sábado, 2 de dezembro de 2017

Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa! Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo.
Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca na sua vida?

Frase

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Fernando Pessoa

Para quem, afinal, a desigualdade é o grande problema?

A inveja, esse “monstro de olhos verdes” de que falou Shakespeare, sempre foi um grande motivador de teorias e elucubrações intelectuais
 
Peço ao leitor que responda sinceramente: se pudesse escolher, preferiria ser pobre nos EUA ou na Etiópia? Se a resposta for EUA, então você não acha que a desigualdade é o grande problema de um país. Porque a verdade é que os EUA são muito mais desiguais do que a Etiópia.

O índice que mede a desigualdade de renda num país é o chamado coeficiente de Gini, que varia numa escala de 0 a 1, em que 0 representa uma hipotética igualdade plena (todos tendo exatamente a mesma renda) e 1 uma hipotética desigualdade máxima (uma pessoa detendo sozinha toda a riqueza nacional). Nos últimos anos, aquele país africano tem feito uma pontuação média de 0,3 enquanto o gigante da América, de 0,4. Segundo o coeficiente Gini, portanto, a Etiópia é cerca de 0,1 ponto mais igualitária do que os EUA. E eu já posso imaginar o que se passa na cabeça do leitor sincero: “Grande coisa! Prefiro mil vezes a desigualdade americana à igualdade etíope!”

De nada adianta distribuir melhor a riqueza se ela for escassa 

O leitor está certo, evidentemente. Como têm apontado analistas de perfil liberal (que, felizmente, começam a se tornar mais numerosos no Brasil), o maior problema econômico de um país não é a desigualdade, mas a pobreza. De nada adianta, por exemplo, aquele igualitarismo na miséria tão comum a regimes socialistas como os da antiga Cortina de Ferro, ou os de Venezuela e Cuba, onde, à exceção do tirano e seu ciclo mais próximo, toda a população vive na escassez, tendo de enfrentar filas intermináveis por sua ração diária de alimento.

O caso do Brasil é significativo. Embora a grande imprensa tenha feito um escarcéu sobre os dados divulgados pelo IBGE na última quarta-feira (29) dando conta de que 1% dos brasileiros mais ricos recebem 36 vezes mais que os 50% mais pobres, o fato é que a nossa desigualdade de renda vem caindo nos últimos anos. De 2001 até 2015, o país reduziu em cerca de 0,1 o seu coeficiente de Gini. O grande problema é que essa redução se fez acompanhar de um empobrecimento geral do país, um nivelamento por baixo. Naquele mesmo ano, o nosso rendimento mensal médio recuou mais de 5%. Todas as classes sociais ficaram mais pobres.

Ora, de nada adianta distribuir melhor a riqueza se ela for escassa. Mais vale viver num país onde o pobre possa comprar um carro popular, mesmo que o rico tenha três Lamborghinis na garagem, do que num em que todos só possam ter uma bicicleta enferrujada (ou nem mesmo isso) para se locomover. Mais que distribuir uma quantidade estática de riqueza (a tão equivocada premissa marxista, segundo a qual a economia é um jogo de soma zero), é preciso criá-la e expandi-la. E a única forma de fazê-lo é mediante estímulo ao livre mercado e ao empreendedorismo.

Mas, de modo geral, formados em instituições de ensino onde prevalecem variações sobre um tema de fundo marxista, os jornalistas brasileiros parecem estar muito mais preocupados com a distribuição do que com a criação, ou seja, com tirar dos ricos mais do que com dar aos pobres. Para o principal jornal carioca, por exemplo, os dados do IBGE mostram que a “desigualdade ainda é batalha a ser vencida”. Manchetes com o mesmo teor circularam nos principais jornais e revistas do país, todos, aparentemente, aceitando de maneira acrítica a premissa marxista. Todos, em suma, desejando para o Brasil a Etiópia, e não os EUA, como futuro.

Numa conhecida altercação no Parlamento britânico, Margaret Thatcher responde a um interlocutor do Partido Trabalhista, que a questionara sobre a desigualdade nos mesmos termos que os agora usados por nossa imprensa. “O que o nobre cavaleiro está dizendo”, ironiza Thatcher, “é que preferiria que os pobres estivessem mais pobres, desde que os ricos estivessem menos ricos”. Nessa curta e elegante resposta, a Dama de Ferro sintetizou a fórmula marxista e filo-marxista para a economia, que se baseia muito mais numa inveja dos ricos do que numa preocupação legítima com a condição de vida dos pobres.

A inveja, esse “monstro de olhos verdes” de que falou Shakespeare, sempre foi um grande motivador de teorias e elucubrações intelectuais, não apenas dos marxistas, evidentemente. Na verdade, desde que assumiu a sua forma arquetípica no século XVIII, sobretudo na França, o intelectual contemporâneo, detentor de poder cultural, tem mantido uma relação ambivalente com os dois outros grandes tipos de poder existentes, o político e o econômico, ambivalência expressa naquele misto de fascínio e repulsa tão típico do quinto pecado capital.

Tendo abordado a relação do intelectual com a política na resenha que escrevi sobre o livro A Mente Imprudente, de Mark Lilla, e que saiu semana passada aqui na Gazeta, encerro este artigo com uma breve reflexão sobre a relação do intelectual com o poder econômico, que me parece uma boa chave explicativa para, entre outras coisas, a repulsa da intelligentsia brasileira pela desigualdade, bem como o seu fascínio pela pobreza.

O intelectual está sempre nas cercanias dos poderes político e econômico e, a acreditarmos na teoria do desejo de René Girard, essa contiguidade (ou “mediação interna”, na fórmula girardiana) costuma ser o caldo em que fermenta a inveja. Um traço distintivo do poder que o intelectual detém, e que o separa dos outros dois poderes, diz respeito à sua temporalidade. Ao contrário do poder político e do econômico, o poder cultural opera no longo prazo, raramente produzindo efeitos imediatos. O intelectual influente não costuma viver o bastante para testemunhar as consequências práticas de suas ideias.

Para além das diferenças individuais de personalidade, aquilo talvez explique a inveja estrutural que os intelectuais no Ocidente, com seu espírito algo aristocrático e sua tendência ao abstracionismo, têm demonstrado nos últimos três séculos em face de burgueses, comerciantes e empresários, que, sem o refinamento espiritual daqueles, conseguem, todavia, produzir riqueza, bens e mercadorias, influenciando diretamente a vida de milhões de pessoas.

Dentre as teorias surgidas para dar conta desse mal-estar intelectual, o marxismo foi decerto a mais sedutora, convertendo-se numa espécie de vingança dos intelectuais impacientes, reféns das características inerentes ao seu poder, contra os detentores do poder econômico. Trata-se, em suma, de uma rivalidade entre tipos de poder, de uma briga de cachorro grande. Os pobres entram nessa equação apenas como pretexto. Nesse contexto, não espanta que tantos jornalistas brasileiros, mestres por excelência da “mediação interna”, vivendo sempre em meio a intelectuais, empresários e políticos, bebam do cálice marxista de maneira quase automática e semiconsciente, reproduzindo ad aeternum a nossa cultura estatista e antiempresarial.
 
Flávio Gordon é antropólogo e autor do livro “A Corrupção da Inteligência”
Gazeta do Povo

Esquerda está engasgada com seu próprio veneno

A esquerda está engasgada com seu próprio veneno. Anda por aí posando de vestal virgem (a redundância é intencional) com a "perseguição" que começa a sofrer por parte da nova direita.

Coitadinha dela! Sempre tão a favor da liberdade de expressão. Tão sempre disposta ao diálogo e à abertura "para o Outro". Tão distante de práticas de reserva de mercado nas universidades, nas escolas, nas redações, ou entre os agentes culturais.

Até feiras literárias chiques a esquerda sempre quis compartilhar com os que têm o hábito de ler "outros livros".

Tenho mesmo perdido horas imaginando como esses "corações livres" sofrem com a injustiça do mundo. Como não reconhecer que a esquerda sempre foi a favor da liberdade de expressão e que nunca praticou o seu modo de censura, conhecido por "politicamente correto"? A boçalidade da esquerda na sua autopercepção como "pura" pode chocar os não iniciados na mentira moral e política que alimentou grande parte da história da esquerda desde suas origens entre os jacobinos no século 18.

Mas, antes, vamos esclarecer uma coisa: não simpatizo com essa guerrilha cultural. E não simpatizo, basicamente, por dois motivos.

O primeiro porque, quando começamos a pedir censura, o processo toma seu próprio curso e logo chegamos à caça às bruxas e à histeria.

O segundo motivo porque, apesar de a direita americana há anos ter optado por essa prática de embate cultural, não estou certo de que funcione no plano das eleições (não julgo a eleição de Trump um sucesso para os setores mais competentes em política da direita americana).

Enquanto esses setores da nova direita brasileira combatem feministas que se ocupam com temas periféricos no mundo (questão "queer"), o PT pode voltar ao poder em larga escala. A escala do retrocesso no país seria paleolítica.

O preço a pagar pelo retorno do PT custaria 50 anos ao país, no mínimo. O PT e seus associados continuam sendo maioria nas universidades, nas escolas, nas Redações, no Poder Judiciário, no STF e nos aparelhos culturais em geral.

A necessidade de alianças com níveis reacionários da sociedade pode se tornar uma triste realidade.

E aí chegamos ao que pensa, pelo menos em parte, essa nova direita que vai para o embate cultural nesse momento.

E é importante prestarmos atenção ao que está por trás da escolha dessa estratégia.

Voltemos ao meu próprio argumento acima (a um detalhe nele, pelo menos).

Eu disse que a questão "queer" era periférica no mundo.

Continuo a duvidar da importância da guerrilha cultural para evitar um retorno do PT e associados ao poder, mas alguém pode contra-argumentar dizendo que, pelo menos em parte, o combate cultural pode ser um elemento essencial na disputa política pelo poder (a tal da "hegemonia").

Não apenas no sentido de política como eleições, mas sim no de política cultural engajada nas instituições e aparelhos que produzem uma visão de mundo que, a médio prazo, poderá impactar todas as formas de política e de sociedade no país.

Alguém pode perguntar: por que o dinheiro dos impostos, pagos por todos (e que sustentam direta ou indiretamente universidades, escolas, museus, teatros e afins), deve ser utilizado em atividades que não estariam de acordo com grande parte da sociedade brasileira?

E mais: por que essa grande parte não poderia, ou não deveria, se manifestar no sentido de inviabilizar esses gastos?

Lembremos que a truculência praticada por esta nova direita já era praticada pela esquerda no país. O que esta esquerda não esperava era ter que provar do seu próprio veneno.

Quem vem a público atirar pedras nessa nova direita deveria lembrar tudo o que a esquerda faz contra quem não concorda com seus pressupostos acerca da "democracia".

Escolas devem sim ensinar que todos são iguais perante a lei. Mas, por que escolas devem se meter na formação sexual de crianças?

Não seria essa suposta "formação sexual" um modo de um número mínimo de pessoas impor suas teorias a um número enorme de crianças que não tem como reagir à "pregação" ideológico-sexual?
 
Luiz Felipe Pondé 
Folha de São Paulo

Mengão na final da Sulamericana


"Ressoamos com a linguagem e, ao falar, tornamo-nos responsáveis pelas palavras e pelas consequências desse ato. Nosso dizer também pode manifestar-se no corpo. A psicanálise dá espaço para esse dito, responsabiliza o sujeito pelas suas escolhas, abre caminho para o “ser singular” no mundo. Implica o sujeito. E, nessa tratativa, há ganhos, e ele consegue enxergar outras possibilidades."

(Gislaine Romão)

Recentemente estive a disposições de seus cuidados e gostaria de agradecer a atenção e o zelo das Enfermeiras que me cuidaram. Nada melhor do que trazer aqui o depoimento de Florence Nightingale.
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Escolhi os plantões, porque sei que o escuro da noite amedronta os enfermos.
Escolhi estar presente na dor porque já estive muito perto do sofrimento.
Escolhi servir ao próximo porque sei que todos nós um dia precisamos de ajuda.
Escolhi o branco porque quero transmitir paz.
Escolhi estudar métodos de trabalho porque os livros são fonte saber.
Escolhi ser Enfermeira porque amo e respeito a vida!


Florence Nightingale

Charge


Aí tem

As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.
Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.

Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.

Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?

É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.  

Martha Medeiros

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017




Memoriais & Legados: Novo livro de autoria do escritor e radialista pombalense Clemildo Brunet de Sá

Jornalista Clemildo Brunet lançará nova obra. Memórias e Legados certamente será um sucesso.
Yan ladeado pelas fadas professoras Juliana e Amanda
Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria.

Charles Chaplin

quinta-feira, 30 de novembro de 2017


Versículos do dia

E exultarei em Jerusalém, e me alegrarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor. Isaías 65:19

E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Romanos 8:17

Frase

O peixe apodrece pela cabeça. Níveis altos de corrupção são definidos no topo.

Graham Brooks, professor de Anticorrupção e Criminologia da University of West London
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.  

Sobre livros não lidos e como falar sobre eles, por Umberto Eco

Lembro-me vagamente de um magnífico artigo de Giorgio Manganelli, explicando como um leitor sofisticado pode saber se um livro vale a pena ser lido, mesmo antes de abri-lo. Ele não estava se referindo à capacidade muitas vezes requerida a um leitor profissional, ou a um leitor afiado e criterioso. Não estava se referindo àqueles que podem julgar um livro a partir de uma linha de abertura, de duas páginas, de uma olhada aleatória do índice ou muitas vezes da bibliografia. Isso é simplesmente experiência. Não, Manganelli estava falando sobre uma espécie de iluminação, de um dom que evidentemente alegava ter.

Em How to Talk About Books You Haven’t Read (de Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura) é explicado como você pode falar sobre um livro que você não leu, até mesmo para seus alunos, inclusive quando se trata de um livro de extraordinária importância. Seu cálculo é científico. As boas bibliotecas contêm vários milhões de livros: mesmo que se leia um por dia, leríamos apenas 365 livros por ano, cerca de 3.600 em dez anos, e entre as idades de dez e oitenta anos nós teremos lido apenas 25.550. É pouco. Por outro lado, qualquer italiano que tenha tido uma boa educação secundária sabe perfeitamente que pode participar de uma discussão, digamos, sobre Matteo Bandello, Francesco Guicciardini, Matteo Boiardo, sobre as tragédias de Vittorio Alfieri ou sobre as Confissões de um Italiano, de Ippolito Nievo, conhecendo apenas o nome e algo sobre o contexto crítico, sem ter lido uma palavra deles.

E o contexto crítico é o ponto crucial de Bayard. Ele declara desavergonhadamente que ele nunca leu Ulysses de James Joyce, mas que pode falar sobre isso aludindo ao fato de que é baseado na Odisseia, que ele também admite nunca ter lido na íntegra. Ulysses também é baseado em um monólogo interno, com a ação se desenrolando em Dublin durante um único dia, etc. “Como resultado”, ele escreve, “muitas vezes me encontro falando sobre Joyce sem a menor ansiedade”. Conhecer o relacionamento de um livro com outros livros geralmente significa que você sabe mais sobre o livro do que se tivesse lido a obra.

Bayard mostra como nós, quando lemos certos livros percebemos que estamos familiarizados com seus conteúdos porque eles foram lidos por outros que falaram sobre eles. Ele faz algumas observações extremamente divertidas sobre uma série de textos literários que se referem a livros nunca lidos, incluindo Robert Musil, Graham Greene, Paul Valéry, Anatole France e David Lodge. E ele me faz a honra de dedicar um capítulo inteiro ao meu O Nome da Rosa, onde William de Baskerville demonstra familiaridade com o segundo livro da Poética de Aristóteles no momento em que o segura nas mãos pela primeira vez. Ele faz isso pela simples razão de que ele infere o que diz a partir de algumas outras páginas de Aristóteles.

Um aspecto intrigante do livro de Bayard, que é menos paradoxal do que parece, é que também esquecemos uma porcentagem muito grande dos livros que realmente lemos e, de fato, nós construímos uma espécie de imagem virtual deles que não consiste tanto no que dizem, mas no que eles evocaram em nossa mente. Então, se alguém que não tenha lido um livro cita passagens ou situações inexistentes, estamos prontos a acreditar que estão no livro.

Bayard se interessa pela ideia — e aqui é a voz do psicanalista em vez do professor de literatura — de que toda leitura ou não-leitura ou leitura imperfeita têm aspectos criativos e que, enfim, os leitores fazem sua parte. E ele prevê a criação de uma escola onde os estudantes “inventam” livros que não precisam ler, já que falar de livros não lidos é um meio de autoconsciência.

Bayard demonstra como, quando alguém fala sobre um livro não lido, mesmo aqueles que leram o livro não percebem os erros. No final de sua obra, ele admite ter apresentado três falsas informações em seus resumos de O Nome da Rosa, O Terceiro Homem, de Graham Greene e Changing Places de David Lodge. O divertido é que, quando li os resumos, notei imediatamente o erro em relação a Graham Greene, fiquei em dúvida sobre Lodge, mas não percebi o erro em meu próprio livro. Isso provavelmente significa que eu não li atentamente o que Bayard escreveu, que eu simplesmente espreitei o texto. Mas o mais interessante é que Bayard não percebeu que, ao admitir seus três erros intencionais, assumiu implicitamente que uma maneira de ler é mais correta do que outras, tanto que ele foi obrigado a fazer um estudo meticuloso dos livros que cita para poder sustentar sua teoria sobre não lê-los. A contradição é tão evidente que faz pensar se Bayard realmente leu o livro que escreveu.

Extraído de Crônicas de uma Sociedade Líquida por Umberto Eco, traduzido do italiano para o inglês por Richard Dixon.

Umberto Eco era um romancista italiano, crítico literário, filósofo, semiótico e professor universitário.

Do Blog do Milton Ribeiro 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Neste momento, penso em você e então quisera me transformar em vento.
E se assim fosse, chegaria agora como brisa fresca e tocaria leve sua janela.
E se você me escuta e me permite entrar, em você vou me enroscar quase sem o tocar.
Vou roçar nos seus cabelos, soprar mansinho no ouvido, beijar sua boca macia, o embalar no meu carinho
Mas eu não sou vento... Agora sou só pensamento e estou pensando em você.
E se abrir sua janela, eu estou chegando aí, agora...
neste momento, em pensamento... no vento.

Roberto Shinyashiki
Na infinita privacidade de um táxi em movimento, meu passageiro confessou-se preocupado. Prestes a levar sua nova namorada pra cama, na hora dos finalmentes, não sabe qual será a reação da moça ao notar o "problema" na sua perna - levantando a bainha da calça, revelou a tornozeleira eletrônica, nada discreta, nada sensual.

O amor e seus desafios.

 


Mauro Castro

O que não fazer num livro para jovens

Assim como tem gente que muda o tom de voz quando vai falar com alguém mais novo (coisa que os “alguéns mais novos” em geral detestam, porque veem como sinal de falsidade), muitos escritores mudam o tom da escrita quando trabalham num livro dirigido a crianças, ou a esse leitor que modernamente vem sendo classificado como “jovem adulto” (“young adult”, na língua da matriz).

Esse tom paternalista na escrita pode se manifestar de várias maneiras, em duas direções básicas.

Na primeira, o autor sobe num pedestal e fala de cima para baixo com o leitor, como se quisesse reafirmar sua autoridade e sua hierarquia de mais velho: “Olha aqui, presta atenção, vou te explicar tudo...”

Na segunda, o autor resolve falar de igual para igual com o hipotético leitor-jovem, imitando o que ele considera serem os trejeitos verbais e mentais do seu público – mas o máximo que consegue é parecer um sujeito de 50 anos trajando bermudão e boné virado pra trás.

Vai daí, resolvi enumerar alguns exemplos.

O PATERNALISMO CONSTRANGEDOR
Se o seu leitor é jovem, não importa de que idade (suponho sempre um leitor já capaz de sentar sozinho com um texto e decifrá-lo em silêncio, sem ajuda) evite tratá-lo como se ele fosse meio burrinho. Não escreva algo como: “Naquela noite, os nossos heróis tiveram que dormir ao ar livre, embaixo da intempérie. Palavrinha difícil essa, não? Intempérie quer dizer tempo ruim, chuvoso.”

Esses comentários didáticos, piscando o olho para o público, têm a intenção de aumentar a cumplicidade e a proximidade entre o Autor e o Leitor, mas pra mim têm o efeito contrário. Acabam fazendo o Leitor achar que está sendo considerado burrinho, que não sabe o significado de uma palavra, e que o Autor é forçado a interromper a narrativa para passar a mão na cabecinha dele diante de toda a turma, como fazem alguns professores, e dizer: “Ora, ora, garotos, não riam do Fulaninho. Ele não sabia a palavra, mas agora entendeu, e não vai mais esquecer, não é, Fulaninho?”

Agora me diga qual é o leitor que gosta disso.

DESCRIÇÃO DE EMOÇÕES
Como o Autor adulto imagina que os jovens não percebem sutilezas emocionais, ele acha que a emoção deve ser descrita de forma caricatural. E a toda hora fica usando expressões como “com os olhos fuzilando de ódio”, “espumando de raiva”, “com o rosto contorcido de fúria”.

A descrição de emoções  passa por vários estágios. O primeiro estágio é o da descrição abstrata: “Ao ouvir isso, João ficou furioso”. É uma mera informação, sem nenhum indício concreto. Depois o escritor aprende que é melhor dar alguma pista; risca a frase anterior e escreve: “Ao ouvir isto, João teve um sobressalto, ficou com o rosto vermelho, ofegante, soltou um palavrão e deu um chute na cadeira mais próxima.”  Esta é uma maneira concreta (mesmo que rudimentar) de dizer que o cara “ficou furioso” sem recorrer ao adjetivo.

O problema é que todas essas descrições de segundo nível acabam se transformando em clichê. Há até mesmo autores que brincam o tempo todo com os próprios clichês, como Nelson Rodrigues, que vivia repetindo: “com o olho rútilo e o lábio trêmulo”.

Como, então, descrever as emoções dos personagens sem recorrer aos meros adjetivos, e aos clichês descritivos?  Não sei. Escrever é descobrir essas coisas.


DIÁLOGOS CARICATURAIS
Brigas em que as pessoas se insultam enquanto trocam socos! Isso é um defeito mais frequente dos quadrinhos do que nos livros, mas está presente nos dois.

Das brigas que já presenciei ao vivo, me ficou uma lembrança sonora de grunhidos, arquejos, um certo rugido de fundo de garganta, um ou outro palavrão truncado, mas diálogo mesmo teve muito pouco.

Quando você está engalfinhado com alguém, numa briga pra valer, não fica dizendo (como nos quadrinhos), “você agora vai ver uma coisa, seu verme maldito”, “não pense que tenho medo de você, grandão” ou o clássico “tome isto, isto e mais isto!”. E por incrível que pareça eu vejo brigas narradas assim até em livros para adultos.

Sou especialista em brigas? Nem de longe, nunca briguei com ninguém. Mas já vi muita briga a poucos metros de distância, e estou falando em briga séria, entre adultos doidos para arrebentar um ao outro de verdade, e tenho boa memória. Só quem briga pronunciando frases de efeito é o Batman.


LINGUAGEM AFETIVA ABESTADA
Usar diminutivos o tempo inteiro. Não sei se é preconceito, mas eu vejo muito isso em livros infantis com personagens femininas. A garota não tem um cachorro, tem um cachorrinho; ela não está lendo um livro, está lendo um livrinho; ao se recolher ela não vai dormir em sua cama, mas em sua caminha. Esse cacoete de linguagem afetiva fica irritante bem depressa.

E não é porque eu sou homem e velho; quem eu vejo se queixando disso são garotas que leem.


DECISÕES MORAIS
Os adultos pensam que vivem num mundo psicologicamente complexo e profundo, e que os jovens vivem num mundo psicologicamente simples e raso. Eu diria que frequentemente é o contrário. Adultos vivem num mundo onde, bem ou mal, já aprenderam a se comportar; os jovens estão aprendendo às custas de tentativas e erros, e aprendendo em público, à vista de todo mundo.

Cory Doctorow (revista Locus, julho de 2008) afirma:

Escrever para leitores jovens é algo entusiasmante. Um autor de livros para “jovens adultos” me disse: “A adolescência é uma série de decisões corajosas e irreversíveis.”

Num dia, você é alguém que nunca disse uma mentira com consequências graves; no dia seguinte, você acabou de fazê-lo, e nunca mais vai poder voltar atrás. Num dia, você é alguém que nunca teve uma atitude nobre para ajudar um amigo; no dia seguinte você o fez, e isso também não pode ser desfeito.

É de estranhar que os jovens experimentem suas amizades de maneira tão intensa quanto companheiros de campo de batalha? É de estranhar que as partes do nosso cérebro que governam a avaliação do perigo não estejam plenamente desenvolvidas até a idade adulta? Quem correria riscos tão corajosamente, quem enfrentaria tais dilemas existenciais, se tivesse um sistema de avaliação de riscos maduro, e em pleno funcionamento?

Os jovens vivem num mundo que se caracteriza por uma dramaticidade intensa. Isso é o sonho de um autor criador de enredos. Quando você percebe que seus personagens vivem nesse estado de consequências cruciais, cada virada do enredo adquire um impulso e uma importância que fazem o leitor não parar de virar as páginas.

Escreveremos melhor, para os jovens, se compreendermos que eles vivem a fase mais cheia de riscos da vida inteira, quando tudo que tem importância crucial está acontecendo pela primeira vez. E talvez o que aconteça nessa vez determine tudo o que virá depois.
 
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo