A sabedoria não vem automaticamente
com a idade. Nada vem - exceto rugas. É verdade, alguns vinhos melhoram
com o tempo, mas apenas se as uvas eram boas em primeiro lugar.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Frase
Alice: Chapeleiro, você me acha louca?
Chapeleiro: Louca, louquinha ! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são .
Chapeleiro: Louca, louquinha ! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são .
Um trecho inédito de Ariano Suassuna
Dois livros inéditos de Ariano Suassuna (1927-2014) chegaram às livrarias nesta semana: O jumento sedutor e O palhaço tetrafônico. Juntos, eles compõem o Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores.
A publicação é da editora Nova Fronteira e o lançamento oficial ocorre
no dia 9 de dezembro no Recife, na Livraria Cultura do RioMar Shopping.
O trecho abaixo é o início da primeira carta de O jumento sedutor.
Os dois livros são compostos, cada um, por quatro cartas que Antero
Savedra publica em um suplemento pseudoliterário chamado Sibila, do
jornal A voz de Igarassu. Ele dirige a correspondência “Aos nobres
Cavaleiros e belas Damas da Pedra do Reino”, como se vê no trecho
abaixo.
Segundo o poeta e professor Carlos Newton Júnior, que assina o
prefácio, Ariano começou a escrever o Romance nos anos 1980. O projeto
representa o desejo do escritor de fazer algo como uma condensação de
sua produção como artista e pensador – criar uma obra que transcenda a
literatura e siga pelas artes plásticas e pelo teatro.
O neologismo “Ilumiara”, que consta no texto, era usado por Ariano
tanto para se referir aos anfiteatros rústicos que os primeiros
habitantes do Brasil provavelmente usavam como locais de culto. Ele
passou a usar o termo, também, para classificar vários conjuntos
artísticos realizados em diversas épocas e lugares que, segundo Carlos
Newton, pudessem ser vistos como manifestação da força criativa de um
povo. Também usa essa palavra para designar como sua obra, em sua visão,
era um marco do Brasil verdadeiro e representava um caminho mais justo e
fraterno para ser trilhado socialmente; e mais belo e original do que o
caminho da descaracterização surgido a partir da globalização.
A obra tem forte apelo visual e, na impossibilidade de reproduzi-lo
aqui em virtude da formatação deste site, fizemos algumas opções para
sinalizar a presença de elementos visuais. Os itálicos são, de fato,
itálicos do texto. O que estiver em negrito marca a tipografia armorial no livro.
Todas as páginas de O jumento sedutor e de O palhaço tetrafônico
têm imagens. Elas não serão reproduzidas aqui. Desta forma, este
inédito proporciona uma leitura meramente textual (nesse caso, parcial)
de uma obra complexa que engloba outras dimensões. Fica, portanto, como
convite ao leitor/à leitora para uma imersão posterior no livro.
***
Sibila
Moda, Turismo & Lazer
Igarassu, 8 de Março de 2014
23 de Abril de 2016
Proposição
Com cavalos, atores, dançarinos e música‐de‐câmera
Prólogo a'O Espelho dos Encobertos
Aos nobres Cavaleiros e belas Damas da Pedra do Reino.
Amigos:
Uma vez, quando eu era bem menino, um Escorpião picou meu calcanhar.
Talvez por causa disso,“têm, para mim, Visões de um outro Mundo, as
Noites luminosas, azuladas, quando a Lua aparece mais bonita”.
Mas é verdadeira, também, a face reversa da Medalha: “Têm, para mim,
Visões de um outro Mundo, as Noites perigosas e queimadas, quando a Lua
aparece mais vermelha.”
Num caso e noutro, tais Visões me surgem porque à noite, ao som de
Violinos, Pianos, Violões, Flautas e Violoncelos, o Espelho grial e
multifacetado que fulge em meu sangue reflete à luz da Lua a imagem de
um velho Jaguar, talvez já meio cego mas ainda errante pela Caatinga
devastada, não se sabe à espera de quê.
Sendo eu antes de mais nada um Ator e Encenador, em minha formação
literária meus dois primeiros grandes Mestres foram Alexandre Dumas e
Rafael Sabatini. Este escreveu, abrindo‐me a
visão do Mundo como um Palco e da Vida como um Espetáculo:
visão do Mundo como um Palco e da Vida como um Espetáculo:
Rafael Sabatini Savedra
“Procuro consolar‐me com a lembrança de Epiteto. Dizia ele que todos
nós não passamos de atores no Palco da vida, e que representamos os
papéis que o Diretor acha por bem confiar‐nos.”
Dom Pantero
Um outro Mestre nosso, Gustavo Adolfo Bécquer, nem de longe se pode
comparar aos dois primeiros. Mas também foi importante para mim, porque
seus versos evocavam a figura de minha perdida, amada e jamais esquecida
Liza Reis:
Gustavo Adolfo Shabino Bécquer
— “Eu sou ardente, sensual, morena, eu sou o símbolo da paixão.
De ânsias de gozo minh’alma é plena. A mim me queres? — Não, a ti não!
— “De fronte pálida e tranças de ouro, posso ofertar‐te ditas sem
fim. Eu de ternuras guardo um tesouro. A mim procuras? — Não, não a ti!
— “Eu sou um Sonho louco, impossível, vago fantasma de névoa e
luz. Sou incorpórea, sou intangível. Não posso amar‐te. — Oh vem, vem
tu!”
Antero Savedra
Pois bem: obsedado pelo Palco, vivo pela Estrada em busca de Deus, do
Santo Graal e do “Sonho impossível” de Liza Reis; e este
Castelo-de-Cartas-Espetaculosas foi composto nos moldes do Evangelho de
São Lucas, dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo; com base
nas minhas “Memórias”, nas “Saídas” ligadas às “Aulas‐Espetaculosas”, na “paixão” de Quaderna e nos anais do Simpósio Quaterna, instaurado em Taperoá, a 9 de Outubro de 2000. Por isso deve se apresentar como um Diálogo,
no qual os interlocutores aparecem sob o comando de Dom Pantero do
Espírito Santo. No conjunto, fundindo‐se, nele, Encenação e Narrativa,
forma uma espécie de Romance‐de‐Epopeia‐Lírica, de
Espetáculo‐de-Circo ou de grande Peça‐de‐Teatro, na qual Dom Paribo
Sallemas, Dom Pancrácio Cavalcanti e Dom Porfírio de Albuquerque
integram comigo o grupo dos Narradores principais (pois Altino, Auro e
Adriel, mais do que Narradores, são Personagens que, tendo já morrido,
tiveram a encarná -los, no Circo‐Teatro Savedra, 3 dos melhores Atores que compareceram ao Simpósio).
Devo explicar a Vocês que nossas vidas foram marcadas por 4
acontecimentos terríveis. O primeiro surgiu quando, a 9 de Outubro de
1930, meu Pai foi assassinado com um tiro pelas costas. O segundo,
quando meu irmão Mauro se matou com 3 punhaladas desferidas contra o
peito, o que sucedeu no dia nefasto de 6 de Outubro de 1970. O terceiro e
o quarto, quando Auro e Adriel foram também assassinados.
Ora, uma vez meu Tio, Mestre e Padrinho Antero Schabino afirmara que nós, Savedras, éramos “uma família trágica, como a dos Átridas”. Por isso A Ilumiara é uma espécie de Orestíada,
narrada, não por Ésquilo, mas sim por aquele que, na trama, seria um
outro Orestes ou um novo Hamlet (ambos filhos de Pai assassinado, de um
Rei assassinado). Mas este “Hamlet” acertaria a vencer sua dor no Palco e
na Estrada, por meio das Armas que Deus lhe concedeu — “o galope do Sonho”, do Rei, e “o Riso a cavalo”, do palhaço.
Dom Paribo Sallemas
Albano Cervonegro
Quem, seguro de si, cego no Sol, entrar por este Pasto
incendiado, verá o riso, o choro e o desatino de um grande Povo, pobre e
iluminado, forjado ao sol‐castanho da Favela e ao sangue do Arraial do
Leopardo.
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Frase
Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo.
Pitágoras
Chico Salles
As estrofes rimadas do
Destino me fizeram estar em Sousa, no sertão da Paraíba, quando recebi a
notícia da morte de Chico Salles.
Vi logo, nas redes
sociais, que não fui o único a ser pego de surpresa. Chico, além de ser a
animação em pessoa, e de fazer trinta coisas ao mesmo tempo, era mais novo do
que eu. Mas essa chamada não é pelo número da senha. Ela cai do céu como raio
em céu azul. E contra ela nada adianta – o único jeito de se conformar com isso
é fazendo trinta coisas ao mesmo tempo.
Para os que não o
conheceram: Chico Salles era paraibano de Sousa, radicado no Rio de Janeiro
desde a juventude, e que atuou, com o mesmo brilho, como cordelista, sambista e
forrozeiro. Três áreas que eu vivo bordejando por curiosidade, e foi o amor
pelo cordel, pelo samba e pelo forró que nos aproximou e nos uniu.
Este é um ponto
interessante. São três “países” tão próximos e de idioma tão parecido que era
de se esperar que houvesse um tráfego maior, um comércio maior entre eles, e
até um número maior de pessoas com dupla ou tripla cidadania. Mas eu conheço
poucos cordelistas profissionais que tenham composto e gravado forró
profissionalmente; samba, então, nem se fala.
Por que? Não sei. São três
estéticas diferentes, mas não tão complexas ou tão especializadas quanto alguém
pode imaginar vendo de longe. O que se requer de um indivíduo para uma delas
pode ajudar em muito a praticar as outras.
A junção entre o samba e o
forró tem várias pontes sólidas armadas por gente como Jackson do Pandeiro,
Bezerra da Silva e tantos outros. Os versos de cordel, em suas modalidades
básicas de sextilha e septilha, se encaixam sem esforço em ambos os ritmos.
Mesmo considerando que tanto “samba” quanto “forró” incluem um milhão de
variantes rítmicas e estruturais cada um; mas as estrofes e as linhas do cordel
são básicas, intuitivas, maleáveis, e correspondem, a esta altura, a uma
cadência assimilada pela fala coloquial brasileira. Podem ser usadas sem
esforço nas letras dessas canções, sem que pareçam um enxerto artificial.
Chico Salles vivia me
catequizando para entrar na Academia de Literatura de Cordel, da qual era
membro, e eu, apesar de simpatizar com a instituição em si, e de ter lá muitos
amigos, sempre refuguei. Por que? Não sei. Acho que não gosto muito da pompa e
formalidade em que as academias se deleitam, aquele negócio de “peço a
palavra”, “nobre colega”, “procedamos à leitura da ata”, “vamos compor a mesa”.
Mesa que eu gosto é mesa de bar.
Como por exemplo a do
Botero, no Mercado das Artes de Laranjeiras, onde Chico pontificava e onde provavelmente
nos vimos pela última vez meses atrás, quando
Vladimir Carvalho veio mostrar no Rio seu documentário sobre Cícero Dias. Ali a
conversa fluía da Paraíba para o cinema, do Rio para o cordel, para as artes
plásticas, para o mundo.
Foi em torno do samba que
me envolvi pela primeira vez com um trabalho de Chico, a coletânea Sérgio Samba Sampaio, que ele concebeu,
gravou, e lançou em 2013. Nossa geração
foi muito marcada pela música do poeta de “Eu vou botar meu bloco na rua”, uma
obra sempre surpreendente, uma espécie de pós-Tropicalismo injetado de Zona
Norte (como a de Jards Macalé) e de cultura pop (como a de Jorge Mautner).
Chico fez uma seleção
brilhante dos sambas de Sampaio, um material que ouvi pela primeira vez no
carro dele, voltando de uma gravação na Tijuca, rumo ao Lamas, na companhia
imprescindível de Edmar Oliveira.
Depois veio o CD de Chico
sobre Rosil Cavalcanti em seu centenário, Rosil
do Brasil (2015), um álbum à altura do homenageado. Foi em outra homenagem
que pela única vez dividimos o palco, numa palestra-espetáculo na Biblioteca de
Botafogo, no Rio, quando foi comemorado o centenário de Luiz Gonzaga, em 2013.
Chico levou um trio nordestino, que tinha inclusive Durval na zabumba, e
encerramos o debate botando todo mundo pra cantar xote e baião, num coro que
incluiu até Beto Quirino.
Pois é, Chico – nossa
academia acabou sendo mesmo, sem desdouro para as demais, o circuito que passa
pelo Manolo, pelo Botero, pelo Lamas ou sei lá o que mais. Cordel, forró e
samba aproximam quem gosta de verso, de música, da mesa comunal onde todos são
iguais na convivência e únicos no talento.
Parabéns pela beleza da obra, que é o que fica de nós. Obrigado pela
alegria dos momentos, que é o que fica de tudo.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo
Vazios que só Deus preenche
Cento e vinte e dois pares de sapatos e ela não
encontrava um que servisse para aquela festa. Vinte ternos e ele estava
achando todos um lixo. Geladeira cheia e o menino batia a porta por não
encontrar uma coisa gostosa. Calmante forte, com tarja preta e receita,
mas eles não conseguiam dormir. Casa de luxo na praia, mas estava
fechada há meses. Muitos aparelhos modernos e muita, muita insatisfação.
Estamos nos armando de tudo o que é tipo de tranqueira
material para suprir o vazio que nada preenche. Vamos ao supermercado
esperando encontrar felicidade nas prateleiras, mas voltamos frustrados,
com o carro cheio e a alma vazia. E alma vazia somente Deus tem o poder
de preencher!
Prof. Menegatti
domingo, 3 de dezembro de 2017
A morte de "Antônio Letreiro"
Antônio Letreiro
Promotor investigou e garante: pistoleiro foi executado como “queima de arquivo.
O promotor de Justiça e professor universitário José Farias de Souza
Filho teve o seu pai assassinado em 1966 no interior da Bahia por
Antônio Letreiro e três comparsas. A partir de então, passou a
acompanhar a história do pistoleiro, cuja morte investigou por quatro
anos.
“Para ter a certeza de sua morte”, explica Farias em
comentário (reproduzido adiante) sobre ‘Letreiro’, artigo aqui publicado
no último domingo (26) que motivou dezenas de outros escritos em redes
sociais e na própria seção do blog reservada à opinião e à interação com
leitores.
José Farias de Souza Filho é Doutor em Psicologia
Social pela Universidade Federal da Paraíba (2014), instituição na qual
também concluiu Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente em 2010, fez
Especialização em Direito em 1983 e graduou-se em 1982.
Membro
do Ministério Público do Estado da Paraíba, Farias é titular da 1ª
Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Social
na Comarca de João Pessoa desde março de 1999. É ainda professor do
Centro Universitário de João Pessoa (Unipê).
O que escreveu Farias sobre Letreiro
Conheço e acompanho a história de Edmar Nunes Leitão – o Antonio
Letreiro – desde fevereiro de 1966, quando ele, um irmão e dois primos,
todos pistoleiros, assassinaram meu pai no lugar chamado Ferradura,
município de Tucano, Bahia.
Antonio Letreiro foi o último dos
quatro pistoleiros a morrer, assassinado por um Sargento e um Soldado da
PM (já falecidos) no município de Icó (CE), em dezembro de 1976, por
encomenda de Coiteiro (político e militar reformado), como queima de
arquivo.
Os dois militares foram apresentados ao pistoleiro como
“pistoleiros homiziados” na Fazenda. Antonio Letreiro, que tinha
contratado e executado mais um assassinato, pelo qual recebeu uma
caminhoneta como parte do pagamento, pediu ao coiteiro para mandar os
“dois pistoleiros homiziados” com ele no recebimento do restante do
pagamento.
Após o recebimento, dentro da cabine da caminhoneta,
um dos PMs atirou na nuca de Antonio Letreiro e, junto com o outro
militar, o deixaram na BR, após passar o veículo por cima do morto e
colocarem uma “placa” de papel no peito do pistoleiro com os dizeres:
“Eu era Antônio Letreiro”.
Antonio Letreiro havia sido preso em
1974 e respondia a vários processos na PB, em PE, no CE e no RN, onde já
havia condenação. Recolhido à Penitenciária de Natal, fugiu em dezembro
de 1975, indo se esconder na Fazenda do Coiteiro em Teixeira.
Passei quatro anos investigando a morte de Antonio Letreiro, para ter
certeza de sua morte. Com a ajuda de Coronéis reformados, cheguei aos
dois militares que o mataram e ao mandante e todos eles confirmaram a
“queima de arquivo”.
Um dos processos de Antonio Letreiro era a
tentativa de homicídio sofrida pelo Coronel Reformado Luiz de Barros,
que acusava seu adversário político de mandante.
O pistoleiro
ganhou o apelido ainda adolescente, em razão de “desenhar” as iniciais
de seu nome “E.N.L.” à bala, disparando com as duas mãos. Uma das
primeiras mortes por encomenda foi em Pombal, no início da década de
1970, tendo um médico como vítima.
São fatos.
Do Blog de Rubens Nóbrega
Letreiro
Apesar do nome sugestivo, o ofício de Antônio Letreiro nada tinha a
ver com letras em placas ou fachadas. Muito menos com literatura. De
todo modo, se a lenda faz justiça ao mito, seguramente foi o responsável
pelo que escreveram em dezenas, talvez centenas de lápides e atestados
de óbito.
A fama dele e a
curiosidade em saber mais sobre sua vida e obra me acompanham desde o
tempo de menino pequeno em Bananeiras, onde as proezas de Antônio
Letreiro eram narradas com admiração e temor reverencial por alguns dos
homens brabos do lugar.
De carona em verso bonito de Belchior,
confesso que dessas histórias não ficou muita coisa guardada nas
prateleiras da memória. Daí… A que vou contar adiante tem um pouco de
floreio sobre narrativa que há dois dias me fez o Professor Vicente, meu
pai.
Remete a período em que Antônio Letreiro ficou homiziado na
fazenda de coiteiro lá pras bandas da Serra do Teixeira. Esconderam o
homem na garagem do trator que arava a terra e engatava carroça de
carregar gente, gado, feira e ferramentas. Servia também para puxar
carro atolado nos baixios da estrada de Matureia.
Letreiro foi
muito bem tratado na fazenda, apesar das circunstâncias. Por duas ou
três semanas, somente saia do esconderijo à noite, para fazer
necessidades no mato. O resto do tempo passava trancado, abrindo a porta
apenas para Luíza, filha mais velha do fazendeiro, trazer-lhe alguma
refeição ou um balde de água para o banho.
Pois não é que Letreiro
apaixonou-se pela moça! E ela, na primeira investida do apaixonado,
esquivou-se da melhor forma possível e correu para contar ao pai, já
avisando que, doravante, a tarefa de alimentar aquele “animal” deveria
ser transferida para outra pessoa de confiança.
Atordoado e muito
mais temendo o que poderia acontecer se Letreiro se sentisse rejeitado, o
fazendeiro reuniu a família e disse que todos iriam com ele para
Teixeira. Viagem de urgência verossímil. Dariam como desculpa a visita a
um parente próximo que estava morre-não-morre.
Como era ainda
meio da manhã, o patrão chamou um vaqueiro que lhe parecia ser o mais
valente da turma e lhe passou o serviço. Não sem antes dar ciência ao
rapaz de quem e do quê se tratava.
– É o seguinte… Quando for
pouco antes de meio dia, você pega o almoço dele com Joana, na cozinha, e
leva. Se ele perguntar por Luíza, diga que ela foi comigo pra cidade.
Agora, pega isso aqui, ó, e mistura no feijão, visse? E não fica
esperando ele comer, não. Deixa o prato e vai pra fora. Eu volto lá pras
três e resolvo o que fazer.
O vaqueiro tentou fazer tudo conforme
o combinado. Deu ruim porque começou a se preocupar quando bateu na
porta da garagem duas ou três vezes e ninguém respondeu. Luíza não batia
nem precisava bater, evidente. Letreiro estranhou, lógico. Tanto que
esperou pelo menos um minuto para perguntar “quem é?”.
Após ouvir
resposta e explicações, deu uma conferida por um buraco da madeira e
resolveu atender. Mas, assim que abriu, deu com alguém tremendo mais do
que vara verde, faltando pouco para derrubar o prato no chão. Sem se
alterar diante da situação, Letreiro perguntou se o rapaz estava
“sentindo alguma coisa”.
“Tô meio doente”, balbuciou o jovem.
“Deve ser fome”, diagnosticou Letreiro, prescrevendo no ato o remédio.
“Venha, entre, sente ali e coma”. Foi aí que o vaqueiro desabou. Ficou
de joelhos e, além de tremer, desatou a chorar e a pedir “pelo amor de
Deus” por sua vida. Pedido de clemência parcialmente atendido.
“Vamos
fazer o seguinte. Você come só um pouquinho, pra não dar na fraqueza”,
propôs Letreiro, que com uma mão puxou o rapaz por um braço, obrigando-o
a se levantar. Na outra mão, um 38 cano longo engatilhado. O refém foi
levado até um canto da garagem e forçado a engolir uma colherada.
Foi só um pouquinho mesmo, mas suficiente… A estricnina agiu rápido.
***
O
fazendeiro voltou sozinho à propriedade. No meio da tarde, como
prometera. Foi direto até a garagem, onde encontrou o corpo do vaqueiro.
Saiu de lá correndo, desesperado, na direção da casa grande, já
pensando em que cômodo se refugiaria. Antônio Letreiro o aguardava na
sala.
“Fique aperreado não, Doutor. Vou fazer nada com o senhor
não. Em consideração e estima por sua sua filha, fique sabendo. Não
quero ver a bichinha sofrer. E também porque lhe devo favor. Mas quero o
dinheiro que puder me arrumar e seu jipe pra ir embora daqui”, disse o
pistoleiro. Prontamente atendido.
***
Antônio
Letreiro foi morto no começo dos setenta. Na covardia. Tiro na nuca.
Disparado, segundo consta, por tenente PM que armou emboscada para
prender, prendeu e decidiu matar o preso antes de entregá-lo à Justiça.
Antes
que Letreiro fosse solto por algum deputado, prefeito ou coronel das
antigas com poder bastante para mandar em delegado e juiz no interior da
Paraíba.
Do Blog do Rubão
Fonte e créditos aqui
Nossa língua
“Um estrangeirismo de uso no Brasil, apenas parcialmente adaptado ao vernáculo, é a palavra gol. Alguns gramáticos e o dicionário Houaiss, equivocadamente, postularam a existência de um plural gois, apenas virtual e hipotético. Na verdade, gol é apenas a adaptação gráfica do inglês goal,
já que todas as palavras oxítonas terminadas em –ol, em português, têm a
vogal tônica aberta, como lençol, terçol, futebol, rol, etc; se gol
mantém a vogal fechada é porque não é palavra portuguesa, e o plural gols é legitimado.” [...]
(Problemas e Curiosidades da Língua Portuguesa, José Augusto Carvalho, Brasília: Thesaurus, 1. ed., 2014, p. 38.)
_______
Colaboração do amigo Adauto Neto
Mundo Pequeno
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
Manoel de Barros
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
Manoel de Barros
Frase
A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial.
William Shakespeare
Sem remédio
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Florbela Espanca
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Florbela Espanca
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