quinta-feira, 29 de março de 2018
Versículos do dia
Filhos sois do SENHOR vosso Deus; não vos dareis golpes, nem fareis calva entre vossos olhos por causa de algum morto.
Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz
quarta-feira, 28 de março de 2018
Andar de manhã
Durante as duas últimas semanas tenho
começado os meus dias cometendo um furto. Não sei como evitar esse
pecado e, para dizer a verdade, não quero evitá-lo. A culpa é de uma
amoeira que, desobedecendo as ordens do muro que a cerca, lançou seus
galhos sobre a calçada. Não satisfeita, encheu-os de gordas amoras
pretas, apetitosas, tentadoras, ao alcance de minha mão. Parece que os
frutos são, por vocação, convites a furtos: basta mudar a ordem de uma
única letra… Penso que o caso da amoreira comprova esta tese
linguística: tudo tem a ver com o nome. Pois amora é a palavra que, se
repetida muitas vezes, amoramoramoramora, vira amor. Pois não é isso que
é o amor? Um desejo de comer, um desejo de ser comido… O muro, tal como
o mandamento, diz que é proibido. Mas o amor não se contém e,
travestido de amora, salta por cima da proibição. Foi assim no Paraíso…
Os poucos transeuntes que passam por ali àquela hora da manhã talvez se
espantem ao ver um homem de cabelos brancos colhendo amoras proibidas.
Mas, se prestarem bem atenção, verão que quem está ali não é um homem
com cerca de 70 anos, é um menino. E como o próprio filho de Deus que
disse que é preciso voltar a ser menino para entrar no Reino dos Céus,
colho e como as amoras com convicção redobrada. E para que não pairem
dúvidas sobre a inspiração teologal do meu ato, enquanto mastigo e o
caldo roxo me suja dedos e boca, vou repetindo as palavras sagradas:
“Tomai e bebei, este é o meu sangue…”. Ah! A divina amora, graciosa
dádiva sacramental! Começo assim meu dia, furtando o fruto mágico que
opera o milagre por todos sonhado de voltar a ser criança.
Assim
revigorado no corpo e na alma por esse maná divino caído dos céus,
prossigo na minha caminhada matutina. Ando não mais que 50 passos e
estou sob uma longa alameda de pinheiros. Neles, não há nenhuma fruta
que eu possa roubar, pois nada produzem que possa ser comido. Pinheiros
não são para boca. São dádivas aos olhos. É cedo ainda. O sol acabado de
nascer ilumina suas espículas verdes, que brilham como agulhas de
cristal. Lembro-me de Le Corbusier, que dizia que “as alegrias
essenciais são o sol, o espaço, e verde”. Mas os pinheiros sabem mais
que o arquiteto, e às alegrias da luz acrescentam as alegrias do cheiro.
Respiro fundo e sinto o perfume de resina.
Se
me perguntarem no que penso, respondo com um verso Tao: “O barulho da
água diz o que eu penso”. Penso as amoras, penso os pinheiros, penso a
luz do sol, penso no cheiro da resina.
É
tempo da floração das sibipirunas. Verdes e amarelas, elas cresceram
dos dois lados da rua onde ando, transformando-a num longo túnel
sombrio. Durante a noite, suas flores caíram, cobrindo a calçada e
transformando-a num tapete dourado. Desço da calçada e ando no asfalto
para não pisá-las. Lembro-me da voz misteriosa que falou a Moisés, de
dentro da sarça que ardia: “Tira as sandálias dos teus pés, pois o chão
onde pisas é santo”.
Para contemplar
esse espetáculo, é necessário levantar cedo, pois logo as donas de casa e
suas vassouras tratarão de restaurar no cimento a sua fria limpeza.
Isso me dói, e com a dor vem o pensamento. Pergunto-me sobre a educação
perversa que fez com que as pessoas se tornassem cegas para a beleza
generosa das árvores, tratando suas folhas como se fossem sujeira. Mas
as sibipirunas, indiferentes à cegueira dos homens e das vassouras
repetirão o milagre durante a noite. Amanhã as calçadas estarão de novo
cobertas de ouro.
Caminho um pouco
mais e chego ao Bosque dos Alemães. Espera-me ali um outro deleite, o
deleite dos ouvidos: há uma infinidade de cantos de pássaros que se
misturam ao barulho das folhas sopradas pelo vento. Não estou sozinho.
Fazem-me companhia muitas outras pessoas, entregues ao exercício
matutino do andar e do correr. Estão ali por medo de morrer antes da
hora. É preciso exercitar o coração. Mas parece que é só isso que
exercitam. Pois, por mais que me esforce, não consigo perceber em seus
rostos sinais de que estejam exercitando também o deleite dos olhos, do
nariz ou dos ouvidos. Correm e caminham com olhos fixos no chão, graves e
concentradas, compelidas pelas necessidades médicas. E, por causa
disso, por não saberem ver e ouvir, não se dão conta de um comovente
caso de amor que ali se desenrola.
Percebi
o romance faz muito tempo, quando ouvi os gemidos que me vinham do
alto. Lá em cima, longe dos olhares indiscretos, um gigantesco eucalipto
e uma árvore de rolha se abraçam. Seus galhos entrelaçados revelam o
amor dos namorados. Acho que fazem amor, pois quando o vento sopra
fazendo suas cascas se esfregarem uma na outra, elas gemem de prazer… e
dor.
Ando toda manhã. Por razões
médicas, é bem verdade. Mas, mesmo que não existissem, andaria da mesma
forma, pelos pensamentos leves e alegres que a natureza me faz pensar.
Boa psicanalista é a natureza, sem nada cobrar, pelos sonhos de amor que
nos faz sonhar.
Rubem Alves, no livro “As melhores crônicas de Rubem Alves”
Humor
A mulher comenta com o marido: Querido, hoje o relógio caiu da parede da
sala e por pouco não bateu na cabeça da mamãe... Maldito relógio.
Sempre atrasado...
terça-feira, 27 de março de 2018
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
segunda-feira, 26 de março de 2018
Humor
Um eletricista vai até a UTI de um hospital, olha para os pacientes
ligados a diversos tipos de aparelhos e diz-lhes: Respirem fundo: vou
trocar o fusível.
domingo, 25 de março de 2018
Pai-nosso, a oração dos cristãos
A oração mais eficaz é aquela feita na intimidade do coração, numa
experiência de total gratuidade, num diálogo amoroso e filial com o
Pai.
A oração do Pai-Nosso é o resumo de todo o Evangelho e o modelo por excelência de toda oração cristã. (Unsplash/ Josh Applegate)
A oração é um privilegiado lugar onde cultivamos a amizade com o Senhor.
Ela brota do mais profundo do nosso coração, na esperança viva que há
um “Interlocutor” que nos ama e conhece todo o nosso ser. “A oração
consiste na comunhão continuada com Deus, com quem se está sempre em diálogo,
a quem se escuta em cada instante do dia e a quem se procura responder
com a mais total transparência e desejo de ser obediente. Existem
momentos específicos, ao longo do dia, para se entregar à oração.
Entretanto, ao se dizer o ‘amém’ final, a vida de oração não fica em
suspenso até o próximo momento, em que se deixará tudo para ficar a sós
com Deus. Antes, ela continua e, em determinadas circunstâncias, no auge
da ação, poderá acontecer de forma até mais intensa e comprometedora”
(Jaldemir Vitório).
Jesus foi um homem orante. Ele estava sempre em
diálogo com o Pai. Nos momentos decisivos de sua vida e de sua missão,
sempre O encontramos em oração ao Pai. Ele, porém, não se preocupou em
ensinar longas orações aos seus discípulos. Para Ele, a oração mais
eficaz é aquela feita na intimidade do coração, numa experiência de
total gratuidade, num diálogo amoroso e filial com o Pai, sem a
necessidade de repetir longas fórmulas somente para ser visto pelos
outros. “Quando fores rezar, entre no teu quarto, (no teu interior, no mais profundo do seu ser, onde somente Deus habita), fecha a porta (entrega sua vida nas mãos de Deus, coloque Deus no centro da sua oração, dê espaço para que Deus possa ser Deus na sua vida)
e reza a teu Pai em segredo. E teu Pai, que vê o escondido, te pagará”
(Mt 6, 6). Não que Jesus quisesse uma espiritualidade intimista,
desligada da vida, mas, para Ele, as palavras que saem dos nossos lábios
devem estar em sintonia com o nosso coração e a nossa vida, numa
misteriosa correspondência entre as profundezas do coração e as alturas
do céu.
Os discípulos de Jesus observavam o seu jeito de falar com
o Pai e, certamente, percebiam algo novo em sua oração, por isso pedem a
Jesus que os ensine a orar (cf. Lc 11,1). Não que eles não soubessem as
orações judaicas. Os salmos, por exemplo, eram a oração comum dos
judeus. Mas eles queriam aprender dos lábios do Mestre esse jeito novo
de falar com Deus. Então Jesus, partindo da sua própria experiência de
oração, ensina os seus discípulos a falarem com Deus-Pai na liberdade de
filhos e na responsabilidade de irmãos.
A oração do Pai-Nosso é o
resumo de todo o Evangelho e o modelo por excelência de toda oração
cristã. Enquanto filhos no Filho, pelo batismo, podemos nos dirigir a
Deus como Pai, e, sendo Pai, é também Senhor de nossas vidas. Por isso, o
nosso maior desejo deve ser pela vinda do Reino e que a vontade de
Deus, que é vida plena para todos, se realize no mundo. Essa perspectiva
da vinda do Reino de Deus une as duas partes da oração ensinada por
Jesus. Pois sendo todos filhos de Deus-Pai, somos chamados a viver a
fraternidade de irmãos (cf. Mt 23,8), repartindo o pão entre todos e
vivendo relações de perdão e misericórdia para com o nosso próximo. Pois
esquecer o outro ou fazer-se indiferente ao rosto que fala é “aprisionar
a glória de Deus” (cf. Rm 1, 18-20). Como afirma Dietrich Bonhoeffer,
“a minha fome é uma questão biológica, a fome do outro é uma questão
teológica. É um apelo de Deus, tenho que encontrar Deus saciando a fome
do outro”.
Os discípulos pedem a Jesus que os ensine a orar, mas o
Pai-Nosso é mais do que uma oração, é, na verdade, o modo de viver e
agir como seguidores de Jesus. Como nos recorda um antigo adágio da
Igreja “lex orandi, lex credendi e a lex agendi”, isto é,
agimos conforme oramos e cremos. Quando rezamos mal, nossa fé e nossa
ação no mundo também ficam fragilizadas. Por isso precisamos pedir
sempre ao Senhor que nos ensine a orar. Porque, com o individualismo que
invadiu as igrejas, nossas orações se transformaram num intimismo
egoísta, perdendo a centralidade do Pai e do seu Reino. Nossa oração
parece ter deixado de ser uma busca pela realização da vontade de Deus
para que Ele faça a nossa vontade. Ao invés de perguntarmos: “Senhor, o
que Tu queres que eu te faça?”, nós pedimos: “Senhor, o que Tu podes
fazer por mim?” Com isso, a nossa oração deixou ser para nós norma da fé e do agir no mundo, transformando-se num devocionismo vazio e descomprometido.
Faz-se
necessário voltarmos a aprender dos lábios de Jesus como nos dirigir a
Deus, a fim de que a nossa oração seja sempre mais esse encontro amoroso
e gratuito com o Pai, e, estando na presença de Deus na oração, abramos
nossos olhos para perceber o sofrimento e a dor dos nossos irmãos e
irmãs. Pois “seremos tanto mais filhos do Pai quanto mais formos irmãos
dos nossos irmãos, dividindo e repartindo com eles o nosso pão e
perdoando-lhes as ofensas” (Antônio Batista Vieira).
Que o Pai
nosso que estás no céu nos livre da tentação de uma oração
descomprometida com a vida dos pobres e dos sofredores e nos ajude a
viver na comunhão com Deus e com os irmãos, repartindo o pão de cada dia
e perdoando-nos uns aos outros assim como somos perdoados pelo nosso
Pai misericordioso.
*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, Missionário Sacramentino
de Nossa Senhora, Licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em teologia
(FAJE), com Especialização para Formadores em Seminários e Casas de
Formação (Faculdade Dehoniana). Publicou pela Editora O Lutador (2015) o
livro “Equipes Missionárias: rosto de uma Igreja em missão”. Trabalha
atualmente na Paróquia Santa Cruz, Alta Floresta-MT.
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