O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral:
um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais
abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem
estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20
anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela
UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico
do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem
Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o
CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades
carentes. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele
abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas
perguntas.
1.Na sua palestra no
Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a
“entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças
em um trono?
A gente vive em tempos de hipervalorização
da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela
sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem
de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a
falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das
questões da vida moderna. E quando estão juntos, os pais não conhecem
essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus
trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se
submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta
mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma
negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer
uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no
mundo. Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba
tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não
lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a
qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente
acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança
passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.
2.E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?
A
superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias
experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os
americanos chamam de “helicopter parent”,
pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não
tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem
entre o mundo e a criança. Elas ficam impedidas de lidar com o
risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas
da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema
com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no
playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É
claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto,
mas são experiências da infância. A criança tem que ter a experiência do
risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que
para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se
expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares
existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.
3.Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a
palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem
limites?
Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já
vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário
da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de
semana, se elas não querem sair, ninguém sai. Pais que deixam a criança
de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e
deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da
comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do
shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida
dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela
precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem
limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo. Muitos meninos e
meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão
dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de
trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida
vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação
cheia de falhas nesse sentido.
4.A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?
Eu
tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da
família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a
frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber
mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar
ensinamentos importantes. Os pais sentem culpa porque não estão
presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A
gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar
presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção
de pai e mãe que a criança sofre. Mas a gente tem que justamente tomar
muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados
porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de
referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações
anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de
trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do
smartphones. Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno
da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode
restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.
5.A
justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que
podem, trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos,
chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter
filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver
este impasse?
As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de
rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em
que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de
familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte
que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado
por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o
futuro. Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter
filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte
de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas
condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o
nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É
preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência
familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos
pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza
por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a
nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um
todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e
isso influencia nas condições de vida das famílias.
6.O video americano “Childhood is not a mental disorder”
já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para
controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter
muito cuidado com os diagnósticos?
Eu gosto muito desse
vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está
fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções
fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia
da criança está sendo reprimida. É claro que o comportamento dela vai
ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se
rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em
vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância
melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que
elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é
monstruosa e crescente. No Brasil, a Ritalina é o principal remédio
usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil
caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está
estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode
negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de
Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno
número de crianças. A grande maioria desses diagnósticos está sendo
feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até
perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para
psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são
benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e
de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai
rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na
cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem
potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro.
Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava
que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e
saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a
criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra
disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina,
leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara
Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da
Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo
medicando e rotulando essas crianças?
7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?
Acolher
as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm
uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela
está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E
mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la
entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir
essas emoções, tanto negativas quanto positivas. Acolher também os
desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu
te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um
pouco esse mecanismo da birra. Ter convivência com os nossos filhos,
oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de
sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o
joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar
um zero, aprender com a frustração: tudo isso é importante para
formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para
conviver com o outro. Pra saber respeitar o outro a primeira
coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo.
Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros
membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade.
Esse é o nosso papel como pais.
Por Fabiana Santos
Fonte http://www.portalraizes.com/conselhos-do-pediatra-daniel-becker/

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