Sem jamais perder sua gloriosa e característica verve humorística, Gógol faz de O Capote uma obra-prima de compaixão humana para com a pobreza e a falta de perspectivas de outrem. “Todos nós descendemos de O Capote“,
afirmava Dostoiévski. Otto Maria Carpeaux escreveu, concordando com
Dostô: “Gógol é o fundador da grande literatura russa do século XIX. Do
Capote descende toda aquela literatura de compaixão algo sádica de
Dostoiévski e a sensibilidade cinzenta de Tchékov que, assim como o
próprio Gógol, chorava por trás do riso do humorista”.
Sem spoilers. O Capote narra a
história de Akaki Akakiévitch, funcionário público em São Petersburgo. O
protagonista é um solitário e copista de processos que vive para seu
trabalho mas que é alvo das brincadeiras de seus colegas em razão de seu
casacão — o tal capote — gastíssimo e puído. Ele passa frio com ele
durante o inverno. É claro que não contarei o restante da ótima
história.
A novela O Retrato é menos
conhecida, mas não é muito inferior, não. Tchartkov é um pintor em
início de carreira que se vê pressionado por dívidas e está sob a
perseguição do proprietário do apartamento onde mora. Um dia, num
mercado, ele adquire por baixo preço uma pintura, um retrato que o deixa
muito intrigado. Há ali um olhar perturbador, impossível de não
considerar. E ele vai cumprir uma rotina de Fausto. O segundo e
esclarecedor capítulo é extraordinário.
Recomendo.
Milton Ribeiro

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