Meu interlocutor, uma
pessoa inteligente e bem informada, quer saber minha opinião sobre "gol de
bola parada". A princípio não entendo se ele está falando de língua ou
futebol. Quando enfim entendo, fico mais confuso ainda.
"Se a bola está
parada, como pode ser gol? Não existe gol sem movimento, existe? A bola tem que
cruzar a linha!", exulta ele. Está convicto de que seus argumentos provam
por 7 a 1
que "gol de bola parada" é uma locução absurda, desprovida de lógica,
embora jornalistas esportivos a repitam o tempo todo.
No início penso que
meu interlocutor quer fazer graça. Demoro um pouco a me dar conta de que estou
–mais uma vez– diante de um podólatra da letra.
A quem não foi
alfabetizado em futebolês convém explicar que "gol de bola parada" é
aquele marcado como resultado imediato da cobrança de uma falta ou escanteio.
Nesses momentos a bola está de fato parada, dando tempo aos dois times para
distribuir em campo suas peças de ataque e defesa.
Desnecessário dizer
que, no próprio ato da cobrança da falta ou escanteio, a bola será posta em
movimento outra vez, certo? "Gol de bola parada" é, portanto, uma
expressão condensada e elíptica que poderíamos desdobrar assim: "gol
(surgido de uma jogada) de bola parada".
Não há nada errado
nisso. Em primeiro lugar, está por nascer um torcedor que deixe de entender a
locução "gol de bola parada". Em segundo, a economia verbal é um dos
valores fundamentais em ação no movimento histórico das línguas.
Ou Vossa Mercê –digo,
vosmecê, ou melhor, você– não sabe que aquilo que pode ser dito com menos
palavras e sílabas quase sempre será? Na verdade, o único erro dessa história
está na formatação literal demais da cabeça do meu interlocutor, que mesmo
sendo inteligente e bem informado (nenhuma ironia nisso) sucumbiu à podolatria
da letra, isto é, à tara no pé da letra. Tem vasta companhia.
Para provar que é uma
furada o apego excessivo ao sentido mais literal, denotativo e chão das
palavras, bastaria dizer que nem a expressão metafórica "pé da letra"
pode ser tomada ao pé da letra. Desde quando letra tem pé?
Difícil dizer se a
internet fez brotar uma aguerrida geração de podólatras ou se apenas deu voz a
tarados do literalismo que sempre estiveram lá, à espera de uma oportunidade. O
fato é que eles têm provocado um número inédito de marolas na superfície das
discussões sobre a língua.
A tentativa de
substituir a correta expressão "risco de vida" pela biônica
"risco de morte" é a mais vistosa de suas obras. A implicância com a
dupla negação, um traço histórico do português, também comove muita gente:
"Arrá! Quem não faz nada faz alguma coisa!"
Outras pérolas de seu
repertório: "Não tire a pressão do paciente, porque sem pressão ele
morre"; "Entendo você se irritar com o mau atendimento, mas se pagar
geral vai ficar sem dinheiro"; "O que vem 'antes de mais nada' vem
por último"; "Engenheiro elétrico dá choque".
O et cetera é
gigante. Além de ser uma perda de tempo –para eles e para todo mundo–, o
empenho dos podólatras em corrigir o que não está errado deixa a língua
cinzenta e inóspita, com um ventinho gelado soprando nas ruas desertas.
Felizmente, doses diárias de metáforas, elipses e bom senso fazem milagre.
Sérgio Rodrigues
Folha de são Paulo
online
(Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2017/03/1864891-gol-de-bola-parada-tara-no-sentido-literal-das-palavras-tem-cura.shtml.
Acesso em: 25 março 2017.)

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