Mistério é palavra bruta vincada na face. Talvez um moinho de vento sentado num banco à beira-mar.
sábado, 25 de novembro de 2017
O mundo é um moinho
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
Cartola
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
Cartola
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
( Cecília Meireles )
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
( Cecília Meireles )
“A Manoel de Barros, o ensinador de ignorâncias”
Estou sem texto, enriquecido de nada. Aqui, na margem da floresta, me
desbicho sem vontades para humanidades. Entendo só de raízes, vésperas
de flôr. Me comungo de térmites, socorrido pela construção do chão. No
último suspiro do poente é que podem existir todos sóis. Essa é minha
hora: me ilimito a morcego. Já não me pesam cidades, o telhado deixa de
estar suspenso ao inverso em minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz,
vermelhos desocupados pelo dia. Nesse entardecer de tudo vou
empobrecendo de palavras. Não tenho afilhamento com o papel, estou
pronto para ascender a humidade, simples desenho de ausência. Na tenda
onde me resguardo me chegam, soltas e díspares, desvisões, pensatempos,
proesias. Assim, em miudádivas a Manoel de Barros, meu ensinador de
ignorâncias:
Mia Couto
A primavera cabe dentro do grilo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências,
ganhando a forma do nada.
Enquanto o ramo
vai transitando para camaleão
a aranha confunde madrugada com sotão.
Na mafurreira,
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris.
Minha tenda se engrandece em teia.
Uma mosca se inadverte na armadilha.
Igual o amor
que me rouba artes de viver.
Formigas transportam
infinitamente a terra.
Estarão mudando
eternamente de planeta?
Estarão engolindo o mundo?
Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vê.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
O ovo repete o estreante início,
a redundante gravidez do mundo.
Por isso, este surpreendido ovo
não tem competência para meu jantar.
Pena o estomago não entender poesias.
Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
Defeitos na tela do firmamento ?
Instantâneas aves,
andorinheiras, pedras que se despoentam.
A noite acende o escuro.
Tudo semelha tudo.
Só a coruja atrapalha a eternidade.
Está chovendo horas,
a água está a ganhar-me semelhanças.
Escuto ventos, derrames de céu.
Parecem-me luas e são lábios.
A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Saudade: sou mais tu que tu.
Escuto, depois, a enchente.
Longe, a água desobedece a paisagens.
O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Sigo de catarata, luz encharcada.
E peço desculpa à margem:
desconhecia as unhas de minha transbordância.
Meu sonho está cego para razões.
Sei só escrever palavras que não há.
O sono me encaracola:
estou a ser pensado por pedras,
me habilito a chão, o desfuturo.
Mia Couto
Texto escrito em fevereiro de 1997.
Mantida a grafia original
Versículos do dia
Na multidão de palavras não falta pecado, mas o que modera os seus lábios é sábio. Provérbios 10:19
Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna. Mateus 5:37
Ives Gandra: ‘Não
sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem
guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos
dias atuais?’
O jurista questiona a “discriminação” sofrida pelos cidadãos que não
fazem parte das minorias favorecidas com inúmeros benefícios nos últimos
anos
José Fucs - Estadão
O jurista Ives Gandra da Silva Martins, professor emérito da
Universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército
(Eceme) e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do
Comércio do Estado de São Paulo, traduziu com rara felicidade a tirania do politicamente correto que vivemos no Brasil.
O artigo, publicado no blog do jornal cearense O Povo, questiona a
“discriminação” sofrida pelos cidadãos que não fazem parte das minorias
favorecidas com inúmeros benefícios nos últimos anos. Embora publicado em 2013, o artigo continua atual e por isso decidi reproduzi-lo no blog.
“Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco,
sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade”, afirma.
Leia a seguir o artigo de Ives Gandra da Silva Martins.
Meu Nome é: Ives Gandra da Silva Martins* Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco”
é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais
constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros
cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra,
homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a
possíveis preconceitos.
Assim é que, se
um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um
vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas
Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de
imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna). Os
índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às
terras que eles ocupassem em 05 de outubro de 1988, por lei
infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no
passado, e ponham passado nisso. Assim, menos de 450 mil índios
brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios,
uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a
ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os
outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados. Aos ‘quilombolas’,
que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de
quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno
daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de
território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite
(art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra
nesse conceito. Os homossexuais obtiveram do
Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um
Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as
suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do
Governo! Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam,
diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num
reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que
legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o
direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum,
desempregado, que não tem esse ‘privilégio’, simplesmente porque esse
cumpre a lei.. Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos
que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus
descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes
brasileiros. Está, hoje, em torno de R$ 4 bilhões de reais o que é
retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ aqueles que
resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram
perseguidos. E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema? Como
modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco,
sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em
terra de castas e privilégios, deste governo.
A ignorância e a burrice
"As constelações servem para esclarecer a noite". Bela
frase, não? A mim, soa como Guimarães Rosa, o uso ambíguo do verbo esclarecer
sugerindo algo de arcaico e místico. Um astrólogo certamente enxergaria nela
vestígios simbólicos, as constelações servindo para aclarar a obscuridade de
nossos destinos. Um marinheiro, por outro lado, veria na frase a expressão de
uma verdade empírica: à noite, navegamos orientados pelas estrelas —
conhecimento indispensável quando nos faltam instrumentos. Eu fico com a
ressonância lírica — me basta.
Juro: se pudesse, roubava a frase para dizê-la como um
comentário displicente depois de observar longamente o céu salpicado de
estrelas numa noite de lua nova, lá no alto da serra. Sim, depois de um longo
silêncio eu sussurraria ao teu ouvido num tom grave e sorrateiro: "As
constelações servem para esclarecer a noite", e certamente mais duas
estrelas se acenderiam no teu rosto, cheias de admiração pela sabedoria que eu
teria se a frase fosse minha...
E nem seria difícil me apropriar da frase, visto que ela talvez
hoje envergonhe seu autor anônimo, depois de ter sido enjeitada pelos bedéis do
senso comum que julgaram as redações da galera que prestou vestibular para UFRJ
este ano. Eles não só não gostaram da frase como a incluíram em uma mensagem
eletrônica que fizeram circular pela Internet (eu só recebi agora) reunindo o
que consideraram ironicamente como "pérolas": frases que continham
erros mais ou menos crassos — fosse de informação, sintaxe ou grafia.
Há outras frases igualmente geniais. Por exemplo: "O Brasil
é um país abastardo com um futuro promissório". Engraçadíssima síntese
histórica, sociológica e econômica! E se há erro no uso do
"abastardo", salva-se o "promissório" — que, basta consultar
o Aurélio, serve de sinônimo de "promissor", sim — além de criar uma
ambigüidade semântica digna dos melhores humoristas.
Outra na mesma linha: "É preciso melhorar as indiferenças
sociais e promover o saneamento de muitas pessoas". Esta é irretocável!
Nossa indiferença social é mais do que visível, é chocante, e certamente o
saneamento de algumas pessoas poderia ser a solução — isto é, se crermos que
certas pessoas são mesmo saneáveis... Um jovem sustentar essa esperança me
enche de genuína alegria.
Outras duas me surpreenderam positivamente por seu evidente
surrealismo: "A Geografia Humana estuda o homem em que vivemos". Ora,
não sei se existe mesmo uma geografia humana, mas certamente não faltariam
acadêmicos que defenderiam a idéia de que o homem é um produto da cultura e
que, portanto, o homem antecede o homem — isto é, vivemos "em" um
homem que nos é dado ou imposto sob a forma de uma língua, costumes,
preconceitos e gostos que seria mesmo importante estudar, até para podermos saneá-lo.
A segunda diz assim: "A História se divide em 4: Antiga,
Média, Moderna e Momentânea (esta, a dos nossos dias)". O.K., era pra se
dizer "contemporânea", mas na velocidade em que anda a história o
rapaz ou a moça foi talvez premonitório — ou deveria eu dizer promontório?
Finalmente, três frases que foram rejeitadas certamente apenas
por seu tom coloquial, pois a verdade delas é tão cristalina que dispensa
qualquer defesa: "Com a morte de Jesus Cristo os apóstolos continuaram a
sua carreira." (E com enorme sucesso, ressalte-se). "Os pagãos não
gostavam quando Deus pregava sua doutrina e tinham a ideia de eliminá-lo."
(Está certo, faltou o u de doutrina, mas a ênclise chiquérrima compensa-a com
sobras). "Entre os povos orientais os casamentos eram feitos "no
escuro" e os noivos só se conheciam na hora h."
Pois é, eis aí exposta a diferença entre a ignorância e a
burrice. Ignorância é falta de conhecimento. Burrice é preconceito travestido
de conhecimento. O ignorante pode ou não ter consciência do que não sabe. O burro
tem certeza de que sabe o que, na verdade, não sabe. O burro, enfim, privilegia
o mediano, o medíocre, o conhecido e reiterado. Está condenado a repetir, cego
para a "milionária contribuição de todos os erros" de que falava
Mário de Andrade — ou seria Oswald?
Bom, ficam desde já convidados os autores das frases citadas a
comparecer a este jornal para receber a Comenda Mário de Andrade (ou será
Oswald?) em reconhecimento a sua modesta, mas decisiva, contribuição ao nosso
milionário acervo de erros. Pois, vítimas de um ensino dominado pelos burros,
conseguiram dar um brilho de genialidade à própria ignorância. Parabéns e
obrigado — minhas melhores esperanças repousam sobre vós.
Antônio H. Caetano
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Não tem olhos solares, meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando,
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando,
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.
Pode ser que um dia não mais existamos.
Mas, se ainda sobrar amizade,
nasceremos de novo um para o outro.
Mas, se ainda sobrar amizade,
nasceremos de novo um para o outro.
Waack é vítima da fome insaciável das redes que exige sacrifício de figuras
Falando em público, Luís Roberto Barroso qualificou
Joaquim Barbosa como
"um negro de primeira linha". Desculpou-se, depois, pela óbvia
conotação preconceituosa do diagnóstico —e, felizmente, segue no mundo dos
vivos.
William Waack proferiu, em comentário privado, o
mais antigo dos abomináveis gracejos racistas. A frase veio a público e
ele desculpou-se —mas
corre o risco de ser arremessado ao mundo dos mortos.
O minotauro da lenda alimentava-se de jovens
virgens. A fome insaciável das Redes Sociais, minotauro pós-moderno, exige o
sacrifício ritual de figuras públicas.
Um clamor de indignação legítima nasce da janela
que se abriu para um abismo interior de Waack. O jornalista admirado expeliu
lixo. Somos todos, de alguma forma, lixeiras de séculos de violência, exclusão
e preconceito. As pessoas decentes estão indignadas pois enxergaram, em lugar
inesperado, um sedimento profundo da história humana: o metal pesado, contaminante,
do nosso desamor. Mas, se decentes realmente são, os indignados devem resistir
à sedução do linchamento, outro metal pesado da tabela periódica da nossa
barbárie.
O detentor do vídeo incriminatório guardou-o
durante um ano inteiro, como quem protege um tesouro, antes de propiciar sua
divulgação, um gesto derivado do cálculo, não da exasperação. As valiosas
imagens e sons podem ter servido à chantagem ou ao comércio, antes de se
prestarem à "cruzada da virtude" que está em curso.
No labirinto das Redes Sociais, o clamor de
indignação legítima dissolve-se numa onda avassaladora de condenação terminal
fabricada pela "guerrilha da informação". Waack precisa perecer pelo
que diz e escreve em público: por suas opiniões políticas moderadas e suas
matizadas interpretações históricas.
Troca-se a difícil tarefa de confrontar
intelectualmente o "inimigo" por uma alternativa tão fácil quanto
eficiente: suprimi-lo manipulando oportunisticamente o consenso civilizado de
repúdio ao preconceito racial. Os hipócritas investem na decência dos decentes,
em busca de uma finalidade indecente.
O gracejo idiota de Waack deu-se na hora do triunfo
eleitoral de Trump, um fanfarrão sem escrúpulos, grosseiro, malcriado e
preconceituoso. A figura que crismou os imigrantes mexicanos como estupradores
substituía Obama, um líder íntegro, sofisticado, capaz de oferecer lições
inesquecíveis de empatia humana.
"Coisa de preto", "coisa de
branco"? A cor da pele nada tem a ver com isso, como Waack sabe
perfeitamente. A frase emitida na esfera privada pode ser horrível (e é!), mas
não equivale a uma sentença proferida na arena pública. Não se tem notícia de
uma manifestação política racista ou um gesto de injúria racial do jornalista.
Imolá-lo em cena aberta não nos limpa ou purifica —e só aplaca temporariamente
a sede de sangue do minotauro virtual.
A URSS stalinista, a Alemanha nazista, a China
maoísta, o Camboja de Pol Pot e a Cuba castrista estabeleceram o objetivo de
criar o "homem novo". Os sistemas totalitários almejavam retificar
não apenas o comportamento, mas a mente dos indivíduos, moldando-a segundo suas
normas ideológicas. A escola, a propaganda, a prisão, a tortura e o campo de
trabalhos forçados eram os instrumentos da pedagogia social.
Por sorte, todas essas tentativas fracassaram.
Homens (e mulheres) "velhos", empapados de fraquezas e preconceitos,
seguem constituindo as sociedades. São eles (nós) os alvos dos vigilantes das
Redes Sociais, tão compreensivos com discursos políticos odientos, nem sempre
severos com atos criminosos, mas implacáveis com desvios privados puramente
verbais.
Já aprendemos algo com o triste episódio
de Waack. Não precisamos condená-lo ao submundo, empobrecendo ainda
mais nosso paupérrimo debate público, apenas para alimentar o minotauro.
DEMÉTRIO MAGNOLI (FOLHA ONLINE)
(Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2017/11/1934599-waack-e-vitima-da-fome-insaciavel-das-redes-que-exige-sacrificio-de-figuras.shtml.
Acesso em: 14 de novembro de 2017.)
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