Uma ex-mulher é para sempre. (João Fernando Camargo)
· A única coisa necessária é o supérfluo. (Oscar Wilde)
· Amor e tosse não dá para esconder. (Provérbio romano)
· Quem decide pode errar. Quem não decide já errou. (Herbert Von Karajan)
· Não compro bilhetes. Já ganhei na loteria quando nasci. (Roberto Irineu Marinho)
· Eu sei que quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.
(Guimarães Rosa)
· O sexo é a fonte da vida, mas que deixa a gente morto, deixa. (Sérgio Maldonado)
· A lesma é lenta. Ainda bem. Já pensou se esse bicho nojento corresse? (Sérgio
Maldonado)
· A meleca é a melhor amiga do motorista solitário. (João Empolgação)
· O único homem que não pode viver sem mulheres é o ginecologista. (Arthur
Schopenhauer)
· Eu vejo catástrofes. Pior: eu vejo advogados. (Woody Allen)
· Conheci várias mulheres melhores que um PC, mas nenhuma melhor que um Mac. (Guime
Davidson)
· Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Ele pode responder. (Justine
Espírito Santo)
· Não dá para acreditar num país que comprou o Acre. (Eugênio Mohallen)
· Só porque você vai para jantar com alguém, não quer dizer que tem que ser a
sobremesa.
(Dora Bria)
· Diplomata é um indivíduo cuja cor predileta é o arco-íris. (Millôr Fernandes)
· Não me lembro do que ele morreu. Só me lembro que não era nada sério. (Carlos
Leonam)
· Quem gosta de pau duro é viado; mulher gosta é de cheque. (Neil Ferreira)
· Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. (Guimarães Rosa)
· A única coisa do planejamento é que as coisas nunca ocorrem como foram planejadas.
(Lúcio Costa)
· A mentira é uma verdade que se esquece de acontecer. (Mário Quintana)
· Maior que o impulso sexual é o impulso de mexer no texto alheio. (Claudius Ceccon)
· A bicicleta ergométrica é uma viagem sem ida. (Casseta & Planeta)
· É impossível ser ridículo dentro de um Mercedes. (Nelson Rodrigues)
· A lei é como uma cerca — quando é forte a gente passa por baixo; quando é fraca
a gente passa
por cima. (Coronel Chico Heráclito)
· Brincar é condição fundamental para ser sério. (Arquimedes)
· A gente só diz sim ou não no casamento e, ainda assim, às vezes erra. (Itamar
Franco)
· A bomba atômica é o Viagra dos energúmenos. (Alfredo Sirkis)
· Hippie é alguém que parece o Tarzan, caminha como a Jane e cheira como a Chita.
(Ronald Reagan)
· Não interessa se o remédio é ou não farinha, o que cura é a bula. (Luis Fernando
Veríssimo)
· Gostaria de criar home pages, mas não sei o que elas comem. (Anônimo da Internet)
· Se não fosse o Van Gogh, o que seria do amarelo? (Mário Quintana)
· Criar filho é como jogar videogame: a fase seguinte é sempre mais difícil. (Silvio
A. D. da Silva)
· Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. (José Saramago)
· Pessoalmente nada sei sobre sexo. Sempre fui uma mulher casada. (Zsa Zsa Gabor)
· Há pessoas tão chatas que nos fazem perder um dia em cinco minutos. (Jules Renard)
· Quem não se ocupa, se preocupa. (Otto Lara Resende)
· Salve as baleias, destrua um spa. (Gisela Rao)
Roberto Dualibi
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Saudade
Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré
Ventania
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assoviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
Soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Con-he-ceu papudo?
(1926)
Pedro da Silva Nava
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assoviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
Soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Con-he-ceu papudo?
(1926)
Pedro da Silva Nava
Balanço
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que
proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não
falarei do desamparo que finamente aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento
peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo,
sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que
nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de
abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria. Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria. Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Otto Lara Resende
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Pitno de Monteiro X Lourival Batista
O poeta repentista Pinto de Monteiro era conhecido pela sua inteligência e sagacidade de seus versos. Ao longo de sua vida cantou com várias outros poetas, especialmente João Furiba e Lourival Batista. Certa feita, em uma cantoria, se vendo atacado por Lourival, Pintou improvisou:
Eu andando certo dia
Nas terras do Seridó
Tive o prazer de almoçar
Na fazenda de Codó
Comi até me fartar
da Traíra o mocotó
Ora, Lourival sabendo que Traíra é um peixe, rebateu:
Houve muitos pescadores
de Adão até Jacó
de Jacó até Moisés
de Moisés a Faraó
Mas nunca houve quem visse
Traíra com mocotó
Pinto devolveu:
Era uma vaca cotó
da Fazenda Passira
Mataram e eu como dela
A qual chamavam Traíra
Agora você me diga
Se é verdade ou mentira.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Vivas àqueles que sempre levaram a pior” – Fragmentos de Walt Whitman
Considerado o “Pai dos Versos Livres”, Walt Whitman, poeta americano
do século XIX. Apesar de sua importância para a poesia mundial, não é
tão conhecido do grande público, pelo menos em no Brasil, onde não se
tem a cultura de consumir poesia.
Walt Whitman, libertou o verso dos duros deveres da métrica;
convencionais como os aparatosos cerimoniais das cortes do Velho
Mundo. Whitman, a rigor o primeiro poeta a fazer versos livres, é o libertarismo da jovem república, fronteira aberta a oeste, projetado em plano formal.
Quem viu o filme Sociedade dos Poetas Mortos, viu que a
poesia de Walt Whitman é o ponto principal para que o professor
interpretado por Robin Willians explique para seus alunos que a poesia é
sublime, não precisando seguir regras ortodoxas para ser apreciada ou
escrita.
Ouvem-se, por trás das tempestades verbais de Walt Whitman, alguns
raios e relâmpagos dos sermões de igreja. A mãe de Whitman era uma
“Quaker”. E transmitiu-lhe a fé, tipicamente “Quaker”, na luz
interior. Sem entender a fé “Quaker”, não se entende Walt Whitman.
A seita, fundada pelo inglês George Fox (1624-1691) caracterizou-se
pela recusa radical a toda liturgia religiosa e sacerdócio, confiando
apenas na presença do Espírito Santo na consciência individual. Na
inspiração. Além ou contra as autoridades.
Muito forte a autoridade do movimento “Quaker”, na formação dos
Estados Unidos, nos séculos XVII e XVIII. Tão forte, talvez, quanto a
influência, sobre a poesia moderna, do primeiro grande poeta da
Revolução Industrial. Essa influência se estende por caminhos
desconcertantes. Mas todos indo dar na estrada da melhor poesia do
Século XX.
Por Portal Raízes
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Um solitário à espreita
Às
duas da manhã do primeiro dia do ano escutei num bar a conversa
de um casal. Não fui indiscreto: o par falava alto, era um papo para
ser ouvido. E olha que chovia uma chuva de canivete, com relâmpagos
e trovoadas. Pesquei a conversa no meio.
“Não
consulto oráculo nem sou cartomante”, ela riu. “Aliás, quem pode ser
adivinha...”
“Adivinha o quê?”, ele perguntou.
“Não te
pedi para adivinhar nada. Eu disse que não era uma adivinha.”
“Ah!”
“Só
espero que os prefeitos eleitos enterrem a praga nacional”, ela
disse.
“Qual
praga?”
“O
superfaturamento.”
“Das
obras?”
“De tudo, até da merenda escolar. São
capazes de super-faturar até a sopa para mendigos e desabrigados.”
“Mas
alguns políticos fazem isso”, ele disse.
“A sopa?
Superfaturamento da sopa? Como?”
“O
macarrão e a carne da sopa podem ser superfaturados. O óleo do
tempero e até o tempero...”
“Que
coisa horrorosa”, ela disse.
“O
problema não é a corrupção, que existe em todos os continentes.
Nosso problema é a...”
Relâmpagos com trovoadas.
“Não
ouvi o que você disse”, ela disse.
Uma trovoada mais forte interrompeu a
conversa. Os dois ficaram em silêncio, e eu, que já estava calado,
fiquei curioso para ouvir mais. Nós três esperamos o fim dos
trovões. Um homem tropeçou, derrubou uma cadeira e deu uma risada.
“Nosso
problema é a impunidade”, ele prosseguiu. “O judiciário... Uma parte
do judiciário é cúmplice de tudo isso. Os procuradores, a Polícia
Federal e alguns juízes são confiáveis, mas eles não podem tudo.”
“E
nós?”, ela perguntou.
“Nós?
Nós pagamos impostos. Somos cordeiros resignados no meio de milhões
de cordeiros sacrificados.”
“Mas você acha que é possível diminuir
a bandalheira? Por exemplo, uma redução de trinta por cento...
Seriam bilhões de reais investidos em habitação popular, hospitais.”
“Trinta por cento? Se a corrupção
diminuir tanto, o Brasil cresce oito por cento ao ano. Mas não sou
otimista: trinta por cento é a comissão das negociatas. Já foi dez,
passou para vinte, agora dizem que é trinta. Quando chegar a
cinquenta, será uma catástrofe...”
“Por isso meu avô apoiava os
militares.”
“Teu avô acreditava que o governo
militar era duro, mas honesto. E olha no que deu.”
“Acho que aquele sujeito bebeu muito”,
ela disse. “Vai mexer conosco. Vamos mudar de mesa? Aquela ali no
canto, perto do balcão...”
“Além disso, teu avô idolatrava a
censura. Ele dizia: ‘Mais vale um soneto de Camões ou uma receita de
bacalhau do que notícias subversivas’.”
“Coitado do vovô!”
“Coitado do país, isso sim.”
“Ele
gostava de você”, ela disse.
“Nem tanto”, ele protestou. “Uma vez
me ameaçou porque eu usava barba. Me chamou de terrorista. Você não
lembra?”
“Claro que lembro. E você disse na
cara dele: ‘O senhor apoia a tortura’.”
“O velho era um tremendo reaça...”
“Não vamos brigar por causa dele. Era
um homem bom, cheio de princípios.”
“Casei com urna ingênua”, ele disse.
“E eu com um comunista”, ela riu.
“Agora não há mais avô nem comunismo”,
ele disse. “Há burocracia, roubo e ganância. Impostos e juros altos
para sustentar políticos e burocratas. Mais uma cerveja? Você quer
mesmo ir para aquela mesa?”
“A chuva está passando. Quero ir pra
casa. O bar está vazio, só ficou esse bêbado”, ela disse.
“E aquele cara ali, que está ouvindo a
nossa conversa.”
“Um solitário”, ela disse.
“Um solitário... Mas por que você está
olhando para ele?”
“Não posso olhar para um homem sozinho
nas primeiras horas do Ano-Novo? Você está com ciúme?”
“Não. Não sei. Mas se você olhar
muito...”
“Queria saber o que ele pensa sobre a
corrupção.”
Os dois me olharam e eu olhei os pés
do bêbado. Na verdade, era um mendigo que se protegia da chuva.
Batia palmas e pedia uns trocados.
“Quem esse bêbado está aplaudindo?”,
ela perguntou.
“Nós”, ele disse. “Nossa conversa
sobre corrupção e impunidade. O impasse do Brasil.”
Ela se levantou: queria ir embora.
“Porque a gente fala, protesta e fica
indignado, mas só os bêbados escutam”, ele prosseguiu, deixando uma
cédula na mesa.
“Aquele cara escutou nossa conversa”,
disse a mulher
“Mas o que ele pode fazer? Nada. Vai
ver que é mais um bêbado solitário.”
“Será?”, ela perguntou, olhando para
mim e depois para as mãos do mendigo.
Milton Hatoum
Frase
Voto com a minha consciência e sem medo do julgamento
que farão sobre minha conduta, porque acho que não há golpe e este
Senado não é quartel.
Senador Cristovam Buarque, PDT-DF
domingo, 7 de agosto de 2016
Olimpíada 2016
Ah, Marta é melhor que Neymar, Marta é melhor que Neymar.
Coro da torcida depois que a seleção feminina de futebol derrotou a da Suécia por 5 x 1
Erótica é a Alma
Adélia Prado certa vez escreveu:
“Erótica é a alma”. Além de poética, a frase é redentora, pois alivia o
peso da sensualidade a qualquer custo, a busca desenfreada pela
juventude perdida, a corrida pelos últimos lançamentos da indústria
cosmética.E nos autoriza a cuidar mais da alma, a viajar pro interior, a
descobrir o que nos completa. Pois se os olhos são as janelas da alma,
de que adianta levantar pálpebras se descortinam um olho de súplica?
Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e
faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade para ser
sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica
é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom
humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima
dos lábios; erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se
culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita as suas dores,
atravessa seu deserto e ama sem pudores.
Por que não adianta sex shop sem sex appeal; bisturi por fora sem
plástica por dentro; lifting, botox, laser e preenchimento facial sem
cuidado com aquilo que pensa, processa e fala; retoque de raiz sem
reforma de pensamento; striptease sem ousadia ou espontaneidade.
Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a
coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar
gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é
que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o
erotismo dos trinta anos.
O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a
mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as
janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer
o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para
suportar.
Não tem problema cuidar do corpo. É primordial ter saúde e faz bem
dar um agrado à autoestima. O perigo é ficar refém do espelho, obcecado
pelo bisturi, viciado em esticar, reduzir, acrescentar, modelar – até
plástica intima andam fazendo!
Aprenda: bisturi nenhum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.
Cuide do interior. Erotize a alma. Enriqueça seu tempo com uma nova
receita culinária, boas conversas, um curso de canto ou dança. Leia,
medite, cultive um jardim. Sinta o sol no rosto e por um instante não se
preocupe com o envelhecimento cutâneo. Alongue-se, experimente o prazer
que seu corpo ainda pode lhe proporcionar. Não se ressinta das novas
dores, da pouca agilidade, dos novos vincos. Descubra enfim que a
alegria pode rejuvenescer mais que o botox.
E não se esqueça: em vez de se concentrar no lustre da maçã, trate de aproveitar o sabor que ela ainda é capaz de proporcionar…
Adélia Prado
“Use a porta do lado”
Tem um nível de exigência absurdo em relação à vida, que queremos que
absolutamente tudo dê certo, e que, às vezes, por aborrecimentos
mínimos, somos capazes de passar um dia inteiro de cara amarrada. Um
exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente…
É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping).
Em vez de simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e
tratar da sua vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta
do seu dia.
Eu acho que esta história de dois carros alinhados, impedindo a
abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de
algumas pessoas melhor, e de outras, pior. Tem gente que tem a vida
muito parecida com a de seus amigos, mas não entende por que eles
parecem ser tão mais felizes.
Será que nada dá errado pra eles? Dá aos montes. Só que, para
eles, entrar pela porta do lado, uma vez ou outra, não faz a menor
diferença. O que não falta neste mundo é gente que se acha o último
biscoito do pacote.
Que “audácia” contrariá-los!
São aqueles que nunca ouviram falar em saídas de emergência: fincam o
pé, compram briga e não deixam barato. Alguém aí falou em complexo de
perseguição? Justamente. O mundo versus eles.
Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também. É
incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema
solúvel. E como esse, a maioria dos nossos problemões podem ser
resolvidos assim, rapidinho.
Basta um telefonema, um e-mail, um pedido de desculpas, um deixar barato. Eu
ando deixando de graça… Pra ser sincero, vinte e quatro horas têm sido
pouco pra tudo o que eu tenho que fazer, então não vou perder ainda mais
tempo ficando mal-humorado.
Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e gente idem; pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então
eu uso a “porta do lado” e vou tratar do que é importante de fato. “Eis
a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do bom-humor, a
razão por que parece que tão pouca coisa na vida dos outros dá errado”.
Quando os desacertos da vida ameaçarem o seu bom humor, não estrague o seu dia, use a porta do lado e mantenha a sua harmonia.
Lembre-se, o humor é contagiante – para o bem e para o mal
– portanto, sorria, e contagie todos ao seu redor com a sua alegria. A
“Porta do lado” pode ser uma boa entrada ou uma boa saída… Experimente!
Drauzio Varella
Texto atribuído ao doutor Drauzio Varella – Extraído da entrevista concedida ao programa Roda Vida em 25/04/2011
Portal Raízes
O cara pede uma salada em um restaurante e quando vai comer, vê uma mosca no tomate. Imediatamente, ele chama o garçom:
- Garçom! Olha só o tamanho desta mosca pousada no meu tomate! E agora, o que eu faço?
O garçom responde:
- Fica frio... Olha só o tamanho da aranha que saiu da alface! Já já ela come a mosca!
- Garçom! Olha só o tamanho desta mosca pousada no meu tomate! E agora, o que eu faço?
O garçom responde:
- Fica frio... Olha só o tamanho da aranha que saiu da alface! Já já ela come a mosca!
sábado, 6 de agosto de 2016
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Revista Bula
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Revista Bula
Desencontros 1
Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
( o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
Mia Couto
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