sábado, 25 de abril de 2015


Entender os outros

Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário. 


Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário. 

Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as ações intimas e os objetivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o fato de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao fato de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte. 

Philip Roth, in 'Pastoral Americana'

Primeira palavra

Aproxima o teu coração 
e inclina o teu sangue 
para que eu recolha 
os teus inacessíveis frutos 
para que prove da tua água 
e repouse na tua fronte 
Debruça o teu rosto 
sobre a terra sem vestígio 
prepara o teu ventre 
para a anunciada visita 
até que nos lábios umedeça 
a primeira palavra do teu corpo.

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" 

Versículos do dia

Pois o Senhor, por causa do seu grande nome, não desamparará o seu povo; porque aprouve ao Senhor fazer-vos o seu povo. 1 Samuel 12:22
Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar. Atos 2:39

Deputado quer transformar as palavras piroca, cabaço, baitola, pinguelo e xibiu em patrimônios imateriais do Amazonas

O deputado estadual do Amazonas, Wanderley Dallas (PMDB), apresentou um projeto polêmico. Ele propõe transformar palavras como "piroca", "cabaço", "baitola", "pinguelo" e "xibiu" em patrimônio imaterial do Estado.

Apesar de fazer parte da bancada evangélica, Dallas vasculhou termos encontrados no livro “Amazonês”, de Sérgio Freire, para compor seu projeto de lei. Logicamente, a proposta foi criticada pelos colegas, e o deputado retirou os palavrões do texto. “É um grupo de deputados que se constrange com a palavra ‘cabaço‘, mas usa de boca cheia em qualquer local", disse ele ao jornal Folha de S. Paulo.

Para alguns deputados, Dallas desvirtuou a ideia de patrimônio cultural.  Um dos colegas do peemedebista afirmou que essa é uma estratégia de marketing, para alardear que foram apresentados inúmeros projetos, ou seja, uma forma de mostrar serviço. “Aí depois põe um outdoor dizendo que é o que mais apresentou projeto", disse Orlando Cidade (PTN).


Do Blog do Tião Lucena

Reluz - Sucesso de 1982

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Escritor cearense lança biografia que homenageia 150 anos de Leandro Gomes de Barros

O poeta, cordelista e escritor cearense Arievaldo Vianna lança, nesta sexta-feira, mais uma obra da biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros.
O lançamento acontece às 18h00min, no mezanino Teatro Murarte, em Pombal-PB.

Sobre a verdade


A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida. 


Franz Kafka, in 'Conversas com Kafka' 
O amor é um mistério sem fim, já que não há nada que o explique

Poesia popular

(...)
As voltas da nossa vida
são como as voltas do S
tem uma volta que sobe
tem uma volta que desce
e as voltas que estão no meio
você morre e não conhece.

(...)

Negro do Barraco (poeta pombalense)

Servidores do TJRN mantém a greve

Parabéns aos companheiros e companheiras do Judiciário Potiguar. Mostraram raça e que não se quedam ao pacote de maldades, dito "medidas austeras" pelo presidente do TJRN. Mostraram resistência e unidade na luta. "Não se pode tirar de quem tem menos para dar a quem tem mais"(palavra de ordem do companheiro Bernardo, coordenador geral do Sisjern).


Do face do Celso Batista

Conta alta de energia pode inviabilizar Justiça do Trabalho este ano na Paraíba

O Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região, com sede em João Pessoa, poderá ter seu funcionamento normal inviabilizado este ano, advertiu o presidente da Corte, desembargador Ubiratan Moreira Delgado.

Uma das principais causas, segundo explicou o magistrado, é o “complicador decorrente do espantoso aumento do preço da energia elétrica”.

Alinhado ao objetivo de impor transparência na gestão das ações administrativas, Ubiratan informou que, decorrido o primeiro trimestre do mandato estabelecido para o biênio 2015/2017, a Administração do TRT da 13ª Região tem envidado todos os esforços não apenas para manter o bom funcionamento do Regional, mas, sobretudo, utilizando a criatividade, superar as dificuldades orçamentárias e imprimir maior agilidade à máquina administrativa.

Entretanto, segundo ele, impõe esclarecer que até o presente momento a Lei Orçamentária Anual ainda não foi publicada e existe clara sinalização de possíveis vetos, cortes e/ou contingenciamento de verbas, o que tem dificultado o planejamento e a priorização das ações orçamentárias. “Acresça-se a isso, o complicador decorrente do espantoso aumento do preço da energia elétrica e de outras verbas de custeio, que poderá inviabilizar o funcionamento normal do Judiciário, caso não haja suplementação do orçamento ao longo do ano”, avisou.
A despeito dos fatos mencionados, a administração do TRT 13ª Região tem se desdobrado para atender, ao menos parcialmente, as demandas mais urgentes e necessárias, com os olhos sempre voltados à melhoria das condições de trabalho em todas as unidades.

O presidente Ubiratan Delgado reafirmou, por fim, “o compromisso de continuar trabalhando incansavelmente na busca de soluções para os problemas que se apresentarem, primando por soluções que atendam ao interesse público dos jurisdicionais, razão da existência da Justiça do Trabalho, tendo como norte a observância dos princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, regentes da administração pública”.


Do Blog do Tião Lucena

O minuto da marmota

O Dia da Marmota (Groundhog’s Day) é uma festividade folclórica norte-americana, relacionada com a sucessão das estações do ano, mas acabou virando sinônimo de outra coisa. Por causa do filme Feitiço do Tempo de Harold Ramis, essa expressão virou sinônimo de “um mesmíssimo dia eternamente repetido”, como um disco enganchado, ou como uma atividade que é preciso repetir mil vezes até conseguir fazer certo.

No filme, Phil Connors (vivido por Bill Murray) a princípio se espanta, mas quando percebe que está preso num remanso do Tempo, se resigna a reviver aquele dia da melhor maneira possível. Tudo que as outras pessoas fazem é repetido sempre da mesma maneira, como se fosse um balé com coreografias bem marcadas, de modo que ele aprende a evitar pequenos acidentes. Como sabe que às 11:34 uma pessoa vai levar uma queda, ele dá um jeito de estar lá no minuto certo para evitar algo mais grave. Há uma cena impagável em que “todo dia” ele estuda o transporte de dinheiro de um Banco, e de tanto ver a cena se repetir aproveita um breve descuido dos guardas para surrupiar um dos malotes.

Comentando o filme, o diretor disse que provavelmente o personagem de Murray viveu o equivalente a dez anos (ou seja, dez vezes 365), repetindo aquele dia. Ramis disse que teria de ser mais ou menos esse tempo, já que Murray aprende a tocar piano bastante bem.

Esse conceito de uma cena revivida sem parar por uma pessoa é o mesmo que vemos nos videogames. Se num game de ação, guerra, policial, etc. o jogador precisa, digamos, invadir uma instalação militar e explodir uma bomba, ou entrar numa casa e roubar um documento, ou pegar um carro e fugir até a fronteira, cada tentativa sua provavelmente vai terminar com ele sendo abatido pelos inimigos. Quando o jogador morre, volta (como num Dia da Marmota) para o começo da mesma cena, e a repete de novo. Às vezes são necessárias dezenas de tentativas e dezenas de “mortes” para que ele por fim consiga executar suas ações da maneira ideal, sem ser abatido. Todo video-game é um dia da marmota, ou melhor dizendo um minuto da marmota, eternamente repetido, e que finda com a morte, não com o sono.

Borges dizia que, assim como a correnteza dá polimento aos seixos, gerações de pessoas dão polimento a uma história. O tempo as desbasta de tudo que é não essencial a si mesmas. Foi essa a chance que teve Phil Connors: a chance de dar polimento a um único dia de sua vida e reencaminhar alguns dos seus problemas. Digamos que ele precisou trocar um pneu com o carro em movimento, teve direito a mais de três mil tentativas dispondo de todo o tempo do mundo, acabou acertando... e o jorro do Tempo fluiu.


Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

Sonhei comigo

Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos 
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De loge vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.



Eugênia Tabosa

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O “Adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala
E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”
Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa
E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”
Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . ”
Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”
Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!
E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Excelentíssimo Senhor Fernando Pimentel
DD. Governador do Estado de Minas Gerais

“Minas Gerais não aceita a paz morna da submissão”
(Governador Itamar Franco)

Senhor Governador.

No ano de l982 fui agraciado pelo Governo do meu estado com a Medalha da Inconfidência.

Era então, Diretor do Colégio Tiradentes da Policia Militar sediado em Barbacena e Comandante Geral da mesma Corporação o Coronel PM Jair Cançado Coutinho sendo Governador do Estado o Dr. Francelino Pereira dos Santos.

Por indicação daquele Comandante fui agraciado pelo Governador com esta comenda pelos “relevantes serviços prestados” à gloriosa Polícia Militar e ao seu sistema de ensino.

Não sei se tão relevantes foram esses serviços, mas afirmo que durante os sete anos em que dirigi o referido Colégio entreguei-me de corpo de alma à missão e o fiz despontar, coadjuvado por excelente equipe de Especialistas, Professores e Corpo Administrativo, como Padrão em Minas Gerais, segundo avaliação da Secretaria de Educação, e, sem qualquer dúvida, o melhor de Barbacena.

Cheguei à direção daquele Colégio através de uma caminhada pelas fileiras da Corporação, na qual me alistei, em 1.954, com treze anos de idade, como aluno da Escola de Formação Musical do 9º Batalhão, escola essa criada pelo Governador Juscelino Kubitscheck. Nessa caminhada e graças à PMMG logrei alcançar dois cursos superiores, conquistar o primeiro lugar no Estado no Concurso Público para a Cadeira de História, patrocinado pela Corporação e, em seguida, ser nomeado Diretor do referido estabelecimento.

Com dedicação e apoio do saudoso Coronel Walter Rachid Bittar, Chefe do Estado Maior da PMMG e do não menos saudoso Dr. Chrispim Jacques Bias Fortes Secretário de Obras do Estado, edificamos o novo prédio do Educandário, remodelamos a sua administração e implantamos o Serviço de Supervisão Pedagógica.

Foram vinte e oito (28) anos vividos no seio da Corporação, da qual me desliguei para encetar carreira na Magistratura do Estado de Rondônia.

Reconheço, sinceramente, que a comenda a mim conferida, ultrapassa, e muito, os meus méritos, se é que os tenho, mas a recebi com orgulho e a consciência tranquila de quem tudo fez em prol da educação mineira e em especial da juventude barbacenense.

Hoje, assisto no noticiário haver Vossa Excelência conferido igual comenda a um tal Stédile, de quem ouço falar como invasor de propriedades alheias, de incentivador da desobediência civil, da liderança de insurrectos e como comandante de um exército ilegal e nocivo à segurança nacional.

Respeito a escolha de Vossa Excelência por essa atitude, mas me recuso ao nivelamento a que estão submetidos os nomes de grandes brasileiros que também foram distinguidos pelos governadores que lhe antecederam.

No Brasil atual em que a corrupção endêmica é a tônica do noticiário, em que a mediocridade se sobrepõe à criatividade; a esperteza à honestidade, a incompetência à capacidade e o corporativismo partidário aos interesses maiores na nação,sinto quão imerecida se apresenta essa condecoração, eis que grandes nomes do cenário nacional, em todas as áreas da atividade, são ignorados neste momento pelos governantes de plantão.

Prefiro tê-la merecido sem ostentá-la que dividi-la com quem nada fez em prol do Brasil, da ordem pública e muito menos por Minas Gerais onde é ilustre desconhecido.

Nesta oportunidade peço desculpas ao ilustre Coronel PM Jair Cançado Coutinho e ao Governador Francelino Pereira dos Santos por esta atitude, afirmando, contudo que maior que a comenda que me concederam é a gratidão que por eles guardo no recôndito do meu coração.

Não me julgo superior a esse senhor Stédile, mas a minha modesta biografia, a minha devoção ao meu Estado natal, - berço e sacrário da nossa liberdade - recomendam-me não aceitar esse nivelamento, razão pela qual e por imperativo da minha formação cívica, renuncio ao galardão, com pesar, é verdade, mas convicto de que faço o que dita minha consciência.

A medalha, a passadeira e o respectivo Diploma seguem endereçadas ao Cerimonial do seu governo, via SEDEX com aviso de recebimento.

Atenciosamente.

Brasília, 21 de abril de 2015

MOZART HAMILTON BUENO
RG: M.1.319,984 SSP-MG

Fonte: setecandeeiroscaja

Barbosa diz que aumento do Fundo Partidário é um escárnio

O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa voltou a usar o Twitter para comentar o cenário político. Ele classificou o aumento do fundo partidário como “escárnio”; e questionou: “Para que doações de empresas privadas?”.
Na versão original do projeto orçamentário, o valor era de R$ 289,5 milhões e foi triplicada pelo relator da proposta, o senador Romero Jucá (PMDB-RR).
“R$ 900 milhões para partidos políticos: procure saber em detalhes como essa montanha de dinheiro é gerida pelos caciques partidários”, completou Barbosa.
A decisão da presidente Dilma Rousseff de manter o aumento levou em consideração os reflexos da Operação Lava Jato. Empreiteiras já informaram a dirigentes partidários que não devem doar recursos na eleição municipal do próximo ano

Versículos do dia

Em Deus está a minha salvação e a minha glória; a rocha da minha fortaleza, e o meu refúgio estão em Deus. Salmos 62:7
É semelhante ao homem que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os alicerces sobre a rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa, e não a pôde abalar, porque estava fundada sobre a rocha. Lucas 6:48

“A vontade de ter um futuro na Europa é maior que o medo”

Alguns dos naufragados se agarraram a cadáveres para continuar boiando
Se existiam motivos para esperança, era muito difícil encontrá-los nesta segunda-feira no porto de Catania. As notícias que chegavam durante a longa espera pelo barco que trazia de Malta 27 dos 28 sobreviventes do grande naufrágio de domingo, encontrados ao norte da Líbia, não podiam ser mais trágicas. O barco que naufragou era uma embarcação pesqueira levando centenas de pessoas que fugiam da África e que emborcou quando ia receber ajuda. A ilusão mesmo que mínima de encontrar mais sobreviventes foi se extinguindo, os alertas sobre novos naufrágios no Mediterrâneo multiplicavam a sensação de impotência diante da tragédia infinita, e, para culminar o mal-estar, uma operação da polícia de Palermo confirmava a crueldade extrema dos traficantes de pessoas.
Durante horas, dezenas de jornalistas postados sobre o cais de Catania faziam a mesma pergunta uns aos outros, sem esperança de resposta: “Você se lembra de Lampedusa?” A pergunta era, na realidade, a resposta: nada, absolutamente nada, mudou desde que, no início de outubro de 2013, dois naufrágios sucessivos encheram o aeroporto da ilha de cadáveres de homens, mulheres e crianças, muitas crianças. Desde então passaram-se um ano e meio e outros milhares de mortos. A semelhança entre os dois cenários era desoladora: o barco que se aproxima carregado de morte, os fotógrafos disparando suas câmeras, o grupinho de moradores locais aflitos, os políticos locais com expressões de preocupação apropriadas para as circunstâncias. “Em que porto será nosso próximo encontro?”
Pablo Ordaz, El País
(Foto: Loukas Mastis / EFE)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Buquê de frutas


Mater Originalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quase impalpável gelatina,
Nos estados prodrômicos da vida;

O hierofante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota união ou nenhum nexo
À contingência orgânica do sexo
A tua estacionária alma prendeu...

Ah! De ti foi que, autônoma e sem normas,
Oh! Mãe original das outras formas,
A minha forma lúgubre nasceu!

Augusto dos Anjos