sábado, 3 de dezembro de 2016

A Caverna



Humberto Eco costumava afirmar que a “internet deu voz aos imbecis.” Para o filólogo e escritor as redes sociais oportunizaram aos “idiotas da aldeia” a estenderem suas “verdades” muito mais além das cercas da mesa de bar e de suas taças de vinhos.


De fato, hoje a coletividade virtual é exposta e até relativizada, via de regra, por modelos e exposições minúsculas de altercações sem profundidade, numa dialética pobre e factual, incapaz de seduzir o leitor a passar a página do próximo capítulo ou da próxima tela.


Além da exposição de um pensamento temporal, restrito, muito superficial e centrado unicamente em convicções muitas vezes sem qualquer observância a outro norte de contraponto, o pensamento midiático vem se isolando em ilhas, compartilhado, preferencialmente, de forma seletiva sob a ótica apenas do encontro de suas próprias  posições equivalentes, se distanciando de outras argumentações, ora por uma opção da própria seletividade , ora por motivações simplórias, incapazes de alicerçar um discurso substancioso e alheio ao seu próprio mundo. 


Essa demasiada exposição de “filósofos de mesa de bar” através das redes sociais, hodiernamente, vem criando a até fomentando a construção de elementos separatistas e antipartidaristas, onde, não raramente, paixões superam a edificação lógica do que se tem como verdade. Isso vem fazendo surgir figuras e conceituações no mínimo inusitadas e até engraçadas, a exemplo dos “petralhas” e dos “coxinhas”. Aqueles se alinham a formação de uma verdade e de um raciocínio comum entre eles; estes, de igual forma, compartilham entre si um conhecimento tido como verdade rasa, divergente do primeiro, igualmente desprovido de razões de convencimento. E a coisa fica por ai.


O que ocorre com tudo isso é que nesse universo da internet tudo nos parece muito razoável e girando em torno de si mesmo. Carece do aprofundamento de suas razões e do confronto de suas construções sejam elas políticas ou sociais.


Presumo, atento a própria improfundidade sugerida a que estamos submetidos, que retornamos todos aos grilhões contemporâneos da nova Caverna que criamos.



Teófilo Júnior

Bilhete com endereço


Mas onde já se ouviu falar num amor á distância,
Num teleamor ?!
Num amor de longe…
Eu sonho é um amor pertinho…
E depois
Esse calor humano é uma coisa que todos - até os executivos têm
É algo que acaba se perdendo no ar
No vento
No frio que agora faz…
Escuta!
O que eu quero
O que eu amo
O que eu desejo em ti
É teu calor animal…

Mário Quintana - Baú de espantos,1986

Hallelujah

A falta de liberdade não consiste jamais em estar segregado, e sim em estar em promiscuidade, pois o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho.

Hora do lanche

Mousse de morango

Anistia a caixa dois é inconstitucional, afirma ex-ministro do STF

Ministro Ayres Britto durante evento da Associação de Advogados de São Paulo

Para o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, a proposta de anistiar o caixa dois é um "jabuti e inconstitucional".

O jurista reagiu com indignação à tentativa, em curso na Câmara, de incluir o perdão ao uso de dinheiro de campanhas sem declaração à Justiça na proposta das Dez Medidas, apresentada pelo Ministério Público Federal.

Em entrevista por telefone à Folha, na sexta (25), Ayres Britto, 74, disse que Constituição não prevê a possibilidade de autoanistia de membros de um dos Três Poderes.

Folha - Como o senhor vê essa sucessão de crises nos mais altos cargos dos Poderes?

Carlos Ayres Britto - A história brasileira é permeada de relações de compadrio, alianças pessoais, relações narcísicas, fisiológicas, populistas. E isso continua, em certa medida. Só que o povo não aceita mais. O povo tirou a venda dos olhos. E o rei está nu. O rei é o poder, de uma maneira geral, especialmente o poder político.

Não tem motivo para desalento. Apenas registro esse divisionismo, impasse entre consciência coletiva mais clara e consciência político-partidária nem tanto. Mas quem vai sucumbir nessa queda de braço não é a cidadania.

Por quê não?

Você teve uma prova disso ontem [quinta-feira (24)], como aquele projeto fisiológico teve que recuar, a toque de caixa, por efeito da consciência coletiva em torno do fisiologismo da proposta e até a meu juízo da contrariedade constitucional da proposta.

Qual é a contrariedade?

O projeto é uma parafernália. É mistura de figuras penais e crimes eleitorais com uma serventia, autoanistiar membros do Legislativo. E a Constituição não admite isso em se tratando de membros de Poder. A anistia foi versada pela Constituição como perdão legal de infrações, mesmo no campo penal, protagonizadas por particulares.

Pelo que mais?

O que é feito por lei só pode ser desfeito por lei, ainda que temporariamente. Mas quando certos bens jurídicos são de regime centralmente constitucional, como a anistia, eles não estão entregues aos cuidados do legislador, se não for para serem robustecidos, e não desidratados.

É como quando a Constituição fala de ação de impugnação de mandato eletivo, instruída com provas de abuso de poder econômico, corrupção ou fraude.

Por esse entendimento, o Supremo barraria o projeto?

Se for aprovado, o projeto já nascerá vocacionado para o seu desvantajoso questionamento em juízo. Esse tema é uma pecinha de cristal, nuançado. É imbricado com outras figuras delituosas. O caixa dois pode ser produto de corrupção, de propina, meio de lavar dinheiro.

A origem dos recursos deve ser considerada na análise penal do caixa dois?

Pelo artigo 350 do Código Eleitoral, o caixa dois é falsidade ideológica. A meu juízo, esse tipo de lei é insuscetível de marcha ré, há proibição de retrocesso. O conteúdo dessa proposta não pode ser objeto de análise superficial e de votação a toque de caixa. Há muitas implicações.

Quando a Constituição cuida de anistia, pela gravidade do tema que é você anistiar alguém pelo cometimento de crime ou infração, só pode ser por lei monotemática, que cuide só disso. Não pode ser por emenda a projeto de lei, como é o caso das Dez Medidas. Aí você encaixa esse jabuti, que é a anistia.

O projeto é inconstitucional?

Em juízo preliminar, por múltiplos aspectos, eu considero o projeto inconstitucional.

Me sinto animado a concluir pela possibilidade de ilicitude dessa anistia. Seria a maior barafunda, a maior contradição no âmbito do ordenamento jurídico que o Estado perdoasse a si mesmo.

O Estado é o conjunto de seus Poderes. E não há Poder sem membros, deputados, senadores, presidente. E não existe a figura da autoanistia.

É por esse raciocínio sistêmico, holístico em cima da Constituição que eu só não encontro razões para pensar assim quando não procuro. Se for procurar mesmo só vou encontrar razões constitucionais para me contrapor à validade jurídica desse projeto.

O sr. avaliou as dez medidas?

Esse projeto é contrário a todo o espírito, todo o sentido do documento.
 
THAIS BILENKY
Folha de São Paulo
 

É preciso coragem para ser autêntico. Mas só assim evitamos a mediocridade de uma vida guiada pela opinião alheia

Tantos saltos e paetês, e ela ali de rasteirinha, jeans e camiseta branca estampada com a face do John Lennon. O pé não doía, a consciência também não. Era a vantagem de ser a expressão límpida de si mesma, era o bônus por reproduzir na roupa, no jeito e na forma a autêntica versão de suas escolhas. Haveria olhares tortos e murmúrios de recriminação. Mas o incômodo de ser tachada de peixe fora d’água era engolido pela enxurrada de liberdade que lava a alma dos que preferem a contramão da obviedade. Tantas cenas forçadas, encenações tolas. E ela ali, protagonista da própria festa, alheia a teatros e enredos falsos.

Há, ao redor dos que destoam da manada, muros erguidos com julgamentos rígidos. É preciso acionar as asas para burlar as cercas e alçar voo. Negar a imposição do que não convém, rasgar o manual antiquado que dita regras que limitam e idiotizam. Não existe maior martírio que anular vontades em nome do apreço externo. Quanta tolice em quebrar-se por dentro para satisfazer expectativas dos que não colarão depois os cacos do estrago interno. Há que andar na linha vez ou outra, render-se às convenções sociais que permitem alguma ordem no caos. Mas há, sobretudo, que resgatar a coragem de ser original em meio a tanta produção em série. Reinventar-se como arte blindada à descaracterização que domina os tempos atuais. Na veracidade dos gestos e gostos estrutura-se a imagem de quem não se sujeita a ser personagem piegas de folhetins forjados.

É hora de passar o batom vermelho para ir à missa, escolher o curso que a família considera absurdo, propor ao chefe o caminho alternativo ao modelo de 1995. Pode ir à praia na chuva, comer salada em fast food, se divorciar aos 25 e recomeçar aos 60. Pode nunca ter filhos, não gostar de chocolate, ter cabelo bem curtinho, recusar a proposta irrecusável. Pode falar “não”, falar palavrão, ser gótica em família religiosa e “patty” em festival hippie. É hora de reverter a tradição em prol da sobrevivência da espontaneidade na guerra contra padrões. Por que escolher ser partitura de uma nota só com tanto samba bom? Não há razão para ser filme preto e branco com toda a paleta de cores que o mundo coloca à disposição.

A inadequação gera medo. É desconforto certo parecer carta fora do baralho. Mas haveria maior drama que enxergar no espelho o oposto do que se sonhou ser? Quão triste é o reflexo que possui em si a agonia de uma vida inventada sobre a falta de coragem de ser diferente! No fim do trajeto só sobra o que é de verdade. Na pista da festa, a melhor dança é a de quem carrega no corpo e na mente a autenticidade dos passos. Talvez, das caixas de som, enquanto tira a sandália rasteira e agora rodopia descalça, ela ouça, em consonância com seus movimentos, o clássico que se sagrou como trilha dos que bancam o peso (e a leveza) de serem quem são. “I am what I am — Por que não tentar ver as coisas de um outro ângulo? Sua vida é uma fraude até que você consiga gritar alto: ‘eu sou o que eu sou’.”


Versículos do dia

Tu és o meu refúgio e o meu escudo; espero na tua palavra. Salmos 119:114

Porque para isto trabalhamos e somos injuriados, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis. 1 Timóteo 4:10

Você acha que o tempo está passando rápido demais? Ciência explica a razão

Você piscou e pronto: já tem panetone no mercado e árvores de natal para todo lado. Mais uma piscada e... o ano novo já passou e agora chegou a vez dos ovos de páscoa. Mas o que está acontecendo? Por que o tempo está voando?

Diversos estudos já tentaram descobrir o que causa a sensação do tempo passar mais rápido do que antes. A maior parte deles afirma que tudo está relacionado com a idade: quanto mais velho você fica, maior a impressão de que o tempo voa.

Por que o tempo passa rápido?

De acordo com uma pesquisa da Universidade de Munique, a idade interfere, ainda que levemente, na percepção do tempo. Mas outros fatores também influenciam, como o aumento das responsabilidades familiares e das atividades profissionais, além do estresse do dia a dia.

Quanto mais coisas acontecem na vida, maior a sensação de velocidade e da falta de tempo para realizar as tarefas. Essa impressão está diretamente ligada aos comportamentos relacionados à idade, ao contexto social e às influências culturais.

O estudo analisou pessoas entre 14 e 94 anos e questionou o quão rápido o tempo passava para elas, o quão rápido elas esperavam que a próxima hora passasse e o quão rápido os últimos 10 anos se passaram, e percebeu que com a idade avançada, as pessoas prestam menos atenção no tempo.

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As perspectivas de tempo (concepção de passado, presente e futuro), a estimativa de tempo (habilidades de mensurar o tempo do relógio) e a noção de tempo (impressão do tempo passar rápido ou devagar) mudam ao longo da vida.
Por isso, os que já completaram entre 20 e 59 anos são os que mais falam sobre a velocidade do tempo e têm mais tendência a achar que a vida está passando rápido demais. Depois dessa idade, a sensação dá uma trégua, justamente porque o estilo de vida e a forma de enxergar os acontecimentos mudam.

Isso também acontece porque a dopamina, um hormônio que estimula a mensuração do tempo, também diminui com a idade. Por volta dos 20 anos, o nível cai, o que faz com que o tempo pareça passar mais rápido.

Mas é importante frisar: cada cérebro constrói uma experiência subjetiva da passagem do tempo. É o chamado “efeito de dilatação do tempo”, termo que foi estudado em uma pesquisa da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Este estudo realizou vários testes com voluntários e descobriu que cada pessoa tem sua forma de perceber o tempo, mas que quanto mais velho você fica, maior a tendência em achar que nunca há tempo suficiente para você fazer suas coisas.
 Escrito por  Patrícia Beloni

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Preso por roubar galinhas sonha com anistia

Doze galinhas e cinco anos de prisão. Desempregado, o auxiliar de serviços gerais F., de 22 anos, resolveu roubar galinhas de um sítio vizinho para comer e, quem sabe, ter alguns ovos. Preso em flagrante por furto, acabou condenado a cinco anos de prisão. “O caso dele não se enquadrou em roubo para subsistência porque ele não pegou uma galinha só, roubou uma dúzia. Então a Justiça foi implacável”, explicou o defensor público que atuou no caso.

Mas hoje F. renovou suas esperanças. Ao saber pelos colegas que os deputados estão se mobilizando para aprovar a anistia do Caixa Dois, ele começou a acreditar que seu caso poderá ser revisto. “Ele é um bobo, acredita em qualquer coisa. A gente sabe que político nunca faz nada por nós mesmo”, disse a mãe de F, que o visita toda semana na cadeia onde ele cumpre pena.

A mãe está revoltada com a situação do filho: “Eu já disse a ele que o negócio é roubar muito. Se você rouba pouco, você vai preso. Só que ele entendeu que muito era levar 12 galinhas”.

Por Vários Motivos Principais

Durante uma recepção elegante, a flor dos Ponte Pretas estava a mastigar o excelente jantar, quando uma senhora que me fora apresentada pouco antes disse que adorou meus livros e que está ávida de ler o próximo.

— Como vai se chamar?

Fiquei meio chateado de revelar o nome do próximo livro. Ela podia me interpretar mal. Como ela insistisse, porém, eu disse:

— "Vaca Porém Honesta." (*)

Madame deu um sorriso amarelo mas acabou concordando que o nome era muito engraçado, muito original. Depois — confessando-se sempre leitora implacável, dessas que sabem até de cor o que a gente escreve —, madame pediu para que não deixássemos de incluir aquela crônica do afogado.

— Qual? — perguntei.

— Aquela do camarada que ia se afogando, aí os carros foram parando na praia de Botafogo para ver se salvavam o homem. Depois um carro bateu no outro, houve confusão e até hoje ninguém sabe se o afogado morreu ou salvou-se. Lembra-se? Aquela é uma de suas melhores crônicas.

Foi então que eu contei pra ela o caso do colecionador de partituras famosas, que um dia foi a um editor de música procurando o original de certa sonata que fora composta por Haydn e Schumann juntos. O editor ficou olhando para ele e o colecionador esclareceu: - Sei que essa partitura é raríssima, mas eu pagaria qualquer preço por ela.


— Vai ser um pouco difícil — disse o editor — conseguir uma partitura composta por Haydn e Schumann juntos, por vários motivos. Primeiro: quando Schumann nasceu, Haydn tinha morrido no ano anterior.

A leitora que se lembra de tudo que eu escrevi estranhou e perguntou:

— Por que me contou essa história?

— Porque lembra a história que estamos vivendo agora. A crônica sobre o afogado que a senhora diz ser uma das minhas melhores crônicas... quem escreveu foi Fernando Sabino.

Ela achou engraçadíssimo. Papai agrada em festa.

(*) O título, mais tarde, foi trocado, porque a vaca protestou.

Stanislaw Ponte Preta  

Texto extraído do livro "O melhor da crônica brasileira", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1997, pág. 88.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Hora do lanche

Cachorro quente

Conto de natal

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria...

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí...

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui...

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí...

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não...

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher...

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus...

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê...

— Uai! Péra aí...

O menino Jesus Cristo estava morto.

Rubem Braga  

Texto extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza - Rio de Janeiro, 1964, pág. 39.

Muito cedo para decidir

Gandhi se casou menino. Foi casado menino. O contrato, foram os grandes que assinaram. Os dois nem sabiam direito o que estava acontecendo, ainda não haviam completado 10 anos de idade, estavam interessados em brincar. Ninguém era culpado: todo mundo estava sendo levado de roldão pelas engrenagens dessa máquina chamada sociedade, que tudo ignora sobre a felicidade e vai moendo as pessoas nos seus dentes. Os dois passaram o resto da vida se arrastando, pesos enormes, cada um fazendo a infelicidade do outro.

Vocês dirão que felizmente esse costume nunca existiu entre nós: obrigar crianças que nada sabem a entrar por caminhos nos quais terão de andar pelo resto da vida é coisa muito cruel e... burra! Além disso já existe entre nós remédio para casamento que não dá certo.


Antigamente, quando se queria dizer que uma decisão não era grave e podia ser desfeita, dizia-se: "isso não é casamento!". Naquele tempo, sim, casamento era decisão irremediável, para sempre, até que a morte os separasse, eterna comunhão de bens e comunhão de males. Mas agora os casamentos fazem-se e desfazem-se até mesmo contra a vontade do Papa, e os dois ficam livres para começar tudo de novo...


Pois dentro de poucos dias vai acontecer com nossos adolescentes coisa igual ou pior do que aconteceu com o Gandhi e a mulher dele, e ninguém se horroriza, ninguém grita, os pais até ajudam, concordam, empurram, fazem pressão, o filho não quer tomar a decisão, refuga, está com medo. "Tomar uma decisão para o resto da minha vida, meu pai! Não posso agora!" e o pai e a mãe perdem o sono, pensando que há algo errado com o menino ou a menina, e invocam o auxílio de psicólogos para ajudar...


Está chegando para muitos o momento terrível do vestibular, quando vão ser obrigados por uma máquina, do mesmo jeito como o foram Gandhi e Casturbai (era esse o nome da menina), a escrever num espaço em branco o nome da profissão que vão ter.


Do mesmo jeito não: a situação é muito mais grave. Porque casar e descasar são coisas que se resolvem rápido. Às vezes, antes de se descasar de uma ou de um, a pessoa já está com uma outra ou um outro. Mas, com a profissão não tem jeito de fazer assim. Pra casar, basta amar.


Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer.


A dor que os adolescentes enfrentam agora é que, na verdade, eles não têm condições de saber o que é que eles amam. Mas a máquina os obriga a tomar uma decisão para o resto da vida, mesmo sem saber.


Saber que a gente gosta disso e gosta daquilo é fácil. O difícil é saber qual, dentre todas, é aquela de que a gente gosta supremamente. Pois, por causa dela, todas as outras terão de ser abandonadas. A isso que se dá o nome de "vocação"; que vem do latim, vocare, que quer dizer "chamar". É um chamado, que vem de dentro da gente, o sentimento de que existe alguma coisa bela, bonita e verdadeira à qual a gente deseja entregar a vida.


Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois, no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total á sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.


Se você disser que a decisão não é tão séria assim , que o que está em jogo é só o aprendizado de um ofício para se ganhar a vida e, possivelmente, ficar rico, eu posso até dizer: "Tudo bem! Só que fico com dó de você! Pois não existe coisa mais chata que trabalhar só para ganhar dinheiro."


É o mesmo que dizer que, no casamento, amar não importa. Que o que importa é se o marido — ou a mulher — é rico. Imagine-se agora, nessa situação: você é casado ou casada, não gosta do marido ou da mulher, mas é obrigado a, diariamente, fazer carinho, agradar e fazer amor. Pode existir coisa mais terrível que isso? Pois é a isso que está obrigada uma pessoa, casada com uma profissão sem gostar dela. A situação é mais terrível que no casamento, pois no casamento sempre existe o recurso de umas infidelidades marginais. Mas o profissional, pobrezinho, gozará do seu direito de infidelidade com que outra profissão?

Não fique muito feliz se o seu filho já tem ideias claras sobre o assunto. Isso não é sinal de superioridade. Significa, apenas, que na mesa dele há um prato só. Se ele só tem nabos cozidos para comer, é claro que a decisão já está feita: comerá nabos cozidos e engordará com eles. A dor e a indecisão vêm quando há muitos pratos sobre a mesa e só se pode escolher um.


Um conselho aos pais e aos adolescentes: não levem muito a sério esse ato de colocar a profissão naquele lugar terrível. Aceitem que é muito cedo para uma decisão tão grave. Considerem que é possível que vocês, daqui a um ou dois anos, mudem de ideia. Eu mudei de ideia várias vezes, o que me fez muito bem. Se for necessário, comecem de novo. Não há pressa. Que diferença faz receber o diploma um ano antes ou um ano depois?


Em tudo isso o que causa a maior ansiedade não é nada sério: é aquela sensação boba que domina pais e filhos de que a vida é uma corrida e que é preciso sair correndo na frente para ganhar. Dá uma aflição danada ver os outros começando a corrida, enquanto a gente fica para trás.


Mas a vida não é uma corrida em linha reta. Quando se começa a correr na direção errada, quanto mais rápido for o corredor, mais longe ele ficará do ponto de chegada. Lembrem-se daquele maravilhoso aforismo de T. S. Eliot: "Num país de fugitivos os que andam na direção contrária parecem estar fugindo."

Assim, Raquel, não se aflija. A vida é uma ciranda com muitos começos.


Coloque lá a profissão que você julgar a mais de acordo com o seu coração, sabendo que nada é definitivo. Nem o casamento. Nem a profissão. E nem a própria vida...

 Rubem Alves


O escritor  responde a uma estudante angustiada e dá aos pais motivos para meditarem sobre a escolha da profissão.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"Pracas"







Mia Couto


Falta d'água

Numa noite de sexta-feira, véspera de um fim de semana prolongado, os moradores do Edifício Copan que tinham um emprego do qual voltar encontraram um aviso do síndico colado nas portas dos elevadores. As cópias xerox de um bilhete escrito à mão diziam:

Prezados senhores condôminos. Lamento informar que a bomba d’água quebrou e que ficaremos sem água por um período de 72 a 96 horas. Sem mais para o momento, Peixoto.

Quem estava de viagem marcada para passar o feriadão fora não conseguiu evitar um sentimento de desdém pelos pobretões que iam ter que enfrentar a estiagem em São Paulo. “Quando voltarmos, o problema já terá sido resolvido”, avaliaram, deixando para trás um edifício que torrava num verão de 35 graus.

Fora uns dois milhares de viajantes, sobraram cinco mil moradores que passaram a representar corajosamente o papel de bombas d’água humanas para manter seus lares irrigados. Pelo menos podiam contar com a água das torneiras da garagem!

E lá foram eles dentro dos elevadores, num contínuo sobe-e-desce, bombeando água entre o trigésimo segundo andar e o segundo subsolo, carregando baldes, panelas, caldeirões, garrafas de Coca litro, regadores, moringas e tudo quanto pudesse comportar água, inclusive latas grandes que um dia contiveram tinta. Se houve um jardim constantemente regado naquele feriado, esse jardim foi o piso dos elevadores.

A garagem, antes fria, árida e obscura, agora abrigava alguma vida social que começava a germinar em volta das torneiras. Vizinhos que mal se olhavam passaram a trocar umas palavrinhas durante o abastecimento de um balde ou de um galão. Mocinhas namoradeiras aprenderam a hora em que seus eleitos estariam na frente das torneiras e, maquiadas para festa, iam buscar água em traje de passeio. Algumas compraram baldes novos, envergonhadas com a exposição de seus utensílios gastos pelo uso. Outras combinaram as vestimentas com as cores dos baldes.

Moleques de rua que vadiavam pela vizinhança encontraram um novo jeito de ganhar uns trocos. Encarapitados nos corrimões da garagem, ofereciam seus serviços a senhoras de meia-idade. “Vai uma ajuda aí, tia?”. Elas aceitavam, deixando-os sacudir desajeitados os baldes que iam derramando água pelo caminho de seus apartamentos.

Quantas receitas de doces e salgados não foram trocadas na fila de espera para um banho de chuveiro à porta do banheiro malcheiroso da garagem! Houve uma tarde em que até uma equipe de televisão apareceu lá para fazer uma reportagem.

Jovens mães acharam mais prático descer suas trouxas de roupa suja e instalar-se diante de uma torneira para esfregar shorts e fraldas à vontade. Ao lado delas, senhores solitários tentavam recuperar a cor branca de punhos e colarinhos de camisas puídas. Donas de casa caprichosas areavam bules e frigideiras, acompanhadas pelas filhas pequenas que, só de calcinha, chapinhavam nas poças brincando de piscina.

Limpas as roupas e fulgurantes as panelas, gente, baldes e bacias amontoavam-se dentro dos incansáveis elevadores para subir o arquitetônico morro de concreto.

Terminado o feriadão, voltaram de viagem os dois mil moradores de melhor sorte. À porta dos elevadores, encontraram um aviso:

Senhores condôminos. Devido a problemas com a nova bomba d’água, lamento informar que ficaremos sem água por mais 96 horas. Faz-se necessário dizer que todos os esforços estão sendo envidados no sentido de superarmos este difícil momento do Edifício Copan. Peixoto.

— É um abuso! — rosnava a cartomante do 21-E. — O abastecimento de água pode atrasar, mas se o pagamento do condomínio atrasar, lá vem multa!

— A administração não presta! — desabafava a bicha cinqüentona do 32-E, abraçada ao seu pequeno cantil recém-abastecido. — Como é que nós não temos uma porra de uma bomba sobressalente?

— Temos que chamar esse síndico no saco! — conclamou a cartomante, desembarcando no seu andar uma cesta de lençóis torcidos.

Naquela noite, cerca de cem moradores reuniram-se na garagem para exigir do síndico uma satisfação. Cem não era um número representativo dos sete mil moradores do prédio, mas isso era um detalhe irrelevante face à emergência. Maria, a louca do 20-E que andava vestida de santa, contribuía para a manifestação com a voz fanhosa do seu megafone:

— Que a Virgem Maria faça correr água benta nos canos do Edifício Copan!

O síndico era criatura de muita sensibilidade e pouca firmeza. Em alguns meses de mandato percebera que não tinha vocação para prefeito de uma cidade vertical cheia de contrastes e problemas. Já tivera que aumentar a taxa do condomínio quatro vezes por conta de reformas hidráulicas, elétricas e mecânicas, e quanto mais consertava o prédio mais estrago aparecia.

Chegou à assembléia uma hora e meia atrasado, quando a reunião se reduzia a cinqüenta e dois gatos pingados mais a Maria que era sempre a última a abandonar eventos de qualquer natureza. Justificou o atraso, deu razão aos condôminos, pediu perdão pelo transtorno, creditou o problema da bomba d’água à administração anterior, ressaltou seu empenho em normalizar a situação e anunciou sua renúncia para o início do mês seguinte. Quem quisesse que administrasse aquele abacaxi.

— Frescura de boneca — cochichou a cartomante a uma vizinha. — Diz que vai renunciar só para ver se a gente grita “Fica! Fica!”.

A notícia da renúncia do síndico deu aos moradores a impressão de que a situação melhorava e que em algum ponto do universo uma entidade justiceira trabalhava para vingá-los.

Ao fim de outros quatro dias, quase todos os elevadores tinham pifado devido ao excesso de uso. Pelo mesmo motivo, as torneiras da garagem também não funcionavam mais, e foram amarradas com tiras de pano e elásticos.

Então a bomba d’água começou a funcionar, injetando fluido vital nas veias do edifício. Revigorados, os moradores lavaram seus pisos, suas coisas, seus corpos e suas almas. O líquido amenizou a aspereza daquelas existências e serviu como emoliente dos corações endurecidos pelo desconforto. Os ânimos se acalmaram, até que veio a conta do condomínio do mês. Junto, uma mensagem datilografada do síndico:

Senhores condôminos. Lamento informar que devido à aquisição de duas bombas d’água, ao reparo dos elevadores e à troca das torneiras da garagem, a taxa do condomínio subiu 80%. Cordialmente, Peixoto.

Regina Rheda