Clenúbia de Souza (29), algemada em uma cadeira à espera de vaga no presídio feminino
As cenas são lúgubres e estampam o drama cotidiano de milhões de brasileiros. O cidadão, lutando contra um câncer, toma injeção na veia para aliviar as dores em um estabelecimento hospitalar de Osasco, sob a luz do celular de um parente. Ao lado do Pronto Socorro de urgência, luminosa placa exibia a propaganda do Governo e as lâmpadas acesas sobre o campo, com destaque para a pomposa propaganda: “Futebol Iluminado”.
No mesmo dia, em Guarulhos, outro cidadão, com o fêmur quebrado, esperava há 15 dias para ser operado, com a desculpa do secretário municipal de Saúde: “lamento muito não poder oferecer melhores condições no nosso hospital”.
Terceira cena: na cidade de Codó, no Maranhão, uma mulher, acusada de tráfico de drogas, está há 9 dias algemada numa cadeira à espera de vaga no famoso Presídio Feminino de Pedrinhas, em São Luís.
O que se pode dizer desses atos ocorridos na última semana? Que o descalabro dos serviços públicos continua aprofundando o fosso das mazelas nacionais.
Chama a atenção nos flagrantes a absurda falta de sensibilidade dos gestores públicos no trato das tarefas sob sua responsabilidade.
Não seria mais adequado instalar um gerador nos Prontos Socorros do que deixar iluminado por toda a noite e madrugada um campo de futebol?
Será que em tempos de eleição, placas luminosas não precisam enfrentar a ameaça de apagões?
Não seria mais prudente que o Hospital Municipal de Guarulhos desse prioridade ao atendimento de casos graves, que exigem ações cirúrgicas imediatas?
O lamento da autoridade da saúde é um deboche, algo do tipo “se não gostou do nosso estabelecimento, chispe daqui”. Deixar alguém amarrado numa cadeira dias seguidos é uma cena que nos leva de volta ao faroeste americano.
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Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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