terça-feira, 3 de setembro de 2019

Apenas é igual a outro quem prova sê-lo e apenas é digno da liberdade quem a sabe conquistar.

Charles Baudelaire
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além…
Mais este e aquele, o outro e a toda gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que eu saiba me perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca
A leitura é para o intelecto o que o exercício é para o corpo.

Joseph Addison
Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.

Êxodo 33:19
Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença.
Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;
Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.

Romanos 3:22-24

O problema da posse e porte de armas no Rio tem um tamanho: onze

Apenas onze das 3.367 armas apreendidas pela polícia do Rio de Janeiro desde 2016 têm origem lícita — o verdadeiro problema são as ilícitas
 
Um espectro ronda a discussão sobre segurança pública no Brasil: o espectro da liberação das armas. Quem é contra garante que, com o afrouxamento das restrições ao porte/posse de arma, viveremos uma carnificina diária; discussões sobre o preço do tomate na feira acabarão em banhos de sangue. Quem é a favor afirma que armas de fogo resolvem de invasão de domicílio a unha encravada, além de serem ótimas como peso de papéis. Nem lá, nem cá, eu levanto dados e números. Aqui vai um deles: 0,022%.

Eu pedi, e a Secretaria de Polícia Civil do Rio prontamente forneceu, via Lei de Acesso à Informação, microdados (ou seja, os dados separados, um a um) das apreensões de armas e munição no estado entre janeiro de 2016 e julho deste ano. Com dois detalhes importantes: se a origem da arma é lícita ou ilícita e a que tipo de dono pertenciam.

Das 48.656 armas listadas pela Polícia Civil como apreendidas nos últimos 43 meses, apenas 83, ou 0,17%, constam como tendo origem lícita. Já seria um dado suficiente para embasar o que já escrevi algumas vezes: o verdadeiro problema são as armas ilegais, ilícitas, — no caso das apreendidas de 2016 para cá, 99,83% do total, — não as armas registradas, com dono, endereço, CPF etc. Mas vamos adiante.

Vou retirar da conta as armas das polícias, Forças Armadas e outras forças de segurança que foram apreendidas — em situações, por exemplo, para perícia após confronto, ou recuperação de armamento desviado, ou listadas no caso de furto ou roubo de armamento — e as armas não identificadas por qualquer motivo, como as que têm a numeração raspada. Vamos olhar só as armas com registro particular (que podem pertencer a pessoas comuns, militares, policiais).

Nestes mais de três anos e meio, foram apreendidas 3.367 armas marcadas pela polícia como “registro particular” — sejam elas lícitas ou ilícitas. Temos aí mais um argumento contra a histeria acerca da flexibilização do porte e da posse: só 6,9% do armamento apreendido está na mão de (ou pertencia a) particulares. Só que dá para ir além.

Dessas 3.367 armas, 3.356 têm procedência ilícita. Mas 1.224 destas ou foram entregues voluntariamente na campanha do desarmamento (314 armas) ou foram roubadas, furtadas ou extraviadas — em alguns casos, durante outros crimes, como roubo de carga, homicídio etc. Ou seja, o crime não foi cometido com a arma: a perda ou furto da arma é o crime em si. Sobram 2.132 armas; não que seja pouco, mas o número corresponde a 4,38% do total de apreensões.

Chegamos, então, às armas de procedência lícita. São 11. Onze. Oito pistolas e três revólveres apreendidos em 43 meses. Míseros 0,022% do total das armas apreendidas. Todas .38, um calibre comum em armamento de defesa pessoal no Brasil. Sete registros de ocorrência na Baixada Fluminense, dois no Norte Fluminense, um na Região dos Lagos e um na Região Serrana. Um caso em 2017, três em 2018 e sete em 2019. Apreendidas nos seguintes crimes: quatro tentativas de roubo de veículo, duas tentativas de homicídio, uma ameaça, um roubo a pedestre e um roubo não especificado (outros), uma tentativa de roubo não especificada e um registro de resistência. Como se vê, mais crimes tentados do que levados a cabo.

Ou seja, se é possível usar a apreensão de armas como termômetro, todo o desespero, todos os discursos no plenário do Congresso, todo o pânico nas ruas, as discussões, os debates, as mesas redondas, as plenárias em universidades, as dissensões familiares, tudo isso, pelo menos no Rio de Janeiro, se refere a 11 armas apreendidas em 43 meses. Dá uma coronha ou um cano por mês, em média, num estado com quase 17 milhões de habitantes. É cerca de nada.

Dando uma olhada nos outros lados da cerca da questão armamentista, mais me preocupam as 357 armas patrimoniadas das forças de segurança que constam nos dados da Polícia Civil como furtadas ou roubadas de 2016 para cá. Dá uma arma perdida para criminosos a cada quatro dias, em média.

Ou então as — isso sim é de assustar — 17.238 armas ilícitas, não patrimoniadas ou sem identificação retiradas de circulação no período. Armas envolvidas em crimes singelos como tráfico de drogas, associação para o tráfico, corrupção de menores, homicídio e roubo. Uma média de 13 armas — fuzis, carabinas, metralhadoras, submetralhadoras, pistolas, revólveres etc — apreendidas por dia.

Talvez sejam esses os números contra os quais a sociedade deveria estar organizando passeatas, berrando em praça pública, pressionando o Estado em busca de uma solução. Que, claro está, não passa por apreender mais armas, mas acabar com o enxugamento de gelo e sustar a entrada de armamento ilegal no estado.

Porque os traficantes que portam a esmagadora maioria dessas armas não são integrantes da Resistência Francesa lutando contra os nazistas, ou Robin Hoods de bermuda e chinelo lutando contra o xerife de Sherwood, ou paladinos da justiça protegendo a população pobre e esquecida. Traficantes são bandidos, gente à margem do Estado que não merece carinho, compreensão ou afagos. São criminosos e devem ser presos. Mas dizer essas coisas não faz sucesso nas rodas de amigos, nem nos debates. É mais fácil jogar pedra naquele pessoal das 11 armas, que não vai reagir nem posa de vítima da sociedade.
 
 
 Gian Paolo Morgado Braga - Época

"Bergen-Belsen, Dachau, Treblinka, Buchenwald, Auschwitz-Birkenau. Cinco nomes que todos conhecemos e que identificam, na Europa, o pior do que o homem é capaz. Mas havia mais, muitos mais construídos pelos nazis entre campos de concentração, subcampos e campos de passagem, uma viagem de suplício para milhões de pessoas e uma das histórias europeias mais negras de sempre. “Nunca mais” prometeram os alemães depois da guerra e a promessa pode aplicar-se a tudo – à guerra, ao extermínio, à destruição, a perseguições lançadas cirurgicamente sobre os outros. Conhecemos os nomes dos campos, vemos os filmes, seguimos as séries de televisão, lemos os livros que contam o mesmo horror. Olhando para a Europa de hoje, não é nada certo que tenhamos aprendido a lição. Talvez seja também por isso que cada uma das viagens papais a Auschwitz continue a ser classificada como “histórica”. João Paulo II esteve aqui em junho de 1979, Bento XVI em maio de 2006, ontem veio Francisco. Há 37 anos, o papa polaco pediu o fim da guerra em Auschwitz e o papa alemão questionou o silêncio de Deus perante tanto sofrimento. Nesta sexta-feira, o papa argentino pediu o perdão divino para tanta crueldade. Mesmo antes de passar os portões, Francisco disse aos jornalistas que gostaria de ir àquele lugar do horror sem discursos nem multidões. Queria entrar sozinho e rezar. E que lhe fosse dada “a Graça de chorar”. Há qualquer coisa que muda quando se passa para o outro lado do arame farpado. Em Buchenwald, lê-se ainda sobre os portões “Jedem dem Seine”, a cada um aquilo que merece, palavras mais cínicas ainda do que aquelas que se continuam a ler em Auschwitz (o trabalho liberta). Talvez seja o vento, o lugar vazio e agora raso onde antes se erguiam as camaratas dos prisioneiros, a terra seca onde não se vê crescer uma única erva, as chaminés ao longe que não precisam de legenda. Pelo menos uma vez na vida devemos passar pelos portões silenciosos de Auschwitz, Buchenwald ou Treblinka. Não há nada para ver, mas tudo para sentir.”

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Foto: Alfredo Cunha
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma


“O mar dos meus olhos” – Sophia de Mello Breyner Andresen

"Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada".

Sigmund Freud

Versículos do dia

O temor do Senhor é a instrução da sabedoria, e precedendo a honra vai a humildade.
 
E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.
Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele.
Não sei se a vida é curta ou longa para nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.


Muitas vezes basta ser: colo que acolhe,
braço que envolve, palavra que conforta,
silencio que respeita, alegria que contagia,
lágrima que corre, olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.


E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura enquanto durar.


Feliz aquele que transfere o que sabe
e aprende o que ensina”.


Cora Coralina

domingo, 1 de setembro de 2019

Quinze anos

Querida sobrinha Camile Lanai, hoje você completa 15 anos. Estamos, portanto, diante de um rito de passagem, tradição que se perpetua entre diversos povos e culturas. Agora, você é a debutante, seus 15 anos, certamente, a fizeram esquecer a sua boneca preferida, e seus brinquedos de criança foram substituídos pelos sapatos e pelas botas longas. O coração de criança passa agora a compreender melhor as curvas que nos levam a felicidade e a realização dos nossos sonhos. 

Sabe Camila, houve um época, um tempo de contos e de fadas, em que uma linda princesa tinha apenas o tempo das doze badaladas para ser feliz, antes de perder seus sapatinhos de cristal nos degraus de um castelo. Não se desespere, diferente da fábula, você tem todo o tempo do mundo para ser princesa, construa a sua felicidade! Saiba subir e descer degraus sem perder seus sapatinhos. "Das habilidades que o mundo sabe, essa ainda é a que faz melhor: dar voltas". 

Cerque-se sempre de quem que possam lhe ensinar. Acredite, é muito mais feliz quem sempre se coloca na posição de aprendiz! 

Tenha seus pais como amigos e cúmplices, ninguém pode amá-la mais do que eles, e nesse particular, invoco hoje a lembrança de minha mãe, sua avô paterna, Maria Alves de França, quão feliz ela estaria hoje nesta noite inesquecível, assim como está D. Bilia, sua vô materna. 

Concluo, desejando-lhe uma juventude cristã, buscando o conhecimento das coisas do alto. Procure a beleza da alma, é lá onde você encontrará a felicidade! 

Felicidades e parabéns!

Seu Tio, Teófilo Júnior

Kamil Kotarba
Foto: Della Latta Massimo

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterônimo de Fernando Pessoa

É Preciso Também não Ter Filosofia Nenhuma

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.


 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa 

sábado, 31 de agosto de 2019

Foto: Henryk Aderhold


Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo...