domingo, 15 de dezembro de 2019

Pelejas em rede

Uma das melhores definições de Cantoria de Viola foi produzida, por incrível que pareça, por um rapaz jovem, carioca, que estava vendo uma cantoria pela primeira vez. Ou seja – um leigo total.
Foi num bar do Rio de Janeiro, onde uma dupla de repentistas estava se apresentando, sentada no “pé da parede”, glosando motes entregues na hora, ou comentando em versos algumas coisas que aconteciam naquele instante.
E o rapaz falou para os amigos:
– Que maneiro. Eles fazem verso em tempo real.
“Tempo real” é uma dessas expressões típicas da Era da Internet, quando nós, deslumbrados como um tupinambá diante de espelhinhos e tesouras, achamos até difícil acreditar que estamos recebendo textos, imagens, áudios, o escambau, produzidos naquele instante, do outro lado do mundo.
O repentista faz o verso na hora. Não existe aquele delay entre o fato, a percepção do fato, o armazenamento da informação, a consulta, a inspiração, a criação de um verso, a transmissão, a recepção... Não. Cantoria é tempo real. O copo cai, e o cantador no meio do verso que já estava cantando comenta que o copo caiu.
Como ele faz isso? Não sei, se eu soubesse estava fazendo, em vez de ficar aqui escrevendo umas linhas que só vão ser lidas dias ou semanas depois. Ou seja: num tempo “não real”, num tempo em que o momento da criação (pelo artista) e o momento da fruição (pelo público) ocorrem em contextos diferentes.
A definição técnica, portanto, seria algo tipo:
“Verso em tempo real é aquele em que a invenção do verso e a fruição do verso ocorrem simultaneamente, sendo esta palavra considerada não no sentido cronométrico do termo, mas no sentido de um só momento compartilhado em conjunto por vários agentes sociais”.
Esse “vários agentes sociais” aí é cacoete do tempo de faculdade; se quiserem, pode trocar por “um combôi de bêbo”.
A Internet trouxe uma dimensão nova para a cantoria de viola, a literatura de cordel, a sambada de maracatu, o coco de embolada e várias outras formas de poesia onde o improviso está sempre aceso, pronto para brotar a qualquer instante.
Maria Alice Amorim, da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisa essa nova ramificação da poética popular há tempos; tenho aqui do lado o seu No Visgo do Improviso, ou A Peleja Virtual entre Cibercultura e Tradição (São Paulo: Educ, 2008). Ali ela já rastreava em primeira mão essa nova modalidade, inaugurada, ao que tudo indica, com a Peleja Virtual entre Américo Gomes (PB) e José Honório da Silva (PE), travada através da troca de e-mails.

Segundo Alice, é “a primeira de que se tem notícia”, tendo ocorrido em setembro de 1997, “logo seguida, em 21 de janeiro de 1998, por outra experiência ainda mais ousada: a peleja, em tempo real, protagonizada por José Honório e o médico Marcelo Mesel, em computadores instalados num bar da Vila Vitoriano Palhares, Polo Torre, no Recife, com a participação de Américo Gomes, que naquele momento estava em João Pessoa, Paraíba, escrevendo os versos, mediado por uma conexão que possibilitava o bate-papo virtual”. A troca de mensagens, registra ela, foi através de chat via IRC.
Isso chamou a atenção de muita gente, e eu próprio travei pelejas via email com Astier Basílio (2002), com Klévisson Viana (2005) e depois via Facebook com Marco Haurélio (2017). 
O novo livro de Maria Alice Amorim é Pelejas em Rede: Vamos Ver Quem Pode Mais (Recife: Zanzar, 2019), onde ela aprofunda a análise dessa nova forma de embate direto, incluindo as modalidades do maracatu rural, do samba de matuto e outras, e lançando mão de plataformas como Orkut, Facebook, etc., que os poetas, sempre inquietos e curtidores, utilizam para sentir até que ponto elas podem potencializar o repente.
O recente filme pernambucano Azougue Nazaré (Tiago Melo, 2018) mostra rapazes da Zona da Mata de Pernambuco trocando provocações nas estrofes do maracatu rural cantadas ao celular e enviadas imediatamente através de áudios de WhatsApp.


(cena de Azougue Nazaré)

Onde houver palavra, existe a possibilidade da poesia. Onde houver troca de mensagens, existe a possibilidade do desafio. Onde houver a simultaneidade entre duas vozes e uma platéia, existe a possibilidade do repente pegado-na-deixa.
O livro Pelejas em Rede é resultado da tese de doutoramento da autora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PucSP, sob a orientação da saudosa e querida professora Jerusa Pires Ferreira.
Alice faz a demarcação entre as cantorias de verdade, com dois violeiros cantando “ao pé da parede”; as cantorias fictícias da literatura de cordel, chamadas de “pelejas”; e as pelejas virtuais onde os poetas se confrontam através de twitter, msn, facebook, zap e assim por diante.
Em todas existe o cultivo das formas tradicionais de estrofe, de rima, de métrica – aquilo que podemos considerar as “cláusulas pétreas” do Romanceiro Popular Nordestino.
E cada uma delas está se deixando contaminar pelas formas de criação e difusão eletrônica do texto. Sempre tendo em mente o objetivo principal do poeta popular: buscar o verso quente, palpitante, exibido ao público no próprio instante de sua criação. E ela rastreia todas essas variantes etimológicas e semânticas que cercam a arte trovadoresca do improviso:
É o impulso criador que, na etimologia do trovadorismo, traz a invenção, o inventar. Invenção que é o improvisus, o imprevisto, o imprevisível. Improviso, evento imponderável, momentâneo, não ensaiado, repentino, conforme Spina (1946, p. 408) e Le Goff (2009, p. 280):
Os próprios termos trobar e trobamen não são mais que criações decalcadas no sentido das palavras latinas inventio, invenite – da terminologia retórica de Cícero, na acepção do ato inventivo, de atividade literária criadora (trobar suplantou desde logo o seu correspondente latino).
O termo vem de trobar em occitano, ou seja, trouver em francês (encontrar, em português), e define um inventor de palavras e poemas.
Ou seja, um trovador é um achador, um encontrador de coisas, seguindo a frase célebre atribuída a Pablo Picasso: “Eu não procuro, eu acho”.
Eu tenho pra mim que no meio desse novelo de raízes linguísticas o verbo “trazer” também está enredado. Trovar (fazer versos) é trazer. Me lembro na minha infância de ver as velhinhas do sítio que chegavam lá em casa mostrando a minha mãe o que haviam trazido de presente: “Eu truve pra senhora uma dúzia de ovos de capoeira...”
Maria Alice Amorim pega esse feixe de práticas culturais (a inspiração, o acaso, o imprevisto, a memória, o repente) e o transporta para o universo eletrônico. Sempre mantendo a essência da criação, que na página 163 o mestre José Alagoas explica com esta bela fórmula:
Começa no deserto, amarra o verso todinho e entrega a resposta. 
Olha que coisa bonita – começa no deserto. Começa do nada, mas logo está achando, está trazendo, está trovando, e quando menos espera está ali um verso que, como o Universo, surgiu do nada.
Num dos capítulos, Alice pergunta: Existe um ciberrepente?. Ou seja: o verso neste novo sistema é qualitativamente distinto do tipo de verso que se fazia antes? Tem muito assunto para se esmiuçar aí, mas ela observa com propriedade que nas próprias comunidades de repente pela web (portais e websaites com milhares de inscritos) repete-se um fenômeno de auto-regulação que é típico da poesia popular: quando um novato erra na métrica, erra na rima, quebra sem perceber o formato da estrofe, os próprios colegas vêm em seu socorro e o corrigem: “Êpa, não é assim que se faz”.
Conservadorismo? Que nada. Correção de rumo, porque na poesia popular não existe um Ministério, uma Academia Normativa ou um Conselho de Anciãos determinando o que pode e o que não pode. É a comunidade como um todo que se pronuncia. As formas tradicionais são constantemente revitalizadas – até mesmo para poderem absorver os novos meios de transmissão.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

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