quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Casaram-se

Estive ontem prestigiando o casamento do casal de advogados e amigos Dinácio e Izabella. O evento ocorreu no restaurante italiano Viareggio na vizinha cidade de Patos-PB, onde o casal recebeu os convidados.

A solenidade, bastante concorrida, contou com a presença de familiares e amigos dos noivos. A celebração foi realizada pelo Dr. Ramonilsom.
 
Os nossos votos de felicidades ao casal.

Charge


Qual o nosso ideal de hoje?

De vez em quando, eu falo sobre a ditadura militar e me sinto um dinossauro, pois a "dita" aconteceu há 50 anos. Porém, nessas últimas semanas, se falou muito daqueles tristes dias militares, pela aproximação de seu aniversário. Ela voltou como a lembrança de um pesadelo ou para nos alertar sobre os perigos para a democracia, agora que temos um país conflagrado por paralisia ideológica e por incompetência generalizada. Antes de 64, na guerra fria, no terceiro-mundismo, achávamos tudo fácil de realizar - nosso desejo bastava, mesmo que a utopia fosse impossível. Achávamos que poderíamos tudo; só não tínhamos liberdade. Hoje temos liberdade, mas não podemos fazer quase nada.

A injustiça e a boçalidade nos governaram por 21 anos. Foi espantosa a ingenuidade e despreparo que embalaram o golpe naquela época. Nossa inocência política não imaginava quem seriam os inimigos. E diante dos lutadores românticos, uma outra realidade aflorou, sinistra: os inimigos eram os rosários entre os dedos, os elefantes de louça, os bibelôs sem gosto, as famílias de classe média marchando. Das crendices ressurgia um Brasil puído, gasto, inatual, que sempre esteve ali e que achávamos obsoleto. O golpe de 64 despertou o Brasil medíocre.

Acordamos de um sonho para um pesadelo. O país mudou em 24 horas. E depois de 68, jovens idealistas piraram, enquanto multidões de yuppies brotaram do falso "milagre", enchendo o rabo de dinheiro, adotando o cinismo frio que hoje virou até uma "qualidade" executiva.

Tínhamos horror ao mundo real: um presidente anão que parecia um ET verde-oliva, a cara de boçal do Costa e Silva, as gargalhadas de Yolanda, o rosto de vampiro deprimido de Medici, a estátua ereta e autoritária do Geisel e os colhões de Figueiredo, fazendo ginástica de sunguinha para o povo ver. Tudo nos dava horror, tínhamos de fechar os olhos.

E, como a política virou crime, cultivamos utopias pessoais, sexuais, místicas, drogadas. O espírito hippie não chegou aqui com flores e amor, mas com balas e porrada. A contracultura sem flores, o perigo de morte, geraram ao menos uns 7 anos de horror. Esse era o espírito do tempo. Do rosto sério e reflexivo dos guerrilheiros, passamos ao sorriso alvar meio bobo dos desbundados.

Não penso em uma anormalidade que nos assolou, mas sim na terrível "normalidade" a que nos adaptamos.

A ditadura acabou, voltou a democracia, somos todos livres e, no entanto, qual é a loucura de hoje?

Durante a ditadura, todos éramos o bem. O mal eram os milicos. Acabou a dita e as "vítimas" (dela) pilharam o Estado. O futuro virou uma promessa de aperfeiçoamento de produtos, com uma velocidade que faz do presente um arcaísmo, uma espécie de passado "ao vivo" em decomposição. Temos hoje de lutar por quê? Qual nosso ideal de hoje?
 
A ditadura nos trouxe o desencanto. Ela nos fez conscientes de nossa pequenez, da importância das mesquinhas coisas da vida. Depois da ditadura, passamos a desejar uma liberdade vagabunda, para nada, para rebolar o rabo nas revistas, uma liberdade "fetichizada", transformada em produto de mercado. Ganhamos o mercado da liberdade.
 
O fracasso, a derrota, ganhou uma beleza nova - a beleza da desistência, a nobreza da vitimização.

Aqui no Brasil, temos a brutal resistência do atraso, do Mesmo. Estamos nos acostumando a isso. Pior que a violência é habituar-nos com ela. O mal ficou banalizado e o bem um luxo, quase um hobby. A desesperança parece-nos maturidade, do pessimismo estamos chegando a um fatalismo que passou a ser o lugar da sabedoria: "Ah..., é assim mesmo..., não dá para fazer nada mesmo". Ou então um otimismo reativo: o Brasil jamais afundará. Sem dúvida, mas poderá ficar cada vez mais disfuncional e irreversível. Depois das reformas de FHC, tudo que estava pronto para decolar voltou atrás pela ignorância regressista do PT.

Hoje, vivemos na expectativa de que algo acontecerá, num tempo em que nada se soluciona. Vivemos uma cilada histórica, quando ninguém sabe como governar um país; o despreparo continua, com governantes de "esquerda" pensando com os mesmos parâmetros de 50 anos atrás.

Democracia é a palavra do momento. Nunca se falou tanto em democracia como ultimamente. Fala-se tanto nela talvez por medo de que ela se transfigure, se deforme. Fazem-se grandes denúncias do passado, para que não esqueçamos os horrores. É importante punir e lembrar, sem dúvida.

Mas, democracia não pode ser definida apenas por ausência de ditadura, pelo que ela "não" é ou "não" foi. Nossa democracia está em dificultosa construção, frágil, difícil de entender por um país que já começou excludente e em que a República nasceu de um golpe militar.

Mas não adianta apenas buscar os inimigos que a destruíram no passado, quem torturou, quem matou.

É importante pegar os que sobraram das iniquidades cometidas, mas temos de pegar principalmente os inimigos da democracia de hoje, os que querem acabar com a liberdade de expressão, os que arrasam o País pela corrupção sistemática e pela busca voraz do poder pelo poder. Quem quer acabar com a democracia hoje, a exemplo dos fascistas da Venezuela, dos fascio-peronistas da Argentina ou do Equador são compatriotas loucos e mal informados, aqui. Baudrillard escreveu uma frase que tenho citado e que resume a loucura bolivariana que nos ameaça: "O comunismo hoje desintegrado se tornou viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de desfuncionamento e da desestruturação brutal".
 

O mal aqui está nos pequenos psicopatas que, quietinhos, nos roem a vida. Aqui, o grande canalha serve para camuflar os pequenos (que são os grandes) canalhas. O mal do Brasil não está na infinita crueldade dos torturadores ou das elites sangrentas; está mais na sua cordialidade. O mal nos engana, no Brasil. Aqui, o perigo é o Bem.

Isso é que nos ameaça e interessa e não mais as ossadas do Araguaia. Encanemos os fascistas d'antanho, mas cuidemos dos fascistas de hoje.
 
 
Arnaldo Jabor
O Estado de S. Paulo

Zimbo trio


Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?


A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.


A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Juiz de São Paulo aceita pedido de correção do FGTS pela inflação

A Justiça Federal de São Paulo atendeu ao pedido de um trabalhador, que entrou com uma ação contra a Caixa Econômica Federal, solicitando que os depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) sejam corrigidos pela inflação e não pela Taxa Referencial (TR).
 
O juiz federal Djalma Moreira Gomes, titular da 25ª Vara Federal, determinou que os depósitos do FGTS da conta de Douglas de Souza Augusto sejam corrigidos desde 1999 pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).
 
Segundo a assessoria de imprena da Justiça Federal, é a primeira decisão a favor da correção do FGTS pela inflação no estado de São Paulo. A sentença, porém, ainda é de primeira instância e cabe recurso.
 
 
Do G1

Frase

"A presidente tem 47% nas pesquisas. É mais que o Lula e o FH. Tirar foto com a Dilma vai ajudar a eleger vocês. Quem vai ter dificuldade serão DEM e PPS.”
 
 
Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, em reunião com líderes da base do governo na Câmara

Assim nasceu o trio elétrico

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014


Socialismo é barbárie

A esquerda está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público

Se eu pregar que todos que discordam de mim devem morrer ou ficarem trancados em casa com medo, eu sou um genocida que usa o nome da política como desculpa para genocídio. No século 20, a maioria dos assassinos em massa fez isso.

O Brasil, sim, precisa de política. Não se resolve o drama que estamos vivendo com polícia apenas. Mas me desespera ver que estamos na pré-história discutindo ideias do "século passado". Tem gente que ainda relaciona "socialismo e liberdade", como se a experiência histórica não provasse o contrário. Parece papo das assembleias da PUC do passado, manipuladoras e autoritárias, como sempre.

O ditador socialista Maduro está espancando gente contra o socialismo nas ruas da Venezuela. Ele pode? Alguns setores do pensamento político brasileiro são mesmo atrasados, e querem que pensemos que a esquerda representa a liberdade. Mentira.

A maioria de nós, pelo menos quem é responsável pelo seu sustento e da sua família, não concorda com o socialismo autoritário que a "nova" esquerda atual quer impor ao país. A esquerda é totalitária. Quer nos convencer que não, mas mente. Basta ver como reage ao encontrar gente inteligente que não tem medo dela.

Ninguém precisa da esquerda para fazer uma sociedade ser menos terrível, basta que os políticos sejam menos corruptos (os da esquerda quase todos foram e são), que técnicos competentes cuidem da gestão pública e que a economia seja deixada em paz, porque nós somos a economia, cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento.

Ela, a esquerda, constrói para si a imagem de "humanista", de superioridade moral, e de que quem discorda dela o faz porque é mau. Ela está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público tido como "inteligente" e agora está sendo obrigada a conviver com gente tão preparada quanto ela (ou mais), que leu tanto quanto ela, que escreve tanto quanto ela, que conhece seus cacoetes intelectuais, e sua história assassina e autoritária.

Professores pautados por esta mentira filosófica chamada socialismo mentem para os alunos sobre história e perseguem colegas, fechando o mercado de trabalho, se definindo como os arautos da justiça, do bem e do belo.

A esquerda nunca entendeu de gente real, mas facilmente ganha os mais fragilizados com seu discurso mentiroso e sedutor, afirmando que, sim, a vida pode ser garantida e que, sim, a sobrevivência virá facilmente se você crer em seus ideólogos defensores da "violência criadora".

Ela sempre foi especialista em tornar as pessoas dependentes, ressentidas, iludidas e incapazes de cuidar da sua própria vida. Ela ama a preguiça, a inveja e a censura.

Recomendo a leitura do best-seller mundial, recém publicado no Brasil pela editora Agir, "O Livro Politicamente Incorreto da Esquerda e do Socialismo", escrito pelo professor Kevin D. Williamson, do King's College, de Nova York. Esta pérola que desmente todas as "virtudes" que muita gente atrasada ou mal-intencionada no Brasil está tentando nos fazer acreditar mostra detalhes de como o socialismo impregnou sociedades como a americana, degradou o meio ambiente, é militarista (Fidel, Chávez, Maduro), e não deu certo nem na Suécia. O socialismo é um "truque" de gente mau-caráter.

As pessoas, sim, estão insatisfeitas com o modo como a vida pública no Brasil tem sido maltratada. Mas isso não faz delas seguidores de intelectuais e artistas chiques da zona oeste de São Paulo ou da zona sul do Rio de Janeiro.

A tragédia política no Brasil está inclusive no fato de que inexistem opções partidárias que não sejam fisiológicas ou autoritárias do espectro socialista. Nas próximas eleições teremos poucas esperanças contra a desilusão geral do país.

E grande parte da intelligentsia que deveria dar essas opções está cooptada pela falácia socialista, levando o país à beira de uma virada para a pré-história política, fingindo que são vanguarda política. O socialismo é tão pré-histórico quanto a escravatura.

Mas a esquerda não detém mais o monopólio do pensamento público no Brasil. Não temos mais medo dela.
 
 
Luiz Felipe Pondé
Folha de S. Paulo

Jabuticaba

É certo que Jabuticaba faz bem para a saúde. Riquíssima em vitaminas do Complexo B, principalmente B2 e Niacina; e, em menor quantidade, de vitamina C, e de sais minerais como Ferro, Cálcio e Fósforo. É esta a conclusão de vários estudos científicos.
 
Mais controvérsias e menos certezas existem acerca da validade da Teoria da Jabuticaba. Segundo esta teoria, a jabuticaba simboliza tudo aquilo que só existe no Brasil. E, dado que somente existe no Brasil, a teoria fornece explicação para situação, que, alega-se, seria inédita no plano universal.
 
A Teoria da Jabuticaba consiste em propor, defender e sustentar, contra qualquer outra evidência lógica em sentido contrário, soluções, propostas, medidas práticas, ideias que só existem no Brasil e que somente ali funcionariam.
 
Os adeptos desta teoria seriam também dotados de poderes igualmente singulares. Dariam nó em pingo d’água, com ou sem luva, de acordo com a necessidade, conveniência, ou oportunidade. Desfritariam ovo. Tudo com muito jeito. Ou com muito jeitinho, como preferem alguns.
 
A teoria da jabuticaba justifica qualquer coisa. A se crer nela, lugar onde cresce jabuticaba funciona com regras próprias e únicas. Lá tudo é diferente. A vida é governada por leis não aplicáveis a outros lugares. Em suas palmeiras, sabiás gorjeiam melodias únicas, somente ali possíveis.
 
Lá o mundo se curva a soluções inovadoras, especialmente feitas para cada ocasião, e somente ali aplicáveis, para todos os problemas humanos, conhecidos ou não. A experiência de outros lugares jamais pode ser utilizada. Comparar de dados e informações seria, portanto, simples exercício de futilidade, desprovido de qualquer utilidade prática.
 
A teoria da jabuticaba impede o aprendizado com os erros e acertos de outros lugares. Condena seus adeptos a gastar tempo, energia e recurso desnecessariamente, resolvendo problemas partindo sempre da estaca zero.
 
Teoria da Jabuticaba é solução simples, rápida e, quase sempre, errada. Serve para qualquer coisa. Explica qualquer coisa. Inclusive o nada.




Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Publica blog na revista Meio & Mensagem. E-mail: esimoes@uvic.ca
 
 
Do blog do Noblat

Arte de rua

 
 
 
 

Copa: camisetas com conotação sexual da Adidas revoltam o governo

Camiseta traz expressão que também significa 'pegar garotas' de uma maneira mais sexual
 
Uma linha de camisetas da Adidas sobre a Copa do Mundo está gerando polêmica por causa do duplo sentido que o material traz. Ao mesmo tempo que fala de Brasil e da paixão pelo futebol, também reforça o apelo sexual num momento que o governo do País luta para não passar essa imagem internacionalmente.
 
O material causou revolta na Embratur, que promete formalizar nesta terça uma reclamação à empresa alemã de material esportivo.
 
Leia mais clicando aqui
 
 
Paulo Favero, Estadão

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O circo chegou

Sou fascinado pela arte milenar do circo e procuro assistir a todos os espetáculos que aportam aqui na cidade ou na vizinhança. No último domingo estive com a família no Circo Popular do Brasil, do Marcos Frota.  
A propósito, há referências sobre o circo desde a antiguidade. Durante o Império Romano, por exemplo, grupos de pessoas ganhavam a vida fazendo apresentações na rua, nas casas de famílias nobres ou até mesmo em arenas destinadas às apresentações (anfiteatros).

Na
Idade Média, grupos de malabaristas, artistas de teatro e bufões (comediantes) viajavam pelas cidades da Europa com suas apresentações.

Porém, foi somente em 1769 que o circo ganhou o formato que temos atualmente. Neste ano, o inglês Philip Astley organizou as apresentações circenses, destinando também uma tenda de lona para as apresentações. Estas seriam itinerantes (com mudança constante do local de apresentação).
 
No nosso calnedário, comemora-se em 27 de março o Dia do Circo.

Justiça decide contra o aborto na Bolívia

O aborto continua sendo ilegal na Bolívia, segundo uma sentença do Tribunal Constitucional Plurinacional que, no entanto, coloca em aparente contradição o compromisso do Governo do presidente Evo Morales de modificar leis e políticas públicas sobre a interrupção voluntária da gravidez de agosto de 2013.

O Tribunal Constitucional pronunciou-se após uma longa e polêmica espera de quase dois anos. Durante esse período, a opinião pública se dividiu em dois grupos: os que avaliam que legalizar o aborto é uma questão de saúde pública e que deve ser respeitado o direito da mulher de decidir sobre seu corpo e outro que baseia sua rejeição ao aborto no direito à vida desde a formação do embrião, consagrado em várias convenções e declarações, bem como em princípios religiosos.
 
 
El País

Frase

"Tentar entender não é o mesmo que perdoar.”

Hannah Arendt, filósofa alemã, judia que fugiu do nazismo

Autores meticulosos

(manuscrito de Kafka)

Li na adolescência uma frase de Kafka que volta e meia recordo. Era mais ou menos assim: “Escrever é trabalhoso. Quando consigo colocar uma palavra no papel, não tenho senão esta, e tudo recomeça.” Para autores assim, como o próprio Kafka, Raymond Chandler, Georges Perec, escrever é como levantar um muro. Tem que fabricar um tijolo. Colocá-lo no lugar. Depois fabricar o tijolo seguinte. E por aí vai. É o contrário da impressão que eu tenho de certos autores (Nelson Rodrigues, Henry Miller, Jack Kerouac, Chesterton, Walter Gibson que escrevia a série The Shadow) para os quais escrever é sinônimo de abrir uma torneira: já está tudo pronto para ser escrito, o único trabalho é controlar o fluxo.


De um lado da rua, moram os autores meticulosos cuja escrita é um avanço penoso mas seguro, onde a cada dia de trabalho são produzidas algumas linhas, mas pelo menos se supõe que serão definitivas. Na calçada oposta moram os autores fluentes, caudalosos, que redigem dezenas de páginas num dia de atividade veloz e ininterrupta. Estes – descontando-se, sempre, os que visam apenas a quantidade sem qualidade – parecem ter um mecanismo automático de escolha que faz sua prosa fluir sem maiores considerações caso-a-caso. Quase como se, tendo descoberto uma maneira original, espontânea e variada de dizer o que pretendem, eles já a tivessem automatizado a ponto de produzi-la sempre que necessário, sem muita reflexão.


Robert Silverberg (autor de Uma pequena morte, Crônicas de Majipoor) conta que teve duas fases distintas em sua carreira. Na primeira foi de uma produtividade recorde: “Eu escrevia com espantosa rapidez, vendendo quinze histórias em junho de 1956, vinte no mês seguinte, catorze (incluindo uma serialização em três partes) no outro mês.” Tempos depois, ele dizia: “Tornei-me como os outros mortais, e tenho que redigir duas, ou três, ou às vezes dez versões de cada página antes de poder fazer a datilografia final.”

 
Silverberg foi promovido da energia perdulária da pulp fiction para a contractividade criadora da arte. Tornou-se um artista mais denso e mais complexo, para os que acham que quanto mais cerebral mais artístico – questão ainda em aberto. A autoconsciência do autor que recebe o upgrade de uma pulp fiction para uma New Wave paga o preço de uma teorização filosófica para cada frase. Por que este plano e não outro?, perguntava Jean-Luc Godard, brechtianamente, estancando o fluxo do delírio e mandando os diretores pensarem. Por que esta palavra? pergunta Kafka. E depois de longas assembléias com seus heterônimos ele concorda que a palavra é mesmo aquela. Escreve-a no papel. E tudo recomeça.
 
 
Bráulio Tavares
(Mundo Fantasmo)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Como curar a dor de amor pelo estômago

Bom dia, tristeza. Bom dia, ressaca. Segunda-feira é dia de receitas para mulheres tristes, como no livro acima do compay colombiano Héctor Abad.
 
Há quem diga que a dor de amor está diretamente ligada ao aparelho digestivo. Não às simbologias do coração. Muito menos às ondas do cérebro e o controle da serotonina.
 
É o caso de um personagem de um dos melhores livros da literatura latino-americana: “Tia Julia e o Escrevinhador”, de Mario Vargas Llosa.
 
Repare na tese do rapaz:
 
“Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia(…). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.”
 
A gente sabe que o enfezamento é um dos grandes males da humanidade. Também é do conhecimento público que a mulher, mais que o homem, padece da prisão de ventre.
 
De acordo com a ficção de Vargas Llosa, aquilo que você, rapariga em flor ou linda afilhada de Balzac, imagina como recaída amorosa… pode ser apenas a falta de digestivas ameixas.
 
Com Héctor Abad, a salvação está nas receitas culinárias e em uma certa feitiçaria dos selvagens da América do Sul.
 
Não havia dado muita bola para o livro dele até uma semana atrás, quando o jornalista Paulo Carvalho (Diario de Pernambuco), em um bate-papo comigo no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), tratou de uma certa semelhança entre os textos deste blog e as receitas do colombiano.
 
Precisei ser mordido pela humaníssima mosca azul da vaidade para ler com atenção o receituário. Recomendo.
 
Quando o tédio se instala de vez entre os casais e só o silêncio faz um eco infernal, Abade recomenda que se vá à caça de boas perdizes. Arrastões à parte, pode ser também num restaurante de São Paulo.
 
Ele disse que te ama e você não tem certeza se é verdade? Há uma fictícia sopa que mudará de cor caso o canalha esteja mentindo.
 
As receitas são simples. Pura literatura disfarçada de linguagem de almanaque, coisa que os escritores brasileiros, em nome de fracassadas obras primas, estão esquecendo.
 
Para a mulher curar parceiros impotentes, o livro recomenda a paciência de 31 noites. O cara será o maior amante da história. Terá a amiga tanta paciência?
 
O melhor é o remédio contra a culpa. Carne de dinossauro. Eles foram extintos há 65 milhões de anos.

 
 
Xico Sá