sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mário Quintana

Da perfeição da vida
Por que prender a vida em conceitos e normas?
O Belo e o Feio... o Bom e o Mau... Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do ser!
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Inscrição para uma lareira
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...
 
 
Sugestão de postagem do amigo Adauto Neto

Traduzir ou não, eis a questão!

Tenho um enorme fascínio pela profissão de tradutor. Sendo eu uma apaixonada pelas letras, delicio-me com a imensidão de palavras que existem em cada idioma e nas equivalências entre elas. Maravilho-me com expressões idiomáticas, estrangeirismos, e mais ainda com as palavras ou expressões que são únicas em cada língua, pertença da cultura que lhes deu origem.
 
Quando era miúda passou-me pela cabeça ser jornalista, depois ganhei juízo e percebi que seria mais bem sucedida como economista mas hoje, olhando para trás, acho que teria sido uma boa tradutora, ou talvez não… Admiro imenso a profissão e acho-a verdadeiramente útil no contexto de globalização em que vivemos. Não consigo conceber o mundo como um conjunto de povos isolados, sem contacto uns com os outros, nem me imagino a viver confinada à produção nacional. Existe muita coisa boa e interessante produzida em português, mas não podemos esquecer-nos que o conhecimento advém do que já foi dito, escrito ou traduzido, o resto é fruto do que a nossa imaginação cria e traz à luz do mundo.
 
Claro que ao falar em tradução não posso deixar de mencionar a indústria audiovisual. Confesso que a minha falta de conhecimento me levou muitas vezes a criticar este tipo de tradução, com comentários do tipo: “que péssima tradução”, “ele não disse aquilo”, “ele disse muito mais do que foi traduzido”, ou o mais castrador “os portugueses não sabem traduzir”. Foi preciso ter alguma humildade para revelar estes comentários a uma amiga, tradutora de audiovisual, e pedir que me explicasse porque é que a tradução em Portugal não é fiel ao que é dito pelos actores. A explicação, surpreendentemente simples, revelou-me a minha ignorância sobre o assunto. De fato, a tradução audiovisual é bem mais complexa do que parece à primeira vista, é necessário cumprir regras criteriosas, nomeadamente, número de palavras por linha e número de palavras em cada cena. Traduzir um filme, por exemplo, não tem nada a ver com a tradução de um livro, em que para transmitir uma determinada ideia se pode recorrer a uma explicação minuciosa. A tradução audiovisual tem de ser simples e perceptível, transmitindo apenas as ideias principais, até porque o mais importante é conciliar o que se lê com o que se vê. Depois disso, comecei a comparar traduções de filmes em inglês com legendas em inglês e dei-me conta que as traduções portuguesas seguem as mesmas regras que as outras.
 
Como diz a minha amiga tradutora, o trabalho do tradutor deve ser invisível, isso marca uma boa tradução. E hoje, realisticamente, sou levada a concluir que a profissão de tradutor me fascina, mas não é para mim!
 
 
Por Joana Nave

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Versículos do dia

Porque os ídolos têm falado vaidade, e os adivinhos têm visto mentira, e contam sonhos falsos; com vaidade consolam, por isso seguem o seu caminho como ovelhas; estão aflitos, porque não há pastor. (Zacarias 10:2)
 
 
Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. Amém. ( 1 João 5:21)

Para Vaticano, papiro ‘não muda nada’

O Vaticano demonstrou ceticismo a respeito da possibilidade de Jesus Cristo ter sido casado, hipótese levantada mais uma vez após ser revelado anteontem em Roma um fragmento aparentemente autêntico de papiro do século 4.º no qual Jesus menciona a frase “minha mulher”.
“Não se sabe de onde veio esse pedacinho de pergaminho”, disse ontem o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi. “Mas isso não muda em absoluto a posição da Igreja, que se baseia em uma imensa tradição, muito clara e unânime. Não muda nada a visão de Cristo e dos evangelhos. Esse acontecimento não tem influência alguma sobre a doutrina católica”, reiterou.
 
 
Estadão.com.br

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
 
 

Joy Division


Ministério da Educação da Malásia publica lista de "sintomas" da homossexualidade

O Ministério da Educação da Malásia está recomendando uma lista de características que acredita poder ajudar os pais a identificar a homossexualidade em seus filhos.
A lista foi distribuída aos participantes de um seminário e publicada pelo diário chinês “Sin Chew Daily”. Entre os “sintomas” listados para detectar a homossexualidade nos meninos, estão: ter um corpo musculoso; gostar de exibí-lo usando camisetas com gola V; preferir roupas de cores claras; e usar bolsas grandes ao sair.
***
Ou seja, para os imbecis no Ministério da Educação da Malásia, o Wolverine é gay…
E olha que nem falaram de unhas postiças, hein!
 
 
Do kibeloco

Frase

"A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado.”
 
 
 Eduardo Galeano

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ninguém lembra mais de Maria, a menina da seca

Hoje quase ninguém lembra da menina Maria, aquela que a seca levou para junto de Deus. Tinha apenas seis anos e era um anjo.

Foi na seca, uma seca terrível.

Maria vivia na zona rural de Santa Luzia, numa terra verde, cheia de rios, de açudes, de pássaros, de bichos, de muita fartura e muita alegria. Os campos de Maria eram enfeitados de pendões de milho, pendões que cresciam na direção do céu agradecendo as chuvas que de lá caiam para espalhar alegria entre os agricultores e filhos de agricultores, que cultivavam a terra e dela tiravam a seiva da vida, o sustento do corpo.

Os amiguinhos de Maria juntavam-se a ela nas brincadeiras de criança. Corriam pelos caminhos estreitos de terra batida, banhavam-se nos córregos, riachos e açudes, voavam com as borboletas coloridas por sobre os matos em flor e sonhavam com a fada madrinha que um dia as levariam ao mundo encantado das estórias de trancoso, aquelas estórias que entravam pela perna de pinto, saiam pela de pato, e o senhor rei mandava que contassem vinte e quatro.

Até que veio a seca.

No princípio quase não foi notada. Ela chegou de mansinho, traiçoeira, silenciosa, igual a cobra venenosa que não perde o bote, nem a presa. Pouco a pouco se apoderou de tudo, do chão, do ar, das matas e dos açudes. O mato perdeu o verde, os açudes ficaram sem água, o ar quente esturricou e asfixiou os pulmões. A vida se foi.

Onde antes havia água em abundância, havia agora lama seca, rachada. Os peixes em pouco tempo morreram e secaram. Os animais, sem água e sem pasto, foram morrendo um atrás do outro. As mulheres se tornaram viúvas de maridos vivos. Os maridos partiram como retirantes para outras terras, buscando sobrevivência, deixando no seu rastro o lar de antigamente, os seus amores e os seus sonhos.

As estradas se encheram de nômades em procissão. Quem tinha força, caminhava fugindo, os de pouca força morriam no caminho. As estradas encheram-se de cruzes que marcavam os locais onde eles morreram de fome e de sede.

A mãe de Maria foi alistada na frente de emergência do Governo. Todo dia de manhã levantava-se pela madrugada, improvisava alguma coisa para Maria comer, deixava-a dormindo, saía de casa e ia trabalhar. Maria ficava só, o dia todo, olhando as telhas, puxando conversa com a solidão.

Um dia a mãe de Maria foi para a frente de emergência e,quando Maria acordou, sentiu saudades dela. Levantou-se e saiu pela caatinga em busca da mãe. Andou, andou, subiu ladeiras, caminhou pelas areias quentes dos riachos secos, pisou com seus pezinhos descalços as pedras quentes dos lagedos esturricados, mas nada de encontrar a mãe. O céu ficou cinzento, o sol inclemente botou seus raios para fora, a pele de Maria começou a queimar, a pedir água. Maria cansou, sentou-se num canto de cerca buscando descanso, fechou seus olhinhos e viu aquela fada madrinha dos seus sonhos infantis chegar, pegá-la no colo e levá-la para o mundo faz de conta das estórias de trancoso.

Três dias depois a mãe de Maria, com a ajuda de vizinhos, a encontrou no canto de cerca, sentada, braços cruzados sobre o peito, olhinhos fechados, cabelos em desalinho. No seu rosto branco como a neve não havia, porém, sinais de sofrimento. Ao contrário, Maria tinha nos lábios o sorriso de quem se encantou deste mundo, trocando-o por outro onde as crianças não sofrem e escutam estórias de fadas.


Tião Lucena

Hora do recreio - Pegadinha: olhe o tiro!!


 
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Humor


terça-feira, 18 de setembro de 2012


Os dois patos e a tartaruga

Relaxe, se aquiete e ouça atentamente este conto sobre uma tartaruga que vivia numa enorme lagoa de águas frescas e cristalinas. Quer dizer, até algo muito estranho acontecer! O que poderia ser? Vamos ver se você descobre!

Há muito tempo, a tartaruga morava numa terra distante, onde fazia um calor forte. Durante anos, ela viveu feliz nadando preguiçosamente e tomando sol nas grandes folhas de lírio d'água que cobriam a superfície da lagoa. Às vezes, abocanhava uma libélula, ou tentava capturar um gordo e suculento besouro para comer.

A vida era agradável para a tartaruga... até que, num verão extremamente quente e seco, a chuva parou e o sol brilhou tão ferozmente que a água fresquinha e transparente da lagoa começou a secar. Pouco a pouco, a lagoa diminuía; a cada dia estava mais seca. Um dia, havia tão pouca água que a tartaruga decidiu procurar uma nova casa, antes que a lagoa sumisse de vez. Mas como ela faria isso?

De manhã cedo, quando o sol apareceu no céu, a tartaruga se preparou para buscar ajuda. De repente, ouviu dois patos gritando - qüéim, qüéim, qüéim -, enquanto voavam por cima dela. Sem pensar duas vezes, a tartaruga os chamou:

- Patos! Ei, vocês aí em cima! Por favor, me ajudem! Minha casa está secando. Vocês gentilmente me levariam para outra lagoa cheia de água?

- Mas como podemos fazer isso? - responderam os patos. - Nós estamos voando no céu aberto e você está aí no chão.

No momento em que tudo isso acontecia, a tartaruga tropeçou num galho bem comprido que estava no meio do caminho. E teve uma idéia:

- E se vocês carregassem esse galho entre os seus bicos? - sugeriu. - Assim eu poderia segurar nele com a boca e vocês me carregariam até uma outra lagoa.

- É uma boa solução - concordaram os patos, e aterrissaram perto da tartaruga. - Mas você deve prometer não abrir a boca enquanto a transportamos.

E assim ficou combinado. Os patos colocaram o galho entre os dois bicos, como uma barra, na qual a tartaruga se segurou pela boca. Eles levantaram voo e carregaram a amiga pelo céu em direção a uma lagoa cheia de águas cristalinas e frescas que brilhava no horizonte.

No caminho, passaram por sobre um campo onde algumas crianças brincavam ruidosamente. Ao ouvirem asas dos patos batendo, as crianças olharam para cima e caíram na gargalhada com a cena estranha.

- Que ridículo! - zombou uma menina. - Dois patos carregando uma tartaruga num galho! Não é uma bobagem?

Hum... a tartaruga fi cou muito zangada com aquilo. A cena poderia mesmo parecer muito esquisita, mas havia uma boa razão para tudo aquilo. Irritada, ela esbravejou com as crianças:

- Vocês é que são estúpidos! Não entendem naaaaaada!

Assim que abriu a boca para falar, a pobre tartaruga soltou o galho e caiu pelo céu ensolarado até estatelar-se na grama.

- Ui! - exclamou ela, esfregando a cabeça dolorida. - Se pelo menos eu não tivesse escutado essas crianças... Agora vou pensar duas vezes antes de responder com raiva a alguém.

Muitas vezes, nos expressamos com raiva, sem refletir sobre o que pode acontecer depois. Uma pessoa sábia pensa antes de falar e, se não pode dizer nada gentil, opta por ficar em silêncio.
 
 
Da net

Pescado do face do Mario Ascenso
"A verdade permanece misteriosa, fugidia, jamais conquistada. A liberdade é perigosa, tão difícil de viver quanto exaltante. Temos de caminhar sempre na direção desses dois objetivos de uma forma penosa mas resoluta, seguros da presença das nossas fraquezas no curso de um tão longo caminho."
 
 
Albert Camus
 
 René Descartes

Autoajuda animal: como ser um bom marido

Cena banal, banalíssima, mas que diz muito. Café do embarque, Congonhas.
 
O maridão, de certa forma até carinhoso, entrega a garrafa de água mineral para a mulher dele.
 
- Essa é com gás, desde quando eu gosto de água assim?
 
Lesado, aéreo, o cara fica meio sem resposta.
 
- Você está comigo há sete anos e não sabe ainda das minhas preferências – a mulher humilha o sujeito.
 
A cena, banal como esta crônica, mostra o desligamento do homem no varejão da rotina. O camarada é capaz de virar herói de guerra, menos de prestar atenção nos usos e costumes da sua fêmea.
 
Mulher odeia o desatento reincidente. Nem falo de notar que a princesa decepou as madeixas. É exigir demais. Até porque as meninas de hoje mexem muito na juba.
 
Uma mudança radical, quando a Lola pinta o cabelo de vermelho, por exemplo, reparamos com uma certa facilidade.
 
O duro é quando ela exige que notemos uma rápida alteração no tom californiano das pontas, umas tímidas luzes, cruzes!
 
A fêmea e o mundo capilar é um assunto à parte. Retomemos a inocente garrafa de água com gás e suas circunstâncias.
 
Acompanhe este outro episódio:
 
Ela tem alergia a camarão e outros crustáceos. O lesado viaja com ela para São Miguel do Gostoso (RN) e é a primeira coisa que pede para os dois. Achando inclusive que vai fazer bonito, agradá-la.
 
Não seria nada demais se estivessem ainda se conhecendo. Acontece que eles estavam há mais de dez anos enrabichados sob o mesmo teto. Falha grave, amigo. Digo estavam porque a amiga alérgica decidiu, justamente neste momento, começar a pensar em separação.
 
O marido, que ainda não se recuperou do pé-na-bunda, ficou traumatizado. Não pode ver camarão pela frente. Adquiriu uma espécie de alergia sentimental incurável.
 
São casos banalíssimos que representam o descuido no dia-a-dia e no conjunto da obra. Repare que nem estamos falando na desatenção no sexo. Se liga, macho.
 
O exemplo para ser bom homem e agradar as mulheres, essa arte tão rica e misteriosa, está no reino animal.
 
Quase uma fábula de Esopo.
 
Repare nos três segredos da zoofilia fantástica: a atenção de uma coruja, o tesão do galo e a proteção de um cão-de-guarda.
 
Lembrando sempre destes três bichos e suas funções primordiais, você, meu amigo de fé, meu irmão camarada, seguramente será um novo homem.
 
 
Xico Sá

Democracia e dissenso no Supremo

Nasce um sentimento, inclusive entre as classes mais baixas, de abandono da visão conformista sobre a corrupção. Termos como "peculato" chegaram ao povo
O julgamento do mensalão é uma experiência inédita de toma de consciência nacional quanto à própria legitimidade da nossa vida pública.
Os primeiros louvores ao Supremo teriam nascido do clássico moralismo das classes médias, e de sua boa consciência, em que a luta contra a corrupção termina a serviço do "status quo".
Entretanto, à proporção que avança o julgamento, se registra o avanço do apoio das baixas classes C e D, em contrário, do seu suposto desinteresse, no começo do julgamento da Corte.
Tornou-se avassaladora a popularidade de Joaquim Barbosa, a contrastar com a violência da reação a Lewandovski, no primeiro voto contrário à condenação de João Paulo Cunha.
O ministro Marco Aurélio nos lembraria, em frase-chave, de como a democracia profunda repele as unanimidades das cortes supremas, mostrando a importância dos dissensos para garantir a exaustão do contraditório judiciário.
Repetiu-o Cesar Peluso, ao mostrar que nenhum juiz se pode eximir da passagem das certezas às convicções, na implicação moral limite do ato de julgar, "sem ódio".
O debate, a partir da intervenção de Lewandovski, insistiu, ao mesmo tempo, na tecnicalidade das sentenças, a reforçar a credibilidade oriunda da prova dos autos, frente à repetição dos depoimentos confessionais.
Na maré das críticas, o que emerge é uma indignação nascida do que já passou em julgado pela opinião pública, a acusar-se o revisor de julgamento com dois pesos e duas medidas, de subserviência aos interesses do Planalto.
Há algo de irreversível nesta tomada de consciência, marcada por uma primeira convicção de que prevalece a lei sobre o dinheiro no jogo dos nossos poderes. O crescendo desse sentimento, nos dias atuais, nasce das classes populares como uma surpresa e do abandono de uma visão cínica, e, até há pouco, conformada com a corrupção endêmica.
A precisão da denúncia do procurador-geral ganhou uma narrativa envolvente dos crimes arrolados, e da figuração múltipla de seus protagonistas. É inédita, também, a cobertura contínua do espaço midiático, na didática ampla das espécies de infringência da lei, permitindo o surgimento de uma gramática do ilícito, das lavagens de dinheiro ao peculato, termos, hoje, todos na boca do povo.
O fatiamento das decisões, por outro lado, não levou ao anticlímax, tanto quanto não reduziu o clamor pela guilhotina contra os réus do mensalão.
Ganhamos, lá fora, hoje, a admiração pelo avanço do nosso regime democrático. E o atual voto do STF desarma o espectro da ditadura da convicção coletiva sobre a busca penosa da verdade desnudada.
Os votos caminharam por múltiplos afluentes, em todo o contrário de apoios sumários à procuradoria-geral ou à relatoria, na segurança das convicções emprestadas aos vereditos. Ultrapassam os moralismos fáceis, as tecnicalidades de circunstância, e as metodologias dos subterfúgios, num julgamento exemplar na consolidação do nosso Estado de Direito.

CÂNDIDO MENDES, 84, é membro do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
 
Folha de São Paulo

Elvis - Blueberry Hill


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

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A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
 
Carlos Drummond de Andrade

 
"O fato central da minha vida tem sido a existência de palavras e a possibilidade de as tecer em poesia."
(Jorge Luis Borges)