O instrumento que é símbolo do sertão do Pajeú, celeiro da cantoria popular
do Nordeste
O GLOBO / HANS VON MANTEUFFEL
TABIRA (PE) - “Quem discrimina a viola/
por não gostar de cultura/vai ver o povo/ levar um poeta à prefeitura”.
E o povo viu mesmo. Localizada no sertão do Pajeú — celeiro da cantoria
popular do Nordeste — Tabira elegeu um prefeito repentista. Isso
depois de viver a chamada guerra das violas, na qual o instrumento símbolo da
região esteve em evidência e em constante ameaça de destruição em praça
pública. Pelo menos é o que conta o prefeito eleito Sebastião Dias (PTB).
Ele afirma que seguidores do prefeito José Edson Cristóvão, o Dinca Bandino
(PSB) — que disputou a reeleição — prometeram durante a campanha quebrar as
violas da cidade na frente da residência do petebista, caso este fosse
derrotado. Chegaram, segundo ele, a distribuir cerca de mil CDs no
município, “despachando” o candidato e seu ganha pão: “amanheceu,
peguei a viola/ botei na sacola/ e fui viajar”, ironizavam os
socialistas.
— Não sei se o prefeito esteve diretamente envolvido nisso. Mas sua militância, com certeza. Compraram violas de brinquedo para quebrar e mandaram confeccionar uma gigante, de mais de três metros, para promover uma destruição simbólica na frente da minha casa. O que aconteceu aqui foi um atentado à cultura popular. Quebrar viola em Tabira é violentar a alma do povo e desrespeitar a essência do lugar — diz Sebastião.
Segundo o petebista, o povo se revoltou, e lhe deu apoio. Não só os violeiros, mas outros segmentos populares, como os carroceiros, que se mobilizaram para ajudá-lo.
— Eles ameaçavam quebrar as violas, mas a gente não deixava não. A viola é como se fosse a vida da gente. Nós juntamos 200 carroceiros e fizemos uma cota pra ajudar na campanha do tostão contra o milhão. Cada um deu o que pôde — lembra o carroceiro José Edmilson de Lima.
Segundo Sebastião, os recursos doados para a campanha o emocionaram.
— Chegaram com uma sacola de dinheiro. Eram tantas cédulas de dois reais, como nunca vi na minha vida. Diziam que iam quebrar as violas, que ninguém vota em ‘liso’ e que o povo não acreditava em um cantador — recorda o repentista, que em 43 anos de estrada acumula mais de 600 prêmios em festivais de cantoria.
Sebastião entrou na campanha tendo o adversário como favorito, mas viu sua popularidade crescer na mesma proporção em que cresciam as agressões, ainda que simbólicas, às violas. E elas eram tão comentadas que as violas de brinquedo quase sumiram das lojas da cidade.
— Nunca vendi tantas, fosse de plástico ou madeira. De um lado, os seguidores do prefeito. O que se dizia era que elas seriam quebradas na festa da vitória de Dinca. Mas depois, vieram os seguidores de Sebastião, que compraram as de brinquedo e amarraram no pescoço para comemorar a eleição — confirma o comerciante Inácio Pereira Veras, dono da Bodega, loja típica do interior do Nordeste, na qual se comercializa desde chapéus de couro até latas de carregar água na cabeça, o que ainda é comum no sertão.
O prefeito Dinca Brandino não estava em Tabira quando O GLOBO o procurou. Mas segundo o procurador da prefeitura, César Souza Pessoa, o prefeito nada tem a ver com a discriminação contra a viola e os violeiros:
— Ninguém determinou esse tipo de agressão — assegura.
Um dos coordenadores da campanha do socialista e secretário de Educação da prefeitura, Gustavo César Barros afirma desconhecer qualquer tipo de discriminação contra o instrumento, tão essencial aos repentistas:
— Em momento algum essa pretensão chegou aos nossos ouvidos e não houve nenhuma determinação do comando de campanha nesse sentido. Se aconteceu, foi manifestação esporádica de eleitores ou militantes. Temos orgulho da viola e da poesia popular, que são símbolos da cultura não só de Tabira, mas de todo o sertão do Pajeú.
Para a maioria dos violeiros ouvidos, no entanto, a história foi diferente.
— Eu mesmo vi uma carreata sendo liderada por um carro carregando uma viola, e o instrumento era tratado com muita ironia. Se ele (Dinca) ganhasse a eleição, a viola ia sofrer muito, seria arrastada pelo chão. A gente ficou muito magoado com essa exposição, pois ela é sagrada para nós — afirma o cantador José Carlos do Pajeú.
Após o resultado, os poetas se reuniram sob um pé de umbu, fruta típica da região, onde costumam fazer desafios. Agora prefeito eleito, Sebastião Dias fez saltar o seu lado violeiro: “Quem queria quebrar minha viola/ Foi dormir escutando o choro dela/Foram dias de muito sofrimento/Afastado do som da minha lira/Só porque defendi nossa Tabira/ prometeram quebrar meu instrumento/ Mas viver sem viola eu não aguento/ Que cultura pra mim é coisa bela/ E até quando esta mão pegar na vela/ Poesia será a minha escola”.
Letícia Lins
O Globo

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