“É fácil fazer um regime com votos e eleições. Votos e eleições dão a impressão de democracia... Mas não bastam para impedir a invasão dos ratos. Votos e eleições são apenas meios — necessários, mas não suficientes — para que a democracia aconteça. A democracia se assemelha a uma obra de arte. Tome a Pietá, por exemplo. Ela não é o resultado de cinzéis e martelos, embora cinzéis e martelos tenham sido usados pó Michelangelo para esculpi-la. Mas, antes que cinzéis e martelos fossem usados, foi necessário que a ideia da Pietá tivesse surgido na cabeça de Michelangelo. Os cinzéis e martelos foram apenas os meios pelo artista para realizar sua ideia. Assim é a democracia: ela é uma obra de arte coletiva. Começa com as ideias do povo. Votos e eleições são meios para que o pensamento do povo se realize.
“Aqui se encontram a delicadeza e a fragilidade da democracia: para que ela se realize, é preciso que o povo saiba pensar. Se o povo não souber pensar, votos e eleições não a produzirão. A presença dos ratos na vida pública brasileira é evidência de que o nosso povo não sabe pensar, não sabe identificar os ratos... Não sabendo identificar os ratos, o próprio povo, inocentemente, abre os buracos pelos quais eles entrarão.
“Mas... o que é que ensina o povo a pensar? É a educação. O fundamento da democracia é a educação do povo.
“A presença dos ratos na vida política brasileira, sendo evidência também de que nossas instituições de educação e ensino não cumpriram a sua missão mais importante, que é a de ensinar o povo a pensar. E isso não se identifica nem com a transmissão de conhecimentos nem com a produção de pesquisas.”
Rubem Alves
(Excertos de É preciso tapar os buracos dos ratos... do livro Conversas sobre política, Rubem Alves, Campinas-SP: Verus, 2010, pp. 30-1.)
*Gentilmente enviado ao blog pelo amigo Adauto Neto

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