domingo, 6 de janeiro de 2019
Onde fica o meio do mundo
São vários os contos populares onde esta cena
aparece. Eu me refiro àquele confronto que geralmente se dá entre o herói, que
é um cara apenas esperto, e o poderoso Rei. O Rei faz uma série de perguntas, e
o esperto as rebate com um negaceio diferente de cada vez.
Aí, o Rei pergunta:
– Onde fica o meio do mundo?
E aí “Camões”, ou “Cancão de Fogo” ou qualquer outro
diz:
– Exatamente ali, perto daquela coluna do palácio.
– Como é que você sabe?
– Pode mandar medir.
O Rei não tem como mandar medir, e talvez nem soubesse
explicar o que era pra ser medido. Ele pergunta:
– Quantos cestos de terra tem naquela montanha? –
aponta a janela escancarada.
O esperto diz:
– Um milhão, duzentos mil, e vinte e seis.
Se o Rei fosse esperto, os dois se engatariam nesse
ponto, gerando um impasse absoluto, como um empate por exaustão no xadrez. Mas
o Rei é um mero personagem, e precisa fazer a terceira pergunta, a frase fatal
para que o vírus da História seja passado adiante:
– O que é que eu estou pensando?
E “Arlequim”, ou “Pedro Malazarte” responde:
– Está pensando que eu sou [a falsa identidade sob a
qual ele se apresentou ao rei], mas não sou, eu sou [Arlequim, Malazarte].
E o conto se desenlaça. O que há de interessante
nessas cenas é que pertencem ao conto de fadas, à literatura de cordel, ao
esquete de humor, à arte da pergunta acachapante e da resposta relâmpago. São
de circo, são de almanaque medieval, são das madrugadas radiofônicas. Um
antropólogo talvez dissesse que ela cumpre um pouco a função de cortar
nós-górdios filosóficos reduzindo tudo a uma cambalhota simples.
O interessante é que pode-se manter essa ceninha,
vamos chamá-la “O Interrogatório” ou “As Três Perguntas do Rei”, entre os
quadros de uma história, mas mudando-se, como convier, quais as perguntas
feitas, as respostas dadas. É um bloco que pode ser trocado por diálogos novos,
mas sempre mantendo essa função: o esperto “come o rei com farinha”.
Dando uma geral nas literaturas antigas do Ocidente
e do Oriente a gente vê o quanto é comum esse conceito da cena que pode ser infindavelmente
mudada e ainda assim continuar a mesma. Ela precisa cumprir sempre a mesma
função: fazer o esperto revelar sua identidade ao rei, após derrotá-lo. A
perguntas e as piadas podem ser mil vezes refeitas por quem encenar esse conto.
São centenas as aventuras de cordel em que um
coronel ou rei ou fazendeiro põe a filha no balcão matrimonial, com a condição
de que o pretendente responda três perguntas, ou formule três perguntas
próprias, ou pratique alguma façanha, para merecer a mão da noiva em disputa. É
a aliança estratégica entre o Poder (o rei) e o Saber (o esperto).
É claro que todas essas histórias são contos
inventados, e é muito fácil imaginar um improviso de fração de segundo quando
se está escrevendo e revisando em toda comodidade. Mas o “repente relâmpago”
também existe na vida real, aquela resposta ideal imaginada, formulada e dita
em voz alta ao longo de alguns segundos.
Diz-se que Bocage usava, em alguns círculos
poéticos, o pseudônimo anagramático de Elmano, a partir de seu nome verdadeiro,
Manoel Bocage.
Um dia vem ele por Lisboa quando cruza com outro
poeta, que, vendo-o cabisbaixo, pergunta em verso:
– Elmano, a lira divina / por que razão emudece?
Bocage, que estava meio sorumbático, ripostou:
– Porque mais cala no mundo / quem mais o mundo
conhece.
O amigo tornou, em cima da bucha:
– E o que tens visto no mundo / que tanto assombro
te faça?
E “Elmano Sadino” fechou a estrofe:
– Um poeta com ventura, / um toleirão com desgraça.
Bocage era da linhagem de poetas malditos, como
Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”. Na
vida de cada um deles vê-se a presença do improviso leve e solto, parte de uma
cultura, que pode chegar a encenar grandes disputas de arquibancada cheia; mas
no geral é para uso cotidiano, em mesa de bar.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo
Maturidade psicológica: A arte de viver em paz com o que não podemos mudar
A maturidade psicológica pode ser
definida de muitas maneiras, mas o escritor escocês MJ Croan resumiu
perfeitamente esse conceito: “A maturidade é quando o mundo se abre e
você percebe que não é o centro dele “.
Amadurecer
significa deixar a nossa visão egocêntrica para compreender que existe
um mundo maior e mais complexo, um mundo que muitas vezes nos coloca à
prova e que nem sempre satisfará nossas expectativas, ilusões e
necessidades. E, no entanto, quando amadurecemos, podemos viver em paz
naquele mundo, aceitando tudo de que não gostamos, mas não podemos
mudar.
Negar a realidade: um mecanismo de enfrentamento imaturo e inadequado
A
negação é um mecanismo de enfrentamento que envolve negar
fervorosamente a realidade, apesar dos fatos. Geralmente esse mecanismo é
acionado por duas razões: 1. Porque nos apegamos a ideias rígidas que
não queremos mudar ou 2. Porque não temos os mecanismos psicológicos
necessários para enfrentar a situação.
Em
ambos os casos, negar a realidade nos permite reduzir a ansiedade em
uma situação que nosso cérebro emocional já catalogou como
particularmente perturbador ou mesmo ameaçador. O problema é que a
realidade sempre vence.
Se um
perseguidor nos aborda no meio da rua, não fechamos os olhos repetindo
mentalmente: ” Isso não está acontecendo! ” Entendemos que estamos em
perigo e escapamos ou pedimos ajuda. No entanto, não reagimos da mesma
forma ao resto das situações da nossa vida. Quando não gostamos de algo,
estamos desapontados ou entristecidos, implementamos o mecanismo da
negação.
Negar veementemente os fatos
não os fará mudar. Pelo contrário, nos levará a tomar decisões menos
adaptativas que podem nos causar mais danos. A pessoa madura, pelo
contrário, aceita a realidade, não com resignação, mas com inteligência.
De fato, o psiquiatra alemão Fritz Kunkel disse que ” ser maduro
significa enfrentar, não fugir, a cada nova crise que chega “.
A arte de encontrar equilíbrio na adversidade
“Era
uma vez um homem que estava tão perturbado ao ver sua própria sombra e
não gostava tanto de seus passos que decidiu se livrar deles.
“Ele
veio com um método: fugir. Então ele se levantou e correu, mas toda vez
que ele colocava um pé no chão, havia outro passo, enquanto sua sombra o
alcançava sem a menor dificuldade.
“Ele atribuiu o fracasso a não correr rápido o suficiente. Ele correu mais e mais rápido, sem parar, até que ele caiu morto.
“Ele
não entendeu que teria sido o suficiente para ele se colocar em um
local sombreado para que sua sombra se desvanecesse e que, se ele se
sentasse e permanecesse imóvel, não haveria mais passos.”
Esta
parábola de Zhuangzi nos lembra uma frase de Ralph Waldo Emerson: ”
Maturidade é a idade em que não se é mais enganado por si mesmo “. O
escritor referiu-se ao momento em que estamos plenamente conscientes dos
mecanismos psicológicos que colocamos em prática para lidar com a
realidade e proteger nosso “eu”, até o momento em que percebemos que a
realidade pode ser difícil, mas que nossa atitude e perspectiva são duas
variáveis essenciais nessa equação.
Portanto,
a maturidade psicológica, inevitavelmente, envolve auto – consciência
envolve conhecer as Thugs mentais que usamos não para avançar , os
mecanismos que usamos para fugir da realidade e errôneas crenças que nos
mantêm ligados.
Esse conhecimento é
básico para lidar com os problemas e obstáculos que a vida nos coloca.
Infelizmente, há pessoas que, como o homem da história, nunca atingem
esse nível de autoconhecimento e acabam criando mais confusão e
problemas, alimentando a infelicidade e o caos interior.
Atingir
a maturidade psicológica não significa aceitar passivamente a realidade
assumindo uma atitude resignada, mas ser capaz de olhar com novos olhos
o que acontece, aproveitando aquele soco para fortalecer nossa
capacidade de resistência, conhecer-se melhor e até mesmo crescer.
William
Arthur Ward disse: ” Cometer erros é humano e tropeçar é comum; a
verdadeira maturidade é poder rir de si mesmo “. Ser capaz de rir de
nossos velhos medos porque agora eles parecem grotescos para nós, sobre
nossas preocupações ampliadas e aqueles obstáculos “intransponíveis” que
eles realmente não eram, é uma amostra enorme de crescimento. Rir sobre
nossas velhas atitudes e crenças não significa apenas que elas são
parte do passado, mas que elas não têm mais nenhuma influência emocional
sobre nós.
A verdadeira maturidade
psicológica surge quando praticamos aceitação radical , quando olhamos a
realidade para os olhos e, em vez de descermos, nos perguntamos: ” Qual
é o próximo passo? ” Isso significa que, embora a realidade possa ser
dolorosa, não ficamos presos no papel de vítimas sofrendo em vão, mas
protegemos nosso equilíbrio emocional adotando uma atitude proativa.
Por Pensador Anônimo
Um genial burocrata chamado Graciliano Ramos
Poucos hão de duvidar que Graciliano Ramos foi um dos maiores escritores
da literatura brasileira. Para muitos, no âmbito do romance, ele seria
simplesmente o segundo melhor de nossa história literária, atrás apenas
do imbatível Machado de Assis, tido e havido como um dos grandes da
literatura universal. Na honradíssima segunda colocação no panteão das
letras nacionais, somente Guimarães Rosa poderia lhe fazer frente, ainda
que, a rigor, só tenha produzido um romance (Grande Sertão: Veredas,
claro). Fora da seara que o consagrou, sabe-se que Graciliano Ramos
amargou alguns meses de cadeia por causa de uma insuspeitada atividade
política, fato narrado por ele mesmo em um de seus livros mais
conhecidos, Memórias do Cárcere (1953), dos melhores em seu gênero
específico. Mas isso se sucedeu em 1936, em virtude da paranoia
anticomunista que se seguiu à Revolta Vermelha, quando o escritor
alagoano já havia adquirido algum reconhecimento graças às suas
primeiras obras: Caetés, de 1933, e São Bernardo, de 1934. Uma faceta
menos conhecida de sua personalidade, porém não menos fascinante, diz
respeito a uma experiência ocorrida nove anos antes de sua prisão, em
1927, época em que se tornou prefeito de uma cidade chamada Palmeira dos
Índios, localizada no interior de Alagoas.
Não seria cabível adentrar nos detalhes relacionados à sua eleição para o
posto. Aos interessados, recomenda-se o livro O Velho Graça, biografia
escrita por Dênis de Moraes merecedora de inúmeras reedições. Mais vale
aqui discorrer um pouco sobre a competência e a lisura com que o futuro
autor de Vidas Secas (1938) desempenhou-se na tarefa, além de demonstrar
um curiosíssimo elo existente entre essa experiência e sua posterior
carreira literária. Em sua rápida passagem pela prefeitura de Palmeira
dos Índios, pois renunciaria ao cargo em 1930, Graciliano Ramos
moralizou as práticas administrativas, saneou as contas do município,
promoveu obras nos bairros pobres e sobretaxou os cidadãos mais ricos.
Tudo isso em um intervalo de pouco mais de dois anos. Para Elio Gaspari,
um dos grandes nomes da imprensa atual, a administração de Graciliano
Ramos nessa pequena cidade alagoana deveria ser tomada como exemplo de
probidade e impessoalidade no trato da coisa pública. Não à toa, o
jornalista costuma recorrer com frequência ao nome do romancista quando
precisa dar alguma lição de moralidade aos nossos políticos, sempre
dispostos a tratar a República como se esta fosse um quintal de suas
casas.
Mais do que administrar bem a cidade em que vivia, Graciliano Ramos
escrevia relatórios periódicos para prestar contas de sua gestão à
comunidade e ao governador. Tais relatórios, como devem saber aqueles
que têm um pouco mais de intimidade com a obra do autor, eram
verdadeiras pérolas literárias, pois já continham, em embrião, aquele
inconfundível estilo contido, sóbrio, de uma correção ímpar, que
caracterizaria a maior parte de seus livros (Angústia, de 1936, seria,
talvez, a exceção à regra). Aquele estilo, como diria o crítico
literário Antonio Candido, em um estudo importante sobre Graciliano
Ramos chamado Ficção e Confissão, no qual se destaca “[…] a suprema
expressividade da linguagem, assim como a secura da visão de mundo e o
acentuado pessimismo, tudo marcado pela ausência de qualquer chantagem
sentimental ou estilística”. Ao se desincompatibilizar da prefeitura,
renunciando ao mandato para assumir a direção da Imprensa Oficial do
Estado de Alagoas, em Maceió, Graciliano Ramos redigiu um relatório
final que seria publicado no Diário Oficial e em outros jornais. Uma
cópia dele acabou chegando às mãos do poeta e editor Augusto Frederico
Schmidt, que, impressionado com a singularidade da escrita, ao ficar
sabendo que o ex-prefeito preparava um romance (Caetés), garantiu sua
publicação antes mesmo de a obra ficar pronta. E assim se sucedeu. Anos
depois esses relatórios sairiam em livro numa edição póstuma
intitulada Viventes das Alagoas (1962). Vale a pena recorrer a uma
citação algo longa para que se possa comprovar os precoces traços de
estilo presentes nesses relatórios, transcrevendo alguns trechos do
primeiro deles, de 1928:
“Ao governo de Estado de Alagoas
Exmo Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
Não
foram muitos, que os nossos recursos são exíguos. Assim, minguados,
entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as
condições em que o Município se achava, muito me custaram.
COMEÇOS
O principal, o que sem demora iniciei, o
de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma
ordem na administração. Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os
cobradores de impostos, o comandante de destacamento, os soldados outros
que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua
administração particular, com prefeitos inspetores de quarteirões. Os
fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Para
que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei
obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência
mole, suave, de algodão em rama, fora, uma campanha sorna, oblíqua,
carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso
Senhor, que administra melhor que todos nós; outros me davam três meses
para levar um tiro. Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano
passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam
coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem
as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a
eles.
[…]
ADMINISTRAÇÃO
A
administração municipal absorveu 11:457$497 – vencimento do prefeito, de
dois secretários (um efetivo, outro aposentado), de dois fiscais, de um
servente, impressão de recibos, publicações, assinatura de jornais,
livros, objetos necessários à secretaria, telegramas. Relativamente à
quantia orçada, os telegramas custam pouco. De ordinário vai para eles
dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados
pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame,
proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas
históricas ao governo do Estado, que não precisa disso; todos os
acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha –
um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o
deputado esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda gente
sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que não choramos e
que em 1556 D. Pedro Sardinha foi comido pelos Caetés.
[…]
TERRAPLENO DA LAGOA
O
espaço que separa a cidade do bairro da Lagoa era uma coelheira imensa,
um vasto acampamento de tatus, qualquer coisa deste gênero. Buraco por
toda a parte. Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações
de toda ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada para
a cidade. Chegaram lá pedreiros, outras reclamações surgiram, porque as
obras irão custar um horror de contos de réis, dizem. Custarão alguns,
provavelmente. Não tanto quanto as pirâmides do Egito, contudo. O que a
prefeitura arrecada basta para que nos não resignemos às modestas
tarefas de varrer as ruas e matar cachorros. Até agora as despesas com o
serviço da Lagoa sobem a 14:418$627. Convenho em que o dinheiro do povo
poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro
menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra,
cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se distribuísse com os
meus parentes, que necessitam, coitados.”
Mesmo se tratando de uma amostra pequena, versando sobre coisas
comezinhas, já se percebe nesse relatório a manifestação de uma
verdadeira “personalidade literária”. Daí a acreditar que essa
“personalidade” poderia se tornar um escritor viável vai, é claro, uma
enorme diferença. Sendo assim, não se pode deixar de louvar o faro
editorial de Augusto Frederico Schmidt, cuja perspicácia de poeta
possibilitou a revelação de um dos maiores prosadores da língua
portuguesa, algo que nem ele, obviamente, sequer poderia ter imaginado.
Sua iniciativa ajudou a enriquecer não só a literatura mas também o
cinema daqui, visto que nenhum outro romancista brasileiro teve a sorte
de ser tão bem adaptado na transposição de uma linguagem para outra como
Graciliano Ramos. Basta dizer que três de seus principais livros deram
origem a três grandes filmes: Vidas Secas (1963) e Memórias do
Cárcere (1984), dirigidos por Nelson Pereira dos Santos; e São
Bernardo (1972), dirigido por Leon Hirszman. Como tais adaptações
mereceriam uma postagem à parte, é melhor parar por aqui, ao modo dos
folhetins, deixando o leitor na expectativa pelo próximo capítulo,
sabendo ele desde já que os inúmeros “veios” abertos pelo escritor
alagoano não se esgotam facilmente.
Por Rodrigo Morais
Fonte aqui
sábado, 5 de janeiro de 2019
Meio a meio: a extinção de um animal raro
Um inglês registrou uma rara imagem do quaga, subespécie de zebra, extinto no século 19
Esse ser indeciso (meio zebra, meio burro)
não existe mais. O último exemplar de quaga morreu no zoológico de
Amsterdã, na Holanda, em 1883. A foto de Frederick York, foi feita em
1870 no zoo de Londres. Eles habitavam a África do Sul. Tinham em médio
1,3 metros e pesavam 230 kg. Na natureza, o último animal morreu em
1872. O nome estranho vem dos nativos locais, que batizaram o animal com
base no barulho que ele fazia.
A caçada ao quaga começou com a chegada dos bôeres, fazendeiros
holandeses que se instalaram na África do Sul. Eles se alimentavam de
sua carne e usavam sua pele. Outro motivo para a matança: os quagas
comiam as pastagens destinadas aos rebanhos bovinos.
Pouco menos de um século depois da extinção, o sul-africano Reinhold
Rau estudou amostras de DNA de zebras em zoológicos europeus e descobriu
que o quaga não era uma espécie separada. Usando zebras selecionadas da
mesma região O Quagga Project está tentanto recriar o animal e introduzí-lo na natureza.
Redação AH
A pedra na fala
Vi certa vez
um documentário sobre João Cabral de Melo Neto onde imagens do sertão,
da Zona da Mata e do Capibaribe eram comentadas pelo poeta. Era
emocionante para mim ouvir pela primeira vez (Cabral não era muito
entrevisteiro) a voz por trás de tantos versos que eu sabia de cor, e
cuja sintaxe cortada por anacolutos me mostrara um outro nível de
interferência possível na linguagem.
Ao longo do depoimento, contudo, comecei a perceber um detalhe meio irritante. É que o poeta terminava suas frases com uma dessas perguntinhas mecânicas que a gente faz.
Ele dizia: “comprende?”, assim mesmo, com um “e” só. Isso aqui é um engenho, comprende? muito parecido com os que eu vi na minha infância, só que hoje não existe mais, comprende?
Com dez minutos daquilo eu já me perguntava por que o montador do filme não tinha cortado aqueles expletivos, que para mim não passavam de um tique nervoso, e nada somavam ao discurso. Além do mais o troço parecia contagioso, comprende? Terminado o filme fui bater papo e tomar cerveja com os amigos, comprende? e levei algum tempo pra me livrar desse vírus inofensivo.
O cacoete de Cabral era uma pedra no sapato, mas, se a gente se acostuma com a pedra na alma do sertanejo, ou com uma pedra no peito, como no samba de Chico Buarque, um tiquezinho como este é convivível.
Já outros cacoetes são tribais, como o “tá ligado?” que alguns amigos meus usam com a frequência com que eu uso um ponto-e-vírgula. Todo modismo tem uma função sintática específica, como o popularíssimo “tipo assim”, que em geral equivale a “por exemplo”.
O “tá ligado?” é uma espécie de “câmbio” nas comunicações por rádio; significa apenas que você acabou sua mensagem, e agora é a vez do outro. Serve também para conferir se o outro está prestando atenção, como fazem os portugueses ao telefone: “Está lá? Está lá?...”
Tiques e cacoetes são contagiosos. Conheço filhos que têm tiques iguais ao dos pais. O do pai é um curto-circuitozinho nos nervos, é uma descarga física involuntária; o do filho é socialmente aprendido, culturalmente herdado; é um bug no software, não no hardware.
Estou muito técnico? Espero que não. Pensem no executivo de uma empresa, que era gago, e foi demitido, não por ser gago, mas porque todos os puxa-sacos do departamento passaram a gaguejar também, e ninguém se entendia mais.
Todo mundo tem direito a uma pedra na alma, a um bug na sintaxe, a um tique no discurso. Os meus são “veja bem” ou “não, quer dizer” ou “mas rapaz, eu vou te dizer uma coisa...” Preenchem um vazio, como aqueles versos de repentista que tapam buracos numa sextilha (“como sabe o companheiro”, “em todo ponto de vista”, “privilegiadamente”).
Dura apenas um segundo, o tempo necessário para a gente desplugar uma idéia e plugar outra, que já está pensada e pronta para ser dita. O cacoete verbal, comprende? é somente o ponto do zigue-zague em que o pensamento muda de direção. Tás ligado?
Ao longo do depoimento, contudo, comecei a perceber um detalhe meio irritante. É que o poeta terminava suas frases com uma dessas perguntinhas mecânicas que a gente faz.
Ele dizia: “comprende?”, assim mesmo, com um “e” só. Isso aqui é um engenho, comprende? muito parecido com os que eu vi na minha infância, só que hoje não existe mais, comprende?
Com dez minutos daquilo eu já me perguntava por que o montador do filme não tinha cortado aqueles expletivos, que para mim não passavam de um tique nervoso, e nada somavam ao discurso. Além do mais o troço parecia contagioso, comprende? Terminado o filme fui bater papo e tomar cerveja com os amigos, comprende? e levei algum tempo pra me livrar desse vírus inofensivo.
O cacoete de Cabral era uma pedra no sapato, mas, se a gente se acostuma com a pedra na alma do sertanejo, ou com uma pedra no peito, como no samba de Chico Buarque, um tiquezinho como este é convivível.
Já outros cacoetes são tribais, como o “tá ligado?” que alguns amigos meus usam com a frequência com que eu uso um ponto-e-vírgula. Todo modismo tem uma função sintática específica, como o popularíssimo “tipo assim”, que em geral equivale a “por exemplo”.
O “tá ligado?” é uma espécie de “câmbio” nas comunicações por rádio; significa apenas que você acabou sua mensagem, e agora é a vez do outro. Serve também para conferir se o outro está prestando atenção, como fazem os portugueses ao telefone: “Está lá? Está lá?...”
Tiques e cacoetes são contagiosos. Conheço filhos que têm tiques iguais ao dos pais. O do pai é um curto-circuitozinho nos nervos, é uma descarga física involuntária; o do filho é socialmente aprendido, culturalmente herdado; é um bug no software, não no hardware.
Estou muito técnico? Espero que não. Pensem no executivo de uma empresa, que era gago, e foi demitido, não por ser gago, mas porque todos os puxa-sacos do departamento passaram a gaguejar também, e ninguém se entendia mais.
Todo mundo tem direito a uma pedra na alma, a um bug na sintaxe, a um tique no discurso. Os meus são “veja bem” ou “não, quer dizer” ou “mas rapaz, eu vou te dizer uma coisa...” Preenchem um vazio, como aqueles versos de repentista que tapam buracos numa sextilha (“como sabe o companheiro”, “em todo ponto de vista”, “privilegiadamente”).
Dura apenas um segundo, o tempo necessário para a gente desplugar uma idéia e plugar outra, que já está pensada e pronta para ser dita. O cacoete verbal, comprende? é somente o ponto do zigue-zague em que o pensamento muda de direção. Tás ligado?
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo O que li e o que vi no ano que passou
LIVROS QUE LI EM 2018:
1- Poemas de Florbela Espanca
2- Mia Couto, poemas escolhidos
3- Pensar bem nos faz bem, Vol. 2
4- Pensar bem nos faz bem, Vol. 3
5- Holocaustro brasileiro
6- Direitos da Criança, desafios e conquistas
7- Riacho da vida
8- Sorrindo para a vida
9- Anne Frank
10- Como conversar com um fascista
11- Caminhos de mim
12- Sonetos, Florbela Espanca
13- Freud além da alma
14- Poetas que pensaram o mundo
15- O Arrayal Queimado do Paulista
16- A droga da obediência
17- Amor de perdição (releitura)
18- Quando Nietzche chorou
19- Taxitramas, Vol. 2
20- Don Pantero
21- Filosofia brincante (releitura)
1- Poemas de Florbela Espanca
2- Mia Couto, poemas escolhidos
3- Pensar bem nos faz bem, Vol. 2
4- Pensar bem nos faz bem, Vol. 3
5- Holocaustro brasileiro
6- Direitos da Criança, desafios e conquistas
7- Riacho da vida
8- Sorrindo para a vida
9- Anne Frank
10- Como conversar com um fascista
11- Caminhos de mim
12- Sonetos, Florbela Espanca
13- Freud além da alma
14- Poetas que pensaram o mundo
15- O Arrayal Queimado do Paulista
16- A droga da obediência
17- Amor de perdição (releitura)
18- Quando Nietzche chorou
19- Taxitramas, Vol. 2
20- Don Pantero
21- Filosofia brincante (releitura)
FILMES QUE VI EM 2018:
1- O melhor lance
2- Busca implacável 3
3- O plano perfeito
4- O mordomo da Casa Branca
5- Chappie
6- Como estrelas na terra
7- Sociedade dos poetas mortos
8- Uma lição de amor
9- The Maze Runner correr ou morrer
10- O morro dos ventos uivantes
11- Aniquilação
12- Cabo do medo
13- A vida é bela
14- Batman x Superman, a origem da justiça
15- A teoria de tudo
16- Aquaman
17- As aventuras de Pi
18- Quem quer ser um milionário?
Teófilo Júnior
1- O melhor lance
2- Busca implacável 3
3- O plano perfeito
4- O mordomo da Casa Branca
5- Chappie
6- Como estrelas na terra
7- Sociedade dos poetas mortos
8- Uma lição de amor
9- The Maze Runner correr ou morrer
10- O morro dos ventos uivantes
11- Aniquilação
12- Cabo do medo
13- A vida é bela
14- Batman x Superman, a origem da justiça
15- A teoria de tudo
16- Aquaman
17- As aventuras de Pi
18- Quem quer ser um milionário?
Teófilo Júnior
Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.
Frase
Para
conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça.
No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.
Confúcio
Confúcio
Algumas leituras de 2018
(conclusão)
PROSA CONTEMPORÂNEA
Memorial de Maria
Moura (BestBolso) de Rachel de Queiroz foi talvez o romance que mais me
impressionou este ano. Maria Moura é uma capitã de jagunços, uma espécie de
Diadorim vestindo calças e montando a cavalo, mas sem ambigüidade sexual. O
livro conta a criação, ao longo de muitos anos, de um valhacouto de assaltantes
nas faldas da Serra do Padre. Os conhecimentos da autora sobre a História do
Ceará dão solidez à narrativa, que é precisa e vai no osso. E a prosa é das
melhores que o Brasil já deu. Límpida, forte, cheia de sutilezas inesperadas.
A árvore que falava
aramaico e Cavalos de Cronos (ambos
da Ed. Zouk, Porto Alegre) de José Francisco Botelho, são dois livros de contos
onde o mainstream se alterna com o
fantástico, e no segundo a prosa se alterna com a poesia narrativa. Botelho
(que traduziu para o português obras de Shakespeare e de Conan Doyle, além dos Contos de Canterbury
de Chaucer) é um
narrador de prosa segura, rica de observação. Seus contos fantásticos
exibem um sentimento ominoso que brota ao mesmo tempo da paisagem física
e das
memórias familiares. Há um pouco de Borges e de Kafka, mas nos melhores
momentos ele evoca também os pesadelos ancestrais de Arthur Machen e
Algernon
Blackwood.
Days of Awe de
A. M. Homes foi um volume de contos que traduzi para a Companhia das Letras. A
autora tem uma prosa rápida, cortante, excelentes diálogos, e descreve um
ambiente californiano meio surreal de tão específico; lembra os quadrinhos de
Daniel Clowes. Aquelas histórias de classe média urbana onde uma coisa bizarra
e surreal pode acontecer a qualquer instante.
A Colônia de Férias
(Alfaguara) de Emmanuel Carrère. Publicado num volume conjunto com O Bigode, é a história de um menino
amedrontadiço e fantasiador que se vê ilhado entre gente estranha, sendo que
crimes hediondos ocorrem à sua volta. Carrère explora aquela linha romanesca
bem francesa de descrever com minúcias todas as alternativas e
contra-alternativas de pensamento de uma pessoa apavorada, arrastada por
desejos que não compreende e aos quais tenta dar justificações pueris.
LIVROS SOBRE LIVROS
A Barca de Gleyre
é um clássico, dois volumes das cartas de Monteiro Lobato para seu grande
amigo, o tradutor e escritor Godofredo Rangel. São extensas discussões sobre
mil assuntos mas principalmente literatura. Lobato, escrevendo para uma platéia
de um só, era mais Lobato do que nunca. Poucos livros são capazes de revelar a
este ponto, sem pose, no calor do momento, a paixão pela literatura.
A Marca do Z (Jorge
Zahar Editor) de Paulo Roberto Pires conta a história da Editora Zahar,
uma das
editoras que fizeram a cabeça da minha geração, talvez a melhor editora
de
ciências sociais para o grande público. Cada capa de livro lido dá
vontade de ler de novo. Um livro-homenagem cheio de revelações
sobre as idas e vindas do mercado editorial antes, durante e depois dos
anos da
ditadura militar. E o retrato de um homem que amava os livros.
Em Memória de João
Guimarães Rosa (Ed. José Olympio, obra coletiva) e Joãozito (Ed. José Olympio) de Vicente Guimarães são duas obras
importantes sobre o escritor mineiro. O primeiro registra as numerosas
homenagens logo após sua morte em 1967, inclusive os discursos na Academia
Brasileira de Letras, e traz um ótimo material adicional sobre sua vida e obra.
O segundo são as memórias de seu tio materno Vicente, que pela proximidade
etária foi quase que um primo do escritor. Ambos são essenciais para conhecer o
reflexo de sua personalidade e de sua obra sobre seus contemporâneos.
Autobiografia
Poética (Ed. Autêntica) de Ferreira Gullar é um balanço comedido e
frequentemente autocrítico do grande poeta sobre suas aspirações, paixões,
desencantos e guinadas conceituais. Inclui alguns textos de prosa crítica
sobre poesia, lúcidos e bem argumentados, como tudo que Gullar produziu.
A Arte do Romance
(Companhia das Letras) de Milan Kundera é uma coletânea de artigos sobre a
escrita. Algumas opiniões idiossincráticas, boas reavaliações da obra de seu
conterrâneo Franz Kafka, de Jacques Diderot, e em geral um conjunto de
reflexões que vale a pena ler e considerar.
O flâneur das duas
margens (José Olympio) de Guillaume Apollinaire é uma coletânea de artigos do poeta
surrealista sobre ambientes e personagens obscuros da Paris dos anos 1910.
Poetas, donos de bar, sebistas, vagabundos, todos são retratados com riqueza de
detalhes e de observação. Um mundo de cem anos atrás, mas que parece ainda vivo
e a cores.
Shakespeare &
Co (Casa da Palavra) de Sylvia Beach, é o volume de memórias, também do
princípio do século 20, da livreira que se tornou a primeira editora do Ulisses de James Joyce. Como qualquer
livro desse tipo, é um desfile de episódios pitorescos vividos por grandes
escritores e artistas, suas excentricidades, suas polêmicas, seus pequenos
gestos de generosidade ou de mesquinhez.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Versículo do dia
Esperastes o
muito, mas eis que veio a ser pouco; e esse pouco, quando o trouxestes
para casa, eu dissipei com um sopro. Por que causa? disse o Senhor dos
Exércitos. Por causa da minha casa, que está deserta, enquanto cada um
de vós corre à sua própria casa.
Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor;
domingo, 30 de dezembro de 2018
De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava sempre começando,
a certeza de que era preciso continuar
e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho novo.
Fazer da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro.
Fernando Sabino
Assinar:
Postagens (Atom)



















