Há 419 anos, morria o primeiro filósofo a falar em vida no espaço e
exoplanetas. Mas não se engane: ele não tinha nada de cientista.
Em 1600, o ex-frei dominicano, filósofo e poeta Giordano Bruno foi
queimado vivo em Roma. Defendia que, como Copérnico havia escrito antes
dele nascer, e continuava a ser tabu defender, a Terra era um planeta e
gira em torno do Sol. Não só isso, como uma ideia sua e incrivelmente
ousada: o Sol era apenas uma estrela, e, como ele, todas as estrelas
tinham sistemas planetários. Como a Terra, esses planetas deviam abrigar
vida inteligente. Afirmou que a matéria é composta de átomos - uma
ideia da Grécia Antiga, mas então muito contestada. E disse que o número
de estrelas e o tamanho do Universo são infinitos - esta, uma ideia
errada, de acordo com a amplamente aceita teoria do Big Bang.
Mas
o mais fascinante de tudo é que Giordano Bruno passava longe de ser
cientista. Vejamos: 33 anos depois de ele ser queimado vivo, Galileu
Galilei teve de ir ao mesmo tribunal, na mesma sala, e ser forçado a
dizer que Copérnico estava errado. Cedeu e salvou sua vida. A forma como
chegou às suas conclusões foi por meio de observações, com dados
acumulados exaustivamente e também experimentos e matemática.
Bruno
não olhou para o céu noturno nem fez qualquer experiência. Ele chegou à
suas ideias através de teologia. Sua visão já havia sido proposta por
outros religiosos, mas nunca levada às últimas consequências como ele
fez.
Tudo parte da ideia de o Universo ser infinito. É assim porque Deus é
infinito. Um universo infinito não tem centro - por isso ele apoiou a
teoria de Copérnico, de que a Terra é só um planeta que gira em torno do
Sol. Se não somos o centro, o resto deve ser igual - daí as estrelas
como irmãs do Sol. Esse Deus do infinito e material habita cada átomo - e
é Ele que os mantém ligados uns aos outros.
Visão incompatível
Então
começam as ideias que o levaram à fogueira, mais do que a astronomia.
Para Bruno, Deus não poderia ter encarnado em Jesus porque está em todo
lugar. Portanto, Jesus não havia sido um messias, mas um mero "mago", e
sua mãe não era virgem. O teólogo também achava ridículo dizer que uma
hóstia se transforma na substância de Jesus, portanto Deus, ao ser
ingerida - o dogma da transubstanciação. Afinal, tudo já é Deus. E que o
Deus que habita na matéria é mais benevolente que o da Igreja: não
havia inferno e o próprio Diabo seria perdoado.
Bruno
seria acusado de defender os infinitos mundos, mas também de todas
essas heresias. Ele tentou ceder em dogmas da igreja, mas não em sua
visão cosmológica. Bravo até o fim, ele respondeu à sua condenação com
um desafio: "Talvez vocês pronunciem essa sentença com mais medo que eu a
recebo". E foi para a fogueira amordaçado, para nada mais dizer.
A visão de mundo do teólogo era irreconciliável com o cristianismo, não só católico. Ainda é. Em 1992, o papa
João Paulo II afirmou que o julgamento de Galileu foi um erro. Mas
Bruno não tem a menor chance de receber o mesmo tratamento. Foi um
verdadeiro herege que nunca foi perdoado e provavelmente nunca será.
Giordano
Bruno foi uma mente brilhante e inquieta, um grande contestador, e um
mártir de causas importantíssimas: a liberdade de expressão e a
liberdade de religião. De forma não-científica, chegou a ideias
incrivelmente subversivas para sua época, que seriam provadas pela
Ciência. Mas daí a ser um mártir da Ciência é outra história. A
historiadora britânica Frances Yates foi uma das mais influentes
estudiosas de Bruno. Em seu livro de 1964, ela chegou a afirmar que o
teólogo atrapalhou a Ciência: "Bruno empurra o trabalho científico de
Copérnico de volta à fase pré-científica, interpretando o diagrama
copernicano como um hieróglifo de mistérios divinos".
Talvez, mas isso o torna ainda mais fascinante.
Fabio Marton
Aventuras na História

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