quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Criancice
O poder dá a quem o tem a sensação de que pode realizar tudo, inclusive fantasias infantis
Quem, entre nós, nunca sonhou em ter um suprimento inesgotável de sorvete que atire o primeiro Häagen-Dazs.
Era um desejo infantil, um desejo que se dissipava na adolescência,
quando passávamos a sonhar com outras coisas. Mas o poder dá a quem o
tem a sensação de que pode realizar tudo, inclusive fantasias infantis.
O presidente americano George Bush — o lamentável pai, não o lamentável
filho — disse certa vez, meio brincando, que nunca gostara de brócolis e
que agora que era presidente não precisava comer brócolis.
Quem, entre nós, nunca sonhou em não ser forçado a comer brócolis, ou
comer espinafre, ou tomar banho, ou ir ao dentista, ou arrumar o quarto?
Eu sei que não foi o Temer que pediu 500 potes de Häagen-Dazs para o
avião presidencial, o que, além de um exagero, seria uma desfeita com a
Kibon. Mas os 500 potes de Häagen-Dazs servem como metáfora, tanto
quanto as joias da mulher do Cabral e outros acintes, para uma espécie
de delírio que vem com o poder, e que não deixa de ser uma forma de
infantilização.
Vi, certa vez, um documentário sobre o Frank Sinatra em que ele foi
filmado na sua casa, que incluía um enorme salão todo ocupado por uma
ferrovia em miniatura. No salão havia uma placa na parede com o frase:
“Quem morre com mais brinquedos, ganha”. É isso: quem acumula mais
desejos satisfeitos vence, ou é uma criança até o fim.
A quase compra de potes de Häagen-Dazs simboliza um grau de
insensibilidade, nesta hora de aperto geral, que também tem algo de
infantil, no sentido que crianças não têm senso de medida.
Quem decidiu pela compra é uma criança inocente, não importa sua idade.
Ou, se cabe outra metáfora, 500 potes de Häagen-Dazs simbolizariam um
descaso pela opinião alheia que beira a malcriação. Outra criancice.
Fiquei pensando nos meus próprios sonhos infantis, realizados e não
realizados. Não me tornei aviador nem fui morar numa árvore como o
Tarzan, e meu consumo de sorvete foi limitado pelas sucessivas ameaças
maternas de ter uma indigestão mortal. Mas também me lembro do prazer de
ter nas mãos a primeira história em quadrinhos — a cores! E o do
primeiro chute numa bola de futebol novinha, no tempo que as bolas
tinham a cor do couro.
Ou da vez em que... Mas isto é outra coluna.
Luis Fernando Veríssimo
Do Blogo do Noblat
Frase
"Nós condenamos nossos jovens a não terem lugar na
sociedade, porque os empurramos lentamente para a margem da vida
pública, forçando-os a imigrar ou a implorar por empregos que já não
existem ou não prometem um futuro.
Papa Francisco
Pra não dizer que não falei de flores
Tenho
ocupado esse espaço para uma volta ao passado ao invés de incursionar
pelo presente. Não por alienação ou omissão, mas por vocação: amo a
pesquisa e exalto a memória histórica como lições de antanho para
nortear o futuro. Assim chegamos aos primeiros dias de um novo ano com a esperança nascente de que, nos próximos, a vida melhore e as flores voltem a exalar seus melhores perfumes.
Testemunhamos,
ao longo desse período, uma invasão traumática às entranhas da Nação,
revelando excrementos acumulados e acobertados pelo disfarce, a
simulação, a impostura ou a fraude. “Nunca na história deste País” os olhos e os ouvidos de todos foram tão ofendidos pela ação nefasta de uns poucos que se protegiam com a certeza da impunidade.
O império da lei prevaleceu e a Justiça invadiu territórios jamais
acessados. Se antes apelavam aos quartéis e colocavam os tanques nas
ruas, agora se preferiu acreditar “nas flores vencendo os canhões”. A democracia só floresce na paz.
Está por demais justificada a razão pela qual preferi compor os meus textos com a pesquisa e
aproveitar da história seus aspectos mais pitorescos e inusitados,
chegando ao burlesco. Preferi Pedro II como amante da Condessa de
Barral, presente às aulas de suas filhas, ao tempo em que namorava
ostensivamente sua preceptora. As peripécias de Pedro I, visitando as
mais variadas alcovas e requisitando companhia intima desde as senzalas
aos conventos, passaram por este recanto de página. Getúlio Vargas
ameaçou por várias vezes o suicídio e o cometeu quando ninguém esperava.
Foi um amante apaixonado pelo Brasil e pelas belas mulheres. No advento
da República, o herói não teria sido Deodoro mas o seu cavalo. Pelo
feito de conduzi-lo, permaneceu até o fim da vida com direito a fartura
de feno e a honrosa aposentadoria. Foi o inventor da sinecura.
Preparo para este ano um novo livro a que denominei Gente do Passado Fatos do Presente e cuidei de me explicar: “quem
já me conhece sabe que costumo colocar em fatos sérios um pitada de
humor, dourar com ironia atitudes muitas vezes equivocadas e criticar
com acidez atos que incomodam a perspicácia desse ativista político que
já exerceu mandatos, ajudou outros a conquistá-los e, por isso mesmo
acumulou a experiência que o transformou em um gestor publico
requisitado por vários governos”. Com o perdão da imodéstia, quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo haverá de concordar com esse perfil.
A
rememoração de fatos pretéritos é para mim uma forma de, ao lembrá-los,
transmitir a certeza de que estou aprendendo e ensinando uma nova
lição, para repetir Geraldo Vandré, que neste fim de ano
revisitou a sua Paraíba. Nunca a pregação de sua canção esteve tão
presente e necessária a incutir na mente dos brasileiros o desejo de
mudança. Que cada um faça a sua parte: “vem, vamos embora que esperar não é saber/quem sabe faz a hora não espera acontecer”. (Republicado por incorreção dos personagens)
Ramalho Leite
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
As Origens da Cachaça
Eu adoro cachaça e pelo visto fiz escola em casa. Meu filho que mora
em Berlim pediu que eu levasse alguma coisinha para ele. Sabia da
origem do nome pinga — a primeira cachaça teria sido
bebida por escravos negros de gota em gota, pois a cachaça caía do teto
de onde o melaço fora preparado. Há a teoria de que o líquido também
servira para curar ferimentos das costas de escravos, daí o nome aguardente.
Nos primórdios a cachaça era consumida apenas por escravos e gente da
ralé. Que tolinhos… O texto que segue é do professor e mestre em
História Rainer Sousa.
No começo da colonização do Brasil, a
partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande
empreendimento de exploração. Afinal, os portugueses já dominavam o
processo de plantio e processamento da cana – já realizado nas ilhas
atlânticas – e ainda contavam com as condições climáticas que favoreciam
a instalação de grandes unidades produtoras pelas regiões litorâneas no
território.
Para que todo esse trabalho fosse
realizado, os portugueses acabaram optando pelo uso da mão de obra
escrava dos africanos. Entre outras razões, os colonizadores notavam que
os escravos africanos eram mais adaptados do que os índios ao trabalho
compulsório, apresentavam maiores dificuldades para empreender fugas e
geravam lucro à Coroa por conta dos impostos cobrados sobre o tráfico
negreiro.
No processo de fabricação do açúcar, os
escravos realizavam a colheita da cana e, após ser feito o esmagamento
dos caules, cozinhavam o caldo em enormes tachos até se transformarem em
melado. Nesse processo de cozimento, era fabricado um caldo mais
grosso, chamado de cagaça, que era comumente servido junto com as sobras
da cana para os animais.
Tal hábito fazia com que a cagaça
fermentasse com a ação do tempo e do clima, produzindo um liquido
fermentado de alto teor alcoólico. Desse modo, podemos muito bem
acreditar que foram os animais de carga e pasto a experimentarem
primeiro da nossa cachaça. Certo dia, muito provavelmente, um escravo
fez a descoberta experimentando daquele líquido que se acumulava no coxo
dos animais.
Outra hipótese conta que, certa vez, os
escravos misturaram um melaço velho e fermentado com um melaço fabricado
no dia seguinte. Nessa mistura, acabaram fazendo com que o álcool
presente no melaço velho evaporasse e formasse gotículas no teto do
engenho. Na medida em que o liquido pingava em suas cabeças e iam até a
direção da boca, os escravos experimentavam a bebida que teria o nome de
“pinga”.
Nessa mesma situação, a cachaça que
pingava do teto atingia em cheio os ferimentos que os escravos tinham
nas costas, por conta das punições físicas que sofriam. O ardor causado
pelo contato dos ferimentos com a cachaça teria dado o nome de
“aguardente” para esse mesmo derivado da cana de açúcar. Essa seria a
explicação para o descobrimento dessa bebida tipicamente brasileira.
Inicialmente, a pinga aparecia descrita
em alguns relatos do século XVI como uma espécie de “vinho de cana”
somente consumida pelos escravos e nativos. Entretanto, na medida em que
a popularização da bebida se dava, os colonizadores começaram a
substituir as caras bebidas importadas da Europa pelo consumo da popular
e acessível cachaça. Atualmente, essa bebida destilada é exportada para
vários lugares do mundo.
Fonte e créditos
Blog do Milton Ribeiro
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Luiz Mococa
Na
semana passada perdi um grande amigo de infância. Ele era da segunda
leva de amizades que fiz aqui em Vitória, a partir de 1958, A primeira,
com a garotada da antiga Rua da Árvore e a outra com as mais de trinta
crianças que moravam numa das duas quadras da Rua Madeira de Freitas.
Luiz Fernando era um dos cinco filhos de seu Anacleto e morava em frente
da nossa casa. Naquele tempo sem TV, os vizinhos se conheciam e muitos
se frequentavam. As amizades surgiam nas brincadeiras de rua, nos papos
de varanda e se consolidavam nos banhos de mar, nas pescarias e nas
festas do Praia Tenis Club. Nos finais de ano, nossa rua era fechada ao
trânsito para comemorar o aniversário de dona Natalice, a mãe dele. Somos a Turma da Madeirinha.
Luiz
Mococa era uma pessoa ímpar e sua morte me traz de volta um tempo muito
bom que vivemos juntos, incluindo as peladas disputadas no barro da rua
e na areia de Camburi e os passeios no seu jipe Candango. Como
escoteiros do mar, acampamos na Ilha do Frade, onde chegamos a bordo de
um escaler da Marinha. Ele lia tudo sobre a Segunda Guerra. No tempo dos
festivais, Luiz aprendeu a tocar violão e a cantar “Gatinha manhosa”,
seu hit. Nos formamos em 1970 e pra comemorar, junto com mais uns dez
colegas, fomos numa Kombi alugada até o Uruguai, a caminho de Bariloche.
Saudosista, sempre me sugeria contar aquela viagem em crônica.
Luiz
era uma pessoa doce que comia tanto quanto um passarinho e gostava de
uma cachacinha. Quanto mais bebia, mais calado ficava, piscando mais do
que o normal. Ele adorava fogo, acender fogueira e soltar foguetes.
Habilidoso, começou a fazer, com madeira e papelão, miniaturas de
barcos, veleiros e aviões. Na quinta feira passada, conversamos
alegremente na confraternização da nossa turma de engenharia.
Discretíssimo e com certa cumplicidade, ele me mostrou suas obras mais
recentes no celular. Combinamos fotografar tudo com lentes potentes e
luz adequada e fomos pra casa dormir. Na sexta feira, o cemitério de
Santo Antônio estava lotado de gente incrédula.
Álvaro Abreu
Adeus
Adeus à terra que me acolheu com ternura
e após com ódio revelou sua face escura.
Adeus ao mar imenso, adeus ao vento,
ao fogo. Despeço-me. Adeus ao lamento
da tarde. Não há mais voz nessa garganta
que quer urrar de dor, mas não adianta.
Adeus, adeus, palavra solitária e errante
sempre cismada em nos levar adiante.
Aqui são lagos cheios de cores e luzes,
aí é o mármore, eternizado em cruzes,
cheiro de flores no ar queixoso e triste
como em nenhum outro lugar existe.
Adeus aos trajes ridículos, aos vexames,
ao corpo débil, aos médicos, aos exames.
Adeus aos olhos, ouvidos, dedos, cabeça
e a tudo ainda que talvez me esqueça.
Adeus aos amigos, mamãe, adeus à Poesia:
já vem a barca do Caronte à bruma fria.
Paulo Fichtner
e após com ódio revelou sua face escura.
Adeus ao mar imenso, adeus ao vento,
ao fogo. Despeço-me. Adeus ao lamento
da tarde. Não há mais voz nessa garganta
que quer urrar de dor, mas não adianta.
Adeus, adeus, palavra solitária e errante
sempre cismada em nos levar adiante.
Aqui são lagos cheios de cores e luzes,
aí é o mármore, eternizado em cruzes,
cheiro de flores no ar queixoso e triste
como em nenhum outro lugar existe.
Adeus aos trajes ridículos, aos vexames,
ao corpo débil, aos médicos, aos exames.
Adeus aos olhos, ouvidos, dedos, cabeça
e a tudo ainda que talvez me esqueça.
Adeus aos amigos, mamãe, adeus à Poesia:
já vem a barca do Caronte à bruma fria.
Paulo Fichtner
A almofada de penas
Sua lua-de-mel foi um longo estremecimento. Loura, angelical e tímida, o temperamento
duro do marido gelou suas sonhadas criancices de noiva. Ela o amava muito, no entanto, às
vezes, sentia um ligeiro estremecimento quando, voltando à noite juntos pela rua, olhava
furtivamente para a alta estatura de Jordão, mudo havia mais de uma hora. Ele, por sua
vez, a amava profundamente, sem demonstrá-lo.
Durante três meses — tinham casado no mês de abril — viveram numa felicidade especial.
Sem dúvida ela teria desejado menos severidade nesse rígido céu de amor, mais expansiva e incauta ternura; mas a impassível expressão do seu marido a reprimia sempre.
A casa em que viviam influenciava um pouco nos seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Por dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve arranhão nas altas paredes, acentuava aquela sensação de frio desagradável. Ao atravessar um quarto para outro, os passos encontravam eco na casa toda, como se um longo abandono tivesse sensibilizado sua ressonância.
Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Porém tinha terminado por abaixar um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia dormida na casa hostil, sem querer pensar em nada até o marido chegar.
Não é incomum que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dias e mais dias; Alicia não melhorava nunca. Por fim uma tarde pôde sair ao jardim apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um e outro lado. De repente Jordão, com profunda ternura, passou a mão pela sua cabeça, e Alicia em seguida se quebrou em soluços, e o abraçou. Chorou demoradamente seu discreto pavor, redobrando o choro diante da menor tentativa de carícia. Depois, os soluços foram-se acalmando, e ainda ficou um longo tempo escondido no seu ombro, quietinha, sem pronunciar uma palavra.
Foi o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão a examinou com toda a atenção, recomendando muita calma e repouso absolutos.
— Não sei — disse para Jordão na porta da casa, em voz ainda baixa. — Tem uma grande debilidade que não consigo explicar, e sem vômitos, nada... Se amanhã ela acordar igual a hoje, você me chama depressa.
No dia seguinte ela piorou. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas ia visivelmente andando para a morte. Durante o dia todo, o quarto estava com as luzes acesas e em total silêncio. As horas se passavam sem se ouvir o mínimo barulho. Alicia dormitava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com as luzes acesas. Andava sem cessar de um extremo para outro, com incansável obstinação. O tapete abafava seus passos. Algumas vezes entrava no quarto e continuava seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para sua mulher cada vez que caminhava na sua direção.
Não demorou muito para Alicia passar a sofrer alucinações, confusas e flutuantes no início, e que desceram depois até o chão. A jovem, de olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para os tapetes que se encontravam a cada lado da cama. Uma noite ela ficou repentinamente com o olhar fixo. Em seguida abriu a boca tentando gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.
— Jordão! Jordão! — gritou, rígida de espanto, sem parar de olhar o tapete.
Jordão correu para o quarto, e, ao vê-lo aparecer, Alicia deu um brado de horror.
— Sou eu, Alicia, sou eu!
Alicia olhou para ele com olhar extraviado, olhou para o tapete, voltou a olhar para ele, e depois de um longo momento de estupefata confrontação, serenou. Sorriu e pegou entre as suas as mãos do marido, fazendo carícias e tremendo.
Entre suas alucinações mais obstinadas, houve um antropóide, apoiado no tapete sobre os próprios dedos, que mantinha os olhos fixos nela.
Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente por quê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles a pulseavam, passando de um para outro o pulso inerte. Observaram-na um longo momento em silêncio e encaminharam-se para a sala.
— Pst... — Deu de ombros, desanimado, seu médico. — É um caso sério... pouco se pode fazer...
— Era só o que me faltava! — gritou Jordão. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.
Alicia foi-se extinguindo no seu delírio de anemia, que se fazia mais grave pe!a tarde, mas que cedia sempre nas primeiras horas da manhã. Durante o dia, sua doença não avançava, mas de manhã ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente à noite a sua vida se fosse em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de sentir-se derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. A partir do terceiro dia esse desmoronamento não a abandonou mais. Apenas podia mexer a cabeça. Não deixou que pegassem na sua cama, nem sequer que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançaram na forma de monstros que se arrastavam até sua cama e subiam com dificuldade pela colcha.
Perdeu depois o conhecimento. Nos dias finais, delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam fúnebres e acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o rumor abafado dos eternos passos de Jordão.
Alicia morreu, por fim. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou um momento com estranheza para a almofada.
— Senhor! — chamou ao Jordão em voz baixa. — Na almofada há manchas que parecem ser de sangue.
Jordão se aproximou rapidamente. Também se agachou. Efetivamente, sobre a fronha, de ambos os lados da cavidade que tinha deixado a cabeça de Alicia, se viam algumas manchinhas escuras.
— Parecem picadas — murmurou a empregada depois de um momento imóvel na observação.
— Aproxime-o da luz - disse Jordão.
A moça levantou a almofada, mas em seguida deixou-a cair, e ficou olhando para ele, lívida e trêmula. Sem saber por quê, Jordão percebeu que seus cabelos se eriçavam.
— O que é que há? — murmurou com voz rouca.
— Pesa muito — falou a empregada, sem parar de tremer.
Jordão levantou a almofada; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com a boca inteiramente aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, mexendo devagar os pés aveludados, havia um animal monstruoso, uma bola viva e viscosa. Estava tão inchada que quase não se lhe via a boca.
Noite após noite, a partir do dia em que Alicia tinha ficado doente, ele tinha aplicado sigilosamente sua boca — sua tromba, melhor dizendo — às têmporas da mulher, chupando-lhe o sangue. A mordida era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento, mas assim que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.
Esses parasitos das aves, diminutos no seu meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece ser para eles particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nas almofadas de penas.
Durante três meses — tinham casado no mês de abril — viveram numa felicidade especial.
Sem dúvida ela teria desejado menos severidade nesse rígido céu de amor, mais expansiva e incauta ternura; mas a impassível expressão do seu marido a reprimia sempre.
A casa em que viviam influenciava um pouco nos seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Por dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve arranhão nas altas paredes, acentuava aquela sensação de frio desagradável. Ao atravessar um quarto para outro, os passos encontravam eco na casa toda, como se um longo abandono tivesse sensibilizado sua ressonância.
Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Porém tinha terminado por abaixar um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia dormida na casa hostil, sem querer pensar em nada até o marido chegar.
Não é incomum que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dias e mais dias; Alicia não melhorava nunca. Por fim uma tarde pôde sair ao jardim apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um e outro lado. De repente Jordão, com profunda ternura, passou a mão pela sua cabeça, e Alicia em seguida se quebrou em soluços, e o abraçou. Chorou demoradamente seu discreto pavor, redobrando o choro diante da menor tentativa de carícia. Depois, os soluços foram-se acalmando, e ainda ficou um longo tempo escondido no seu ombro, quietinha, sem pronunciar uma palavra.
Foi o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão a examinou com toda a atenção, recomendando muita calma e repouso absolutos.
— Não sei — disse para Jordão na porta da casa, em voz ainda baixa. — Tem uma grande debilidade que não consigo explicar, e sem vômitos, nada... Se amanhã ela acordar igual a hoje, você me chama depressa.
No dia seguinte ela piorou. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas ia visivelmente andando para a morte. Durante o dia todo, o quarto estava com as luzes acesas e em total silêncio. As horas se passavam sem se ouvir o mínimo barulho. Alicia dormitava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com as luzes acesas. Andava sem cessar de um extremo para outro, com incansável obstinação. O tapete abafava seus passos. Algumas vezes entrava no quarto e continuava seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para sua mulher cada vez que caminhava na sua direção.
Não demorou muito para Alicia passar a sofrer alucinações, confusas e flutuantes no início, e que desceram depois até o chão. A jovem, de olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para os tapetes que se encontravam a cada lado da cama. Uma noite ela ficou repentinamente com o olhar fixo. Em seguida abriu a boca tentando gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.
— Jordão! Jordão! — gritou, rígida de espanto, sem parar de olhar o tapete.
Jordão correu para o quarto, e, ao vê-lo aparecer, Alicia deu um brado de horror.
— Sou eu, Alicia, sou eu!
Alicia olhou para ele com olhar extraviado, olhou para o tapete, voltou a olhar para ele, e depois de um longo momento de estupefata confrontação, serenou. Sorriu e pegou entre as suas as mãos do marido, fazendo carícias e tremendo.
Entre suas alucinações mais obstinadas, houve um antropóide, apoiado no tapete sobre os próprios dedos, que mantinha os olhos fixos nela.
Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente por quê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles a pulseavam, passando de um para outro o pulso inerte. Observaram-na um longo momento em silêncio e encaminharam-se para a sala.
— Pst... — Deu de ombros, desanimado, seu médico. — É um caso sério... pouco se pode fazer...
— Era só o que me faltava! — gritou Jordão. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.
Alicia foi-se extinguindo no seu delírio de anemia, que se fazia mais grave pe!a tarde, mas que cedia sempre nas primeiras horas da manhã. Durante o dia, sua doença não avançava, mas de manhã ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente à noite a sua vida se fosse em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de sentir-se derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. A partir do terceiro dia esse desmoronamento não a abandonou mais. Apenas podia mexer a cabeça. Não deixou que pegassem na sua cama, nem sequer que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançaram na forma de monstros que se arrastavam até sua cama e subiam com dificuldade pela colcha.
Perdeu depois o conhecimento. Nos dias finais, delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam fúnebres e acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o rumor abafado dos eternos passos de Jordão.
Alicia morreu, por fim. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou um momento com estranheza para a almofada.
— Senhor! — chamou ao Jordão em voz baixa. — Na almofada há manchas que parecem ser de sangue.
Jordão se aproximou rapidamente. Também se agachou. Efetivamente, sobre a fronha, de ambos os lados da cavidade que tinha deixado a cabeça de Alicia, se viam algumas manchinhas escuras.
— Parecem picadas — murmurou a empregada depois de um momento imóvel na observação.
— Aproxime-o da luz - disse Jordão.
A moça levantou a almofada, mas em seguida deixou-a cair, e ficou olhando para ele, lívida e trêmula. Sem saber por quê, Jordão percebeu que seus cabelos se eriçavam.
— O que é que há? — murmurou com voz rouca.
— Pesa muito — falou a empregada, sem parar de tremer.
Jordão levantou a almofada; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com a boca inteiramente aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, mexendo devagar os pés aveludados, havia um animal monstruoso, uma bola viva e viscosa. Estava tão inchada que quase não se lhe via a boca.
Noite após noite, a partir do dia em que Alicia tinha ficado doente, ele tinha aplicado sigilosamente sua boca — sua tromba, melhor dizendo — às têmporas da mulher, chupando-lhe o sangue. A mordida era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento, mas assim que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.
Esses parasitos das aves, diminutos no seu meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece ser para eles particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nas almofadas de penas.
Horácio Quiroga
Uma mulher
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
Bruna Lombardi
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
Bruna Lombardi
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Humor
Amor, você me ama?
Claro, amor…
Então, prove!
O você quer que eu faça?
Lute com um leão!
Ouxe, amor, não posso morrer… Peça outra coisa!
Deixa eu ver seu whatsapp?
Qual o tamanho dessa porra desse leão?
Carta
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais
escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a
dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe
quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso
(ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de
instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga
emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de
radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam
tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de
Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na
posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio
Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como
é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da
contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos
discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? -
perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa,
refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta
diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer
a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal,
pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a
compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser
assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo.
Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa
é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando
essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com
perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A
poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que
orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta
para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um
poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer
parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até
ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de
imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho
trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já
esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de
corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão
bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema
não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema
tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de
menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida
inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho
como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é
quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes".
Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes,
porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os
seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito,
podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer
numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as
palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de
hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos
cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho
grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para
criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada
poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas,
outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho,
afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a
contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como
um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica.
Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é;
mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles
assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois
cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência
poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome
nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não
eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e
apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mário Quintana
Frase
Corrupção, sonegação, lavagem de dinheiro passaram a
ser a espantosa regra. O errado virou a regra, e todo mundo passou a
operar nessa regra.
Luís Roberto Barroso, Ministro do
Supremo Tribunal Federal, durante o seminário Grandes Casos Criminais
promovido pelo Conselho Nacional do Ministério Público, ao falar sobre a
corrupção no Brasil
Ouve, namorada, vou te contar um segredinho. Dessas coisinhas que a gente
não comenta com ninguém, e fica curtindo a vitória, bem lá no fundo do peito,
mas com vontade de gritar pra todo mundo. E se gritar, as pessoas julgarão a
vitória como resultado de uma atitude de mau caráter. Mas essa minha até que
foi interessante e sem prejuízo de segundos ou terceiros.
Olha, antes de tudo, isso aconteceu e eu não te conhecia direito ainda,
viu? Nós não nos víamos muito, acho que que nem era namoro. Por isso, não
precisa começar com esse beicinho de zangada, tá?
Vê bem, presta atenção: tenho uma amiga chamada Rosa Maria. Alguns a chamam
de Maria Rosa, mas prefiro a primeira forma, é mais fluente. E houve períodos
em que, na rota da amizade, chegamos a derrapar em tratos mais íntimos, e não
evitamos as derrapadas. Apesar disso, não colidimos pra valer. E era essa
colisão que eu procurava. Que provocasse desajustes nos chassis, capotamentos,
ferragens retorcidas. Pra valer mesmo!
Acontece que, por outra pista, Rosa Maria foi apresentada a Vinícius de
Moraes. E morena que é, complexo estravagante de curvas e cheiros, não custou
muito ao poeta, já no primeiro encontro, jogar-lhe um dengo e malícia
sarrateiras sugestões de carinhos forradas com a promessa de um soneto
especial. E o soneto ficou na promessa, e na cabecinha de Rosa Maria. Enquanto
continuava em minha cabeça a tão almejada colisão.
Passado algum tempo, e sabedor de que uma tal noite eu me encontraria com
Vinícius no teatro, ela me pediu que cobrasse dele o tal soneto que lhe
prometera. E com forte emoção me falou de seu desejo de receber do poeta essa
atenção incomum. E olhou-me deslizante, sem muito breque nas rodas.
- Se você conseguir, nem sei o que te dou!
Jurei a ela de olhos fechados que conseguiria o soneto. E vislumbrei aí a
oportunidade de provocar a tão almejada colisão.
- Ah, nem sei o que te dou!
“Mas eu sei...” – Pensei.
Passei a ver várias formas poéticas semelhantes, para observar a métrica
dos versos e a disposição das rimas. Enfim, compus o meu soneto de Vinícius de Moraes. Desenhei sua assinatura idêntica,
pois eu a possuia em três escritos que ele me enviara durante os anos de nosso
conhecimento.
Ao ler o soneto, Rosa Maria não cabia em si. Tirou da bolsa um
guardanapo no qual Vinícius lhe dedicara uns versos. A assinatura era a mesma!
-Ai, nem sei o que te dou! – abraçava-me ela.
E naquele cruzamento, perdemos a direção. Colidimos na curva, antes da
ponte. E derrapamos, capotamos, rolamos ribanceiras. Depois, por entre as ferragens,contei-lhe
a verdade. E ainda hoje, não sei não, mas Rosa Maria duvida um pouco não ter
sido Vinícius o autor daqueles versos.
De tudo isso, namorada, ficou-me a conclusão de que fazer sonetos é tarefa
exclusiva dos poetas maiores.
João Carlos Pecci
domingo, 1 de janeiro de 2017
Cuba privatiza gestão do principal aeroporto do país para aumentar número de turistas
A ditadura cubana anunciou a privatização da gestão do Aeroporto
Internacional José Martí, em Havana, que será feita pela empresa
francesa Aéroports de Paris (ADP) e terá sua expansão e modernização
realizadas pela construtora francesa Bouygues.
O anúncio foi feito pelo vice-ministro dos Transportes, Eduardo
Rodríguez, em Havana. A francesa ADP administra o aeroporto Charles de
Gaulle, em Paris, e outros 31 terminais espalhados pelo mundo. Por sua
vez, a Bouygues participou da construção do Stade de France, do
Eurotúnel e do aeroporto de Hong Kong.
O projeto deve ser estendido ao aeroporto regional de San Antonio de los Baños, a oeste de Havana, e “prevê
o financiamento e execução de medidas imediatas para melhorar a
qualidade dos serviços, bem como investimentos de médio e longo prazo de
acordo com o crescimento estimado de passageiros”, afirmou a televisão estatal cubana.
Após a expansão, o aeroporto de Havana deverá receber mais de 10 milhões
de passageiros por ano – em 2015, o país recebeu 3,5 milhões de
turistas. “Transporte e infraestrutura são elementos estratégicos e prioritários na economia e sociedade cubana”, declarou o Ministério do Transporte do país. E acrescentou: “Parcerias como as descritas serão estimuladas também para outros terminais no país”.
Ilisp
Versículos do dia
E
cantavam juntos por grupo, louvando e rendendo graças ao Senhor,
dizendo: porque é bom; porque a sua benignidade dura para sempre sobre
Israel. E todo o povo jubilou com altas vozes, quando louvaram ao
Senhor, pela fundação da casa do Senhor. Esdras 3:11
Bendito
o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com
todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Efésios 1:3
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