Quando o li pela primeira vez, fiquei comovido. Era uma mistura de sabedoria e tristeza. Seu título era “Instantes”*, e começava assim:
Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros […].
Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres.
E ia assim, parágrafo após parágrafo, listando coisas que haviam sido feitas e que não deveriam ter sido feitas, e coisas que não haviam sido feitas e que deveriam ter sido feitas. Até o final melancólico:
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo.
O texto era uma advertência aos mais moços: só temos o momento. Não percam o agora.
Estou a ponto de “desfazer” setenta anos, muito embora os distraídos
insistam em usar o verbo fazer. O fato é que a celebração de mais um ano
de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não
mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a
profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festas de
aniversário. Se uma vela acesa é símbolo de vida, uma vez apagada ela se
torna símbolo de morte. O que não entendo é a razão pela qual os
participantes, diante das velas apagadas, se ponham a bater palmas e a
rir, quando o certo seria que chorassem. Eu prefiro um ritual mais
alegre: acender uma vela bem grande, como um bruxedo de invocação dos
anos ainda não nascidos cujo número não sei!
Faz muitos anos, nos tempos em que eu era ainda professor da Unicamp, um aluno que eu não conhecia telefonou-me dizendo que precisava falar comigo. Marcamos um encontro na minha casa. Ele chegou, abriu um caderno e começou a fazer-me perguntas. A primeira pergunta – que abortou todas as outras – foi a seguinte: “Como é que o senhor planejou a sua vida para que chegasse aonde chegou?” Percebi logo. Ele me admirava. Queria ser como eu. Queria que eu lhe contasse o segredo. Que lhe revelasse o caminho. Mas minha resposta pôs a perder as suas expectativas. Foi isso que eu lhe disse: “Eu estou onde estou porque todos os meus planos deram errado.”
Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que construía para chegar aonde eu queria ruíam uma após a outra. Eu era então obrigado a procurar caminhos não pensados. E aconteceu, por vezes, que nem mesmo segui, por vontade própria, os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigado a fazer o que não queria.
Por
exemplo: meu pai, homem muito rico, foi à falência. Ficou pobre. Teve
de mudar de cidade para começar vida nova. Se isso não tivesse
acontecido, é provável que hoje eu fosse um rico fazendeiro guiando uma F
1000 e contabilizando cabeças de gado.
Quando me mudei para o Rio
de Janeiro, aos 12 anos de idade, menino do interior de Minas com um
sotaque caipira, fui objeto de zombarias e chacotas. Nunca me senti tão
sozinho. Nunca fui convidado a ir à casa de um colega e nunca tive
coragem para convidar um colega para ir à minha casa. Sofri a dor da
solidão e da rejeição. Mas foi esse espaço de solidão na minha alma que
me fez pensar coisas que de outra forma eu não teria pensado.
Lutei
muito para ser pianista. Trabalhei duro, horas e horas por dia. Se
tivesse dado certo, eu seria hoje um pianista medíocre. Pianista bom não
precisa fazer força. É dom de Deus, como é o caso do Nelson Freire. A
diferença entre nós é que, enquanto eu tentava colocar dentro de mim um
piano que estava fora, o problema do Nelson era colocar para fora um
piano que morava dentro dele desde o nascimento. Para mim, o piano nunca
passaria de uma prótese. Mas, para o Nelson, o piano é uma expansão do
seu corpo. Foi preciso que eu fracassasse como pianista para que o
escritor que morava dentro de mim aparecesse. Assim, comecei a fazer
música com palavras, acho que com a mesma facilidade com que o Nelson
toca piano.
Fui pastor protestante e é provável que, se tudo tivesse acontecido nos conformes, eu hoje fosse um clérigo velho. Mas veio o golpe militar, fui acusado de subversivo pelas zelosas e bondosas autoridades da Igreja… Tive de me mudar para os Estados Unidos com a minha família – o que foi ótimo para todos nós. Fiz meu doutoramento, fiz amigos novos, viajei, conheci lugares, acampei, tive tempo para ler e pensar.
Cheguei onde estou por caminhos que não planejei. É um lugar feliz com o qual nunca sonhei. Nunca me passou pela ideia que eu viria a ser escritor. E, em especial, que escreveria estórias para crianças – e que as crianças as amariam (e me amariam por causa delas…). Tanto assim que não me preparei para o ofício. Sou ruim em gramática, erro a acentuação. E há mesmo uma pessoa que se dedicava a escrever-me longas cartas para corrigir meu português. Parou de escrever. Acho que desistiu. Como é bem sabido, eu, um mau aluno, especialmente quando o professor quer ensinar-me coisas que não quero aprender. Pena que o dito professor, voluntário, nunca tivesse feito comentário algum sobre o que eu escrevia. Concordo mesmo é com o Patativa do Assaré: “É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada…”
Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.
Rubem Alves, no livro “Se eu pudesse viver minha vida novamente”. Campinas, SP: Verus Editora, 2012.
Fonte: Revista Prosa Verso e Arte

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