na barbárie.
Em uma cultura como a nossa o narcisismo é o que há de mais ridículo porque todos vemos a farsa. Ou nos enganamos duplamente.
Que a poesia depois de Auschwitz, como disse aquele filósofo alemão, seja lixo é uma problema insuperável para quem sobrevive e pensa que a vida continua. O lixo é a impossibilidade da poesia. Assim como a vaidade é antipoética. A poesia depois da matança dos Guarani Kaiowá, a poesia depois das chacinas dos jovens pobres, depois do assassinato das crianças negras nas periferias brasileiras. Penso Brasil, posso dizer mundo.
A poesia impossível quando simbolizar é impossível. Quando, lançados na crueza tentamos nos salvar pela aparência de que ainda podemos parecer felizes. A vaidade é a máscara com sorriso falso que ostentamos com um pouco de vergonha.
Márcia Tiburi

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