Para quem se coloca a pergunta “o que é o amor?” a resposta
pode ser a mais animadora: o amor é um “calor que aquece a alma” na música de
Nando Reis, o encontro com a alma então gêmea, com o seu príncipe encantado, com
a mulher da sua vida, com um ser que é objeto de religião como acreditava o
romântico Novalis que amava Sofia cedo morta. Há quem responda ser o encontro
dos casais Dirceu e Marília, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Um amor
idealizado que ultrapassa a morte, que vai além dos limites do corpo. Nesses
casos, está em cena o amor como experiência do erotismo, do desejo pelo corpo
belo, e que sempre, na história, faz rememorar a cena do Banquete platônico em
que o belo é o ideal que conduz além do corpo, ou o amor-cortês medieval que
serviu para dar espaço a uma visão da mulher como mais que mulher, santa à
imagem da Virgem Maria, e, por fim, ao amor romântico que ainda alimenta o
imaginário de novelas e filmes, da literatura da alta cultura e das mercadorias
da indústria cultural. O amor como narrativa do ideal é onipresente. O erotismo
com o qual ele se confunde é, no seu limite, possibilitado pela morte que o
nega. A morte é o limite que define o erótico como além do limite e, todavia, a
ele circunscrito.
O amor
romântico, como a forma super especializada do amor platônico, oferece uma
experiência de transcendência, de loucura, de exacerbação e delírio. O amor
romântico é sempre trágico, ele nos leva a saber a morte como experiência do
limite físico da existência. Por isso, ele faz sofrer, mas sem o sofrimento ele
não pode ser compreendido, pois assim ele foi culturalmente introjetado por cada
um.
Mas a
resposta sobre a verdade ou a essência do amor pode continuar esperançosa: o
amor pode ser um sentimento natural e universal que nos salva da frieza da
racionalidade, um princípio metafísico que sustenta nossa existência, ou
teológico, que segura nossa fé, ou o lugar exato da felicidade que está no cerne
de um pensamento utópico que tantos se esforçam por realizar, ou uma das razões
do coração desconhecidas da razão propriamente dita como pensava Pascal. O amor
pode ser pensado como a capacidade humana do enlace, da união, da relação com a
vida, a natureza, a espécie humana, com uma causa privada ou pública; como no
famoso texto de Coríntios 13 o amor pode ser a capacidade de tudo
aceitar, esperar e suportar, ou o que, no Evangelho de João, deveríamos oferecer
uns aos outros junto com nossas vidas, se fôssemos verdadeiramente amigos, se
aceitássemos a idéia de que o amor é um mandamento. Como para Kierkegaard que,
no século XIX, escreveu As Obras do Amor, para quem o amor poderia ser um
pleno cumprimento da lei, uma questão de consciência. O amor é amor pelos outros
(a caridade cristã, ágape em grego): amor sem interesses. Quase nem nos parece
amor. Não aprendemos a viver com essa definição.
Nossa
crença mais comum é a de que o amor é cego. Não se escolhe a quem amar nem como
amar. É como se o amor fosse maior que nós, uma força que nos domina, a
desmedida, um excesso além de nossa capacidade racional. Aí o
amor-paixão-adrenalina aparece com sua força de permissão realizando sua função:
a de dar lugar à demanda trágica de cada indivíduo (que sempre promete um
sentido para a existência pela experiência da morte). Não escapamos novamente da
ilusão romântica.
A
dúvida que paira sobre a cabeça de todos os apaixonados e amantes –ou quem lhes
assiste - é que uma coisa tão boa não deveria fazer sofrer. Neste ponto é que
pode surgir a resposta decepcionante para a questão “o que é o amor?”: o amor é
brega como na canção de Cazuza, ou o que faz as cartas ridículas em Fernando
Pessoa. Algo démodé como nos casamentos de príncipes e princesas com vestidos
bordados a miçangas ainda que pedras preciosas e bolos confeitados com
lua-de-mel no Caribe. O amor é o quadro da decepção com o amor. E o sentimento é
o do luto pelo que não se pode ter.
Aqueles
que reclamam do amor, muitas vezes estão a reclamar o amor: mesmo brega, ainda
que ridículo, o amor é um objeto do desejo. Talvez ele seja como em Platão (tão
antigo e tão atual) o próprio desejo. Ninguém quer não desejar, pois quem não
deseja ou vive a inveja - o desejo impedido de ser - ou está morto. Quer-se
amar, não importa quem, não importa como. Mas queremos mesmo amar? Ou: podemos,
de fato, amar? O problema é o amor que vem antes de alguém para se amar. Desejar
o desejo é uma das doenças da nossa cultura, pois nos afasta da vida como a
plena mediação nos afasta dos objetos, ela abandona sua função de ponte. Por
isso, quando amar é um verbo intransitivo ele pode também ser autofágico. O amor
é bom porque pode ser dado a outro, ser um laço que une, do contrário, ele pode
inverter-se em ódio.
Quando
inventamos o padrão do amor romântico e acreditamos na sua ilusão sem poder
realizá-la, estragamos o amor, pois o romantismo é apenas uma das formas do amor
e pode custar muito caro, o preço de sua contradição: a infelicidade pelo desvio
do padrão. Se o amor é um padrão, uma gaveta na qual devemos nos encaixar, ele
produz infelicidade e nega seu propósito original e, por isso, já não é amor,
mas degeneração do amor.
Um dia inventamos o amor. E foi uma boa invenção, uma invenção sem
a qual permaneceríamos na barbárie, na guerra de todos contra todos. O amor foi
feito contra a guerra, mas ele precisa, para continuar sua função negativa, ser
sempre refeito por cada um.
Marcia Tiburi
Originalmente publicado na Revista Cult. Ano 8, número 98. p.12-13.
São Paulo.

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