quinta-feira, 21 de abril de 2016

Charge


O homem, a luta e a eternidade

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!


Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.


Murilo Monteiro Mendes

Garoto de 11 anos desaparece em Pombal. Família pede ajuda em redes sociais para localizá-lo

Um menino de 11 anos, que mora no loteamento "Riacho do Bode", em Pombal, está desaparecido desde a tarde desta segunda-feira (18).

Erick Gabriel saiu de casa informando que iria para a casa e um amigo e foi visto pela última vez próximo ao parque de vaquejada.

O garoto está vestido com camisa amarela e short cinza e azul.

Durante toda a noite, familiares e amigos se mobilizaram para tentar localizá-lo, mas não obtiveram êxito. Pelas redes sociais, são vários os pedidos e compartilhamentos de fotos e informações sobre a criança.
Equipes do Tiro de Guerra e corpo de bombeiros também ajudaram nas buscas.

Ele é filho da agente comunitária de saúde Gracineide Muniz.

Qualquer informação pode ser repassada à polícia (190) aos bombeiros (193) ou à rádio Liberdade FM (3431-1108).

Naldo Silva - LiberdadePB

Seda, de Alessandro Baricco

Este livro me foi indicado após a leitura de Mr. Gwyn, romance do mesmo autor e do qual tinha gostado muito. Mas gostei menos deste Seda, apesar da história ampla, interessante, contada num estilo de minicontos com trechos que se repetem como numa fábula. A história narra a trajetória de Hervé Joncour, morador de Lavilledieu, uma cidade francesa cuja economia floresce, na metade do século XIX, com a produção de seda.

Joncour compra e vende ovos de bichos-da-seda. Ele mora com a amada esposa Hélène em Lavilledieu numa casa confortável. Só que uma praga dizima os bichos-da-seda do Mediterrâneo e cria-se a necessidade de comprar o produto num local onde a praga não chegou: o Japão. Baldabiou — o mais rico de todos os fabricantes de seda — pede-lhe que vá ao país do sol nascente buscar os ovos.

O paradoxo do livro está no homem de vida rotineira transformado em aventureiro. Ele vai ao Japão quatro vezes. Leva meses em cada uma das viagens. Vai de trem, cavalo e em navios de contrabandistas. Nas viagens que faz ao Japão para comprar o produto, abre-se um mundo novo para aquele crasso europeu. Lá, ele vê uma bela mulher de rosto ocidental e passa a ter um segundo motivo para viajar. Quer revê-la e sentir seu toque de seda. Mas volta pelos negócios e, fundamentalmente, porque não consegue esquecer a linda voz de sua mulher na França.

Foi com esse livro que Baricco ficou famoso, mas, sabe?, faltou poesia. Como em Mr. Gwyn, mais uma vez Baricco procura “um modo exato de estar no mundo” para um personagem seu. Esta é a poesia maior do livro. E talvez de todos nós.

Do blog do Milton Ribeiro

O horror cósmico de William Sloane

Veio parar às minhas mãos a edição-ônibus de The Rim of Morning (New York: New York Review Books, 2015), que reúne duas novelas de William Sloane, ao que parece suas duas únicas incursões como autor de FC. Os dois livros são To Walk the Night (1937) e The Edge of Running Water (1939). As duas novelas vêm sendo publicadas em conjunto com o título The Rim of Morning desde 1964.
Falarei sobre a primeira delas. To Walk the Night é contada sob a forma de flash-back por Bark Jones, um estudante recém-formado de uma universidade na região de Nova York. O início do livro mostra Bark chegando de carro, à noite, à casa do pai de um grande amigo seu, trazendo na mala um vaso com as cinzas do amigo, morto alguns dias atrás no outro lado do país. A reunião entre Bark e Mr. Lister, o pai do falecido Jerry Lister, é o tempo presente da narrativa, que consiste na narração minuciosa, por parte de Bark, de uma série de acontecimentos estranhos dos últimos dezoito meses, envolvendo os dois amigos recém-saídos da faculdade, um professor que fazia pesquisas obscuras sobre o espaço-tempo, e a misteriosa esposa deste.
Um dos aspectos mais interessantes de flashbacks deste tipo é que, como se trata de uma narração verbal, ela admite de vez em quando (e Sloane faz uso consciente disso) interrupções do flashback para o retorno ao tempo presente, quando os personagens trocam impressões e comentários sobre os fatos passados. Em alguns casos, nas histórias mais pulp fiction, este artifício é usado para fornecer explicações sobre o enredo, explicações que o autor teve dificuldade de encaixar na ação da narrativa e preferiu dar de graça ao leitor usando falas do personagem-narrador.
Não é o que faz Sloane. Os comentários entre Bark e Mr. Lister esclarecem detalhes dos acontecimentos passados mas, de um modo geral, fazem alusões incompletas a outros fatos ou circunstâncias, o que aumenta o mistério e o suspense narrativo. É uma dessas histórias cheias de referências indiretas ao futuro, do tipo “Naquele instante, não percebi a importância deste pequeno detalhe”, ou “Eu não poderia saber as consequências que esse fato aparentemente banal iria ter dias depois”. Bem usado, esse artifício é um gancho poderoso para prender o leitor até que sua curiosidade seja satisfeita.
Não revelarei muita coisa do argumento, para não dar spoilers aos dois ou três leitores que talvez venham um dia a ler o livro. Que vale a pena, sim. A história lembra, por um certo ângulo, o filme Lifeforce (Tobe Hooper, 1985), inspirado no romance de Colin Wilson The Space Vampires (1976), onde a bela Mathilda May encarna um ser alienígena que suga com indiferença a vida dos humanos com que se defronta. Lembra também aqueles contos de Lovecraft onde, depois que algum fato espantoso provoca uma tragédia sem explicação, alguns personagens se reúnem e comparam lembranças, tentam encaixar as peças do quebra-cabeças para entrender o que aconteceu. Também lembra (muito) o Arthur Machen de The Great God Pan (1894), que provavelmente lhe serviu de inspiração.
Uma história lovecraftiana, mas o que assombra, mais do que o enredo, é a prosa límpida e clássica de Sloane, um autor de quem eu nunca tinha ouvido falar. Não lembro de muita gente na FC de 1937 que escrevesse tão bem quanto Sloane neste livro. Lembra a prosa limpa-de-exageros de Heinlein, mas Heinlein só estrearia dez anos depois. E tem um certo tom clássico, talvez mais britânico do que norte-americano, o que me leva a achá-lo muito mais próximo de autores ingleses dos anos 1930 como Aldous Huxley e Olaf Stapledon do que com os grandes nomes da FC norte-americana da época, que seriam talvez E. E. Doc Smith, Stanley Weinbaum, A. Merritt, o próprio Lovecraft...  Todos podem ganhar no quesito imaginação, mas nenhum, me parece, escreveu tão bem, de forma tão clara, expressiva, controlada, quanto Sloane. Se me dissessem que o livro é de hoje, eu poderia acreditar.
Além dos dois romances citados (lerei em breve o segundo), Sloane (1906-1974) publicou duas antologias de FC: Space, Space, Space (1953) e Stories for Tomorrow (1954), sendo esta última a mais elogiada. Foi professor de escrita criativa na Bread Loaf Writer’s Conference durante vinte e cinco anos, e algumas de suas aulas foram reunidas em The Craft of Writing (1983). Durante a maior parte da vida trabalhou com editor na Rutgers University Press.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Hora que passa

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho d’água triste… a vida corre…

Florbela Espanca

terça-feira, 19 de abril de 2016

Todo dia era dia do Índio


Muito cedo para decidir

Gandhi se casou menino. Foi casado menino. O contrato, foram os grandes que assinaram. Os dois nem sabiam direito o que estava acontecendo, ainda não haviam completado 10 anos de idade, estavam interessados em brincar. Ninguém era culpado: todo mundo estava sendo levado de roldão pelas engrenagens dessa máquina chamada sociedade, que tudo ignora sobre a felicidade e vai moendo as pessoas nos seus dentes. Os dois passaram o resto da vida se arrastando, pesos enormes, cada um fazendo a infelicidade do outro.

Vocês dirão que felizmente esse costume nunca existiu entre nós: obrigar crianças que nada sabem a entrar por caminhos nos quais terão de andar pelo resto da vida é coisa muito cruel e... burra! Além disso já existe entre nós remédio para casamento que não dá certo.

Antigamente, quando se queria dizer que uma decisão não era grave e podia ser desfeita, dizia-se: "isso não é casamento!". Naquele tempo, sim, casamento era decisão irremediável, para sempre, até que a morte os separasse, eterna comunhão de bens e comunhão de males. Mas agora os casamentos fazem-se e desfazem-se até mesmo contra a vontade do Papa, e os dois ficam livres para começar tudo de novo...

Pois dentro de poucos dias vai acontecer com nossos adolescentes coisa igual ou pior do que aconteceu com o Gandhi e a mulher dele, e ninguém se horroriza, ninguém grita, os pais até ajudam, concordam, empurram, fazem pressão, o filho não quer tomar a decisão, refuga, está com medo. "Tomar uma decisão para o resto da minha vida, meu pai! Não posso agora!" e o pai e a mãe perdem o sono, pensando que há algo errado com o menino ou a menina, e invocam o auxílio de psicólogos para ajudar...

Está chegando para muitos o momento terrível do vestibular, quando vão ser obrigados por uma máquina, do mesmo jeito como o foram Gandhi e Casturbai (era esse o nome da menina), a escrever num espaço em branco o nome da profissão que vão ter.

Do mesmo jeito não: a situação é muito mais grave. Porque casar e descasar são coisas que se resolvem rápido. Às vezes, antes de se descasar de uma ou de um, a pessoa já está com uma outra ou um outro. Mas, com a profissão não tem jeito de fazer assim. Pra casar, basta amar.

Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer.

A dor que os adolescentes enfrentam agora é que, na verdade, eles não têm condições de saber o que é que eles amam. Mas a máquina os obriga a tomar uma decisão para o resto da vida, mesmo sem saber.

Saber que a gente gosta disso e gosta daquilo é fácil. O difícil é saber qual, dentre todas, é aquela de que a gente gosta supremamente. Pois, por causa dela, todas as outras terão de ser abandonadas. A isso que se dá o nome de "vocação"; que vem do latim, vocare, que quer dizer "chamar". É um chamado, que vem de dentro da gente, o sentimento de que existe alguma coisa bela, bonita e verdadeira à qual a gente deseja entregar a vida.

Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois, no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total á sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.

Se você disser que a decisão não é tão séria assim , que o que está em jogo é só o aprendizado de um ofício para se ganhar a vida e, possivelmente, ficar rico, eu posso até dizer: "Tudo bem! Só que fico com dó de você! Pois não existe coisa mais chata que trabalhar só para ganhar dinheiro."

É o mesmo que dizer que, no casamento, amar não importa. Que o que importa é se o marido — ou a mulher — é rico. Imagine-se agora, nessa situação: você é casado ou casada, não gosta do marido ou da mulher, mas é obrigado a, diariamente, fazer carinho, agradar e fazer amor. Pode existir coisa mais terrível que isso? Pois é a isso que está obrigada uma pessoa, casada com uma profissão sem gostar dela. A situação é mais terrível que no casamento, pois no casamento sempre existe o recurso de umas infidelidades marginais. Mas o profissional, pobrezinho, gozará do seu direito de infidelidade com que outra profissão?

Não fique muito feliz se o seu filho já tem idéias claras sobre o assunto. Isso não é sinal de superioridade. Significa, apenas, que na mesa dele há um prato só. Se ele só tem nabos cozidos para comer, é claro que a decisão já está feita: comerá nabos cozidos e engordará com eles. A dor e a indecisão vêm quando há muitos pratos sobre a mesa e só se pode escolher um.

Um conselho aos pais e aos adolescentes: não levem muito a sério esse ato de colocar a profissão naquele lugar terrível. Aceitem que é muito cedo para uma decisão tão grave. Considerem que é possível que vocês, daqui a um ou dois anos, mudem de ideia. Eu mudei de idéia várias vezes, o que me fez muito bem. Se for necessário, comecem de novo. Não há pressa. Que diferença faz receber o diploma um ano antes ou um ano depois?

Em tudo isso o que causa a maior ansiedade não é nada sério: é aquela sensação boba que domina pais e filhos de que a vida é uma corrida e que é preciso sair correndo na frente para ganhar. Dá uma aflição danada ver os outros começando a corrida, enquanto a gente fica para trás.

Mas a vida não é uma corrida em linha reta. Quando se começa a correr na direção errada, quanto mais rápido for o corredor, mais longe ele ficará do ponto de chegada. Lembrem-se daquele maravilhoso aforismo de T. S. Eliot: "Num país de fugitivos os que andam na direção contrária parecem estar fugindo."

Assim, Raquel, não se aflija. A vida é uma ciranda com muitos começos.

Coloque lá a profissão que você julgar a mais de acordo com o seu coração, sabendo que nada é definitivo. Nem o casamento. Nem a profissão. E nem a própria vida...

Rubem Alves

 
O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 31.

Eduardo Cunha, desde 1991 esperando ser preso

Em 1991, Cunha foi nomeado por Collor para presidir a Telerj

Em 1992, Cunha foi acusado de superfaturamento na Telerj e contratou servidores sem concurso.

Em 1993, Cunha foi acusado de participação no Esquema PC.

Em 1999, Cunha foi demitido da Companhia Estadual de Habitação por fraudes em licitações.

Em 2001, Cunha foi investigado pela Receita por movimentações incompatíveis com sua renda.

Em 2007, Cunha esteve ligado em negócios suspeitos da Furnas Centrais Elétricas com o grupo Gallway, 
sediado em um paraíso fiscal.

Em 2015, Cunha é acusado de receber propina na Lava Jato e tem contas secretas na Suíça descobertas.

Em 2016, foi envolvido no escândalo mundial dos Panamá Papers.

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.
No livro “Idades cidades divindades”

Mia Couto

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Como a televisão decide o que você pensa, o que você quer e o que você faz

Digamos que você trabalhe demais e não tenha tempo justamente para cuidar do tempo que sobra, se é que sobra algum tempo. Então você deixa que uma empresa cuide disso pra você. Se você já se aposentou ou não tem trabalho, pode parecer difícil usar o tempo com outras coisas e você também aceita os serviços da empresa.

Como você vive em uma sociedade que valoriza a informação, e a empresa lhe dá justamente isso, parece lógico que o que ela fornece é uma coisa boa em troca de uma coisa meio chata como é a propaganda. Mas parece uma troca justa e você pensa que não tem porque ver um problema nisso.

Na forma de notícias, a informação é algo que serve para você saber em que mundo está, saber o que está acontecendo, e, evidentemente, não ser ingênuo.

Você pensa: não parece lógico que alguém use informação para te enganar e te tornar ingênuo. Isso não faria sentido e você se entrega de corpo e alma o que tem pela frente.

No meio disso tudo, você acredita e confia mesmo no que recebe, afinal se você não está enganando ninguém, ninguém teria por que enganar você.

E como você é uma pessoa confiante, você também confia na justiça e sabe que propaganda enganosa pode dar cadeia e segue vendo tudo de bom que o aparelho que você comprou te oferece de graça. Quer dizer, é bom lembrar que não é bem de graça, tem aquela troca, mas isso não vem ao caso agora, pois tudo parece muito justo.

A tecnologia muda de tempos em tempos, o aparelho fica ultrapassado e você precisa comprar um novo. Você nem queria esse aparelho último tipo, assim como você não quer as coisas que ele mostra, mas você passa a usar porque todo mundo está usando. Ficar longe do aparelho é o que ninguém quer. Ficar desatualizado diante dos colegas e familiares também pega mal. Assim você que não anda conversando nada muito interessante com ninguém, sente que ainda faz parte de uma comunidade que agora é chamada de audiência.

Você parou de falar com as pessoas, perdeu a noção dos amigos e dos familiares, as pessoas só perguntam se você viu a novela. É claro que você assitiu tudo, perdeu algum capítulos dormindo, pois não era tão interessante assim, mas não tem problema porque o seu mundo emocional está completamente preenchido com as alegrias e tristezas das personagens.

A sua vida moral, ética e política está totalmente controlada, já não dá mais trabalho. O aparelho que você comprou garantiu todas as suas ideias por meio dos noticiários e criou um verdadeiro estilo de vida para você. Você está convencido de que a vida não pode ser diferente.

Agora você pode ficar sentando diante do aparelho vendo pessoas parecidas com você convivendo dentro de uma casa. Elas parecem mergulhadas na banalidade do dia a dia e você chega, num descuido, a pensar que elas são meio idiotas. Como não dá para fazer muita coisa com um idiota, você pode dar um telefonema para expulsar um deles da casa. Você vai achar essa atitude meio pequena e miserável, mas como isso fará você se sentir poderoso, você que anda tão sozinho e meio deprimido e sentindo uma inveja incrível daquelas pessoas, você digita os números e manda bala.

Em outro belo dia faltou energia elétrica e você ficou a olhar para o teto tentando dormir. Deu tempo para desconfiar que estavam querendo, na verdade, te vender esse aparelho e a programação que ele mostra. Você lembrou que te chamaram de alienado quando comentou com colegas que não gostava tanto assim de ficar na frente do aparelho, e que te chamaram de chato por ver problema onde tudo parecia ir tão bem. Como você não estava pensando como todo mundo, achou que estava errado e resolveu dormir.

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Para compensar, no dia seguinte você comprou alguma coisa de tudo aquilo que era oferecido na tela. Longe de ser ingênuo você sabia que não poderia comprar muita coisa porque não teria dinheiro para tanto. Você sentiu inveja de quem podia comprar mais, mas comprou o que pode, um carro que te ajudaram a escolher em um comercial cheio de mulheres lindas. Você fez isso mesmo sem querer ou precisar porque parecia que era para fazer isso e não queria justificar para ninguém que poderia ser diferente. O problema do dinheiro se resolveu em prestações, você relaxou e passou a achar uma vantagem comprar mais coisas daquelas. É verdade que você se incomodou por estar endividado, mas alguém te disse que isso faz parte da vida, pois todos estão endividados como você. Você se incomodou também com a inveja, mas percebeu que a ostentação, seja o carro, seja da roupa, compensavam diante dos amigos e aprendeu a conviver com esse novo dado da realidade da melhor forma possível.

Com o tempo, você começou a notar que as propagandas eram mais interessantes que as novelas, os programas de auditório e até os noticiários, afinal o homem que lê as notícias andava meio repetitivo e insistente mostrando apenas o que parecia dito para você pensar igual. Você pensou em desligar o aparelho, mas como você esqueceu que podia fazer outra coisa com o seu tempo, por algum motivo parece que realmente já não tinha nada de melhor para fazer com ele.

Antigamente, antes de tudo isso, você pensava que a vida poderia ser diferente. Com o tempo você esqueceu essa pergunta e se alguém ousa fazê-la hoje, você se irrita muito e é você que aponta essa pessoa como uma alienada e uma chata. Você fica muito triste por pensar assim, mas como o ressentimento incomoda muito, você deixa por isso mesmo.

Como você tem um aparelho novo – e um carro igualmente novo – você está feliz em pensar que é o último tipo que estão vendendo nas lojas mais próximas e que as prestações, como as dores, logo vão passar.

Você vê as novelas, os filmes, os programas de culinária, humor, entrevistas, está tudo tão bem feito, tudo tão bonito que você nem precisa de mais nada. Você se identifica com tudo aquilo que é mostrado. Até parece que não existe outro jeito de viver. Claro que existe, você pensa, mas daria muito trabalho. Então você vê as tragédias que aparecem e se auto-compensa pensando que você não faz parte delas. Alguém diz a você que o mundo é terrível, mas que ele está do seu lado e não vai deixar você ser enganado. Isso porque você confia tanto na cabeça que aparece falando na sua frente, aquela que te dá as informações de graça em troca das propagandas que você vê e das coisas que você compra, que ele só pode ser um trabalhador honesto como você que nunca lhe faria mal.

Essa cabeça falante está só mostrando a vida como ela é, você entendeu. Como ele tem uma audiência ao redor, da qual você faz parte porque quer, afinal, você escolheu tudo isso, você não pode se queixar de nada. E como deixar de assisti-la seria ridículo diante dos seus colegas e familiares, você segue firme e forte usando agora o controle remoto para escolher entre os trezentos generosos canais de programação que preenchem o vazio mental, o vazio das emoções, e o vazio da ação que você poderia sentir. Esses canais te dão a impagável sensação de poder de escolha. Na verdade eles não tem muita graça, tanto que você troca de canal a cada segundo, mas você não imagina que possa haver algo além disso para ver, lá fora, na vida.
O aparelho que te dá todas as informações que você não precisa, mas aceita, afinal, do cavalo dado não se olham os dentes, tornou sua vida mais fácil. Você já sabe o que está acontecendo, por mais que na sua vida nada de interessante esteja acontecendo. Por um segundo, surge a dúvida quanto à qualidade dessa vida, mas dura pouco porque não se deve sofrer perguntando coisas desse tipo.

Quem sabe um dia, seja você que possa estar ali aparecendo e você finalmente exista como aquelas pessoas todas. Você chega a fantasiar uma coisa dessas enquanto a inveja – essa fixação no que é visível – se instaura em sua intimidade. Enquanto isso, basta tentar pensar como elas, sentir o que elas sentem, fazer o que elas fazem. Eles decidirão o que você vê pensando que tem todo o direito, afinal de contas, você terceirizou o seu olhar e com ele o pensamento, a emoção e a ação.

Elas decidirão o que você vê, o que você compra, o deus no qual você deve crer, as músicas que você vai ouvir. Decidirão o seu voto e o regime de governo que vai reger a sua vida.

Vão te informar de tudo o que eles acham importante ou conveniente para controlar a sua vida tirando de você a sensação angustiante da liberdade.

Só não vão te informar que você ficou cego. E que eles deveriam pagar uma grande indenização por anos e anos de assédio cognitivos e moral. Os danos éticos e políticos são irreparáveis.
Então, quando você perceber que implantaram no seu corpo um olho de vidro, que essa prótese não vai resolver o seu problema de visão, mas vai iludir a todos de que você ainda vê, você não conseguirá mais saber que está diante da tela do aparelho. Pensará que é a realidade.

Morto há tempos diante da tela, transformado em um zumbi que não pensa, não sente e não age em nome de mais nada que não seja a ordem teleguiada recebida, você será chamado de “vidiota” por alguém que, por algum motivo, ficou longe disso tudo. Mas porque já não consegue entender nada, você parte pra cima dele com a única coisa que restou na sua vida subjetiva, ódio barato e agressividade sem fim.

Márcia Tiburi

Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....


Olavo Bilac

O poder ultrajovem

— QUERO LASANHA.
Aquêle anteprojeto de mulher — quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia — entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
— Meu bem, venha cá.
— Quero lasanha.
— Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.
— Não, já escolhi. Lasanha.
Que parada — lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
— Vou querer lasanha.
— Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
— Gosto, mas quero lasanha.
— Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede fritada bem bacana de camarão. Tá?
— Quero lasanha, papai. Não quero camarão.
— Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
— Você come camarão e eu como lasanha.
O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:
— Quero uma lasanha.
O pai corrigiu:
— Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.
A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
— Môço, tem lasanha?
— Perfeitamente, senhorita.
O pai, no contra-ataque:
— O senhor providenciou a fritada?
— Já, sim, doutor.
— De camarões bem grandes?
— Daqueles legais, doutor.
— Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?
— Uma lasanha.
— Traz um suco de laranja pra ela.
Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surprêsa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.
— Estava uma coisa, hem? — comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. — Sábado que vem, a gente repete... Combinado?
— Agora a lasanha, não é, papai?
— Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?
— Eu e você, tá?
— Meu amor, eu...
— Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
         O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com fôrça total, o poder ultrajovem.

Carlos Drummond de Andrade


Texto extraído do livro “O poder ultra jovem”, Ed. José Olympio – Rio de Janeiro, 1972, pág. 3.

Fábula

Um dos aspectos mais perigosos da aviação é a aterrissagem. Quanto mais próxima a aeronave está para pousar, maior é o tráfego aéreo, o clima em solo pode ser muito pior do que a nove mil metros, e as pistas de pouso podem estar congestionadas. Deste modo, os pilotos confiam nos controladores de voo para coordenarem todos os detalhes, para que todos os aviões possam aterrissar sem qualquer incidente. Sem o controlador de voo, o caos seria certo.

Imagine então, o pânico quando o piloto de um avião comercial, cheio de passageiros, contatou a torre e não recebeu resposta. Finalmente, foi descoberto que o controlador de voo estava a postos, mas dormindo, colocando o piloto, os passageiros e o avião em grande perigo.

Deus conhece os perigos iminentes e incansavelmente direcionará o tráfego de sua vida com tranquilidade, pois Deus, o principal controlador de voo, nunca dorme.

Prof. Menegatti

domingo, 17 de abril de 2016

O "golpe"" e a lei


DIZ A LEI:

Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
(...)
VI - a lei orçamentária;
(...)
(Constituição Federal)
________________________________

Art. 35. É vedada a realização de operação de crédito entre um ente da Federação, diretamente ou por intermédio de fundo, autarquia, fundação ou empresa estatal dependente, e outro, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que sob a forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente.

Art. 36. É proibida a operação de crédito entre uma instituição financeira estatal e o ente da Federação que a controle, na qualidade de beneficiário do empréstimo.

(LEI COMPLEMENTAR Nº 101, DE 4 DE MAIO DE 2000 que
estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal e dá outras providências)
_________________________________

Contratação de operação de crédito

Art. 359-A. Ordenar, autorizar ou realizar operação de crédito, interno ou externo, sem prévia autorização legislativa: (Incluído pela Lei nº 10.028, de 2000)

Pena – reclusão, de 1 (um) a 2 (dois) anos. (Incluído pela Lei nº 10.028, de 2000)

(Código Penal Brasileiro) 
 
Teófilo Júnior


A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las!

Santo Agostinho
Quem é repreendido muitas vezes e teima em não se corrigir cairá de repente na desgraça e não poderá escapar.
Quando os honestos governam, o povo se alegra; mas, quando os maus dominam, o povo reclama. 
 
Provérbios: 29:1-2
"[...]Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.[...]"

Versículo dia

“Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo.” 
 
— 1 João 2:2

'O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar.' 

Clarice Lispector

sábado, 16 de abril de 2016

Arte

Dan McCaw

O mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso... 



Mário Quintana