terça-feira, 16 de setembro de 2014

Os EUA têm a maior população carcerária do mundo.

As estatísticas revelam que os EUA têm 25% da população carcerária do planeta, enquanto a população daquela País representa apenas 5% da população mundial. São mais de 2,3 milhões de prisioneiros. Isso prova que a pena de morte não intimida a criminalidade. As prisões privadas ganham mais de US$ 2 bilhões/ano.
 
 
Do face do jornalista Fernando Patriota

A Formação Multiétnica do Brasil

O período eleitoral pode ser sempre um ensejo para uma reflexão sobre a nosso identidade nacional e sobre como queremos projetá-la no futuro.
 
Nossa história nos mostra que o Brasil é um país imperfeito e contraditório. Somos reconhecidos como uma democracia multiétnica, mas fomos uma das últimas nações a abolir a escravidão de afro-descendentes.
 
Sempre fomos grandes exportadores dos produtos de base campeões do mercado internacional - açúcar no Século XVII, ouro no Século XVIII, café no Século XIX, mas não conseguimos enriquecer com isso e durante a maior parte da nossa história temos sido um país subdesenvolvido. Nosso Estado arrecada bem os nossos impostos, mas se deixa defraudar com facilidade. É em meio a essas ambiguidades e contradições que devemos buscar os traços do nosso destino.
 
Um aspecto da nossa nacionalidade que se formou desde o início da nossa história é o perfil multiétnico. A leitura da carta de Pero Vaz de Caminha mostra o caráter pacífico e amistoso dos primeiros contatos entre portugueses e índios (o que contrasta vivamente com as chegadas de Pizarro e Cortés. Não quero aqui idealizar a nossa convivência interétnica, pois todos sabemos que para cada aspecto positivo, nesse domínio, existem múltiplos aspectos negativos que perduram até os dias de hoje. A nossa "democracia racial" é muito imperfeita.
 
Mas devemos reconhecer que quem sustentou o movimento das entradas e bandeiras foram os índios e os mestiços. E nas fazendas de São Paulo, até o Século XIX, falava-se a "língua geral", uma síntese das línguas da família tupi, cuja construção começara já no Século XVI com São José de Anchieta, canário, basco, lusófono e primeiro a deduzir a gramática das línguas indígenas.
 
O índios do Brasil eram cerca de quatro milhões no primeiro século posterior ao descobrimento de Cabral. Se hoje eles não chegam a um milhão, isso não se deve a um extermínio e sim, muito mais, à incorporação das suas etnias ao conjunto da nossa população. Meu saudoso e ilustre professor Manuel Maurício de Albuquerque lembrava a seus alunos que não há brasileiro de quatrocentos anos que não tenha sangue índio em suas veias.
 
E Darcy Ribeiro dizia, em uma frase inesquecível, que o Brasil é o resultado de uma mescla entre brancos que não são europeus, negros que não são africanos e índios que não são mais índios, transculturados que foram - que fomos - ao longo do nosso convívio.
 
Gilberto Freyre descreve melhor do que ninguém as relações que se forjaram entre a casa grande e a senzala, tão cheias de contrastes e ambivalências e que até hoje buscamos aprimorar com projetos de inclusão social. A escravidão é um crime contra a humanidade e não há como desculpá-la ou tolerá-la. Entre seus pecados está o de ter colocado em injusta desigualdade a nossa população negra, de maneira tão radical que até hoje persiste um forte desnível em desfavor dela, apesar dos esforços de instituições públicas e privadas em remediá-lo.
 
O reverso da medalha está em quanto aprendemos nós, brasileiros, com as contribuições dos índios e dos negros e também dos imigrantes mais recentes, que tornaram nossa cultura diversificada, singular e admirada em todo o mundo. E tolerante também, se não por virtude, pela própria distribuição do ADN entre nós. No Brasil, é muito difícil ouvirmos gritos racistas como se ouvem tão frequentemente nos estádios de futebol da Europa. E quando eles com causam viva reação.
 
É verdade que nossa miscigenação é mais produto da necessidade do que da virtude. Os índios nos ensinaram a adaptar-nos à floresta tropical e os negros nos ensinaram a trabalhar, pois, sabidamente, os nossos colonizadores em geral não estavam aqui para isso. Índios e negros foram e são elementos essenciais à formação da sociedade e da cultura brasileiras e em especial da classe trabalhadora do nosso país.
 
Em resumo, pode-se dizer que foram eles os tolerantes, que foram eles os fortes, que resistiram a séculos de opressão e de ausência de direitos e hoje convivem em nossa sociedade multiétnica, propiciando a todos nós usufruir de um país sincrético e democrático, visto como modelo de harmonia racial.
 
O Itamaraty soube trabalhar esse aspecto, que hoje nos permite desenvolver uma imagem internacional e uma política externa que proclamam com vigor os valores da solução pacífica das controvérsias, do respeito à diversidade, da busca da igualdade, da proteção aos direitos humanos com suficiente credibilidade para que sejamos vistos como um dos países mais construtivos da comunidade internacional.
 
 José Viegas Filho, embaixador aposentado, foi ministro da Defesa

É isso aí.


Se me esqueceres

Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.


Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas, mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram."


Os irmãos Karamazov
Fiódor Dostoiévski
O que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.
 
(1 João 5:4)
Nas duas grandes horas da Vida — a nascer e a morrer — o homem bebe sozinho o seu cálice. No trajeto entre os dois pólos, acobardado pela maior consciência da espessura da bruma, arregimenta amigos e companheiros. Mas a sua unidade é ele. Mesmo que consiga ter à volta a maior multidão — vai só.
 
Miguel Torga

Matemática e corpo

Se existe alguma coisa que justifica o surgimento do ser humano neste planeta é ele ter concebido a matemática, e digo aqui a matemática no seu sentido mais amplo, que inclui a geometria, a aritmética, a música, a zorra toda. Não quero dizer que ela seja mais importante do que tudo, e na verdade acho que está muito longe disso. A coisa mais importante da vida é a felicidade do corpo, o em-paz do corpo, o na-ponta-dos-cascos do corpo, o turbinas-a-toda-potência do corpo, a alegria-de-viver do corpo, o vou-tomar-todas-porque-sou-indestrutível do corpo. O corpo, a gente joga a toalha: o corpo é a base do real. A matemática é simplesmente o vislumbre da perfeição.


A matemática nos sugere o possível mundo Trans-Humano do futuro, em que todos seremos mente pura, gravada em elétrons e silício, livres das dores, das carências e da decadência do corpo. Não sei o que sente o corpo alheio, mas os prazeres e os achaques do meu me bastam. Tenho dias sempre movimentados. O corpo ocupa cada um de nós 24 horas por dia. É único e não se conecta em rede. Talvez por isso nunca consegui ver o arco-íris que tantos outros viam, a estrela cadente que tantos apontavam, o fantasma que todo juravam trêmulos que estava ali, diante de nós. Pobre de mim, que vejo uma ciclóide e não vejo um fantasma.

Quando conseguirmos transformar em .gifs animados tudo que sabemos sobre o espaço e suas dimensões. Quando conseguirmos codificar isso numa tecnologia que qualquer raça, por mais física e quimicamente diferente de nós, consiga reproduzir e utilizar. Quando, enfim, pudermos revelar a uma raça alienígena qualquer o que descobrimos sobre a matemática pura do Universo, somente então teremos justificado nossa presença na Terra. Talvez nossa aritmética e nossa geometria (nossos lados digital e analógico) não sejam perceptíveis por todas as espécies inteligentes que há. Faz sentido. Mas também faz sentido supor que exista alguma semelhante à nossa, ou pelo menos capaz de ver como vemos e raciocinar como raciocinamos, pouco importa sua aparência anatômica ou sua composição química.

Imagino um mundo distante, um mundo submarino com uma civilização compartilhada entre cetáceos e cefalópodes, e onde um dia cheguem, sabe-se lá como, demonstrações cabais da existência de que existia, num passado remoto, um raciocínio abstrato em termos visuais, no terceiro planeta em volta de uma estrela periférica. Eles olharão aquilo e comentarão: “Vejam só, eram mamíferos antropóides de superfície, respiravam oxigênio, e mesmo assim conheciam o Yamigang do Kambalaôr.” (É assim que chamam o “Teorema de Pitágoras” na cultura deles.)

 
Bráulio Tavares
(mundofantasmo)

Como é que se esquece alguém que se ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.


É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.


Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.


O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


domingo, 14 de setembro de 2014

Esmola pra São José


Humor

Um casal fez um acordo, que se existisse reencarnação, o primeiro a morrer, informaria o outro, como era.
O marido, foi primeiro; contatou a mulher e lhe contou:
Meu bem... levanto-me cedo e faço sexo.
Tomo o café da manhã e vou para o campo de golfe.
Faço mais sexo, apanho sol e faço sexo, mais algumas vezes....

Depois almoço, como muitos legumes e verduras, mais sexo...
Depois do jantar, volto ao campo de golfe e faço mais sexo, até anoitecer.
Depois durmo, muito bem, para recuperar e no dia seguinte, recomeça tudo igual.
A mulher pergunta:
"Você está no Paraíso?
"Não, já reencarnei... agora, sou um coelho, numa fazenda, em Atibaia"

Se todo banco agradecesse seus clientes assim, o mundo seria muito melhor!


Governo reconhece 'racismo institucionalizado'

Complexo da Maré, no Rio de Janeiro - Foto: Getty Images

"O Governo Brasileiro reconheceu e reconhece sua responsabilidade e criou a Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003." O comentário responde a um relatório divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU). O órgão mundial afirma que o racismo "permeia todas as áreas da vida" no Brasil.

As Nações Unidas concluem que o país vive um "mito de democracia racial" e que há "racismo institucionalizado" e uma "ideologia de embranquecimento" na sociedade brasileira. Tanto a ONU quanto o governo, entretanto, também destacam avanços nas políticas para afrodescendentes no Brasil.

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Ricardo Senra, BBC Brasil

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos, in "Poemas"


Versiculos do dia

Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à ...
sua estatura?
E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
 
Mateus 6:25-29

sábado, 13 de setembro de 2014

O meu pão caseiro



Pão francês feito em casa. Ficou uma delícia!!

Antes das palavras

Todo escritor, mesmo contra a própria vontade, dissemina em seus textos pistas involuntárias, rastos indeléveis de um desejo. De uma estratégia poética. De uma estética íntima _ aquele impulso anterior que o leva a escrever. Desse modo, livros transformam seus leitores _ qualquer leitor _ em detetives. Eles perseguem pegadas, nódoas, restos que os ajudem a se aproximar do texto que têm diante de si. Ler é procurar a origem. A cada linha, agarrar-se a um vestígio. É procurar rotas de acesso. É assim, buscando caminhos e pisando a incerteza, que avanço em "Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo", segundo livro de poemas de Paulo Scott (Companhia das Letras).
 
          Há algo de opaco na poesia de Scott _ uma “lã de vidro”, para usar uma expressão que ele mesmo nos oferece. Algo que nos aproxima, mas ao mesmo tempo nos afasta de seus versos. É justamente porque o acesso direto é impossível, ou (se possível) torna-se enganoso, que o poema nos atrai. Como não podemos acessá-lo diretamente, nós, seus leitores, passamos a rondar o texto como atentos investigadores. Não conseguimos entrar _ embora muitas vezes a leitura tenha uma aparência simples e até hospitaleira. E só porque não conseguimos, continuamos a ler.
 
          Tive um aluno que carregava consigo, sempre, um exemplar de bolso do Quixote. Julguei, por muito tempo, que ele não parasse de ler o livro. Um dia, cheio de inveja _ porque quase nunca me sobra tempo para ler os clássicos _, eu lhe perguntei: “O que o fascina tanto em Cervantes?” Olhou-me meio cético, meio desesperançado. Em seguida, como se confessasse um pecado vergonhoso, me respondeu: “Na verdade, eu nunca o li”. Tinha o Quixote na conta de um talismã. E, também, como uma promessa do dia em que, enfim, chegaria a lê-lo. “Um dia eu consigo. Por enquanto, basta tê-lo perto de mim”, ainda me disse. Esse aluno me ensinou algo essencial a respeito da imaginação: ela precede os livros que lemos. Ela é nosso refúgio. Um dia, com o livro aberto, sobre ele enfim a fantasia se derrama, alimentando-o e dele usufruindo. Mas ela já existia antes. Meu aluno achava que a leitura do Quixote o salvaria. Mesmo sem a leitura e sem a salvação, porém, o livro de Cervantes o consolava.
 
          Pensei nesse aluno durante todo o tempo em que li os poemas de Paulo Scott. Quando você abre um livro, a pergunta verdadeira não é: “O que esse livro tem a me dizer?” A pergunta verdadeira é: “O que encontrarei nesse livro que já me pertence?” Encontrei muitas coisas nos poemas de Paulo Scott, coisas que duplicam e ampliam minha própria imaginação. A idéia, por exemplo, de que o estranho já não basta: “ser apenas estranho/ com idéias estranhas/ já não é suficiente”. A poesia pede mais _ busca a abertura de uma fenda através da qual o leitor não apenas se jogue, mas se encontre.
 
         A simples ideia do estranho _ de tornar-se único e surpreendente _ pode transformar o escritor em um “monstro inabalável”. Numa festa, o poeta encontra uma menina que lhe “diz que você está se tornando/ tão patético quanto as personagens/ que inventou”. Encontro aí uma mensagem: um escritor deve desconfiar de si mesmo. Não aceitar-se facilmente e, ao mesmo tempo, se suportar: “jogue fora os atalhos/ tente não culpar mais ninguém”. Em outras palavras: sustentar a própria voz. Por mais que trate de outros temas, um poeta está, todo o tempo, falando de sua própria escrita. Essa é a parede intransponível: aquela que separa o aparente _ o transitório _ do que sempre esteve ali e a poesia, enfim, revela.
 
          Um escritor precisa ter coragem não só para reconhecer os próprios limites, mas para enfrentar suas falsificações. “Enquanto você fala de filhos e minto que virei escritor”, escreve Scott, com absoluta lucidez a respeito da precariedade da invenção. Fazer literatura é seguir o próprio caminho. “Voltar à vida, mesmo que doa”, ele diz em outro poema. São pistas, são indícios que, como um aflito detetive, eu recolho aqui e ali, lutando para recompor as trilhas por onde o poeta passou. A escrita não é sempre a pegada _ muitas vezes ela se esconde entre as pegadas, isto é, nas entrelinhas. Para chegar até elas, é preciso, primeiro, libertar-se do circunstancial. Escreve Scott: “espera-se do poeta que lave as mãos/ antes e depois de utilizar o mictório/ e não se distraia com o mau estado temporário/ dos azulejos”. Não só expelir (micção), mas também saber livrar-se daquilo que o afeta e distrai. “Espera-se do poeta que seja pedra/ e, sendo pedra, aguarde à mesa até que outros; cansem desse jogo de equipes que é a solidão”. Ser pedra: lacrar-se em si mesmo. Carregar aquilo que é e disso fazer sua palavra. Espera-se que o poeta “não tenha necessidade de ser bonito”. Que suporte a própria face e isso lhe baste.
 
          O poeta _ Scott nos adverte _ não trabalha com o perfeito, mas com o imperfeito. “As vezes desço até a floricultura da cobal do Humaitá/ atrás de crisântemos bordos em vasos plásticos/ escolho os que estiverem menos consistentes”. Gosta de acompanhar o desfazer das flores até que elas sequem, “assumindo a leveza dos chás”. Nessa decomposição _ da aparência, da afetação, da soberba _ se abre um roteiro que leva o poeta de volta a si. “Se o destino é respirar/ pode-se dizer então/ que o estado inicial/ é de afogamento”. É a partir do caos (do desfazer-se) que um poeta encontra sua forma. Encontra sua palavra. Só assim pode suportar, enfim, o estado de estranheza. “Me olha, pai, não sou veneno”, ele pede.
 
          Em outro poema, Scott fala de uma menina que passa longo tempo na janela exibindo uma cartolina na qual expressa um desejo: “personagem para o teu romance”. “Às vezes, ela usa um apito”, de tal forma a agita o desejo de se transformar em objeto de imaginação. Em imagem. Desesperançado, o poeta escreve: “é sua maneira de registrar/ (se ao menos já houvesse livro)/ que nosso dia se perdeu”. Perdeu, ou ganhou? No espaço que antecede a escrita _ ali onde a fantasia ferve _ se guardam os grandes alimentos. Ali um poeta se encorpa. Ali, antes mesmo da primeira palavra, ele se faz poeta.
 
               (Texto publicado no suplemento "Prosa" de O GLOBO no sábado 06/09/14)

 
 José Castello
 

Borbulhas de amor


O medo do macho diante do toque

Nós vamos à guerra, mas fugimos de um consultório médico como o diabo da cruz. O eterno medo o macho diante de um diagnóstico.
Quando o assunto é o exame de toque, Nossa Senhora do Ó, o tabu é quase imbatível.
Só vamos ao médico à força. Na maioria das vezes arrastados pelo braço, como crianças. Graças às nossas zelosas mulheres.
Repare nos números oficiais de uma pesquisa da Secretaria de Saúde de São Paulo: 60% dos marmanjos só procuram o homem de branco quando a doença já atinge um estágio muito crítico.
O levantamento me fez lembrar a minha primeira vez no exame mais aterrorizante para a macheza latina:
-Senhor Francisco?!
-Sim…
Chegou a hora da verdade. As rotas de fuga estão obstruídas. Não há escapatória. Naquele instante, o primeiro homem de gerações e mais gerações do ramo sertanejo dos Sá Menezes seria submetido ao labiríntico mundo da procto-investigação.
Que fazer?, resigno-me, leninista rendido ao mais dialético dos toques da humanidade.
Ao adentrar o recinto, lembrei logo da infame pilhéria. “O médico introduz o dedo no respeitável cidadão e pergunta: ‘Sentes alguma coisa?’. Ao que o paciente sussurra: “Sinto que te amo.”
Recordei também de um amigo, rapaz de Serra Talhada, terra de Lampião, que era tão macho, mas macho de um jeito que usava dois sabonetes no seu banho: um Phebo para a parte dianteira e um Lux de Luxo exclusivo da traseira. “Esse contato é perigosíssimo, não se deve misturar as vocações”, dizia, no banheiro coletivo da Casa do Estudante.
Era chegada a hora. Ao sacrifício, pois. Segura na mão de Deus e vai! O simpático doutor tenta disfarçar suas feições mal-assombradas à Anthony Hopkins. Foco nas mãos do monstro. Dedos médios, mas habilidosos como um manipulador de teatro de bonecos.
“Que macho sou eu, ora bolas!”, penso, para me encorajar. O médico ordena que eu deite. Um amigo da firma me contou que a primeira vez dele havia sido na clássica posição “de ladinho”. A minha foi, napoleonicamente falando, de bruços mesmo, quase de quatro, diria.
No meu retrovisor imaginário, vejo o dublê de Hopkins colocar uma espécie de camisinha de dedo. Depois, a vaselina, o lubrificante, sei lá. E não foi com o mindinho, muito menos com o seu vizinho, coube o serviço ao matreiro fura-bolo, como no folguedo infantil.
Mas tudo dentro do maior respeito, uma escaneada tecnicamente irreparável. Como diria o bardo lusitano, apenas uma rápida bulida no meu “eu profundo e outros eus”.
Próstata em ordem, tamanho clássico de uma noz, segundo a autoridade médica, voltei para casa engajado na brigada preventiva contra esse tipo de câncer, uma das maiores causas de mortes de cavalheiros por estas plagas.
Seja homem, cabra, treine em casa, com a namorada. No mais, é seguir o conselho do filósofo Emerson, que em velho anúncio do uísque Johnnie Walker recomendava: “Faça tudo aquilo que você mais teme”.
Sinceramente, o que custa um dedinho de prosa com o seu urologista. Cuide-se, homem!
Xico Sá

És linda

És linda. E nem sabes quantos pedaços de beleza tive de juntar para chegar a esta conclusão. Para te construir, tive de misturar a conspiração das searas com a tristeza do choupo, a inquietação da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos miosótis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paciência das casas à beira da falésia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem à lua. Acrescentei-lhe a canção das margens e pequenos pedaços da angústia do olhar. Não esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o coração dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus músculos prometi a violência das cascatas, no teu sexo acordei a memória do universo.


A tua beleza está no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. És linda, repito. Mas tenta não encarar o que te digo como um elogio.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'