Quem passou pelo que eu passei — quase me fui — pode escolher o que fazer com
a experiência. Ou terá assunto para o resto da vida, pois tudo o mais perderá
importância comparado ao maravilhoso fato de continuar vivo. Ou evitará o
assunto, para não ficar conhecido como um sobrevivente chato, daqueles que sabem
— e repetem — tudo sobre sua doença, com detalhes, e até com um certo ar
superior.
— Alguém aqui sabe o que é “rabdomiólise”?
E a conversa não pode ser sobre outro tópico:
— A coisa na Siria está feia.
— Isso porque vocês não viram minha urina no primeiro dia.
— Li que o Internacional vai começar a temporada com o time B.
— Por sinal, eu contei que o vírus que me pegou poderia ser tipo A ou tipo B?
O meu era tipo A. O mais perigoso.
Prometo não ser um sobrevivente chato. Não vou contar o que me fizeram no CTI
do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, mesmo porque sei pouco sobre o
que me fizeram. Só sei que salvaram a minha vida.
Também não vou aproveitar nenhum dos delírios que tive enquanto sedado para
transformar em crônica. Não sei por que, mas acho que aproveitar delírios de
hospital em crônicas é uma forma de apropriação indébita.
E desculpe: não tive nenhuma visão do outro lado, nenhum vislumbre do
infinito. Mas tenho que reconhecer que saí da experiência com meu ceticismo
abalado.
Eram tantas pessoas — me contaram depois — rezando por mim e manifestando sua
apreensão e solidariedade, principalmente desconhecidos, que deve ter feito uma
diferença. Vou precisar rever minhas relações com a metafisica.
Alguns dos que salvaram a minha vida não são anônimos e precisam ser citados,
antes de mudarmos de assunto. Doutores Alberto Augusto Rosa, Sandro Gonçalves,
Eubrando Oliveira, Teresa Sukienik, Juçara Maccari, Ricardo Zimerman, David
Saitovich, Renato Eick, Flavio Kapczinski, Rogério Friedman, Bernardo Moreira,
Ana Stein, Marcos Wainstein, além do eficiente e dedicado corpo de enfermeiras,
enfermeiros e fisioterapeutas do hospital. Obrigado, obrigado, obrigado. E não
se fala mais nisto.
Luis Fernando Veríssimo, O Globo
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