Um espectro ronda o contemporâneo: a obsessão pelos próprios espectros.
Nunca as assombrações, os espíritos, os
zumbis, e outros mortos-vivos estiveram tão presentes. Na literatura, no
cinema, nas artes, mas também, inusitadamente, na filosofia.
Em uma conferência proferida no início
do século XX, o filósofo belga Henri Bergson afirmou que o fantasma era a
condição da filosofia. É que se concebermos os espectros como uma forma
de reaparecimento no presente de um vestígio ou rastro daquilo que já
viveu, podemos ver que nossa vida passada, tudo aquilo que percebemos,
pensamos, desejamos, desde o primeiro despertar de nossa consciência,
persiste indefinidamente em nossa existência atual na forma de traços.
Reminiscências são fantasmas invisíveis que buscam a luz e tentam
emergir da noite escura tão logo a porta de nosso inconsciente se
entreabre. Em certas ocasiões esses espectros irrompem de assalto, como
na sensação do “déjà vu”. Em outras, eles se insurgem na surdina, como
nas imagens do sonho, essa imensa dança de aparições assombrosas.
Algo semelhante sobre a filosofia e os
fantasmas disse também Jacques Derrida ao atuar no papel de um professor
de filosofia no filme Ghost Dance, do diretor britânico Ken McMullen.
Estranho ver um filósofo interpretar a si mesmo em um filme. Mais
estranho ainda é vê-lo responder a uma pergunta sobre espectros dizendo
ser ele mesmo um deles, e tão logo acrescentando: o futuro pertence aos
fantasmas. Derrida se referia às tecnologias modernas da imagem, do
cinema e da telecomunicação, é claro, mas também ao fato de que os
espectros estão irremediavelmente presentes nos processos de leitura e
de escrita: ler e escrever são atos fantasmagóricos, vez que deixam
vestígios, fazem ressurgir outros textos, autores, lugares-comuns de
leitura, na medida em que dão a reaparecer nossas próprias fantasias
literárias.
Nenhum outro espaço de escrita é tão
pródigo na criação de rastros quanto a internet. Matriz infinita de
textos e imagens, a internet faz proliferar os traços. Quando no ano de
2015 a engenheira russa radicada nos EUA, Eugenia Kuyda, perdeu o melhor
amigo em um acidente automobilístico, ela releu todos os SMS, as
mensagens online, os e-mails trocados com ele e decidiu utilizar essa
correspondência em um chatbot capaz de elaborar, a partir dos padrões de
linguagem, mas também de acessos aos conteúdos das redes sociais do
falecido, novos diálogos com o amigo morto. De lá para cá, outros
programas de conversação foram criados, como o Replika, um aplicativo
que assimila gradualmente a linguagem, o gosto, as expressões e as
opiniões do usuário até criar uma versão virtual dele. Esse replica
digital continuará a existir após a morte do dono, conversando, fluida e
realisticamente, com outros utilizadores, como naquele episódio da
série Black Mirror.
O surgimento dos chatbots promove o
aparecimento de novos e diferentes fantasmas. Certamente isso ensejará
uma transformação nos processos de luto e de perda, uma mudança da
sensibilidade diante da morte, cujas consequências são ainda
imprevisíveis. Alguns especialistas estimam o surgimento de alterações
significativas na concepção e gestão dos funerais. Mas, o que leva
alguém a ultrapassar o desejo de simplesmente deixar rastros de sua
passagem pelo mundo para se transformar em bot? Por que desejar
persistir no mundo na condição de fantasma? Seria uma espécie de
narcisismo final, como aquele que leva o sujeito a conceber o próprio
túmulo?
A antropologia ensina que em todas as
sociedades humanas a relação com os mortos é crucial. O medo comum a
todos os grupos humanos é ter os mortos permanentemente entre os vivos.
Os ritos funerários buscam assegurar que os fantasmas fiquem no outro
plano, que não retornem do invisível a não ser em circunstâncias
excepcionais. A era presente parece querer romper com essa longa
tradição. Em um futuro muito próximo, falar com um espectro virtual será
tão natural quanto abrir o facebook. Assustadora, por um lado, essa
ideia tem um aspecto positivo por outro. Que tal conversar com algumas
das grandes figuras do passado. Imagine poder dialogar com seu escritor
predileto e perguntar: e aí, Machado, Capitu traiu Bentinho? A resposta,
em que pese não vir do além, já não faz parte desse mundo.
Fonte: wscom

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