Minha passageira idosa, viúva, que habita solitária um dos últimos
casarões do bairro Menino Deus. Quando pega meu táxi, não se importa de
fazer o caminho mais longo (desconfio que até prefere), de parar em
engarrafamentos, ela aproveita a corrida para interagir comigo, me trata
por filho, pronuncia muitas vezes meu nome:
- Então, Mauro, como está, meu filho... A vida é assim mesmo, Mauro,
não te preocupa, meu filho, Deus é que sabe, Mauro... Pois é, Mauro...
Não tem pressa, Mauro... Aqui está bom, meu filho... Obrigado, Mauro, bom dia pra ti, meu filho... Fica com Deus Mauro...
Procuro levar a conversa com naturalidade, como se fosse só mais uma
idosa que precisa exercitar a arte de conversar, de ouvir sua própria
voz que já não usa tanto, sem lembrar que sei o que a leva a citar
tantas vezes meu nome, a me chamar de filho. Procuro não lembrar que ela
me contou do filho brutalmente assassinado, o filho único, talentoso,
futuro brilhante, o filho executado na saída de uma festa. Procuro
apenas ouvi-la, deixá-la lembrar de como era falar com seu filho que se
chamava Mauro.
Mauro Castro

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