sexta-feira, 28 de julho de 2017
quinta-feira, 27 de julho de 2017
A coragem de ser diferente
Era dia de Ano novo. Eu me levantei cedo, bem cedo, mas não pude sair
logo para passear com o cachorro, pois, lá fora, a festa ainda corria
solta. Somente às 10 da manhã pararam de soltar fogos e pude sair, se
bem que até depois do meio-dia alguns renitentes continuavam soltando um
ou outro foguete, como se as toneladas de pólvora já queimadas na
madrugada não tivessem bastado. As ruas estavam cheias de lixo, muito
lixo, resíduos de uma alegria curta, que se acendeu, subiu, explodiu e
se apagou rapidamente. O que mais me incomodava eram as garrafas
quebradas em todo e qualquer canto, testemunhas da insanidade da festa.
Prestava atenção para não pisar em cacos de vidros, mas minha
preocupação maior era com meu amigo de quatro patas sem sapatos.
Continuamos
o passeio no meio de tanto lixo e insanidade, cruzamos o caminho de
pessoas com ressaca e mau humor e fiquei questionando que sentido faria
tudo aquilo. Comemoramos a virada do ano todos os anos, ficamos alegres
pelo novo ano que chega, mas alegres exatamente por quê? Basta ser
honesto, olhar para trás, ver todas as viradas de ano anteriores e
constatar que nada muda, só continua, não há renovação, não há recomeço,
o saldo no banco fica o mesmo, as dívidas também (ou mais altas, depois
de tantos gastos com as festas de fim de ano), a saúde fica do mesmo
jeito (ou mais abalada pelo alto consumo de álcool, comida e de tudo),
os falsos amigos não se tornam verdadeiros, a obesidade só aumenta e
tudo prossegue como sempre.
O mundo está aí, passando por uma
enorme crise, com o maior número de migrantes desde a segunda guerra
mundial, um verdadeiro êxodo, pessoas que fogem de guerras, de
violência, de tortura, de fanáticos religiosos, de seca, de fome, de
perseguição política, e muitos desses migrantes estão morrendo afogados
ao tentar atravessar o Mar Mediterrâneo para entrar no Eldorado Europa,
outros são vítimas de bandidos, traficantes de órgãos ou de gente, sendo
mortos ou escravizados por aí. Quando chegam na Europa, se veem diante
de arame farpado, racismo e xenofobia. A extrema-direita ganha terreno
em todo o mundo. Ebola ainda mata na África, malária e AIDS também, sem
falar do Zika e muitas outras epidemias que afetam a humanidade. O mundo
se aquece, os oceanos são cada vez mais poluídos com nosso lixo, o
consumismo nunca foi tão selvagem, com trabalho escravo, também
infantil, para nos garantir roupas baratas, ou smartphones, ou seja lá o
que for… No fundo, não há nada para comemorar, mas comemoramos assim
mesmo.
Não vejo sentido, mas respeito, respeito porque somos todos livres para
seguir o caminho que escolhermos, porque é direito de cada um de já ir
com a massa para o Réveillon na praia de Copacabana já pela tarde, para
garantir o melhor lugar, para fazer parte bem na frente, e ficar ali
plantado por horas, esperando, como se isso tivesse realmente alguma
importância. Respeito o direito de quem queima literalmente dinheiro
para soltar fogos em abundância ou com fantasias de carnaval ou com ovos
de chocolate na Páscoa ou com qualquer outra superficialidade, mesmo
que eu não concorde, mesmo achando que isso não é justo diante do número
de pessoas famintas no mundo. Respeito que cada um siga o caminho que
desejar, por mais incompreensível que seja, mesmo percebendo que há
pouca reflexão, que muitos vão por ir, Marias vão com as outras, que
comemoram algo porque todo mundo comemora, sem cogitarem alternativas,
sem terem a coragem de ser diferente, e talvez sem nem mesmo terem
entendido que isso é possível.
E aqui chego ao ponto que queria
chegar, ao tema que quero abordar: o direito que cada um tem de ser
diferente, de não caminhar com o rebanho, de viver da forma que escolheu
conscientemente, sem seguir convenções, sem fazer o que esperam os
outros, de ser realmente livre. Toco nesse assunto por achar emergente,
já que percebo um desvio, já que constato uma injustiça, vendo gente que
tem a coragem de ser diferente sendo acuada, agredida por aqueles que
acham que devemos todos nos comportar como gado, seguindo a massa sem
qualquer senso crítico, sem qualquer reflexão.
Estava em um grupo no Facebook, quando li um post de um de homem que estava preocupado com sua comemoração de Ano Novo: <>.
Algo normal, compreensível, já que essa pessoa tem o direito de correr
atrás de festa. Mas aí alguém respondeu, uma mulher, dando alguma dica,
mas dizendo que ela não iria, pois preferia passar a virada de ano em
casa, com seus filhos. Estranhei então a reação do “festeiro”: <>.
E
a coitada da mulher se sentiu desconsertada, começando a explicar sua
postura e sua decisão, como se fosse uma ré, a acusada em um processo
penal, como se estivesse agindo errado, como se ela simplesmente não
tivesse o direito de dizer que não quer comemorar essa maluquice e
pronto. E li em outros lugares comentários semelhantes: quem quer ficar
em casa, quem se afasta da “loucura” coletiva é taxado de solitário,
esquisito, triste, deprimido, frustrado, arrogante, metido a besta e um
monte de outros adjetivos, rapidamente atribuídos por gente que não
reconhece o direito de alguém ser diferente, de nadar contra a maré, de
não seguir os outros cegamente.
E é exatamente isso que acho injusto: como se não bastasse ter que
suportar uma insanidade coletiva, um exagero festivo sem pé e sem
cabeça, não gostando, temos ainda que nos sentir mal por pensarmos
diferente? Ser diferente, viver diferente é então sinônimo de tristeza,
de frustração, de arrogância? Parece-me que aqui a maioria atropela uma
minoria, fazendo com que gente diferente se sinta mal, fazendo com que
originalidade e independência virem motivos de chacotas, onde pessoas
corajosas, que têm o peito de pensar e agir diferente e que merecem
admiração, terminem se sentindo agredidas, empurradas em um canto, onde
têm então que assumir uma postura defensiva desgastante.Vejo um
desvio, uma inversão de papéis e valores. Não acho isso justo e penso
que deveríamos refletir profundamente sobre o assunto.
Termino
fechando esse texto com dois apelos, sendo a primeiro para aqueles que
não toleram os que são diferentes, que acham que todos temos que seguir
cegamente o rebanho, as tradições, as convenções, tudo aquilo que nos
foi ensinado como certo, ou que simplesmente acreditamos ser certo por
nunca termos feito de outra maneira: viva sua vida da forma que achar
que deve, você é livre para isso. E se você acha que encontrará sua
felicidade no coletivo, no modismo, no mainstream, no consumo exagerado,
no correr atrás sem nunca (ou quase nunca) questionar, faça isso. Esse é
um direito seu! Pessoalmente não acredito que você será feliz, mas não
sei bem, já que não há receita para a felicidade. Pode ser que você
esteja certo em seu caminho e eu errado em minha opinião. Mas, por
favor, não tente fazer com que aqueles que têm a coragem de ser
diferentes e seguir o próprio caminho se sintam como se eles fossem os
“loucos”, pois isso não é assim. Não é loucura caminhar com as próprias
pernas. Loucura é se deixar levar pelo “rebanho”, sem nunca questionar o
percurso.
Já o segundo apelo é para os corajosos, para você, que
tem o peito de ser diferente, de pensar com própria cabeça e seguir o
próprio coração: continue assim! Isso é bom, muito bom! Sei que nem
sempre é fácil, sem que isso muitas vezes faz com nos sintamos sós, mas
não mude esse jeito jamais, pois é ele que faz de você aquilo que você
realmente é: uma pessoas singular e realmente especial. Não é triste ter
a coragem de optar por passar o ano novo ou outras festividades em
casa, tranquilo, sem grandes pândegas e balangandãs. Triste é ter
perdido essa capacidade. Assuma seu direito de ser diferente, de não
caminhar com o rebanho, de viver da forma que escolheu conscientemente,
sem seguir convenções, sem fazer o que esperam os outros, de ser
realmente livre e feliz.
Blogueiro brasileiro residente em Berlim.
Sobre a prepotência
É bastante conhecida a
passagem da Odisseia de Homero em que Ulisses encontra as sereias e, desejando
ouvi-las sem enlouquecer, faz-se amarrar ao mastro do navio em que viaja, não
sem antes alertar seus remadores para que tapem os ouvidos com cera e possam,
deste modo, continuar a travessia normalmente. Esta história encanta muita
gente há muito tempo, mas foi apenas Kafka quem percebeu a ingenuidade de
Ulisses, a de acreditar que o poder do canto das sereias poderia ser contido
por cera e cordas.
Ao perceber isso, Kafka
diz que há algo mais terrível do que o canto das sereias. Segundo ele, se
alguém pudesse escapar ao canto das divindades telúricas, todavia não poderia
escapar ao seu silêncio…
No conto de Kafka,
Ulisses acreditou que as escutava. Mas as sereias não cantaram. E não cantaram
porque Ulisses lhes pareceu um sujeito meio bobo com toda aquela parafernalha
usada para proteger-se do seu canto.
Para entender Kafka,
poderíamos nos perguntar mais ou menos assim: como pode alguém que vai ver e
ouvir as sereias – justamente as SEREIAS – estar preocupado com outra coisa que
não a experiência da coisa enquanto tal, uma coisa absurda como ouvir SEREIAS?
Não se trata de música que se ouve no rádio, nem de nada que se possa baixar na
internet pra ouvir com fones. Trata-se, afinal, do mítico canto das sereias.
Convenhamos que não é pouca coisa, pensemos como Kafka. A verdadeira
experiência de arrebatamento com a qual um ser humano sonha e da qual está
impedido por limitações humanas, ali, finalmente realizável. E Ulisses? Ora,
Ulisses quase chegou lá, mas preferiu menos, não porque quisesse permanecer
humano (afinal, esse problema não era o seu), mas porque já estava com a
consciência instrumentalizada.
Apesar da ingenuidade de
Ulisses, as sereias gostariam de tê-lo capturado. Se não os ouvidos, pelo menos
os olhos do herói astucioso. Mas os olhos de Ulisses não se dirigiam a elas.
Não se dirigiam às forças temíveis da natureza que desejariam justamente
aniquilar olhos em geral. Os olhos de quem se dispusesse a vê-las. Os olhos da
cultura, digamos assim. Ora, o poder dos seres míticos seria o de subjugar os
seres racionais, o poder dos seres divinos deveria suplantar o poder humano.
Seria lógico que Ulisses se submetesse a elas. Mas os olhos de Ulisses eram
olhos distraídos, estavam atentos demais às estratégias para vencer as sereias
e, mesmo assim, eram olhos (e ouvidos, não esqueçamos) que queriam “curtir”.
Aqueles olhos e aqueles ouvidos precisavam ser capturados pelo canto e pela
imagem das sereias, do contrário seria o fim das sereias. Mas Ulisses não podia
dar o braço a torcer e dizer que encontrou com o seu silêncio.
Por sorte, tudo acabou
bem. Ulisses fingiu que ouvia e foi embora. E alguma coisa ele viu. As bocas
perplexas. As sereias, sem entender como era possível que alguém não se desse
conta do que acontecia naquele momento, continuaram existindo apesar de Ulisses
quase as ter destruído com sua boçalidade.
Kafka termina o conto
sem dar uma de Ulisses, ou seja, combatendo a tentação de prepotência que
caracteriza o protagonista homérico, afirmando que talvez Ulisses tenha
percebido tudo isso e tenha escapado das sereias, do seu poder terrível e
destrutivo, o poder da sedução (mas não só, o poder do misterioso que é viver),
justamente controlando esse jogo de aparências, fingindo que tinha entendido
tudo. Ulisses era um espertinho, as sereias sabiam que não, mas Kafka, que era
um homem decente, apenas nos põe a desconfiar e deixa tudo no tom do “quem vai
saber?”.
Há um momento do texto
em que se pode reconhecer o poder da prepotência de Ulisses que quase destruiu
as sereias: “Contra o sentimento de tê-las vencido com as próprias forças e
contra a altivez daí resultante – que tudo arrasta consigo – não há na terra o
que resista.”
Essa força, a da crença
de que se venceu as sereias, não tem comparação. Ela destrói tudo. Mas que
poder de destruição é esse que seria capaz de eliminar logo as sereias se
elas estivesses desprotegidas? Lembremos que as sereias estavam protegidas por
serem inconscientes e permanecerem na eternidade, apenas que ficaram meio
perplexas com o jogo humano…
A condição humana sob o
signo do capitalismo tecnológico nos tornou cada vez mais parecidos com
Ulisses, o boçal. Ulisses que Adorno e Horkheimer chamaram de “protótipo do
indivíduo burguês” não é mais do que o turista que usa câmera de fotografar e
filmar quando teria a chance de entregar-se à viagem; é o pai que filma o parto
enquanto a criança se ocupa em nascer e a mãe torna-se um objeto decorativo no
filme bizarro; é, por fim, o dono do celular último-tipo que deixa de conversar
com os filhos, o amigo, a mulher, porque há coisa muito mais interessante para
ver no mundo virtual além da mesa do restaurante…
Lembro que dizíamos:
aponta-se a estrela e ele olha para o dedo…
Eis Ulisses, olhando
para o dedo com o qual tecla o celular enquanto as sereias resolvem dormir…
O conto de Kafka nos
aponta para a prepotência da inteligência de Ulisses que, na época só tinha em
mãos, corda e cera. Hoje, na era tecnológica, com os aparelhos impressionantes
que temos, somos todos Ulisses em estado avançado de putrefação espiritual.
Perdemos de ouvir o canto das sereias porque nossos olhos distraídos são de
vidro, plasma, LCD, LED, ou outro material que empolga os tontos no contexto da
ideologia da alta resolução. Evolução direta da cera e da cordinha que amarrava
Ulisses ao mastro fazendo ele se sentir inteligente.
Viver, mais uma vez,
deve ser algo parecido com “resistir” a essas bugigangas. Resistir certamente
nos fará ouvir o silêncio das sereias.
Márcia Tiburi
Publicado originalmente
na Revista Cult
Palavras para a Minha Mãe
Mãe, tenho pena. Esperei
sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
Sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. Pelas palavras
que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de
fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
Às vezes, quero dizer-te
tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a
fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. Lê isto: mãe,
amo-te.
Eu sei e tu sabes que poderei
sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não
escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe,
mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto
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