terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Existiu um lugar ainda pior do que os gulags e Auschwitz: a Ilha de Nazino


Prisioneiros num gulag: tecnicamente, Nazino não fazia parte do sistema oficial.

Hoje em dia – ou pelo menos até a pandemia parar o mundo – barcos cheios de passageiros cruzam corriqueiramente um trecho do rio Ob, no meio da Sibéria, sem que a maioria dos seus passageiros se deem conta de por onde estão passando. Talvez uns poucos tenham ouvido seus pais e avôs comentarem o que aconteceu ali. Mas, se nem eles se lembram, imagine o resto do mundo.

Já no fim da década de 20 o regime soviético tinha começado a se revoltar contra inimigos, imaginários ou não, inaugurando com os kulaks a mania de mandar todo mundo de que não gostassem para a Sibéria. Mas com as dissidências internas do regime e a própria insânia inerente ao socialismo, a paranoia se instalou no regime e pessoas consideradas “desclassificadas e socialmente prejudiciais”, como comerciantes, camponeses que fugiam da fome, “ladrões de galinha”, ou qualquer um que simplesmente não se encaixasse no esquema de classes idealizado pelo Partidão ou tivesse deixado seu passaporte em casa, começaram a ser presas em Moscou e Leningrado, classificados como “parasitas da sociedade” e deportados para algum “campo de trabalho”.

Para o idealizador do plano, Genrikh Yagoda, chefe da política secreta da época e alguém que poderia apresentar um programa policial na TV soviética da época, tudo isso serviria para “purificar” as cidades”. Mendigos e criminosos seriam mandados para colonizar e subjugar a Sibéria, enquanto a população local tinha que se virar com a falta de remédios, empregos, moradia e viver à base de tubérculos e caça. Em 1931, um primeiro experimento foi feito pelo governo soviético: 800 pessoas consideradas “socialmente perigosas” foram despachadas para um lugar às margens do Ob, onde, sem comida e emprego, acabaram se revoltando e aterrorizaram a população local até serem exterminadas pelos nativos.

O responsável pelo transporte dos “prisioneiros”, conhecido apenas como Comandante Tsepkov, depois de receber um telegrama de seus superiores ordenando acomodar “pelo menos 25.000 elementos” na região no início de maio, respondeu dizendo que conhecia os nativos da taiga e sabia que eles “eram excelentes caçadores”. Tsepkov esperava, no entanto, receber fazendeiros, gente especializada com a vida agrária. Quando foi informado pelos seus superiores que receberia milhares de “criminosos e desclassificados”, pouco pôde fazer.

Quatro barcas carregadas com cerca de 5000 “dissidentes”, presos pelos mais variados e irrelevantes motivos, foram levados rumo ao Oceano Ártico em balsas usadas para carregar madeira. Depois de quatro dias de viagem e 900 quilômetros Sibéria adentro, em 18 de maio de 1933 os chamados “desclassificados” desembarcaram na ilha de Nazino. Uma ilha entre aspas. Um pedaço de lama e terra, em plena taiga siberiana. Um terreno pantanoso e infértil, cujas redondezas eram habitadas por tribos nativas hostis.

Canibalismo

Os registros de embarque estavam tão ilegíveis que era quase impossível conferir a presença dos passageiros. Mas, ao que se conta, 332 mulheres e 4556 homens conseguiram desembarcar, e 27 não resistiram à viagem. Os que sobreviveram desembarcaram com as parcas forças que tinham, sem qualquer roupa ou bagagem, e se depararam não só com a paisagem desolada da ilha, mas também com a falta de qualquer estrutura. Ao ver os prisioneiros, a frase de Tsepkov ficou para a história: “eles que pastem”. Muitos tentaram fugir, construindo jangadas improvisadas com o que encontravam pela frente, mas morreram depois de naufragar nas águas geladas ou fuzilados pelos guardas que o governo soviético tinha diligentemente designado para cuidar de dissidentes tão perigosos.

A única comida distribuída aos prisioneiros era uma pilha de farinha podre. À medida que o frio e a neve aumentaram, o Comandante Tsepkov tentou organizar duas equipes para construir fornos para assarem pães. Quando questionado por Moscou, ele foi obrigado a responder que “os indivíduos desclassificados que alegavam conhecer todo tipo de trabalho, quando foram forçados a trabalhar, não sabiam fazer nada, e especialmente como construir fornos!”

Depois dois dias, todo tipo de doença contagiosa já tinha se espalhado pela ilha. A sociedade local rapidamente se transformou numa espécie de “vale-tudo”, com grupos oriundos das cidades formando máfias para extorquir a população e, com o tempo, todos os outros habitantes das redondezas. Com o tempo, até o canibalismo foi “institucionalizado” e corpos passaram a ser encontrados mutilados, sem órgãos, pessoas foram pegas com restos de fígados ou órgãos alheios.

Os soldados e policiais responsáveis por “cuidar” do lugar acabaram se rendendo ao absurdo da situação, alguns extorquindo os habitantes para manter a coisa em segredo, mas muitos apelando aos superiores para narrar o desespero e detalhar a que ponto os locais tinham chegado. Tropas foram enviadas para a ilha, mas, em vez de trazer provisões ou transferir quem estava lá, a intenção dos militares era apenas reprimir os condenados, dizendo que o “sistema soviético tinha fracassado com eles”.

Enquanto isso tudo acontecia, Tsepkov, seus superiores e auxiliares se recusavam a informar os chefões. Talvez por medo de serem eles mesmos canibalizados por sua ideologia. A dificuldade de se encontrar guardas dispostos a patrulhar o lugar era tamanha que foi necessário o uso de informantes entre a população de aldeias locais. Uma pessoa a cada doze famílias era incumbida de delatar casos de fuga e qualquer distúrbio da ordem pública, já que não eram poucos os casos de moradores da ilha que assaltavam as populações vizinhas e tentavam matar seus animais e roubar seus barcos para fugir.

Enquanto os documentos da época mostravam uma obsessão em implementar um sistema utópico de colônias administradas sob um sistema quase militar, o que se via na realidade era praticamente uma terra de ninguém. Um emissário do Departamento de Assentamentos Especiais enviado para inspecionar as condições do lugar ouviu de um dos locais: “Vocês estão fazendo as pessoas passarem fome. Bem, estamos comendo uns aos outros!” O sujeito obviamente foi preso por “propaganda contrarrevolucionária”, por “espalhar alegações envolvendo canibalismo e uma suposta fome causada pelo Estado soviético”. Para as autoridades, os rumores estavam sendo difundidos por dissidentes infiltrados em Nazino para contatar os “elementos desclassificados” que tinham sido enviados para lá, “numa clara demonstração de manipulação política conduzida por elementos externos”.

A chegada de uma nova remessa de "dejetos humanos" à ilha agravou de tal maneira a situação em Nazino que, depois de alguns meses, autoridades do Partido Comunista ordenaram a transferência da população para locais vizinhos, obrigando a população destes locais a fornecer pão, roupas e construir acomodações para os “elementos desclassificados”. O Comandante Tsepkov caiu em desgraça, acusado de “incompetência” e de “violar as resoluções do Partido com respeito à recepção dada aos assentados especiais”.

Nas semanas seguintes, a ilha começou a ser gradualmente esvaziada. Durante o processo de transporte dos prisioneiros, muitos estavam num estado de tamanha fragilidade que não resistiram à viagem. Outros tantos simplesmente “desapareceram” após desembarcarem. 157 estavam tão fracos que foram obrigados a continuar lá. A situação nos novos assentamentos, no entanto, não era muito diferente da que eles viviam na ilha de Nazino. Muitos que tentavam fugir eram simplesmente abatidos a tiro pelos guardas.

Enquanto isso, um comitê de inspeção enviado pelo governo para ilha determinou que o número de mortos em Nazino tinha sido “escancaradamente exagerado por motivos políticos”. O episódio foi mantido em segredo por décadas, até que, durante a glasnost, na década de 1980, um grupo ativista de direitos humanos chamado Memorial trouxe o assunto à tona, entrevistando sobreviventes e membros da população local. O relato de um desses últimos foi simplesmente estarrecedor: “Eles estavam tentando fugir [da ilha]. Perguntaram para nós: “Onde está a ferrovia? Nunca tínhamos visto uma ferrovia. Perguntaram: “Para que direção é Moscou? Leningrado? Estavam perguntando para as pessoas erradas. Nunca tínhamos sequer ouvido falar desses lugares. Somos ostiaques. As pessoas estavam fugindo, famintas. Tinham lhes dado um punhado de farinha, que eles misturaram com água para comer e imediatamente tiveram diarreia. As coisas que vimos! Pessoas morrendo por toda a parte, matando uns aos outros... na ilha havia um guarda chamado Kostia Venikov, um rapaz jovem. Ele se apaixonou por uma garota enviada para lá e estava tentando conquistá-la, procurava protegê-la. Um dia ele teve que se ausentar e pediu a um de seus colegas que “cuidasse dela”, mas não havia nada que aquele sujeito pudesse fazer diante daquela quantidade de pessoas... Agarraram-na e a amarraram numa árvore, cortaram seus seios, seus músculos, tudo que puderam comer, tudo, tudo... estavam famintos, precisavam comer. Quando Kostia voltou, ela ainda estava viva. Tentou salvá-la, mas já era tarde. Ela tinha perdido muito sangue”.

O fracasso de Nazino pôs um fim ao sistema de “colonização” dos territórios de fronteira planejado pelo regime soviético usando elementos tidos como perigosos e “desclassificados”. Muitos membros do Partido ficaram chocado ao descobrir que amigos e colegas deles tinham sido enviados para lá, além de pessoas que não tinham cometido absolutamente nada de condenável.

Mas Stalin e seus capangas ainda continuariam mandando por mais algumas décadas todos aqueles que julgavam indesejáveis para os gulags, onde, segundo algumas estimativas, cerca de três milhões de pessoas morreram.
 
Por Rafael Azevedo, especial para a Gazeta do Povo

Nenhum comentário: