quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: "Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar"... ou senão: "Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar..."
A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele -- "porque, quando você se casar..." -- e a menina foi se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa coisa: casar.

De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. "Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande coisa"; ou então: "A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!..."

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito à felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe representou coisa importante, uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, "tia", parecia-lhe um crime, uma vergonha.

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer coisa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua inteligência a ideia de "casar-se" incrustou-se teimosamente como uma obsessão.


Bruzundangas

"Bruzundangas" é um substantivo feminino que pode significar "palavreado confuso, mistura de coisas imprestáveis, mixórdia, trapalhada, embrulhada". 
 
A FLIP 2017 ( Festa Literária Internacional de Paraty, deste ano) termina hoje. O homenageado foi Lima Barreto, escritor afro-brasileiro  e mestre da ficção de escárnio.
 
Em seu livro póstumo "Os Bruzundangas", publicado em 1923, com uma coletânea de crônicas onde a percepção aguda e crítica não deixa passar nada.  Fala da arte de furtar, de nepotismos desenfreados, de favorecimentos e privilégios. Fala da sociedade, das eleições, de religião, dos literatos e da imprensa que são causticamente abordados e servem de pano de fundo para a construção de sua obra literária.
 
Satiriza uma fictícia nação onde ele mesmo teria residido. Seus capítulos enfocam, entre outros temas, a diplomacia, a Constituição, transações e propinas, os políticos e eleições em Bruzundanga. Critica os privilégios da nobreza, o poder das oligarquias rurais, a futilidade das sanguessugas do erário, desigualdades, saúde e educação tratadas com desdém, enfim, mazelas parecidas às de um país real. Ao lê-lo, tem-se impressão de que o escritor retrata o Brasil dos dias atuais. E aí fica a dúvida: Lima Barreto foi um visionário? ou o país continua patinando desde sempre. O governo Temer é a síntese da definição de Bruzundangas: "palavreado confuso, mistura de coisas imprestáveis, mixórdia, trapalhada, embrulhada."
 
Eduardo P. Lunardelli

Amore Infinito”: poemas de João Paulo II interpretados por Plácido Domingo

Encantado pela pessoa e os poemas de João Paulo II, o tenor Plácido Domingo decidiu homenageá-lo.

“Há tanta profundidade nestes poemas, em que nós encontramos a mensagem do Papa sobre o amor”, disse Plácido Domingo.
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Os ingênuos creem em 'idealismos' contra a monstruosa realidade



Lembro-me que a primeira vez que li a Bíblia, por volta dos 13 anos de idade, achava estranho Abrãao, um dos heróis de Deus, referir-se a si mesmo dizendo "Eu, que sou pó e cinzas...".

Com o passar dos anos, fui cada vez mais entendendo como esse autorreconhecimento, na verdade, era o passo necessário e eficiente (como se diz na mais alta filosofia) para o restante do enredo: a convivência com o Deus de Israel só é possível se você fizer a experiência "esmagadora" da verdade de si mesmo.

Esse é o preço para se viver ao lado do Santo. Sendo Ele pleno, e nada resistindo a esta plenitude, a única forma de plenitude possível aos seu heróis era o reconhecimento de sua própria insuficiência. Perceber-se insuficiente é uma libertação.

Daí decorre muito do mau entendimento desse enredo e de seus personagens. A suposta "humilhação" que muitos pensam ver na relação com o Deus de Israel é apenas fruto de má leitura, ou de pouca leitura, ou, simplesmente, como diria um dos meus filósofos preferidos, Santo Agostinho (354-430), "orgulho, revolta e cegueira".

Parece-me que a correta interpretação dessa confissão de insuficiência presente na imagem de "pó e cinzas" é o encontro libertador com a humildade. Georges Bernanos (1888-1948), outro autor que me forma intelectualmente e espiritualmente continuamente, dizia que a humildade é, de todas as virtudes, a única imbatível.

Abraão, ao se reconhecer como pó e cinzas, simplesmente, encontrava sua libertação definitiva. A humildade bíblica é a mais profunda forma de libertação já descrita na literatura ocidental. O "rochedo da humildade" é imbatível como experiência existencial e espiritual.
A libertação não habita a boçalidade da assertividade treinada em workshops movidos a ressentimento "caché" (em francês, é mais chique dizer "escondido"). Nem tampouco em fórmulas neurolinguísticas a serviço desse pequeno ditador chamado "eu". Menos ainda em formas de espiritualidade quântica para consumo.

Diante desse fato, sinto-me um pouco como o filósofo judeu russo Lev Chestov (1866-1938), que se dizia um ateu convicto de que a mensagem bíblica é essencial para o conhecimento do lugar do homem em constante busca de dar sentido a uma vida em si insustentável.

Os ingênuos creem nas mais distintas formas de "idealismos", como dizia Chestov, contra a monstruosidade da realidade. "Sofremos a existência" e narrar esse sofrimento talvez seja a forma mais sublime de sinceridade que alguém que tem como profissão a escrita pode ter para com seus semelhantes.

Outro russo, filósofo também, Nicolas Berdiaev (1874-1948), influenciado diretamente por Dostoiévski (1821-1881), como Chestov, via a aventura espiritual humana como um combate entre o Nada do qual fomos tirados, e que nos habita intimamente, e a possibilidade de sermos criadores, como o Criador.

Para isso, a coragem de fugir da "cotidianeidade" banal é essencial. Essa banalidade se dá por meio de uma vida vivida com o espírito de rebanho, longe da "aristocracia espiritual" de que tanto falou Berdiaev, conceito retirado de Nietzsche (1844-1900), claro.

A vida espiritual como enfrentamento desse Nada, manifesta-se, entre outras formas, na superação do orgulho moral, traço clássico das almas ressentidas, incapazes de reconhecer o "nada do pecado" em si mesmas. Ao contrário do que prega nossa vã teologia da autoestima espiritual, o pecado é um dos conceitos mais libertadores na tradição ocidental.

A beleza de Deus nos impacta de formas distintas. Nosso vazio enxerga Deus melhor do que nosso orgulho. A passagem do Novo Testamento, em que Jesus está ao lado de dois ladrões no Gólgota, é paradigmática. Enquanto um, o mau ladrão, exige que Jesus use seus "superpoderes" de filho do Deus todo poderoso para tirá-los da cruz, o outro, o bom ladrão, pede que Jesus simplesmente se lembre dele, um ladrão que merece a cruz, quando entrar em Seu reino.

Por isso, no judaísmo, na oração "Nosso Pai e nosso Rei", falada no Dia do Perdão, se diz: "zachur ki afar anáchnu": Lembra-Te de que nada mais somos do que pó. 

Luiz Felipe Pondé (Folha online)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Mais um toque político do PUM

Como disse o professor e guru Moysés Pinto Neto, “a prioridade em 2018 tem que ser o Poder Legislativo. Coletivos têm que usar a Internet pra colocar gente no Congresso”.

Não esqueça: para não falar em quem teve sua campanha financiada por empresas que depois cobram decisões favoráveis a seus interesses, lembro que toda a bancada evangélica do Senado votou contra os trabalhadores. E a Câmara dos Deputados não é nem um pouco diferente. Então, temos que pensar se devemos reeleger essa gente de cristo e das empresas.

Como estamos vendo, a Câmara, o Senado e o Executivo estão pouco se importando com a opinião pública. Estão total e intencionalmente alheios de uma população votante que sempre elege o pessoal da TV, os bispos, e quem tem propaganda cara, normalmente paga pelos financiadores a quem servirão. O eleitor, coitado, pode ser esquecido por quatro anos e religado ao final dos mesmos.

A renovação do Congresso é algo que deve ocorrer e, creio, é mais importante do que o próximo presidente.

Mas só se fala na eleição presidencial. Não tenho ilusões, mas gostaria que a Internet pudesse auxiliar o país na perigosa eleição de 2018.

Michel Temer chegou à pior taxa de avaliação de um presidente da República, desde o fim da Ditadura Militar. Ele é avaliado como ótimo ou bom por apenas 5% dos brasileiros e 70% o consideram ruim ou péssimo. O recordista anterior era José Sarney, que chegou a 7% de aprovação em 1989. Em segundo estava Dilma, com 9% em 2015. Mas ele está cagando pra nós. Nada o atinge. Faz o trabalho que as empresas pediram e sorri.

Milton Ribeiro

Estabeleça metas

Pedro, um adolescente que vivia sendo disciplinado por seus pais por suas constantes “pisadas de bola”, foi conversar com o diretor de sua escola, e meio sem jeito perguntou: 

– Professor, o que devo fazer para não cometer tantos erros?

O mestre então, pegou um copo, encheu-o de água e entregou-o a Pedro, e disse:

– Filho, ande com esse copo por todo o colégio, suba e desça todas as escadas, entre em todos os cantos e becos, nos jardins, e volte aqui sem derramar uma só gota dessa água.

– Ah professor, isso é impossível! – Respondeu Pedro.

– Pelo menos tente. Tenho certeza que vai conseguir – Disse o Mestre.

Pedro então, saiu devagar, com os olhos fixos no copo. Subiu e desceu escadas, entrou e saiu das salas, cantos e becos, e voltou sem ter derramado uma só gota de água. 

O mestre então, olha carinhosamente para Pedro, bate nos ombros e lhe diz: você não viu as garotas que passeavam pelo jardim no horário de aula? Não viu seus colegas matando aula? 

– Não. Eu estava com os olhos fixos no copo – Respondeu Pedro.

O mestre então sorri, e diz: quando você estabelece objetivos, metas para sua vida, e coloca seu foco neles, assim como fez com o copo, encontrará a força e a motivação necessárias para vencer os desafios e as dificuldades da vida.

Prof. Menegatti

“O discurso do pensamento positivo é perigoso”

 
Foto Flickr/Alessandra 
Em 2006, a morte do adolescente Vinícius Gageiro Marques virou notícia no Brasil inteiro. O garoto fez uma espécie de minuto a minuto do seu suicídio na internet. Ele foi encorajado e mesmo instruído por anônimos, que fizeram uma série de recomendações sobre o processo. Na época, Vinícius estava em internação domiciliar por sugestão de seu psicanalista, Mario Corso. “A internet foi absolutamente decisiva. Enquanto eu fazia um trabalho para puxá-lo de volta à vida, não sabia que tinha gente fazendo o contrário na internet”, diz.

Mais de dez anos depois, Corso ainda recebe e-mails de jovens suicidas que o encontraram graças à cobertura do caso de Vinícius. Confira nossa conversa com o psicanalista:

Em geral, pode-se dizer que a adolescência é o período mais vulnerável da vida?
 
Sim, é quando mais ocorrem surtos psicóticos e inícios de depressão. Uma metáfora muito bonita sobre essa fase foi feita pela psicanalista Françoise Dolto, que comparou a adolescência a uma espécie de “complexo de lagosta”. É que a lagosta, de tempos em tempos, precisa fazer um novo exoesqueleto, e tem um momento em que ela fica sem a carapaça, que é a sua proteção natural. Para os seres humanos, a adolescência é justamente esse momento: os adolescentes são todos lagostas sem carapaça. Nós não percebemos o quanto algumas coisas podem ser sofridas na adolescência, quando ainda não estamos protegidos pela carapaça do mundo adulto e sofremos direto na pele.

É possível apontar características partilhadas por adolescentes com ideação suicida?
 
Fazer essa generalização é impossível, são tantas causas particulares da fragilidade de cada um... O grande desafio da adolescência é ter pares, ter amigos, pessoas que ajudem nesse momento de travessia. Fazer isso sozinho, sem amigos, é um inferno. Às vezes esses adolescentes até têm turma, mas essa turma não os conhece, não os ajuda. Nessa fase, tudo que os ajudava na infância, estarem cercados de uma família que os ama, não funciona mais. O desafio é outro, é sair para o mundo. Então, se você não tem essa conquista dos laços laterais, entre os seus pares você é considerado um fracasso, porque o processo de aprendizagem de ser adulto é validado pelos amigos. Em geral, a dificuldade de inserção social é a razão que mais faz com que eles desistam da vida.

Você disse na época que a internet foi decisiva para que Vinícius se matasse. como você vê o “jogo” Baleia Azul, em que adolescentes recebem uma série de tarefas pelas redes sociais sendo que a última é tirar a própria vida?
 
Quem aceita um jogo desses tem, no mínimo, uma personalidade quase psicótica — e, durante a adolescência, não é que necessariamente essas pessoas sejam psicóticas, elas ficam psicóticas. Como a nossa sociedade não tem rituais que digam o que você deve fazer para ser considerado adulto, os participantes desse jogo me parecem estar desesperados para que alguém conte a eles como entrar na vida adulta. É importante dizer que a adolescência é uma invenção recente. No século 19, com 17 anos você estava casado e começando a trabalhar. Esse período de suspensão, de estudos, é uma novidade. Não existia essa dilatação de tempo antes da entrada no mundo adulto. Indo ainda mais longe, em sociedades arcaicas a passagem para a vida adulta de fato era marcada por rituais que envolviam, por exemplo, cortes na pele. Existia uma marca exterior que dizia a sua idade e como você deveria se comportar. Hoje, isso é uma construção subjetiva.

Mas, no caso do Baleia Azul, esse ritual culminaria na morte, e não na chegada à vida adulta.
Mas aí você mata a criança que você não quer mais ser. Morre uma condição infantil sua.

Depois da morte de Vinícius, você continuou investigando a influência da internet em outros casos de tentativa de suicídio?
 
Eu continuei envolvido com esse assunto sem querer, digamos assim. Desde aquela época, recebo pelo menos uma vez por mês e-mails de jovens que dizem que não têm mais razões para viver e que sabem que eu já havia falado sobre isso. Aí eu sugiro que procurem tratamento, e quase sempre consigo encaminhar para colegas. Mas, no ano passado, foi muito difícil contornar um caso. O menino, que era de Belém [Corso mora em Porto Alegre], tinha uma ideação suicida muito forte. Aí fui à polícia e, no fim, conseguimos encaminhá-lo para um tratamento.

Nesse caso, então, em vez de procurarem um  incentivo ao suicídio, esses adolescentes buscaram o contrário: alguém que os convencesse de que esse não era o melhor caminho. É possível dizer que a internet fez bem a eles?
 
Sim. A internet continua um faroeste, um lugar para o qual ainda não encontramos uma etiqueta. Mas, por outro lado, muitos adolescentes que são tímidos encontram nela um ótimo lugar para estabelecer laços. Quem tem uma fobia social consegue circular um pouco pelo mundo, fazer amigos virtuais, e isso pode ser de uma ajuda extraordinária. Eu não acho que a internet seja um problema, o problema somos nós. É como o papel: você pode imprimir qualquer coisa nele.

Qual deve ser o comportamento dos pais em relação às angústias dos filhos adolescentes?
 
O mais importante é ficar muito atento ao que eles estão dizendo e nunca vir com essa palhaçada de pensamento positivo, de “vamos superar”. O mais perigoso é o discurso do pensamento positivo, porque não permite que o jovem expresse a sua tristeza. E, se ele não puder falar sobre a sua dor, se não conseguir se expressar verbalmente, ele vai fazer isso por meio de atos. É preciso ajudá-los a fazer a narrativa da sua angústia, isso ajuda muito. É por isso que a Hannah [protagonista de 13 Reasons Why] não parece uma personagem verossímil, porque ela tem uma narrativa muito clara da sua dor. Pessoas assim não se matam. Mas, claro, ela é uma personagem de ficção, não precisa mesmo ser verossímil.

terça-feira, 1 de agosto de 2017


Todas as nossas palavras serão inúteis se não brotarem do fundo do coração. As palavras que não dão luz aumentam a escuridão.

Madre Teresa de Calcutá


Mário de Andrade

Poemas da amiga
VII

Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e de um branco
Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.

Estamos no interior duma asa
Que fechou.

De Poemas da Amiga

Mário de Andrade

Mulheres Argelinas e suas vestes coloridas!


segunda-feira, 31 de julho de 2017



No banquete da vida a amizade é o pão, e o amor é o vinho.

Paolo Mantegazza

Tolkien e Guimarães Rosa

Uma vez, conversando com amigos estrangeiros, perguntaram-me quem era o maior escritor brasileiro; respondi que era Guimarães Rosa. Ninguém tinha ouvido falar nele; quiseram saber que tipo de escritor era. Eu disse: “Imagine os romances de J. R. R. Tolkien escritos por James Joyce.” 
Riram porque pensaram que era piada, mas não era, era um mero exagero. A crítica literária brasileira, especialmente a que sofreu influência do Concretismo paulistano, sempre compara Rosa com Joyce; nunca vi ninguém compará-lo com Tolkien. E no entanto a obra dos dois tem imensas semelhanças, que me voltam à mente ao assistir o terceiro episódio da magnífica trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson.
Tanto Rosa quanto Tolkien imaginaram uma região mítica, fundada em suas vivências pessoais e em suas fantasias metafísicas. 
O Sertão de Rosa é, para usar uma linguagem meio pedante, semanticamente realista (porque tudo ali é observado, é anotado em caderneta, é pesquisado junto aos mais-velhos: usos, costumes, lugares, plantas, bichos) mas sintaticamente mágico, porque os acontecimentos e os destinos dos personagens parecem orquestrados por potestades invisíveis. 
Esse sertão que na superfície é tão mineiro, tão geográfico, tem uma escala épica que o transforma no campo de batalha entre as forças de Deus e as do Diabo.
Quanto a Tolkien, criou a Terra Média (Middle Earth), supostamente uma era remota no passado do nosso planeta, povoada por reis, guerreiros, e raças fantásticas (elfos, anões, orcs, trolls, etc.), que foram varridas da Terra depois que o Homem tornou-se o seu dono. 
À primeira vista, o mundo de Tolkien é totalmente fantástico, mas basta ler uma biografia sua (especialmente a de Humphrey Carpenter) para ver como seu processo criativo era realista. 
Tolkien compunha para seus reis árvores genealógicas inteiras, que se estendiam por milênios. Os elfos têm uma linguagem completa, toda inventada por ele (e falada pelos atores em trechos dos filmes). Seu cuidado ao descrever as aventuras de Frodo o fazia calcular desde a fase da lua em determinada noite até quanto tempo alguém levaria para ir a pé ou a cavalo de um lugar para outro (aspecto em que autores de romances não-fantásticos, como Walter Scott, muitas vezes se fazem de doidos).
Apesar das evidentes diferenças entre Grande Sertão: Veredas e O Senhor dos Anéis, ambos têm um sopro épico semelhante, ambos são a epopéia de um grupo pequeno de guerreiros do Bem enfrentando um grupo impiedoso de guerreiros do Mal. 
Os “orcs” da Terra Média e os “hermógenes” que Riobaldo enfrenta nas batalhas sertanejas são personificações do Mal que um herói hesitante e problemático precisa derrotar. 
Há muitos paralelos de detalhes que podem ser traçados entre as duas obras, mas mais importante do que isto é o espírito de nobre maniqueísmo medieval que os dois autores compartilhavam. O Bem existe. O Mal também. E é preciso pegar em armas para combater o Mal.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

Não digas nada

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer


Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

As mulheres secas

As mulheres secas
não se banham,
só lavam suas caras sujas nas águas dos olhos,
é pra isso que choram, se entristecem e choram.
E quando a noite desanoitece
e o sol vem queimar o mundo,
é hora de rezar as velhas preces
é hora de rezar em vão, de juntar mais mágoas
que é para se entristecer e dar mais águas
nos olhos que são cacimbas de beber.
As mulheres secas bebem lágrimas!
tentando fazer leite nas muchibas magras, ocas
e não vem leite que dê pra tantas bocas,
dos meninos magros, secos
que só sugam nesses peitos, suor e sal.
As mães secas vivem de encantar meninos,
são enganadoras e prometem o céu que não têm
o leite que não vem,a chuva, o mingau.
As mulheres secas, pra enganar, dão até de sorrir
e escondem deles as suas dores, seus cansaços
e chupando seus peitos secos, embalados em seus braços,
mais um menino morre, sem ela nem sentir.

(Texto Joilson Kariri e desenho de José Pádua)