É o anúncio desta véspera:
O que será é sempre acontecido,
feito esta luz tardia
a consagrar a espera.
No céu andaluz, o inútil infinito
É sexta-feira de paixão.
Alumbram teu rosto os madrigais
e em graça donzela te abstrais:
uma fuga perfeita, bachiana.
Olho teu olhar de sempre mais,
espantos de bruxas, límpidas madonas.
Ainda ficas quando te esvais.
E a isso chamas compartir.
Esperemos o desporvir.
O que pudermos saber,
os mortos já esqueceram.
Quando será velada a foto dessas núpcias,
festa em deserto e encarnado?
Lúcido alvoroço
de teu corpo
em repouso.
Alpendre solar,
a passarinha.
Calle soturna,
tua sombra nua
reluz de embriagar.
Todo sorriso é silêncio,
como esse teu jeito de prazer:
calado, mas retine.
Adourada deusa, passos de marfim,
adereços de grama nas pegadas.
E me vens prometendo
com o destemor do medo,
o que não tens e eu não mereço.
Pisas sem pesar na minha primavera.
E na gestalt de teus músculos,
minha terra treme.
Há um pomar na tua geometria:
são curvas de maçã,
recantos pêssegos.
Que líquida oliva
tremeluz na tua pupila?
Chorar? A lágrima não lavra,
que saudade é vingança da palavra.
Depois de nossas batalhas,
é triste viver em paz.
Ai de mim, ai de mim,
por quem não posso suspirar.
Morro de tantas mortes de amar.
És o que acaba e não tem fim.
Sou um espantalho que braceja;
de susto, minha sombra adeja.
Sevilha festeja o luto;
Em tua despedida me sepulto.
"Aimé, aimé".
É vestido ou nudez
o teu transparecer?
Linguagem vertical,
gravas no chão
fonemas de metal.
Entre tuas pernas abertas em arpejo,
creio na morte eterna e te solfejo.
Desfaz-se o nosso tormento,
em sobressalto e lamento.
Este o fim do nosso feito:
a inconclusão do perfeito.
Cláudio Mello e Souza
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