terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A sabedoria não vem automaticamente com a idade. Nada vem - exceto rugas. É verdade, alguns vinhos melhoram com o tempo, mas apenas se as uvas eram boas em primeiro lugar.

Frase

Alice: Chapeleiro, você me acha louca?
Chapeleiro: Louca, louquinha ! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são .

Um trecho inédito de Ariano Suassuna

Dois livros inéditos de Ariano Suassuna (1927-2014) chegaram às livrarias nesta semana: O jumento sedutor e O palhaço tetrafônico. Juntos, eles compõem o Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores. A publicação é da editora Nova Fronteira e o lançamento oficial ocorre no dia 9 de dezembro no Recife, na Livraria Cultura do RioMar Shopping.

O trecho abaixo é o início da primeira carta de O jumento sedutor.

Os dois livros são compostos, cada um, por quatro cartas que Antero Savedra publica em um suplemento pseudoliterário chamado Sibila, do jornal A voz de Igarassu. Ele dirige a correspondência “Aos nobres Cavaleiros e belas Damas da Pedra do Reino”, como se vê no trecho abaixo.

Segundo o poeta e professor Carlos Newton Júnior, que assina o prefácio, Ariano começou a escrever o Romance nos anos 1980. O projeto representa o desejo do escritor de fazer algo como uma condensação de sua produção como artista e pensador – criar uma obra que transcenda a literatura e siga pelas artes plásticas e pelo teatro.

O neologismo “Ilumiara”, que consta no texto, era usado por Ariano tanto para se referir aos anfiteatros rústicos que os primeiros habitantes do Brasil provavelmente usavam como locais de culto. Ele passou a usar o termo, também, para classificar vários conjuntos artísticos realizados em diversas épocas e lugares que, segundo Carlos Newton, pudessem ser vistos como manifestação da força criativa de um povo. Também usa essa palavra para designar como sua obra, em sua visão, era um marco do Brasil verdadeiro e representava um caminho mais justo e fraterno para ser trilhado socialmente; e mais belo e original do que o caminho da descaracterização surgido a partir da globalização.

A obra tem forte apelo visual e, na impossibilidade de reproduzi-lo aqui em virtude da formatação deste site, fizemos algumas opções para sinalizar a presença de elementos visuais. Os itálicos são, de fato, itálicos do texto. O que estiver em negrito marca a tipografia armorial no livro.

Todas as páginas de O jumento sedutor e de O palhaço tetrafônico têm imagens. Elas não serão reproduzidas aqui. Desta forma, este inédito proporciona uma leitura meramente textual (nesse caso, parcial) de uma obra complexa que engloba outras dimensões. Fica, portanto, como convite ao leitor/à leitora para uma imersão posterior no livro.

***

 Sibila
Moda, Turismo & Lazer
Igarassu, 8 de Março de 2014
23 de Abril de 2016


Proposição
Com cavalos, atores, dançarinos e música‐de‐câmera



Prólogo a'O Espelho dos Encobertos


Aos nobres Cavaleiros e belas Damas da Pedra do Reino.


Amigos:

Uma vez, quando eu era bem menino, um Escorpião picou meu calcanhar. Talvez por causa disso,“têm, para mim, Visões de um outro Mundo, as Noites luminosas, azuladas, quando a Lua aparece mais bonita”.

Mas é verdadeira, também, a face reversa da Medalha: “Têm, para mim, Visões de um outro Mundo, as Noites perigosas e queimadas, quando a Lua aparece mais vermelha.”

Num caso e noutro, tais Visões me surgem porque à noite, ao som de Violinos, Pianos, Violões, Flautas e Violoncelos, o Espelho grial e multifacetado que fulge em meu sangue reflete à luz da Lua a imagem de um velho Jaguar, talvez já meio cego mas ainda errante pela Caatinga devastada, não se sabe à espera de quê.

 


 

Sendo eu antes de mais nada um Ator e Encenador, em minha formação literária meus dois primeiros grandes Mestres foram Alexandre Dumas e Rafael Sabatini. Este escreveu, abrindo­‐me a
visão do Mundo como um Palco e da Vida como um Espetáculo:

Rafael Sabatini Savedra
“Procuro consolar‐me com a lembrança de Epiteto. Dizia ele que todos nós não passamos de atores no Palco da vida, e que representamos os papéis que o Diretor acha por bem confiar­‐nos.”


Dom Pantero
Um outro Mestre nosso, Gustavo Adolfo Bécquer, nem de longe se pode comparar aos dois primeiros. Mas também foi importante para mim, porque seus versos evocavam a figura de minha perdida, amada e jamais esquecida Liza Reis:


Gustavo Adolfo Shabino Bécquer
— “Eu sou ardente, sensual, morena, eu sou o símbolo da paixão. De ânsias de gozo minh’alma é plena. A mim me queres? — Não, a ti não!
— “De fronte pálida e tranças de ouro, posso ofertar‐te ditas sem fim. Eu de ternuras guardo um tesouro. A mim procuras? — Não, não a ti!
— “Eu sou um Sonho louco, impossível, vago fantasma de névoa e luz. Sou incorpórea, sou intangível. Não posso amar‐te. — Oh vem, vem tu!”


Antero Savedra
Pois bem: obsedado pelo Palco, vivo pela Estrada em busca de Deus, do Santo Graal e do “Sonho impossível” de Liza Reis; e este Castelo-de-Cartas-Espetaculosas foi composto nos moldes do Evangelho de São Lucas, dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo; com base nas minhas “Memórias”, nas “Saídas” ligadas às “Aulas‐Espetaculosas”, na “paixão” de Quaderna e nos anais do Simpósio Quaterna, instaurado em Taperoá, a 9 de Outubro de 2000. Por isso deve se apresentar como um Diálogo, no qual os interlocutores aparecem sob o comando de Dom Pantero do Espírito Santo. No conjunto, fundindo­‐se, nele, Encenação e Narrativa, forma uma espécie de Romance­‐de­‐Epopeia­‐Lírica, de Espetáculo­‐de-Circo ou de grande Peça­‐de­‐Teatro, na qual Dom Paribo Sallemas, Dom Pancrácio Cavalcanti e Dom Porfírio de Albuquerque integram comigo o grupo dos Narradores principais (pois Altino, Auro e Adriel, mais do que Narradores, são Personagens que, tendo já morrido, tiveram a encarná -los, no Circo‐Teatro Savedra, 3 dos melhores Atores que compareceram ao Simpósio).

Devo explicar a Vocês que nossas vidas foram marcadas por 4 acontecimentos terríveis. O primeiro surgiu quando, a 9 de Outubro de 1930, meu Pai foi assassinado com um tiro pelas costas. O segundo, quando meu irmão Mauro se matou com 3 punhaladas desferidas contra o peito, o que sucedeu no dia nefasto de 6 de Outubro de 1970. O terceiro e o quarto, quando Auro e Adriel foram também assassinados.

Ora, uma vez meu Tio, Mestre e Padrinho Antero Schabino afirmara que nós, Savedras, éramos “uma família trágica, como a dos Átridas”. Por isso A Ilumiara é uma espécie de Orestíada, narrada, não por Ésquilo, mas sim por aquele que, na trama, seria um outro Orestes ou um novo Hamlet (ambos filhos de Pai assassinado, de um Rei assassinado). Mas este “Hamlet” acertaria a vencer sua dor no Palco e na Estrada, por meio das Armas que Deus lhe concedeu — “o galope do Sonho”, do Rei, e “o Riso a cavalo”, do palhaço.


Dom Paribo Sallemas
E que todos sejam advertidos logo de início:


Albano Cervonegro
Quem, seguro de si, cego no Sol, entrar por este Pasto incendiado, verá o riso, o choro e o desatino de um grande Povo, pobre e iluminado, forjado ao sol­‐castanho da Favela e ao sangue do Arraial do Leopardo.

Do Blog do Bráulio Tavares
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

Mário Quintana

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Libertadores, ai vamos nós!



Frase

Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo.

Pitágoras

Chico Salles

As estrofes rimadas do Destino me fizeram estar em Sousa, no sertão da Paraíba, quando recebi a notícia da morte de Chico Salles.
Vi logo, nas redes sociais, que não fui o único a ser pego de surpresa. Chico, além de ser a animação em pessoa, e de fazer trinta coisas ao mesmo tempo, era mais novo do que eu. Mas essa chamada não é pelo número da senha. Ela cai do céu como raio em céu azul. E contra ela nada adianta – o único jeito de se conformar com isso é fazendo trinta coisas ao mesmo tempo.
Para os que não o conheceram: Chico Salles era paraibano de Sousa, radicado no Rio de Janeiro desde a juventude, e que atuou, com o mesmo brilho, como cordelista, sambista e forrozeiro. Três áreas que eu vivo bordejando por curiosidade, e foi o amor pelo cordel, pelo samba e pelo forró que nos aproximou e nos uniu.
Este é um ponto interessante. São três “países” tão próximos e de idioma tão parecido que era de se esperar que houvesse um tráfego maior, um comércio maior entre eles, e até um número maior de pessoas com dupla ou tripla cidadania. Mas eu conheço poucos cordelistas profissionais que tenham composto e gravado forró profissionalmente; samba, então, nem se fala.
Por que? Não sei. São três estéticas diferentes, mas não tão complexas ou tão especializadas quanto alguém pode imaginar vendo de longe. O que se requer de um indivíduo para uma delas pode ajudar em muito a praticar as outras.
A junção entre o samba e o forró tem várias pontes sólidas armadas por gente como Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva e tantos outros. Os versos de cordel, em suas modalidades básicas de sextilha e septilha, se encaixam sem esforço em ambos os ritmos. Mesmo considerando que tanto “samba” quanto “forró” incluem um milhão de variantes rítmicas e estruturais cada um; mas as estrofes e as linhas do cordel são básicas, intuitivas, maleáveis, e correspondem, a esta altura, a uma cadência assimilada pela fala coloquial brasileira. Podem ser usadas sem esforço nas letras dessas canções, sem que pareçam um enxerto artificial.
Chico Salles vivia me catequizando para entrar na Academia de Literatura de Cordel, da qual era membro, e eu, apesar de simpatizar com a instituição em si, e de ter lá muitos amigos, sempre refuguei. Por que? Não sei. Acho que não gosto muito da pompa e formalidade em que as academias se deleitam, aquele negócio de “peço a palavra”, “nobre colega”, “procedamos à leitura da ata”, “vamos compor a mesa”. Mesa que eu gosto é mesa de bar.
Como por exemplo a do Botero, no Mercado das Artes de Laranjeiras, onde Chico pontificava e onde provavelmente nos vimos pela última vez meses atrás,  quando Vladimir Carvalho veio mostrar no Rio seu documentário sobre Cícero Dias. Ali a conversa fluía da Paraíba para o cinema, do Rio para o cordel, para as artes plásticas, para o mundo.
Foi em torno do samba que me envolvi pela primeira vez com um trabalho de Chico, a coletânea Sérgio Samba Sampaio, que ele concebeu, gravou, e lançou em 2013.  Nossa geração foi muito marcada pela música do poeta de “Eu vou botar meu bloco na rua”, uma obra sempre surpreendente, uma espécie de pós-Tropicalismo injetado de Zona Norte (como a de Jards Macalé) e de cultura pop (como a de Jorge Mautner).

Chico fez uma seleção brilhante dos sambas de Sampaio, um material que ouvi pela primeira vez no carro dele, voltando de uma gravação na Tijuca, rumo ao Lamas, na companhia imprescindível de Edmar Oliveira.
Depois veio o CD de Chico sobre Rosil Cavalcanti em seu centenário, Rosil do Brasil (2015), um álbum à altura do homenageado. Foi em outra homenagem que pela única vez dividimos o palco, numa palestra-espetáculo na Biblioteca de Botafogo, no Rio, quando foi comemorado o centenário de Luiz Gonzaga, em 2013. Chico levou um trio nordestino, que tinha inclusive Durval na zabumba, e encerramos o debate botando todo mundo pra cantar xote e baião, num coro que incluiu até Beto Quirino.



Pois é, Chico – nossa academia acabou sendo mesmo, sem desdouro para as demais, o circuito que passa pelo Manolo, pelo Botero, pelo Lamas ou sei lá o que mais. Cordel, forró e samba aproximam quem gosta de verso, de música, da mesa comunal onde todos são iguais na convivência e únicos no talento.  Parabéns pela beleza da obra, que é o que fica de nós. Obrigado pela alegria dos momentos, que é o que fica de tudo.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

Vazios que só Deus preenche

Cento e vinte e dois pares de sapatos e ela não encontrava um que servisse para aquela festa. Vinte ternos e ele estava achando todos um lixo. Geladeira cheia e o menino batia a porta por não encontrar uma coisa gostosa. Calmante forte, com tarja preta e receita, mas eles não conseguiam dormir. Casa de luxo na praia, mas estava fechada há meses. Muitos aparelhos modernos e muita, muita insatisfação.

Estamos nos armando de tudo o que é tipo de tranqueira material para suprir o vazio que nada preenche. Vamos ao supermercado esperando encontrar felicidade nas prateleiras, mas voltamos frustrados, com o carro cheio e a alma vazia. E alma vazia somente Deus tem o poder de preencher! 

Prof. Menegatti

domingo, 3 de dezembro de 2017

A morte de "Antônio Letreiro"

Antônio Letreiro

Promotor investigou e garante: pistoleiro foi executado como “queima de arquivo.

O promotor de Justiça e professor universitário José Farias de Souza Filho teve o seu pai assassinado em 1966 no interior da Bahia por Antônio Letreiro e três comparsas. A partir de então, passou a acompanhar a história do pistoleiro, cuja morte investigou por quatro anos.

“Para ter a certeza de sua morte”, explica Farias em comentário (reproduzido adiante) sobre ‘Letreiro’, artigo aqui publicado no último domingo (26) que motivou dezenas de outros escritos em redes sociais e na própria seção do blog reservada à opinião e à interação com leitores.

José Farias de Souza Filho é Doutor em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (2014), instituição na qual também concluiu Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente em 2010, fez Especialização em Direito em 1983 e graduou-se em 1982.

Membro do Ministério Público do Estado da Paraíba, Farias é titular da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Social na Comarca de João Pessoa desde março de 1999. É ainda professor do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê).

O que escreveu Farias sobre Letreiro

Conheço e acompanho a história de Edmar Nunes Leitão – o Antonio Letreiro – desde fevereiro de 1966, quando ele, um irmão e dois primos, todos pistoleiros, assassinaram meu pai no lugar chamado Ferradura, município de Tucano, Bahia.

Antonio Letreiro foi o último dos quatro pistoleiros a morrer, assassinado por um Sargento e um Soldado da PM (já falecidos) no município de Icó (CE), em dezembro de 1976, por encomenda de Coiteiro (político e militar reformado), como queima de arquivo.

Os dois militares foram apresentados ao pistoleiro como “pistoleiros homiziados” na Fazenda. Antonio Letreiro, que tinha contratado e executado mais um assassinato, pelo qual recebeu uma caminhoneta como parte do pagamento, pediu ao coiteiro para mandar os “dois pistoleiros homiziados” com ele no recebimento do restante do pagamento.

Após o recebimento, dentro da cabine da caminhoneta, um dos PMs atirou na nuca de Antonio Letreiro e, junto com o outro militar, o deixaram na BR, após passar o veículo por cima do morto e colocarem uma “placa” de papel no peito do pistoleiro com os dizeres: “Eu era Antônio Letreiro”.

Antonio Letreiro havia sido preso em 1974 e respondia a vários processos na PB, em PE, no CE e no RN, onde já havia condenação. Recolhido à Penitenciária de Natal, fugiu em dezembro de 1975, indo se esconder na Fazenda do Coiteiro em Teixeira.

Passei quatro anos investigando a morte de Antonio Letreiro, para ter certeza de sua morte. Com a ajuda de Coronéis reformados, cheguei aos dois militares que o mataram e ao mandante e todos eles confirmaram a “queima de arquivo”.

Um dos processos de Antonio Letreiro era a tentativa de homicídio sofrida pelo Coronel Reformado Luiz de Barros, que acusava seu adversário político de mandante.

O pistoleiro ganhou o apelido ainda adolescente, em razão de “desenhar” as iniciais de seu nome “E.N.L.” à bala, disparando com as duas mãos. Uma das primeiras mortes por encomenda foi em Pombal, no início da década de 1970, tendo um médico como vítima.

São fatos.

Do Blog de Rubens Nóbrega

Letreiro

Apesar do nome sugestivo, o ofício de Antônio Letreiro nada tinha a ver com letras em placas ou fachadas. Muito menos com literatura. De todo modo, se a lenda faz justiça ao mito, seguramente foi o responsável pelo que escreveram em dezenas, talvez centenas de lápides e atestados de óbito.

A fama dele e a curiosidade em saber mais sobre sua vida e obra me acompanham desde o tempo de menino pequeno em Bananeiras, onde as proezas de Antônio Letreiro eram narradas com admiração e temor reverencial por alguns dos homens brabos do lugar.

De carona em verso bonito de Belchior, confesso que dessas histórias não ficou muita coisa guardada nas prateleiras da memória. Daí… A que vou contar adiante tem um pouco de floreio sobre narrativa que há dois dias me fez o Professor Vicente, meu pai.

Remete a período em que Antônio Letreiro ficou homiziado na fazenda de coiteiro lá pras bandas da Serra do Teixeira. Esconderam o homem na garagem do trator que arava a terra e engatava carroça de carregar gente, gado, feira e ferramentas. Servia também para puxar carro atolado nos baixios da estrada de Matureia.

Letreiro foi muito bem tratado na fazenda, apesar das circunstâncias. Por duas ou três semanas, somente saia do esconderijo à noite, para fazer necessidades no mato. O resto do tempo passava trancado, abrindo a porta apenas para Luíza, filha mais velha do fazendeiro, trazer-lhe alguma refeição ou um balde de água para o banho.

Pois não é que Letreiro apaixonou-se pela moça! E ela, na primeira investida do apaixonado, esquivou-se da melhor forma possível e correu para contar ao pai, já avisando que, doravante, a tarefa de alimentar aquele “animal” deveria ser transferida para outra pessoa de confiança.

Atordoado e muito mais temendo o que poderia acontecer se Letreiro se sentisse rejeitado, o fazendeiro reuniu a família e disse que todos iriam com ele para Teixeira. Viagem de urgência verossímil. Dariam como desculpa a visita a um parente próximo que estava morre-não-morre.

Como era ainda meio da manhã, o patrão chamou um vaqueiro que lhe parecia ser o mais valente da turma e lhe passou o serviço. Não sem antes dar ciência ao rapaz de quem e do quê se tratava.

– É o seguinte… Quando for pouco antes de meio dia, você pega o almoço dele com Joana, na cozinha, e leva. Se ele perguntar por Luíza, diga que ela foi comigo pra cidade. Agora, pega isso aqui, ó, e mistura no feijão, visse? E não fica esperando ele comer, não. Deixa o prato e vai pra fora. Eu volto lá pras três e resolvo o que fazer.

O vaqueiro tentou fazer tudo conforme o combinado. Deu ruim porque começou a se preocupar quando bateu na porta da garagem duas ou três vezes e ninguém respondeu. Luíza não batia nem precisava bater, evidente. Letreiro estranhou, lógico. Tanto que esperou pelo menos um minuto para perguntar “quem é?”.

Após ouvir resposta e explicações, deu uma conferida por um buraco da madeira e resolveu atender. Mas, assim que abriu, deu com alguém tremendo mais do que vara verde, faltando pouco para derrubar o prato no chão. Sem se alterar diante da situação, Letreiro perguntou se o rapaz estava “sentindo alguma coisa”.

“Tô meio doente”, balbuciou o jovem. “Deve ser fome”, diagnosticou Letreiro, prescrevendo no ato o remédio. “Venha, entre, sente ali e coma”. Foi aí que o vaqueiro desabou. Ficou de joelhos e, além de tremer, desatou a chorar e a pedir “pelo amor de Deus” por sua vida. Pedido de clemência parcialmente atendido.

“Vamos fazer o seguinte. Você come só um pouquinho, pra não dar na fraqueza”, propôs Letreiro, que com uma mão puxou o rapaz por um braço, obrigando-o a se levantar. Na outra mão, um 38 cano longo engatilhado. O refém foi levado até um canto da garagem e forçado a engolir uma colherada.
Foi só um pouquinho mesmo, mas suficiente… A estricnina agiu rápido.

***
O fazendeiro voltou sozinho à propriedade. No meio da tarde, como prometera. Foi direto até a garagem, onde encontrou o corpo do vaqueiro. Saiu de lá correndo, desesperado, na direção da casa grande, já pensando em que cômodo se refugiaria. Antônio Letreiro o aguardava na sala.

“Fique aperreado não, Doutor. Vou fazer nada com o senhor não. Em consideração e estima por sua sua filha, fique sabendo. Não quero ver a bichinha sofrer. E também porque lhe devo favor. Mas quero o dinheiro que puder me arrumar e seu jipe pra ir embora daqui”, disse o pistoleiro. Prontamente atendido.

***
Antônio Letreiro foi morto no começo dos setenta. Na covardia. Tiro na nuca. Disparado, segundo consta, por tenente PM que armou emboscada para prender, prendeu e decidiu matar o preso antes de entregá-lo à Justiça.

Antes que Letreiro fosse solto por algum deputado, prefeito ou coronel das antigas com poder bastante para mandar em delegado e juiz no interior da Paraíba.

Do Blog do Rubão
Fonte e créditos aqui

Nossa língua

“Um estrangeirismo de uso no Brasil, apenas parcialmente adaptado ao vernáculo, é a palavra gol. Alguns gramáticos e o dicionário Houaiss, equivocadamente, postularam a existência de um plural gois, apenas virtual e hipotético. Na verdade, gol é apenas a adaptação gráfica do inglês goal, já que todas as palavras oxítonas terminadas em –ol, em português, têm a vogal tônica aberta, como lençol, terçol, futebol, rol, etc; se gol mantém a vogal fechada é porque não é palavra portuguesa, e o plural gols é legitimado.” [...]

(Problemas e Curiosidades da Língua Portuguesa, José Augusto Carvalho, Brasília: Thesaurus, 1. ed., 2014, p. 38.)
_______
Colaboração do amigo Adauto Neto 


Águia da Noite


Um abraço ao amigo Adauto Neto, leitor voraz das grande aventuras de Tex

O prefeito municipal, Paulo Pereira, gestão de 1977 a 1982, construiu a Estação Rodoviária, denominada de Hermínio Monteiro Neto. Abaixo, a viação Patoense, que reinou por muitos anos como principal meio de transporte entre as cidades do sertão e a capital. 

Verneck Abrantes

Mundo Pequeno

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.


Manoel de Barros 

Frase

A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial.

William Shakespeare

Ave, César!

Prata da casa do Flamengo

Arquitetura


Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!  


Florbela Espanca