quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Ciência e a Fé

(casa dos índios Pueblo)

Um dos maiores equívocos das discussões filosóficas de mesa-de-bar é imaginar que a ciência se baseia apenas na Lógica e a religião apenas na Fé. 
Concordo quanto a esta última: todas as religiões procuram desdobrar-se em argumentações para mostrar que estão certas, mas a essência da atitude religiosa é a Fé, a certeza de algo inexplicável, a crença em algo transcendente e impossível de codificar.
O problema é que a ciência procede de um modo muito parecido. A ciência se baseia na Razão, mas um grande problema da Razão é que ela é incapaz de se sustentar por si mesma; ela sempre precisa se apoiar em algum tipo de Fé. 
Suas premissas podem se basear no empirismo mais pragmático, ou nas deduções mais impecavelmente lógicas: mas sempre precisam da Fé.
A primeira Fé de um cientista é: “O Universo faz sentido”
Ele pode achar que não existe um mundo espiritual, pode achar que não há Deus, e que o Universo inteiro é um simples agregado de átomos que se organizam em estruturas de matéria e energia. Mas ele acredita que tudo isto faz sentido, obedece a leis – ou, para ser mais científico, “organiza-se em padrões de regularidade que é possível medir e prever.” 
Quando está diante de algo caótico, contraditório, absurdo, o cientista balança a cabeça, teimoso, e continua insistindo em busca de uma lei, uma ordem, um sentido. E geralmente encontra.
Uma outra Fé, ou uma variação da anterior, é: “O Universo é sempre o mesmo.” 
O cientista tem uma crença religiosa na continuidade dos fenômenos. Ele acredita piamente que o sol vai nascer amanhã de manhã, e tem mais: vai nascer no Leste, e nunca no Oeste. Quem garante? Para ele, quem garante esta regularidade é justamente o fato de não existir um Deus sujeito a venetas e caprichos, como o Deus bíblico que mandou o sol se deter no céu durante três dias para que Josué pudesse invadir Jericó. 
Os cientistas têm uma fé absoluta na inexistência de venetas desse tipo. Pergunte a qualquer um, e ele vai confirmar que sim, o sol vai nascer amanhã, nem que a vaca tussa; e ele dirá isto com uma Fé tão sólida quanto a fé do Papa.
Há uma tribo, acho que são os índios Pueblo, do México, que toda madrugada acorda cedinho e entoa cânticos “chamando” o sol. Eles crêem que o sol só nasce devido a esse seu chamado, e que é responsabilidade deles fazer com que o sol nasça todos os dias, ilumine o mundo, aqueça os corpos, estimule as colheitas. 
Os cientistas têm uma fé igualmente sólida no fato de que a matéria-em-movimento se comporta hoje como se comportou sempre, e se comportará amanhã como se comporta hoje. 
Daí a enorme crise dos cientistas quando alguém lhes provou que não existe o tempo absoluto, ou que o sol não gira em torno da Terra, ou que era possível desintegrar a matéria e transformá-la em energia. Nada disso era possível antes, mas todas as suas crenças tiveram que ser reformuladas para incluir estes fatos novos, para que estes milagres impossíveis não desmentissem sua fé.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

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