domingo, 6 de janeiro de 2019






Não pervertam a justiça nem mostrem parcialidade. Não aceitem suborno, pois o suborno cega até os sábios e prejudica a causa dos justos. 

Deuteronômio 16:19

Onde fica o meio do mundo

São vários os contos populares onde esta cena aparece. Eu me refiro àquele confronto que geralmente se dá entre o herói, que é um cara apenas esperto, e o poderoso Rei. O Rei faz uma série de perguntas, e o esperto as rebate com um negaceio diferente de cada vez.

Aí, o Rei pergunta:

– Onde fica o meio do mundo?

E aí “Camões”, ou “Cancão de Fogo” ou qualquer outro diz:

– Exatamente ali, perto daquela coluna do palácio.

– Como é que você sabe?

– Pode mandar medir.

O Rei não tem como mandar medir, e talvez nem soubesse explicar o que era pra ser medido. Ele pergunta:

– Quantos cestos de terra tem naquela montanha? – aponta a janela escancarada.

O esperto diz:

– Um milhão, duzentos mil, e vinte e seis.

Se o Rei fosse esperto, os dois se engatariam nesse ponto, gerando um impasse absoluto, como um empate por exaustão no xadrez. Mas o Rei é um mero personagem, e precisa fazer a terceira pergunta, a frase fatal para que o vírus da História seja passado adiante:

– O que é que eu estou pensando?

E “Arlequim”, ou “Pedro Malazarte” responde:

– Está pensando que eu sou [a falsa identidade sob a qual ele se apresentou ao rei], mas não sou, eu sou [Arlequim, Malazarte].

E o conto se desenlaça. O que há de interessante nessas cenas é que pertencem ao conto de fadas, à literatura de cordel, ao esquete de humor, à arte da pergunta acachapante e da resposta relâmpago. São de circo, são de almanaque medieval, são das madrugadas radiofônicas. Um antropólogo talvez dissesse que ela cumpre um pouco a função de cortar nós-górdios filosóficos reduzindo tudo a uma cambalhota simples.

O interessante é que pode-se manter essa ceninha, vamos chamá-la “O Interrogatório” ou “As Três Perguntas do Rei”, entre os quadros de uma história, mas mudando-se, como convier, quais as perguntas feitas, as respostas dadas. É um bloco que pode ser trocado por diálogos novos, mas sempre mantendo essa função: o esperto “come o rei com farinha”.

Dando uma geral nas literaturas antigas do Ocidente e do Oriente a gente vê o quanto é comum esse conceito da cena que pode ser infindavelmente mudada e ainda assim continuar a mesma. Ela precisa cumprir sempre a mesma função: fazer o esperto revelar sua identidade ao rei, após derrotá-lo. A perguntas e as piadas podem ser mil vezes refeitas por quem encenar esse conto.

São centenas as aventuras de cordel em que um coronel ou rei ou fazendeiro põe a filha no balcão matrimonial, com a condição de que o pretendente responda três perguntas, ou formule três perguntas próprias, ou pratique alguma façanha, para merecer a mão da noiva em disputa. É a aliança estratégica entre o Poder (o rei) e o Saber (o esperto).

É claro que todas essas histórias são contos inventados, e é muito fácil imaginar um improviso de fração de segundo quando se está escrevendo e revisando em toda comodidade. Mas o “repente relâmpago” também existe na vida real, aquela resposta ideal imaginada, formulada e dita em voz alta ao longo de alguns segundos.

Diz-se que Bocage usava, em alguns círculos poéticos, o pseudônimo anagramático de Elmano, a partir de seu nome verdadeiro, Manoel Bocage.

Um dia vem ele por Lisboa quando cruza com outro poeta, que, vendo-o cabisbaixo, pergunta em verso:

– Elmano, a lira divina / por que razão emudece?

Bocage, que estava meio sorumbático, ripostou:

– Porque mais cala no mundo / quem mais o mundo conhece.

O amigo tornou, em cima da bucha:

– E o que tens visto no mundo / que tanto assombro te faça?

E “Elmano Sadino” fechou a estrofe:

– Um poeta com ventura, / um toleirão com desgraça.

Bocage era da linhagem de poetas malditos, como Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”.  Na vida de cada um deles vê-se a presença do improviso leve e solto, parte de uma cultura, que pode chegar a encenar grandes disputas de arquibancada cheia; mas no geral é para uso cotidiano, em mesa de bar.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

Maturidade psicológica: A arte de viver em paz com o que não podemos mudar

A maturidade psicológica pode ser definida de muitas maneiras, mas o escritor escocês MJ Croan resumiu perfeitamente esse conceito: “A maturidade é quando o mundo se abre e você percebe que não é o centro dele “.

Amadurecer significa deixar a nossa visão egocêntrica para compreender que existe um mundo maior e mais complexo, um mundo que muitas vezes nos coloca à prova e que nem sempre satisfará nossas expectativas, ilusões e necessidades. E, no entanto, quando amadurecemos, podemos viver em paz naquele mundo, aceitando tudo de que não gostamos, mas não podemos mudar.

Negar a realidade: um mecanismo de enfrentamento imaturo e inadequado

A negação é um mecanismo de enfrentamento que envolve negar fervorosamente a realidade, apesar dos fatos. Geralmente esse mecanismo é acionado por duas razões: 1. Porque nos apegamos a ideias rígidas que não queremos mudar ou 2. Porque não temos os mecanismos psicológicos necessários para enfrentar a situação.


Em ambos os casos, negar a realidade nos permite reduzir a ansiedade em uma situação que nosso cérebro emocional já catalogou como particularmente perturbador ou mesmo ameaçador. O problema é que a realidade sempre vence.

Se um perseguidor nos aborda no meio da rua, não fechamos os olhos repetindo mentalmente: ” Isso não está acontecendo! ” Entendemos que estamos em perigo e escapamos ou pedimos ajuda. No entanto, não reagimos da mesma forma ao resto das situações da nossa vida. Quando não gostamos de algo, estamos desapontados ou entristecidos, implementamos o mecanismo da negação.

Negar veementemente os fatos não os fará mudar. Pelo contrário, nos levará a tomar decisões menos adaptativas que podem nos causar mais danos. A pessoa madura, pelo contrário, aceita a realidade, não com resignação, mas com inteligência. De fato, o psiquiatra alemão Fritz Kunkel disse que ” ser maduro significa enfrentar, não fugir, a cada nova crise que chega “.

A arte de encontrar equilíbrio na adversidade

“Era uma vez um homem que estava tão perturbado ao ver sua própria sombra e não gostava tanto de seus passos que decidiu se livrar deles.

“Ele veio com um método: fugir. Então ele se levantou e correu, mas toda vez que ele colocava um pé no chão, havia outro passo, enquanto sua sombra o alcançava sem a menor dificuldade.

“Ele atribuiu o fracasso a não correr rápido o suficiente. Ele correu mais e mais rápido, sem parar, até que ele caiu morto.

“Ele não entendeu que teria sido o suficiente para ele se colocar em um local sombreado para que sua sombra se desvanecesse e que, se ele se sentasse e permanecesse imóvel, não haveria mais passos.”
Esta parábola de Zhuangzi nos lembra uma frase de Ralph Waldo Emerson: ” Maturidade é a idade em que não se é mais enganado por si mesmo “. O escritor referiu-se ao momento em que estamos plenamente conscientes dos mecanismos psicológicos que colocamos em prática para lidar com a realidade e proteger nosso “eu”, até o momento em que percebemos que a realidade pode ser difícil, mas que nossa atitude e perspectiva são duas variáveis ​​essenciais nessa equação.

Portanto, a maturidade psicológica, inevitavelmente, envolve auto – consciência envolve conhecer as Thugs mentais que usamos não para avançar , os mecanismos que usamos para fugir da realidade e errôneas crenças que nos mantêm ligados.

Esse conhecimento é básico para lidar com os problemas e obstáculos que a vida nos coloca. Infelizmente, há pessoas que, como o homem da história, nunca atingem esse nível de autoconhecimento e acabam criando mais confusão e problemas, alimentando a infelicidade e o caos interior.

Atingir a maturidade psicológica não significa aceitar passivamente a realidade assumindo uma atitude resignada, mas ser capaz de olhar com novos olhos o que acontece, aproveitando aquele soco para fortalecer nossa capacidade de resistência, conhecer-se melhor e até mesmo crescer.

William Arthur Ward disse: ” Cometer erros é humano e tropeçar é comum; a verdadeira maturidade é poder rir de si mesmo “. Ser capaz de rir de nossos velhos medos porque agora eles parecem grotescos para nós, sobre nossas preocupações ampliadas e aqueles obstáculos “intransponíveis” que eles realmente não eram, é uma amostra enorme de crescimento. Rir sobre nossas velhas atitudes e crenças não significa apenas que elas são parte do passado, mas que elas não têm mais nenhuma influência emocional sobre nós.

A verdadeira maturidade psicológica surge quando praticamos aceitação radical , quando olhamos a realidade para os olhos e, em vez de descermos, nos perguntamos: ” Qual é o próximo passo? ” Isso significa que, embora a realidade possa ser dolorosa, não ficamos presos no papel de vítimas sofrendo em vão, mas protegemos nosso equilíbrio emocional adotando uma atitude proativa.



Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.

Honoré de Balzac

Um genial burocrata chamado Graciliano Ramos

Poucos hão de duvidar que Graciliano Ramos foi um dos maiores escritores da literatura brasileira. Para muitos, no âmbito do romance, ele seria simplesmente o segundo melhor de nossa história literária, atrás apenas do imbatível Machado de Assis, tido e havido como um dos grandes da literatura universal. Na honradíssima segunda colocação no panteão das letras nacionais, somente Guimarães Rosa poderia lhe fazer frente, ainda que, a rigor, só tenha produzido um romance (Grande Sertão: Veredas, claro). Fora da seara que o consagrou, sabe-se que Graciliano Ramos amargou alguns meses de cadeia por causa de uma insuspeitada atividade política, fato narrado por ele mesmo em um de seus livros mais conhecidos, Memórias do Cárcere (1953), dos melhores em seu gênero específico. Mas isso se sucedeu em 1936, em virtude da paranoia anticomunista que se seguiu à Revolta Vermelha, quando o escritor alagoano já havia adquirido algum reconhecimento graças às suas primeiras obras: Caetés, de 1933, e São Bernardo, de 1934. Uma faceta menos conhecida de sua personalidade, porém não menos fascinante, diz respeito a uma experiência ocorrida nove anos antes de sua prisão, em 1927, época em que se tornou prefeito de uma cidade chamada Palmeira dos Índios, localizada no interior de Alagoas.

 Não seria cabível adentrar nos detalhes relacionados à sua eleição para o posto. Aos interessados, recomenda-se o livro O Velho Graça, biografia escrita por Dênis de Moraes merecedora de inúmeras reedições. Mais vale aqui discorrer um pouco sobre a competência e a lisura com que o futuro autor de Vidas Secas (1938) desempenhou-se na tarefa, além de demonstrar um curiosíssimo elo existente entre essa experiência e sua posterior carreira literária. Em sua rápida passagem pela prefeitura de Palmeira dos Índios, pois renunciaria ao cargo em 1930, Graciliano Ramos moralizou as práticas administrativas, saneou as contas do município, promoveu obras nos bairros pobres e sobretaxou os cidadãos mais ricos. Tudo isso em um intervalo de pouco mais de dois anos. Para Elio Gaspari, um dos grandes nomes da imprensa atual, a administração de Graciliano Ramos nessa pequena cidade alagoana deveria ser tomada como exemplo de probidade e impessoalidade no trato da coisa pública. Não à toa, o jornalista costuma recorrer com frequência ao nome do romancista quando precisa dar alguma lição de moralidade aos nossos políticos, sempre dispostos a tratar a República como se esta fosse um quintal de suas casas.

Mais do que administrar bem a cidade em que vivia, Graciliano Ramos escrevia relatórios periódicos para prestar contas de sua gestão à comunidade e ao governador. Tais relatórios, como devem saber aqueles que têm um pouco mais de intimidade com a obra do autor, eram verdadeiras pérolas literárias, pois já continham, em embrião, aquele inconfundível estilo contido, sóbrio, de uma correção ímpar, que caracterizaria a maior parte de seus livros (Angústia, de 1936, seria, talvez, a exceção à regra). Aquele estilo, como diria o crítico literário Antonio Candido, em um estudo importante sobre Graciliano Ramos chamado Ficção e Confissão, no qual se destaca “[…] a suprema expressividade da linguagem, assim como a secura da visão de mundo e o acentuado pessimismo, tudo marcado pela ausência de qualquer chantagem sentimental ou estilística”. Ao se desincompatibilizar da prefeitura, renunciando ao mandato para assumir a direção da Imprensa Oficial do Estado de Alagoas, em Maceió, Graciliano Ramos redigiu um relatório final que seria publicado no Diário Oficial e em outros jornais. Uma cópia dele acabou chegando às mãos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, que, impressionado com a singularidade da escrita, ao ficar sabendo que o ex-prefeito preparava um romance (Caetés), garantiu sua publicação antes mesmo de a obra ficar pronta. E assim se sucedeu. Anos depois esses relatórios sairiam em livro numa edição póstuma intitulada Viventes das Alagoas (1962). Vale a pena recorrer a uma citação algo longa para que se possa comprovar os precoces traços de estilo presentes nesses relatórios, transcrevendo alguns trechos do primeiro deles, de 1928:

“Ao governo de Estado de Alagoas

Exmo Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
Não foram muitos, que os nossos recursos são exíguos. Assim, minguados, entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram.


COMEÇOS

O principal, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração. Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante de destacamento, os soldados outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.

Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama, fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro. Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
[…]

ADMINISTRAÇÃO

A administração municipal absorveu 11:457$497 – vencimento do prefeito, de dois secretários (um efetivo, outro aposentado), de dois fiscais, de um servente, impressão de recibos, publicações, assinatura de jornais, livros, objetos necessários à secretaria, telegramas. Relativamente à quantia orçada, os telegramas custam pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que não choramos e que em 1556 D. Pedro Sardinha foi comido pelos Caetés.
[…]

TERRAPLENO DA LAGOA

O espaço que separa a cidade do bairro da Lagoa era uma coelheira imensa, um vasto acampamento de tatus, qualquer coisa deste gênero. Buraco por toda a parte. Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações de toda ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá pedreiros, outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de réis, dizem. Custarão alguns, provavelmente. Não tanto quanto as pirâmides do Egito, contudo. O que a prefeitura arrecada basta para que nos não resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros. Até agora as despesas com o serviço da Lagoa sobem a 14:418$627. Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.”


Mesmo se tratando de uma amostra pequena, versando sobre coisas comezinhas, já se percebe nesse relatório a manifestação de uma verdadeira “personalidade literária”. Daí a acreditar que essa “personalidade” poderia se tornar um escritor viável vai, é claro, uma enorme diferença. Sendo assim, não se pode deixar de louvar o faro editorial de Augusto Frederico Schmidt, cuja perspicácia de poeta possibilitou a revelação de um dos maiores prosadores da língua portuguesa, algo que nem ele, obviamente, sequer poderia ter imaginado. Sua iniciativa ajudou a enriquecer não só a literatura mas também o cinema daqui, visto que nenhum outro romancista brasileiro teve a sorte de ser tão bem adaptado na transposição de uma linguagem para outra como Graciliano Ramos. Basta dizer que três de seus principais livros deram origem a três grandes filmes: Vidas Secas (1963) e Memórias do Cárcere (1984), dirigidos por Nelson Pereira dos Santos; e São Bernardo (1972), dirigido por Leon Hirszman. Como tais adaptações mereceriam uma postagem à parte, é melhor parar por aqui, ao modo dos folhetins, deixando o leitor na expectativa pelo próximo capítulo, sabendo ele desde já que os inúmeros “veios” abertos pelo escritor alagoano não se esgotam facilmente. 

Por Rodrigo Morais
Fonte  aqui

sábado, 5 de janeiro de 2019

Meio a meio: a extinção de um animal raro

Um inglês registrou uma rara imagem do quaga, subespécie de zebra, extinto no século 19

Esse ser indeciso (meio zebra, meio burro) não existe mais. O último exemplar de quaga morreu no zoológico de Amsterdã, na Holanda, em 1883. A foto de Frederick York, foi feita em 1870 no  zoo de Londres. Eles habitavam a África do Sul. Tinham em médio 1,3 metros e pesavam 230 kg. Na natureza, o último animal morreu em 1872. O nome estranho vem dos nativos locais, que batizaram o animal com base no barulho que ele fazia.  

A caçada ao quaga começou com a chegada dos bôeres, fazendeiros holandeses que se instalaram na África do Sul. Eles se alimentavam de sua carne e usavam sua pele. Outro motivo para a matança: os quagas comiam as pastagens destinadas aos rebanhos bovinos.

Pouco menos de um século depois da extinção, o sul-africano Reinhold Rau estudou amostras de DNA de zebras em zoológicos europeus e descobriu que o quaga não era uma espécie separada. Usando zebras selecionadas da mesma região O Quagga Project está tentanto recriar o animal e introduzí-lo na natureza. 

Redação AH

A pedra na fala

Vi certa vez um documentário sobre João Cabral de Melo Neto onde imagens do sertão, da Zona da Mata e do Capibaribe eram comentadas pelo poeta. Era emocionante para mim ouvir pela primeira vez (Cabral não era muito entrevisteiro) a voz por trás de tantos versos que eu sabia de cor, e cuja sintaxe cortada por anacolutos me mostrara um outro nível de interferência possível na linguagem. 
Ao longo do depoimento, contudo, comecei a perceber um detalhe meio irritante. É que o poeta terminava suas frases com uma dessas perguntinhas mecânicas que a gente faz. 
Ele dizia: “comprende?”, assim mesmo, com um “e” só. Isso aqui é um engenho, comprende? muito parecido com os que eu vi na minha infância, só que hoje não existe mais, comprende?
Com dez minutos daquilo eu já me perguntava por que o montador do filme não tinha cortado aqueles expletivos, que para mim não passavam de um tique nervoso, e nada somavam ao discurso. Além do mais o troço parecia contagioso, comprende? Terminado o filme fui bater papo e tomar cerveja com os amigos, comprende? e levei algum tempo pra me livrar desse vírus inofensivo. 
O cacoete de Cabral era uma pedra no sapato, mas, se a gente se acostuma com a pedra na alma do sertanejo, ou com uma pedra no peito, como no samba de Chico Buarque, um tiquezinho como este é convivível.
Já outros cacoetes são tribais, como o “tá ligado?” que alguns amigos meus usam com a frequência com que eu uso um ponto-e-vírgula. Todo modismo tem uma função sintática específica, como o popularíssimo “tipo assim”, que em geral equivale a “por exemplo”. 
O “tá ligado?” é uma espécie de “câmbio” nas comunicações por rádio; significa apenas que você acabou sua mensagem, e agora é a vez do outro. Serve também para conferir se o outro está prestando atenção, como fazem os portugueses ao telefone: “Está lá? Está lá?...”
Tiques e cacoetes são contagiosos. Conheço filhos que têm tiques iguais ao dos pais. O do pai é um curto-circuitozinho nos nervos, é uma descarga física involuntária; o do filho é socialmente aprendido, culturalmente herdado; é um bug no software, não no hardware. 
Estou muito técnico? Espero que não. Pensem no executivo de uma empresa, que era gago, e foi demitido, não por ser gago, mas porque todos os puxa-sacos do departamento passaram a gaguejar também, e ninguém se entendia mais. 
Todo mundo tem direito a uma pedra na alma, a um bug na sintaxe, a um tique no discurso. Os meus são “veja bem” ou “não, quer dizer” ou “mas rapaz, eu vou te dizer uma coisa...” Preenchem um vazio, como aqueles versos de repentista que tapam buracos numa sextilha (“como sabe o companheiro”, “em todo ponto de vista”, “privilegiadamente”). 
Dura apenas um segundo, o tempo necessário para a gente desplugar uma idéia e plugar outra, que já está pensada e pronta para ser dita. O cacoete verbal, comprende? é somente o ponto do zigue-zague em que o pensamento muda de direção. Tás ligado?

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo 

O que li e o que vi no ano que passou

LIVROS QUE LI EM 2018:

1- Poemas de Florbela Espanca
2- Mia Couto, poemas escolhidos
3- Pensar bem nos faz bem, Vol. 2
4- Pensar bem nos faz bem, Vol. 3
5- Holocaustro brasileiro
6- Direitos da Criança, desafios e conquistas
7- Riacho da vida
8- Sorrindo para a vida
9- Anne Frank
10- Como conversar com um fascista
11- Caminhos de mim
12- Sonetos, Florbela Espanca
13- Freud além da alma
14- Poetas que pensaram o mundo
15- O Arrayal Queimado do Paulista
16- A droga da obediência
17- Amor de perdição (releitura)
18- Quando Nietzche chorou
19- Taxitramas, Vol. 2
20- Don Pantero
21- Filosofia brincante (releitura)


FILMES QUE VI EM 2018:

1- O melhor lance
2- Busca implacável 3
3- O plano perfeito
4- O mordomo da Casa Branca
5- Chappie
6- Como estrelas na terra
7- Sociedade dos poetas mortos
8- Uma lição de amor
9- The Maze Runner correr ou morrer
10- O morro dos ventos uivantes
11- Aniquilação
12- Cabo do medo
13- A vida é bela
14- Batman x Superman, a origem da justiça
15- A teoria de tudo
16- Aquaman
17- As aventuras de Pi
18- Quem quer ser um milionário? 


Teófilo Júnior
Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

Mário Quintana
"Precisamos ensinar como a dúvida não deve ser temida, mas bem-vinda e discutida. Não há problema em dizer: não sei" 

Richard Feynman

Frase

Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.

Confúcio

Algumas leituras de 2018

(conclusão)
PROSA CONTEMPORÂNEA



Memorial de Maria Moura (BestBolso) de Rachel de Queiroz foi talvez o romance que mais me impressionou este ano. Maria Moura é uma capitã de jagunços, uma espécie de Diadorim vestindo calças e montando a cavalo, mas sem ambigüidade sexual. O livro conta a criação, ao longo de muitos anos, de um valhacouto de assaltantes nas faldas da Serra do Padre. Os conhecimentos da autora sobre a História do Ceará dão solidez à narrativa, que é precisa e vai no osso. E a prosa é das melhores que o Brasil já deu. Límpida, forte, cheia de sutilezas inesperadas.



A árvore que falava aramaico e Cavalos de Cronos (ambos da Ed. Zouk, Porto Alegre) de José Francisco Botelho, são dois livros de contos onde o mainstream se alterna com o fantástico, e no segundo a prosa se alterna com a poesia narrativa. Botelho (que traduziu para o português obras de Shakespeare e de Conan Doyle, além dos Contos de Canterbury de Chaucer) é um narrador de prosa segura, rica de observação. Seus contos fantásticos exibem um sentimento ominoso que brota ao mesmo tempo da paisagem física e das memórias familiares. Há um pouco de Borges e de Kafka, mas nos melhores momentos ele evoca também os pesadelos ancestrais de Arthur Machen e Algernon Blackwood.



Days of Awe de A. M. Homes foi um volume de contos que traduzi para a Companhia das Letras. A autora tem uma prosa rápida, cortante, excelentes diálogos, e descreve um ambiente californiano meio surreal de tão específico; lembra os quadrinhos de Daniel Clowes. Aquelas histórias de classe média urbana onde uma coisa bizarra e surreal pode acontecer a qualquer instante.



A Colônia de Férias (Alfaguara) de Emmanuel Carrère. Publicado num volume conjunto com O Bigode, é a história de um menino amedrontadiço e fantasiador que se vê ilhado entre gente estranha, sendo que crimes hediondos ocorrem à sua volta. Carrère explora aquela linha romanesca bem francesa de descrever com minúcias todas as alternativas e contra-alternativas de pensamento de uma pessoa apavorada, arrastada por desejos que não compreende e aos quais tenta dar justificações pueris.







LIVROS SOBRE LIVROS



A Barca de Gleyre é um clássico, dois volumes das cartas de Monteiro Lobato para seu grande amigo, o tradutor e escritor Godofredo Rangel. São extensas discussões sobre mil assuntos mas principalmente literatura. Lobato, escrevendo para uma platéia de um só, era mais Lobato do que nunca. Poucos livros são capazes de revelar a este ponto, sem pose, no calor do momento, a paixão pela literatura.



A Marca do Z (Jorge Zahar Editor) de Paulo Roberto Pires conta a história da Editora Zahar, uma das editoras que fizeram a cabeça da minha geração, talvez a melhor editora de ciências sociais para o grande público. Cada capa de livro lido dá vontade de ler de novo. Um livro-homenagem cheio de revelações sobre as idas e vindas do mercado editorial antes, durante e depois dos anos da ditadura militar. E o retrato de um homem que amava os livros.



Em Memória de João Guimarães Rosa (Ed. José Olympio, obra coletiva) e Joãozito (Ed. José Olympio) de Vicente Guimarães são duas obras importantes sobre o escritor mineiro. O primeiro registra as numerosas homenagens logo após sua morte em 1967, inclusive os discursos na Academia Brasileira de Letras, e traz um ótimo material adicional sobre sua vida e obra. O segundo são as memórias de seu tio materno Vicente, que pela proximidade etária foi quase que um primo do escritor. Ambos são essenciais para conhecer o reflexo de sua personalidade e de sua obra sobre seus contemporâneos.



Autobiografia Poética (Ed. Autêntica) de Ferreira Gullar é um balanço comedido e frequentemente autocrítico do grande poeta sobre suas aspirações, paixões, desencantos e guinadas conceituais. Inclui alguns textos de prosa crítica sobre poesia, lúcidos e bem argumentados, como tudo que Gullar produziu.



A Arte do Romance (Companhia das Letras) de Milan Kundera é uma coletânea de artigos sobre a escrita. Algumas opiniões idiossincráticas, boas reavaliações da obra de seu conterrâneo Franz Kafka, de Jacques Diderot, e em geral um conjunto de reflexões que vale a pena ler e considerar.



O flâneur das duas margens (José Olympio) de Guillaume Apollinaire é uma coletânea de artigos do poeta surrealista sobre ambientes e personagens obscuros da Paris dos anos 1910. Poetas, donos de bar, sebistas, vagabundos, todos são retratados com riqueza de detalhes e de observação. Um mundo de cem anos atrás, mas que parece ainda vivo e a cores.



Shakespeare & Co (Casa da Palavra) de Sylvia Beach, é o volume de memórias, também do princípio do século 20, da livreira que se tornou a primeira editora do Ulisses de James Joyce. Como qualquer livro desse tipo, é um desfile de episódios pitorescos vividos por grandes escritores e artistas, suas excentricidades, suas polêmicas, seus pequenos gestos de generosidade ou de mesquinhez.


Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo





sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Versículo do dia

Esperastes o muito, mas eis que veio a ser pouco; e esse pouco, quando o trouxestes para casa, eu dissipei com um sopro. Por que causa? disse o Senhor dos Exércitos. Por causa da minha casa, que está deserta, enquanto cada um de vós corre à sua própria casa.
 
Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor;

domingo, 30 de dezembro de 2018

Frase

"Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos".

 Oscar Wilde

De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava sempre começando,
a certeza de que era preciso continuar
e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho novo.
Fazer da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro.

Fernando Sabino

Foto Eric Jean 

"Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos". 

Victor Hugo