O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está
nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o
outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê
coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos
pouco, vemos torto, vemos errado.
Bernardo Soares diz que aquilo
que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós
mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é
preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos o umbigo do
mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do
mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do
mundo do outro, é preciso colocar entre parêntesis, ainda que
provisoriamente, as nossas opiniões.
Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a
expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que
penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com
que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos
meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala.
Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou
esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade. A
prova disto está no seguinte: se levo a sério o que o outro está
dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu
ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é
estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e
imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que
eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse.
Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”.
Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.
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