Antes mesmo que o Senado russo autorizasse, por unanimidade, o Presidente Putin a usar a força "em todo o território da Ucrânia até a normalização da situação política e social no país", já havia tropas russas na península da Crimeia, onde a Rússia dispõe de uma grande base que hospeda a poderosa força naval russa do mar Negro.
Consta que há 6.000 soldados russos bem armados a aprovisionados lá. Os aeroportos já estão ocupados e o Primeiro Ministro da República Autônoma da Crimeia, Serguey Aksionov, proclama ter o controle da situação.
A Ucrânia é um país dividido em duas partes - uma, a ocidental, contrária a Rússia, e outra, a oriental, a favor. A maior parte da população da Crimeia fala russo. E a presença russa não é forte apenas na península. Também em Donetsk (onde jogam os brasileiros do Shaktar), Kharkiv e Odessa houve manifestações contra a deposição do Presidente Yanukóvich em Kiev.
Embora o Presidente Obama tenha dito que uma intervenção russa "terá custos", os próprios observadores americanos veem como bastante limitadas as suas possibilidades de ação.
Obama, corrigindo um erro que cometeu com relação à Síria, disse que consultará os países aliados antes de decidir o que fazer e os Ministros de relações exteriores da União Europeia se reunirão já na segunda feira para discutir a situação.
Também o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reunirá outra vez. O Secretário Geral da Organização pediu por uma solução baseada no diálogo e no respeito à independência e à integridade territorial da Ucrânia.
Não é difícil ver que o Conselho de Segurança poderá fazer muito pouco mais do que isso, tendo a Rússia como membro permanente com direito ao uso do veto.
Assim, a chance de uma guerra dramática entre o Leste e o Oeste é praticamente nula, embora isso não seja assim tão claro com relação ao Leste e ao Oeste da própria Ucrânia. Aí existe o risco de choques entre as populações dos dois lados, que poderiam complicar a situação e dar ares de guerra civil aos desencontros que já existem naquele país há mais de vinte anos.
A separação entre os dois lados é sempre uma possibilidade. O Primeiro Ministro Aksionov antecipou para 30 de março corrente um referendum que pode levar a isso. Daqui até lá, as palavras poderão ser fortes, mas as possibilidades reais de uma ação internacional sem a participação efetiva da Rússia são remotas. Vivemos em um mundo crescentemente Hobbesiano.
José Viegas Filho, embaixador e ex-ministro da Defesa.

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